Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

tese da divisão é para chantagear governo

Ichiro Guerra:

Jornalista afirma que "o país reelegeu a presidente Dilma Rousseff e o programa petista, mas as forças derrotadas buscam impor sua agenda"; em um movimento sutil, diz Breno Altman, a oposição tenta emparedar o governo e obrigá-lo a acatar medidas e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas, ou seja, o PSDB; "A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar", explica; "A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquartejá-lo" 

247 – "O terceiro turno já começou". A afirmação é do jornalista Breno Altman, que em nova coluna no 247, não vê, no momento, "tentativas abertas de desestabilização e sabotagem" do governo eleito pelo povo, e sim uma forma "mais sutil, mesmo que possa ser preparatório de manobras mais agressivas", de a oposição "impor sua agenda".

"Trata-se de emparedar o governo e obrigá-lo a acatar medidas e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas", diz ele, em referência ao PSDB do candidato derrotado Aécio Neves. "A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar", explica.

Segundo Altman, "a tese da divisão serve, neste momento, à intenção de encurralar o governo e forçá-lo a adotar caminho que, atendendo as reivindicações do mercado, provoque o máximo desgaste junto aos eleitores e militantes de esquerda".

"A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquartejá-lo", diz ainda. "A esquerda, talvez com alguma timidez, acumula forças para enfrentar os entulhos autoritários, encravados no sistema político e no monopólio da mídia, sobre os quais se mantém a dualidade de poderes que freia a aceleração e o aprofundamento das reformas", completa.

 

TESE DA DIVISÃO É CHANTAGEM CONTRA GOVERNO

 Breno Altman

O terceiro turno já começou. O país reelegeu a presidente Dilma Rousseff e o programa petista, mas as forças derrotadas buscam impor sua agenda.

O instrumento principal, por ora, não são tentativas abertas de desestabilização e sabotagem. O movimento é mais sutil, ainda que possa ser preparatório de manobras mais agressivas. Trata-se de emparedar o governo e obriga-lo a acatar medidas  e nomeações ao gosto do bloco político-social batido nas urnas.

A chave conceitual destas operações está na afirmação de que a nação teria saído dividida do processo eleitoral. Vencedora por margem estreita, só restaria à presidente abraçar teses que atendessem os interesses e as posições de seus adversários. Fora desse diapasão, não teria condições e legitimidade para governar.

A chefe de Estado, nesta lógica, teria que aceitar ser refém dos grupos políticos e corporativos que, sem maioria popular, controlam o poder econômico e de informação, além de reter forte influência sobre o Parlamento, a Justiça e outras instituições do Estado.

O preço para a paz seria o predomínio, mesmo que parcial, da plataforma neoconservadora rejeitada pelo voto. Ainda assim, sem quaisquer garantias de que, feitas as concessões, seriam respeitados eventuais acordos.

Vale lembrar que não há uma só linha na norma constitucional que subtraia prerrogativas de um governante que tenha sido eleito por diferença pouco confortável.

Ou alguém acha que, vitorioso Aécio Neves, estaríamos assistindo pressão equivalente, dos mesmos atores antidivisionistas, para nomear um sindicalista para o Ministério da Fazenda ou cortar juros como principal providência de ajuste fiscal?

A questão é puramente funcional. A tese da divisão serve, neste momento, à intenção de encurralar o governo e força-lo a adotar caminho que, atendendo as reivindicações do mercado, provoque o máximo desgaste junto aos eleitores e militantes de esquerda.

A divisão real do país é de outra natureza, que não pode ser confundida com a decisão democrática e soberana que reconduziu Dilma ao comando da República, dando-lhe mandato uno e legítimo.

Mas é fato que o Brasil vive em dualidade de poderes desde a primeira posse de Lula, em 2003. As forças progressistas detêm o governo nacional, mas sem maioria parlamentar, sob fogo cerrado dos monopólios da comunicação  e com instituições judiciais usualmente cúmplices de manobras oposicionistas.

Como tal impasse pode ser rompido?  Essa talvez seja a principal dúvida de todos os protagonistas.

O campo conservador aparentemente escolheu sua estratégia, com duas variantes.

A primeira está em curso: chantagear a presidente e obriga-la a recuos de peso, desidratando sua liderança política.

A segunda permanece embutida: deflagrar processo de sabotagem e impedimento, a partir de eventuais denúncias de corrupção no caso Petrobrás, com a meta de fazer o governo, o PT e Lula chegarem
estropiados a 2018.

A presidente e o petismo, porém, vivem uma encruzilhada.

Durante doze anos, a busca de governabilidade foi encarada quase exclusivamente como uma tarefa institucional, constituindo alianças parlamentares que pudessem aprovar os projetos do Planalto e proteger o governo da desestabilização.

O arrefecimento da disputa política-ideológica era visto como necessário para facilitar estes acordos, reduzindo conflitos e danos. A militância e os movimentos sociais, sempre fundamentais para as batalhas eleitorais, eram recolhidos à posição de reserva estratégica na hora de governar.

O cenário, no entanto, parece ter mudado sensivelmente. O avanço nas reformas encontra resistência conservadora cada vez mais dura e frontal, contaminando amplos setores centristas da base parlamentar.

Vão se fechando os  espaços para trafegar entre as velhas instituições.

O discurso da vitória de Dilma reflete, de algum modo, a presente situação.

A presidente reeleita falou em diálogo e união, buscando isolar as frações mais radicalizadas da direita e ganhar tempo na reconfiguração de seu governo.

Mas também deu centralidade à proposta de reforma política através de plebiscito popular, sinalizando que é chegado o momento de enfrentar os problemas estruturais.

O presidente do PT, Rui Falcão, foi enfático ao dizer que, sem mobilização popular, não haverá reforma alguma. Não é pouca coisa. Claramente introduz as ruas como elemento imprescindível da governabilidade, o que constitui forte novidade na estratégia petista.

Estamos assistindo, de toda forma, aos primeiros passos de um embate decisivo.

A direita ensaia, com a tese da divisão, um discurso para dobrar e desidratar o governo, antes de esquarteja-lo.

A esquerda, talvez com alguma timidez, acumula forças para enfrentar os entulhos autoritários, encravados no sistema político e no monopólio da mídia, sobre os quais se mantém a dualidade de poderes que freia a aceleração e o aprofundamento das reformas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Com o país dividido, Dilma terá que denunciar a mídia



Rachou, e rachou ao meio. As pesquisas Datafolha e Ibope recém-divulgadas concordam – até numericamente – que Dilma Rousseff e Aécio Neves têm, cada um, metade do eleitorado consigo. Seja em votos válidos, seja em votos totais.

A vantagem numérica de 2 pontos percentuais – portanto, dentro da margem de erro – que os dois institutos deram a Aécio Neves (51% contra 49% de Dilma, em votos válidos) pode muito bem decorrer da preferência que os donos de Datafolha e Ibope – respectivamente, as famílias Frias (dona de fato) e Marinho (dona de direito) – acalentam pelo tucano.

Segundo o Ibope, 4% do eleitorado ainda não sabe em quem votar. Já no Datafolha, são 6%. Poderíamos dizer que, na média, 5% do eleitorado ainda está indeciso. Esse universo de menos de 10 milhões de eleitores irá decidir a eleição.

O que ocorre é que Aécio detém uma vantagem extremamente injusta sobre Dilma. Nos últimos dias, essa mídia, “esquecendo” de todos os escândalos que envolvem o PSDB, dedicou-se exclusivamente a acusar o PT. Sem parar.

Aliás, nos últimos dias um petista e um tucano foram flagrados em aeroportos transportando altas somas em espécie. Como a mídia tratou os dois casos? Escondeu o do tucano e pôs na primeira página o do petista.

Nos jornais, telejornais, rádios, portais de internet, as acusações de corrupção incessantes contra o PT. E o que é pior: com base em informações não confirmadas, sob apuração das autoridades. Na mídia partidária de Aécio, porém, não precisa mais investigação nenhuma: o PT – e, por extensão, Dilma – é culpado.

Todos os casos de corrupção envolvendo o PSDB (escândalo dos trens em SP, entre outros), a crise hídrica em SP, o caso dos aeroportos que Aécio mandou construir em terras de sua família em Minas Gerais, tudo isso é tratado lá no último caderno e nem chega aos telejornais.

Como o eleitorado que irá decidir esta eleição é extremamente pequeno, os ataques da mídia ao PT e a blindagem dessa mídia ao PSDB podem fazer a balança pender para Aécio.

Por mais que o primeiro programa de Dilma no segundo turno tenha começado bem, com um terceiro ator em jogo na disputa (a mídia), a petista não poderá pelear só com Aécio, pois ele poderá muito bem se portar como Marina, fazendo-se de coitadinho, deixando os ataques para Globos, Folhas, Vejas e Estadões.

No primeiro turno, Lula abriu a propaganda eleitoral de Dilma atacando a mídia. Depois, parou. Até porque, no primeiro turno essa mídia chegou a dar notícias desfavoráveis para Aécio ao mencionar, brevemente, o escândalo dos aeroportos.

Agora, porém, não tem mais jeito. Quem assistiu a edição do Jornal Nacional que precedeu o reinício da propaganda eleitoral na tevê e viu o telejornal superdimensionar a vantagem de 2 pontos de Aécio nas pesquisas e martelar acusações sem provas contra o PT, já percebeu que essa situação irá perdurar durante todo o segundo turno.

Dilma, portanto, disputa com Aécio e com a mídia. Dilma não tem um adversário, tem dois. E se tem dois adversários, não pode se defender ou atacar só um deles, por mais que seja injusto uma luta de dois contra uma. Terá, pois, que lutar com ambos.

Como? Dilma tem que denunciar exatamente o que está acontecendo – bombardeio midiático contra si e blindagem midiática de Aécio. Nem mais, nem menos. Afinal, graças às mentiras da mídia e a uma miríade de fatores laterais, o país vive uma situação-limite.

O risco de entregar o país aos banqueiros, à mídia e aos seus despachantes tucanos, em 2014 é o mais alto desde que o PT chegou ao poder. Se Aécio vencer, terá início uma era de perseguições políticas, saque ao patrimônio público, fim das investigações de corrupção contra o governo, entrega da soberania brasileira aos países ricos, sobretudo aos EUA.

Dilma, Lula e o PT não têm que reagir à mídia em defesa de seus interesses eleitorais. Eles têm obrigação de reagir em defesa do povo brasileiro, ora ameaçado por uma coalizão infame do capital financeiro que planeja sugar o sangue deste país até a última gota.


Assista, abaixo, ao primeiro programa de Dilma no segundo turno da eleição presidencial de 2014