Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quinta-feira, 29 de março de 2012

Desobediência civil

Discurso pronunciado em Beit Ommar, perto de Hebron
23 de Março de 2012
Nurit Peled-Elhanan
Fonte: CAPJPO-Palestine, CSP
Gostaria de dedicar as minhas palavras à memória de um garoto de cinco anos, Milad, sobrinho de Wael Salame, um dos membros fundadores do movimento dos Combatentes para a Paz, que morreu num autocarro em chamas no cruzamento do colonato judeu de Adam. Os residentes desse colonato não enviaram nenhuma equipa de socorro e recusaram enviar ambulâncias. Ninguém os levou a tribunal. Ninguém os julgou e ninguém os deteve.
A indiferença dos ladrões de terras perante o destino de crianças muito novas queimadas vivas às portas das suas casas não fez as capas de nenhum diário nem de nenhum noticiário televisivo. A razão está em que este comportamento racista dos israelitas não é nenhum scoop! Pelo contrário, ele tem sido a norma desde há mais de 60 anos. Ele faz parte da educação das crianças de Israel. Foi assim que fomos todos educados, na escola, em casa, nos movimentos de juventude, pela literatura, o teatro, a arte e a música.
Mais de vinte leis racistas instauradas no ano passado praticamente sem oposição, a não ser a das suas vítimas, não nos deram uma chicotada como um relâmpago na luminosidade de um céu de verão. Essas leis são a expressão mais impiedosa do establishment entre as normas implementadas há quatro gerações. Já em 1948, o poeta Natan Alterman tinha denegrido a apatia do público israelita perante esses \"incidentes delicados\", cujo verdadeiro nome, acessoriamente, é o assassínio.
O parlamento israelita actual rasgou simplesmente a máscara que dissimulava o rosto do Estado ao reiterar as suas alegações, segundo as quais não haverá mais pretexto. Há décadas que o projecto sionista de colonização e da judaização da Terra de Israel exigiu a eliminação dos palestinianos de uma maneira ou de outra, seja pela lei seja pela espada, e já não há nenhuma necessidade de dissimular esses objectivos supremos e de os disfarçar com palavras vazias a propósito de democracia ou de segurança ou de direitos históricos. Todos nós nos mobilizámos, voluntariamente ou involuntariamente, no projecto de judaização da terra e todos nós aprendemos, desde que somos capazes de aprender, a necessidade absoluta de um Estado judeu com uma maioria judaica na terra de Israel. E a terra de Israel, como todos sabemos, inclui o Estado de Israel, os Territórios palestinianos e ainda muito mais.
Não existe nenhum mapa de Israel que se chame \"o Estado de Israel\". Todos os mapas têm por nome \"a Terra de Israel\". Já há três ou quatro gerações de crianças israelitas que estudaram em livros contendo mapas que mostram os Territórios palestinianos como sendo parte da Terra de Israel; desprovidos de cores, vazios de instituições e vazios de população; uma antiga terra que espera e aspira a ser colonizada por judeus - ou pelo menos por não árabes.
As crianças israelitas aprendem desde há gerações que os seus vizinhos e os cidadãos de Israel e os súbditos do Estado de Israel privados de direitos humanos são apenas um problema demográfico terrificante ou uma ameaça à segurança. Essas mesmas crianças tornaram-se entretanto adultas, o seu sentido da justiça e da fraternidade humana foi enfraquecido pela educação racista e elas foram levadas ao poder e tornaram-se hoje os políticos e os generais que agora declaram abertamente e com a arrogância dos donos todos-poderosos o que outrora foi dissimulado com hipocrisia: o outro rosto do projecto de judaização é a eliminação do povo palestiniano, seja ela com balas de borracha ou com balas sem borracha, com bombas ou com leis. Tal é o princípio fundamental dos estados dos kibbutzim judaicos: cada membro da comunidade obriga-se a contribuir para o projecto sionista em função das suas competências e das necessidades.
Nos anos mais recentes, o projecto de judaização tomou proporções nunca alcançadas, principalmente devido ao apoio não disfarçado e incondicional dos Estados Unidos e dos países ricos da Europa.
Em 2009, o Tribunal Russell sobre a Palestina foi constituído com o objectivo de exigir que os Estados europeus deixassem de ser parceiros no crime de um Estado ocupante e assim, talvez, de evitar uma terceira guerra mundial. Em Outubro de 2011, o Tribunal, sediado simbolicamente na cidade do Cabo, julgou que Israel estabeleceu e institucionalizou um regime de dominação, assimilado a um regime de apartheid tal como ele é definido pelas leis internacionais. Israel pratica a discriminação e a eliminação contra uma nação inteira com critérios racistas e métodos sistemáticos e institucionalizados e, por conseguinte, qualquer colaboração com Israel deve terminar.
A definição legal do apartheid define uma situação na qual três factores coexistem:
1. Dois grupos raciais separados podem ser identificados.
2. Actos de \"desumanidade\" são cometidos pelo grupo dominante contra o grupo dos submetidos.
3. Esses actos são cometidos de forma sistemática com uma administração institucionalizada na qual um dos grupos é dominado por outro.
O Tribunal ouviu testemunhos sobre actos que constituem \"actos de desumanidade\" para com o povo palestiniano pelas autoridades israelitas.
Controlo das suas vidas por meios militares
Prisão arbitrária e detenções administrativas ilegais prolongadas
Violações dos direitos humanos ao negar-se os seus direitos de participar na vida política, económica, social e cultural do Estado.
Os refugiados palestinianos são impedidos de regressar às suas casas e as leis de Israel facilitam o confisco das suas propriedades e a negação dos seus direitos humanos.
Os direitos civis e políticos dos palestinianos são negados e arbitrariamente limitados.
Desde 1948, Israel manteve uma política de ocupação e de colonização e por conseguinte de expropriação das terras palestinianas.
O cerco e o bloqueio da faixa de Gaza são considerados como um castigo colectivo para a população da região.
O ataque de civis por meios militares em grande escala.
A destruição de casas de civis sem nenhuma justificação de segurança.
O grave dano causado à população civil pelo muro de separação na Cisjordânia incluindo Jerusalém oriental.
A evacuação forçada e a destruição e a destruição das casas nas aldeias beduínas não reconhecidas do Neguev.
As práticas sempre actuais de torturas e de maus tratos contra presos palestinianos nas prisões israelitas.
As formas variadas de tratamento cruéis, desumanos e degradantes através das restrições de deslocações que fazem dos palestinianos objecto de humilhações pelos soldados israelitas, e das mulheres palestinianas obrigadas a dar à luz nos check-points; das demolições de casas como uma forma de tratamento desumano e degradante com consequências psicológicas graves sobre os homens, as mulheres e as crianças;
O sistema legal israelita no seu conjunto estabelece um enorme fosso entre os judeus e os árabes. Esta legislação é claramente a favor dos judeus e mantém os árabes palestinianos numa situação de inferioridade.
Todos os elementos acima são definidos pelo Tribunal como crimes contra a humanidade. E o Tribunal estabeleceu que, contrariamente ao carácter evidente da legislação que tinha passado na África do Sul, o direito israelita é caracterizado pela ambiguidade e a inacessibilidade de muitas leis, ordens militares e regulamentos.
Mas sabemos que todas as leis e regulamentos do Estado de Israel, sejam eles ambíguos ou claros, têm por objectivo transformar o rosto desta terra, de uma bela e fértil terra do Médio Oriente, uma terra de verdes colinas, de romãs e azeitonas, num monstruoso conglomerado de colonatos de povoamento supostamente ocidentais, construídos à imagem dos seus residentes: repugnantes e brutais, o seu único objectivo é o de cobrir de asfalto, de aço e de betão todas as colinas que durante muito tempo resistiram às provações do tempo.
A única maneira de lutar contra essa tendência é a rejeição absoluta das leis racistas do Estado ditatorial judeu e especialmente ensinando às nossas crianças o seu direito democrático de dizer não ao mal, não à ignorância, não ao apartheid, não ao serviço no exército de ocupação e não à colaboração com a limpeza étnica.
Devemos recusar o próprio termo de Estado “judeu e democrático” e especialmente suprimir a conjunção “e”, que não é uma conjunção mas um “e” de prioridade. “Judeu” vem em primeiro lugar e só depois vem “democrático”; ou então é um “e” de condição, designando que o Estado só será completamente democrático quando for completamente judeu.
No entanto, vivemos num Estado que não tem absolutamente nada a ver com a democracia. Não crescemos na democracia, ninguém nos ensinou os valores da democracia, fomos educados a pensar que a exploração, a pilhagem, a discriminação e o massacre são a essência mais profunda da democracia. Mas também somos aqueles que têm necessidade de admitir abertamente que vivemos hoje e sempre temos vivido num Estado de apartheid que é um perigo para todos nós, um Estado que educa os seus rapazes e raparigas para uma violência sem limites, para a indiferença perante a agonia de crianças muito novas encurraladas num autocarro em chamas.
Se não fizermos isso, nós também seremos como os colonos de Adam, como os que abandonaram Omar Abu Jariban ferido à beira da estrada até ele morrer de sede, e nós também seremos jogados para a categoria dos criminosos de guerra. Se não agitarmos o estandarte da rebelião agora em muito poucos anos pessoas como nós - se conseguirmos manter-nos como somos - serão lançadas para campos de detenção ou prisões. A liberdade de palavra que já agora está perigosamente limitada será completamente eliminada, e então, como escrevia Sami Chetrit : « o poeta não escreverá mais versos, não cantará mais, já nem chilreará mais. »

A voz dos muitos!

25/3/2012, em Occupy Wall Street
Distribuído por Schlockumentaries [vejam o vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=J2Low2KFSSQ]

O rapaz falou, frente aos policiais, como se vê no vídeo, durante três minutos. Disse [aqui traduzido, na medida do possível e todas as correções são bem-vindas]:

“Acho que vocês também são gente, só que só sabem obedecer ordens. Que ideia mais estúpida é essa de nos tratar como se fôssemos bandidos? Por que vocês não acordam e largam essa vida fodida de vocês? Não entendo como é possível que um homem faça isso da própria vida. Eu, que sou um João ninguém, posso parar aqui e falar o que penso. Vocês, nem isso podem fazer. De onde tiraram a ideia de que nós algum dia desistiremos? Será que nunca passa pela cabeça de vocês que só um passo nos separa? Que é só resolver viver com mais dignidade e, pronto, vocês têm todo o direito de viver melhor, de serem mais felizes? Onde já se viu isso? As pessoas estavam se manifestando sossegadas. Vocês chegaram como doidos, prenderam gente, feriram gente. Que sentido tem isso? E agora? Estamos aqui, outra vez. De que adiantou aquela loucura toda de vocês? Estamos vivendo. E vocês aí, fazendo esse papel idiota, fodendo a vida de vocês. Estou falando com vocês, não porque tenha mais poder que vocês. Mas eu quero falar e falo. E vocês? Será que são tão idiotas que não percebem nem isso? Que eu não sou bandido? Vão com Deus. Beijos nas crianças.”
Dizia-se aqui na ocupação, que o nome dele é Daniel Murphy.
Tem nas mãos uma faixa do movimento Occupy Wall Street. Um segundo antes, estive conversando com ele. Estava sentado no meio fio. Disse que não dormia há 24 horas. Que foi preso duas vezes e espancado duas vezes, naquelas últimas 24 horas. Que saiu de casa para participar da Marcha “Eu sou Trayvon Martin” – que reuniu mais de um milhão de pessoas e converteu-se, no final, em reocupação de Union Square.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

No Golfo, a China pesa para o ‘lado certo da história’

 
 
18/1/2012, M K Bhadrakumar, Asia Times Onlinehttp://www.atimes.com/atimes/China/NA18Ad02.html
Ignorou as ameaças dos EUA nas sanções contra o Irã; superou, numa passada, a divisão entre sunitas e xiitas no Golfo Persa; não deu à Primavera Árabe mais atenção que a mínima necessária; e, simultaneamente, saudou elegantemente os islâmicos. E, tudo isso, em concerto solo. A diplomacia chinesa nada de braçada no Oriente Médio.

O premiê Wen Jiabao está em visita de seis dias à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar, em movimento de diplomacia de primeiríssima qualidade. A China é provavelmente a única grande potência, dentre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que se pode declarar parceira firme de Síria e Irã, por um lado; e também de Arábia Saudita e Qatar, pelo outro lado.

A China está conduzindo seu festim político e diplomático sem desperdiçar recursos e sem se comprometer em atos ou retórica espetaculosos.

Prática e político-ideológica

Mesmo assim, a China está incrivelmente ativa na região, expandindo sua presença de modo consistente e orientado, de olhos postos no futuro distante.

No “sombrio pano de fundo político e econômico da paisagem internacional” hoje – com os EUA em declínio e a Europa em crise – a China viu uma janela de oportunidades particularmente convidativa para apresentar-se como parceira ideal para o Oriente Médio na “tarefa comum de contornar o impacto negativo do mal-estar econômico global”, de tal modo que os dois lados “possam extrair todas as vantagens de suas respectivas potencialidades e, juntas, trabalhar objetivamente para o desenvolvimento comum” – nas palavras da agência de notícias Xinhua, falando da “enorme importância” do tour de Wen pela região.

Os fatos falam por si mesmos. A China comprou um combinado de 1,15 milhões de barris/dia de petróleo dos três países de maioria sunita agora incluídos no roteiro de Wen. Nos primeiros 11 meses de 2011, o fornecimento saudita à China permaneceu no patamar de 45,5 milhões de toneladas de cru – aumento de cerca de 13% em relação ao mesmo período de 2010.

O Qatar é o maior fornecedor de gás natural liquefeito para a China e, nos primeiros 11 meses de 2011 embarcou 1,8 milhões de toneladas, aumento de 76%. O comércio com os Emirados Árabes Unidos ultrapassa $36 bilhões e o reino está surgindo como o principal porto de transbordo para as exportações chinesas que viajam para África e Europa.

Os investimentos chineses em países árabes chegam a $15 bilhões e o relacionamento econômico se está diversificando, agora que a China estimula fortemente seus projetos de exportação. Em troca, o Golfo Persa é hoje o principal investidor estrangeiro da economia chinesa.

Mas a China também está comprando muito petróleo do Irã. Cerca de 22% de todo o petróleo que a China importa é petróleo iraniano. O comércio com o Irã chegou a 30 bilhões em 2010 e deve chegar a $50 bilhões em 2015. A China dá conta de 10% das importações iranianas e é o principal parceiro comercial do Irã.

O número-alvo que China e países árabes haviam definido para o comércio entre eles, para 2015, é $200 bilhões. Mas ao final de 2011 as trocas comerciais já chegavam aos $190 bilhões.

Wen testemunhou na Arábia Saudita a assinatura de um contrato entre a China Petrochemical Corporation (Sinopec) e a saudita Aramco, para construírem, até 2014, uma refinaria que custará $8,5 bilhões, com capacidade para refinar 400 mil barris por dia, em Yanbu, no litoral do Mar Vermelho, ações distribuídas na proporção de 35,5%-62,5% respectivamente. E um memorando de entendimento foi assinado entre a gigante petroquímica saudita SABIC e a Sinopec para construir polo petroquímico em Tianjin.

Os dois países assinaram também acordo de cooperação nuclear, durante a visita de Wen. A Arábia Saudita tem planos para construir 16 reatores nucleares até 2030; e a China investe num plano ambicioso de converter-se em exportadora de usinas nucleares.

Mas a China não está confiando só nos estreitos laços que a ligam ao Irã. Semana passada assinaram-se em Pequim várias declarações que reafirmam a importância do relacionamento Sino-Iraniano. Na prática, ignoraram-se todas as ‘exigências’ dos EUA com vistas a diminuir as vendas de petróleo iraniano e todas as ‘sanções’ recentemente ‘impostas’.

Washington retaliou contra Pequim na 5ª-feira, com sanções contra a chinesa Zhuhai Zhenrong Corp, acusada de estar vendendo petróleo refinado ao Irã. A China imediatamente manifestou “forte insatisfação e firme oposição” ao gesto dos americanos e declarou a decisão de manter “cooperação normal com o Irã em energia, economia e comércio”.
Um fator de estabilidade
Evidentemente, o movimento de Washington foi simbólico, feito às pressas e manifesta algum desespero – a empresa Zhuhai Zhenrong ‘punida’ não tem propriedades nos EUA que possam ser ‘congeladas’ – e visou, de fato, a marcar a chegada de Wen em Riad, chamando a atenção para os laços entre Pequim e Teerã, com quem Riad compete por influência na região.

A questão é que os sauditas estariam supostamente trabalhando ‘a mando’ de Washington, para estreitar laços com a China e arrancar Pequim dos braços de Teerã. Até que Riad e Pequim apareceram com agenda própria, na qual se preservou bom espaço para relações dos dois lados com o Irã.

A projetada refinaria Yanbu será construída na província leste da Arábia Saudita dominada pelos xiitas. A Arábia Saudita está muito preocupada com crescentes agitações nas províncias do leste (que teme que Teerã esteja estimulando) e, mesmo assim, a China está investindo num grande negócio conjunto exatamente ali.

O que ninguém deixará de observar é que os sauditas convidaram os chineses para visitá-los, apesar de todos os fortes laços que unem chineses e iranianos. Obviamente, os sauditas já estão tratando os chineses como fator de estabilidade na região.

Pode-se supor, inclusive, que a China venha a desempenhar algum papel na rivalidade sauditas-iranianos, num cenário futuro. Seja como for, durante sua estadia na Arábia Saudita, Wen bateu sempre na estabilidade regional como fator imperativo. Soou como música aos ouvidos sauditas.

Interessante, também, o que se leu num comentário sobre a viagem de Wen ao Golfo Persa, no China Daily, jornal oficial:

Ao contrário dos países ocidentais, que tendem a tentar impor seus próprios valores e seus sistemas políticos ao resto do mundo, a China interage com o mundo árabe sob os princípios da igualdade, respeito mútuo e busca de mútuas vantagens.

Os EUA, na grande maioria das situações, tende a favor de Israel no conflito com os palestinos, o que enfurece muitos, no mundo árabe. Bem diferente disso, a China sempre apoiou as justas demandas dos palestinos nos fóruns mundiais, o que valeu aos chineses o respeito do mundo árabe. Ao longo da história da amizade sino-árabe, que remonta à antiguidade da ancestral Rota da Seda, a China jamais tentou impor qualquer agenda política exclusiva, à custa do Oriente Médio ou de qualquer outro povo.

A posição da China tem sido cada vez mais bem acolhida no mundo árabe e muitos estados árabes optaram por “Olhar Rumo Leste” em busca de cooperação e apoio na negociação das grandes questões regionais e mundiais.
[1]

Um futuro ‘verde’

Wen disse ao rei Abdullah que a China respeita o sistema político da Arábia Saudita, seu modo de desenvolvimento, sua cultura e suas tradições. Em resposta, o rei Abdullah propôs que se instalasse uma comissão de alto nível para acompanhar a cooperação entre os dois países, nos campos político, econômico, cultural e de segurança. O rei Abdullah disse, pensando cada palavra: “O objetivo da política exterior da Arábia Saudita é manter a paz e a estabilidade regional.”

O rei acrescentou: “Arábia Saudita e China gozam de alto nível de confiança mútua e partilham noções similares sobre várias questões. Os sauditas desejam ampliar as consultas e a coordenação com a China.”

Em resumo, o tour de Wen deu grande destaque à noção de que a China considera-se “parceira” no Golfo Persa. E deve-se prestar atenta atenção, também, ao fato de que a China não está em conflito com o Islã político no Oriente Médio. Em comentário no People’s Daily, semana passada, lia-se:

A Primavera Árabe mudou a cor principal da situação política no mundo árabe e formou um esplêndido cenário “verde” que preocupa – e assusta – o ocidente. Mas não há aí nenhum tipo de “atraso” [desenvolvimento regressivo] no curso da modernização e secularização dos árabes. O que aí se vê é uma retração da excessiva secularização de longo prazo e da secularização dos regimes agora derrubados; e o retorno de culturas tradicionais. Essa aspiração parece ser aspiração de vários povos. Evidentemente, o mundo deveria buscar mentalidade mais compreensiva e mais inclusiva, e dar boas vindas a todos os povos. Afinal de contas, é direito dos povos árabes elegerem os governos que desejem eleger.

A inclusão do Qatar no itinerário de Wen é ao mesmo tempo intrigante e reveladora de algumas das sutilezas do pensamento chinês. Sabe-se que o Qatar é fonte principal do gás natural liquefeito que a China consome. Mas o Qatar também teve papel central na mudança de regime na Líbia e, ao que se sabe, está dedicado a derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria.

A China opõe-se à intervenção ocidental na Líbia e na Síria. Mesmo assim, apesar de Rússia e China terem coordenado seus movimentos no Conselho de Segurança da ONU nos casos de Líbia e Síria, nem por isso Pequim vê-se impedida de buscar parceria energética com o Qatar.

É atitude que contrasta fortemente com as relações entre Rússia e Qatar (hoje em frangalhos) – desde que o embaixador russo foi detido e revistado há algumas semanas no aeroporto de Doha, por agentes de segurança, em movimento que parece ter sido ato deliberado de provocação ou ofensa a Moscou. Em resumo, a China está avançando. Conta com posicionar-se do “lado certo da história” no Golfo Persa.

O Qatar teria gostado de outro comentário publicado no People’s Daily no sábado, que zomba levemente da recente visita do porta-aviões russo “Admiral Kuznetsov” ao porto sírio de Tartus.

O comentário deslocou a impressão predominante sobre o apoio russo à Síria e insistiu que, ao contrário, os russos nunca agem movidos por sentimentos de ‘amizade’ com outros países; que os russos sempre agem exclusivamente em nome de seus interesses estratégicos; e que a atual “postura diplomática” dos russos em relação à Síria visaria essencialmente a “alertar todas as forças políticas, para que não agredissem interesses russos.”

O mesmo comentário dizia que o “Admiral Kuznetsov” poderia ter ganho experiência local, no caso de a Rússia precisar evacuar da Síria cidadãos russos, ou caso tenha de “proteger patrimônio russo”. Em resumo, o comentário (publicado na véspera da viagem de Wen) parece ter sido plantado para sugerir que a coordenação entre russos e chineses no caso da Síria é coordenação limitada; e que os dois países, cada um a seu modo, continuam a trabalhar a favor de seus respectivos interesses.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Agora, é a vez da Síria


30/8/2011, M. K. Bhadrakumar, Voltaire.nethttp://www.voltairenet.org/It-is-going-to-be-Syria-s-turn

Se a semelhança entre os cenários da devastadora mudança de regime no Iraque e na Líbia significa alguma coisa, o futuro da soberania de Bashar al-Assad na Síria pode estar por um fio. O xis da questão – lembro eu – é que mudar o regime na Síria é providência absolutamente central para todos os objetivos dos EUA no Oriente Médio. As coisas estão de tal modo interligadas, que vários objetivos estratégicos podem ser obtidos numa só cajadada, dentre os quais, e importante, diminuir muito a influência de Rússia e China na região. Não é oportunidade que Washington deixe passar.

A imagens que chegavam de Trípoli ontem eram fantasmas estranhamente semelhantes a outros, já vistos. Buzinas soando, Kalashnikovs disparadas para o ar, jovens e crianças andando sem rumo pelas ruas de casas e prédios em ruínas, fotógrafos e cinegrafistas ocidentais vorazmente recolhendo fragmentos de frases em inglês de pé quebrado, da boca de qualquer personagem local disposto a divulgar os imorredouros ideais da Revolução Francesa de 1789 e da Magna Carta. Outro espaço, outro tempo, as imagens eram as mesmas, mas não se consegue localizá-las exatamente. Poderiam ser fiapo de lembrança, que se esgueira dos porões da mente, ou esquecido ou expulso da consciência? Agora, dia seguinte, já não há dúvida: os canais de televisão reprisaram cenas de Bagdá em 2003.

A narrativa que chegava de Trípoli é extraordinariamente semelhante a que recebemos de Bagdá: um ditador brutal e megalômano, que parecia onipotente, é derrubado pelo povo, e uma onda de euforia varre uma terra exaurida. Com as celebrações, o benefactor-cum-liberator ocidental avança para o centro do palco, assumindo seu posto no ‘lado certo da história’. No século 19, teria dito – no Quênia ou na Índia – que carregava sobre os ombros “a carga que cabe ao homem branco”. Hoje, diz que traz avanços ocidentais a quem clama por eles.

Mas é só questão de tempo, antes que a narrativa esvaia-se, e realidades aterrorizantes se imponham. No Iraque, vimos como uma nação que há apenas 20 anos começava a avançar rumo a padrões de desenvolvimento da OECD foi empurrada de volta à miséria e à anarquia.

Golpe de estado

A oposição democrática líbia é mito fabricado pelos países ocidentais e por governos árabes ‘pró-Ocidente’. Há fissuras profundas dentro da oposição líbia, e facções de todos os tipos, de liberais genuínos a islamistas e ao mais claro lumpenproletariat. E há as divisões entre tribos. As disputas internas entre as várias facções parecem receita para outra rodada de guerra civil, enquanto facções que não têm nem legitimidade nem autoridade disputam o poder.

A dimensão dessas fissuras apareceu muito clara, mês passado, quando o comandante-em-chefe Abdul Fattah Younes foi arrancado do front sob falso pretexto, afastado de seus guarda-costas e brutalmente torturado e morto pelos ‘rebeldes’ militantes de uma facção islamista.

A imprensa ocidental começou a discutir abertamente o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que arquitetou a intervenção e novamente interveio para desequilibrar o poder bélico contra Muammar Gaddafi. A ‘revolução’ mais parece golpe de estado instigado por Grã-Bretanha e França. Mesmo assim, a aliança ocidental precisou de terríveis longos seis meses para levar seus ‘rapazes’ até Trípoli. Gaddafi ainda os mantém ocupados, depois de sua saída em grande estilo. A espantosa verdade é que cabe a Gaddafi decidir quanto parar de lutar, apesar de ter homens e equipamento para prolongar por bom tempo o atual desafio.

O que Gaddafi decida fazer nas próximas horas terá grande influência sobre o acontecerá depois. Se haverá pesado derramamento de sangue, provavelmente haverá vingança dos vitoriosos sobre os vencidos.

Em termos políticos, a queda iminente de Gaddafi não implica vitória da oposição. Sem o apoio tático da OTAN, a oposição teria sido derrotada. A grande questão, portanto, é que papel terá a OTAN, na Líbia, no futuro. E há também a questão de se, agora, a OTAN dirigirá suas atenções à Síria.

A OTAN cerca (e ocupa) o mundo árabe

Cumprida com sucesso a missão de derrubar o governo Gaddafi na Líbia, seria de esperar que OTAN deixasse o teatro líbio. A Resolução n. 1.973 da ONU foi violentada. Mas que ninguém espere a retirada da OTAN. O leitmotif da intervenção ocidental na Líbia foi o petróleo líbio.

Movimento recente de Gaddafi, de aproximar-se dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) e trazê-los para o setor líbio de petróleo, obviamente ameaçou os interesses ocidentais.

A retórica pró-democracia que emana de Londres e Paris sempre soou como toada oca. A intervenção da OTAN na Líbia extrapolou os limites da legislação internacional e da Carta das Nações Unidas. A OTAN está hoje na ridícula posição de ter de extrair a legitimidade necessária para permanecer na Líbia, dos mesmos sinistros elementos que subiram ao palco como forças ‘democráticas’, mas não têm apoio popular – sob o pretexto de que ainda há trabalho a fazer.

Há, sim, ainda, trabalho a fazer. Pode ser, outra vez, do começo ao fim, o Iraque e o Afeganistão. Mais cedo do que se supõe, aparecerá resistência contra a ocupação estrangeira. As tribos líbias têm fama na história e no folclore da resistência. Por outro lado, um grande paradoxo da geopolítica é que quanto mais se aprofunde a anarquia, mas a ocupação encontra pretexto ideal. A história da Líbia não será diferente da de Iraque e Afeganistão.

A intervenção ocidental na Líbia introduz novos padrões na geopolítica do Oriente Médio e África. Levou a OTAN até o leste do Mediterrâneo e para dentro da África. É parte essencial da estratégia dos EUA pós-Guerra Fria, para converter a aliança transatlântica em organização global com capacidade para atuar nos ‘pontos quentes’ globais, com ou sem autorização da ONU. Não há dúvida alguma de que, no ‘novo Oriente Médio’, a OTAN terá papel de pivô.

É o que já se ouve, com ecos de horripilar, na fala do vice-primeiro ministro britânico Nick Clegg, à primeira vista, sobre a Líbia: “Quero deixar bem claro que a Grã-Bretanha não dará as costas aos milhões de cidadãos dos estados árabes que tentam abrir suas sociedades em busca de vida melhor.” Mas... e se estivesse falando da Síria? Com certeza absoluta, Clegg não estava oferecendo serviços de ‘abertura’ aos cidadãos árabes das sociedades de Arábia Saudita, Bahrain ou Iêmen, para dar às tribos que lá vivem condições de vida europeia moderna.

Com a operação líbia aproximando-se do término, todos os olhos voltam-se para a Síria. O Wall Street Journal especula: “O sucesso dos líbios afeta a rebelião potencialmente mais importante na Síria (...) Já há sinais de que a Líbia inspira os rebeldes que tentam depor [Bashar al] Assad.”
[1] Mas acrescenta o detalhe, sem o qual a ideia propagandística não estaria devidamente proposta: “Há diferenças cruciais entre Líbia e Síria, e será difícil replicar em Damasco o modelo da revolução líbia.”

Apostas altas na Síria

Sim, mas a mente ocidental é famosa pela capacidade de inovação. Não há dúvidas de que a Síria está no coração do Oriente Médio e conflitos que irrompam ali quase com certeza engolfarão toda a região – inclusive Israel e, possivelmente, também o Irã e a Turquia.

Por outro lado, os movimentos coordenados do ocidente nas últimas semanas ampliando sanções contra a Síria, são muito semelhantes ao que se viram no prelúdio da intervenção na Líbia. Estão em andamento esforços sustentados para criar uma oposição síria unificada. Semana passada, encontro na Turquia – o terceiro em sequência – finalmente elegeu um ‘conselho’ que ostensivamente representaria a voz do povo sírio. Evidentemente, está em construção, cuidadosamente, um ponto focal, que, em momento conveniente, poderá ser cooptado como do interventor ocidental democrático que representaria a Síria. O apoio da Liga Árabe, para funções de folha de parreira, também está disponível. Os regimes árabes ‘pró-ocidente’ – autocracias – reapareceram à frente da campanha ocidental, como portadores do estandarte da representatividade na Síria.

Pode-se argumentar que a parte mais difícil seria obter mandado da ONU para intervenção ocidental na Síria. Mas a experiência líbia mostra que sempre é possível conseguir um álibi. Para isso, pode-se confiar na Turquia: quando há envolvimento da Turquia, é possível invocar o Estatuto 5 da OTAN.

O xis da questão é que é imperativo derrubar o governo da Síria, para que a estratégia dos EUA no Oriente Médio possa avançar, e Washington não aceitará obstáculos que algum dos BRICS crie, porque o que está em jogo é importante demais. Estão em jogo a expulsão, de Damasco, da liderança do Hamás; o rompimento do eixo sírios-iranianos; o isolamento do Irã, com o correspondente estímulo para derrubar o governo iraniano; enfraquecer e degradar o Hezbollah no Líbano; e reconquistar a dominação estratégica de Israel sobre todo o mundo árabe.

Claro que, na raiz disso tudo, está o controle sobre o petróleo, o qual, como disse George Kennan há 60 anos “é recurso nosso, não deles [dos árabes]”, considerado crucial para manter qualquer esperança de prosperidade sustentada do mundo ocidental. E ria de quem disser que governos ocidentais e seus cidadãos empobrecidos já não teriam apetite para guerras.

Finalmente, tudo isso implica, em termos geopolíticos, a reversão de qualquer influência que russos e chineses tenham obtido no Oriente Médio.

Já está em operação uma sutil propaganda ocidental que pinta Rússia e China como obstáculos à derrubada de governos na região –, porque estariam ‘do lado errado da história’. É esperta virada ideológica na muito bem-sucedida jogada-padrão da Guerra Fria, que jogou o comunismo contra o Islã.

A linguagem corporal nas capitais ocidentais não deixa dúvidas: de modo algum os EUA deixarão escapar a oportunidade que veem hoje, para eles, na Síria.



[1] 23/8/2011, Wall Street Journal, “Lybia and the Arab Spring”, em http://online.wsj.com/article/SB10001424053111903461304576524701611118090.html

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Teste: adivinhe o país!

 Moisés Naím, Folha de S. Paulo  
A fúria das ruas se tornou contagiosa, e a indignação popular se globalizou; é impossível diferenciar as fotos

Hoje começamos com um teste. Selecione o país de onde vem a seguinte notícia: "Nas últimas semanas, ruas e praças foram tomadas por milhares de pessoas que protestam contra o governo. Em alguns lugares, os protestos se tornaram muito violentos". Os países entre os quais você pode escolher são: Azerbaijão, Chile, China, Espanha, Filipinas, Grécia, Indonésia, Israel, Portugal, Reino Unido, Rússia, Tailândia.

A resposta é fácil: em todos. E, é claro, a lista poderia incluir Bahrein, Egito, Jordânia, Marrocos, Líbia, Síria, Tunísia e Iêmen, entre outros.

Este ano começou com a Primavera Árabe e continuou com o verão furioso. A fúria das ruas se tornou contagiosa, e a indignação popular se globalizou. É impossível diferenciar uma foto de jovens enfrentando a polícia em Santiago do Chile de outra foto mostrando a mesma imagem em Londres. Ou uma que mostra os indignados acampados na Porta do Sol, em Madri, de outra com as barracas de campanha dos milhares de manifestantes nas praças de Tel Aviv.

É tentador procurar uma mesma explicação para todos esses protestos. Embora seja fato que a má situação econômica, a desigualdade e a falta de oportunidades para os jovens estejam presentes em muitos deles, é mais verdadeiro ainda que cada um desses protestos é movido por forças muito próprias.

Os jovens chilenos saem às ruas porque querem educação melhor; os ingleses, porque querem roubar um aparelho de TV. Os israelenses protestam contra a falta de moradia, e os indignados espanhóis porque... não sei bem por quê.

Por tudo. No Reino Unido, a discussão pública sobre as causas dos saques é especialmente reveladora. Cada um tem uma explicação diferente: famílias fracas e desfeitas, ineptidão policial, imigração, multiculturalismo, discriminação racial, as políticas sociais, os cortes orçamentários, a desigualdade econômica, a tolerância diante dos comportamentos antissociais, os defeitos do sistema de ensino, a overdose de BlackBerries e redes sociais e muito mais. Essa variedade de explicações significa que ninguém entende a origem dessa repentina explosão de violência nas ruas.

Mas, embora não saibamos o que aconteceu nesta semana no Reino Unido, contamos com uma análise rigorosa e recente da instabilidade social que houve na Europa entre 1919 e 2009. Jacobo Ponticelli e Hans-Joachim Voth, da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, acabam de publicar um ensaio fascinante em que, utilizando uma enorme base de dados sobre 26 países europeus, constatam que, nesses 90 anos, "os cortes nos gastos públicos elevaram significativamente a frequência de distúrbios, marchas antigoverno, greves gerais, assassinatos políticos e tentativas de derrubar a ordem estabelecida".

Não constitui surpresa, mas é bom que alguém o tenha comprovado cientificamente.

Assim, considerando que os cortes nos gastos públicos já se tornaram inevitáveis em muitos países, já sabemos o que devemos esperar. A fúria das ruas deste verão vai se prolongar. São afortunados (e poucos) os países que a poderão evitar.

@moisesnaim

Tradução de CLARA ALLAIN


Leia mais em: O Esquerdopata
Under Creative Commons License: Attribution

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

TRÊS DIAS QUE ABALARAM O MUNDO

** Presidente Dilma Rousseff e direção da CUT reunem-se no próximo dia 17 para discutir agendas de interesse mútuo diante da crise mundial** reservas brasileiras atingem US$ 350 bilhões** ministros da Fazenda dos países da Unasul reunem-se nesta sexta-feira em Buenos Aires para apressar medidas de integração que protejam a economia sulamericana da longa crise internacional.
Domingo, 6 de agosto, Tel Aviv: 350 mil israelenses protestam nas ruas do país por melhores condições de vida. Segunda- feira, 7 de agosto, Londres: distúrbios sociais iniciados nos subúrbios pobres transformam-se em explosão viral  que envolve milhares de jovens em diferentes pontos do país. Terça-feira, 8 de agosto, Santiago: 150 mil estudantes vão às ruas em defesa de uma reforma educacional  que universalize o ensino público, gratuito, de qualidade.  O que interliga esses levantes quase sincronizados em lugares tão díspares, antecedidos de rebeliões massivas que irromperam como que abruptamente das areias dos países árabes e da modorra social em outras partes do mundo? A mera coincidência do calendário?  Certamente não. A resposta  mais próxima talvez tenha que ser buscada na percepção difusa mas crescente, enraivecida em alguns casos, consciente em outros, da brutal desigualdade herdada  do ciclo de supremacia das finanças desreguladas -- o ciclo dos bancos, o dos endinheirados, das corporações invisíveis e ubíquas ao mesmo tempo.  Sejam quais forem as denominações sedimentadas no discernimento popular elas guardam aderência consistente com a abrangência intolerável de uma espiral do privilégio que consolidou duas humanidades socialmente  imiscíveis nas últimas décadas. Em quase todos os países, e na maioria das grandes cidades, de um lado, derrama-se a riqueza num grau de ostentação jamais registrado na história; de outro, o bem-estar social e sua contrapartida em subjetividade, dissolvem-se em sucessivas ondas de saque, desregulamentação e delinqüência institucional  contra o patrimônio público, os direitos e valores que  enlaçam a convivência compartilhada. No  crepúsculo turbulento do ciclo, a ganância em fuga  ameaça agora  esfarelar os últimos centímetros de chão firme de vidas  expostas às intempéries de toda sorte. E a tal ponto encurraladas por dentro e por fora em sua precariedade estrutural que só lhes resta uma fresta: as ruas. 
(Carta Maior; 6º feira, 12/08/ 2011)

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Para os EUA, talvez já seja tarde demais. O Estado de Segurança Nacional e o poder das corporações já são tão extensivos que até a Constituição dos EUA já está derrotada. Há nos EUA 2 milhões de norte-americanos encarcerados...



10 ideias para que as novas democracias árabes nascentes
consigam evitar os erros dos EUA

O Prof. Juan Cole publicou hoje em seu blog “Informed Comment”, uma carta aberta aos árabes: “10 ideias para que as novas democracias árabes nascentes consigam evitar os erros dos EUA”
(em http://www.juancole.com/2011/07/10-ways-arab-democracies-can-avoid-american-mistakes.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+juancole/ymbn+(Informed+Comment )
Várias daquelas ideias não são novidade no Brasil (o voto obrigatório, por exemplo, geraria melhor democracia que o voto facultativo; marcar eleições aos domingos ou tornar feriados os dias de eleições, também (“nos EUA, os ‘barões ladrões’ marcavam eleições em dias de trabalho, para que os trabalhadores não votassem”); separar estado e religião, idem; alistamento eleitoral obrigatório, idem; manter exércitos de defesa, mais que de ataque, idem. Algumas são mais fáceis de dizer, que de fazer (“não permitam que os judiciários se politizem”, “cuidem de garantir todo o poder aos sindicatos de trabalhadores” e “criem leis que impeçam os monopólios”, por exemplo).

Mas uma delas – não por acaso a primeira da lista – essa, sim, é receita garantida para democracia MUITO melhor que a dos EUA e do Brasil:

“1. As campanhas políticas contemporâneas nos EUA dependem pesadamente de tempo comprado às redes comerciais de televisão. Na Grã-Bretanha os anúncios de candidatos por televisão são controlados; na Noruega são completamente proibidos. Considerem a possibilidade de proibi-los completamente. Mas, decidam o que decidiram, proíbam, por lei, que os canais privados de televisão sejam pagos para exibir anúncios de campanhas eleitorais. Os custos dos anúncios eleitorais por televisão correspondem a 80-90% dos custos de uma campanha presidencial nos EUA. A próxima campanha eleitoral custará, a cada candidato, 1 bilhão de dólares.

O único modo pelo qual alguém pode aspirar a ser eleito é arrendando-se aos bilionários e às grandes empresas e corporações. O povo não tem poder algum para eleger seja quem for, vitimizado pelos ultra-ricos que, nos EUA, já capturaram toda a ‘mídia’, e acaba por eleger o candidato menor pior. Considerem a possibilidade de proibir anúncios pagos a redes comerciais de televisão nas campanhas eleitorais; imponham regras e sanções pesadas, porque, se a coisa ficar só na lei, os muito ricos sempre comprarão, para seu uso exclusivo, além das campanhas e candidatos, também os presidentes, deputados, senadores etc.”

E o Prof. Cole conclui:

“Se aplicarem a regra n. 1, acima, para manter o ‘big money’ longe das campanhas eleitorais, terão boa chance de combater as práticas monopolistas, Hoje, os EUA são governados por um pequeno número de semimonopólios, e o Departamento de Justiça quase nada pode fazer contra eles, porque, de fato, os monopólios elegem, pela televisão e pelos jornais, os candidatos que devem regular os monopólios....
Para os EUA, talvez já seja tarde demais. O Estado de Segurança Nacional e o poder das corporações já são tão extensivos que até a Constituição dos EUA já está derrotada. Há nos EUA 2 milhões de norte-americanos encarcerados, como num gigantesco gulag, muitos por crimes pequenos, ou pela cor da pele. Ultimamente, não fazemos outra coisa além de guerrear em terras distantes, nossos jovens mandados para morrer (e matar) longe, por ação de um ou outro interesse econômico jamais expresso com clareza. Somos revistados nos aeroportos, onde policiais nos veem nus. Nossos telefones são grampeados. A internet é censurada. Os trabalhadores dos EUA já praticamente não têm nenhum direito democrático significativo e perderam, recentemente, até o direito ao atendimento público de saúde. A luta contra os interesses da indústria da saúde privada enfureceu os bilionários, e os levou a inventar ‘movimentos’ apalhaçados como o “Tea Party”, que nada mais são que a fachada que se vê de gente como os irmãos Koch. Nunca ouviram falar dos irmãos Kock? Pois se não tomarem as medidas que sugiro, vocês logo conhecerão versões árabes daqueles dois.” Sobre os irmãos Kock, ver “Os irmãos bilionários que comandam a guerra contra Obama”, 30/8/2010, Jane Mayer, The New Yorker (em português, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/09/os-irmaos-bilionarios-que-comandam.html)
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Os EUA têm de pôr fim à guerra ilegal contra a Líbia

6/7/2011, Dennis Kucinich, Guardian, UK
http://www.guardian.co.uk/profile/dennis-kucinich
Dennis Kucinich é deputado pelo Partido Democrata dos EUA,
representante do 10º distrito eleitoral de Ohio. Está no oitavo mandato.
Essa semana, apresento projeto de lei ao Congresso dos EUA, que porá fim ao envolvimento militar dos EUA na Líbia, pelas seguintes razões:

Primeiro, porque a guerra contra a Líbia é ilegal pelos termos da Constituição dos EUA e de nossa lei “War Powers Act”, porque só o Congresso dos EUA tem competência para declarar guerra e o presidente não conseguiu demonstrar que a Líbia representasse qualquer risco iminente aos EUA. O presidente ignorou inclusive a opinião de seus principais conselheiros legais no Pentágono e o Departamento de Justiça, que lhe demonstraram que a aprovação pelo Congresso era indispensável antes de os EUA bombardearem a Líbia.

Segundo, porque a guerra chegou a um impasse. Não é guerra que possa ser vencida, sem que a Líbia seja ocupada por terra por soldados da OTAN, o que configurará invasão da Líbia.

Toda a operação foi terrivelmente mal pensada desde o início. A OTAN apóia uma oposição baseada em Benghazi (cidade localizada no nordeste do país, região rica em petróleo), mas não há nenhuma prova de que aquela oposição tenha o apoio da maioria dos líbios.

O grupo de oposição Frente Nacional para a Salvação da Líbia (e que se suspeita que tenha sido apoiado pela CIA nos anos 1980), jamais teria iniciado uma guerra civil contra um governo líbio que sabia que jamais poderia derrotar, se não contasse com o apoio de massiva campanha aérea da OTAN e, agora, dado que isso não bastou, espera contar soldados da OTAN que invadam o país, por terra.

As ações levianas daquela oposição, encorajadas por interesses políticos, militares e da inteligência ocidentais, criaram a grave crise humanitária que, então, passou a ser usada como justificativa para a campanha de guerra da OTAN, contra a Líbia.

Terceiro, os EUA não têm dinheiro para sustentar aquela guerra. O custo da missão, para os EUA, deverá, em breve, superar a casa do 1 bilhão de dólares – e dentro do país enfrentamos cortes brutais nos serviços públicos devidos aos cidadãos norte-americanos.

Não surpreende que a maioria dos Republicanos, Democratas e independentes dessa Casa tenham a mesma opinião: que os EUA não podem continuar envolvidos na guerra da Líbia.

Essa guerra tem destino trágico. Invadir a Líbia seria completar o desastre. A OTAN já está fora de controle e serve-se de uma Resolução da ONU que visaria a proteger civis, como frágil pretexto para prosseguir em missão não autorizada de derrubada de um governo mediante emprego massivo de violência.

Numa palavra, o comandante da OTAN deve ser responsabilizado por inúmeras violações da lei internacional. Na tentativa injustificável de manter a guerra civil, a França, que é membro da OTAN, e o Qatar, aliado da coalizão, já admitiram que enviaram armas à Líbia – o que configura confessada violação do embargo de armas, que a ONU impôs àquele país.

No final, a principal vítima desse jogo entre nações será a legitimidade da ONU, de suas resoluções e mandados, e a lei internacional. Essa situação é insustentável. A proibição de que se forneçam armas à Líbia tem de ser aplicada, não desrespeitada pelos países membros da OTAN.

O apoio ilegal e contraproducente dos EUA a essas ações militares deve cessar imediatamente.

O Congresso dos EUA tem o dever de cortar todos os fundos que sustentam essa guerra, porque não há solução militar possível na Líbia. É indispensável iniciar negociações sérias em busca de uma solução política que ponha fim à violência e crie ambiente favorável para negociações de paz que visem a apoiar as aspirações legítimas e democráticas do povo. Uma solução política só será viável quando a oposição líbia entender que pôr e tirar governos do poder é privilégio do povo líbio, não da OTAN.
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Lula no Egito pós-Mubarak

Lula fará palestra no Egito

O ex-presidente estará no país árabe na próxima terça-feira. Ele vai participar de um fórum sobre oportunidades abertas após a queda do ditador Hosni Mubarak.
Alexandre Rocha alexandre.rocha@anba.com.br
São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai ao Egito dar uma palestra na próxima terça-feira (12). Segundo sua assessoria, ele participará de um evento chamado Jobs.Now: Employment in Post-Revolution Egypt (Empregos.Agora: Trabalho no Egito Pós Revolucionário, em tradução livre), que será realizado na Biblioteca de Alexandria.

O tema da apresentação do ex-presidente, de acordo com sua assessoria, será "Transformando a sociedade: uma visão de desenvolvimento econômico e social equilibrado (o caso do Brasil)". O fórum é organizado pela Fundação Nebny, que, segundo seu site na internet, é formada por jovens que participaram dos protestos que culminaram com a queda do ditador egípcio Hosni Mubarak, em fevereiro.

O objetivo do encontro, de acordo com o site da Biblioteca de Alexandria, é reunir personalidades das áreas política, econômica e social para discutir o futuro do Egito pós-Mubarak. O fórum na cidade mediterrânea terá duração de dois dias e vai contar também com a participação do economista norte-americano Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel.

Além do fórum, outros eventos vão ocorrer no Egito até o dia 18, como parte do festival Egypt Now. A programação inclui shows de música, feira de artesanato, turismo e negócios e encontro de organizações não governamentais. Além de dar destaque às oportunidades abertas com a mudança de regime, as atividades têm por objetivo incentivar o turismo, setor que sofreu com os protestos.

Depois do Egito, Lula deve ir à Tunísia, país que passa também por um momento de transição política. O ex-presidente tem tido uma agenda internacional cheia. Ele esteve na África na semana passada, na Cúpula da União Africana, na Guiné Equatorial, e em Angola. Esta semana ele visitou o Chile, onde se encontrou com o presidente Sebastián Piñera

http://www.anba.com.br/noticia_diplomacia.kmf?cod=12085051

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Democracia’ à moda EUA-Obama... para fazer negócios e neutralizar os pobres

8/6/2011, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/06/2011689456174295.html
Joseph Massad é professor associado de História Intelectual e Política Árabe Moderna
na Columbia University em Nova York.
Por décadas durante a Guerra Fria, a retórica do poder imperial dos EUA e Europa Ocidental insistia que promoveria a democracia pelo mundo. De fato, na medida em que o modelo soviético tornou-se atraente para muitos países na Ásia e África (para nem falar da América Latina) que precisavam livrar-se do jugo do colonialismo da Europa Ocidental, o sistema de apartheid dos EUA, conhecido como “Leis Jim Crow”, ou Leis de Segregação Racial, cada vez menos podia ser tomado como exemplo a seguir, por quem acabava de livrar-se do suprematismo racial europeu, especialista em justificar o colonialismo. Como se sabe bem, essa foi a causa que obrigou os EUA a começar a pôr fim ao seu sistema de apartheid, processo que começou no famoso processo “Brown vs o Comitê de Educação” em 1954, a partir do qual teve se iniciou a des-segregação nas escolas do sul dos EUA.

Aquela ação dos EUA pelo mundo visava a desqualificar o direito a autodeterminação recém conquistado pelos povos da Ásia e da África e apareceu mascarada sob o slogan de uma “democracia ocidental” que combateria o “comunismo totalitário”. Essa ação dos EUA deixou rastro de milhões de assassinados pelos EUA e aliados (começando na Coreia e chegando ao Congo, Indonésia, Vietnã, Cambodia e Laos, e que foi da Guatemala ao Brasil, Argentina, Uruguai, El Salvador e Chile, além de ter deixado mortos também na África do Sul e no Oriente Médio). Na última década, as invasões injustificáveis, pelos EUA, ao Iraque e Afeganistão pouco alteraram nessa recorrente tendência antidemocrática.

Apesar disso, os que apóiam a política exterior dos EUA no front ‘democrático’ sempre evocam duas importantes vitórias daquela política: o fim da União Soviética com a consequente ‘democratização’ da Europa Oriental; e o fim do apartheid na África do Sul. Em 2011, os EUA esperam que suas políticas, nesses dois locais, outra vez os guiem na direção de obter resultados semelhantes àqueles, nos levantes do mundo árabe que não consigam esmagar.

Lucros e empobrecimento

As populações do bloco oriental gostariam de manter os ganhos econômicos do período comunista, e acrescentar-lhes as vantagens da democratização. Mas os EUA imediatamente lhes venderam a ilusão da “democracia ocidental” como máscara para encobrir o empobrecimento massivo imposto pelos EUA e o desmonte de toda a estrutura de bem-estar social da qual aquelas populações se haviam beneficiado por décadas.

Assim, em apenas poucos anos, mediante o que Naomi Klein chamou de “A Doutrina do Choque”, a Rússia converteu-se, de país onde menos de 2 milhões de habitantes viviam abaixo da linha de pobreza, em país onde 74 milhões de seres humanos vivem na miséria. Depois da Rússia, Polônia e Bulgária foram empurradas pela mesma trilha. O número de bilionários aumentou, como aumentou a margem de lucro das corporações norte-americanas no ex-bloco oriental, com a ajuda de ativas organizações imperiais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. E os EUA, sob pressão internacional, fecharam um negócio que pôs fim ao apartheid político na África do Sul.
Se os povos do bloco oriental tiveram de sacrificar seus estados de bem-estar e a própria sobrevivência, em troca da arrasadora pilhagem de seus países por um capitalismo à moda da Máfia, os sul-africanos foram engambelados com uma ‘democracia’ política em troca de um apartheid econômico ainda mais intenso e a rendição total da soberania econômica do país. Enquanto a classe empresarial tornou-se muito pouco racialmente diversificada (como, desde os anos 1970s, os EUA), os grupos mais empobrecidos mantiveram-se racialmente uniformes. A África do Sul passou a carregar o peso de dívidas gigantescas e assinou tantos acordos e protocolos econômicos que, hoje, nem pode redistribuir a propriedade privada racializada do país (protegida pela Constituição), nem tem como aumentar salários, esmagada pelas regras do FMI, que insiste no arrocho salarial como ‘política’ econômica. A pobreza massivamente racializada no país só aumentou o apartheid econômico, sob a máscara do ‘fim’ do apartheid político.
No Oriente Médio, os acordos de Oslo, assinados mais ou menos no mesmo momento em que a ‘democracia’ à moda dos EUA estava sendo imposta na Europa Oriental e na África do Sul, foram ainda piores. A Autoridade Palestina tratou (seguindo instruções dos EUA e de Israel) de desmobilizar a sociedade civil palestina, muito fortalecida depois da Primeira Intifada. Organizações ocidentais não governamentais brotaram por todos os lados.

As ONGs cooptaram a intelligentsia, os tecnocratas e praticamente todos os ativistas, que foram postos a serviço de uma agenda ocidental que converteu essas ONGs estrangeiras em nova “sociedade civil” local, enquanto governos ocidentais financiavam a corrupta Autoridade Palestina que continuou a colaborar com a ocupação israelense. A miséria reina hoje absoluta em grande parte da Cisjordânia e em toda a Faixa de Gaza e continua a destruir a vida dos palestinos.

O Iraque, enquanto isso, depois de devolvido à Idade da Pedra pelas bombas dos EUA, estava sendo convertido em mais uma ‘democracia’ à moda da Máfia implantada pelos EUA; e todo o estado de bem-estar que existiu no Iraque de Saddam foi detonado. O petróleo iraquiano foi entregue a corporações norte-americanas, em mais um capítulo da pilhagem (que ainda prossegue) daquele país, pelos EUA.
Outros países árabes, especialmente o Egito, foram inundados por ONGs financiadas por países e empresas ocidentais, enquanto o FMI e o Banco Mundial cuidavam para que a saúde local fosse entregue a transnacionais e a empresários locais subservientes, que apóiam ditaduras locais. Grande número de homens e mulheres, sindicalistas, ativistas de direitos humanos, defensores de direitos dos camponeses esqueceram que lhes cabia defender os pobres e oprimidos entre os quais viviam, e passaram a frequentar regularmente as folhas de pagamento das ONGs financiadas pelo ocidente, fantasiadas como se fossem alguma ‘sociedade civil’.

No momento em que essa desmobilização da sociedade árabe não consegue impedir que as multidões eclodam em fúria no Egito e na Tunísia, contra dois dos mais corruptos regimes pós-independência na Ásia e na África (e, provavelmente, também na América Latina), os EUA e seus aliados Arábia Saudita e Qatar dedicam-se a construir mais um “pacote econômico” para “apoiar” os levantes, sobretudo no Egito, que é economia maior e muito mais importante.
Fortalecer os mais ricos Imediatamente se viram os ventos da magnanimidade dos EUA. De fato, no primeiro dia de Mubarak deposto, Mubarak que o governo Obama apoiou até o último segundo no poder (e depois de deposto), o New York Times noticiou que “a Casa Branca e o Departamento de Estado já discutem a criação de novos fundos para estimular o surgimento de partidos políticos seculares”.

Poucos dias depois, dia 17/2/2011, a secretária de Estado Hillary Clinton disse em conferência de imprensa: “É com muita satisfação que anuncio que já reprogramamos 150 milhões de dólares para o Egito, para apoiar nossa transição naquele país e ajudar a recuperação da economia. Esses fundos nos darão a necessária flexibilidade para responder às necessidades do Egito para prosseguir.”

Um mês mais tarde, dia 16/3, Clinton declarou, em nome dos EUA, que “também nos parece que há reformas econômicas a fazer, necessárias para que o povo egípcio tenha bons empregos, para realizar seus sonhos. E é assim, nessas duas trilhas – com reforma política e reforma econômica – que queremos ser úteis.”

De fato, os preparativos para “ser úteis” já estavam pensados pelo governo Obama e seus aliados europeus e sauditas e qataris dia 19/5, quando Obama falou. Em seu discurso, declarou:

“Já pedimos que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional apresentem plano na reunião da próxima semana do G-8, de tudo que precisa ser feito para estabilizar e modernizar as economias da Tunísia e do Egito. Juntos, vamos ajudá-los a recuperar-se das dificuldades dos levantes democráticos, e apoiar os governos a serem eleitos no final do corrente ano. E estamos conclamando outros países a ajudar Egito e Tunísia a superar suas dificuldades financeiras de curto prazo.”

Como se não bastasse, Obama apareceu com uma artimanha risível para ‘perdoar’ 35 bilhões de dólares que Mubarak deve ao povo egípcio: “liberar para o Egito pós-Mubarak 1 bilhão de dólares e conseguir que nossos parceiros egípcios invistam esses recursos para estimular o crescimento e o empreendedorismo”. Esse bilhão implica endividar ainda mais o Egito. E Obama, sem pausa e sem ironia, declarou que “ajudaremos o Egito a reconquistar acesso aos mercados, garantindo-lhe empréstimo de 1 bilhão necessário para financiar a infraestrutura e a geração de empregos (...) Estamos trabalhando com o Congresso para criar Fundos Empresariais a serem investidos na Tunísia e no Egito.”

Quando o empobrecimento da Europa Oriental cria riqueza gigantesca para novas elites locais e seus patrões corporativos nos EUA e na Europa Ocidental, Obama garante que a assistência financeira que os EUA oferecem “será modelada pelos padrões dos fundos que apoiaram as transições na Europa Oriental depois da queda do Muro de Berlim. A OPIC (ing. Overseas Private Investment Corporation, Corporação de Investimentos Privados no Além-mar), instituição financeira do governo dos EUA logo lançará dois bilhões de dólares de créditos para investimentos privados em toda a região. E trabalharemos com aliados para refocar o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento de modo a oferecer o mesmo apoio às transições democráticas e à modernização econômica no Oriente Médio e Norte da África, como foi feito na Europa”.

E não é tudo! Os EUA também “lançarão uma ampla Iniciativa de Parcerias para Comércio e Investimento [orig. Trade and Investment Partnership Initiative] no Oriente Médio e Norte da África.”

Tendo reconhecido que a ganância dos EUA e dos sauditas é tal que todos os ganhos do petróleo alimentam as economias dos EUA e da Europa desde os anos 1970s em detrimento da Região que morre sob o peso das políticas de ajustes estruturais do FMI (cortes de subsídios e arrocho nos salários dos pobres; aumento nos subsídios para os ricos, restrição de direitos da classe trabalhadora, fim do protecionismo e venda do próprio país ao capital internacional, aumento dos preços internos), o que causou os levantes populares, Obama agora quer que uma parte dos lucros do petróleo passe a ser reinvestido no mundo árabe. Explicou que:

“Trabalharemos com a União Europeia para facilitar maior comércio interno na Região, a partir dos acordos existentes para promover a integração com mercados dos EUA e da Europa e abrir a porta para que esses países que adotem altos padrões de reforma e de livre comércio para construir um acordo de comércio regional. E como ser membro da União Europeia ajudou, como incentivo às reformas na Europa, assim também a visão de uma economia moderna e próspera cria poderosa força a favor das reformas no Oriente Médio e Norte da África.”

Obama, com França e Grã-Bretanha não perderam tempo. No final de maio, líderes do G-8, as oito nações industrializadas mais ricas, prometeram mandar bilhões de dólares de ajuda ao Egito e Tunísia. Sarkozy da França declarou que “espero que o pacote total de ajuda alcance eventualmente $40 bilhões, incluindo $10 bilhões da Arábia Saudita, Qatar e Kuwait".

Simultaneamente, o Qatar andou falando com parceiros do Golfo, ricos em petróleo, sobre novo plano para criar um Banco de Desenvolvimento do Oriente Médio para apoiar estados árabes em transição para a democracia. Seus planos inspiraram-se, segundo os jornais, no Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento “que ajudou a reconstruir as economias e as sociedades dos países do bloco oriental ao final da Guerra Fria.” Esse banco de desenvolvimento do Oriente Médio prevê empréstimos anuais de dezenas de bilhões de dólares anuais, para transições políticas. O Qatar busca o apoio da Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos para a iniciativa. Os sauditas já emprestaram $4 bilhões aos egípcios, e o Fundo Monetário Internacional anunciou empréstimo de $3 bilhões ao país.

Problema é que Youssef Boutros-Ghali, ministro das Finanças de Mubarak, elogiado por ninguém menos que o FMI como o mais eficiente ministro das Finanças, e indicado pelo próprio FMI em 2008 à presidência da Comissão Monetária e Financeira Internacional da instituição, fugiu do país e acaba de ser condenado a 30 anos de prisão por tribunal egípcio, por crimes de corrupção. Uma semana antes da queda de Mubarak em fevereiro passado, e antes de fugir do país, Boutros-Ghali renunciou ao cargo no FMI. Mas nada detém o FMI. Sua ‘ajuda” ao Egito continuará sem interrupção, e nenhum desses pequenos problemas a deterá.

Como parte do esforço para esmagar as manifestações populares e os clamores por democracia na Jordânia, a Arábia Saudita já ofereceu $400 milhões “para apoiar a economia jordaniana e aliviar o déficit no orçamento”. A Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (apresentado recentemente como “O Clube Contrarrevolucionário”, Pepe Escobar, 27/5/2011, Blog Castorphoto
[1]) também estenderam recentemente o convite para que se reúnam ao “Clube” as duas únicas monarquias sobreviventes fora do Golfo: Jordânia e Marrocos.

Neutralizar os pobres

Mas – se o negócio dos EUA na Europa Oriental foi empobrecer a maioria da população sob o disfarce de alguma ‘democracia’, de modo que empresas norte-americanas pudessem pilhar suas economias; e se o negócio dos EUA na África do Sul visou exclusivamente a salvaguardar e manter o mesmo padrão de pilhagem racializada, pelos brancos e contra os negros, e também com empresários parceiros dos EUA protegidos sob um disfarce chamado ‘democracia’, qual a modalidade de negócio político-econômico que está sendo urdido para o mundo árabe?
Muito visivelmente, nos países nos quais as contrarrevoluções comandadas por EUA-Arábia Saudita triunfaram, o objetivo é manter o mesmo padrão de pilhagem imperial liderada pelos EUA, ao mesmo tempo em que se contêm os movimentos populares e fortalecem-se as elites locais (Bahrain, Omã e Jordânia são exemplos claros), ou resgatar as ditaduras, do colapso total (sejam ditaduras aliadas dos EUA ou não) para que comandem a transição de regime e reativem as parcerias políticas e econômicas com os EUA (casos da Líbia, do Iêmen e até da Síria).

Mas o que fazer no Egito e na Tunísia, onde não só o ditador, mas grande número de membros dos regimes já derrubados também são corruptos notórios e cúmplices dos crimes e negociatas do eixo EUA-Sauditas e na violência brutal dos antigos regimes? Exatamente nesses casos, o eixo EUA-Saudita focou seus principais esforços.
Elites comerciais e empresariais que miraculosamente se safaram de acusações formais no Egito – e são legiões! – mostraram-se gravemente preocupadas com tumultos de rua e greves, que desorganizam a economia (e o fluxo de lucros em direção a elas mesmas). O bilionário Naguib Sawiris, que se apresenta como apoiador, se não líder, dos levantes populares, e cujos pai e irmãos também se tornaram bilionários em apenas poucos anos, depois que se associaram à USAID durante a política de “infitah” (“porta aberta”) de Sadat e sobretudo depois de os EUA invadirem a região em 1990-91, além de muitos outros empresários “honestos”, estão, todos, entusiasmadíssimos ante a possibilidade de se tornarem paladinos da causa dos EUA num Egito “democrático”, exatamente como sempre fizeram no governo de Mubarak. Sawiris fundou um partido político e agora se recusa a participar das manifestações das 6as-feiras, que, como diz hoje, estariam enfraquecendo a economia. Sawairis declarou recentemente que “foi erro acusar todos os empresários egípcios como se todos fossem criminosos”; e tem insistido que “muitos são cidadãos honrados, que sempre ajudaram a gerar empregos para os egípcios”.

Os EUA e Obama também têm celebrado jovens executivos e empresários, como o ingênuo Wael Ghonim, que deu sinais de ter sido afetado pela “Síndrome de Estocolmo”. Só um surto da Síndrome explica que Ghonim tenha explodido em lágrimas em sua famosa entrevista pela televisão, quando defendeu, em vez de denunciar, a polícia secreta que o interrogara). Ghonim andou viajando pelos EUA, dando palestras para banqueiros internacionais e economistas do Banco Mundial, apresentado como “líder” dos levantes egípcios, com despesas pagas pela própria Google Corporation.

Mas a maioria dos egípcios e tunisianos – diferente do que acontecia nos países do Leste Europeu governados pelos Comunistas – já foram reduzidos à miséria. E a principal modalidade de apartheid vigente no Egito e na Tunísia – diferente do apartheid político que se conheceu na África do Sul – é apartheid econômico, de classe. Assim sendo, o que os povos árabes teriam ainda de ceder, em troca da democracia à moda dos EUA que lhes tentam impor?

A resposta é simples. Há crescente consenso entre os políticos norte-americanos que os EUA devem surfar a onda democrática nos países da região cujos levantes populares os EUA não consigam esmagar, e que, para conseguir isso, é preciso construir condições políticas que mantenham intactas as políticas de pilhagem imperial das economias locais e que não lhes criem obstáculo. Depois do dinheiro saudita vieram o dinheiro dos EUA e os planos do FMI e do Banco Mundial, e todos os fundos são administrados de modo a apoiar elites empresariais e as ONGs financiadas por dinheiro externo para ‘conter’ a sociedade civil que outra vez se mobilizou – usando-se para esse objetivo o mesmo velho jargão neoliberal do ajuste estrutural que o FMI impõe onde chega, desde o final dos anos 1970s.

De fato, o que Obama e seus sócios nos negócios estão dizendo é que os revolucionários no Egito e na Tunísia – se não em todo o mundo árabe – estariam demandando sobretudo, e coincidentemente, políticas econômicas ainda mais neoliberais, que o Ocidente terá muito gosto em oferecer-lhes.

Mas são as mesmas políticas imperiais que o FMI impôs à Polônia (e geraram o movimento “Solidarnosc em 1980) e que levaram ao colapso da União Soviética, num mesmo processo para empobrecer o planeta, com especial atenção ao empobrecimento da África, do mundo árabe e da América Latina. Nesse sentido, os EUA providenciarão para que as mesmas políticas econômicas imperiais impostas pelo capital internacional e adotadas sempre por Mubarak e Ben Ali sejam não apenas mantidas, mas aprofundadas, sob a fantasia de ‘reformas democráticas’ e de ‘governos democráticos’.

Estão em andamento no Egito e na Tunísia movimentos que visam a limitar os protestos e as greves de trabalhadores. Depois de realizadas as eleições que porão no governo um novo grupo de políticos da velha ordem, com certeza começaremos a ouvir que todas as reivindicações de caráter econômico devem ser consideradas “contrarrevolucionárias” e devem ser reprimidas como atentados à “democracia”, para enfraquecê-la, quando não para destruí-la. E se, como já começa a acontecer, os EUA firmarem alianças com partidos islâmicos locais, com certeza ouviremos também que qualquer manifestação popular com reivindicações econômicas ou trabalhistas e que se oponha às políticas econômicas neoliberais e imperiais seria “contra o Islã”.

A ‘democracia’ imposta pelos EUA e que está sendo construída, e dando por consumado que alguma coisa semelhante a democracia será imposta ao Egito e Tunísia (para começar), está sendo construída para manter oprimidos e pobres os pobres e oprimidos e para deslegitimar todas as suas demandas que tenham a ver com a ordem econômica imperial. A troca que os EUA esperam obter, impondo ao Egito e à Tunísia alguma modalidade da ordem política liberal implica mais, não menos, pilhagem das economias e das próprias condições de sobrevivência dos mais pobres – que são larga maioria na população desses países.

O objetivo final dos EUA é, de fato, capturar-confiscar os levantes bem-sucedidos contra os regimes existentes, chamando essa captura-confisco de ‘democracia’, mas captura-confisco que só beneficiará as mesmas elites da finança internacional que já estavam no poder sob Mubarak e Ben Ali. Se os EUA e seus aliados locais conseguirão sucesso nesse golpe de captura-confisco depende, hoje, exclusivamente, da luta de egípcios e tunisianos.