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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Unicamp reage à declaração de guru de Marina


Debate da Bandeirantes: Marina mostra coerência e faz veemente protesto contra quem critica as elites brasileiras; defende Neca do Itaú e elogia empresário dono da Natura, 'uma pessoa que dedicou a vida ao desenvolvimento sustentável', diz ela
 
Debate Bandeirantes: Dilma afoga Marina em evidências de que os pactos propostos pelo governo após os protestos de 2013 resultaram em ações relevantes: Mais Médicos; royalties do pré-sal à educação e saúde; investimentos em mobilidade e proposta de plebiscito para a reforma política

Debate Bandeirantes: Aécio Neves criticou a 'gestão da Petrobrás' e levou uma saraivada de Dilma: empresa vale hoje sete vezes mais do que no governo do PSDB e o pré-sal que tucanos menosprezaram já produz 540 mil barris/dia
 
Aécio critica plebiscito para a reforma política e insinua bolivarianismo; Dilma fuzila: 'é estarrecedor taxar plebiscito de bolivarianismo; então a Califórnia é bolivarianista?'

Ibope: com 29% das intenções de voto, Marina esfarela Aécio, que cai para 19%, mas fica cinco pontos abaixo de Dilma (34%) no 1º turno. No 2º turno Ibope diz que Marina ganharia 16 pontos e Dilma só dois. A ver
 
Fonte: Carta Maior


Professores da Universidade Estadual de Campinas rebatem declaração de Eduardo Giannetti, atual assessor econômico da presidenciável Marina Silva (PSB), que chamou instituição de “produto típico do regime militar” e defendeu que o ensino seja pago para os que podem arcar com as mensalidades; “o assessor liberal de Marina tem o discurso novo de um velho conhecido: o Estado mínimo”, responderam os professores 

247 – Professores da Unicamp reagiram às recentes declarações de Eduardo Giannetti, atual assessor econômico da candidata à presidência, Marina Silva (PSB) sobre a instituição.
Segundo ele, a Unicamp é um “produto típico do regime militar”. Ele se referia à formação dos economistas da Universidade Estadual de Campinas, que tenderiam a defender a regulação da economia pelo Estado.
Ele defendeu ainda que o ensino seja pago nas universidades públicas aos estudantes que podem pagar, como “os que fizeram nível médio em escola particular”.


As declarações provocaram uma reação de professores da Unicamp, que saíram em defesa da instituição.

Leia abaixo o texto:


Eduardo Giannetti e a intolerância de um liberal

Em evento organizado na última segunda-feira pela consultoria Empiricus (que vem se notabilizando pelo pessimismo militante e previsões sobre o “fim do Brasil”), o porta-voz econômico da candidatura do PSB afirmou: “A Unicamp é um produto típico do regime militar”. O professor Eduardo Giannetti é um intelectual sofisticado, filósofo e economista, assumidamente um liberal – que a princípio defende e respeita a pluralidade de pontos de vista. Nesse episódio, esteve mais próximo de gente bem menos refinada, como o blogueiro Rodrigo Constantino.

De acordo com o relato da Rede Brasil Atual, quando questionado sobre a formação dos economistas do governo, suas palavras foram: “O regime militar é culpado disso (…) um grupo que se fecha religiosamente em torno de um pensamento desconectado do mundo”.

Indo além, sacou da cartola um suposto seminário “em 1978” em que Celso Furtado teria sido desqualificado em Campinas, com suas ideias consideradas “de interesse da ‘burguesia’, enquanto a preocupação dos presentes ao encontro seria‘a luta de classes, o imperialismo’”. Como cereja do bolo, teria afirmado que “o bolchevismo não aparece em países democráticos”.

Salvo algum engano do repórter, lamentamos o tom e os termos. Mas antes de tudo não conseguimos compreender o raciocínio do especialista em ideias econômicas. A desqualificação que procura obstruir o debate vem baseada em desconhecimento da instituição que critica de forma rasteira.

Celso Furtado foi o ponto de partida das reflexões originais dos fundadores do instituto, é Doutor Honoris Causa por esta instituição e parece pouco provável que suas ideias tenham algum dia sido contestadas aqui com este nível de argumento. Nem por este lado. A propósito, falar em “bolchevismo” e recorrer a este suposto episódio levanta a dúvida sobre quem está de fato com a cabeça em décadas passadas.

A Unicamp foi um dos centros que aglutinou o pensamento crítico brasileiro durante o período militar. Assim como outros economistas hoje no campo liberal – como Edmar Bacha e Pedro Malan, por exemplo – seus professores discutiram rigorosamente o significado das opções econômicas da ditadura e denunciaram seu caráter excludente. Ao contrário de “fechamento”, o que marcou a instituição naquele período de pouca abertura para a contestação foi sempre a busca do debate público, a explicação da realidade brasileira e de seus problemas reais. E assim se manteve ao longo das décadas seguintes, em vários outros temas.

Se o conteúdo destas explicações hoje desagrada a quem não participou daquele debate, é outro problema. Discordamos de Giannetti e do discurso do “Estado que não cabe no PIB”, da privatização dos bancos públicos e da redução dos gastos sociais. Mas jamais vincularíamos suas ideias à falta de inteligência ou a motivações religiosas. Muito pelo contrário, são claros os interesses econômicos e financeiros a sustentar tais posicionamentos.

Além disso, a pluralidade política dos economistas da Unicamp desautoriza qualquer generalização ou associação direta. No instituto estudou a presidenta da República, mas também quadros que serviram a outros governos antes de 2003. São professores da casa o atual presidente do BNDES e o ministro da Casa Civil, mas também tiveram grande importância em sua história José Serra e Paulo Renato Costa Souza.

Do ponto de vista teórico, o curso de Economia, conhecido por apresentar Marx e Keynes a seus alunos, também estuda obviamente Hayek, Friedman e seus discípulos mais recentes. A existência de um eixo teórico que organiza o curso não significa bloqueio ou desconhecimento de outras abordagens.

Quem faz isso, aliás, é a maioria das escolas convencionais de economia, em atitude muito questionada nos últimos tempos. Se estar “conectado” significa este tipo de postura, agradecemos mas rejeitamos o conselho.

No final das contas, a caricatura geralmente feita dos economistas da Unicamp revela uma vontade de reinar sozinho em um debate onde só há uma alternativa, a do liberalismo econômico. E que todos que pensem diferentes sejam desqualificados. A “nova política”, no caso específico da política econômica, tem como ingrediente principal um velho conhecido: o Estado Mínimo.

Luiz Gonzaga Belluzzo
Ricardo de Medeiros Carneiro
André Biancarelli
Pedro Rossi

quinta-feira, 20 de março de 2014

Quem vai mover as turbinas do Brasil?


Na Inglaterra, astros e estrelas das artes e do esporte assinam manifesto pela autorregulação da mídia, decidida após os crimes cometidos pelo grupo Murdoch

 No Brasil, certa revista semanal já foi muito além das práticas murdochianas, mas os astros e estrelas silenciam

 A ortodoxia reclama que o Brasil não cresce. Mas os países que mais cresceram são justamente os que não respeitam o tripé ortodoxo.

 Olimpíada em 2016 custará R$ 7 bi ao Brasil; será integralmente bancada por quatro grandes patrocinadores internacionais e outros locais. Alguém sabe disso?, pergunta a empresária Luiza Trajano


 No momento em que sábios tucanos apresentam a abertura do país como panaceia para o investimento, uma empresa brasileira sugere que o caminho é mais complexo.

por: Saul LeblonArquivo





No momento em que o declínio industrial do país se transformou em preocupação dominante da agenda econômica, uma reportagem publicada na Revista Exame, de 9 de março último e outra do dia 10 de março, na ‘Defesa Aérea e Naval’, revista on line especializada em assuntos de Defesa, criada pelos jornalistas Guilherme Wiltgen e Luiz Padilha, chamaram a atenção de Carta Maior.

As matérias davam conta de que a Polaris, empresa de ex-engenheiros do CTA/ITA , de São José dos Campos (SP), desenvolveu uma micro turbina para mísseis, que teria despertado o interesse de fabricantes internacionais de armamentos, graças às inovações que apresenta.

A tecnologia reúne, ademais, densidade de conhecimento suficiente para credenciar o Brasil no seleto clube dos fabricantes mundiais de turbinas aeronáuticas, dominado por um número muito reduzido de corporações gigantes.

A notícia transcende a aparência técnica.

Emoldurada pelos desafios que cercam a agenda do desenvolvimento, ela remete às escolhas que contrapõe projetos distintos, destinados a resgatar a eficiência e a competitividade da industrialização brasileira no século XXI.

O papel do Estado nesse resgate é um divisor de águas.

Em que medida a sua ausência é compatível com o financiamento e o ganho de escala reclamado por projetos com o potencial daqueles desenvolvidos pela Polaris, por exemplo?

A opinião do conservadorismo sobre o assunto ganhou uma importante síntese na entrevista concedida pelo economista Edmar Bacha, formulador do programa do candidato Aécio Neves, ao ‘Estadão’ do último domingo.

Na listagem dos ingredientes que compõe o problema há convergências entre o que diz o dirigente da Casa das Garças e a visão progressista.

A saber: a) o país enfrenta uma perigosa erosão de suas cadeias industriais; b) não é uma corrosão recente, mas remonta aos últimos 30 anos, sendo a defasagem cambial um elo comum ao período; c) sua persistência evidencia a dificuldade de se avançar de uma economia de renda média para um padrão de renda alta, capaz de associar eficiência e empregos de qualidade; d) não há mais como crescer pela expansão do emprego e do consumo, sem girar em falso numa engrenagem esgotada; e) o salto da produtividade industrial é o grande desafio de um novo ciclo de crescimento mais robusto; e) esse ganho não se dará sem uma integração maior da economia brasileira nas grandes cadeias globais de suprimento e inovação, nas quais predominam as trocas intraempresas e entre grandes empresas.

Até aí, estamos na descrição morfológica do enigma.

Vencida a fase alegre dos consensos, a polaridade se recoloca quando se trata de responder à questão: quem comandará o desbaste dos gargalos? Que forças podem e devem impulsioná-lo? Que diferença faz a escolha de um ou de outro protagonista?

Edmar Bacha é sincero na antecipação de seu olhar: ‘Não é segredo para ninguém que sou tucano", diz ao Estadão; em seguida, dispara a consequência disso na forma de uma diretriz schumpeteriana: um novo governo –tucano como ele-- vai impor um "desfazimento" da atual política macroeconômica e lançar as bases para uma abertura comercial contundente e de longo prazo, diz o interlocutor preferencial de Aécio Neves.

O ‘desfazimento’ e a nova abertura dos portos tem alvos e consequências apreciáveis.

Inclua-se aí o desmonte da tentativa de se construir uma política industrial com a participação ativa do Estado no financiamento à integração de grandes empresas nos mercados globais.

Entenda-se, ainda, a implosão da estratégia de integração sul-americana, em benefício de uma abertura comercial de pedigree assumidamente liberal, a exemplo do que pretendia a Alca.

E, finalmente, a pedra de toque desse tabuleiro: a redução do famigerado ‘Custo Brasil’ – panaceia negativa na qual cabem todos os males do país, mas que no fundo esconde o indisfarçável desejo de quebrar a espinha dorsal dos assalariados, com uma purga de arrocho nos holerites, a partir do salário mínimo, e cortes de direitos sociais expandidos pelos governos do PT.

O arrocho tem sentido funcional e político.

O objetivo é lubrificar a adesão das empresas à derrubada das tarifas externas, compensando-as duplamente com o corte nas folhas de pagamento e o ajuste no câmbio.

Fecha-se o círculo do ‘desfazimento’ neoliberal : de um lado, o barateamento das exportações; de outro, o encarecimento das importações. E o Brasil voltaria a deslizar como um corisco na pista do crescimento virtuoso.

Parece lógico.

A que custo?

O conservadorismo é perito no manejo de variáveis descarnadas da dimensão histórica que lhes é indissociável .

Embaralhados os ingredientes assim, higienizados de sua dimensão temporal, salta-se com ligeireza das preliminares para se atribuir aos ‘livres mercados’ a tarefa de conduzir a transição da economia para uma nova quadra de expansão e competitividade.

A narrativa tecnocrática subtrai o papel e o contrapeso do Estado na delicada ordenação de ganhos, perdas e prazos ensejados nessa transição ; engole, ademais, a alternativa histórica de substituir a carta branca aos mercados pela negociação política de um novo pacto para o desenvolvimento.

Não por acaso, a formalidade lógica de Edmar Bacha assenta-se em uma omissão ainda mais grave e abrangente: sua explanação ignora a ação devastadora dos ditos mercados racionais na origem da crise mais grave do capitalismo desde 1929.

Ou não terá sido o colapso de 2008 um filho legítimo da mesma cepa a que pertencem as propostas tucanas destinadas a salvar a economia do ‘anacronismo’ lulopetismo e dos ‘desenvolvimentistas’ da Unicamp –como alfineta Bacha ao desdenhar de ‘uma certa universidade do interior paulista’?

Conviria ao PSDB esclarecer por que a crise não aparece –ou não cabe—no modelo de ‘desfazimento’ do Brasil.

Um pedaço da resposta talvez esteja na predileção dos sábios de bico longo pelo universo fabular dos mercados regidos por leis isonômicas, a salvo das manipulações de interesses e isentos da rapinagem gananciosa dos circuitos financeiros.

A realidade é um pouco mais adversa.

Um dado resume todos os demais: 25% dos recursos do sistema financeiro mundial flutuam hoje à margem de qualquer regulação do Estado e dos organismos internacionais.

Estamos falando de um volume de capital fictício equivalente ao PIB mundial, autoinvestido de poderes para acuar governos, interditar debates (com a ajuda dos esquadrões midiáticos aliados), atropelar políticas de desenvolvimento e esfarelar programas consagrados nas urnas.

O fato adicional de que se vive sob as rédeas de um sistema monetário em estado de decomposição, mas ainda arbitrado pela supremacia do interesse norte-americano, parece alterar muito pouco a disposição tucana de atribuir à abertura dos portos um papel multiuso na superação dos desafios brasileiros.

Tudo se passa como se o objetivo ao qual se busca integrar o país fosse uma equação perfeita, dotada de poder curativo de largo espectro e geométrica harmonia entre as partes.

Um lego amigável, feito de peças complementares.

Somente um devaneio desse calibre justificaria a intenção expressa de renunciar ao papel do Estado no acirramento da guerra de posições em curso no ambiente belicoso dos mercados globais.

Se quiser avaliar a realidade concreta da pressão na caldeira, a inteligência abrigada na Casa das Garças deveria, por exemplo, atentar para a disputa fraticida entre grandes corporações globais, subjacente a um episódio que lhe é familiar: o propinoduto no metrô de São Paulo.

Um olhar isento chegaria facilmente à conclusão de que, ademais dos apetites de bolso , existe uma compulsão estrutural a exigir da indústria um desempenho lucrativo equivalente ao do mercado financeiro, de resto dificilmente realizável sem um mergulho no vale tudo que teria marcado duas décadas de licitações do PSDB em São Paulo. E isso, de fato, é apenas um exemplo.

Nenhuma macroeconomia determinada a resgatar o papel irradiador da produtividade industrial pode ignorar o peso adquirido pela condicionalidade financeira na luta pelo desenvolvimento no século XXI.

Mais que isso.

Não pode prescindir do amparo estatal no superlativo esforço de disciplinar os fluxos de capitais para induzir a composição das grandes massas de recursos produtivos demandadas pela escala competitiva global.

O que seria do Brasil se as turbinas tucanas alçassem o poder novamente impulsionadas pelo menosprezo olímpico a esses parâmetros de voo do nosso tempo?

Que destino amargaria uma empresa brasileira como a Polaris, embarcada nesse comboio?

No dia 13 de março, fruto da repercussão das matérias da Exame, mas principalmente da Revista Defesa Aérea & Naval, os sócios da Polaris, ex-engenheiros do CTA/ITA, receberam em suas instalações, na cidade de São José dos campos, São Paulo, uma comitiva do Ministério da Defesa para conhecer a audaciosa aposta de quem pode credenciar o Brasil ao seleto clube dos cinco ou seis fabricantes mundiais de turbinas aeronáuticas.

O passaporte dessa travessia, a TJ-1000, uma turbina utilizável em mísseis de longo alcance e drones, reúne conhecimento e tecnologias suficientes para, em pouco tempo, com verbas adequadas, desdobrar-se em uma versão de grande porte para uso em aeronaves comerciais e inúmeras outras finalidades civis, inclusive geração de energia, como informa o site da empresa.

Além dessa, outra turbina já se transformou em realidade na Polaris: a TJ200, que pesa menos de 10 Kg e tem apenas 16cm de diâmetro. Mas pode impulsionar um míssil de 230 Kg, num voo de 250 km de distância, com apenas 39 litros de combustível.

O Engenheiro Alberto Carlos Pereira Filho, Presidente da Polaris, explica que todo o processo de desenvolvimento e certificação internacional de uma turbina para aviões comerciais custa dezenas de milhões de dólares. O projeto leva anos; é impensável sem um apoio efetivo do setor estatal.

Foi por isso que a Polaris optou, inicialmente, por uma versão de menor complexidade, com investimentos de R$ 4,5 milhões, via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos).

Vencida a barreira do conhecimento e, com dois anos de testes, a TJ200 é a primeira turbina aeronáutica de pequeno porte a entrar em produção num mundo cada vez mais receptivo ao seu uso civil.

’A disseminação de drones para serviços de correio’, exemplifica Klein, ‘vai acelerar a adequação desses equipamentos a esse uso -- a exemplo do que deve ocorrer também na agricultura, nas operações de pulverização e controle’.

Só há uma empresa, a francesa Turbomeca, que fabrica um produto similar ao desenvolvido pela Polaris.

Mesmo com esses trunfos, o Estado brasileiro demorou a prestar atenção no potencial de um projeto que já acumula contratos preliminares para a exportação de 100 unidades para a Europa.

O salto para disputar o mercado de aviões comerciais está nas mãos do governo, insiste Klein.

‘Recentemente’, exemplifica, ‘o Brasil assinou um contrato para o primeiro avião a ser fabricado 100% dentro da Unasul; a turbina prevista é de origem russa.

Poderíamos ter acoplado ao projeto o desenvolvimento de uma tecnologia própria’, lamenta.

O mesmo pode ser dito em relação à tecnologia desenvolvida pela empresa para turbinas à gás, destinadas à geração de energia. ‘Seu desempenho’, assegura Alberto, ‘é superior aos modelos existentes no mercado mundial, impróprios para combustíveis de baixo poder calorífico’.

A tecnologia brasileira, ao contrário, utilizaria gases que hoje são desperdiçados, queimados e lançados diretamente na atmosfera, a exemplo das emissões liberadas nos aterros. ‘São apenas dois exemplos de oportunidades à espera de uma política estratégica de Estado’, diz o dirigente.

A visita do Coronel Fábio Eduardo Madioli e do Comandante Eduardo Pinto Urbano, representantes do Ministério da Defesa, à Polaris, na semana passada, pode ser um sinal de que esses equívocos começam a ser retificados por uma nova disposição dentro do governo.

Se assim for, será uma auspiciosa ruptura com a lógica embutida nos planos na candidatura tucana, mas não com a receita de adensamento tecnológico adotada pelas maiores economias industriais do planeta.

Caso dos EUA, por exemplo, cuja bilionária política de encomendas do setor militar constitui a principal alavanca de impulsão tecnológica do país.

Ainda hoje, o orçamento militar norte-americano figura como o maior sistema de encomendas públicas e de incentivo à inovação do mundo.

A tal ponto que Estado autoriza margens de preferência de até 50% nas compras do Exército --ou seja, as compras bilionárias das Forças Armadas dos EUA privilegiam empresas locais, mesmo que o seu preço seja até 50% superior ao similar importado.

Pelo menos até a crise de 2008, mais de 30% dos gastos dos EUA com pesquisas correspondiam a recursos canalizados a empresas inovadoras recurso para o desenvolvimento de novas tecnologias e uma escala de compras compatível com a sua sustentação comercial.

Uma dessas linhas de fomento, a Small Business Innovation Research Program, foi a estufa onde floresceu a Microsoft.

A centralidade de uma política industrial soberana, portanto, não é um mero fetiche da esquerda. Tampouco um anacronismo ideológico da Unicamp , como quer a soberba tucana.

Trata-se de um trunfo indispensável à irradiação da produtividade sistêmica, sem a qual não haverá excedente econômico para ampliar direitos sociais, empregos de qualidade e salários dignos.

Para que cumpra essa função ela terá que ser tutelada pelo interesse público.

A indução estatal não esgota o duplo desafio de conciliar a construção de uma democracia social no Brasil com a inserção de sua economia nas grandes cadeias globais.

Mas figura, por assim dizer, como a chave-mestra das escolhas que vão decidir se o país logrará se reposicionar no século XXI como uma economia dotada de turbinas próprias, ou como figurante caudatário, a turbinar interesses alheios.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Apoio de reacionários a Serra causa mal-estar nas universidades



Se alguns continuam a apostar na proficiência do gestor tucano dentro da academia, avulta nos últimos dias um mal-estar crescente provocado pelos indícios sucessivos de que a candidatura Serra foi empalmada, com aquiescência do candidato, pelo que há de mais obscurantista e reacionário na sociedade brasileira.

"Nunca imaginei que o Serra pudesse reunir em torno de sua candidatura tantas forças reacionárias" (Ricardo Carneiro, economista e professor da Unicamp à Carta Maior)
 

O tucano José Serra tem amigos na academia. Tem --ou pelo menos tinha-- eleitores entre economistas desenvolvimentistas que o consideram 'afinado' com essa agenda. Seu trunfo era a propalada disposição de 'enquadrar o Banco Central', cujas taxas de juros, de fato exorbitantes, são alvo de um consenso crítico que interliga acadêmicos de diferentes cepas partidárias, inclusive petistas. O professor Ricardo Carneiro é um desses críticos, à esquerda. Dilma, é sabido, opõe-se igualmente à condução da política monetária, mas por razões de coesão governamental prefere atuar internamente.
A professora Maria da Conceição Tavares adiciona a esse recorte mais uma diferença entre os dois candidatos . Conceição classifica Serra como 'um desenvolvimentista de boca'. Seu vínculo com essa corrente do pensamento brasileiro, no entender da economista, seria de recorte conservador. Serra é um adversário das causas sociais; um inimigo assumido dos sindicatos. Isso torna suas concepções de desenvolvimento distintas daquelas abraçadas por Lula e Dilma, sobretudo no segundo mandato. Mas é, também, o que o faz o candidato preferido de círculos empresariais mais conservadores.

A ênfase na recomposição dos salários, como se sabe, e a disseminação dos programas sociais --que Serra e o PSDB desdenhavam até as eleições-- tiveram papel central na resistência na sustentação do crescimento brasileiro na crise mundial. O salário mínimo no governo Lula acumulou um reajuste real, acima da inflação, superior a 72%. Os ganhos reais dos salários este ano ultrapassam em até 5% o INPC. Graças a investimentos que agregam ganhos crescentes de produtividade à indústria, os salários no Brasil tem avançado sistematicamente sem gerar tensões de custos. A obtusidade de sua visão social --aliada ao menosprezo ideológico pelos impactos econômicos dessas políticas-- levou o 'eficiente gestor' José Serra a cometer um escandaloso erro de avaliação no início da crise, quando pontificou previsões apocalípticas para o país, ao contrário do que fez o Presidente da República [veja o vídeo com os vaticínios do tucano na excelente coluna de Marco Aurélio Weissheimer em Carta Maior].

Mas se alguns continuam a apostar na proficiência do gestor tucano dentro da academia, avulta nos últimos dias um mal-estar crescente provocado pelos indícios sucessivos de que a candidatura Serra foi empalmada, com aquiescência do candidato, pelo que há de mais obscurantista e reacionário na sociedade brasileira.

A manifestação do economista Ricardo Carneiro, professor da Unicamp, onde Serra tem amigos, é uma tradução política, -- "estritamente política, não pessoal", observa o professor a Carta Maior-- desse mal-estar latejante, que já rompeu a fronteira das manifestações de corredor.

Seus antecedentes são conhecidos. No dia 14 de setembro, o jornal o Estado de São Paulo publicou reportagem onde a esposa do candidato tucano, Monica Serra, pretendeu mudar o voto declarado de um evagélico em Dilma disparando a seguinte ameaça em tom de advertência: "Ela é a favor de matar as criancinhas!'. Dias depois, em reunião da cúpula do PSDB, em São Paulo, membros da TFP, Tradição, Família e Propriedade, circulavam com desenvoltura --"pega e passa!"-- um manual de como denegrir a imagem de Dilma Rousseff com acusações habituais desfechadas por essa organização a qualquer referencia iluminista e progressista. A análise dos resultados do 1º turno evidenciou que as duas iniciativas não refletiam um ponto fora da curva, mas , sim, uma endogamia induziada e indigesta entre política conservadora, calúnia e regressividade religiosa. Cultuivada na superfície pela candidatura Marina --sem o ingrediente da calúnia-- esse coquetel tornou-se o passaporte consciente de Serra para chegar ao 2º turno.

O que se assiste agora é a radicalização dessa sombra a demarcar claramente o campo da coalizão que impulsiona o ex-governador de SP em busca do voto do medo. Serra tem se esponjado alegremente nesse lamaçal de água benta falsificada e detritos históricos que ameaçam ressuscitar o que há de pior na política nacional. Os ataques ao Programa Nacional de Direitos Humanos que envergonham até tucanos históricos, como Paulo Sergio Pinheiro, consolidam seu nome como um assustador cavalo-de-Tróia de ressurgências que se revelaram brasa-dormida.

A gota d'água que talvez multiplique reações como a do professor Ricardo Carneiro foi a revelação recente de que uma das centrais de abastecimento dessa engrenagem é coordenada de Brasília por Nei Mohn, presidente da “Juventude Nazista” em 1968. [leia em Carta Maior:"Dilma é alvo de grupos de extrema-direita e neonazistas"]. Iinformante do Cenimar, Mohn tem uma ficha corrida que não deixa dúvida quanto à especialidade de seus serviços, entre eles atentados a bomba, na década de 80, mas, sobretudo, a falsificação de informações para denegrir a reputação de religiosos que denunciavam torturas, assassinatos e desaparecimentos.

Seu filho, o advogado Bruno Degrazia Möhn trabalha para um grande escritório de advocacia de Brasília contratado para prestar serviços a Daniel Dantas, cuja irmã foi sócia da filha de Serra em polemica empresa de serviços. O mesmo provedor que hospeda o site do candidato José Serra [Newssender/Locaweb Serviços de Internet S/A] está integrado à rede de boatos contra Dilma, coordenada pelo assustador braço do ex-agente da Ceimar.

Evidencias de que uma coalizão de direita e extrema-direita tomou de assalto a candidatura demotucana com o beneplácito de seus principais personagens, incluindo-se o candidato e a própria esposa, embaraçam amigos e conhecidos e explicam o mal-estar que tende a se espalhar na academia.

Sedimenta-se cada vez mais a percepção de que, no caso de Serra, mais uma vez, os fatos caminham à frente das idéias. Não importa o que o candidato 'desenvolvimentista' diz que pensa; não importa o que seus amigos pensam que ele pensa. Objetivamente, hoje, Serra é o estuário do que há de mais regressivo e ameaçador no leque de interesses econômicos e políticos da sociedade brasileira.

Fonte: Carta Maior