Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Golpistas agradecem esquerda que quer PT fazendo “mea culpa”


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Em 2002, o PSDB elegeu 70 deputados federais. Em 1998, elegera 99. De 1994 a 1998, vimos a era de ouro do partido. Tudo acabou em 2002. A redução da bancada não traduzia o golpe que os tucanos haviam levado.

Claro que a debacle tucana ocorreu sem concurso da mídia, que, ao longo daquele ano, praticamente fez campanha eleitoral para José Serra enquanto defendia Fernando Henrique Cardoso da responsabilidade por entregar um país arrasado ao sucessor, com inflação de 12,4 % e desemprego de 12,6%, juros a 25% ao mês, salário mínimo de 200 reais (70 dólares), pobreza quase intocada, concentração de renda nas alturas, reservas cambiais de 17 bilhões de dólares (hoje, o país tem 370 bilhões de dólares em caixa).

No dia 1º de janeiro de 2003, dia em que Lula assumia a Presidência da República pela primeira vez, a Folha de São Paulo publicou a herança de FHC a Lula contendo esses dados.

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Nos anos seguintes, a bancada do PSDB na Câmara Federal continuaria minguando.

Em 2006, passou para 66 deputados; em 2010, para 54 e, em 2014, apesar do ressurgimento da direita nas urnas após passar as três eleições anteriores sendo surrada, os tucanos continuaram com os mesmos 54 deputados – cerca de metade da bancada que tiveram um dia.

O PSDB só não afundou de vez por causa da mídia. E mesmo com o apoio desta o partido já não tinha o que dizer diante de governos do PT que faziam os trabalhadores ganharem mais todos os meses, com o desemprego despencando mês a mês.

Há várias interpretações para as causas da crise atual. Se eu disser que se deve a sabotagem da direita ou que as “jornadas de junho” geraram a crise porque espantaram o investidor, virá algum contraponto com versão diametralmente oposta. Porém, ninguém poderá negar que dos 13 anos que o PT governou o Brasil, durante 11 a vida das pessoas melhorou muito.

Quem tiver dúvida, basta consultar os indicadores oficiais e verá que de 2003 a 2014 salários e quantidade de empregos aumentaram e desigualdade e pobreza despencaram. Ponto.

Contudo, apesar de tudo isso, o PSDB resistiu e se ergueu. E se ergueu com inteligência. Se ergueu quando se deu conta de que deveria defender seu legado, claro que contando com a cumplicidade da mídia, que fez sumir os números da economia do fim do governo FHC.

O que é estarrecedor, portanto, é ver que aquela esquerda que, em 2013, convocou manifestações que tiraram a direita do armário e derrubaram a popularidade de Dilma de 65% para 31% em três semanas, agora quer que, após o PT ser massacrado pelo golpe e pelas urnas (que o massacraram por conta do golpe), continue se autoflagelando.

É pra acabar. Esse surto suicida da esquerda brasileira parece não ter fim.

Do julgamento do mensalão para frente, era óbvio que o golpe se tornaria inevitável e que passava por sabotagem da economia e por impeachment. Quando eu dizia que havia um golpe em marcha essa esquerda que quer ver o PT fazendo “mea culpa” em praça pública pelo golpe que sofreu, dizia que não haveria golpe algum, que “o mundo não aceitaria”.

Eu sempre tentei explicar a esses setores da esquerda que o golpe viria através do impeachment, mas nunca me deram ouvidos. Diziam-me adepto de “teorias da conspiração”.

Deu no que deu.

Agora, vem essa ideia de “jênio” de o PT fazer “mea culpa”. PQP!

O PT deve fazer mea culpa por que?

Por tirar 40 milhões da pobreza?

Por manter o desemprego cadente durante 11 dos 13 anos que governou?

Por ter feito o salário médio do trabalhador subir mês a mês durante 11 dos 13 anos que governou?

Por ter colocado negros pobres na faculdade?

Por ter feito a concentração de renda ter a maior queda em toda história brasileira, segundo o IBGE?

Vão se catar! Corrupção tem em todos os partidos. O caso do PT é que é o único partido que é investigado de verdade. As empreiteiras todas que roubaram a Petrobrás roubaram o metrô de São Paulo da mesma forma e ninguém investiga – o esquema vigeu por vinte anos e não há um único político indiciado.
Por quê? Porque durante esses vinte anos quem governou São Paulo foi o PSDB, que tem licença para roubar.

Em vez de a esquerda estar combatendo isso, está combatendo um fenômeno normal em qualquer governo, mas que sendo em um governo do PT não ficou impune porque Lula e Dilma combateram a corrupção como nenhum outro presidente fez, já que dotaram o país de órgãos de controle tão rígidos e livres que acabaram sendo usados para derrubar o governo petista.

Estou muito indignado com essa proposta. Quero pedir aos esquerdistas que estão propondo essa barbaridade que criem juízo e tratem de começar a combater essa direita que vem aí para tirar direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos homossexuais e para concentrar a renda que o PT desconcentrou.

Aliás, vale dizer que essa esquerda deveria se preocupar em eleger Marcelo Freixo no Rio de Janeiro e, depois, em montar um governo sem alianças, como o PSOL sempre pregou para os governos que o PT conseguia eleger.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O 2º turno no Rio: a oficina de construção da frente ampla Não há tempo para prostração. A disjuntiva histórica nunca foi tão clara: união do Brasil progressista ou a barbárie.

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Facebook Marcelo Freixo

 












 por: Saul Leblon

O PDP emerge das urnas de 2016 como a grande força vitoriosa das eleições de 2 de outubro.
 
O Partido da Demonização da Política, a nova legenda, na verdade nem é tão nova assim. Mas recebeu investimentos maciços nos últimos anos  para hipnotizar a maioria expressiva dos cidadãos brasileiros o seu bordão: a política é o estorvo da sociedade.
 
A mensagem subliminar é ainda mais importante do que o rótulo ostensivo.

O que ela nos diz é que o espaço dos que nunca tiveram espaço nem voz na sociedade deve ser higienizado, fechado e lacrado.
 
Vedado aos ‘populistas’, esse recinto deve ser declarado uma sala VIP exclusiva dos ‘gestores’.
 
A extensão da lógica privada às demais esferas públicas – contas nacionais, empresas estatais, riquezas, serviços, direitos sociais, valores e princípios, como os das diretrizes da educação pública, por exemplo— está implícita.
 
A força da pregação regressiva, antes escudada no martelete dos donos da mídia e dos detentores da riqueza, ganhou uma alavanca legitimadora convincente com a judicialização da vida política e partidária nos últimos anos.
 
Um judiciário gilmarizado e o espaço concedido a ativistas sulforosos do Ministério Público e Cia, aglutinados em torno do juiz sensação nos EUA, fizeram o resto.
 
O conjunto logrou convencer parcelas majoritárias da população de que o problema do Brasil é a política. Mais precisamente seu braço ‘populista’.
 
A ofensiva não teria tido a eficácia que teve, porém, se não contasse com um ambiente favorável.
 
A obra regressiva coroada nas urnas deste domingo teve a colaboração não negligenciável dos erros cometidos pelas forças progressistas, sobretudo aquela majoritária desde 2003 no topo e na base da sociedade: o PT.
 
O mergulho incondicional na política parlamentar explica uma parte do espaço cedido ao arranque conservador.
 
Não apenas isso.
 
A adesão  aos mecanismos convencionais de financiamento de campanha aleijou a perna esquerda do partido, que passou a negligenciar o papel do engajamento de seus eleitores e militantes, reduzidos a tela de fundo de campanhas publicitárias a cargo de rasputins marqueteiros.
 
Daí para a negligência com a luta das ideias, associada à omissão em quebrar o oligopólio da mídia, era um pulo ao abismo.
 
E ele foi dado.
 
A prioridade excludente de um modelo de governabilidade baseado em trocas de cargos e favores, em detrimento da organização de base e da luta social, faria o trabalho restante de descarnar e desossar a vida política da sigla e de sua militância.
 
Enfim, as amarras dessa engrenagem autoalimentada ajudaram a cultivar o preconceito popular, o distanciamento em relação aos ‘de cima’ e o sentimento de irrelevância face ao engajamento político.
 
No chão esburacado por gatos pardos o mantra da demonização do partido  cuidou de escavar abismos profundos entre ele e a sociedade.
 
A percepção de que ainda assim, o saldo objetivo de realizações petistas cristalizara um núcleo duro de liderança no imaginário popular, levou às investidas direcionadas à degola completa de seu aparato dirigente.  
 
Esse tour de force se arrasta desde o julgamento do mensalão, iniciado em agosto de 2012, a partir de uma crispação de denúncias deflagradas em 2005, na tentativa de impedir a reeleição do então presidente Lula.
 
O julgamento do mensalão foi o teste bem sucedido dessa estratégia.
 
Ele se prolongou por 300 horas, com todos os trabalhos televisionados, e multiplicados em escaladas e telejornais diuturnamente enfeixados no mesmo jogral, como se o jornalismo fosse uma extensão das togas.
 
E vice-versa.
 
O enredo da demonização da política e do PT se estendeu por 69 sessões do STF que avançaram até dezembro de 2012.
 
O rescaldo seria explorado até meados de 2014, na tentativa de minar a campanha pela reeleição da Presidenta Dilma.
 
Em  17 de março, então, essa cruzada receberia forte injeção de adrenalina.
 
Nesse dia irrompeu a primeira fase ostensiva da operação Lava Jato, com 81 mandados de busca e apreensão, 18 mandados de prisão preventiva, 10 mandados de prisão temporária e 19 mandados de condução coercitiva, em 17 cidades de 6 estados e no Distrito Federal.
 
A Lava Jato já está em sua 35ª fase e completou 654 medidas de busca e apreensão,  com as guarnições de mídia, calendário e seletividade sabidas, inclusive com o aumento substancial das equipes de investigação (03/10/2016).
 
Em 26 de setembro, ao final da campanha municipal deste ano,  foi decretada a prisão de Antonio Pallocci.
 
Na  semana anterior da campanha eleitoral, ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, Guido Mantega, foi detido por algumas horas gratuitamente, preso em hospital onde acompanhava a esposa, prestes a realizar uma cirurgia para tratamento de câncer.
 
Esse arrastão do discernimento social, capturado por uma sequência vertiginosa de ações cinematográficas de natureza judicial, policial e midiática, foi bem sucedido.
 
Se havia dúvida, a espiral de rejeição e nojo da política agora pode ser medida pela comparação entre o total das abstenções, votos nulos e brancos nas eleições de domingo em relação ao saldo dos últimos anos.
 
Em 2010, 34 milhões de brasileiros e brasileiras ficaram de fora da escolha das urnas: não votaram, anularam ou deixaram sua cédula em branco.
 
Em 2014 esse total já saltou para 40 milhões.
 
Nas eleições municipais deste ano o percentual médio de abstenção pulou de 16,4% para 17,6% , mais de 25 milhões deixaram de comparecer às urnas. E dos mais de 118 milhões de eleitores brasileiros que compareceram, o total de votos em branco e nulos chegou a 13,68%  -- 23% maior na comparação com os 11,15% registrados no primeiro turno de 2012.
 
O quadro em centros urbanos importantes é ainda mais categórico.
 
Em São Paulo, a soma de abstenções, brancos e nulos (3.096.574) superou a votação obtida pela candidatura vitoriosa de Dória Jr (3.085.187).
 
Nada menos que 35% dos eleitores paulistanos se recusaram a participar da decisão sobre o futuro da cidade.
 
Quase quatro em cada dez.
 
Cerca de dois milhões se abstiveram (quase 22%, contra média nacional de 17,6%); um milhão e 100 mil anularam ou deixaram a cédula eletrônica em branco.
 
Pior que isso.
 
O tucano vitorioso, durante 35 dias de campanha com o maior tempo no horário eleitoral, insuflou o discurso da demonização petista e da antipolítica.
 
Dizendo-se um ‘gestor’, um homem da iniciativa privada, um self made man,  fez de sua candidatura uma bazuca de menosprezo às bases da democracia e da participação popular, pilares constitutivos da política.
 
A recusa do eleitor em participar desse ambiente infectado pela pregação conservadora marcou também um crescimento recorde de 43,4% na soma de brancos e nulos em Belo Horizonte, que atingiria 60% em Curitiba e teria um aumento brutal de quase 70% em Porto Alegre.
 
A vitória esmagadora do conservadorismo cobrará sua fatura em todas as esferas progressistas da sociedade, assim como as vitórias anteriores do PT abriram espaços de descongelamento social e político.
 
Extrair lições da borrasca é condição de sobrevivência.
 
Em primeiro lugar, a reavaliação estratégica –indispensável--  deve estar aberta aos ares de um mundo no qual a agenda neoliberal vitoriosa no país estrebucha de forma irremediável.
 
Não há porta de saída para um recuo conservador nas fileiras progressistas. Marta Suplicy é o cadáver político dessa aventura desastrada.
 
Um ciclo de desenvolvimento se esgotou no país; outro terá que ser construído em meio a um ambiente de estagnação secular do capitalismo internacional.
 
A disjuntiva histórica talvez nunca tenha sido tão clara.
 
Mais igualdade com maior repartição de esforços, ou a barbárie, materializada em sucessivos ajustes antissociais fracassados, num plano inclinado de conflitos graves e recessões agudas.
 
A repactuação do desenvolvimento, com uma agenda negociada de metas e prazos para emprego, salários, inflação, juros, déficit fiscal etc  é a alternativa à aventura delirante dos ‘gestores’ que pretendem transpor para sociedades extremadas, fundadas na contraposição estrutura de interesses, a mitologia do self made man.
 
O aumento psicopata da velocidade nas marginais de São Paulo, anunciado por Dória Jr, é a síntese dessa regressão à luta de todos contra todos fadada ao fracasso, a um custo elevado para a população.
 
Mas é pior que isso no plano nacional.
 
Uma esmagadora engrenagem se move para tomar de volta tudo aquilo que transgrediu os limites da democracia formal, e que o ciclo iniciado em 2003, com as limitações sabidas, transformou em um resgate social inconcluso, mas encorajador.
 
Vem aí um paradigma de eficiência feito de desigualdade ascendente, incompatível com a Constituição Cidadã de 1988, que será violada para devolver o Brasil ao figurino pré- redemocratização.
 
Quem pode liderar uma repactuação de desenvolvimento, capaz de evitar esse capotamento histórico, num quadro internacional do qual não se pode esperar uma alavanca de socorro redentor?
 
A tarefa que já não era só do PT, agora responsabiliza com maior clareza ainda o conjunto das forças progressistas para o desafio de  reconquistar a confiança da sociedade na ação política, o que implica subordinar o mercado às decisões da democracia.
 
Se antes esse debate se esgotava na circularidade da inércia, da soberba e do sectarismo, o safanão das urnas deu nitidez à atmosfera política, como acontece depois das grandes tempestades.
 
O relógio da história brasileira soou o sinal de alarme.
 
Quem é democrata, liberal sincero, nacionalista, progressista, socialista e comunista não pode fingir ou perguntar que horas são.
 
Passa da hora de o campo progressista superar sectarismos e prioridades corporativas para enxergar além da lógica particular de cada projeto.
 
O nome desse discernimento é Frente Ampla.
 
Não de cúpula.
 
Não de parlamento.
 
Mas à moda uruguaia.
 
Aquela que reúne partidos, centrais sindicais, movimentos sociais, personalidades, intelectuais, juristas, artistas, enfim, brasileiros e brasileiras de todos os matizes progressistas e democráticos.
 
Não é opcional.
 
Sem um escudo dessa densidade será quase impossível resistir ao vagalhão conservador.
 
E, menos ainda, devolver à sociedade a confiança na agenda progressista e a credibilidade na luta social para reordenar o destino da economia e a sorte da sociedade nessa difícil travessia difícil.
 
A ausência desses requisitos explica uma parte significativa do resultado eleitoral deste domingo, marcado por diferentes versões de descrença na ação política convencional, mas sobretudo nas candidaturas progressistas.
 
A construção de uma frente ampla que sacuda o ceticismo e afronte a espiral conservadora não é tarefa para o divã político.
 
É uma obra da urgência. E do desassombro.
 
Pode e deve ser construída nas oficinas da história, onde práticas e concepções que contribuíram para o desfecho desastroso de agora sejam revistas e modificadas.
 
Sem dúvida, hoje no Brasil o segundo turno da disputa à prefeitura do Rio de Janeiro é uma dessas oficinas da história.
 
Para ela devem convergir as melhores energias, recursos e lideranças que contribuam para levar Marcelo Freixo à vitória.
 
Em 1983, ainda no ambiente marcado pela ditadura e contra a vontade da poderosa rede Globo, o Rio de Janeiro elegeu Brizola governador.
 
A audácia carioca, conhecida por ser um mirante avançado das tendências nacionais, pode ser tocada novamente pela empolgação e o desprendimento de uma Frente Ampla que faça da eleição de Freixo um basta ao golpe e ao massacre antissocial que preconiza para o país.
 
Ademais de eleger Freixo,  Edmilson em Belém, João Paulo em Recife e Edvaldo  em Aracajú, bem como os demais candidatos progressistas na disputa do 2º turno, trata-se de sinalizar o credenciamento de uma agenda que tem outra proposta para o conflito redistributivo agudizado pela encruzilhada do desenvolvimento nacional.
 
Significa reverter a lavagem cerebral conservadora e dar ao jogo o seu verdadeiro nome.
 
A centralidade do conflito hoje no Brasil não é ‘eficiência privada’ ou caos, mas democracia social negociada versus arrocho conservador.
 
O tempo e o terreno  perdidos  nesse rally  --por conta da inércia e do sectarismo,  repita-se, têm uma chance de começar a ser recuperados já, dando à campanha do 2º turno uma identidade radicalmente oposta à formalidade dos apoios meramente publicitários.
 
O divisor de águas consiste em devolver ao debate eleitoral  uma dimensão crucial do desenvolvimento  esmaecida nos últimos anos: a sua determinação política.
 
É preciso trazer para o embate eleitoral a verdade nua e crua temida pelo conservadorismo.
 
O reencontro do país com um novo ciclo de investimento e distribuição de riqueza é indissociável de um avanço da democracia, que passa pela repactuação da economia com a sociedade. E da sociedade com ela mesma.
 
O resto é arrocho. E repressão

sexta-feira, 25 de março de 2016

Um dia depois de vazamento, PMDB carioca puxa o tapete de Dilma; milhares cercam o prédio da Globo em São Paulo; PSOL repete PCB e diz que emissora mentiu

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Da Redação
Multidão estimada entre 17 e 30 mil pessoas marchou ontem à noite em São Paulo entre o Largo da Batata e a sede da TV Globo, apontada como símbolo “de um golpe que está sendo arquitetado”.
A marcha foi organizada pela Frente Povo Sem Medo e encontrou a sede da emissora protegida por barreiras de metal e ao menos uma centena de policiais.
Não houve incidentes. O protesto aconteceu no dia em que o PMDB do Rio de Janeiro, espinha dorsal do apoio do partido ao governo Dilma, deu sinais de que pretende desembarcar da coalizão.
As lideranças cariocas do partido estão abaladas depois do vazamento das planilhas de financiamento da empreiteira Odebrecht.
As planilhas vazaram — da Polícia Federal ou da Justiça Federal de Curitiba — para o repórter Fernando Rodrigues.
Depois que já estavam disseminados, o juiz Sergio Moro decretou sigilo do material, já que muitos dos citados têm foro privilegiado.
Jornal Nacional, da TV Globo, de maneira escandalosa recusou-se a informar que na lista, além de lideranças do PMDB, estão alguns dos maiores líderes da campanha pelo impeachment — dentre eles os senadores Aécio Neves e José Agripino, presidentes do PSDB e do Democratas.
Em vez disso, o telejornal apresentou uma sopa de letras em que igualou o PSOL ao PMDB, o PCB ao PSDB.
Os dois partidos de esquerda desmentiram que tenham sido financiados pela Odebrecht (ver nota do PSOL abaixo eaqui, a do PCB).
Em círculos políticos, este movimento em pinça da frente que reúne a Força Tarefa da Lava Jato e a TV Globo foi interpretado como um sinal para o PMDB carioca.
Derrubado o governo Dilma e preso Lula, a ala governista do partido poderia ser poupada ao menos do noticiário.
Muito próximo da Odebrecht e da TV Globo, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, conhecido na empreiteira comoNervosinho, hospeda as Olimpíadas em alguns meses, um evento em que a emissora tem grande interesse comercial.
O juiz Sérgio Moro, que atua com extrema precisão política, parece ter seguido mais uma vez a cartilha que escreveu analisando a operação Mãos Limpas na Itália.
O objetivo é demolir o sistema político brasileiro. Mira preferencialmente no PT, da mesma forma que na Itália o alvo preferencial foi o Partido Socialista. Se o governo Dilma, que respira por aparelhos, não resistir, é possível que haja um embate entre setores conservadores da política e do STF e o juiz de primeira instância, que conta com grande apoio popular.
Contra a Globo, Moro tem o fato de que uma herdeira da emissora e o ex-marido dela estão envolvidos com a Mossack & Fonseca, escritório panamenho especializado em criar empresas de fachada para sonegar impostos e lidar com dinheiro de origem duvidosa.
Apesar do levantamento do sigilo de centenas de páginas de documentos apreendidos na sede paulistana da empresa — que envolvem escritórios de advogados, empresários e laranjas especializados em esconder dinheiro — a velha mídia simplesmente desconheceu o assunto, tratado de forma exclusiva pelo Viomundo.
Sem crime de responsabilidade atribuído à presidente Dilma, o processo de impeachment avança no Congresso conduzido pelo presidente da Câmara, que é reu no STF por corrupção.
Veja o que disseram participantes do protesto diante da Globo:
“Estamos aqui para defender os direitos dos trabalhadores e contra o ajuste fiscal. O processo de impeachment está sendo tocado por um delinquente que deveria estar preso: Eduardo Cunha”. Ivan Valente, deputado federal, PSOL
O objetivo do protesto é “deter uma ameaça à democracia e às garantias constitucionais”. Guilherme Boulos, dirigente do Movimento dos Trabalhadores sem Teto
“A importância desse movimento é que as pessoas entendam que elas não estão sozinhas. Às vezes, nas redes sociais, quem pensa diferente pode achar que está sozinho. Não, agora, com essa manifestação quem está contra o golpe vai poder encontrar os seus iguais”. Larte Coutinho, cartunista
“O impeachment significa um retrocesso, a imposição de uma pauta neoliberal, com a precarização do trabalho, arrocho. Não haverá estabilidade com impeachment”. Rui Falcão, presidente do PT
Vídeo do Jornalistas Livres, vídeo e fotos da página do MTST no Facebook
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GLOBO MENTE: o PSOL não recebeu dinheiro da Odebrecht ou de qualquer empreiteira
Os estatutos do PSOL não permitem que nossos candidatos recebam recursos de empreiteiras, multinacionais ou bancos.
Nossos candidatos declaram o que receberam e todos sabem que nossas campanhas primam pela austeridade financeira, típica de um partido genuinamente de esquerda.
Fomos surpreendidos pela citação no Jornal Nacional, na noite desta quarta-feira (23), de que o PSOL consta em lista de supostos valores recebidos da empreiteira Odebrecht por mais de 200 nomes de parlamentares e candidatos de diversos partidos.
Defendemos a mais rigorosa apuração de todas as evidências apuradas pela Operação.
Coerentes com nossa crítica à seletividade que vem ocorrendo, nossa posição é de que todos devem ter suas campanhas investigadas.
Certamente muitos próceres da política nacional terão muito o que explicar à Justiça, caso a mesma resolva investigar todos e não somente alguns.
Repudiamos a forma da veiculação por parte da Rede Globo.
A reportagem parte da divulgação de informações sem qualquer comprovação para tentar vincular o PSOL a uma prática que, como todos sabem, combatemos.
A emissora, como já fez outras vezes com nosso partido, manipula as informações para passar a mensagem de que todos os partidos são iguais e metidos nas falcatruas investigadas pela Lava Jato.
Quer, principalmente, lançar uma cortina de fumaça naqueles que são protegidos pela grande imprensa e impedir o surgimento de uma real alternativa de esquerda no país.
Luiz Araújo
Presidente Nacional do PSOL
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Aecím se protege com sonegador preso

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De Telma Christiane, no twitter
No Tijolaço:

Empresa que Aécio usa para se justificar na “lista marrom” é fachada de sonegador já preso

Não vou pedir aos pobres dos blogueiros, porque nós já estamos insones com o combate político contra o golpismo.

Mas as redações de jornais e tevês, com dúzias de repórteres, bem que poderiam se interessar em saber quem é a empresa Leroy de Caxias que Aécio Neves usou como explicação para dizer improcedente a sua aparição na “lista marrom” da Odebrecht.

Eu, como sou legal com os coleguinhas, já dou o caminho.

A Leyroz mudou de nome.

Agora é Rof  Comercial Impex  EIRELI ou ainda E-Ouro Gestão e Participação EIRELI (empreendimento individual), com capital de mais de R$ 800 milhões. A sucessão da Leyroz pode ser comprovada aqui, no processo  Nº AIRR-61500/2014-131-17-00.3 do TRT-17.

Pertence – ou está em nome – a um senhor chamado Roberto Luis Ramos Fontes Lopes.

Cidadão que, em 2014, estava preso por sonegação fiscal contra a União e o Estado de São Paulo, sendo solto apenas por irregularidades formais no processo.

Dele se diz, no julgamento do habeas corpus que o libertou, porque teria havido quebra de sigilo não autorizada:

É que, da análise dos autos se percebe que além da suposta prática de crimes contra a ordem tributária, o órgão ministerial também busca investigar a possível prática do delito de formação de organização criminosa voltada a sonegação de tributos porque “constatou o Fisco Estadual que o que ocorre de fato é a coordenação entre fabricação e distribuição, com Walter Faria à frente do negócio, tendo Roberto Luis Lopes, que figura no quadro social da Leyroz, como”testa de ferro”na atividade de distribuição” … “é citada como evidência de conluio entre a CP-Boituva e distribuidoras para sonegação o fato de a fabricação e distribuição fazerem parte de um mesmo ente econômico” e, ainda, que o relatório “traz considerações sobre a configuração de organização criminosa, com referência a conclusão semelhante por parte da Polícia Federal – fls.36⁄39 do relatório” (fls. 61⁄63).

Pronto, coleguinhas, aí está o roteiro da reportagem, bem interessante, não é?

Ou como é com Aécio “não vem ao caso”?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Na Grécia, Levy não leva

A Grécia fez tudo. E mais um pouco daquilo que os jornais brasileiros asseguram ser o caminho da redenção para a economia do país.

por: Saul Leblon 

Arquivo













A suposição sobre a qual tudo se apoia é conhecida.

A saber:  o governo toma as medidas econômicas   que os mercados e seus ventríloquos preconizam --algumas necessárias, como o reajuste dos combustíveis;  outras discutíveis -- o encarecimento do crédito, por exemplo,  em um quadro de desaquecimento da economia;  e não poucas indesejáveis --entre estas, sobressaem a alta dos juros,  mudanças em salvaguardas trabalhistas e o desmonte da função indutora do BNDES e demais bancos públicos no desenvolvimento do país.

Missão cumprida, o que deve ocorrer ao longo deste ano, avisam os otimistas,  os detentores do capital encerrariam a greve de investimentos em curso no Brasil. 
Novos projetos e planos de expansão engavetados nos últimos dois anos voltariam à agenda dos negócios recolocando a economia na  rota de um novo eldorado de expansão puxado pelo desejável investimento privado.

Mais que isso: a inflação retrocederia, as exportações alçariam voo de cruzeiro, o déficit em contas correntes (de preocupantes 4% em 2014) despencaria; o Brasil, enfim, voltaria a ser um pujante  canteiros de obras, a jorrar empregos e salários por todos os poros.

A leveza com que essas ideias frequentam os prólogos e epílogos dos colunismo de mercado  é notável.

 Nesse mundo idílico, a confiança dos investidores  e a ‘reversão das expectativas pessimistas dos mercados’ só dependeria de o país adotar o  ‘bom senso’ na gestão fiscal e a  ‘racionalidade dos mercados’ na macroeconomia, predicados que, como se sabe não comparecem entre as qualidades atribuídas ao PT, aos ‘economistas da Unicamp’ e a ‘Dilma interventora’.

Por sorte, então, lançou-se mão do que há de melhor na praça.

Joaquim Levy,  la crème de la crème da cepa de zeladores de confiança do dinheiro grosso, assumiu o leme do barco.

Sem cerimônia, ele acena com um cavalo de pau. Garante que assim desviará a sociedade da rota de colisão com o rochedo dos desequilíbrios macroeconômicos para reconduzi-la ao porto seguro dos fundamentos sadios e austeros.

Tudo o mais permanece constante na vida dos nacionais?

Como não se pensou nisso antes: trocar a mediação de fato de Lula –entre o governo e sociedade--   pela austeridade de Levy?

Quanto tempo e dor de cabeça teriam nos poupado a troca da política conturbada e contraditória para a  formação de maiorias, pela matemática clara e afiada como um punhal da austeridade?

Eureka!?

Os gregos que o digam.

E o que eles disseram neste domingo nas urnas, de forma algo sonora e incontestável, é que a receita de arrocho vendida aqui como o atalho óbvio ao paraíso  na prática consiste em  um mergulho ao inferno com passagem de ida.

A de volta há que ser comprada das mãos do diabo.

Ou tomada à força. Como eles acabam de fazer neste domingo, sob a fuzilaria de ameaças e chantagens de um apocalipse financeiro.

Inútil.

Os  votos majoritários dados à esquerda, o Syriza, numa eleição histórica, alteram a correlação de forças na Europa e colocam a agenda neoliberal na defensiva ante o encorajamento de possíveis novas rupturas. Na Espanha em maio, por exemplo, com o Podemos.

Com 149 cadeiras obtidas no Congresso, um resultado superior aos cálculos mais otimistas, a esquerda grega passa a depender de apenas mais duas adesões para ter a maioria legislativa, necessária para as reformas e renegociações ansiadas pela população.

A crise terminal vivida pela Grécia –um país literalmente insolvente e preso a uma camisa de força cambial (o euro)--  nem de longe se equipara aos solavancos vividos pelo Brasil na atual transição de ciclo de crescimento.

Mas a tragédia protagonizada nos últimos seis anos funciona como uma espécie de endoscopia das consequências sociais e institucionais de se entregar aos mercados o comando e o destino de uma nação.

 Nesse aspecto o basta de domingo pode e deve ser lido com um olho na Europa e o outro no Brasil.

 A percolação da tragédia na pirâmide social grega escancarou os custos humanos e econômicos de se preservar a lógica da ganância financeira  como discutível  moeda de troca  para  ‘resgatar a confiança dos mercados e dos investidores’.

A promessa, que durante seis anos escalpelou cada fio de cabelo do povo grego, ao mesmo  tempo em que se exigia que ele se reerguesse puxando o que restou com as próprias mãos, não foi entregue a tempo de se evitar a rejeição eleitoral do domingo.

O que se deu, ao contrário, foi uma odisseia às profundezas do arrocho mais dramático já enfrentado por um povo desde o início do século XX –superior à Grande Depressão norte-americana de 1929.

 O ponto a reter é que a vida da população não apenas não melhorou, como se alardeava em defesa dos ‘sacrifícios’.

Ela foi capturada por um liquidificador desgovernado que interditou qualquer traço de segurança social, desidratou qualquer gota de certeza em relação ao amanhã e interditou a esperança no futuro.

Nos últimos seis anos, o PIB da Grécia  retrocedeu 25%; o desemprego saltou de 8,3% --no início do programa de austeridade-- para 27%  (é de 50% entre a juventude); a dívida mantem-se em assustadores 170%  do PIB (€ 322 bilhões).

 Renegociar um  desconto de 50% é o chão firme defendido pelo vencedor das eleições deste domingo para, a partir daí, deslocar a Grécia do atoleiro para um retorno gradual à viabilidade econômica e social.

Trata-se, é preciso dizer, de uma ruptura.

Há seis anos  a prioridade de Atenas é adequar o país aos 'programas de ajuste' traduzidos em sucessivos cortes orçamentários.

No interior do metabolismo social deu-se o previsível.

Mas há detalhes que ainda desconcertam: o orçamento da educação, por exemplo, sofreu um corte de 60% nessa razia.

 Em miúdos: a rede pública de ensino dispõe atualmente de quatro de cada dez euros que recebia em 2010.

Não há como preservar o essencial quando 60% do alicerce desaba.

Inclua-se no essencial a merenda.

Das periferias mais pobres surgiram nos últimos anos  relatos de desfalecimentos em sala de aula.

Fraqueza.

Não só a infância foi convocada a pagar em libras de carne aos banqueiros da Alemanha e assemelhados.

Aposentados foram 'convidados' a viver com pensões entre 20% a 30% menores.

O salário mínimo foi cortado em 20%.

Todo o país foi estripado nessa proporção: entre 20% a 25% das vísceras.

Macrodados não conseguem traduzir o que se passa na agonia da vida de uma família quando o facão do arrocho corta a carne com esse talho e essa regularidade.

  A camada de gelo mais fina trinca a olhos vistos. Mas é o lago todo que se revolve por baixo em correntes devastadoras.

Governada de forma irresponsável, diga-se, por sucessivos gabinetes antes da crise mundial, a Grécia foi a primeira economia da Zona Euro a ser excluída dos mercados financeiros quando a bolha do crédito fácil estourou.

A partir daí passou a depender dos programas de ‘ajuda’  para respirar.

A lambança precedente sugeria certa legitimidade a um ciclo de maior controle e sacrifícios.

Assim se fez.

Assim se desfez a ilusão na ‘racionalidade’ dos mercados para substituir a ‘sujeira’ da política.

A negociação com a sociedade foi substituída pelos ‘pronunciamentos’ e metas da troika, que durante seis anos fizeram gato e sapato da sociedade e da economia, com implicações iguais ou piores que as distorções que prometiam corrigir .

Vencida a paciência dos gregos, o que se tem depois de tudo é uma economia colapsada, um país desacreditado e uma população disposta  a correr todos os riscos para se livrar do lacto purga interminável e devastador.

Essa talvez seja a maior lição das eleições deste domingo: trata-se do grito de alerta emitido por um povo que passou pelo inferno dos ajustes ‘racionais’.

E  justamente por isso decidiu devolver à negociação política a construção do passo seguinte de sua história.

O protagonista que recebe esse mandato não é um partido qualquer.

E nisso também  há algo a se extrair como lição à esquerda brasileira nos dias que correm.

O Syriza não é um partido, mas uma frente de organizações.

Surgiu em 2004 depois de um intenso processo de diálogo iniciado em 2001 entre múltiplas correntes progressistas, incluindo-se de socialistas  a eurocomunistas, passando por ecologistas, maoístas e trotskistas.

Hoje  é composto por doze organizações.

Sua solidez política e consistência programático levou-o a se tornar  um polo de convergência de centenas de personalidades independentes, entre elas lideranças que se afastaram do PASOK (Partido Socialista) e do partido comunista grego.

 A posição firme e ao mesmo tempo serena da coligação na luta contra o arrocho alargou  sua base de apoio nas ruas e entre a juventude, com adesões maciças entre os Indignados da Praça Syntagma.

A seguir, alguns números que mostram por que,  na Grécia, um Levy não leva mais o povo na conversa:

PIB – a recuperação prometida cedeu lugar a uma contração de 25% da economia entre 2009 e 2013. O desgoverno que era um pesadelo virou um inferno, sob o açoite do arrocho.

Emprego--  mais de um quarto da população ativa do país ficou sem emprego. Antes do ciclo de arrocho a taxa era da ordem de 8%. Entre os jovens, até 35 anos, saltou para 50%, sem perspectiva de se reverter com a manutenção das políticas de ajuste.

Investimento –  a prometida redenção pela retomada do investimento privado revelou-se uma fraude. Admite-se que os níveis pré-crise estavam inflados por conta de gastos públicos irreais  e endividamento privado. Mas o que sobreveio foi o desmoronamento completo desse motor. Asfixiado pela contração da demanda, da renda e do orçamento do Estado, o investimento caiu de 26% do PIB, em 2007, para cerca da metade agora, 13% --o valor mais baixo de toda a zona do euro.

População e vagas -- como se vivesse uma guerra, a Grécia viu sua população diminuir nos últimos anos, assim como o seu estoque de empregos. Desde 2009, 150 mil pessoas deixaram o país (1,3% da população) e 850 mil vagas de trabalho foram destruídas (18% do total).

Inflação --A inflação que era de 4% em 2007 caiu para menos 2% nos últimos dois anos. Nada a  comemorar: a deflação reflete o arrocho salarial implacável, cujo objetivo é baratear o ‘custo Grécia’ para dar à economia algum poder de competição nas exportações à Europa. Com o colapso econômico de toda a zona do euro, marcada por recessão e deflação, o sacrifício grego, ademais, mostrou-se inútil.

Dívida --  A Grécia protagonizou a maior reestruturação de dívida pública da história, em 2012. Mas o seu peso continua asfixiante em relação a um PIB que se contraiu 25%. A dívida continua a esgoelar a sociedade, situando-se acima de 170% do PIB. É impagável. E é justamente essa certeza que fez a população votar no Syriza que defende um corte de 50% no saldo. Antonio Samaras, o líder do derrotado Nova Democracia, ao contrário, considerava esse enforcador ‘sustentavel’.

 Déficit público – Há aqui uma síntese das razões que levaram o eleitor grego a dizer ‘basta’ nas urnas deste domingo:  apesar da queda de 25% do PIB nos últimos seis anos, a política de arrocho do Estado grego ainda conseguiu reduzir em mais 10% o gasto fiscal. Não só: simultaneamente, elevou  a receita de 40% para 45%  do PIB, desde 2009. Arrocho por todos os lados e tributação por todos os poros: foi assim que se conseguiu derrubar o déficit público, da ordem de 15% em 2009, para algo como 3% no ano passado.

O colunismo brasileiro abestalhado de tanta ortodoxia aplaudiria de pé.
Mas exatamente por isso terá dificuldades para explicar aos seus leitores por que os gregos rejeitaram, com tanta ênfase e risco, um êxito tão graúdo que aqui se vende como a redenção da lavoura.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A suástica na piscina e o nazismo submerso do Direito

suastica

Ontem, correu a rede a foto da piscina de alguém, entre Pomerode e Rio dos Cedros (região de Blumenau, Santa Catarina) que, caprichosamente, desenhou um suástica no fundo da piscina de sua casa.
Fotografado por um piloto de helicóptero, o “mimo” – concluiu a polícia – não constitui crime, porque é “para culto próprio” e não para apologia pública, embora se possa duvidar que um hitlerista, depois de enxugar-se na toalha, adote posturas democráticas.

Lembrei-me do episódio ao ler o vigoroso artigo do ex-promotor e professor de Direito Cézar Roberto Bitencourt, a quem não conheço senão do que está escrito ali.

E de uma teoria que, ao contrário daquela famosa do “domínio do fato”, não se ousa assumir.
O “Direito Penal do Inimigo”, também alemã (Feindstrafrecht) uma emanação jurídica neonazista que, pouco confessadamente, está na raiz das práticas jurídicas discriminatórias que, mundialmente, têm seu símbolo maior na prisão de Guantánamo, onde os presos não são exatamente seres humanos como eu e você.

Elevada ao extremo e despida das sofisticações, tem a mesma linha de justificação daquela do matador de moradores de rua em São Carlos (SP), alegando que eles “não pagavam imposto” e não eram “úteis à sociedade”.

Apesar de não serem judeus, nein, mein Füher?

Originalmente usado para a criminalização dos “indesejáveis”, sejam islamitas, pobres, negros, etc, parece  este tal “direito penal”  tomou conta de nosso Judiciário e de sua instância mais alta: o Tribunal da Mídia.

Transcrevo, para que o leitor e a leitora reflita, trechos do texto de Bitencourt onde trata das violações constitucionais – e morais – do que vem acontecendo nesta “delação premiada” que é apresentada hoje quase como um “banho no Rio Jordão” para criminosos.

“Como se tivesse descoberto uma poção mágica, o legislador contemporâneo acena com a possibilidade de premiar o traidor — atenuando a sua responsabilidade criminal — desde que delate seu comparsa, facilitando o êxito da investigação das autoridades constituídas. Com essa figura esdrúxula o legislador brasileiro possibilita premiar o “alcaguete”, oferecendo-lhe vantagem legal, manipulando os parâmetros punitivos, alheio aos fundamentos do direito-dever de punir que o Estado assumiu com a coletividade.”

Não é preciso escrever os nomes de São Paulo Roberto Costa ou do beato Yussef, não é? Mas, adiante:

“Note-se que, ainda que seja possível afirmar ser mais positivo moralmente estar ao lado da apuração do delito do que de seu acobertamento, é, no mínimo arriscado apostar em que tais informações, que são oriundas de uma traição, não possam ser elas mesmas traiçoeiras em seu conteúdo. Certamente aquele que é capaz de trair, delatar ou dedurar um companheiro movido exclusivamente pela ânsia de obter alguma vantagem pessoal, não terá escrúpulos em igualmente mentir, inventar, tergiversar e manipular as informações que oferece para merecer o que deseja. Com essa postura antiética, não se pode esperar que o delator adote, de sua parte, um comportamento ético e limite-se a falar a verdade às autoridades repressoras; logicamente, o beneficiário da delação dirá qualquer coisa que interesse às autoridades na tentativa de beneficiar-se. Essa circunstância retira eventual idoneidade que sua delação possa ter, se é que alguma delação pode ser considerada idônea em algum lugar.”

E como se obtêm estas delações?

(…)pelas informações vazadas na mídia, essas nulidades e inconstitucionalidades são pródigas na “colaboração premiada” celebrada na “operação lava jato”, com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Trata-se, a rigor, de um “acordo de colaboração premiada” eivado de nulidades, mas nulidades absurdamente grotescas, ou seja, decorrentes de negação de garantias fundamentais impostas pelo Ministério Público (negociador da delação) a referido réu e ao seu defensor!
Pelo que vazou, foram violadas, dentre outras, as garantais fundamentais da ampla defesa, do devido processo legal, do direito ao silêncio, de não produzir prova contra si mesmo, direito de não se autoincriminar etc. Ou seja, foi imposto ao “delator” que renunciasse {pode ?!} — a todos esses direitos constitucionais —, inclusive direitos de ações (afastando a jurisdicionalidade do cidadão). Afinal, desde quando as garantias fundamentais do direito de ação, do devido processo legal, da ampla defesa podem simplesmente ser renunciadas por alguém, ainda mais na imposição de uma delação premiada?

Diz um dos promotores do caso, Manoel Pastana, como se as consegue: “o passarinho pra cantar precisa estar preso”. Os delegados de polícia, há tempos (e alguns ainda hoje) ainda proveitam para “dependurar” num poleiro passarinhos, não é?

Voltem0s ao professor Bitencourt:

“Prende-se para investigar, prende-se para fragilizar, prende-se para forçar a confissão e, por fim, prende-se para desgastar, subjugar, ameaçar e forçar a “colaboração premiada”! Aliás, a própria autoridade repressora reconhece, oficialmente, em seu parecer, que esse é o objetivo maior das prisões e tem sido exitoso: arrancar a confissão e forçar a “delação”! Retornamos à Idade Média, quando às ordalhas e a tortura também tinham objetivo de arrancar a confissão, e também eram cem por cento exitosas! Só falta torturar fisicamente, por que psicologicamente já está correndo!”

E tudo isso aplaudido pela “mídia democrática”, com seus juristas padrão Merval, sob o silêncio da Ordem dos Advogados e da postura histérica que quer transformar a esquerda em “mãe da corrupção”ou, como diz Aécio Neves, em uma “organização criminosa”.

Aquela suástica no fundo da piscina não aparece quando as águas estão turvas e agitadas.