Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O comportamento sórdido da Chevron


A Chevron é uma grande empresa de petróleo e ninguém duvida que ela tem o know-how e profissionais plenamente capazes de operar poços de petróleo.
O que falta a esta empresa é uma camada dirigente capaz de proceder com ética e responsabilidade no comando de sua equipe técnica.
O comportamento da Chevron é – não há outra palavra -  moralmente desonesto. E, daí, para tornar-se criminoso, é um pulo.
Quando ocorreu o pico de pressão (o kick) que iniciou o processo de vazamento do poço da empresa no campo de Frade, a Chevron disse que  eram “exsudações naturais”, embora soubesse que poucas horas antes tinha ocorrido, ali, juntinho à aparição do óleo, o incidente em seu poço.
Exsudação natural era, para qualquer um que saiba o mínimo de atividade petroleira, pura mentira e este blog afirmou isso na mesma hora.
Agora surgiram novas bolhas de petróleo, a apenas 500 metros do campo de Frade, algums metros além dos limites do campo de Roncador, vizinho, operado pela Petrobras.
A Chevron, que recebeu até equipamento emprestado pela Petrobras na hora do acidente, apressou-se em mandar um e-mail à agênciade notícias Reuters para dizer que esse “novo” óleo não era seu.
Vazamento em campo operado por Petrobras foi achado pela Chevron.
Que maravilha! Os irresponsáveis procurando dar lições de responsabilidade à Petrobras, que tem milhares e milhares de vezes mais instalações petroleiras e não registra nenhum acidente de perfuração desta natureza.
A Petrobras, com todo o profissionalismo, recusou-se a fazer ilações ou afirmações sem base técnica sólida.
Aguentou as pancadas de uma mídia que jamais foi capaz de dizer que era óbvio quie o óleo que vazou 500 metros dentro dos limites do campo de Roncador, da petrobras, vinha do de Frade, da Chevron.
Agora, a Petrobras divulgou a análise do óleo recolhido.
É óleo parafinado, usado na perfuração para lubrificar a perfuratriz, formando a parte da coluna que se contrapõe à pressão ascendente do reservatório de petróleo e que, com o kick, foi pressionado contra as fraturas da rocha do poço não revestido, como deveria ser, pela Chevron.
O vazamento é, portanto, originado da perfuração que se realizou naquele trecho do solo marinho. É, portanto, do poço acidentado da Chevron.
Mais um atitude vergonha, irresponsável, desonesta, de uma empresa que só da boca para fora pediu desculpas ao povo brasileiro pelo acidente e continua fazendo da chicana,  dos subterfúgios e da mentira os métodos de tratar algo sério como um vazamento de óleo no mar.
É um comportamento inidôneo e a quem é inidôneo o país não pode conferir o direito de explorar petróleo, sobretudo no mar, pelos riscos e responsabilidades que nisso está implícito.
É sórdido e a sordidez mina qualquer confiança possível na empresa.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A arrogante Chevron não se desculpa ao Equador


Óleo na Amazônia equatoriana. Se a Chevron, que explorou petróleo lá por 30 anos afirma que não tem culpa, quem terá? Os índios, extra-terrestres, os tatus?
Se não é fácil para um grande país como o nosso enfrentar as gigantes do petróleo, veja como é muito mais difícil para nações menores, como o Equador.
A justiça daquele país condenou – em segunda instância – a Chevron a pagar uma indenização de US$ 9,5 bilhões pela poluição causada pela Texaco (empresa  que absorveu e da qual usa o nome comercial) por danos ambientais causados pela exploração descuidada de petróleo na região do Lago Agria, na Amazônia Equatoriana.
Era parte da condenação um pedido formal de desculpas aos cidadãos do país, que tinha prazo para ser feito até sexta-feira, sob pena de dobrar-se a condenação.
Neste dia, o porta-voz da empresa, James Craig, disse que ela não se desculpará, porque isso significaria uma admissão de culpa pela poluição.
Bem, a poluição está lá, e quem a teria causado? Os índios, por acaso, flecharam o chão e fizeram vazar petróleo? Ou foram extra-terrestres em busca de combustível para suas naves? Ou foi aquela história de “vazamentos naturais” com que tentaram nos levar na conversa quando apareceu o óleo no campo de Frade?
Mas a arrogância da Chevron não é gratuita. Eles tentam, nos Estados Unidos, invalidar a sentença da Justiça equatoriana sobre algo que se passou no Equador.  “Estamos certtos que essa sentença não será executável em qualquer país que tenha um Estado de Direito”.
Tradução: acham que nenhum país do mundo aceitará uma ordem de arresto de bens ou valores da Chevron para honrar a sentença do Equador.
Afinal o que é são as leis de um país perto do poder de uma grande petroleira?
Quem sabe, vendo o que acontece com nosso vizinho, a gente coloque nossas barbas de molho, a partir desta semana, quando acaba o prazo para a apresentação do inquérito da ANP sobre o vazamento da Chevron no campo do Frade…

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O “Estado de Direito” da Chevron


Fui atrás da dica dos leitores Victor e Paulo para ler a matéria sobre a ratificação da condenação feita pela Justiça equatoriana à Chevron, por danos ambientais, no valor de US$ 9,5 bilhões.
A luta judicial dos moradores da área afetada, na província de Sucumbios, durou 17 anos.
Mas aí descobre-se que a Chevron não apenas recusa a sentença como diz que  ela  “é mais um exemplo da politização e corrupção do sistema judicial do Equador que toldou este caso fraudulento desde o início”. E que, naquele país “não se respeita o Estado de Direito”.
A petroleira conseguiu na corte de Haia a suspensão da execução da sentença e diz que os juízes foram corrompidos, intimidados, que se fabricou perícias e está processando os moradores da região num tribunal…dos Estados Unidos, mais exatamente na Corte do Distrito Sul de Nova York.
É o caso de perguntar se as imagens ao lado são a ideia que a Chevron tem de “Estado de Direito”…
Por essas e por outras, é que as desculpas da Chevron sobre o vazamento do campo de Frade, em novembro, valem tanto quanto uma nota de três dólares.
Aliás, se não é perdir demais, poderia a ANP explicar o que significa o “não cumprimento das premissas do Plano de Desenvolvimento” da petroleira no poço que originou o vazamento? Esta informação não é pública? Qual é a razão de não ser divulgada? Já nem se trata de esperar que a nossa imprensa – neste caso – de press-releases se interesse em perguntar.
É dever do administrador público.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Chevron não explica falta de sapata e vedação no poço

Vou postar, em sequência, os vídeos de minhas perguntas, hoje, na Comissão de Minas e Energia, ao sr. Luiz Pimenta, representante da Chevron e comentar suas respostas, absolutamente descoladas da verdade. Se gonseguir converter o vídeo da TV Câmara, as reproduzirei também.
Minhas primeiras perguntas, com os dados que estão expostos e documentados no post anterior:

O senhor Pimenta respondeu-me dizendo que o esquema apresentado para outros poços (?) – os produtores e injetores e que este seria um “poço pioneiro”.
Ora, a falsidade deste argumento se desmonta com dois fatos.
O primeiro: como pode ser “pioneiro” o 12º poço de um total de 12 poços que a Chevron tem autorizados no Campo do Frade?
O segundo: um poço pioneiro, justamente por falta de conhecimento prévio das condições de perfuração, é perfurado com muito mais precauções que qualquer outro. É, inclusive, muito mais caro, por esta razão.
Depois, o Sr. Pimenta usa um argumento de “cabo de esquadra”, ao afirmar que a aposição de sapatas e de vedações de selo é feito depois do poço completado. É justamente o contrário. O poço só chega ao “alvo” depois de assentada a última sapata e sua vedação.
O sr. Rafael Moura, representante da ANP confirmou que não havia nenhum outro plano ou registro de mudanças pedido pela Chevron no Frade.
O plano de perfuração é o que foi mostrado aqui, e que não foi cumprido.
Voltei, portanto, à carga:

A segunda resposta do sr. Pimenta continuou sendo de pura tergiversação.
Portanto, entreguei, devidamente assinalado nos pontos destacados aqui no Tijolaço, o plano de perfuração da Chevron para o Dr. Valmir Lemos de Oliveira, Superintendente Regional da Polícia Federal do Rio de Janeiro, para que seja entregue ao Dr. Fábio Scliar e possa contribuir para o esclarecimento do caso.
A Chevron não tem explicações que possam ser confessadas para a ausência da segunda sapata e vedação projetadas por ela mesma e não realizadas no poço que vazou.

Sr. Moshiri: o Brasil não é seu quintal


O Sr. Ali Moshiri, vicepresidente para América Latina e África da Chevron, está de volta às páginas.
Hoje, numa entrevista ao Wall Street Journal, ele reclama da severidade (?) com que a Chevron está sendo tratada. Diz que a Polícia Federal atrapalhou o combate ao vazamento chamando executivos da empresa para depor. E que nunca viu “um vazamento tão pequeno gerar tamanha reação”.
Não gerou, senhor Moshiri, a não ser muitos dias depois de começar, quando finalmente a blogosfera fez a imprensa tradicional começar a revelar que o vazamento não era de umas gotinhas.
A sua empresa é quem tratou o Brasil com desrespeito.
Descumpriu o projeto de perfuração apresentado às autoridades brasileiras.
Mentiu desavergonhadamente, três dias depois do acidente, dizendo que a saída de petróleo pelo fundo do mar era “um fenômeno natural”
Sua empresa foi condenada judicialmente por um destes “pequenos” vazamentos, no Equador, por prejuízos humanos e ambientais, no valor de  US$ 8 bilhões e luta para proibir a exibição do filme onde isso é narrado, que a gente reproduz aí em cima.
Os senhores já não podem mais controlar tudo, governos e imprensa.
Acabam de ser flagrados com depósitos de gás sulfídrico, um produto letal, em outra plataforma, com grave risco aos trabalhadores.
Os senhores não estão sendo honestos desde o princípio. Não estão cumprindo as regras a que se comprometeram.
O seu poço não vazou por “razões ideológicas”, vazou por razões técnicas, econômicas e pela arrogância que o senhor dá como exemplo ao tratar o Governo e as leis brasileiras, chamando de “exagero” o que é uma reação dentro da lei e das regras administrativas e comerciais que sua empresa aceitou e prometeu cumprir.
O senhor, além de irresponsável, arrogante e desrespeitoso é, com o devido respeito, um burro rematado. Não percebeu que seus chefes – o senhor é uma pecinha de terceira no comando da empresa – no board da Chevron entregam a sua cabeça com muito mais facilidade do que entregariam um cento de barris de óleo.
Aliás, encerrar as atividades de exploração da Chevron no Brasil pode vir a ser sua última tarefa no cargo.



 





Carta à ombudsman da Folha


Prezada Suzana Singer,
Na sua primeira coluna como ombusdsman, este blog criticou a declaração – já não me recordo de quem – que, de alguma forma, ali encampava-se: a de que blogueiros seriam “trogloditas” políticos. Com o mesmo proceder, registramos o seu diagnóstico de que a mídia tradicional tomara um “olé”  na blogosfera.
É possível que alguns sejam, como há trogloditas em qualquer atividade e em qualquer posição do espectro político. Nos blogs e  também nos jornais, rádios e televisões.
Mas há algo que está acima disso, para jornalistas, dentro ou fora de blogs: os fatos.
E houve um fato. Grave, gravíssimo.
Com toda a razão, você critica o papel da grande imprensa em apenas reproduzir, durante muito tempo, as declarações da Chevron, ANP e Ibama – feitas, em geral, por meio de nota oficial – e não haver investigação jornalística.
Dias depois de sua coluna apontar isso, tudo continua igual.
Ontem, este blog publicou um documento – oficial e público – que descrevia o plano de perfuração da Chevron. Nele, indicava-se claramente a previsão de instalação de uma sapata de sustentação e vedação a uma profundidade entre 2050 e 2600 metros de profundidade. E que esta não fora construída e, claro, testada, como previa o plano.
Na audiência realizada pela Câmara dos Deputados, o deputado Brizola Neto os reproduziu e indagou ao representante da Chevron a razão de não existir uma estrutura que estava prevista e é essencial para que, em caso de elevação da pressão do poço por tocar numa formação de petróleo ou gás, não haja derrame de fluidos.
O representante da Chevron, diante de toda a imprensa, disse duas coisas inacreditáveis. A primeira, que a cimentação de sapatas se dá depois do poço  ter atingido o seu alvo.  Qualquer engenheiro de poços dirá que isso não existe. A segunda, que o plano não havia sido seguido por tratar-se de um “poço pioneiro” e não de um poço de produção ou injeção  (feitos para injetar fluidos no reservatório e aumentar a recuperação da jazida pelos poços produtores).
Ora, o representante da ANP, logo a seguir, disse que o poço era o 12° dos doze que compõem o projeto autorizado pela Agência para a Chevron explorar o campo do Frade.
Pioneiro, o último?
Como fica evidente, não é preciso ser jornalista especializado em petróleo para que se acenda um alerta ao ouvir um dirigente de petroleira, em meio a um acidente grave, dizer que o último poço da série era o “pioneiro”. E, aliás, poços pioneiros, exatamente por desconhecer-se o terreno que ele irao cruzar, são feitos com mais cuidados, vagar  e precauções. Aliás, por isso mesmo, custam muito mais caro.
Tudo isso ocorreu diante de vários jornalistas profissionais.
Exceto na blogosfera, nada disso foi publicado.
Creio, portanto, que – diante disso e de sua crítica interna e pública- a redação da Folha deveria se sentir obrigada a, ao menos, expor esta contradição e, ouvindo especialistas em petróleo, esclarecer se é ou não procedente o que foi noticiado.
Não se trabalha, aqui, em busca de “furo”. Não há razões profissionais ou comerciais para pretender ser melhor ou mais rápido que qualquer colega ou publicação. Nada foi obtido através de fontes privilegiadas, apenas por documentos públicos e publicados na internet. Não fomos além de nossos modestos chinelos.
Numa época em que toda a imprensa se debruça, como deve fazer, sobre os “malfeitos” públicos, é decepcionante ver como um poço malfeito – e é por serem mal-feitas, no projeto ou na execução, que obras de engenharia provocam desastres -  não desperta nenhum interesse na grande mídia, que prefere derivar para temas consequentes: a poluição e o preparo do país para a exploração marinha de óleo.
Não pode, portanto, soar ofensivo ao jornalismo que se desenvolvam visões sobre a cumplicidade da mídia.
Outra vez, os fatos aparecem na blogosfera antes dos jornais, tal como aconteceu com a foto da mancha de petróleo. Um plano de perfuração pode não ser tão eloquente como uma foto de satélite, mas é ainda mais preciso e inquestionável.
Não pode ser normal que blogs – sem estrutura, sem pessoal e sem o poder de ligar para fontes e dizer que “é fulano, do jornal tal” – possam ter dado um “olé” na mídia tradicional e, mesmo depois de ela ter sido alertada, continuar a mesma situação.
E não se diga que se publicou sem responsabilidade, porque tudo o que se informou foi referenciado em informações comprovadas, que acabaram sendo citadas pela mídia: o Skytruth, o Wall St. Journal e, agora, o Estudo de Impacto Ambiental realizado a mando da Chevron.
Vou mostrar, no próximo post, como estamos sendo tratados como um bando de botocudos pela direção mundial da Chevron. E, em grande parte, o devemos isso à omissão de uma imprensa que depende de releases e de declarações espontâneas para dizer qualquer coisa.
Não investiga, não apura.
Nem mesmo quando os dados e documentos estão colocados publicamente, como o fizemos.
Se utilizarmos o mesmo critério de classificar como trogloditas aqueles que não se interessam pelos fatos e ficam aferrados a suas simpatias políticas – no caso, às petroleiras – não que tipo de adjetivo mereça o comportamento da mídia.
A menos que o sr. Ali Moshiri, boss da Chevron para a Botocúndia - como disse ao Valor e reproduzirei a seguir, tenha razão e seja um erro “fazer tanto barulho” por um vazamento “tão pequeno”.
Graças à nossa imprensa, sim, será sempre pequeno, qualquer que seja seu tamanho.
Foram 2.400 barris, ou 380 mil metros cúbicos, segundo a Chevron. Mas poderiam ser um, dois, cinco ou dez mil, de acordo com qualquer coisa que a petroleira diga, porque não temos ninguém, a não ser os blogueiros, para contraditar, exceto a blogosfera e um delegado de polícia.
A mídia dá às informações da Chevron algo que lembra a frase do contrabandista de um antigo comercial de TV:
- La garantía soy yo!
Um dos pioneiros – pioneiros de verdade – da luta pelo petróleo no Brasil, Monteiro Lobato, dizia que um país se faz com homens e livros. Não seria demais acrescentar: também com jornalistas e jornais.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Exclusivo: Chevron “economizou” sapata e não cumpriu projeto de perfuração de poço que vazou

O gráfico da Chevron mostra uma única sapata, no revestimento de 13 3/8"
O vazamento de óleo para o mar do poço da Chevron aconteceu porque a empresa descumpriu o projeto de perfuração apresentado às autoridades brasileiras e não colocou, provavelmente por economia, uma sapata de cimento, que faria a vedação do poço a mais de dois mil metros de profundidade, o que evitaria que o petróleo sob pressão do reservatório atingido pela broca penetrasse nas camadas superiores da rocha e subisse para o oceano.
...tal como está previsto na página 40 do Estudo Ambiental...
O Estudo de Impacto Ambiental apresentado ao IBAMA, elaborado com base nas informações técnicas formuladas para o plano de exploração de Frade, entregue pela Chevron à Agência Nacional de Petróleo, prevê expressamente a instalação de duas sapatas e selagens  para evitar a subida do óleo para o trecho superior da rocha.
A primeira sapata foi construída a cerca de 1800 metros de profundidade (e 567 metros abaixo do solo marinho), como previa o plano. Ela é a que foi mostrada pela  própria Chevron, nos diagramas exibidos semana passada na Câmara dos Deputados. Foi logo abaixo dela, segundo a empresa, que o óleo penetrou pelas fissuras do solo marinho.
...sapata que, depois de testada, permitiria o furo de 12 e 1/4 polegadas
O que a Chevron não disse à imprensa, aos deputados e à sociedade é que deveria existir uma segunda sapata situada algumas centenas de metros abaixo daquela, capaz de sustentar a coluna de tubos de 9 5/8  polegadas e vedar o espaço entre estes tubos e a perfuração de 12 1/4  polegadas, impedindo a ascenção do petróleo por fora da tubulação.
Esta sapata – que seria também submetida, segundo o plano, a “testes de selo”, para verificar sua capacidade de vedação – simplesmente não foi construída.
...mas "desapareceu" a sapata, a vedação e o teste ao final desta fase
Veja no quadro do projeto apresentado pela Chevron que ela estaria situada entre 2050 a 2600 metros  (a sigla TVDSS significa True Vertical Depth Sub Sea, profundidade real submarina) e deveria ser capaz de resistir a pressões súbitas (explosões) de mais de seis mil PSI, ou algo como 420 quilogramas-força por centímetro quadrado.
Esta sapata e a vedação jamais existiram, apesar
mesmo a Chevron tendo previsto que ela estaria entre 2050 e 2600 m...
de o poço já ter atingido 3.329 metros de profundidade. Evidentemente, também não o teste de selo.
Só a partir daí, segundo o plano apresentado pela Chevron, é que a perfuração seria feita com a broca de 8 ½ polegadas, que é o diâmetro convencional da chamada “fase final” de um poço de petróleo, aquela que toca o reservatório subterrâneo de óleo. Esta fase não possui revestimento, o que é chamado de “poço aberto” no jargão técnico. No seu depoimento á Comissão de Meio Ambiente, o presidente da Chevron-Brasil (?), o Sr. Charles Buck, admitiu que a broca usada no momento do acidente era a de 8 ½ polegadas.
Na perfuração executada pela Chevron, a situação era de “poço aberto” a partir de 567 metros abaixo do solo marinho. Embora o ponto provável de ruptura tenha sido abaixo da sapata situada neste nível, pode ter ocorrido em outro, em razão da grande extensão – comprimento vertical + horizontal, conhecido tecnicamente como TD(MD) –  aumentada pelo fato de o poço fazer duas longas curvas (dog legs, na linguagem técnica) e ter um trecho horizontal. Se os diagramas apresentados pela Chevron tiverem proporção correta, é possível estimar esta extensão em mais de três quilômetros sem  revestimento ou vedação.
E isso numa formação geológica cheia de fraturas e fissuras, o que é admitido no estudo e provocou até a mudança de direção de três poços perfurados em Frade.
Mas o que poderia ter feito a Chevron não implantar a sapata de sustentação e vedação?
Não é possível dizer, mas é natural que se avalie a vantagem de não o fazer: economia.
Uma sapata com esta resistência  custa algo como R$ 1 milhão, o que somado ao tempo de parada na perfuração, em razão dos custos fixos, pode quadruplicar, pelo menos, de valor. Só o aluguel da sonda  – mesmo a “baratinha” que utilizaram – é equivalente a cerca de R$ 500 mil por dia e ela não pode perfurar enquanto não se completa a cimentação, espera-se o tempo de “pega”  do cimento e se realizam os testes de selagem.
O campo de Frade é conhecido desde 1986 e nele não se espera o encontro de reservatórios em altíssima pressão, o que pode ter levado, sim, a Chevron a subestimar a possibilidade de que o poço fosse submetido a elevados esforços e, portanto, corresse o risco de não criar um segundo nível de vedação.
Um dos engenheiros especializados em perfuração a quem este blog apresentou os dados da Chevron afirma:
“A Chevron sabia da existência de várias fraturas e falhas em todo o Campo de Frade (está no seu plano de desenvolvimento para a ANP). A profundidade que temos que analisar é a da cota vertical de 2279 m. Para perfurar nesta profundidade a Chevron teve que usar pressão acima da pressão de abertura das falhas ou fraturas existente no Campo.
A ocorrência do kick (perda de fluido para formação) é a prova que atingiu a pressão de fratura. Não necessariamente, como a Chevron disse, fratura na sapata. Pode ter ocorrido em qualquer ponto entre 3329 m da profundidade  do poço (ou 2279 m medida na vertical) e 567 m,  a partir de onde o poço estava revestido e a lama de perfuração não tinha mais contato com as camadas superiores (da rocha). Isto não teria ocorrido caso a Chevron tivesse posto outra sapata e revestido o poço antes de atingir o reservatório. Neste caso,  todo poço estaria isolado das fraturas e falhas, ou seja, não poderiam ser atingidas pelo fluido de perfuração.
O kick relatado pela Chevron não é uma ocorrência anormal na perfuração. Ao contrário, é bastante comum. Para preveni-lo, instalam-se equipamentos que se destinam a minimizar seus efeitos: o blowout preventer, um conjunto de válvulas que impede que ele suba pela tubulação e “estoure” a cabeça submarina do poço.
Mas há outros, como as linhas de choke, que aumentam, através do manejo de válvulas, a pressão da coluna de lama que se contrapõe à pressão do petróleo ascendente durante um kick.
Além das linhas de choke, estava prevista a existência de uma linha de kill , que é uma espécie de redundância da linha de choke, mas com a capacidade de “matar” – ou seja, vedar completamente- o poço.
Nem a Chevron, nem a a ANP deram, ainda, quaisquer explicações sobre  existirem estes sistemas  previstos e a eventual falha em sua operação.
Daqui a pouco, na Comissão de Minas e Energia, a Chevron e a ANP serão duramente questionadas a partir destas informações.
Elas estão documentadas na cópia do relatório que será ali apresentada.
Agora há um dado concreto: a Chevron não  fez o que  prometeu ao IBAMA e à ANP  no plano de perfuração, que foi avaliado  por estes órgãos.
Não há plano de contingência ou fiscalização possível  em poços no oceano, distantes centenas de quilômetros do litoral, se a empresa que os perfura não segue os  procedimentos de segurança que ela própria apresentou às autoridades.
Não seria possível esperar que um fiscal da Prefeitura estivesse ali, todo o tempo ao lado da betoneira, durante a construção do Palace 2, vendo se a areia que a empresa de Sérgio Naya estava usando no concreto não era areia do mar.
Estamos fornecendo os elementos para a investigação de um comportamento fraudulento de uma concessionária da exploração de um bem público. Que, com o acidente, passou dos limites de simples fraude para o de um crime ambiental que, pela sorte e pelas correntes marinhas, ficou na escala do imenso e não do gigantesco.
Ele precisa ser apurado e cremos ter feito a nossa parte.