Como a mídia descobriu que a Tunísia era uma ditadura
Quando eu ingressei como redator na editoria de assuntos internacionais da Folha de S.Paulo, um colega veterano me ensinou como se fazia para definir quais, entre as centenas de notícias que recebíamos diariamente, seriam merecedoras de destaque no jornal do dia seguinte. "É só olhar os telegramas das agências e ver o que elas acham mais importante", sentenciou.
Por Igor Fuser*, no Brasil de Fato
Pragmático, ele adotava esse método como um meio seguro de evitar que o noticiário da Folha destoasse dos jornais concorrentes, os quais, por sua vez, se comportavam do mesmo modo. Na realidade, portanto, quem pautava a cobertura internacional da imprensa brasileira era um restrito grupo de três agência noticiosas — Reuters, Associated Press e United Press International, todas afinadíssimas com as prioridades geopolíticas dos Estados Unidos.
Passadas mais de duas décadas, a cobertura internacional da mídia brasileira ainda se orienta por diretrizes estrangeiras. A única diferença é que agora as agências enfrentam a competição de outros fornecedores de informação, como a CNN e os serviços de empresas como a BBC e o New York Times, oferecidos pela internet. Mas o conteúdo é o mesmo. O resultado é que as informações internacionais que circulam pelo planeta, reproduzidas com mínimas variações em todos os continentes, são quase sempre aquelas que correspondem aos interesses de Washingon.
Quem confia nessa agenda está condenado uma visão parcial e distorcida, uma ignorância que só se revela quando ocorrem "surpresas" como a rebelião popular que derrubou o governo da Tunísia. De repente, o mundo tomou conhecimento de que a Tunísia — um país totalmente integrado à ordem neoliberal e um dos destinos favoritos dos turistas europeus — era governada há 23 anos por um ditador corrupto, odiado pelo seu povo. Como é que ninguém sabia disso?
A mídia silenciou sobre o despotismo na Tunísia porque se tratava de um regime servil aos interesses políticos e econômicos dos EUA. O ditador Ben Ali nunca foi repreendido por violações aos direitos humanos e, mesmo quando ordenou que suas forças repressivas abrissem fogo contra manifestantes desarmados, matando dezenas de jovens, o presidente estadunidense Barack Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, permaneceram em silêncio. Não abriram a boca nem mesmo para tentar conter o massacre. Só se manifestaram depois que Ben Ali fugiu do país, como um rato, carregando na bagagem mais de uma tonelada de ouro.
O caso da Tunísia não é o único na região. No vizinho Egito, outro regime vassalo dos EUA, Hosni Mubarak governa ditatorialmente desde 1981. Suas prisões estão lotadas de opositores políticos e as eleições ocorrem em meio à fraude e à violência, o que garante ao governo quase todas as cadeiras parlamentares. Mas o que importa, para o "Ocidente", é o apoio da ditadura egípcia às posições estadunidenses no Oriente Médio, em especial sua conivência com o expansionismo israelense.
Por isso, a ausência de democracia em países como a Tunísia e o Egito nunca recebe a atenção da mídia convencional, ao contrário da condenação sistemática de regimes autoritários não-alinhados com os EUA, como o Irã e o Zimbábue. É sempre assim: dois pesos, duas medidas.
* Igor Fuser é jornalista, doutorando em Ciência Política na USP, professor na Faculdade Cásper Líbero e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato
Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O GOLPE NO EQUADOR NA VISÃO DA MÍDIA BRASILEIRA
A vagabundagem da imprensa brasileira extrapola fronteiras.
Amante da ditadura militar que torturou, mutilou e matou milhares de pessoas no Brasil, a grande mídia, que deu apoio ao golpe de 64, e que nos editoriais elogiava o governo de exceção, continua com o mesmo pensamento de antes. O golpe para a chamada "grande" imprensa no Brail, não é um problema. Desde que ele seja perpetrado pela direita contra um governo eleito pelo povo, e de esquerda.
Temos muito a aprender com a tentativa de golpe no Equador. A primeira coisa é perceber que os aríetes foram meros policiais. Mas os mentores foram outros, muito mais poderosos.
Exatamente igual se pretende no Brasil. Claro que seguramente por aqui os milicos não irão para a rua reivindicar seu poder, abertamente. A mídia e os poderosos contrariados por 8 anos de governo popular são muito mais sutís. Primeiro, criam um "clima" favorável (como no Equador). Depois, mostram que somente retirando o governo eleito pelo povo ignorante, é que o país melhorará.
E a retirada não precisa se dar sequer, pela força. Ela poderá ser pacífica e apoiada mesmo pelo povo, que já terá sido previamente "conscientizado" da necessidade.
O fora Collor não nos deixa mentir.
Independente de se gostar ou não do Collor (eu não gosto), urge verificar que juridicamente falando, tudo aquilo foi um grande circo armado para ganhar apoio popular, por algo que já havia sido decidido nos bastidores. Collor havia pisado nos calos errados. E por isso, tinha que sair.
Afinal, o bicho chamado ser humano pouco se lixa para a tal democracia. Se a ditadura lhe favorecer, ele apoiará. Essa mídia fuleira que infesta nossas leituras matinais realmente não se importa com a democracia. Ela se importa com um governo que lhe garanta lucros. Para ela, e para seus amigos e clientes.
Mostra incontestável está nas manchetes de nossos diários. Praticamente nenhum chamou a tentativa de golpe contra o Presidente eleito pelo povo do Equador, de golpe.
Eram meros "protestos".
Ora, protestos vimos por aqui, esses dias, com a greve dos bancários. Protestos vemos nas passeatas pelos direitos das minorias. A tentativa de derrubada de um governo, para o Estadão, por exemplo, nada de maior significa. É só um protesto, mesmo.
A imprensa internacional chamou o ocorrido como deveria. Até mesmo os veículos conservadores.
Todo mundo disse que era golpe.
Na visão da imprensa vassala do Brasil, se fosse uma tentativa de tirar a direita do poder, se justificaria inclusive, o paredão aos golpistas. Com fuzilamento, naturalmente.
Nada além disso, importa.
Essa é a democracia brasileira, preconizada por nossas pseudo elites.
Vergonhosa.
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