Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Políticos insuflam comemoração de chacinas em presídios

criminosos

Energúmenos de todas as idades, estratos sociais e regiões do país chamam de “politicamente correto” o que é, tão-somente, comportamento civilizado. Essa guerra contra o comportamento civilizado vem surpreendendo os setores civilizados da sociedade.
Desse combate que esse tipo de gente vem dando têm decorrido atitudes assustadoras como a do homem que, bradando contra o “politicamente correto” e os “direitos humanos”, pôs fim às vidas de sua esposa, filho e mais 10 pessoas.
Os entusiastas do “politicamente incorreto” agridem (verbal ou fisicamente) as mulheres, os homossexuais e os nordestinos; pedem volta da ditadura militar e o fim da defesa de “direitos humanos”; defendem execuções sumárias e chacinas de infratores da lei – contanto que sejam pobres.
Os machões e as machistas sem sensibilidade social e preconceituosos estão virando quase um modelo de comportamento.
Até as manifestações de 2013, pensava-se que extremistas de direita estavam restritos a pessoas idosas, de alto poder econômico que se isolaram a partir do fim da ditadura militar. Nos últimos três anos, porém, descobrimos legiões de jovens que flertam com o nazifascismo. Muitos, de origem pobre.
Extremistas de direita que querem volta da ditadura, chacinas em presídios, execuções sumárias de “bandidos” sem nem julgamento podem ser encontrados até entre minorias que deveriam lutar contra toda forma de discriminação e violência contra grupos, como é o caso de homossexuais, ou mesmo entre maiorias como a dos afrodescendentes, que constituem mais da metade da população brasileira.
Os recentes episódios de chacinas em presídios nos oferecem uma dica sobre o que está fazendo ascender esse comportamento incivilizado, selvagem dos que, entre um culto religioso e outro, renegam todos os principais mais elementares do cristianismo, tais como piedade, generosidade, amor ao próximo, caridade, respeito à vida etc.
O que diriam esses pseudorreligiosos de extrema-direita sobre Jesus Cristo ter perdoado um homem (crucificado ao seu lado) que matou e roubou durante a vida? Se o “filho de Deus” vivesse nos dias de hoje, por “defender bandido” seria tachado de “petralha”.
Porém, quem lidera hoje no Brasil a selvageria, as pregações de ódio, de preconceito, de violência policial e carcerária são os grupos religiosos mais fanatizados. Quanto mais religioso, atualmente, maior é a intolerância com a diferença e o desejo de ver atrocidades como chacinas ocorrerem com aqueles que o cristianismo manda perdoar.
Mas de onde vêm essas aberrações? Por que, do nada, começaram a aparecer pessoas capazes de comemorar chacinas de seres humanos, por exemplo?
Esses recentes episódios de chacinas em presídios permitiram ver quem são os propagadores dessa mentalidade.
Na primeira semana de 2017, uma centena de encarcerados – muitos dos quais sequer foram julgados ainda – foi trucidada das formas mais cruéis que se possa conceber. A começar pelos de Manaus.
O que se esperaria do responsável maior pela segurança pública daquele Estado, o governador José Melo (PROS-AM), seria que manifestasse tristeza pela tragédia e se solidarizasse com as famílias dos detentos, as quais, obviamente, não cometeram crime algum.
A atitude do governador foi digna desses moleques que ficam barbarizando nas redes sociais. “Não havia nenhum santo entre os mortos nessa rebelião”, afirmou o chefe do Executivo amazonense, supostamente o líder político de um Estado da Federação.
Como o governador do Amazonas sabe que não havia inocentes entre os presos chacinados se grande parte deles sequer havia tido julgamento?
Mas a postura irresponsável desse governador foi só o aperitivo do que viria. E quando o assunto é ignorância, truculência, insensibilidade, não pode faltar a opinião de Jair Bolsonaro, que desponta como candidato competitivo à Presidência da República.
Para quem não tem conta no Facebook e, por isso, não conseguiu ver o vídeo, basta saber que Bolsonaro apoiou as chacinas em presídios.
Esse discurso é hoje uma febre. Pesquisa Datafolha de 2015 mostrou que a maioria dos brasileiros concorda com essas ideias.
Essa maioria não quer saber se todos os encarcerados são iguais ou não, se todos são inapelavelmente culpados ou não, ou o que acontecerá quando, após anos nesses infernos, forem colocados de volta nas ruas, já que grande parte dos que estavam presos não fora nem julgada e outra grande parte cumpria penas curtas por pequenos crimes e só ficou presa por não poder pagar advogado.
Concomitantemente aos outros energúmenos, apaniguado filho de aliado político de Temer dá sua contribuição à barbárie. O ex-secretário Nacional de Juventude Bruno Júlio diz, publicamente, que seria bom haver “uma chacina [de detentos] por semana”.
Na mesma leva de horror, o ex-candidato a prefeito de São Paulo “Major Olímpio”, atual deputado federal paulista, fez piada com a tragédia nos presídios de Manaus e Roraima, onde morreram, respectivamente, 56 e 30 detentos em uma chacina em que a principal forma de execução foi decapitação: exortou a presídio carioca de Bangu a superar o número de chacinados nos outros Estados.
Outro que alia religião com selvageria e violência é o “pastor” e deputado federal Marco Feliciano. Em vídeo sobre as chacinas em presídios foi mais sutil que os colegas e simplesmente pregou “destruir o problema”, ou seja, os presidiários brasileiros.
Até o “presidente da República”, mister Fora Temer, deu sua contribuição ao caos carcerário ao qualificar como “acidente” um caso claro de desleixo e irresponsabilidade das autoridades.
Poderíamos ficar aqui por horas buscando políticos de direita que, entre um culto religioso e outro, lideram essa onda de comemorações das chacinas em presídios, do extermínio cruel e anticristão de seres humanos.
Apesar de a mídia conservadora abrigar colunistas, apresentadores etc. que chegam perto de propor atrocidades como “uma chacina por semana”, no geral ela se portou bem. Manteve o tema em evidência em tom de reprovação, ainda que não tenha tido coragem de explicar por que ninguém ganha com prisões desumanas.
Quem lidera hoje no Brasil essa mentalidade, portanto, são políticos de partidos como PMDB, DEM, PSDB, PTB, PP, PSC, PROS, SOLIDARIEADE, PPS e as conhecidas legendas de aluguel. Enfim: quem insufla mediocridade e truculência em nosso povo – e, sobretudo, entre nossos jovens – são os políticos.
Neste exato momento, quantas crianças não estão ouvindo os pais comemorarem massacres de pessoas, pregarem violência, enfim, desvalorizarem a vida humana em prol do sentimento mais venenoso que existe, o desejo de vingança? Em que essas crianças se transformarão quando chegarem na vida adulta?
Esses políticos legarão ao Brasil gerações de pessoas monstruosas, insensíveis, sádicas, burras ao extremo, adeptas de teorias nazifascistas. Eles contaminam os país das crianças brasileiras, que ensinarão essas loucuras aos filhos.
Como a história já se cansou de mostrar, nada tem potencial maior que a política para gerar tragédias às nações. Todas as guerras, todas as perseguições, todas as injustiças já vistas originaram-se de discursos políticos como os supra reproduzidos.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

“Só um idiota pode crer que os golpistas vão entregar a presidência a Lula em 2018”

:

Em entrevista a Marcelo Godoy, do programa do Diário do Centro do Mundo na TVT, o jornalista e escritor Fernando Morais diz que o ciclo do golpe se completa não com a queda de Dilma, mas com a inviabilização da candidatura do ex-presidente; "Só um idiota completo pode imaginar que Globo, FIESP, extrema direita, Folha, Estado, Editora Abril, Ministério Publico, Polícia Federal vão fazer o que fizeram para entregar a presidência da República de bandeja pro Lula de novo", afirma; "Não faz sentido". 

247 - O jornalista e escritor Fernando Morais acredita que o ciclo do golpe se completa não com a queda de Dilma, mas com a inviabilização da candidatura do ex-presidente Lula.

"Só um idiota completo pode imaginar que Globo, FIESP, extrema direita, Folha, Estado, Editora Abril, Ministério Publico, Polícia Federal vão fazer o que fizeram para entregar a presidência da República de bandeja pro Lula de novo", afirma, em entrevista a Marcelo Godoy, do programa do Diário do Centro do Mundo (DCM) na TVT. "Não faz sentido", completa.

"Eu já disse: vou dedicar o que resta de energia na minha vida a denunciar esse golpe e carimbar e estigmatizar todo mundo que foi sócio, parceiro, cúmplice. Eles vão ter que carregar essa tatuagem pro resto da existência. Os bisnetos vão dizer que o bisavô deu um golpe de estado no Brasil", acrescenta.

Assista abaixo o trecho em que ele fala de Lula e aqui outras partes da entrevista.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Marina, o xale, o relho e o lombo


Vendas nos supermercados tem crescimento de 3,14% acima da inflação em julho

IBGE: preços no atacado tem nova deflação em julho de 0,29%; preços dos alimentos registram queda de 1,18%

Governo Dilma transfere 3,2 milhões e hevtares à reforma agrária e à conservação ambiental nos estados do AM, AC,RO, PA

Debate Bandeirantes: Dilma afoga Marina em evidências de que os pactos propostos pelo governo após os protestos de 2013 resultaram em ações relevantes: Mais Médicos; royalties do pré-sal à educação e saúde; investimentos em mobilidade e projeto de plebiscito para a reforma política.

Debate Bandeirantes: Aécio Neves criticou a 'gestão da Petrobrás' e levou uma saraivada de Dilma: empresa vale hoje sete vezes mais do que no governo do PSDB e o pré-sal que tucanos menosprezaram já produz 540 mil barris/dia.

Debate da Bandeirantes: Marina mostra coerência e faz veemente protesto contra quem critica as elites brasileiras; defende Neca do Itaú e elogia empresário dono da Natura, 'uma pessoa que dedicou a vida ao desenvolvimento sustentável', diz ela

  

Ao contrário do economicismo adotado até aqui, é preciso explicitar a essência do conflito político radicalizado pela elite brasileira no processo eleitoral.

por: Saul Leblon


Arquivo

Marina, o xale e o relho da nova política

Imagine o seguinte roteiro espetado nas entranhas de uma agremiação política de esquerda:

Um jatinho carregando um candidato a Presidente da República e mais seis pessoas espatifa-se em Santos no dia 13 de agosto.

Todos os seus ocupantes morrem.

A caixa preta do avião está muda.

Uma outra caixa preta, porém, passa a emitir sinais intrigantes no curso das investigações.

A aeronave, descobre a Polícia Federal, não tem dono conhecido. Sua documentação é ilegal.

O partido do candidato morto não contabilizou o seu uso na prestação de contas ao TSE.

AF Andrade - empresa que aparece como última proprietária no registro da Anac, tirou o corpo fora.

Afirma que já havia repassado o avião a outro empresário, que o emprestou para um outro, ligado à campanha do presidenciável morto.

Um labirinto típico das rotas do dinheiro frio desenha-se então nas provas de um suposto leasing do avião, envolvendo pagamentos feitos por laranjas que vão de uma peixaria de Recife a escritórios localizados em lugar nenhum...

Entre as poucas pistas sabe-se que a autorização de uso na campanha teria sido feita pelo empresário João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho e o empreendedor Apolo Santana Vieira.

Vieira responde a processo criminal por sonegação fiscal na importação fraudulenta de pneus pelo Porto de Suape, que fica no estado de origem do candidato morto no acidente.
 A fraude gerou prejuízo de R$ 100 milhões aos cofres públicos de Pernambuco, de acordo com os autos da Justiça Federal.

Na verdade, segundo PF, duas aeronaves usadas pela candidatura agora liderada pela ex-senadora Marina Silva foram arrendadas pela mesma Bandeirantes Pneus, de Pernambuco, de propriedade do mesmo Vieira, incriminado no mesmo processo milionário de sonegação.

O valor do jatinho equivale a uma taxa de 20% sobre o total da fraude de que Vieira é acusado.

Em sua defesa, o empresário alega que apenas manifestou interesse na compra do avião, mas a operação de transferência não chegou a ser efetivada. E devolve a bola ao ponto inicial do labirinto: a empresa AF Andrade - que aparece como proprietária no registro da Anac...

Repita-se: imagine esse roteiro espetado nas entranhas de uma agremiação política de esquerda. Ademais dos registros incontornáveis, que tem sido feitos, reconheça-se, que tipo de campanha ensejaria nas fileiras dos savonarolas da mídia, do colunismo da indignação seletiva e das togas justiceiras?

Estamos no campo da ‘nova política’, porém.

E isso altera de forma significativa as fronteiras da tolerância ética.

Se ainda restava alguma dúvida sobre o que significa esse termo ela foi dissipada no debate da Bandeirantes desta 3ª feira pela sua expressão auto- nomeada, Marina Silva, que fez uma empolgada defesa da ‘elite brasileira’.

Ademais dos elogios à progenitora programática, Neca do Itaú, a candidata do PSB creditou ao dono da Natura, o milionário Guilherme Leal, outro esteio da ‘nova política’, um epíteto sonoro: ‘uma pessoa que dedicou a vida ao desenvolvimento sustentável’.

É mais ou menos como dizer que o bilionário Warren Buffet –que agora investe na interação entre Burguer Kings e a rede canadense de rosquinhas Tim Hortons-- faz parte da elite humanitária, por dedicar a vida à luta contra a fome.

Marina é o PSDB de xale.

E nisso reside o seu potencial; ao mesmo tempo, a sua vulnerabilidade.

O xale enlaça o desejo justo e difuso por ‘mudança’.

 Há quem acredite, sinceramente, que uma candidatura que tem como formuladores os hiperneoliberais Eduardo Gianetti e Andre Lara Resende, personificará algo inédito na política brasileira.

Marina é o pleonasmo do PSDB.

Graças ao xale, porém, teria abriu uma vantagem de 10 pontos sobre o candidato tucano Aécio Neves, segundo o Ibope.

E num segundo turno contra Dilma, aventa o instituto, Marina e o xale venceriam, cavalgando um crescimento de 16 pontos, contra apenas dois da atual Presidenta.

A aposta do Ibope é ousada: ‘contra Dilma, todos querem Marina’.

A campanha curta, reconheça-se, favorece o engodo mudancista do qual ela se declara portadora.

O instinto omnívoro do conservadorismo faz o resto: ‘tudo menos o PT’, exalta a mídia.

Por que não, entoam os endinheirados batendo na mesa, se debaixo do xale existe alguém disposto a entregar o Estado a quem sabe das coisas?

Os centuriões da república do dinheiro, gabaritados a desencadear a plena restauração do neoliberalismo na economia e na sociedade brasileira.

Não é uma frase carimbo.

É a síntese do que defende aquela que se avoca a sentinela avançada do ‘novo’.

‘Contra tudo o que está aí’.
 Reiterado de moto próprio ou através de porta-vozes desde a largada de sua candidatura no ano passado.

Por exemplo:

‘(...) a ex-senadora Marina Silva (PSB) defendeu o retorno à austeridade fiscal, empenho no combate à inflação e a adoção de uma agenda para simplificar a economia em apresentação a clientes do banco CreditSuisse na sexta-feira. (...) A ex-senadora defendeu a volta do tripé macroeconômico baseado na adoção de metas de inflação, câmbio flutuante e política fiscal geradora de superávits primários. Conforme relato de investidores que estiveram no encontro, ela disse que o tripé "ficou comprometido e é preciso restaurá-lo (...) Marina afirmou discordar do expansionismo fiscal adotado pelo governo e defendeu que o país volte a gerar superávits primários "expressivos, sem manobras contábeis" (...) o câmbio deve voltar a flutuar livremente, sem tantas intervenções do Banco Central (...) na avaliação dela, o combate à inflação foi relegado pelo governo. Para recuperar a credibilidade, afirmou, é preciso dar ao mercado sinais (NR: juros) claros, "quase teatrais", de que a inflação será levada ao centro da meta’.

O evento assim relatado pelo jornal Valor Econômico, em 14/10/2013, foi bisado na forma e no conteúdo nesta 3ª feira (26/08/2010), segundo a Folha de SP, que descreve um novo encontro a portas fechadas entre emissários de Marina --Walter Feldman, Bazileu Margarido e Álvaro de Souza (Ex-presidente do Citibank) , e investidores nacionais e estrangeiros.

Neca do Itaú garantiu a sede do seu banco para a realização do bate-papo.

Enquanto a turma hard diz a que veio a ‘nova política’, a candidata light distrai quem de fato pode lhe dar votos para implementa-la.

Aqui entra sua especialidade.

Na mesma edição de 14/10/2013, o jornal Valor trazia uma ‘esclarecedora’ entrevista, na qual Marina Silva extravasa essa cosmologia escalafobética.

Vale a pena ler de novo:

Valor: Há alguma contradição entre sustentabilidade e o ideário econômico que a senhora defende?

Marina: Não há contradição (...) Nosso desafio, nesse início de século, é integrar economia e ecologia em uma mesma equação.

Valor: Como se faz isso?

 Marina: (...) vamos ter que "ressignificar" a experiência econômica, social e cultural que temos, a partir delas mesmas. É uma espécie de mutação.

Valor: Mutação?

Marina: Sustentabilidade é uma visão de mundo, um ideal de vida. Esse ideal vai se realizar na forma de novos projetos identificatórios (...)

Baixa o xale, rápido.

Uma narrativa suficientemente etérea para ‘ ressignificar’ tudo e não mudar nada. E nessa complacente sanfona incluir desde justas aspirações por novas formas de viver e produzir , a alianças com Bornhausens e assemelhados, em contraste gritante com a pureza esvoaçante do invólucro entrelaçado com fibras da floresta amazônica.

O simulacro envolve riscos tão evidentes ao país quanto aqueles inerentes à vitória do caçador de marajás, em 1989. Que só foi possível graças a uma determinação cega das elites e de seu braço midiático de correr qualquer risco para dissociar o PT do poder.

A determinação é a mesma 25 anos depois.

Com um agravante: a candidatura Marina aguça apetites há muito reprimidos.

Vivemos dias extraordinários.

As ferramentas da rotina eleitoral não servem mais.

Ao contrário do economicismo adotado até aqui, é preciso explicitar a essência do conflito político radicalizado pela elite brasileira, contra a construção de uma democracia social no país.

Nele, o xale de Marina Silva cumpre o papel do velho pelego: afaga o lombo contra o qual o dinheiro quer estalar o relho de um ajuste implacável.

Feito de muita fé. Mas sem piedade.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Conheça os 40 mandamentos do reacionário perfeito

"Cada um dos tópicos abaixo foi diretamente inspirado nas falas ou nas atitudes de pessoas de carne e osso

Por Gustavo Moreira, em seu Blog / Pragmatismo Político  

1-Negue sistematicamente a existência de qualquer conflito de classe, gênero, etnia ou origem regional ao seu redor, mesmo que o problema seja evidente até aos olhos do turista mais desatento. Afinal, sempre nos foi ensinado que a sociedade é um todo harmônico.

2-Não sendo possível negar o conflito, pela sua extensão, tente convencer seu interlocutor de que ele é limitado, reduzido a alguns focos ou induzido por estrangeiros perversos, mas que logo tudo voltará à tranquilidade costumeira.

3-Sendo impossível negar que o conflito é vasto e presente em quase toda parte, tome o partido dos mais poderosos. Afinal, eles representam a ordem, que deve ser mantida a qualquer custo.

4- Manifeste sua contrariedade diante de qualquer estatística que aponte para uma tendência de aumento da massa salarial. É inadmissível que os abnegados empreendedores sejam constrangidos a margens de lucro menores.

5-Demonstre contrariedade ainda maior quando notar que filhos de operários, camelôs e empregadas domésticas estão frequentando universidades.
Prevalecendo esta aberração, que vai limpar o vaso sanitário para seu filho daqui a vinte anos?

6-Repita mil vezes por dia, para si mesmo e para os outros, que esquerdismo é doença, ainda que faça parte de uma classe média de orçamento curto, mas que, em estranho fenômeno psicológico, se enxerga como parte da melhor aristocracia do planeta.

7-Atribua a culpa pelos altos índices de criminalidade aos migrantes vindos de regiões pobres e imigrantes de países miseráveis. Estas criaturas não conseguem nem reconhecer a generosidade da sociedade que os acolhe.

8-Associe, sempre que possível, o uso de drogas a universitários transgressores e militantes de esquerda, mesmo sabendo que o pó mais puro costuma ser encontrado nas festas da “boa sociedade”. É necessário ampliar ou pelo menos sustentar o nível de reacionarismo da população em geral.

9- Tente revestir seu conservadorismo com uma face humanitária, reivindicando o direito à vida de todos os fetos, ainda que, na prática, vá pagar um aborto caso sua filha fique grávida de um indesejável, e seja favorável ao uso indiscriminado de cassetete e spray de pimenta contra os filhos de indesejáveis já crescidos.

10- Assuma o partido, em qualquer querela, daquele que for mais valorizado socialmente. Não é prudente que os “de baixo” testemunhem quebras de hierarquia, nem nos casos de flagrante injustiça.

11- Tente justificar, em qualquer ocasião, os ataques militares da OTAN contra países da Ásia, África ou da América Latina, mesmo que estes não representem a menor ameaça concreta para os agressores. Pondere que não é fácil carregar o fardo da civilização.

12- Mantenha assinaturas de pelo menos um jornal e uma revista de linha editorial bem reacionária, para usá-las como argumento de autoridade. Quando suas afirmativas forem refutadas, retruque de imediato com a fórmula “eu sei de tudo porque li o …”.

13-Nunca se esqueça: se um político socialista ou comunista cometer crimes comuns, isto é da essência do esquerdismo; se os crimes forem cometidos por um político de direita, ele é apenas um indivíduo safado que não merece mais o seu voto.

14- Vista-se somente com roupas de grifes caríssimas, não importando o quanto vá se endividar. Sobretudo jamais seja visto sem gravata por pessoas das classes C, D e E.

15- Nunca perca a oportunidade de discursar a favor da pena de morte quando o jornal televisivo noticiar o assassinato de um pequeno burguês por assaltante ou traficante de favela; se, ao contrário, surgir a imagem de algum rico que passou de carro a 200 km/h por cima de pobres, mude de canal, procurando um filme de entretenimento.

16- Quando ouvir narrativas sobre ações violentas de neonazistas e outros militantes de extrema-direita, minimize a questão. Afinal, eles podem ser malucos, mas contrabalançam a ação da esquerda.

17- Reserve pelo menos uma hora, durante as festas de aniversário de seus filhos, para aquela roda em que alguns contam piadas sobre padeiros portugueses burros, negros primitivos, judeus e árabes sovinas, gays escrachados e índios canibais. É necessário, para reforçar a coesão da comunidade burguesa “cristã-velha”!

18- Quando forçado a conversar com pobres, tente parecer um grande doutor, empregando seguidamente expressões estrangeiras; se um subalterno for inconveniente ou falar demais, dispare sem hesitar: “Fermez la bouche!” .

19- Seja sócio de um clube tradicional, ainda que falido, e se possível ocupe uma de suas diretorias, mesmo que totalmente irrelevante. Manifeste-se sempre contra a entrada no quadro social de emergentes sem diploma e outros tipos sem classe.

20- Jamais ande de trem ou de ônibus. É a suprema degradação, comparável somente a ser açougueiro na sociedade absolutista.

21- Obrigue todo empregado doméstico que venha a cair sob suas ordens a comprar uniforme e usá-lo diariamente, impecavelmente lavado e passado. Afinal, para que serve o salário mínimo?

22-Jamais escute música baiana de qualquer vertente, samba, forró ou cantores sertanejos. Uma vez flagrado, sua reputação de homem civilizado estaria arruinada.

23-Pareça o mais alinhado possível com o liberalismo do século XXI. Tendo preguiça de se dedicar a textos complexos, leia pelo menos “Não somos racistas”, de Ali Kamel, e o “Manual do perfeito idiota latino-americano”. 
Passará como intelectual para pelo menos 90% da juventude de direita.

24- Morra virgem, mas nunca apresente como esposa, noiva ou namorada uma mulher que não caiba no estereótipo da burguesa cosmopolita, porém comportada.

25- Faça eco aos discursos dos octogenários conservadores que constantemente repetem a fórmula “no meu tempo não era assim”, mesmo que saiba sobre inúmeras falcatruas e atrocidades “do tempo deles”. Quanto mais perto do Império e da República Velha, mais longe da contaminação esquerdista!

26- Passe sempre adiante, para parentes, amigos e conhecidos, notícias forjadas na Internet, no estilo “Todas as mulheres de uma cidade do Ceará se recusaram a trabalhar numa fábrica de sapatos, porque já recebiam o bolsa-família”. Não importa se é impossível que qualquer pessoa com mais de quatro neurônios ativos acredite que uma cidade inteira tenha recusado um salário de pelo menos seiscentos reais por achar que vive bem com um auxílio de cento e cinquenta.

27- Repasse, igualmente, juízos de valor negativos sobre personalidades de esquerda, na linha “Michael Moore é mentiroso”, “Chico Buarque é um comunista hipócrita que vive no luxo”, “Dilma foi terrorista”, etc. É preciso dar continuidade à teatral associação entre reacionarismo e moralidade.

28-Diante de qualquer texto ou discurso de esquerda, classifique-o imediatamente como doutrinação barata ou lavagem cerebral. Não importando sua eventual ignorância sobre o tema, é preciso fechar todos os espaços à conspiração gramsciana mundial.

29- Sustente a surrada versão de que “apesar dos erros, os milicos salvaram o Brasil do comunismo em 1964”. Desconverse mais uma vez se alguém perguntar como se chegaria ao comunismo através da provável eleição de Juscelino Kubitschek em 1965.

30- Deprecie ao máximo mexicanos, chilenos, peruanos, paraguaios, bolivianos, colombianos e demais hispânicos como caboclos de cultura atrasada. Abra exceção para argentinos ricos filhos de pais europeus, desde que estes se abstenham de chamá-lo de macaquito.

31- Defenda o caráter sagrado da propriedade rural. Quando alguém recordar que as terras registradas nos cartórios do estado do Pará equivalem a quatro Parás, procure ao menos convencê-lo de que é uma situação atípica.

32- Afirme com veemência que todo posseiro, índio ou quilombola em busca de regularização de terras é vagabundo, mesmo que seus antepassados estejam documentados no local há duzentos anos. Por outro lado, todo latifundiário rico sempre será um proprietário respeitável, ainda que tenha cercado sua fazenda à bala há menos de vinte.

33- Denuncie nas redes sociais os ambientalistas que tentam embargar a construção de fábricas de artefatos de cimento em bairros superpopulosos e de depósitos de gás ao lado de estádios de futebol. Esses idiotas não sabem que nada é mais importante do que o crescimento do PIB?

34- Rejeite toda queixa que ouvir sobre trabalho escravo. É tirania impedir que alguém trabalhe em troca de água, caldo de feijão, laranja mofada e colchão de jornal, se estiver disposto a isto. Deixem a vida social seguir seu curso espontâneo!

35- Quando alguém protestar contra o assassinato de duzentos gays no ano Y, responda que outras quarenta mil pessoas morreram violentamente naquela temporada. Finja que é limítrofe e não entendeu que a cifra se limita aos gays mortos em decorrência desta condição e não aos que tombaram em latrocínios, brigas entre torcidas e disputas armadas por vagas de garagem.

36- Acuse todo movimento constituído contra determinado tipo de opressão de querer promover a opressão com sinal contrário. As feministas, por exemplo, pretendem castrar os machos e colocar-lhes avental para lavar a louça e cuidar de poodles.

37- Enalteça “esportes e diversões” que favorecem o gosto pelo sangue, como arremesso de anões, rinhas de galo, pegas, caçadas em áreas de preservação ambiental, touradas, farras do boi e congêneres. Como já dizia seu patrono oculto Benito Mussolini, “o espírito fascista é emoção, não intelecto”.

38-Procure enxertar referências bíblicas nas suas falas sobre política. Ao defender um oligarca truculento, arremate a obra dizendo algo como “Cristo também jantou na casa do rico Zaqueu”. Tente dar a impressão de que qualquer um que venha a contestá-lo despreza pessoas religiosas.

39-Apresente a todas as crianças que tiver ao seu alcance, antes dos dez anos, o repertório integral de Sylvester Stallone e similares, nos quais o árabe é sempre terrorista, o vietnamita um comunista fanático que jamais tira a farda e o hispano-americano batedor de carteira ou traficante. Tendo a chance, compre também Zulu, para a garotada aprender desde cedo que africanos são selvagens que correm em torno da fogueira sacudindo lanças de madeira.

40- Não permita que a política externa dos Estados Unidos seja criticada impunemente. Nunca se sabe quando o homem de bem precisará de um poder maior e talvez irresistível para defendê-lo do zé povão."

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Tem um fusquinha no meio do caminho

O fusca de um serralheiro incendiado por manifestantes anti-Copa simboliza o equívoco dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela.


por: Saul Leblon 
Mídia Ninja



















Acontecimentos fortuitos muitas vezes sintetizam uma época melhor que as ações deliberadas de seus personagens. 
Quando Maria Antonieta – afirma-se - num rasgo de espontaneidade aconselhou a plebe rude a optar por  brioches à falta do pão, revelou-se por inteiro o abismo  entre a rua que acabara de derrubar a Bastilha  e a monarquia agonizante de Luiz XVI.

O general João Figueiredo, ditador entre 1979 e 1985, sintetizou  o apreço do regime pela gente brasileira esponjando-se na língua das estrebarias: ‘Prefiro o cheiro de cavalo ao de povo’.

Na largada  da campanha tucana em 2010, Eliane Cantanhede, colunista da Folha, definiu-se  melhor que seus críticos ao explicar:  “O PSDB é um partido de massa , mas uma massa cheirosa’.

O Fusquinha 75 incendiado na avenida  da Consolação, em SP, no  sábado (25/01), revelou  uma incomoda dimensão dos protestos contra a Copa de 2014. 

Black blocs que interrompiam a via atribuem o acidente  ao piloto, que teria avançado sobre um bloqueio de fogo com crianças a bordo.

Itamar Santos, serralheiro pobre de 55 anos, rejeita o papel de vilão.

Um colchão em chamas, disse ao blog da Cidadania, foi atirado sobre o seu carro quando avançava para escapar de protestos, teoricamente, em defesa  de brasileiro pobres como ele.

O  Fusquinha no meio do caminho é a pedra no sapato dos que oferecem destinos redentores à sociedade sem combinar com ela --nem dizer como se chega lá.

Contrapor objetivos distintos aos do governo, qualquer governo,  é legítimo.

Sem adicionar aos enunciados as linhas de passagem capaz de  materializá-los,  porém, rebaixa-se  a política ao plano do bate-boca  inconsequente.

Dispersa em vez de organizar.

A  oposição conservadora  também é useira e vezeira na atividade exclamativa.

Desprovidos de compromissos  com a sorte da nação e de sua gente, seus economistas, egressos em geral do vale tudo financeiro, colecionam receitas de como tocar fogo no país, indiferentes  aos ocupantes dos Fusquinhas no meio do caminho.

A instabilidade cambial que ronda as nações em desenvolvimento nesse momento, antes de preocupá-los é vista como um bom aditivo para queimar caravelas.

Move-os a esférica certeza de que o legado recente é incompatível com o  futuro recomendado ao país.

A saber: aquele nascido de uma purga ortodoxa, capaz de limpar o tecido econômico de qualquer vestígio de soberania, interesse público e justiça social.

O problema dessa lógica é o bendito Fusquinha atrapalhando o tráfego das boas causas.

Fortemente ancorada na ampliação do mercado de massa, a economia brasileira avançou nos últimos anos apoiada em ingredientes daquilo que a emissão conservadora denomina ‘Custo país’.

Em tempos de interdições  inflamáveis, nunca é demais recordar.

O  salário mínimo teve una elevação do poder de compra da ordem de 70% desde 2003, acima da inflação;  16 milhões de vagas foram abertas  no mercado de trabalho, regidas pela regulação trabalhistas da era Vargas; políticas sociais destinadas a mitigar a fome e a miséria atingem mais  de 55 milhões de pessoas atualmente.

No Fórum Social Temático, em Porto Alegre, a ministra Tereza Campello deu um exemplo do que está subjacente a estatísticas para as quais o vocabulário conservador reserva apenas uma palavra:  assistencialismo.

Pela primeira vez na história do país,  disse Campello, uma geração de crianças pobres, que  agora completa  12 anos, nasceu e  cresceu livre da fome (leia nesta pág).

O blackboquismo  nas suas variadas versões  dá de ombros.

O mesmo trejeito merece o cinturão de segurança de US$ 375 bilhões em reservas internacionais acumuladas  no período de fastígio das commodities –‘ ciclo desperdiçado pelo governo do PT’, assevera-se.

Não fosse ele, o Brasil seria  presa fácil da volatilidade internacional desse momento, com consequências sabidas e equivalentes às da tripla quebra no ciclo tucano.

 Mas a blindagem  figura como um retrocesso do ponto de vista de quem acredita  que as conquistas dos últimos 12 anos devem ser corroídas  para reduzir  o custo do investimento privado e aliviar o ‘gastança’ fiscal.

Aí sim, sobre os escombros, brotaria uma nova matriz de crescimento ‘mais leve, ágil e competitiva’, temperada por um corte geral de tarifas de importações.

O diabo, de novo, é o Fusquinha  na contramão do schumpeterismo  blanquista.

Dentro dele, 40  milhões de brasileiros saídos da  pobreza extrema e outros tantos que ascenderam na pirâmide social formam  a vértebra decisiva de um dos mais cobiçados mercados de massa do planeta.

Os jovens da chamada classe C, por exemplo, tornaram-se majoritários no mercado de consumo.

Em 2013 eles realizaram compras no valor de  quase  R$ 130 bi -- R$ 50 bi acima do valor consumido pela juventude dos segmentos A e B (Data Popular).

Juntas, as faixas de renda C, D e E reúnem  155 milhões de pessoas, o que faz da demanda popular brasileira, sozinha,  o 16º mercado consumidor do planeta.

É esse o recheio do Fusquinha que avança na contramão da dupla barreira, a incendiária  e a purgativa, que sacode o debate do passo seguinte do país.

Reconheça-se, o tráfego social e econômico  brasileiro tornou-se  bem menos  linear sob a pressão do  fluxo de demandas, prazos e requisitos para o seu atendimento.

Cada urgência tem um  custo e quase nunca  ele é neutro em relação a outra. 

Nenhuma novidade.

Desequilíbrio e desenvolvimento são irmãos siameses – exceto quando se entende por desenvolvimento a mera concentração da riqueza nas mãos dos endinheirados.

O Brasil talvez tenha avançado demais para regredir a essa modalidade de paz do salazarismo social.

As  multidões que invadiram a economia dentro do Fusquinha  não aceitam dar meia volta na estrada da ascensão experimentada nos últimos anos.

Uma nova macroeconomia do desenvolvimento  terá que ser construída  em negociação permanente com elas.

Ou contra elas  –correndo-se o risco de ser atropelado por elas.

A contingência não incomoda apenas o blackbloquismo nas suas variantes sabidas.

Significa também que a vitória progressista em 2014 somente será consistente se ancorada na decisão política de promover a mutação do  Brasil  que se tornou majoritário na pista do consumo, em um Brasil hegemônico na repactuação de projeto de nação para o século 21.

Carta Maior, propositadamente, insiste em repetir: para isso é preciso  –ao contrário do que fazem os shoppings aos sábados--  alargar as portas da  democracia e criar os  instrumentos que forem necessários para sustentá-la.

Não adianta interditar o tráfego. Nem tacar fogo no Fusquinha das demandas populares.

A ver

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

ALOYSIO NUNES: ROLEZINHO É COISA DE 'CAVALÃO'

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Daslu, Danuza e Dá o fora!

Haddad lança plano de resgate dos viciados em crack que inclui moradia, emprego e saúde

Haddad lança plano de resgate dos viciados em crack que inclui moradia, emprego e saúde

De 2014 a 2017, Brasil investirá R$ 458 bi em petróleo e gás; BNDES estima que a fatia do setor no investimento total do país crescerá de 10% para 14%


Os filhos do porteiro da Danuza resolveram ir ao shopping center. E a justiça de SP autorizou guardas a dizer-lhes: Dá o fora!.

por: Saul Leblon 
Arquivo


















O Brasil tem cerca de 500 shoppings centers.

O conjunto fatura R$ 184 bi por ano, ocupa mais de 11 milhões de m2 - uns 2. 200 campos de futebol; emprega  870 mil pessoas.

Em 40 anos, desde 1996 quando surgiu o primeiro  até 2006, foram erguidos 350 shoppings no país; de lá para cá a expansão foi geométrica e ininterrupta. Nos últimos sete anos surgiram mais 120.

Outros 30 estão previstos para inauguração em 2014.

O país inteiro – capitais e interior — foi tricotado por esses centros de compra e lazer que tem a cara e a permeabilidade  da estrutura social erguida pelo capitalismo por essas bandas.

A rede de shoppings foi planejada para nuclear um público alvo da ordem de 40 milhões de pessoas.

O Brasil tem mais de 190 milhões de habitantes: 150 milhões estão fora.

Uma parcela dos excluídos agora quer entrar.

O rolezinho é uma evidencia da pressão exercida na parede do dique.

Quem quer entrar entende (com ou sem razão) que o Brasil limpo, organizado, atraente, refrigerado, seguro, iluminado, rico, antenado, onde faísca la dernier cru  do consumo e, vá lá, bonito, para os padrões dominantes,   está lá dentro.

Não nas ruas desoladoras e escaldantes  das periferias conflagradas onde vive a maioria dos integrantes do rolê.

Pode-se – deve-se - discordar da matriz de valores que atribui a um bunker do consumo o padrão de sociedade desejável para viver e se divertir.

Mas há razões para isso.

Um dado sugestivo: até o ano passado, apenas 13,5% dos municípios brasileiros dispunham  de uma secretaria voltada exclusivamente para a cultura.

Tê-la não é garantia de grande coisa.

Mas a escala da ausência emite um sinal  da atenção  dispensada a uma  área  que fala diretamente à juventude --e poderia oferecer-lhe um ponto de fuga  à pulsão consumista, diuturnamente martelada  ao seu redor.

Esforços  de investimento público tem sido feitos nessa direção.

O número de cidades com bibliotecas, por exemplo, saltou para 98% em 2012, praticamente  universalizando esse equipamento, restrito a 70% delas  até 1999.

Mas uma biblioteca convencional, de mobiliário imaginável e acervo presumível, em qualidade e quantidade, será um espaço suficiente para satisfazer as expectativas de desfrute, encontro e lazer de quem adere a um  rolezinho?

Em 2007, o governo criou um  Programa para o Desenvolvimento da Economia da Cultura (Procult).

Através do BNDES já financiou a construção ou a reforma de 259 salas de cinema.

Mas a maioria dos cinemas do país fugiu igualmente para o interior dos shoppings por conta da insegurança que também despovoou  praças e jardins, capturados pelo consórcio drogas  & desmazelo.

Apenas 10% dos municípios brasileiros dispõem de cinemas atualmente.

Pesquisa desta semana do Ibope informa que as  ‘classes’ C e D bateram recorde de horas diante da televisão em 2013: média de seis horas e 40 minutos. Por dia.

E convenhamos,  não dá para imaginar que todo mundo vá se reunir numa lan house, presente, aí sim, em 82% da malha urbana e, de fato, encontrável em qualquer bairro ou favela  por mais pobre que seja.

O espaço virtual tem limites.

O rolezinho  se vale da capilaridade digital para convocar os encontros , mas representa ele mesmo (felizmente) a insuficiência da realidade virtual na vida humana.

A dupla insuficiência – material e virtual - misturada a uma revolta difusa, temperada de hormônios e apimentada com o deboche e  o anseio por identidade olha em volta e enxerga o quê?

Enxerga aquilo que distraidamente ou de forma deliberada foi sendo construído nas entranhas da velha malha urbana, e para cujo declínio  contribuiu  ao inocular  a decadência no pequeno comércio, a escuridão no jardim, a solidão no centro velho e o sucateamento do (parco)  equipamento  público.

O shopping  center, a nova cidade brasileira.

Prefiguração  do sonho neoliberal, ela materializa  um ordenamento coletivo onde tudo é privado (leia o blog do Emir, nesta pág).

Por definição, a cidade  da mercadoria  é o jazigo da cidadania.

Não só.

O anestesiante paradigma de  ‘eficiência’ do shopping engorda o descompromisso com que  a elite consumidora  encara  seus deveres  em relação ao espaço coletivo ao seu redor.

Por que, enfim,  pagar mais pelo IPTU se já tenho o que quero e o que a cidade numa terá no shopping  –ainda que esse adicional corresponda, por dia, a uma fração do preço de um cafezinho do Starbucks no Iguatemi?

O rolezinho  sacode o pilar dessa ordem excludente deixando aflorar um conflito que há muito incomoda o conforto  das elites.

Quem não se lembra do ‘transtorno’ que a vizinha favela Funchal causava ao Vaticano dos shoppings centers no Brasil, a famosa Daslu – 20 mil m2 de pura  ostentação, gastos médios de U$ 15 mil/mês por cliente e uma sonegação de imposto de estupendo R$ 1 bilhão?

Ou do desabafo da socialite Danuza Leão, na Folha, em dezembro de 2012?

Inconsolável  com o Brasil do PT, a então colunista lamentava como ficou difícil “ser especial” nesses tempos em que “todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais” -- musicais na Broadway, por exemplo, que graça tem se  “por R$50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir”.

Os filhos do porteiro da  Danuza resolveram agora  ir ao shopping.

E a justiça de SP autorizou  seis deles a dizer-lhes: ‘Dá o fora!’.

Esse é o capítulo da novela brasileira nos dias que correm.

As raízes desse enredo de  paralelas que agora se cruzam em conflito aberto na porta de santuários do consumo  remetem à mutação inconclusa verificada no país desde 2003.

Qual seja, a pobreza caiu pela metade; o mercado de trabalho atingiu as franjas do pleno emprego;  o salário mínimo ganhou quase 60% de poder de compra, acima da inflação.

A desigualdade continua obscena, mas as placas tectônicas se moveram.

Privilégios  obcecados em preservar  um ordenamento  social patológico defendem como virtude macroeconômica  restituir as fronteiras do conflito original aos marcos do cordão sanitário instituído nos anos 90.

O superávit fiscal ‘robusto’ para assegurar o ganho dos rentistas é um desses marcos.

Outro: o salto adicional nas taxas de juros, até encostar a faca recessiva na garganta da massa ignara.

A crispação em torno dos rolezinhos  mostra o quanto será difícil devolver a pasta de dente ao tubo da história.

Nesse empurra-empurra, subjacente à disputa presidencial de outubro,  há nuances que dizem respeito  diretamente à esquerda.

O  ‘rolezinho’  denuncia  uma dimensão da luta política rebaixada nos últimos anos na conta da ilusão economicista de que o holerite e o crescimento resolviam o resto.

São imprescindíveis, diga-se.

Mas o discernimento histórico que requer a longa  construção de uma sociedade justa e virtuosa nunca será um dote intrínseco  à conquista do legítimo direito de viajar de avião, ou  comprar bens duráveis a crédito, nem tampouco uma qualidade imanente a  governantes eleitos pelos pobres.

Erguer essas linhas de passagem é tarefa das organizações progressistas que se propõem a mudar as formas de viver e de produzir em sociedade.

É delas a obrigação de associar à luta econômica sua contrapartida de ideias emancipadoras que ampliem o horizonte subjetivo para além do consumismo individualista.

Do contrário, o futuro ficará emparedado entre o horizonte do rolezinho e o interdito do dinheiro graúdo.

No limite, ambos poderão se unir em torno de um tênis Nike, contra uma repactuação mais arrojada do desenvolvimento  que implique  outra modulação do consumo.  

O mais difícil na luta pelo desenvolvimento é produzir valores, dizia o saudoso Celso Furtado, em palavras  de atualidade inexcedível.

Não apenas esse, mas  sobretudo esse passo  a esquerda deve ao Brasil.

E não parece recomendável adiá-lo mais uma vez  ‘para depois da próxima eleição’.

RESPOSTA DO STF



 CONFIRMA



 MORDOMIAS DE



 BARBOSA




domingo, 29 de dezembro de 2013

NO PIOR IDH DO PAÍS, A LIÇÃO DOS MÉDICOS CUBANOS