Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista
Mostrando postagens com marcador euro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador euro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Golpes na Argentina, Venezuela e Brasil?

Tensão no euro: Grécia rechaça a renovação de resgate que vence dia 28 próximo; Alemanha quer impor condicionalidades de arrocho rechaçadas nas urnas de 25 de janeiro'

  
 Proposta da Grécia para acordo provisório com Eurogrupo rechaça cortes nas aposentadorias, novas privatizações, aumento de imposto sobre consumo, superávits fiscais leoninos e exige folga para acudir emergências sociais. Prazo para um acerto termina dia 28
 

Grécia tenta acordo ponte de seis meses com autoridades do euro; meta de Atenas é ganhar tempo para um renegociação mais dura que afaste país das condicionalidades que jogaram o desemprego para 25% e dívida pública de 109% para 120%


 Por que o ministro Joaquim Levy não divulga a lista dos brasileiros incluídos no esquema de sonegação bilionária do HSBC na Suíça?


 Largada: dia 24/02 , na sede da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, no Rio, FUP e CUT deflagram campanha nacional em defesa da Petrobras. É a hora para a esquerda sacudir a letargia e se unir em uma comitiva que percorra o Brasil com Lula, Boulos, Jean Wyllys, Stédile, Luciana, Levante da Juventude, UNE etc

Carta Maior.
 
ALTAMIRO BORGES 
Diante desta onda reacionária, os governantes dos três países são chamados a enfrentar a “guerra da comunicação” e derrotar os aparatos de hegemonia da elite colonizada
Há algo muito estranho ocorrendo em três países decisivos na geopolítica da América Sul. A Venezuela, rica em petróleo, enfrenta uma onda permanente de desestabilização – com sabotagem no abastecimento de produtos básicos, choques violentos nas ruas e ameaças de golpes militares contra o presidente Nicolás Maduro. Na Argentina, segunda economia da região, está em curso um processo de judicialização da política que pode desembocar na cassação da presidenta Cristina Kirchner. Já no Brasil, a principal força no tabuleiro político do subcontinente, a direita mais suja do que pau de galinheiro se traveste de vestal da ética, bravateia a tese do impeachment e incentiva as marchas dos grupelhos fascistas. O que explica esta sinistra coincidência? Os EUA, que sempre trataram a região como o seu quintal, têm algo a ver com esta onda nitidamente golpista?

Os três países têm vários traços em comum. Em todos eles, a direita partidária sofreu duras derrotas eleitorais nos últimos anos. Forças contrárias ao neoliberalismo, com suas nuances e ritmos diferenciados, chegaram ao governo – e não ao poder. Fragilizada, a elite colonizada foi substituída no seu ódio ao campo popular pela mídia monopolista e manipuladora. Na Venezuela, Argentina e Brasil, os jornalões, as revistonas e as emissoras de rádio e tevê fazem oposição diariamente – jogam no pessimismo da sociedade, difundem a visão fascista da negação da política, tentam impor sua agenda neoliberal derrotada nas urnas e apostam na desestabilização dos governos progressistas. Nos três países, os barões da mídia hoje lideram as forças golpistas e estão cada dia mais agressivos. Nada mais contém a sua sanha conservadora e entreguista, pró-império.

Além da mídia monopolista, outros aparatos de disputa de hegemonia também servem aos interesses das oligarquias nativas e alienígenas. Na Argentina e no Brasil, boa parte do corrompido poder Judiciário está nas mãos das elites. O suspeito caso da morte do promotor Alberto Nisman, responsável pelo inquérito sobre o atentado terrorista a um centro judaico em Buenos Aires, tem servido para atiçar a campanha pela deposição da presidenta Cristina Kirchner. Já o escândalo da Petrobras, com vazamentos seletivos e técnicas de tortura do Ministério Público e da Polícia Federal – outros dois aparatos de hegemonia –, alimenta o sonho da oposição demotucana de sangrar e, se possível, de derrubar a presidenta Dilma Rousseff. Na Venezuela, focos golpistas voltaram a aparecer nas Forças Armadas e se unem aos empresários sabotadores da economia.

Diante desta onda reacionária, os governantes dos três países são chamados a enfrentar a “guerra da comunicação” e derrotar os aparatos de hegemonia da elite colonizada. Na semana passada, o chefe de gabinete da Casa Rosada, Jorge Capitanich, acusou explicitamente a mídia e a Justiça de tramarem um golpe. “É uma estratégia de golpismo judicial ativo. No mundo, a disputa é entre democracia e grupos obscuros vinculados a poderes econômicos”. Ele inclusive citou o Brasil, no qual “Dilma Rousseff sofre ataques com pedidos de julgamento político”. Já o secretário-geral da Presidência da República, Aníbal Fernández, falou em “manobra de desestabilização democrática” e conclamou os setores populares a irem às ruas para defender a continuidade do mandato de Cristina Kirchner.

Também na semana passada, o presidente Nicolás Maduro acusou novamente o governo dos EUA de orquestrar um golpe na Venezuela. Na última quinta-feira (12), ele anunciou a prisão de 14 civis e militares, entre eles de um general da reserva. Segundo as investigações, o grupo pretendia causar tumultos e mortes num ato agendado pela direita local. Em rede de televisão, o líder bolivariano afirmou que “os EUA pagaram [os sabotadores] em dólares e lhes deram vistos com data de 3 de fevereiro. A Embaixada dos EUA lhes disse que, em caso de fracasso, poderiam entrar no território americano”. A grave denúncia foi, como sempre, ridicularizada pela mídia venezuelana e mundial – a mesma que apoiou efusivamente o golpe fracassado de abril de 2002. Já a Casa Branca considerou as acusações “ridículas”. Afinal, o império nunca apoiou golpes e ditaduras!

Já no Brasil, a “guerra da comunicação” anunciada por Dilma Rousseff na primeira reunião ministerial, no início de janeiro, ainda não saiu do papel. Nenhum ministro teve a coragem de denunciar “a estratégia de golpismo judicial ativo” – que deverá ficar ainda mais agressiva no pós-Carnaval com a nova fase da midiática Operação Lava-Jato. A presidenta Dilma Rousseff também ainda não ocupou a rede nacional de rádio e televisão para criticar os setores que pretendem destruir a Petrobras e entregar o Pré-Sal - um antigo desejo dos EUA. Num contexto bastante explosivo na região, aonde as coincidências golpistas são estranhas e os interesses imperiais são violentos, é preciso reagir rapidamente! O fantasma do retrocesso assombra a América do Sul.



 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Levy, a Merkel é o maior monstro da Europa​ Uma política de austeridade que não produziu nada, a não ser a ruína social em toda a Europa.



Amigo navegante sugeriu republicar essa traduçao de um artigo no Guardian inglês:


Merkel é o maiormonstro da Europa



Owen Jones, no The Guardian

Angela Merkel é a líder mais monstruosa da Europa Ocidental desta geração. Políticos que infligem  crueldade econômica em larga escala e destróem a vida de milhões de pessoas acabam não tendo que enfrentar a Justiça.

Mas, Merkel, sem dúvida, permanece sob julgamento e foi condenada no banco dos réus da História.

Sumos sacerdotes da austeridade da União Européia  evocam as palavras do inflamado discurso de Charlie Chaplin, no fim de “O Grande Ditador”: “Homens máquinas, com mentes máquinas e corações máquinas”.

Os gregos se rebelaram contra os homens e mulheres -máquina -  e estão clamando para que outros os sigam.

Aliviar a dívida da Grécia faz sentido econômica e moralmente

Merkel, os burocratas da União Européia e financistas internacionais são cruéis, mas não estúpidos: eles sabem que a esperança é um contágio, e farão tudo o que puderem para que o movimento Syriza pare de inspirar outros.

Merkel já exigiu que Alexis Tsipras, o novo primeiro-ministro grego, ignore o seu mandato democrático e apoie as medidas de austeridade impostas do exterior.

No período de preparação para a eleição, vazamentos de informação do governo alemão sugeriam  a saída da Grécia da Zona do Euro: uma mensagem clara para que o povo grego não votasse da maneira errada.

Para aqueles que querem que a Europa tenha um futuro que não seja o da queda do padrão de vida, aumento da insegurança e retirada da provisão social, é a política de Merkel e das elites podres que ela representa que deve se submeter a um ajuste de contas.

Considere a espetada que o ganhador do Premio Nobel, o economista Paul Krugman está dando na política que destruiu um quarto da economia grega.

Como observa Krugman, a troika – FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – promoveram “uma fantasia econômica”, pela qual os gregos pagaram.

Eles projetaram que o desemprego atingiria o pico de 15% em 2012 e, em lugar disso, a projeção foi arremessada para mais de 25%.

Krugman despiu a mentira de que os gregos não se impuseram austeridade suficiente: os gregos, na verdade, cortaram ainda mais do que foi planejado e, como a economia entrou em colapso, também as receitas fiscais sofreram mais do que o planejado.

Os gregos têm que viver dentro de suas posses; eles estão sofrendo, agora, pelos  anos de libertinagem, ao contrário do austero Estado alemão – e assim segue o mantra.

A Grécia foi mais atingida pela fraude e a evasão fiscal do que a maioria das nações, e o Syriza promete uma repressão radical a ambos.

Porém, os mitos que sustentam a mal velada punição coletiva seriam destruídos.

Como um editorial da Bloomberg postou: “Cada devedor  irresponsável é legitimado por um banqueiro  irresponsável.”

A Alemanha mamou dinheiro em países como a Grécia e Espanha – essa é a “magia” dos mercados desregulados – e, dessa forma,  “emprestou mais do que os devedores  podiam pagar “.

Os bancos alemães e os políticos alemaes  deveriam saber que isso acabaria em desastre.

Então, por que não agiram? Simples: a ganância.

Como Kevin Drum, um analista norte-americano, explica: concederam “aos poupadores alemães um lugar para investir dinheiro” e “forneceram à periferia – Grecia, Espanha, Portugal … -   dinheiro barato o suficiente para construir um próspero mercado para as exportações alemãs”.

Quais foram os primeiros países da UE a desrespeitar os tetos do Orçamento ?

A Alemanha e França? Poderosas como eram, elas não enfrentaram qualquer represália.

Isso absolve as elites gregas – atenção, não o povo grego – de seu papel na calamidade ? Claro que não.

Mas, Merkel deveria estar pedindo perdão também.

Tudo o que os dirigentes europeus têm a oferecer são sociedades falidas e pessoas falidas.

Mais da metade dos jovens na Espanha e na Grécia estão sem trabalho, o que deixa marcas: além da angústia, eles enfrentam a possibilidade de desemprego e salários mais baixos pelo resto de suas vidas.

Direitos dos trabalhadores, serviços públicos, um Estado de Bem-Estar: o que foi conquistado com alto custo por pessoas fortes e de visão é agora destruido.

(…)

É por isso que a Grécia tem de ser defendida com urgência – não apenas para apoiar um governo democraticamente eleito e as pessoas que o colocaram lá. E

As elites europeias sabem que, se as exigências do Syriza forem cumpridas, então, outras forças de mesma opinião serão  encorajadas.

Na Espanha, o Podemos, um movimento anti-austeridade,  que está em alta, e deverá triunfar nas eleições deste ano.

O Syriza já conquistou mudanças: a limitada flexibilização quantitativa do Banco Central Europeu  é, em parte, uma resposta à sua ascensão.

Mesmo o conhecido radical Reza Moghadam,  Vice-Presidente do banco Morgan Stanley para mercados de capitais globais, e ex-chefe do Departamento Europeu do FMI, considera que o Syriza tem uma forte posicao de negociaçao.

O precedente de uma saída da Zona do Euro levaria o mercado a punir outros membros e, em consequencia, provocaria outros pedidos de perdão da dívida da Grécia.

A vitória da Grécia é possível, mas depende de pressão popular por toda a Europa.

Se o Syriza vencer,  será uma vitória impressionante para todas as forças anti-austeridade, e ajudará a mexer no equilíbrio de poder na Europa.

Mas, se a Grécia perder, os governos e os bancos  tentarão sufocar o Syriza  logo no inicio do Governo.

Será o triunfo da austeridade sobre a Democracia.

O futuro de milhões de europeus – gregos, franceses, espanhóis e também britânicos – será desolador.

Por isso, é importante um movimento para defender a Grécia em ruínas.

A  Alemanha derrotada se beneficiou do alívio da dívida em 1953, e temos de exigir o mesmo  para a Grécia hoje.

Devemos apoiar o pedido do Syriza para encerrar uma política de austeridade que não produziu nada, a não ser a ruína social em toda a Europa.
Posters do Syriza proclamavam:

“A esperança está a caminho”.

(…)

É um jogo de apostas altas: a derrota significará mais incontáveis anos de pesadelo econômico.

Esta reprise da década de 1930 pode ser encerrada – desta vez, pela Esquerda democrática, ao invés da Direita fascista e genocida.

A era de Merkel e os homens-máquina pode estar no fim.

Cabe a todos nós agir, e agir rapido.



Leia também:

Os pobres que se lixem. Piketty e o ajuste do Levy


Levy, deputados apoiam imposto sobre fortunas




 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Grécia suspende privatizações Tsipras avisa à Alemanha: a recusa em negociar poderá conduzir “a uma ruptura desastrosa recíproca”.

 Grécia suspende privatizações.
 
Tsipras avisa à Alemanha: a recusa em negociar poderá conduzir “a uma ruptura desastrosa recíproca”.
  


Os neolibelês queriam vender o porto do Pireu, com a Melina Mercouri junto...
Saiu no Publico, de Portugal:
 


Novo Governo grego anuncia suspensão de privatizações e promete resposta à crise social.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, iniciou o primeiro Conselho de Ministros assegurando que o novo Governo está pronto a “derramar o seu sangue” para “restabelecer a dignidade dos gregos”. Em cima da mesa desta reunião inaugural estão algumas medidas emblemáticas do programa eleitoral do Syriza, a começar por uma imediata suspensão de privatizações.

“Entre as nossas prioridades figura uma nova renegociação [da dívida pública] com os nossos parceiros para encontrarmos uma solução justa, viável e mutuamente benéfica, para que o nosso país saia do círculo vicioso de dívida e recessão”, declarou o chefe de Governo, na fase inicial da reunião, aberta à comunicação social. Numa resposta à torrente de avisos que chega de outros países da União Europeia, Tsipras avisou que a recusa em negociar poderá conduzir “a uma ruptura desastrosa recíproca”.

Com a bolsa de Atenas a cair e os juros da dívida a dez anos acima dos 11%, o novo executivo não parece querer perder tempo. À entrada para a reunião, Panayiotis Lafazanis, o novo ministro da Produção, Ambiente e Energia, anunciou que o Governo vai suspender “imediatamente” o processo de privatização das operadoras de electricidade. Já o vice-ministro da Economia, Jrístis Spirtzis, assegurou que serão travadas todas as privatizações que “sejam contrárias aos objectivos sociais” do Syriza, a começar pela “imediata suspensão” da venda de 67% do histórico porto de Pireu.

São igualmente esperados anúncios de medidas para melhorar a qualidade de vida dos gregos, incluindo a promessa de distribuição gratuita de energia às famílias em maior dificuldade, para as quais estão igualmente prometidas bolsas de alimentos. O executivo quer também pôr em marcha a lei para repor o salário mínimo nos 751 euros (contra os 580 actualmente em vigor), suspender o programa de avaliações e mobilidade na Função Pública e criar mecanismos que facilitem o pagamento de impostos em atraso, adianta a AFP.

Boa parte destas medidas invertem as reformas impostas à Grécia pela troika de credores (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) em troca dos dois empréstimos concedidos ao país. A última tranche do empréstimo – estimada em sete mil milhões de euros – deveria ser entregue a Atenas até ao final de Fevereiro, mas os credores tinham avisado que só seria paga mediante a continuação das reformas em curso.

“Somos um Governo de salvação nacional, o nosso objectivo é restabelecer a segurança e a dignidade dos gregos”, sublinhou Tsipras, assegurando que Atenas está totalmente disponível para negociar, mas “não para continuar a política de submissão” que marcou os executivos anteriores.

A reunião do Conselho de Ministros antecede a chegada a Atenas de dois dirigentes europeus: já na quinta-feira é esperado na capital grega o presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata alemão Martin Schulz, e no dia seguinte é a vez de Jeroen Dijsselbloem, ministros das Finanças holandês e presidente do Eurogrupo.

Com a renegociação do programa de assistência financeira em cima da mesa – e sobretudo a exigência de Atenas para uma reestruturação da dívida –, Tsipras acredita que a reunião com Dijsselbloem será “crucial e produtiva”, mesmo que, de Bruxelas, de Berlim e de várias outras capitais europeias continuem a chegar avisos de que só haverá negociações se a Grécia “respeitar os seus compromissos”.



Em tempo: o Conversa Afiada aguarda ansioso o pronunciamento da Urubóloga sobre a nova Grécia … – PHA







quarta-feira, 28 de maio de 2014

O emprego e a urna

 O avanço da extrema direita numa Europa com 26 milhões de desempregados mostra o quanto é perigosa a agenda que pretende replicar aqui o arrocho praticado lá.

por: Saul Leblon
Arquivo


  
Berço do Renascimento e das ideias libertárias, a Europa se transformou em um enorme depósito de desempregados.

Vinte e seis milhões de trabalhadores foram cuspidos do mercado de trabalho pelo arrocho neoliberal que se arrasta por seis anos.

Vinte e cinco por cento dos eleitores do continente responderam à desordem dando seus votos às ideias xenófobas, de extrema direita, eurocéticas e fascistas nas eleições deste domingo, na renovação do parlamento  europeu.

O conservadorismo brasileiro faz olhar de paisagem.

A mídia trata o terremoto como um sismo em terras distantes.

Um assunto estranho a sua pauta.

Não é.

Os interesses que modularam o funeral do Estado Social europeu nas últimas décadas, e jogaram a pá de cal  nesta crise,  estão mais do que nunca atuantes na disputa presidencial em curso no Brasil.

O palanque conservador nomeia o arrocho fiscal, de consequências sabidas, como a principal alavanca corretiva para os gargalos da economia brasileira.

Trata-se de recuar o Estado para o mercado agir e a sociedade prosperar.

É a ‘contração expansiva’.

Bordão do discurso ortodoxo, ela resultou no estado de sítio econômico imposto à Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda etc

A semeadura foi colhida nas urnas de domingo.

A  extrema direita capturou um em cada quatro votos depositados nas urnas.

Seu lema remete à legenda  dos salvadores da pátria dos anos 30.

Suásticas de ilustrativa rigidez prometiam então substituir a desordem econômica  alarmante por uma ordem policial atuante.

Nenhuma outra dimensão da luta política condensa de forma tão significativa o conflito de interesses subjacente às eleições brasileiras de 2014 quanto a pergunta:

- Que futuro os candidatos reservam ao  emprego no país? (leia a arguta análise Wanderley Guilherme dos Santos; nesta pág) .

A economia brasileira terá que  criar 6,7 milhões de vagas nos próximos cinco anos. Pouco mais de 1,2 milhão por ano,  para responder ao aumento da população economicamente ativa.

O cálculo é da Organização Internacional do Trabalho, a OIT.

No ciclo de governos do PT (de 2003 a 2013), o Brasil criou cerca de 15,8 milhões de empregos.

Os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso deixaram  um saldo  de apenas  800 mil vagas na economia.

Assim: um corte de milhão de vagas no primeiro mandato e um acréscimo de 1,8 milhão de empregos nos quatro anos seguintes.

A  criação média de empregos no Brasil sob a presidência do PSDB, portanto,  foi de 100 mil postos por ano.

No ciclo de governos progressistas (2003/2013)  foi de 1,5 milhão/ano.

Ao mês, o PT gerou mais vagas do que cada ano de mandato tucano.

As condições econômicas foram distintas, pode-se argumentar.

Sem dúvida.

Assim como é forçoso recordar:  desde 2007/2008 o mundo mergulhou na maior crise do capitalismo dos últimos 80 anos.

O que teria sido do país se os sábios banqueiros do PSDB estivessem no comando da economia então?

Não estavam e  11 milhões de empregos foram criados no período: quase 1,6 milhão de vagas por ano.

Ignorar a lógica econômica que condicionou o resultado das eleições europeias é perturbador.

Os mercados festejaram.

As bolsas europeias subiram com força na segunda-feira e nesta terça, enquanto os números consolidados dimensionavam os talhos no futuro da democracia.

A Frente Nacional (FN), de extrema direita, passará a dispor de 24 cadeiras parlamentares, tendo alcançado cerca de 25% dos votos na França – 18 pontos acima do último pleito (leia a análise de Eduardo Febbro, de Paris; nesta pág.).

Na Inglaterra, o direitista Partido da Independência se tornou a  bancada mais forte, ultrapassando o Partido Trabalhista de David Cameron (leia a análise de Marcelo Justo, de Londres; nesta pág.)

Na Áustria, o Partido da Liberdade (FPÖ) conquistou 20,5% dos votos em todo o país.

Nos  países escandinavos, as propostas da extrema direita abriram espaços inéditos  no Parlamento de Estrasburgo, no qual 140 dos 751 assentos serão ocupados por deputados para os quais o ideário chauvinista e antissemita não é estranho.

O coletivo dos professores banqueiros do PSDB --e seu ativo retransmissor midiático-- está longe de endossar o nacionalismo de  uma Europa machucada pelo alto preço da subordinação a uma moeda manejada em benefício de Berlim,  Bruxelas e da alta finança.

Mas as ideias econômicas que alimentam seus candidatos formam costelas do mesmo espinhaço a partir do qual ganharam vida própria os Le Pen, o Aurora Dourada, os Nigel Farage e assemelhados.

A saber:

a) o país vive uma pressão inflacionária decorrente do excesso de demanda;

b) este deriva do abusivo aumento do poder de compra dos trabalhadores, puxado pelo reajuste real de 60% do salário mínimo nos governos Lula/Dilma;

c) a renda das famílias cresce ininterruptamente há mais de 4 anos ;

d) sustenta o insustentável: a expansão da demanda interna --atendida, em mais de 20%, no caso de manufaturados, pelas importações;

e) a solução para o estresse macroeconômico, somatizado em alta de preços, passa por um tratamento de choque: alta dos juros, arrocho fiscal do Estado, desemprego e  achatamento salarial.

A mídia cuida de dar a esse receituário um sentido de urgência, travestido na narrativa diuturna de um país aos cacos.

Ingredientes objetivos evocados no confronto político de uma época muitas vezes são idênticos dos dois lados da disputa.

O que distingue as margens do rio é menos a sua composição e mais a natureza determinante que se atribui a cada um dos  elementos.

Resistir passa por identificar politicamente os fatores que podem diferenciar a qualidade social da transição para um novo ciclo.

Hoje, por exemplo:

- a inflação reflete pressões conjunturais de safra, mas também outras que vieram para ficar, decorrentes de uma mudança estrutural na economia;

- o setor de serviços (telefonia, saúde, energia, bancos etc.), que teve gordas fatias capturadas pelo capital estrangeiro (leia neste blog ‘Um tabu que sangra o Brasil’)  elevou sua participação no PIB, de 63% para 68,5% nos últimos oito anos;

- a inflação dos serviços tem crescido acima de 8% ao mês (dois ou três pontos acima da média);

- combate-se isso com mais oferta, fiscalização e, sobretudo, regras de reinvestimento;

- nenhuma ‘abertura comercial’ do tipo ‘deixai o mercado agir por conta própria’ vai resolver: serviços são de difícil importação;

- tampouco a alta dos juros supera o impasse; na verdade, apenas agravará seu outro polo : o enfraquecimento do setor industrial;

- o recuo da industrialização vem de longe: em 1985 o setor fabril produzia 27% da riqueza agregada ao PIB brasileiro; em 1996  a fatia retrocederia oito pontos e mais quatro  agora, situando-se em 14%;

- a desindustrialização pesada do ciclo tucano foi impulsionada justamente pela panaceia  livre mercadista que se pretende reeditar:  privatizações, câmbio desfavorável, juro alto e abertura comercial suicida.

Os governos do PT agiram sobre essa lógica parcialmente. E de forma  lenta.

Manteve-se até 2008 a dupla turbina do juro alto e câmbio valorizado.

A política econômica dos últimos anos, no entanto, introduziu um redefinidor potente na equação.

Ele dificulta sobremaneira a aplicação da vacina ortodoxa novamente.

Os programas sociais, o salário recomposto e a forte geração de emprego  elevaram o mercado de massa à inédita condição de ator principal do enredo econômico brasileiro.

A centralidade desse novo protagonista vincula o ajuste preconizado pelo conservadorismo  a uma taxa de desemprego de teor inflamável equivalente à produzida pela troika na UE.

Tampouco, porém, a nova escala social cabe no figurino  da infraestrutura e da logística existente.

Estudos de organismos do Banco Mundial, citados pelo jornal Valor esta semana, indicam que o estoque de infraestrutura existente no país equivale a 16% do PIB.

A média nos países desenvolvidos é de 71% do PIB.

O novo mercado de massa reúne  53% da população, que nos últimos 12 anos elevou, por exemplo, em 182% o número de passageiros nos aviões e fez crescer em 182,5% o trânsito nas rodovias.

Como superar esse descompasso no menor prazo de tempo possível é a pergunta que grita na equação política brasileira, sendo cada vez mais audível nas ruas.

O conservadorismo quer resolver o impasse cortando o mal pela raiz.

Devolvendo a pasta de dente ao tubo do desemprego e do arrocho saneador.

Foi a solução endossada pela socialdemocracia  europeia com as consequências contabilizadas no último domingo.

Cabe ao campo progressista brasileiro aprofundar a lógica oposta,  abraçada pela esquerda que emerge das cinzas da rendição socialdemocrata.

Ou seja, dar ao novo protagonista social o espaço democrático necessário para renovar a  correlação de forças do  desenvolvimento brasileiro.

A eleição de outubro deve servir a esse credenciamento.

O resto é arrocho.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

OS PUPILOS DE MERKEL NO BRASIL

*AGENDA CARTA MAIOR: Presidenta Dilma Rousseff discursa nesta 3ª feira,24, na abertura da Assembleia da ONU, em Nova York. Pronunciamento deve abordar o conflito sírio (leia especial nesta pág) e a questão da espionagem, com proposta de nova governança da internet, a partir de regras internacionais pactuadas pela ONU (leia nest apág)

.**Semana decisiva para a disputa presidencial: a contagem regressiva das candidaturas, partidos e alianças (leia a análise de Antônio Lassance; nesta pág)



Ângela Merkel ruma ao seu terceiro mandato depois de haver reduzido a falência da União Europeia a um conflito entre ‘povos dolentes' - ‘gente como os grego-ibéricos, que se aposenta cedo, dorme tarde e gosta de tirar férias' -- e os laboriosos e austeros patrícios germânicos. Remédio? Chibatadas de austeridade pela manhã, à tarde e à noite. Segundo a Oxfam, ONG presente em 100 países, em 2011, havia 120 milhões de pobres na União Europeia. O desemprego é recorde em 13 anos. Entre a juventude, ele atinge 42% em Portugal; 56% na Espanha e 59% Grécia. A América Latina já provou dessa poção. Sob o efeito sequencial da crise da dívida externa , anos 80, e do ajuste neoliberal da década seguinte, a renda per capita latino-americana regrediu 15 anos. Soa desconcertante, assim, após uma década de avanços econômicos e sociais, que o conservadorismo brasileiro -a exemplo de Frau Merkel- tente reduzir os desafios atuais do país a uma questão moral. Nossos ‘gregos', segundo eles, seriam os 'mensaleiros'. Desobrigam-se assim de discutir questões substantivas.O economista turco, estudioso da globalização, Dani Rodrik, aponta, por exemplo, um dilema de natureza política, que condensa a falência da agenda conservadora em nosso tempo. Rodrik chama a atenção para a incompatibilidade histórica entre, de um lado, a liberalização financeira e comercial, defendida pelos nossos liberais de bico longo, e, de outro, a democracia e a soberania nacional.(LEIA MAIS AQUI)

domingo, 2 de junho de 2013

QUEM DARÁ COERÊNCIA AO DESENVOLVIMENTO?


* O Financial Times é tolerante com o fiasco conservador em seu país, onde a fome está de volta, mas critica o governo Dilma que dirige uma economia perto do pleno emprego (leia a análise de Marcelo Justo, de Londres; nesta pág.)  

O país ingressa num ciclo de transição do modelo de crescimento que o poupou  até agora da desordem neoliberal. Uma dúzia de variáveis desafiam a coerência e o dinamismo dessa marcha. Cada uma tem um custo e nem sempre -ou melhor, quase nunca--combina com a outra. Quem decide o que é coerente na macroeconomia do desenvolvimento é a correlação de forças da sociedade. Como e quando a CUT, o MST e demais organizações sociais vão intervir nessa dobra do caminho? 
O conservadorismo, como aconteceu em 32, em 54, em 64  e na década de 90 apressa-se em atualizar o seu roteiro eterno de futuro. Editoriais, como o da Folha deste domingo (‘Um plano Dilma'), listam os requisitos do cardápio. Tudo para o Brasil  ‘voltar a crescer de forma saudável',  diz  o epíteto sobre a lápide das conquistas sociais. O Brasil mudou. Pela via eleitoral dificilmente a pasta de dente marchará resignada para dentro do tubo conservador. O equivalente a uma Argentina engrossou as filas dos supermercados e das lojas de departamento na última década. As encomendas do pré-sal figuram como o maior mercado de plataformas dos sete mares. O mundo rico cobiça o apetite brasileiro num momento em que o principal gargalo do planeta é a falta de demanda. Vista desse ângulo, a travessia em curso adquire contornos semelhantes a grandeza das escolhas feitas por Getúlio nos anos 50. A industrialização ocupa, de novo,  o centro da disputa sobre o passo seguinte da nossa história. Nos anos 50, um pedaço das forças progressistas só foi perceber o seu lado quando o povo já estava nas ruas apedrejando os carros do jornal O Globo. Getúlio dera um cavalo de pau na história com um único  tiro. O mesmo que ecoa até hoje como divisor do desenvolvimento nacional. (LEIA MAIS AQUI)


Brasil e Reino Unido: o duplo tratamento do Financial Times




O esquema Globo de publicidade

Líder na arrecadação de verbas publicitárias entre todos os meios de comunicação, a Globo se vale de uma prática que os grandes grupos de mídia preferem ocultar: o pagamento das Bonificações por Volume (BV), apontado por especialistas como um dos responsáveis pelo monopólio da mídia no país. Por Patrícia Benvenuti, do Brasil de Fato

Mais de 16 milhões de comerciais por ano e um relacionamento com 6 mil agências. Esse é um resumo do desempenho da Rede Globo junto ao mercado publicitário brasileiro, orgulhosamente exibido na página de internet da emissora.

Líder na arrecadação de verbas publicitárias entre todos os meios de comunicação, a Globo também mostra sua força em cifrões. Somente em 2012, os canais de TV (abertos e por assinatura) das Organizações Globo arrecadaram R$ 20,8 bilhões de reais em anúncios, segundo informe divulgado pela corporação.

Por trás dos números, porém, se esconde uma prática que os grandes grupos de mídia preferem ocultar: o pagamento das Bonificações por Volume (BV), apontado por especialistas como um dos responsáveis pelo monopólio da mídia no país.

Monopólio
Desconhecidas pela grande maioria da população, as Bonificações por Volume são comissões repassadas pelos veículos de comunicação às agências de publicidade, que variam conforme o volume de propaganda negociado entre eles.

A prática existe no Brasil desde o início da década de 1960. Criada pela Rede Globo, seu objetivo seria oferecer um “incentivo” para o aperfeiçoamento das agências. Com o tempo, outros veículos aderiram ao mecanismo, que hoje é utilizado por todos os conglomerados midiáticos no Brasil.

O pagamento dos bônus, no entanto, é alvo de críticas de militantes do direito à comunicação, que argumentam que a prática impede a concorrência entre os meios de comunicação na busca por anunciantes. Isso porque, quanto mais clientes a agência direcionar a um mesmo veículo, maior será o seu faturamento em BVs.

Para o professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) Venício Artur de Lima, a prática fortalece os grandes grupos, já que leva anunciantes aos meios que recebem publicidade. “Exatamente por terem um volume alto de publicidade é que eles [meios] podem oferecer vantagens de preço”, explica.

O resultado desse processo, segundo o professor, é a dificuldade de sobrevivência dos veículos de menor capacidade econômica, que não têm recursos para as bonificações. “Você compara um blog ou um portal pequeno com um portal da UOL, por exemplo. Não tem jeito de comparar, são coisas desiguais”, afirma.

Antes restrita às mídias tradicionais, as bonificações vão ganhando novos nichos. De acordo com agências de publicidade e com o presidente do Internet Advertising Bureau (IAB), Rafael Davini, atualmente o Google também utiliza BVs. Segundo informações do mercado, o Google seria hoje o segundo grupo em publicidade no Brasil, ficando apenas atrás da Rede Globo.

Líder em BVsO exemplo mais forte da relação entre bônus e concentração, para o jornalista e presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, é o caso da televisão. “Todos os canais fazem isso, é uma forma de manter a fidelidade da agência de publicidade com o veículo. Só que, como a Globo é muito poderosa, a propina é muito maior”, diz.

De acordo com dados do Projeto Inter-Meios, da publicação Meio & Mensagem, a publicidade destinada à TV aberta em 2012 foi de R$ 19,51 bilhões. Cerca de dois terços desse valor ficaram com a Globo.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Empresas e Empreendedores da Comunicação (Altercom) e editor da Revista Fórum, Renato Rovai, outro procedimento adotado pela emissora é o repasse antecipado dos bônus. “A Globo estabelece uma bonificação por volume de publicidade colocada e antecipa o recurso. Aí a empresa fica presa a cumprir esse objetivo. É assim que fazem o processo de concentração”, ressalta.

Borges critica ainda o silêncio midiático em torno do assunto. “É um tema-tabu, nenhum veículo fala. Como todo mundo utiliza, ninguém pode reclamar. Fica todo mundo meio cúmplice”, dispara.

Regulamentação
Em 2008, as bonificações foram reconhecidas e regulamentadas pelo Conselho Executivo das Normas Padrão (CNPE), entidade criada pelo mercado publicitário para zelar as normas da atividade. O CNPE classifica os bônus como “planos de incentivo” para as agências.

Dois anos depois, as bonificações foram reconhecidas também por lei. Elas estão previstas na Lei nº 12.232, que regulamenta as licitações e contratos para a escolha de agências de publicidade em todas as esferas do poder público. Segundo o texto, “é facultativa a concessão de planos de incentivo por veículo de divulgação e sua aceitação por agência de propaganda, e os frutos deles resultantes constituem, para todos os fins de direito, receita própria da agência”.

Para Renato Rovai, a aprovação do texto agravou o problema. “É uma corrupção legalizada. Nenhum lobby é legalizado no Brasil, mas o BV é”, critica o presidente da Altercom.

A Lei nº 12.232 também foi objeto de polêmicas durante o julgamento da ação penal 470, no caso que ficou conhecido como “mensalão”. Isso porque o texto original da lei permitia que as agências ficassem com o bônus, mas só para contratos futuros. Entretanto, uma mudança feita na Comissão de Trabalho em 2008 estendeu a regra a contratos já finalizados. O fato gerou discordância entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ayres Britto chegou a afirmar que as alterações foram feitas para beneficiar os réus do “mensalão”, acusados de peculato referente a desvios de Bvs.

Mudanças
Mudar a legislação, na avaliação do presidente da Altercom, é um passo fundamental para acabar com a prática das bonificações por volume. No entanto, são necessárias mais medidas para reverter o quadro atual da mídia no país. “É preciso mudar a regulamentação e criar um novo marco legal, incluindo as agências”, defende Rovai. Uma das propostas para isso é o Projeto de Lei de Iniciativa Popular para as Comunicações. Criado por organizações populares, o PL visa, dentre outros objetivos, combater o monopólio no setor e garantir mais pluralidade nos conteúdos.

Em seu artigo 18, o projeto propõe que “os órgãos reguladores devem monitorar permanentemente a existência de práticas anticompetitivas ou de abuso de poder de mercado em todos os serviços de comunicação social eletrônica”, citando “práticas comerciais das emissoras e programadoras com agências e anunciantes”. Para se transformar em um projeto de lei, a proposta precisa de um 1,3 milhão de assinaturas.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

AS ESCOLHAS DE DILMA


As notícias que chegam dos correspondentes de Carta Maior na
Europa formam um denso exclamativo de alerta. A austeridade estala o relho do desemprego nas costas de quase 27 milhões de pessoas no continente  -mais de 19 milhões só na zona do euro. A fome está de volta numa sociedade que imaginava tê-la erradicado com a exuberância da política agrícola  do pós- guerra, associada à rede de proteção do Estado social. A regressividade econômica se faz acompanhar da contrarrevolução  sempre que a esquerda troca a resistência pela adesão à lógica cega dos mercados. O fundo do poço é o ponto mais perigoso  de uma crise. As fragilidades estão no seu nível máximo.  O próprio FMI alerta: nas condições atuais, cada unidade adicional de austeridade produz duas vezes mais decrescimento, do que no início do ‘ajuste'. O Brasil ingressa nesse capítulo do colapso neoliberal equilibrado em trunfos e flancos significativos. Se não dilatar o espaço da política na condução da economia, o governo corre o risco de perder o que tinha sem obter o que a ortodoxia lhe promete. Acreditar que o monólogo entre o BC e os mercados será capaz de reordenar a macroeconomia é terceirizar o país à lógica conservadora, até agora restrita à exortação midiática. Política é economia concentrada. O governo Dilma tem escolhas a fazer. E legitimidade para exercê-las. É a hora. (LEIA MAIS AQUI).






quarta-feira, 27 de março de 2013

'BRASIL IMPEDIU QUE CRISE GLOBAL AFETASSE O PAÍS', DIZ DILMA


terça-feira, 26 de março de 2013

A NOSTALGIA DA ORDEM DE SERVIÇO DE 1999



*Confisco de 30% sobre grandes depósitos salva Chipre da bancarrota iminente.

*Mas desencadeia pânico entre grandes correntistas na cadeia do euro

Pânico nas trincheiras do dinheiro graúdo: se Chipre é o novo nome do jogo, para onde fugir? Bancos e detentores do capital especulativo pagarão, a partir de agora, pelo saneamento da doença infecciosa que ajudaram a espalhar? Sim e não, diz  num mesmo par de horas o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem. Cinco anos depois da implosão da ordem neoliberal o terreno continua minado e escorregadio. Os riscos crescem. Chipre que o diga. É disso que tratam os presidenciáveis,  como Eduardo Campos e Aécio, quando se oferecem como o prato principal nos regabofes elegantes da plutocracia descontente com  o ‘intervencionismo da Dilma'. Quando a  folia financeira de uma pequena ilha põe em sobressalto o sistema bancário de um continente inteiro, porque a economia política tornou-se  escrava  da demência dos mercados, o que dizem essas vozes e os comensais desses regabofes? Falam a língua de 1999. O país, então, frequentava os guichês e o genuflexório dos credores. A fantasia do Real forte fora rasgada com uma fuga de capitais que, em três meses, esgotou as reservas  de US$ 74 bilhões. Desprovido de soberania sonante e ideológica, o governo  FHC assentiu às exigências dos mercados. A ordem de serviço foi detalhada em um memorando do Ministério da Fazenda que merece ser  lido. O Brasil de 2013 é um país radicalmente distinto daquele de 1999. Mas reside ali, ainda, a matriz das ideias que o conservadorismo acalenta para uma volta ao poder. (LEIA MAIS AQUI)


O que acontece no Chipre e por quê?


Mais uma vez a Troika atua com falta de inteligência e imprudência imperdoáveis. Irá carregar por muitos anos o sistema bancário cipriota, ao tentar reviver um morto que não poderá levantar a cabeça. Empobrece-se por décadas uma população, enquanto o modelo de paraíso fiscal permanece lá, intacto. Por Juan Torres López, do Rebelión



A grande maioria das pessoas se espantou quando ficou conhecido que a Troika (Comissão Europeia, Banco Cental Europeu e o FMI) acabara de ceder um empréstimo ao Chipre com a condição de privatizar serviços públicos e diminuir gastos e de estabelecer um imposto de 9,9% (como se fosse oferta de um supermercado) para depósitos acima de 100 mil euros e de 6,75% para os menores. 

Quando os cipriotas saíram correndo para os caixas eletrônicos para tirar seu dinheiro, viram-se impedidos de sacar a quantidade correspondente a este imposto, assim se estabeleceu um cerco de pura apreensão. E, como sempre acontecem essas coisas, sem que haja qualquer deliberação por parte do parlamento, que é onde se supõe estar funcionando a soberania popular que julga as grandes decisões nas sociedades que se chamam democráticas. 

O Chipre é uma das menores economias da União Europeia (seus depósitos bancários representam mais ou menos 0,2% do todo) e é um país pouco conhecido pelos europeus, exceto por sua tradicional oferta turística. Mas agora convém saber algo mais sobre este país, porque o que lhe ocorre hoje pode acontecer em pouco tempo com as maiores economias da Europa.

Uma brevíssima história
Chipre manteve desde os anos noventa uma economia modesta e relativamente saudável graças ao turismo. Contudo, entre 2001 e 2008 seu PIB cresceu uma média de 3,7%, bem maior que a da maioria dos países da Europa, enquanto sua dívida mantinha-se baixa, sem sequer alcançar, quando se estalou a crise, os 60% exigidos pela UE.

Mas a partir de 2010-2011 as coisas se complicaram para governo cipriota, as agências de risco rebaixaram a nota do Chipre e em 26 de junho de 2012 o governo solicitou formalmente ajuda à UE. O que tinha passado nestes anos de crescimento e as razões da queda são muito parecidas com o que ocorreu noutros lugares da Europa.

O Chipre entrou para o bloco do euro em 2007, mas tinha já vinculado sua moeda com o euro desde antes. Isso permitiu ao país ter juros baixos, ao mesmo tempo em que oferecia impostos vantajosos (na realidade, comportava-se como um autêntico paraíso fiscal). Registrou, assim, grandes entradas de capital que permitiram seu grande crescimento. Muitas destas entradas (algumas estimativas dizem entre 30 e 40% do total de depósitos) são provenientes dos oligarcas russos que lavavam seu dinheiro no país, do Reino Unido e inclusive (quando a crise eclodiu) da Grécia.

Os bancos canalizaram a entrada desta grande quantidade de liquidez e a puseram, em sua maior parte, no financiamento de uma bolha imobiliária muito parecida com a da Espanha. A partir de 2008-2009 compraram grandes volumes da dívida grega, muito rentável pela pressão que os mercados exerciam sobre o país heleno (os bancos cipriotas dedicaram ao país o equivalente a 25% do PIB do Chipre).

Os economistas neoliberais, e entre eles as autoridades europeias, consideraram nos anos de bonança que um setor bancário superdesenvolvido e impostos bastante reduzidos eram uma grande virtude da economia cipriota (o mesmo que diziam da Irlanda). A realidade se encarregou de pôr tal sabedoria em seu devido lugar: quando em 2011 realizou-se uma revisão da dívida grega (como será inevitável que aconteça noutros países), os bancos do Chipre quebraram. E os baixos impostos traduziram-se em um maior incremento da dívida e em quase nula a capacidade de manobra quando a dinâmica se viu travada e os gastos públicos tiveram de elevar-se (entre outras coisas, porque o desemprego disparou).

Em meio tudo isso, não se pode esquecer que também tiveram (assim como em outros países europeus e também na Espanha) um banco central dirigido por cúmplices dos banqueiros que nada disseram quando o desastre ainda estava em germe.

A intervenção 
Agora, com já ocorreu noutros países, os bancos quebrados levam consigo todo o resto da economia. É normal. Já dissemos muitas vezes: o financiamento é como o sangue da economia e, sem ele, a atividade econômica morre sem remédio. É verdade que deixar os bancos caírem sem alternativa de financiamento é suicida, mas não é menos suicida viver como zumbis que engolem todos os recursos que os dão.

Logo depois das mudanças, ganhou as eleições e entrou no governo o protegido da Merkel. A sorte estava lançada. Ainda que desta vez a Troika tenha ido mais além do que se esperava porque tomou uma decisão que se vende de nova, o castigo exemplar aos esbanjadores (agora na forma de mafiosos russos), mas que pode fazer com que o sistema bancário europeu exploda.

Resgatar um sistema morto, como o cipriota, significa mais ou menos duplicar a dívida pública do Estado (quase 150% do PIB). O empréstimo que dão ao Chipre, e que irá diretamente aos bancos, será de 10 bilhões de euros. Pouco para a União Europeia (lembremos que só a França e Alemanha gastaram oitenta vezes mais para resgatar seus bancos), mas é muito para o Chipre: quase metade de seu PIB.

O que equivale a dizer que será materialmente impossível que se possa pagar e muito menos possível com o plano de austeridade que aqui também se impõe. Terão de haver novos acordos mais adiante e, enquanto isso, cresce a miséria em um país que até agora tenta seguir adiante (ainda que, desde antes, poderia ter saído muito melhor se a UE não fosse cúmplice dos paraísos fiscais e não se tivesse firmado este modelo de financeirização neoliberal insustentável).

Mas isto, no caso do Chipre, não é tudo. Com a apreensão, tomada, de uma parte dos depósitos bancários, a UE revoga suas próprias normas e abre a torneira para que as pessoas acabem por retirar o quanto antes seu dinheiro dos bancos. Não só no Chipre, onde isto já está acontecendo, mas também em outros países. Veremos se não é agora que o paradoxo se expressará: de que tenha sido a própria Troika quem vai afundar também os bancos ao provocar que os contistas saquem seu dinheiro, já não mais somente por indignação, mas pela desconfiança que ela, Troika, mesma, provocou.

Claro que isto não será um desastre para todos. Já há muitos sites especializados que aconselham que os investidores europeus levem seu dinheiro para bancos na Alemanha, Holanda, Finlândia ou Luxemburgo. Seus bancos terão problemas.

Mais uma vez a Troika atua com falta de inteligência e imprudência imperdoáveis. Vão carregar por muitos anos o sistema bancário cipriota, ao tentar reviver um morto que não poderá levantar a cabeça. Afunda-se uma economia ao deixá-la sem financiamento, muito mais endividada que antes e sem recursos para pôr em marcha a atividade econômica. Empobrece-se por décadas uma população. O tanto que se diz atuar contra o dinheiro sujo dos russos, mas não se faz nada para acabar com os paraísos fiscais. É aí, neste desastre, que estão em germe as bases para que grandes grupos empresariais possam se fazer com a riqueza dos cipriotas, seus recursos naturais e serviços públicos.

Até quando?

Tradução: Caio Sarack

sexta-feira, 1 de março de 2013

O PIB DE 2012 E A RECEITA QUE AFUNDA A EUROPA


DEMÊNCIA ORTODOXA EMPURRA O MUNDO AO ABISMO: nos EUA, Obama luta contra o relógio para evitar um corte de US$ 85 bi no orçamento este ano, que exigirá extinção de gastos sociais e demissões. Prazo para um acordo com os republicanos termina à meia-noite desta 6ª feira (horário de Washington).


 Baixo crescimento da economia brasileira em 2012 (PIB de 0,9%) atiça o discurso ortodoxo no país. A alternativa preconizada na comemoração conservadora afunda a Europa. Desemprego em janeiro bateu recorde na zona do euro: 11,9%. Colapso atinge indiscriminadamente todos os países que aplicam o receituário martelado aqui pelo dispositivo midiático: corte de gastos, desmonte de direitos trabalhistas, extinção de subsídios sociais. No caso brasileiro, os professores banqueiros advogam, ademais, um 'pequeno choque' de juros, para reforçar o regime de metas de inflação e ressuscitar a supremacia do interesse rentista na política econômica. Na Grécia, 27% da população está desempregada; na Espanha, 26%; em Portugal, 17,6%. Na Itália, a festejada austeridade do tecnocrata Mario Monti jogou o país num vácuo institcional: reconduziu Berlusconi ao centro da disputa política e gerou 11,7% de desemprego. Na Espanha são mais de seis milhões de desempregados; o PIB do país caiu 3,7% em 2009; 0,4% em 2010; cresceu apenas 0,4% em 2011 e voltou a cair quase 1,5% no ano passado. Mas a inflação na zona euro está agora dentro da meta fixada pelo BCE. Alvissarás: diriam os sábios tropicais; agora, sim, pode-se baixar os juros. Talvez  um pouco tarde: o arrocho produziu 30 milhões de desocupados criando uma dinâmica recessiva autônoma no coração da UE. A previsão do comissariado de Bruxelas é de que o desemprego mais alto em 20 anos continuará subido em 2013, para atingir 12,2% da população. O PIB registrará um novo recuo, de pelo menos 0,3% (Leia o blog do Emir, direto da Espanha; nesta pág. E ainda:a análise de Slavoj Zizek; o artigo de Marcelo Justo, de Londres e as notas  'O que Aécio faria do Brasil que temos hoje?'; 'Crise e Síndrome de Estocolmo' e 'Pratos cuspidos' AQUI)