Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

tese da divisão é para chantagear governo

Ichiro Guerra:

Jornalista afirma que "o país reelegeu a presidente Dilma Rousseff e o programa petista, mas as forças derrotadas buscam impor sua agenda"; em um movimento sutil, diz Breno Altman, a oposição tenta emparedar o governo e obrigá-lo a acatar medidas e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas, ou seja, o PSDB; "A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar", explica; "A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquartejá-lo" 

247 – "O terceiro turno já começou". A afirmação é do jornalista Breno Altman, que em nova coluna no 247, não vê, no momento, "tentativas abertas de desestabilização e sabotagem" do governo eleito pelo povo, e sim uma forma "mais sutil, mesmo que possa ser preparatório de manobras mais agressivas", de a oposição "impor sua agenda".

"Trata-se de emparedar o governo e obrigá-lo a acatar medidas e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas", diz ele, em referência ao PSDB do candidato derrotado Aécio Neves. "A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar", explica.

Segundo Altman, "a tese da divisão serve, neste momento, à intenção de encurralar o governo e forçá-lo a adotar caminho que, atendendo as reivindicações do mercado, provoque o máximo desgaste junto aos eleitores e militantes de esquerda".

"A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquartejá-lo", diz ainda. "A esquerda, talvez com alguma timidez, acumula forças para enfrentar os entulhos autoritários, encravados no sistema político e no monopólio da mídia, sobre os quais se mantém a dualidade de poderes que freia a aceleração e o aprofundamento das reformas", completa.

 

TESE DA DIVISÃO É CHANTAGEM CONTRA GOVERNO

 Breno Altman

O terceiro turno já começou. O país reelegeu a presidente Dilma Rousseff e o programa petista, mas as forças derrotadas buscam impor sua agenda.

O instrumento principal, por ora, não são tentativas abertas de desestabilização e sabotagem. O movimento é mais sutil, ainda que possa ser preparatório de manobras mais agressivas. Trata-se de emparedar o governo e obriga-lo a acatar medidas  e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas.

A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Vencedora por margem estreita, só restaria à presidente abraçar teses que atendessem os interesses e as posições de seus adversários. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar.

A chefe de Estado, nesta lógica, teria que aceitar ser refém dos grupos políticos e corporativos que, sem maioria popular, controlam o poder econômico e de informação, além de reter forte influência sobre o Parlamento, a Justiça e outras instituições do Estado.

O preço para a paz seria o predomínio, mesmo que parcial, da plataforma neoconservadora rejeitada pelo voto. Ainda assim, sem quaisquer garantias de que, feitas as concessões, seriam respeitados eventuais acordos.

Vale lembrar que não há uma só linha na norma constitucional que subtraia prerrogativas de um governante que tenha sido eleito por diferença pouco confortável.

Ou alguém acha que, vitorioso Aécio Neves, estaríamos assistindo pressão equivalente, dos mesmos atores antidivisionistas, para nomear um sindicalista para o Ministério da Fazenda ou cortar juros como principal providência de ajuste fiscal?

A questão é puramente funcional. A tese da divisão serve, neste momento, à intenção de encurralar o governo e força-lo a adotar caminho que, atendendo as reivindicações do mercado, provoque o máximo desgaste junto aos eleitores e militantes de esquerda.

A divisão real do país é de outra natureza, que não pode ser confundida com a decisão democrática e soberana que reconduziu Dilma ao comando da República, dando-lhe mandato uno e legítimo.

Mas é fato que o Brasil vive em dualidade de poderes desde a primeira posse de Lula, em 2003. As forças progressistas detêm o governo nacional, mas sem maioria parlamentar, sob fogo cerrado dos monopólios da comunicação  e com instituições judiciais usualmente cúmplices de manobras oposicionistas.

Como tal impasse pode ser rompido?  Essa talvez seja a principal dúvida de todos os protagonistas.

O campo conservador aparentemente escolheu sua estratégia, com duas variantes.

A primeira está em curso: chantagear a presidente e obriga-la a recuos de peso, desidratando sua liderança política.

A segunda permanece embutida: deflagrar processo de sabotagem e impedimento, a partir de eventuais denúncias de corrupção no caso Petrobrás, com a meta de fazer o governo, o PT e Lula chegarem
estropiados a 2018.

A presidente e o petismo, porém, vivem uma encruzilhada.

Durante doze anos, a busca de governabilidade foi encarada quase exclusivamente como uma tarefa institucional, constituindo alianças parlamentares que pudessem aprovar os projetos do Planalto e proteger o governo da desestabilização.

O arrefecimento da disputa política-ideológica era visto como necessário para facilitar estes acordos, reduzindo conflitos e danos. A militância e os movimentos sociais, sempre fundamentais para as batalhas eleitorais, eram recolhidos à posição de reserva estratégica na hora de governar.

O cenário, no entanto, parece ter mudado sensivelmente. O avanço nas reformas encontra resistência conservadora cada vez mais dura e frontal, contaminando amplos setores centristas da base parlamentar.

Vão se fechando os  espaços para trafegar entre as velhas instituições.

O discurso da vitória de Dilma reflete, de algum modo, a presente situação.

A presidente reeleita falou em diálogo e união, buscando isolar as frações mais radicalizadas da direita e ganhar tempo na reconfiguração de seu governo.

Mas também deu centralidade à proposta de reforma política através de plebiscito popular, sinalizando que é chegado o momento de enfrentar os problemas estruturais.

O presidente do PT, Rui Falcão, foi enfático ao dizer que, sem mobilização popular, não haverá reforma alguma. Não é pouca coisa. Claramente introduz as ruas como elemento imprescindível da governabilidade, o que constitui forte novidade na estratégia petista.

Estamos assistindo, de toda forma, aos primeiros passos de um embate decisivo.

A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquarteja-lo.

A esquerda, talvez com alguma timidez, acumula forças para enfrentar os entulhos autoritários, encravados no sistema político e no monopólio da mídia, sobre os quais se mantém a dualidade de poderes que freia a aceleração e o aprofundamento das reformas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A dolorosa epifania do barbeiro tucano


Faz mais de 10 anos que todo mês tenho uma “briga” marcada com o meu barbeiro, um cearense de trajetória admirável. Ele veio para São Paulo nos anos 70 em busca de uma vida melhor. Comeu o pão que o diabo amassou, mas pode-se dizer que venceu.
Em Sampa, Pedrinho conheceu uma pernambucana, que desposou. Com ela teve um filho, que nasceu “especial”. Mas sua trajetória de vida fez dele um conservador. Aprendeu a cortar cabelo quando serviu no Exército, e não foi só isso que lá aprendeu.
A caserna fez do barbeiro cearense um reacionário. Tem preconceito contra homossexuais e sempre teve um ódio visceral pelo PT. Inexplicavelmente, por conta do Bolsa Família.
Algumas vezes pensei em trocar de barbeiro, mas, além de Pedrinho ser um homem sério, trabalhador e de bom coração – apesar da ignorância –, ninguém corta meu cabelo tão bem quanto ele.
O barbeiro e a família que formou integraram-se à classe média paulista, sobretudo depois que ele começou a ganhar dinheiro – ironicamente, na era Lula –, comprou o imóvel onde funciona a barbearia e se mudou para a Vila dos Remédios, do outro lado do Tietê – morava em Guaianases, antes.
Não chega a ser um bairro nobre, mas a casa é dele.
Uma vez por mês, entro no estabelecimento, abraçamo-nos e logo me acomodo em uma das três cadeiras eletrônicas de barbeiro das quais ele tanto se orgulha, apesar de que jamais entendi por que um barbeiro que trabalha sozinho precisa de três cadeiras.
Enfim, após as gentilezas protocolares, eu ou ele puxamos o assunto política. Às vezes, finjo que desta vez não estou afim de discutir, mas a discussão acaba surgindo. E sempre acalorada. Terminou o corte, porém, volta a cordialidade e nos despedimos com outro abraço.
Pedrinho previu que Marina se mostraria uma farsa e que logo ruiria. E, antes de qualquer outro, já dizia que o candidato “certo” para “derrotar o PT” seria Aécio, que iria para o segundo turno.
Detalhe: Pedrinho só se informa pela tevê e pelo rádio – Globo e CBN. E pelos “doutores” engravatados da Bovespa que também cortam o cabelo ali – a barbearia fica no centro velho. Não lê jornais ou revistas, e parece ter medo da internet e de computadores em geral.
No sábado, fui cortar o cabelo. Alguma coisa me dizia que teria muito a discutir com meu barbeiro, e que, desta vez, a conversa poderia ser diferente.
Explico: Pedrinho é um nordestino orgulhoso, do que dá prova a decoração com motivos nordestinos no salão. Nos dias que antecederam a ida até lá, fiquei imaginando se ele ficara sabendo da onda de ataques a nordestinos na internet…
Quando apareço na porta da barbearia, ele não me encara. Cabisbaixo. E eu, em tom de ironia:
– Como é que anda o barbeiro mais cearense de São Paulo?
– Ah, vai falar da xingação, né?
– Se você quiser…
– Bando de filhas da puta. A gente construiu essa merda dessa cidade.
– Como você ficou sabendo da onda de preconceito, Pedrinho? Está usando computador, agora?
– Deus me livre. Foi a Jussara [a esposa]
– E sobre a “xingação”, o que você sentiu?
– Raiva, né? Que você acha?!
– Não sei, ora. Afinal, você sabe por que xingaram os nordestinos, né?
– Sei…
– Então… Se você não gosta do PT, se tem tanta raiva do PT, fiquei pensando se não iria apoiar os eleitores paulistas do Aécio que xingaram o povo do Nordeste por votar em peso em Dilma.
– Porra, Eduardo! Minha mãe é cearense, meu pai é baiano, meus irmãos são cearenses, minha avó é cearense, porra!
– O que você sentiu?
– Decepção
– Decepção? Não foi raiva?
– Também, mas mais decepção.
– Vamos ver se entendi: você não sabia que os paulistas da gema veem assim o Nordeste?
– Achei que isso era coisa do passado. No meu bairro tem tanto nordestino, aqui no centro tem tanto nordestino… São Paulo é só nordestino, porra!!
– Sim, é verdade. Mas uma parte dos paulistas não se mistura… Ou você não sabia disso?
– Sabia, mas não sabia que pensavam essas coisas…
– Ah, vai me dizer que não sabe quem é Mayara Petruso?
– Quem?
– Aquela filha de um dono de supermercado de Bragança Paulista, estudante de direito, quem, em 2010, logo após a vitória de Dilma no segundo turno, pediu que as pessoas fizessem “um favor” e matassem um nordestino afogado.
– Não sabia. Teve isso, também?
– Teve…
– E o que aconteceu com ela?
– Foi processada, perdeu o emprego, ficou manchada.
– Cadeia não, né?
– Filha de bacana, Pedrinho. Mas, para ser honesto, sendo ré primária…
– Ah, tá. Tendi…
Ficamos algum tempo em silêncio. Pelo espelho, olhava o semblante do meu barbeiro. Juro que havia dor.
– Ficou chateado, né, Pedrinho?
Os olhos dele marejaram.
– Fica assim não, Pedrinho. Essa gente não merece. Eles são ignorantes. Escravizaram as meninas da sua terra, trancaram-nas em quartinhos de empregada sem janela, trabalhando 7 dias por semana. Essa gente odeia vosso sotaque, vossa comida, vossa cultura. Mas não abre mão dos vossos serviços…
– Eu nunca pensei… Falei com a Ju, Eduardo. Estamos pensando em voltar pra terrinha. Juntei dinheiro, aqui. Acho que quero viver onde não sou desprezado. Ela também.
– Não faça isso, meu amigo. Fique e lute. Mas para de votar nesses coxinhas tucanos. Eles representam essa gente.
– Nem sei…
Pedrinho é duro na queda, mas foi ali que a mulher dele, que até então permanecera silente, manifestou-se:
– Ele vai votar na Dilma nem que seja a tapa, Eduardo. Ele e todo mundo lá da Vila. Estou ligando pra todo mundo e tem mais gente fazendo a mesma coisa. Depois a gente vai embora desta merda. Com todo respeito, Edu…
– Imagine, Jussara. Fica tranquila. Entendo perfeitamente. E acho que, de certa forma, você tem razão.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Conheça os 40 mandamentos do reacionário perfeito

"Cada um dos tópicos abaixo foi diretamente inspirado nas falas ou nas atitudes de pessoas de carne e osso

Por Gustavo Moreira, em seu Blog / Pragmatismo Político  

1-Negue sistematicamente a existência de qualquer conflito de classe, gênero, etnia ou origem regional ao seu redor, mesmo que o problema seja evidente até aos olhos do turista mais desatento. Afinal, sempre nos foi ensinado que a sociedade é um todo harmônico.

2-Não sendo possível negar o conflito, pela sua extensão, tente convencer seu interlocutor de que ele é limitado, reduzido a alguns focos ou induzido por estrangeiros perversos, mas que logo tudo voltará à tranquilidade costumeira.

3-Sendo impossível negar que o conflito é vasto e presente em quase toda parte, tome o partido dos mais poderosos. Afinal, eles representam a ordem, que deve ser mantida a qualquer custo.

4- Manifeste sua contrariedade diante de qualquer estatística que aponte para uma tendência de aumento da massa salarial. É inadmissível que os abnegados empreendedores sejam constrangidos a margens de lucro menores.

5-Demonstre contrariedade ainda maior quando notar que filhos de operários, camelôs e empregadas domésticas estão frequentando universidades.
Prevalecendo esta aberração, que vai limpar o vaso sanitário para seu filho daqui a vinte anos?

6-Repita mil vezes por dia, para si mesmo e para os outros, que esquerdismo é doença, ainda que faça parte de uma classe média de orçamento curto, mas que, em estranho fenômeno psicológico, se enxerga como parte da melhor aristocracia do planeta.

7-Atribua a culpa pelos altos índices de criminalidade aos migrantes vindos de regiões pobres e imigrantes de países miseráveis. Estas criaturas não conseguem nem reconhecer a generosidade da sociedade que os acolhe.

8-Associe, sempre que possível, o uso de drogas a universitários transgressores e militantes de esquerda, mesmo sabendo que o pó mais puro costuma ser encontrado nas festas da “boa sociedade”. É necessário ampliar ou pelo menos sustentar o nível de reacionarismo da população em geral.

9- Tente revestir seu conservadorismo com uma face humanitária, reivindicando o direito à vida de todos os fetos, ainda que, na prática, vá pagar um aborto caso sua filha fique grávida de um indesejável, e seja favorável ao uso indiscriminado de cassetete e spray de pimenta contra os filhos de indesejáveis já crescidos.

10- Assuma o partido, em qualquer querela, daquele que for mais valorizado socialmente. Não é prudente que os “de baixo” testemunhem quebras de hierarquia, nem nos casos de flagrante injustiça.

11- Tente justificar, em qualquer ocasião, os ataques militares da OTAN contra países da Ásia, África ou da América Latina, mesmo que estes não representem a menor ameaça concreta para os agressores. Pondere que não é fácil carregar o fardo da civilização.

12- Mantenha assinaturas de pelo menos um jornal e uma revista de linha editorial bem reacionária, para usá-las como argumento de autoridade. Quando suas afirmativas forem refutadas, retruque de imediato com a fórmula “eu sei de tudo porque li o …”.

13-Nunca se esqueça: se um político socialista ou comunista cometer crimes comuns, isto é da essência do esquerdismo; se os crimes forem cometidos por um político de direita, ele é apenas um indivíduo safado que não merece mais o seu voto.

14- Vista-se somente com roupas de grifes caríssimas, não importando o quanto vá se endividar. Sobretudo jamais seja visto sem gravata por pessoas das classes C, D e E.

15- Nunca perca a oportunidade de discursar a favor da pena de morte quando o jornal televisivo noticiar o assassinato de um pequeno burguês por assaltante ou traficante de favela; se, ao contrário, surgir a imagem de algum rico que passou de carro a 200 km/h por cima de pobres, mude de canal, procurando um filme de entretenimento.

16- Quando ouvir narrativas sobre ações violentas de neonazistas e outros militantes de extrema-direita, minimize a questão. Afinal, eles podem ser malucos, mas contrabalançam a ação da esquerda.

17- Reserve pelo menos uma hora, durante as festas de aniversário de seus filhos, para aquela roda em que alguns contam piadas sobre padeiros portugueses burros, negros primitivos, judeus e árabes sovinas, gays escrachados e índios canibais. É necessário, para reforçar a coesão da comunidade burguesa “cristã-velha”!

18- Quando forçado a conversar com pobres, tente parecer um grande doutor, empregando seguidamente expressões estrangeiras; se um subalterno for inconveniente ou falar demais, dispare sem hesitar: “Fermez la bouche!” .

19- Seja sócio de um clube tradicional, ainda que falido, e se possível ocupe uma de suas diretorias, mesmo que totalmente irrelevante. Manifeste-se sempre contra a entrada no quadro social de emergentes sem diploma e outros tipos sem classe.

20- Jamais ande de trem ou de ônibus. É a suprema degradação, comparável somente a ser açougueiro na sociedade absolutista.

21- Obrigue todo empregado doméstico que venha a cair sob suas ordens a comprar uniforme e usá-lo diariamente, impecavelmente lavado e passado. Afinal, para que serve o salário mínimo?

22-Jamais escute música baiana de qualquer vertente, samba, forró ou cantores sertanejos. Uma vez flagrado, sua reputação de homem civilizado estaria arruinada.

23-Pareça o mais alinhado possível com o liberalismo do século XXI. Tendo preguiça de se dedicar a textos complexos, leia pelo menos “Não somos racistas”, de Ali Kamel, e o “Manual do perfeito idiota latino-americano”. 
Passará como intelectual para pelo menos 90% da juventude de direita.

24- Morra virgem, mas nunca apresente como esposa, noiva ou namorada uma mulher que não caiba no estereótipo da burguesa cosmopolita, porém comportada.

25- Faça eco aos discursos dos octogenários conservadores que constantemente repetem a fórmula “no meu tempo não era assim”, mesmo que saiba sobre inúmeras falcatruas e atrocidades “do tempo deles”. Quanto mais perto do Império e da República Velha, mais longe da contaminação esquerdista!

26- Passe sempre adiante, para parentes, amigos e conhecidos, notícias forjadas na Internet, no estilo “Todas as mulheres de uma cidade do Ceará se recusaram a trabalhar numa fábrica de sapatos, porque já recebiam o bolsa-família”. Não importa se é impossível que qualquer pessoa com mais de quatro neurônios ativos acredite que uma cidade inteira tenha recusado um salário de pelo menos seiscentos reais por achar que vive bem com um auxílio de cento e cinquenta.

27- Repasse, igualmente, juízos de valor negativos sobre personalidades de esquerda, na linha “Michael Moore é mentiroso”, “Chico Buarque é um comunista hipócrita que vive no luxo”, “Dilma foi terrorista”, etc. É preciso dar continuidade à teatral associação entre reacionarismo e moralidade.

28-Diante de qualquer texto ou discurso de esquerda, classifique-o imediatamente como doutrinação barata ou lavagem cerebral. Não importando sua eventual ignorância sobre o tema, é preciso fechar todos os espaços à conspiração gramsciana mundial.

29- Sustente a surrada versão de que “apesar dos erros, os milicos salvaram o Brasil do comunismo em 1964”. Desconverse mais uma vez se alguém perguntar como se chegaria ao comunismo através da provável eleição de Juscelino Kubitschek em 1965.

30- Deprecie ao máximo mexicanos, chilenos, peruanos, paraguaios, bolivianos, colombianos e demais hispânicos como caboclos de cultura atrasada. Abra exceção para argentinos ricos filhos de pais europeus, desde que estes se abstenham de chamá-lo de macaquito.

31- Defenda o caráter sagrado da propriedade rural. Quando alguém recordar que as terras registradas nos cartórios do estado do Pará equivalem a quatro Parás, procure ao menos convencê-lo de que é uma situação atípica.

32- Afirme com veemência que todo posseiro, índio ou quilombola em busca de regularização de terras é vagabundo, mesmo que seus antepassados estejam documentados no local há duzentos anos. Por outro lado, todo latifundiário rico sempre será um proprietário respeitável, ainda que tenha cercado sua fazenda à bala há menos de vinte.

33- Denuncie nas redes sociais os ambientalistas que tentam embargar a construção de fábricas de artefatos de cimento em bairros superpopulosos e de depósitos de gás ao lado de estádios de futebol. Esses idiotas não sabem que nada é mais importante do que o crescimento do PIB?

34- Rejeite toda queixa que ouvir sobre trabalho escravo. É tirania impedir que alguém trabalhe em troca de água, caldo de feijão, laranja mofada e colchão de jornal, se estiver disposto a isto. Deixem a vida social seguir seu curso espontâneo!

35- Quando alguém protestar contra o assassinato de duzentos gays no ano Y, responda que outras quarenta mil pessoas morreram violentamente naquela temporada. Finja que é limítrofe e não entendeu que a cifra se limita aos gays mortos em decorrência desta condição e não aos que tombaram em latrocínios, brigas entre torcidas e disputas armadas por vagas de garagem.

36- Acuse todo movimento constituído contra determinado tipo de opressão de querer promover a opressão com sinal contrário. As feministas, por exemplo, pretendem castrar os machos e colocar-lhes avental para lavar a louça e cuidar de poodles.

37- Enalteça “esportes e diversões” que favorecem o gosto pelo sangue, como arremesso de anões, rinhas de galo, pegas, caçadas em áreas de preservação ambiental, touradas, farras do boi e congêneres. Como já dizia seu patrono oculto Benito Mussolini, “o espírito fascista é emoção, não intelecto”.

38-Procure enxertar referências bíblicas nas suas falas sobre política. Ao defender um oligarca truculento, arremate a obra dizendo algo como “Cristo também jantou na casa do rico Zaqueu”. Tente dar a impressão de que qualquer um que venha a contestá-lo despreza pessoas religiosas.

39-Apresente a todas as crianças que tiver ao seu alcance, antes dos dez anos, o repertório integral de Sylvester Stallone e similares, nos quais o árabe é sempre terrorista, o vietnamita um comunista fanático que jamais tira a farda e o hispano-americano batedor de carteira ou traficante. Tendo a chance, compre também Zulu, para a garotada aprender desde cedo que africanos são selvagens que correm em torno da fogueira sacudindo lanças de madeira.

40- Não permita que a política externa dos Estados Unidos seja criticada impunemente. Nunca se sabe quando o homem de bem precisará de um poder maior e talvez irresistível para defendê-lo do zé povão."

sexta-feira, 7 de junho de 2013

STAND & POOR'S & MÍDIA: A ENDOGAMIA ORTODOXA


Finalmente, uma agencia de risco internacional atende aos clamores da mídia brasileira e endossa a ‘percepção' de um país em ‘espiral descendente'. Não importam as flutuações estatísticas. A inflação em baixa, o investimento em alta, que deixaram zonzos os analistas da linearidade ortodoxa nas últimas horas, nada mereceu o destaque atribuído ao carimbo negativo com o qual a Stand & Poor's revisou, nesta 5ª feira,  a ‘perspectiva da nota de longo prazo'  atribuída ao país. Atenção, a ‘perspectiva da nota de longo prazo'. O velho truque da profecia autorrealizável que os tambores locais engrossam em repiques sôfregos. O chute da Stand & Poor's ecoa dos atabaques ortodoxos com ares do 11º mandamento de Moisés. A fita métrica da credibilidade global é crível? Que nota merece a Stand $ Poor's? Com a palavra, o economista Paul Krugman que, em agosto de 2011, atribuiu peso e medida à venerável instituição, que acabara de rebaixar, também, a nota dos EUA. No entender de Krugman, na crise iniciada em 2008, a agência agiu com a mesma cara de pau do  jovem que mata os pais e então implora clemência alegando ser órfão. ‘A S&P, desempenhou papel importantíssimo na precipitação dessa crise, concedendo notas AAA a ativos que desde então se transformaram em lixo tóxico', fuzilou Krugman. (LEIA MAIS AQUI)

E DANUZA LEÃO, QUEM DIRIA, ACABOU NO IRAJÁ

EduGuimarães.

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre mal-entendidos, preconceitos e hipocrisia


Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 29/01/2013 na edição 731


Em Campinas (SP), a Polícia Militar divulga uma ordem de serviço orientando patrulhamento em determinado bairro com atenção especial a suspeitos “de cor parda e negra” (ver aqui). No Rio, um menino negro é enxotado de uma concessionária de carros de luxo pelo funcionário que viu nele apenas mais um moleque importuno e não supôs que pudesse ser filho adotivo do casal branco a quem atendia.
Diante da repercussão negativa, a polícia paulista tentou minimizar o episódio: explicou que a nota dizia respeito a um grupo específico de jovens com aquelas características, que vinham cometendo crimes na região – daí a especificação não apenas do bairro, mas do dia da semana e do horário –, mas reconheceu que “o texto foi redigido de forma equivocada”. No Rio, a concessionária demorou uma semana até se desculpar com os fregueses dizendo que tudo não passara de um mal-entendido, e aí sim a história ganhou destaque, primeiro nas redes sociais, e em seguida na imprensa.
O “mal-entendido” da PM disfarça precariamente o preconceito arraigado na corporação treinada para perseguir os marginalizados, e sintetizado na referência à “cor padrão” com a qual costumam ser identificados na comunicação entre policiais – muitos deles, por sinal, dessa mesma cor. Já o “mal-entendido” da concessionária provocou uma onda de protestos e até uma indignada manifestação da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro contra a discriminação racial. A ênfase nesse tema encobriu o principal: o preconceito social, presente nos mais variados aspectos da vida cotidiana e reiterado sistematicamente pela própria mídia hegemônica.
Os limites do protesto
O caso ocorreu num sábado (12/1): o casal disse que foi com seu filho mais novo, um menino negro adotado de 7 anos, a uma concessionária da BMW na Barra da Tijuca. O menino teria ficado numa sala vendo TV e quando se aproximou dos pais foi tratado rispidamente pelo funcionário, que lhe deu ordem para sair dali, numa improvável suposição de que seria mais um desses garotos que perambulam vendendo balas ou pedindo esmolas: a qualidade de seus trajes não deveria deixar dúvidas quanto a isto, embora esse ponto não tenha sido mencionado nas entrevistas.
O casal formalizou seu protesto e, como o pedido de desculpas saiu pela tangente, decidiu abrir uma página no Facebook com a denúncia: “Preconceito racial não é mal-entendido, é crime“. A iniciativa rapidamente ganhou a adesão de milhares de pessoas, embora não fossem raros os comentários depreciativos, que apontavam intenções escusas de alardear e exagerar o episódio para lucrar com ele. Também – e aqui reside o mais importante – apareceram ressalvas quanto à relevância do caso, comparado ao que ocorre sistematicamente com a população pobre de modo geral.
Daí as acusações de hipocrisia: se fosse um menino maltrapilho a circular entre os reluzentes modelos importados, mesmo que apenas para admirá-los, qual seria a reação dos clientes? Quantas vezes já vimos esses meninos serem escorraçados de lojas, bares, restaurantes, supermercados? O que costumamos fazer quando os avistamos nas ruas, perambulando ou encolhidos debaixo de marquises? Como essa gente é rotineiramente tratada pelos jornais?
Imprensa e preconceito social
Não é preciso muito esforço para verificar que os marginalizados são sistematicamente apresentados ora como um estorvo, ora como um perigo, a conspurcar ou ameaçar a tranquilidade dos “cidadãos de bem” que moram nos bairros mais valorizados da cidade. Tomemos, só para ilustrar, dois exemplos do Globo ao longo dos últimos anos: em 9/4/2008, o jornal expôs na capa um “menor” caído, rodeado por policiais, e a legenda sobre o sucesso da operação “Ipa-total”, em Ipanema, que havia recolhido “22 moradores de rua e quatro caminhões de lixo”. Alguma dúvida sobre o sentido da frase? De modo semelhante, em 11/3/2012, o jornal exibia três adultos maltrapilhos dormindo de manhã no Campo de Santana, uma das muitas “desprotegidas áreas verdes da Rio+20”. Pois, é claro, desprotegido está o parque, não aqueles indigentes que o transformam em casa.
Convenientemente, as reportagens sobre o episódio ocorrido com o menino acolhido pela família rica se mantiveram nos limites do preconceito racial. Na grande imprensa, uma rara menção quanto ao sentido mais amplo do preconceito social, que os frequentadores das redes sociais já notavam, foi a de Zuenir Ventura, ao final de seu artigo em O Globo (26/1), que também citava a discriminação contra babás em clubes de elite, objeto do noticiário recente.
O lugar de cada um
Em meados do ano 2000, um grupo de ativistas mobilizou mais de uma centena de pessoas, moradores da periferia do Rio, para uma “visita” ao shopping Rio Sul. O choque provocado com aquela “invasão” surtiu efeito: de repente, um monte de gente pobre e mal vestida entrava em lojas chiques, experimentava sapatos e roupas caras, deslumbrava-se com eletrodomésticos, comia marmitas nas praças de alimentação, andava pela primeira vez numa escada “volante”. Algumas lojas fecharam, outras os atenderam como se fossem clientes comuns, os vendedores fingindo naturalidade, a informar que aquela gigantesca televisão de plasma – então a última palavra em tecnologia, de preço proibitivo mesmo para a classe média – podia ser adquirida em suaves prestações.
Como meninos negros – e pobres – em concessionárias de carros de luxo, o lugar deles, evidentemente, não era ali.
***
[Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)
]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A VIRTUDE E O PORTEIRO DE LULA


*Uma notícia em três manchetes:

 a) Agencia EFE: 'OCDE prevê que Brasil cresça 4% em 2013, depois do 1,5% de 2012' 

**b) Estadão: 'Brasil terá pior taxa de crescimento dos Brics em 2012, segundo OCDE'

**Folha: 'Brasil terá menor crescimento entre emergentes em 2012, diz OCDE 



Danuza Leão, que  foi esposa de Samuel Wainer, criador do  Última Hora - o principal veículo de resistência ao cerco udenista contra Vargas nos anos 50, lamenta a ascensão do consumo de massa no Brasil. Não por  ter restrições ao consumo. Mas porque ficou difícil  'ser especial'  nesses tempos em que  'todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais', explica na coluna que assina na Folha. Musicais na Broadway perderam a graça, afirma, não pelo gosto duvidoso do que se oferece ali. "Por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir", lamenta-se. O desencanto algo patológico com o Brasil de Lula inclui outras versões de apelo não tão exclusivista. O porteiro do prédio  neste caso é a 'corrupção de massa' que o PT teria promovido, segundo os críticos, num aparelho de Estado antes depenado com elegância pelos donos do país. A virtude que se cobra da esquerda não é um dote imanente a porteiros que viajam a prestação ou a governantes eleitos pelos pobres. Virtuosas devem ser as instituições. Mas o partido que pretende mudar a sociedade tem a obrigação de associar à luta econômica o combate por ideias emancipadoras que ampliem o horizonte subjetivo para além do consumismo. (LEIA MAIS AQUI)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A birra de O Globo com os pobres



Não se entende onde o jornal O Globo pretende chegar com sua série "Os mercadores da miséria", criticando os programas sociais, especialmente Bolsa Família e o Brasil Sem Miséria.
Na chama da série, o jornal promete:
“(...) O Brasil Sem miséria, programa criado pela presidente Dilma para erradicar a pobreza extrema, tem sido alvo frequente de fraudes, revelam Alessandra Duarte e Carolina Benevides numa série de reportagens que O Globo inicia hoje".
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Qualquer realidade complexa - uma grande empresa, um organismo estatal ou privado, um programa de governo - pode ter grandes virtudes e pequenos defeitos; ou grandes defeitos e pequenas virtudes.
Se o veículo for mal intencionado, basta dar destaque aos pequenos defeitos (quando for para denunciar) ou às pequenas virtudes (quando for para enaltecer). E esquecer que existe a estatística para avaliar o peso tanto de um quanto de outro.
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Se quisesse criticar o modelo de concessão de aeroportos, as dificuldades do PAC (Plano de Ação Continuada), a barafunda burocrática, os desperdícios da administração pública, o jornal teria um bom material jornalístico.
Mas a birra do jornal é com programas voltados aos mais necessitados.
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A principal "denúncia" de O Globo, manchete principal, foi do gato que recebia como beneficiário e de dono de Land Rover que seria beneficiário de R$ 60,00 por mês.
O que deixou de contar:
1. O fato ocorreu em 2009, muito antes da criação do Brasil Sem Miséria.
2. Toda família matriculada em programas sociais precisa submeter as crianças a exame médico. Quando a família não apareceu, o médico foi atrás da criança e descobriu tratar-se de um gato.
3. Descoberto o golpe, pelos próprios mecanismos do programa, o dono foi denunciado à polícia, está respondendo por dois crimes, inclusive pelo crime de falsidade ideológica.
Tal fato ocorreu há 4 anos e foi objeto de inúmeras reportagens na época. De lá para cá passaram três ministros e dois presidentes pelo programa. Qual a razão de ludibriar assim os leitores requentando uma notícia velha?
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A outra denúncia, sobre o dono do Land Rover, além de antiga, foi apresentada de forma incorreta. O tal empresário registrou laranjas no BF. Tratava-se de um explorador, que foi identificado e processado.
Outra "denúncia" foi o de uma senhora que afirmou não receber mais o benefício. Vai-se conferir, ela deixou de atualizar seu cadastro. Exige-se a atualização de cadastros justamente para evitar fraudes. Mas o jornal condena o programa por ter gato, e condena por não ter gato.
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A maioria absoluta dos episódios de fraude relatados foi desvendada pelos próprios sistemas de controle do Bolsa Família. Mesmo que tivessem sido levantados por terceiros, ainda assim são estatisticamente irrelevantes.
Qual a intenção de levantar meia dúzia de casos para desacreditar um programa que assiste a milhões de miseráveis?
Intenção eleitoral, não é. As eleições de 2012 já aconteceram e o BF já está assimilado pelos eleitores. Tanto assim, que o PT não se deu bem no nordeste. Quem quiser coração e mentes desses eleitores, até o governo, daqui para frente terá que oferecer outros benefícios.
Só pode ser birra com pobre.
Luis Nassif

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Modelo e o Cantor

Serão iguais os casos de Gisele Bündchen e Alexandre Pires, em suas agruras com duas secretarias da Presidência da República? Ela com a de Políticas para as Mulheres, ele com a de Políticas Especiais de Promoção da Igualdade Racial?
Compartilham, no mínimo, uma coisa: tanto a modelo, quanto o cantor foram criticados por sua participação em peças de comunicação consideradas ofensivas e preconceituosas. Gisele em relação às mulheres e Alexandre Pires contra os negros.
O caso da supermodelo foi amplamente divulgado e se referia à campanha publicitária que estrelou, há alguns meses, de uma marca de lingerie. Nos comerciais para a televisão, ela explicava, brincando, o modo certo e o errado de uma mulher transmitir a seu companheiro uma notícia ruim - que batera o carro, que a sogra o visitaria, etc.
Equivocado seria comunicar diretamente o fato - vestida. Correto, dizê-lo cheia de sensualidade - usando apenas roupa íntima. Em outras palavras, burra é a mulher que não emprega a sedução em seu favor.
Apesar do tom jocoso, a Secretaria entendeu que a campanha tinha uma inaceitável carga de preconceitos e contribuía para manter estereótipos discriminatórios contra as mulheres. Por isso, oficiou ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, Conar, solicitando que fosse retirada do ar.
O caso de Alexandre Pires - que ainda está em curso -, é diferente, mas parecido.
Com ele, a polêmica é sobre o videoclipe de sua música mais recente, intitulada “Konga”. Estão em discussão letra e vídeo.
A canção brinca com a imagem de macacos e gorilas. Nela, as mulheres são atraídas pela força e a energia dos animais, em óbvia alusão ao que seria sua hiperbólica virilidade.
No clipe, tudo acontece à beira de uma piscina, pretexto suficiente para que as atrizes vistam minúsculos biquínis. O cantor aparece em roupas convencionais e os músicos estão fantasiados de gorilas. A seu lado, o super-astro Neymar dança e se diverte - e acaba também disfarçado.
A reação da outra Secretaria foi parecida. Também nesse caso haveria preconceitos e conteúdos discriminatórios, racistas e sexistas. Pelos dois motivos, ela solicitou que a exibição do vídeo na internet fosse, voluntariamente, suspensa e que não houvesse veiculação na televisão.
Essa talvez seja a única semelhança entre os dois episódios. Pois, se as atitudes das Secretarias foram, basicamente, as mesmas, o caso da modelo recebeu um tratamento bem diferente da mídia - e foi percebido, em função disso, de forma quase oposta pelos segmentos da opinião pública que costumam se manifestar nas redes sociais.
A reação da Secretaria de Políticas para as Mulheres contra a campanha de Gisele foi imediatamente tachada de “intervenção indevida” do governo. De exemplo da incapacidade da burocracia entender uma alegre brincadeira. De intromissão do estado na vida particular. E por aí vai....
E em apoio a Alexandre Pires? Alguma voz se levantou? Algum dos intelectuais que trabalham nos grandes veículos de nossa imprensa o defendeu?
Ficou sozinho, tendo que se justificar....
Note-se que, em seu caso, a discussão vai além da mera liberdade do anunciante usar qualquer argumento - por mais questionável que seja - para aumentar as vendas. Diz respeito a algo mais importante, a liberdade de criação.
Pode um artista negro usar os estereótipos da cultura da discriminação? Pode brincar com eles, tirar a ofensa da boca dos agressores e fazer música com ela? Pode transformar o gorila em tema de alegria e afirmação?
Na hora de defender a modelo branca do “intervencionismo lulopetista”, não faltaram voluntários - e espaço. E agora? Contra o cantor, a intervenção é legítima?
Como muitos negros norte-americanos, que têm orgulho de se chamar nigger - a palavra-símbolo do racismo em seu país -, Alexandre Pires, Neymar, os músicos e atores que participaram do clipe estavam rindo. Rindo de quem os olha com preconceito - e inveja.
Preocupada com o tom de falsa pedagogia que havia na campanha de Gisele Bündchen, a Secretaria das Mulheres agiu corretamente. No clipe de Alexandre Pires, a de Igualdade Racial, talvez.
Mas essa já é outra historia.
Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

quarta-feira, 25 de abril de 2012

STF pode pôr fim às aspirações racistas de DEMóstenes e cia.

Se tudo correr bem, o Supremo Tribunal Federal deve confirmar hoje uma tendência libertária que vem marcando as decisões da Corte nos últimos tempos, como nos casos das sentenças proferidas em favor da união civil entre homossexuais e da interrupção de gravidezes de fetos anencéfalos. Só que será uma decisão mais fácil por razões que passo a expor.
Antes, porém, vale dizer que tais decisões progressistas do STF mostram a importância de o país eleger governos progressistas em um país em que vige a insanidade de ser dado ao Poder Executivo a prerrogativa de organizar a Justiça de acordo com a sua ideologia e os seus interesses.
A Corte julgará a constitucionalidade das cotas “raciais”, um questionamento que só foi possível devido a um partido de meliantes como o Democratas, com seus Arrudas e Demóstenes, reflexos de uma agremiação que simboliza e congrega o que há de pior na política brasileira.
Quem não se lembra da verborragia meliante de Demóstenes contra as cotas em 2010, em audiência no Supremo em que lhe coube proferir um dos discursos racistas mais repugnantes de que tive conhecimento.
Naquela ocasião, o serviçal do chefão Carlinhos Cachoeira, travestido de parlamentar, culpou os negros pela própria escravidão e caricaturou uma medida libertária que, se perdurar, poderá minimizar uma das anomalias mais gritantes do racismo à brasileira, a quase inexistência de médicos afrodescendentes neste país.
Sempre que encontro um racista que mascara seus demônios interiores com o discurso abjeto de que seria racista uma medida destinada a libertar os negros da barreira que os impede de chegar ao ensino superior, o vestibular, pergunto quantos médicos negros brasileiros aquela pessoa conheceu na vida.
A reação é sempre a mesma. A pessoa para por alguns segundos para refletir e, invariavelmente, conclui que não se lembra de ter conhecido algum – ou, no máximo, diz que, alguma vez, conheceu um, como se tivesse tido o privilégio de ter visto um espécime raro.
Muita falácia foi tecida contra as cotas, sempre por elaboração da imprensa, que, como bem disse o colunista Elio Gaspari em artigo publicado nesta quarta-feira em O Globo e na Folha de São Paulo, “No século 21, como no 19, todos os grandes órgãos de imprensa posicionaram-se contra as cotas”.
Como bem lembrou o colunista, a imprensa brasileira tentou impedir a libertação física dos escravos assim como hoje tenta impedir a libertação intelectual dos descendentes deles, que só ocorrerá através da educação.
O governo Lula teve a coragem de trazer para o Brasil uma política pública oriunda dos Estados Unidos, conhecida como ação afirmativa (as cotas “raciais”), que permitiu que, hoje, já existam alguns médicos negros.
A imprensa, em reação, erigiu uma série de “argumentos” absurdos para impedir que os afrodescendentes chegassem ao ensino superior, tirando dos brancos ricos a primazia de estudarem em boas universidades públicas, uma barbaridade social que em Estados reacionários como São Paulo ainda obriga negros pobres a custearem o estudo deles.
Primeiro, inventaram a tese de que negros pobres chegarem à universidade reduziria o “padrão acadêmico” e de que, por serem estudantes inferiores, os negros seriam discriminados no mercado de trabalho ao se formarem.
Esse “argumento” virou pó. Os estudantes cotistas mostraram seu valor e superaram os não-cotistas brancos em todos os aspectos, seja nas notas ou na permanência nos cursos, pois os filhinhos de papai que ingressam no ensino superior via vestibular abandonam muito mais as vagas, talvez até por não darem valor àquilo que, para os pobres, é um tesouro.
A confirmar a afirmação de Gaspari sobre o racismo midiático que fez toda a grande mídia estabelecer uma cruzada contra as cotas, editorial de O Globo desta quarta-feira esgrime com o pouco que restou de argumentos contra a política afirmativa.
O editorial se vale de uma mentira inquestionável. Afirma que a política de cotas é só para negros e não, também, para pardos. Não é verdade. A política afirmativa serve para afrodescendentes e se baseia, inclusive, também em critérios econômicos.
O texto também diz que, no Brasil, seria “difícil” distinguir negros de brancos. Outra falácia que pode ser facilmente desmontada com uma mera visita aos salões das elites como os clubes de classe média alta de São Paulo, onde os examinadores raciais conseguem distinguir muito bem quem é descendente de negro de quem não é.
Na hora de discriminar, os redutos da elite branca não têm a menor dificuldade para distinguir brancos de não-brancos.
Conheço uma das poucas famílias mestiças que venceu na vida em São Paulo e que reside em um dos bairros mais elegantes da cidade. O casal e seus filhos têm pele cor de jambo, mas mantêm os cabelos e os traços faciais característicos dos afrodescendentes.
Apesar da excelente condição financeira, jamais conseguiram se associar a um dos clubes paulistanos mais caros.
Certa vez, perguntei ao amigo por que não denunciou o racismo de que ele e sua família eram vítimas e a resposta foi a de que, se empreendesse uma cruzada como essa, até o seu excelente emprego seria posto em risco.
Esse cidadão, por conta de sua condição social e da sustentabilidade de seu ganha-pão, confidenciou-me  que precisa se apresentar como um “negro de alma branca” em um estrato social em que negro bom é aquele que combate as cotas e nega que exista racismo no país.
A questão das cotas “raciais”, portanto, simboliza quanto racismo ainda há no Brasil. E mostra que a política afirmativa pode começar a miná-lo, ensejando um futuro em que a propaganda ou as novelas, por exemplo, deixarão de mostrar um país artificialmente branqueado como o que detectou recentemente a romancista moçambicana Paulina Chiziane
Segundo Paulina, o povo de Moçambique tem medo do Brasil. Sua declaração foi feita durante o seminário “A Literatura Africana Contemporânea”, que integrou a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura em Brasília.
Ela abordou a presença brasileira em Moçambique via templos religiosos e telenovelas que, em sua opinião, transmitem uma falsa imagem do país. Suas palavras resumem o fenômeno que explica por que a mídia brasileira é tão visceralmente contra as cotas.
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Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Na grande maioria das telenovelas, no topo da representação social estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo (…)
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Fatalmente aparecerá algum racista para lembrar que alguma novela permitiu que algum negro fosse representado de forma diferente, fingindo ignorar que foi uma exceção à regra e que era um personagem isolado, o tal “negro de alma branca” idealizado pela mídia.
Com efeito, a propaganda e as novelas brasileiras são um escândalo. Sempre digo que, se tirarmos o som e as legendas da televisão e mostrarmos apenas as imagens a um estrangeiro pedindo a ele que diga em que país se passam aquelas cenas, certamente dirá que pertencem a algum país nórdico.
O mais doloroso em tudo isso são alguns raros negros ou afrodescendentes bem-sucedidos que se dispõem a atacar iniciativas como as cotas. São os tais “negros de alma branca” aos quais os brancos racistas se referem quando querem apontar aquele negro como merecedor de uma oportunidade por concordar em não denunciar o racismo no Brasil.
Isso tudo ocorre em um país em que a maioria da população descende de negros, o que explica pesquisa Datafolha que detectou que 65% dos brasileiros são a favor das cotas. Aliás, essa pesquisa explica por que o ex-presidente Lula desfruta de popularidade tão grande.
Essa maioria de nosso povo que apóia as cotas, vale explicar, é composta pela quase totalidade dos afrodescendentes e por um contingente reduzido de brancos, segundo as pesquisas.
Os brancos que apoiam as cotas “raciais” se equiparam aos abolicionistas do século XIX que combateram a imprensa e as elites racistas e, assim, conseguiram fazer com que o Brasil deixasse de ser o único grande país em que vigia a escravidão. O mais doloroso de tudo isso é que mais de um século se passou e a guerra ao racismo ainda está longe do fim.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Caça aos diferentes

Muçulmanos e judeus foram assassinados na França.
A morte dos judeus teve repercussão internacional.
A dos muçulmanos até a mídia publicada no Brasil boicotou.
Mostrando mais uma vez que o anti-semitismo continua em pleno vapor.
Seja no Brasil ou nos Estados Unidos e Europa.
Na Europa e Estados Unidos o boicote aos muçulmanos é coisa pensada.
No Brasil é por ignorância mesmo.
Dos que se autodenominam jornalistas, mas ignoram o significado do A,B,C.
E do Alef então, que os céus nos perdoem.
O jornalismo no Brasil sofre de esquizofrenia cultural.
Todo o saber provem dos programas de TV e filmes hollywoodianos.
Com as devidas ressalvas.
O que eu posso sugerir aos muçulmanos - aprendam a se defender.
E aos judeus, que procurem abrigo nos países árabes.
Onde sempre foram bem recebidos e também protegidos.
Quem sempre perseguiu os judeus foram os europeus e estadunidenses.
Quem queimou judeus na fogueira, durante a inquisição e mesmo depois dela, foram os europeus.
Quem colocou os judeus em campos de concentração foram os europeus.
Quem produziu o holocausto foram os europeus.
Por isso digo.
O melhor para os judeus é buscar abrigo em países árabes.
E muçulmanos.
Afinal, no Marrocos, um dos títulos do rei é “Protetor dos judeus”.
E no Iran vivem mais de 30 mil judeus.
Ha mais de dois mil anos e jamais foram perseguidos.
Mesmo agora, quando o sionismo barbariza os palestinos, os judeus iranianos vivem em completa harmonia.
Possuem suas sinagogas, hospitais, escolas e têm ate representantes no parlamento.
Mesmo no esquartejado Afeganistão, há uma Mesquita de Maria, em homenagem à mãe de Jesus Cristo.
Não sei se essa mesquita continua em pé porque os Estados Unidos não deixaram pedra sobre pedra.
Estados Unidos, nação cantada e louvada pela ignorância como exemplo de democracia.
Que o digam os que padecem nas câmaras de tortura no Afeganistão, no Iraque, na Líbia.
Que o digam os civis sírios massacrados pelos terroristas financiados pelos Estados Unidos e Europa.
O melhor exemplo da democracia estadunidense é a Ku Klux Klan.
O melhor para os judeus, se me permitem, é juntar-se aos palestinos.
Apesar do sofrimento, os palestinos sempre perdoaram seus algozes.
É só consultar a História.
No Blog do Bourdoukan