Palmério Doria, no Brasil 247
“A Constituição prevê, mas não garante”
Barão de Itararé
O grande banquete dos barões da mídia já está com a mesa posta. Se
Dilma acha que a sanha dessa curriola se satisfaz com Lula está enganada.
Primeiro eles têm que minar o galho para chegar à flor
Para alguns barões da mídia, o pau-de-arara que trouxe o pernambucano
podia ter batido na Rio-Bahia. Para outros, ele devia ser pendurado no
pau-de-arara na época de Vila Euclides. Como Lula escapou até do câncer, esses
barões torcem por um raio que o parta.
Na verdade a midiazona está tomada pelo espírito de Thor, o Deus
do Trovão. Produz uma tempestade por dia. Algumas em copo de
Coca-Cola, dando ensejo a uma brincadeira que circula na internet: a imprensa
brasileira é a única que tenta derrubar um ex-presidente da República.
No fim de 2012 a coisa chegou a tal ponto, que Lula anunciou: vai
deixar a barba crescer não só para deixá-la de molho, mas para recompor a
popular imagem do sapo barbudo que pretende exibir nos palanques do país a
partir de março deste ano. Em resumo: vai sair pelo país, democratizando
a mídia com as próprias mãos.
O tempo ruge, como dizia Mendonça Falcão, e está bem mudado. Hoje
não é preciso chamar a frota americana para garantir o golpe. Basta um Supremo
Made in Paraguai e uma coorte daquilo que eles chamam formadores de
opinião batendo bumbo todo santo dia.
Para essa turma, o ideal é um líder popular incomunicável, sem
direito a voz. Algo assim como Allende sozinho num palácio sob bombardeio com
um microfone que lhe restou e um fuzil AK-47 na mão. Ou então um Getúlio acuado
num palácio com uma carta na manga, que só seria conhecida depois dele
morto.
Ou alguém imagina que os Grandes Irmãos da mídia brasileira –
Folha, Estado, Globo, Abril -- são essencialmente diferentes dos
donos do El Mercurio, Clarín, El Espectador e outros do corpo de baile
permanente da SIP – Sociedade Interamericana de Imprensa?
De longa data os meios monopolistas de comunicação tentam barrar
os avanços sociais, se possível dar marcha à ré na roda da história, como
tentaram em 1954 e conseguiram em 1964.
Em 1954, diante das medidas nacionalistas e a favor dos desvalidos
tomadas por Getúlio --- Petrobrás e o monopólio estatal do petróleo, que
irritaram as petroleiras do hemisfério norte; Volta Redonda, fundadora da nossa
indústria de base; salário mínimo dobrado de uma penada; etc.
Então, as incipientes redes, como os Diários Associados de Assis
Chateaubriand, e os principais jornais e rádios (a televisão engatinhava)
bateram bumbo contra Getúlio. Criaram o mote demolidor: mar de lama, para induzir
o povo de que Getúlio estava mergulhado na corrupção – ele que ao morrer deixou
apenas a fazendola herdada dos pais e um apartamento modesto no Rio. Carlos
Lacerda, “demolidor de presidentes” falava no rádio e na tevê, e escrevia em
seu jornal, Tribuna da Imprensa.
Em 1954, o chefe da guarda do Catete contribuiu indiretamente para
a derrocada, ao ordenar a apaniguados seus que matassem o jornalista Lacerda.
O frustrado atentado da Rua Toneleros, do qual Lacerda saiu com um
suposto ferimento no pé, levou à criação de um precursor dos Doi-Codis da
ditadura militar instaurada dez anos depois: a República do Galeão. Os acusados
e implicados, nas mãos de militares da Aeronáutica e dos policiais chefiados
por Cecil Borer, foram torturados à vontade. Não houve brutalidade que
esquecessem.
Havia uma ligação direta entre a República do Galeão e a imprensa,
através principalmente do Diário Carioca. Tão íntima, que seu editor-chefe
Pompeu de Souza ficou conhecido como “presidente da República do Galeão”.
A Tribuna da Imprensa já era íntima, pela ligação de Lacerda com
militares golpistas.
O suicídio de Getúlio provocou comoção nacional. E, no Rio de
Janeiro, imediata reação popular, com ataques a jornais antigetulistas,
embaixada dos Estados Unidos, escritórios de empresas americanas. A oposição se
desarvorou. Lacerda fugiu para Cuba – a Cuba do ditador sanguinário Fulgêncio
Batista. E 1 milhão de pessoas acompanharam o cortejo até o aeroporto, de onde
o corpo de Gegê rumaria para o enterro em São Borja, sua terra natal.
É claro que os barões ficaram furibundos com a eleição de JK e
torciam contra o marechal Lott, que garantiu sua posse e pôs para correr os
políticos udenistas. É claro que torceram pelos oficiais malucos da FAB que
tentaram golpeá-lo, sequestrando aviões, primeiro a partir de Jacareacanga, no
Pará, em fevereiro de 1956, depois de Aragarças, Goiás, em dezembro de 1959.
O líder da revolta de Jacareacanga, tenente-coronel Haroldo
Veloso, desta vez estava sob o comando de outro oficial mais
facinoroso ainda, o tenente-coronel João Paulo Moreira Burnier, aquele que na
ditadura queria explodir o gasômetro no Rio e transformar o Brasil numa
Indonésia atolada em sangue.
Dezenas de outros militares e civis estavam nessa nova aventura.
Eles pretendiam bombardear o Palácios Laranjeiras e do Catete, com
três aviões Douglas C-47 e um avião sequestrado da Panair. A revolta
ficou restrita a Aragarças e durou 40 horas. Seus líderes fugiram
nos aviões para o Paraguai, Bolívia e Argentina, só voltando no governo
Jânio. E tal como a estupidez, eles insistem sempre.
Os meios de comunicação monopolistas, a Igreja Católica, os
militares da direita formados nas academias norte-americanas, as empresas
transnacionais e o Departamento de Estado trataram de aprimorar a estratégia
para, dez anos depois do suicídio de Getúlio, enfim barrar a revolução
brasileira, com a reforma agrária, a reforma urbana, uma nova e menos rapinante
Lei de Remessas de Lucro das empresas estrangeiras aqui instaladas – medidas
com as quais acenava o presidente reformista João Goulart, afilhado político de
Getúlio.
Na segunda década do século 21, há milhões de testemunhas do que
foi 1964 vivas por aí. Os maiores de 60 anos se lembram bem.
Injeção de dólares no treinamento policial e militar; compra de
intelectuais para redigir artigos e roteiros de filmetes, o patrocínio e
financiamento de empresas de comunicação via Ibad, Instituto Brasileiro de Ação
Democrática com dinheiro da Texaco, Shell, Esso, Standard Oil, Bayer, Schering,
General Eletric, IBM, Coca-Cola, Souza Cruz, Belgo-Mineira, General Motors, a
campanha de difamação do presidente João Goulart, o Jango, que incluía até a
vida pessoal, com a sugestão de mulher adúltera, o fantasma do “comunismo”, as
“marchas da família com Deus pela liberdade, de novo Lacerda no rádio e na
televisão, e uma reta final com manchetes arrasadoras, como “Basta!”, “Fora!”,
no Correio da Manhã.
Se alguém duvidasse que toda essa imensa curriola estava a soldo e
a mando de Washington, a dúvida se dissiparia quando, pouco tempo depois, se
soube da Operação Brother Sam, uma frota se deslocando do Caribe para nosso
litoral com 100 toneladas de armas, petroleiros, porta-aviões com caças e
helicópteros, seis destróieres, encouraçado, navio de transporte de tropas e 25
aviões de transporte de material bélico, para garantir o golpe em caso de
reação.
Reação? Milhares de brasileiros de esquerda caíram presos entre a
noite de 31 de março e do dia 1 de abril e não se soube de um só caso de quem
tenha reagido.
Se Dilma acha que a sanha dessa curriola se satisfaz com Lula está
enganada. Primeiro eles têm que minar o galho para chegar à flor.
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