Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Declina a influência do Ocidente



No mundo árabe, os Estados Unidos e seus aliados apoiaram com regularidade radicais islâmicos, às vezes para prevenir a ameaça de um nacionalismo secular. Um exemplo conhecido é a Arábia Saudita, centro ideológico do Islã radical (e do terrorismo islâmico). Outro em uma longa lista é Zia ul-Haq, favorito do ex-presidente Ronald Reagan e o mais brutal dos ditadores paquistaneses, que implementou um programa de islamização radical (com financiamento saudita). O artigo é de Noam Chomsky.
O mundo árabe está em chamas, informou a Al Jazeera no dia 27 de janeiro, enquanto os aliados de Washington perdem rapidamente influência em toda a região. A onda de choque foi posta em movimento pelo dramático levante na Tunísia que derrubou um ditador apoiado pelo Ocidente, com reverberações, sobretudo no Egito, onde os manifestantes enfrentaram a polícia de um ditador brutal. Alguns observadores compararam os acontecimentos com a queda dos domínios russos em 1989, mas há importantes diferenças.

Uma diferença crucial é que não existe um Mikhail Gorbachov entre as grandes potências que apoiam os ditadores árabes. Ao invés disso, Washington e seus aliados mantem o princípio bem estabelecido de que a democracia é aceitável só na medida em que se conforme a objetivos estratégicos e econômicos: ela é magnífica em território inimigo (até certo ponto), mas em nosso quintal, a menos que possa ser domesticada de forma apropriada.

Uma comparação com 1989 tem certa validade: Romênia, onde Washington manteve seu apoio a Nicolae Ceausescu, o mais cruel dos ditadores europeus, até que a aliança se tornou insustentável. Depois, Washington aplaudiu sua derrubada, quando se apagou o passado. É uma pauta típica: Ferdinando Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo Hwan, Suharto e muitos outros gangsteres úteis. Pode estar em marcha no caso de Hosni Mubarak, junto com esforços de rotina para assegurar-se de que o regime sucessor não se desviará muito da senda apropriada.

A esperança atual parece residir no general Omar Suleiman, leal a Mubarak e recém nomeado vice-presidente do Egito. Suleiman, que durante muito tempo encabeçou os serviços de inteligência, é desprezado pelo povo rebelde quase tanto como o próprio ditador. Um refrão comum entre os especialistas é que o temor de um Islã radical requer uma oposição à democracia em bases pragmáticas. Mesmo que possa ter algum mérito, a formulação induz ao erro. A ameaça geral sempre foi a independência. No mundo árabe, os Estados Unidos e seus aliados apoiaram com regularidade radicais islâmicos, às vezes para prevenir a ameaça de um nacionalismo secular. Um exemplo conhecido é a Arábia Saudita, centro ideológico do Islã radical (e do terrorismo islâmico). Outro em uma longa lista é Zia ul-Haq, favorito do ex-presidente Ronald Reagan e o mais brutal dos ditadores paquistaneses, que implementou um programa de islamização radical (com financiamento saudita).

O argumento tradicional que se esgrime dentro e fora do mundo árabe é que não está ocorrendo nada, tudo está sob controle, como assinala Marwan Muasher, ex-funcionário jordaniano e atual diretor de investigação sobre Oriente Médio da Fundação Carnegie. Com essa linha de pensamento, as forças consolidadas sustentam que os opositores e estrangeiros que demandam reformas exageram as condições no terreno. 

Portanto, o povo sai sobrando. A doutrina remonta a muito atrás e se generaliza no mundo inteiro, incluindo o território nacional estadunidense. Em caso de perturbação podem ser necessárias mudanças de tática, mas 
sempre com vista a recuperar o controle.

O vibrante movimento democrático da Tunísia foi dirigido contra um Estado policial com pouca liberdade de expressão ou associação e graves problemas de direitos humanos, encabeçado por um ditador cuja família era odiada por sua venalidade. Essa foi a avaliação do embaixador estadunidense Robert Godec em um telegrama de julho de 2009, filtrado por Wikileaks.

Portanto, para alguns observadores os “documentos (de Wikileaks) devem criar um cômodo sentimento entre o público estadunidense de que os funcionários não estão dormindo no posto”, ou seja, os telegramas escoram de tal maneira as políticas estadunidenses que é quase como se o próprio Obama os tivesse filtrando (como escreve Jacob Heilbrunn, em The National Interest).

Os EUA devem dar uma medalha a Assange, assinala um analista doFinancial Times. O chefe de analistas de política externa, Gideon Rachman, escreve que a política externa estadunidense se desenha de forma ética, inteligente e pragmática e que a postura adotada publicamente pelos EUA sobre um tema dado é, em geral, a mesma postura mantida privadamente. Segundo este ponto de vista, Wikileaks enfraquece a posição dos teóricos da conspiração que questionam os nobres motivos que Washington proclama com regularidade.

O telegrama de Godec apoia estes juízos, ao menos se não olhamos mais longe. Se fazemos isso, como reporta o analista político Stephen Zunes emForeign Policy in Focus, descobrimos que, com a informação de Godec em mãos, Washington proporcionou 12 milhões de dólares em ajuda militar a Tunísia. Na verdade, a Tunísia foi um dos cinco únicos beneficiários estrangeiros: Israel (de rotina), Egito, Jordânia – ditaduras do Oriente Médio – e Colômbia, que há muito tempo tem a pior história de direitos humanos e recebe a maior ajuda militar estadunidense no hemisfério.

A prova A de Heilbrunn é o apoio árabe às políticas estadunidenses dirigidas contra o Irã, conforme mostram os telegramas divulgados. Rachman também se serve deste exemplo, como fizeram os meios de comunicação em geral, para elogiar estas alentadoras revelações. As reações ilustram o quão profundo é o desprezo pela democracia entre certas mentes cultivadas. 

O que não se menciona é o que pensa a população...o que se descobre com facilidade. Segundo pesquisas divulgadas em agosto de 2010 pela instituição Brookings, alguns árabes estão de acordo com Washington e com os comentaristas ocidentais no sentido de que o Irã é uma ameaça: 10 por cento. Em contraste, consideram que Estados Unidos e Israel são as maiores ameaças (77 e 88%, respectivamente).

A opinião árabe é tão hostil às políticas de Washington que uma maioria (57%) pensa que a segurança regional melhoraria se o Irã tivesse armas nucleares. Ainda assim, não ocorre nada, tudo está sob controle (como Marwan Muasher descreve a fantasia dominante). Os ditadores nos apoiam: podemos esquecer-nos de seus súditos...a menos que rompam suas cadeias, o que exigiria ajustar a política.

Outras revelações também parecem apoiar os juízos entusiastas sobre a nobreza de Washington. Em julho de 2009, Hugo Llores, embaixador dos EUA em Honduras, informou Washington sobre uma investigação da embaixada relativa a “aspectos legais e constitucionais em torno da remoção forçada do presidente Manuel Mel Zelaya, em 28 de junho”. A embaixada concluiu que não há dúvida de que os militares, a Suprema Corte e o Congresso Nacional conspiraram em 28 de junho, no que representou um golpe ilegal e anticonstitucional contra o poder Executivo. 

Muito admirável, exceto pelo fato de que o presidente Obama rompeu com quase toda América Latina e Europa ao apoiar o regime golpista e desculpar as atrocidades posteriores.

Talvez as revelações mais surpreendentes de Wikileaks tenham a ver com o Paquistão, investigadas pelo analista em política externa Fred Branfman, em Truthdig. Os telegramas revelam que a embaixada estadunidense está bem consciente de que a guerra de Washington no Afeganistão e no Paquistão não só intensifica o sentimento anti-EUA, mas também cria o risco de desestabilizar o Estado paquistanês e inclusive coloca a ameaça do pesadelo final: as armas nucleares poderiam cair em mãos de terroristas islâmicos.

Uma vez mais, as revelações devem criar um sentimento tranquilizador de que os funcionários não estão dormindo no posto (nas palavras de Heilbrun), enquanto Washington marcha inexoravelmente para o desastre.

Tradução: Katarina Peixoto

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Tunísia, Egito, Marrocos...Essas “ditaduras amigas”


Os nossos meios de comunicação e jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos”, Tunísia e Egito, eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? O artigo é Ignacio Ramonet.
Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão. 

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?

“Não havíamos apreciado em sua justa medida...” Em 23 anos...Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país...Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência...) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio...Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação... Democracia ruinosa...

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.

Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.

Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).

Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.

A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.

Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.

No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).

Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

NOTAS

(1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher "La société tunisienne privée de parole" e de Ignacio Ramonet "Main de fer en Tunisie", Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente. 

(2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.

(3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.

(4) http://www.medelu.org/spip.php?article711 

(5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843. 

(6) Ler Ignacio Ramonet, "La poudrière Maroc", Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111 

(7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.

(8) El País, 30 de janeiro de 2011-http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat 

(9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, "Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise", Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret...188096
http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat 

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O fator Fraternidade Muçulmana


A Fraternidade Muçulmana gera medo pânico em todo o ocidente, porque o governo de Mubarak sempre apresentou os “irmãos” como se fossem idênticos à al-Qaeda. Não há sandice maior. A organização opõe-se completamente a qualquer tipo de violência contra civis – o que a põe em campo absolutamente oposto à al-Qaeda. Uma Fraternidade Muçulmana que refute a violência e seja ativa nas políticas civis no Egito pode ser o melhor antídoto contra os fanáticos à moda al-Qaeda. Por outro lado, não parece haver dúvidas de que – com a Fraternidade Muçulmana participando do governo do Egito – o tratado de paz com Israel será renegociado. O artigo é de Pepe Escobar.
Um milhão em marcha pelas ruas do Cairo nessa 3ª-feira, outro milhão em marcha rumo ao palácio presidencial em Heliópolis na próxima “6ª-feira da Partida”. O principal graffiti – escrito também nos tanque Abrams cor caqui, fabricados nos EUA – ainda é “queremos derrubar o sistema”. O exército parece ter escolhido lado, afirmando sempre que “não recorreremos ao uso da força contra nosso grande povo egípcio”. 

Com o preço do barril de óleo ultrapassando a barreira dos US$100 pela primeira vez desde setembro de 2008; o medo cada vez maior de que se interrompa o fluxo de petroleiros pelo Canal de Suez; bancos, escolas e a Bolsa de Valores fechados; comitês populares encarregados da segurança da cidade; policiais queimando os próprios uniformes e unindo-se aos manifestantes; e piquetes de ativistas, manifestantes e blogueiros escrevendo furiosamente em bancadas e bancadas de laptops para distribuir notícias ao mundo (antes de o governo do presidente Hosni Mubarak ter “valentemente” derrubado o último provedor de serviços de internet que ainda funcionava), a revolução egípcia parece aproximar-se do último tempo do jogo. 

A estratégia do Faraó e de seu “sucessor” Omar (o “torturador suave”) Suleiman é usar o exército para intimidar, e depois demonstrar que a rua só conseguirá tingir de sangue o Nilo. Não me parece provável. Mas, sim, essa ditadura militar cruel fará qualquer coisa para manter-se agarrada ao poder. 

Como a rua multiforme do Egito vê a questão, não se trata hoje, como o Wall Street Journal escreve pitorescamente, de “é possível que a fase atual se revele momento feliz para Washington”. As massas da Praça Tahrir (Praça Libertação) que protestam com seus corpos e a própria vida, não poderiam estar menos preocupadas com os EUA – como tampouco estão preocupadas com o tráfego de superpetroleiros para abastecer o ocidente ou com a segurança de Israel. Aqui se trata de Egito, não de EUA. 

No domingo, o presidente dos EUA Barack Obama falou frouxamente de uma “reforma no governo do Egito” – contra a multidão que grita “abaixo o ditador”. Al-Jazeera teve de escrever editorial para lembrar as pessoas de que, por definição, a palavra “reforma” que Obama usara não significa nem jamais significará manter lá o mesmo regime corrupto e repressivo, passado só por rápido banho de loja. 

A situação aqui é de revolução clássica; os poucos que permanecem no topo do governo já não conseguem, como antes, impor sua vontade; os muitos que sempre viveram por baixo recusam-se a continuar dominados como antes. Infinitamente intrigadas, confusas, Washington e capitais européias podem, no máximo, como vocalistas minimalistas, fazer corinho para o som e a fúria que vêm das ruas. As ruas querem vida política e institucional confiável e querem conseguir viver com decência em ambiente menos corrompido. E isso já de provou impossível sob as velhas imutáveis regras do jogo – o sistema do “nosso” ditador apoiado pelo ocidente industrializado. 

Entre outras tolas teorias de conspiração, de que a revolução egípcia seria financiada pelo lobby judeu, pela CIA-EUA, pelo financista George Soros ou por todos os supracitados, a rua egípcia prossegue como se essas entidades sequer existissem, sem querer saber se o Faraó decidirá a favor ou contra “conduzir uma transição ordeira”. A rua só sossegará com passagem só de ida para Mubarak, para talvez abraçar seus amigos da Casa de Saud. Especialmente agora que a rua já viu que, com Suleiman, Mubarak tenta fazer-se de Xá do Irã em 1978 – quando nomeou Shapour Bakhtiar primeiro-ministro (e não funcionou). 

Pergunte à Esfinge 

O complexo caminho à frente aponta para uma aliança civil no Egito, de todos os setores que se opõem ao regime (praticamente todos os habitantes do país) e o componente inevitável, o exército. Enquanto isso, setores do establishment em Washington e a mídia-empresa nos EUA não param de repetir freneticamente que não há condições objetivas para que os radicais islâmicos cheguem ao poder. Bobagens e só bobagens. 

Washington parece estar a um passo de dar luz verde para Mohamed ElBaradei – apoiado pela Fraternidade Muçulmana, esse, sim, fator crucial. Pois nem a Esfinge de Gizé é capaz de adivinhar se tudo isso bastará para satisfazer a rua. 

ElBaradei é elemento de fora, e confiável. Permaneceu fora do país durante os anos mais duros do governo do Faraó. Não é arrivista e defendeu estoicamente suas posições a favor do Irã e contra o governo de George W Bush, na presidência da Agência Internacional de Energia Atômica. ElBaradei, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2005, pode, sim, emergir como uma “ponte”, até que se organizem eleições livres e justas, nova Constituição e nova ordem no Egito. 

Mas nada sugere que ElBaradei venha a implantar política econômica muito diferente da que pregam o Fundo Monetário Internacional/Banco Mundial, a conversa fiada do “ajuste estrutural”, com privatizações as mais ensandecidas, temperadas com o vago mantra de Davos, “a boa governança”. Se a coisa tomar esse rumo, o mais provável é que a rua de enfureça de verdade – outra vez. 

Por enquanto, não há qualquer sinal de que o Egito venha a seguir o caminho do Irã em 1979. No Irã, a esquerda secular encarregou-se do governo pós-revolucionário; no Egito, a esquerda foi dizimada pela repressão. O Irã só se tornou república islâmica meses depois da revolução, depois de um referendo nacional (se houver referendo no Egito, as massas egípcias votarão por república secular). O cenário mais provável e mais positivo é que, para 2012, o Egito aproxime-se mais, em termos políticos, da Turquia. 

Com o quê chegamos à questão mais quente e mais distante de qualquer resposta, que pode incinerar todas as demais questões quentes: qual será o papel pós-revolucionário da Fraternidade Muçulmana [ing. Muslim Brotherhood (MB); em português, também Irmandade Muçulmana]? 

Resgatar os irmãos[1] 

A Fraternidade Muçulmana gera medo pânico em todo o ocidente, porque o governo de Mubarak sempre apresentou os “irmãos” como se fossem idênticos à al-Qaeda. Não há sandice maior. 

A Fraternidade Muçulmana foi fundada por Hasan al-Banna no porto de Ismailia em 1928 – depois se transferiu para o Cairo. A preocupação inicial foi oferecer serviços sociais, construir mesquitas, escolas e hospitais. Ao longo das últimas décadas, a Fraternidade Muçulmana tornou-se a mais importante força política fundamentalista do mundo sunita. É também o maior partido dissidente do Egito, ocupando 88 dos 454 assentos na Câmara baixa do Parlamento. 

A Fraternidade Muçulmana não prega nem apoia a violência – embora tenha-o feito no passado, até os anos 1970s. A aura de violência está relacionada ao legendário Sayyid Qutb, que muitos consideram o pai espiritual da al-Qaeda. Qutb, crítico de literatura que estudou nos EUA, ligou-se à Fraternidade Muçulmana em 1951 e separou-se dela anos depois. 

As ideias de Qutb eram radicalmente diferentes das de al-Banna – sobretudo seu conceito de “vanguarda”, mais próximo das ideias de Lênin que do Corão. Para ele, a democracia parlamentar seria “um fracasso” no mundo islâmico (ao contrário do que pensa a maioria dos egípcios hoje, que lutam por democracia; além disso, a Fraternidade Muçulmana hoje é participante ativa da sociedade civil e política.) Qutb não é sequer considerado pensador islâmico moderno influente; o Islã político hegemônico hoje, personificado na autoridade do imã de al-Azhar no Cairo, refutou impiedosamente o pensamento de Qutb. 

Ao contrário do que diz a propaganda dos neoconservadores dos EUA, a Fraternidade Muçulmana nada tem a ver com os movimentos fascistas dos anos 1930s na Europa, nem com os partidos socialistas (são, de fato, defensores da propriedade privada). Trata-se, sobretudo, de movimento nativista urbano, da classe média baixa, como o define o professor Juan Cole da Universidade de Michigan. Mesmo antes da revolução, a Fraternidade Muçulmana já pregava a derrubada do governo Mubarak, mas por vias políticas pacíficas. 

A Fraternidade Muçulmana no Iraque, fundada nos anos 1930s em Mosul, é hoje o Partido Iraquiano Islâmico, ator político importante que sempre dialogou com Washington. E no Afeganistão, o Partido Jamiat-I Islami nasceu por inspiração da Fraternidade Muçulmana. 

A Fraternidade Muçulmana, é claro, não rejeita nem a tecnologia nem a inovação tecnológica. 

Pode ser vista praticamente por todos os cantos nas ruas da revolução egípcia, mas sempre em atitude cuidadosa e discreta, para evitar o efeito de mostrar-se “na cara deles”. Segundo o porta-voz Gamel Nasser, a Fraternidade Muçulmana vê-se como um setor, dentre vários outros, da revolução egípcia. E a revolução tem a ver com o futuro do Egito – não do Islã. 

Há quem argumente mais uma vez que isso foi o que os mulás disseram em Teerã em 1978/1979. O xá foi deposto, de fato, por virtualmente todos os setores da sociedade, inclusive o Partido Comunista. Depois os teocratas assumiram o controle – com violência. Se se considera a tradição de três décadas, nada autoriza a supor que a Fraternidade Muçulmana possa tentar movimento semelhante àquele. 

É difícil para que viva longe daqui imaginar a brutalidade da máquina de repressão policial/de Estado do governo de Mubarak. O sistema depende de 1,5 milhão de policiais – quatro vezes o número de soldados do exército. Os salários desses policiais são pagos, em grande parte, com o 1,3 bilhão de dólares da “ajuda” que Mubarak recebe dos EUA, e a máquina é usada com extrema brutalidade contra operários e praticamente toda a qualquer organização progressista. 

Esse estado de coisas já existia bem antes de Mubarak. A história terá de interrogar diretamente o fantasma do ex-presidente Anwar Sadat. Sadat construiu uma trifeta, para fazer funcionar suas políticas de intifah: o FMI ajudou-o a construir uma economia exportadora rudimentar; Sadat manipulou a religião, para obter fundos da Arábia Saudita para atacar a Fraternidade Muçulmana; e recebeu bilhões dos EUA para negociar acordos com Israel. A principal consequência inevitável disso tudo foi um estado policial tamanho mamute, dedicado, dentre outras ações repressivas, a destruir totalmente os sindicatos e todas as organizações de trabalhadores. 

Eis o antídoto contra al-Qaeda 

Embora tenha sido violentamente combatida durante as décadas dos governos Sadat/Mubarak, a Fraternidade Muçulmana conseguiu, pelo menos, uma estrutura. Em eleições livres e justas, não há quem duvide que a Fraternidade Muçulmana receberia, no mínimo, 30% dos votos. 

A mídia-empresa global só fez, até agora, visitar a sede da Fraternidade Muçulmana no Cairo, em El Malek El Saleh. O novo presidente da Fraternidade Muçulmana, Mohammed Badie, é homem que se preocupa menos com a arena política e mais com a arena social. Quanto à possibilidade de o Egito vir a transformar-se em Estado islâmico, Badie insiste que, se acontecer, será “pelo desejo do povo”. 

Diferente de Badie, Sherif Abul Magd, engenheiro e professor da Universidade Helwan, e presidente da Fraternidade Muçulmana em Gizé, falou mais, mais eloquentemente, ao jornal italiano La Stampa. Tomou o cuidado de repetir que os manifestantes não devem antagonizar os militares. E enfatizou: “Nosso povo já controla as ruas.” 

De importante, delineou a estratégia da Fraternidade Muçulmana para o estágio seguinte: além de um primeiro-ministro interino, deve haver cinco juízes nomeados para constituir uma comissão presidencial encarregada de revisar a Constituição e, isso feito, convocar eleições para o Parlamento e a Presidência. 

Magd foi claro: “Não há conflito entre Estado islâmico e democracia – mas a decisão é direito do povo”. Washington sabe disso, mas muito a assusta a ideia de que, qualquer que seja a democracia ou o governo, islâmico ou não, no Egito, a Fraternidade Muçulmana não acredita no velho famoso cadáver político conhecido como “processo de paz Israel-palestinos”. Para a Fraternidade Muçulmana, “não há paz possível sem acordo com o Hamás”. 

E sobre a al-Qaeda: “A al-Qaeda, hoje, é invenção da CIA para justificar a guerra ao terror”. Em termos estratégicos, a Fraternidade Muçulmana percebeu que seria contraproducente expor-se agora. Mais adiante, a história será outra.

A rua árabe sabe – e em larga medida aprova – que a Fraternidade Muçulmana sempre se opôs aos acordos de Camp David de 1978; e que não reconhece Israel.

Outro ponto crucial é que a Fraternidade Muçulmana opõe-se absoluta e completamente a qualquer tipo de violência contra civis – o que a põe em campo absolutamente oposto à al-Qaeda. Uma Fraternidade Muçulmana que refute a violência e seja ativa nas políticas civis no Egito de modo algum assustará o ocidente. E, partido político estabelecido do Islã político, a Fraternidade Muçulmana pode ser o melhor antídoto contra os fanáticos à moda al-Qaeda. 

Ao contrário do que cantam as sereias alarmistas da direita, não há nenhum tipo de “fervor islâmico” crescendo no Oriente Médio. A verdade é exatamente o contrário – o que se vê no momento é muita torpeza moral e, para piorar, do lado errado da história. 

A posição de Israel é autoexplicativa – do Jerusalem Post descrevendo a revolução egípcia como “o pior desastre desde a revolução iraniana”, a um colunista do Ha'aretz que protesta contra Obama, que teria “traído um presidente egípcio moderado que sempre foi leal aos EUA e promoveu a estabilidade e a moderação”. 

Quanto ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, telefonou a Mubarak para manifestar sua solidariedade e dizer o quanto lamentava a confusão; em seguida mandou seus próprios policiais atacarem palestinos que se reuniam em manifestação de apoio à democracia no Egito. 

Não parece haver dúvidas de que – com a Fraternidade Muçulmana participando do governo do Egito – governo egípcio independente e soberano – o tratado de paz entre Egito e Israel será renegociado. A Fraternidade Muçulmana favorece a solução de decidir por referendo. Com o que, afinal, chegamos ao coração da questão.

Depois da revolução egípcia, os interesses de EUA e Israel deixam de convergir – e não poderão ser apresentados como convergentes nem com algum artifício de ilusão de ótica. 

Mas a revolução egípcia não é revolução anti-EUA: é revolução contra um regime que os EUA apoiam. Um novo governo no Egito, governo legítimo, soberano, pós-Mubarak, não poderá apresentar-se ao mundo e aos egípcios como estado-fantoche, como governo-fantoche, de Washington – com todas as implicações regionais que daí se inferem. Esse é problema maior do que as capacidades da Fraternidade Muçulmana. Aí se ouvem ecos do coração milenar do mundo árabe, à beira, parece, de uma dramática modificação sísmica. 

[1] Orig. Brothers to the Rescue (esp. Hermanos al Rescate) é organização de exilados cubanos anti-Castro, com sede em Miami, fundada em 1991. Descreve-se como ONG de finalidades humanitárias, que ajuda cubanos que queiram deixar a ilha (de http://en.wikipedia.org/wiki/Brothers_to_the_Rescue) [NTs].

Tradução: Vila Vudu