Há um movimento de um grupo de militantes petistas que, apesar de não ser grande, tem feito barulho nas redes e conseguiu até levar um ex-ministro da Justiça a um “debate” sobre como obter a volta de Dilma Rousseff ao cargo via Supremo Tribunal Federal.
Muitos têm se irritado com uma suposta “inutilidade” dessa ação, já que (praticamente) todos sabem que a possibilidade de o STF anular o impeachment – com base em seus incontáveis vícios de origem – é muito menor do que zero vezes zero.
Diante da virtual impossibilidade de o golpe ser anulado, perguntei ao dito ex-ministro da Justiça se acreditava mesmo que o STF tiraria Michel Temer do cargo e instalaria Dilma de volta, e ele me respondeu com uma premissa:
— As pessoas precisam ter pelo que lutar
Autores dessa iniciativa estão sendo acusados de adotar um tom dito “impositivo”, do estilo “quem não estiver comigo está contra mim”… Porém, vale a pena refletir sobre parte do que essas pessoas dizem.
O que tenho ouvido de pessoas próximas a Dilma é que ela nem quer voltar à Presidência – por razões mais do que óbvias, pois sabe que, mais uma vez, não a deixariam governar –, mas os militantes da anulação do impeachment afirmam que ela quer voltar, sim…
Independentemente do que Dilma queira ou do que queiram seus apoiadores, o fato é que não existe a possibilidade de seres humanos conseguirem recolocá-la no poder – quiçá alguma força divina, mas há controvérsias.
Todavia, a virtual impossibilidade de anular o ato jurídico-político que derrubou a ex-presidente da República não invalida o fato de que essa derrubada ilegal lançou uma maldição sobre o Brasil.
Muitos analistas têm dito, com boa dose de razão, que só um presidente eleito legitimamente, ou seja, pelo voto direto e em eleições livres, terá legitimidade e força política para fazer com que os agentes econômicos voltem a acreditar no Brasil.
Eles estão certos, mas não totalmente.
Um dos argumentos mais fortes dos fundamentalistas pela volta de Dilma é o de que a sua (dela) derrubada ilegal, levada a cabo sob uma desculpa qualquer, comprometeu a democracia brasileira.
E eles, nesse aspecto, têm toda razão.
Inventar desculpa para derrubar um presidente e conseguir, transforma a democracia brasileira em uma farsa, ou seja, não existe democracia em um país no qual é tão fácil jogar no lixo o voto majoritário de dezenas de milhões de eleitores.
Com efeito, sem democracia sólida não dá para confiar nas regras do jogo.
Os golpistas acharam, em pleno século XXI, que derrubar um governo que não está fazendo o que o capital quer seria salvo conduto para o golpe e proteção total dos rigores da lei para os que atentam contra a vontade popular.
Não é bem assim. Enganam-se os liberais-golpistas de Pindorama. O capital não confia de verdade em países nos quais ele mesmo, capital, derruba governos com tanta facilidade.
O capital até pode rapinar o que houver para ser rapinado nesses países e dar no pé, mas não confia nesse país para nele investir a médio e longo prazos, ou seja, para investir de verdade.
Os liberais-golpistas-midiáticos confundem pirataria com colonização. Acham que violar o instituto sagrado do voto popular derrubando governos legitimamente eleitos não perturba planos de longo prazo no país que for vítima de tal fenômeno.
Ora, você investiria o seu rico dinheirinho em um país no qual você não sabe quem estará governando daqui a seis meses?
Você investiria alguma coisa em um país no qual você não sabe se um político que vencer uma eleição vai levar ou, mesmo levando a vitória, se vai conseguir se manter no cargo?
Enfim, você apostaria em países nos quais as regras do jogo só valem até que alguém, por um ato de força, mude-as de uma hora para outra?
De que adianta eleger Lula, Ciro Gomes ou Bolsonaro se ninguém sabe se, uma vez eleitos, vão conseguir implantar o projeto que conseguirem consagrar nas urnas? E esse é um dos argumentos dos crentes na volta de Dilma.
Segundo os que acreditam na possibilidade de fazer o acovardado STF criar coragem e cumprir a lei – e, aí, eles têm carradas de razão, de novo –, se Lula for eleito em 2018 a maioria de direita que será eleita para o Congresso na mesma eleição não iria deixá-lo governar.
Não tenho a menor dúvida de que qualquer candidato de esquerda que porventura se eleja em 2018 sem conseguir eleger uma bancada forte para atuar em sua base de apoio, não irá conseguir governar e correrá o risco de ser derrubado.
A nova (?) realidade gera novas premissas obrigatórias para todo candidato progressista a presidente.
Os vices, a partir do golpe liderado por Michel Temer contra Dilma, terão que ser muito mais bem escolhidos. Alianças da centro-esquerda com a centro-direita e a direita de aluguel tornar-se-ão inviáveis, o que é ruim para a centro-esquerda…
Hoje, estaria inviabilizada a eleição na qual Lula chegou à Presidência, em 2002. Todos saberiam do risco de ele ser derrubado à primeira crise de popularidade que surgisse por conta de problemas cíclicos nas economias.
Por um lado, é ruim para a esquerda. O Brasil é um país conservador que não resiste a votar em conservadores. Muito eleitor do PMDB, do PP e de outros partidos de direita votou neles para o Legislativo e em Lula ou Dilma para presidente.
Após o golpe de 2016, o que Lula ou qualquer outro candidato de esquerda terá que fazer, em 2018 e para sempre, será dizer ao eleitor, durante as campanhas eleitorais, que, se esse eleitor não votar nos candidatos a deputado e senador aliados a si, se eleito não conseguirá governar.
E poderá ser derrubado.
A possibilidade de golpe, de derrubada de governo legitimamente eleito, de parlamento que não deixa o eleito governar, vai entrar de vez nas campanhas eleitorais. Se, se não entrar, o eleito poderá ter um triste fim.
Diante disso tudo, os devotos da volta de Dilma têm razão ao menos em um ponto: eleger Lula sem a reparação do golpe contra Dilma não vai adiantar nada.
Isso quer dizer que você é favorável ao movimento Volta, Dilma, Eduardo? Nunca fui contra, mas não acredito nele.
Acredito que sem a reversão do impeachment, a eleição legitima de um novo presidente só será crível para investidores se o eleito conseguir eleger consigo uma sólida base de apoio, alinhada a seu pensamento político-ideológico. Sem isso, não governará.
*
PS: Surgiu dúvida sobre se Lula irá depor a Moro por teleconferência ou presencialmente em 3 de maio. Nesse aspecto, matéria do portal G1, da Globo, afirma que “O juiz federal Sérgio Moro, responsável pelas ações da Lava Jato na primeira instância, agendou nesta sexta-feira (3/3) o interrogatório dos réus na ação penal que envolve um triplex em Guarujá, no litoral de São Paulo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve ser interrogado em 3 de maio, às 14h, na sede da Justiça Federal do Paraná, em Curitiba.
O impeachment de Dilma Rousseff foi vendido pela mídia, pelos grandes empresários e pelos políticos golpistas (PSDB e PMDB à frente) como panaceia para a crise econômica. Com base nesse estelionato político, grande parte da população apoiou o golpe.
Em dezembro de 2015, o jornal Valor Econômico afirma que “Empresários querem que processo de impeachment corra de forma rápida” para destravar a economia
Em maio de 2016, o jornal O Globo afirma que “A aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff abre espaço para uma retomada de confiança na economia brasileira”
Em agosto de 2016, a revista IstoÉ afirma que “Empresários aguardam o afastamento definitivo de Dilma Rousseff para retomar investimentos”
Em setembro de 2016, o Correio Brasiliense afirma que “Para especialistas, PIB do país deve melhorar com impeachment de Dilma”.
Também em setembro, o dono da Riachuelo afirma que “Com impeachment, agonia [da economia] será curta”
Para não me estender muito, fecho as previsões empresariais, políticas e midiáticas de melhora na economia com o impeachment de Dilma com a previsão de um entre uma horda de políticos de direita que afiançaram à sociedade que o golpe resolveria tudo.
Em agosto do ano passado, o senador pelo PSDB mineiro Aécio Neves afirma que “Saída de Dilma é essencial para a retomada da economia”
Ou seja, o apoio de parcela majoritária da sociedade ao golpe decorreu de um estelionato político perpetrado a seis mãos pelo grande empresariado, pela mídia conservadora e por políticos de direita, que prometeram à população que tudo se resolveria como por mágica se a democracia fosse estuprada.
Contudo, muitos avisaram que era mentira. Este Blog, por exemplo, em abril do ano passado escreveu o seguinte:
“(…) A incerteza jurídica que se abaterá sobre um país que tira uma governante honesta e coloca picaretas investigados e processados em seu lugar terá repercussões imensas na vida econômica do país.
(…)
Se o golpe vingar, portanto, sobrevirá uma era de incertezas e de choques violentos na sociedade.
(…)
O que iria convulsionar o país e afundá-lo econômica e institucionalmente seria a forma como os golpistas iriam governá-lo se o golpe passasse. O desmonte de políticas públicas que tanto melhoraram a distribuição de renda e o nível de pobreza é um dos objetivos dos golpistas. E esse desmonte irá ocorrer.
De início, o desmonte do Estado de Bem Estar social edificado ao longo da era petista será levado a cabo timidamente. Com o passar do tempo, o ritmo será acelerado.
(…)
Tudo isso irá gerar um conflito social imenso, de proporções e intensidade imprevisíveis. Após mais de uma década melhorando de vida ano a ano, a maioria pobre dos brasileiros descobrirá que cometeu um erro imenso ao condescender com o golpe (…)”
Mas não foi só o Blog da Cidadania que previu o desastre. Bradando no deserto como esta página, a imprensa séria também avisou a desestruturação da economia que o golpe iria gerar.
Como se vê na matéria da BBC, foram os analistas internacionais que alertaram o Brasil para a insensatez que seria levar a cabo um longo processo de impeachment após um ano inteiro (2015) de sabotagens, com o Congresso, sob Eduardo Cunha, recusando-se a aprovar qualquer medida de Dilma Rousseff para sanear a economia e ainda criando as tais “pautas-bomba”, as quais criavam despesas no momento em que havia que conter gastos.
Isso sem falar na Lava Jato, que paralisou a Petrobrás e o setor de construção pesada brasileiro, responsável por uma fatia enorme do PIB.
Com a sabotagem e o longo processo de impeachment, a economia afundou. Mas não foi só. Ao passo que a economia afundava, instaurou-se um processo fascista no Brasil, com aumento da intolerância e do ódio.
Sob a “liderança” dos conservadores tucanos e peemedebistas, hordas fascistas se espalharam. Ministros de Estado, governadores de Estado, lideranças políticas de todo o país começaram a pregar contra o “politicamente correto” e a pregar a intolerância.
Na economia, o golpe foi mortal. Da derrubada de Dilma em abril para cá, a economia, em vez de melhorar como os golpistas prometiam, piorou. Basta uma busca no Google para comprovar.
Mas o caos legado pelo golpe não piorou só a economia (em boa parte, devido ao fato de que ninguém quer investir em país com democracia mambembe). A sociedade está enlouquecendo. Um massacre de presidiários em Manaus abriu a caixa de Pandora.
Políticos de direita como Bolsonaro, Feliciano, membros do governo Temer e o próprio governador do Amazonas começaram a defender chacinas de presidiários
A reação não tardou. Organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) começaram a promover mais chacinas em presídios e, vendo a comemoração dos setores enlouquecidos da sociedade, já partem para a radicalização.
Enquanto a mídia tucana minimiza o risco, o respeitado diário espanhol El País avisa que a organização criminosa promete promover ataques à população nesta terça-feira, dia 17 de janeiro.
Se vai se concretizar, tudo vai depender das negociações do tucano Geraldo Alckmin com o movimento – desde 2006, os governos tucanos de São Paulo vêm negociando com o PCC para que não promova ataques como o daquele ano.
Enquanto o país afunda por conta do golpe, os golpistas propriamente ditos e sua militância do ódio comemoram a derrubada do PT do poder após 4 mandatos e 13 anos vencendo sucessivas eleições contra os fascistas tucanos. Enquanto o país pega fogo, só conseguem se masturbar com o processo fraudulento que extinguiu a democracia brasileira.
A má notícia é que vai piorar, já que os golpistas pensam que estão abafando.
Menos mal que vão finalmente desencadear uma revolução francesa no Brasil. Esses que comemoram o golpe enquanto berram que são “ricos” vão se arrepender amargamente do que fizeram. O povo irá para cima deles. É só esperar.
Um dos maiores desafios na ação política é ser contemporâneo do seu próprio tempo.
Significa,
entre outros requisitos, ter a noção exata das determinações que
singularizam a luta pelo desenvolvimento em uma sociedade num dado
momento histórico.
Ir além
dele condenaria o voluntarismo mais heroico ao resultado mais pífio; o
erro em sentido contrário não costuma ser menos inclemente com os
hesitantes.
Nessa
prova de fogo não se poupam boas intenções ou trajetórias consagradas
de governantes, lideranças, partidos, movimentos, sindicatos, mídia ...
Com
o desconto da ligeireza, não haveria despropósito em dizer que a
tragédia vivida hoje pela sociedade brasileira decorre, em parte, de um
erro de avaliação dessa natureza.
Já no final do primeiro mandato da Presidenta Dilma, a quilha da governabilidade exigia outro mix entre a rua e o parlamento.
Gargalos gritavam a necessidade de mudar o lastro para o exercício do poder --e isso implicava uma recomposição das alianças.
A política fiscal contracíclica havia esgotado seu fôlego diante de uma persistente desordem global do neoliberalismo.
A
escolha de um ajuste rápido baseado em aperto de gastos e
desvalorização cambial --para crescer ancorado em exportações,
subestimou a anemia do comércio internacional...
Ao
negligenciar a dimensão política do impasse econômica, o governo perdeu
o lastro, o golpismo nativo --e o Departamento de Estado-- farejou a
deriva, a aliança da mídia com a escória, o dinheiro e o judiciário fez o
resto.
A exata compreensão da encruzilhada exacerbada pelo golpe de 31 de agosto tornou-se agora uma questão de vida ou morte.
Não do PT. Da nação que o Brasil poderia ser, mas ainda não é.
O
fato de, em menos de quinze dias, o golpe ter jogado ao mar a carne
podre de seu principal operador, cassando Eduardo Cunha por 450 votos a
10, não deve nutrir ilusões em autodissolução.
A faxina no porão, na verdade, alivia a disputa no convés.
A cabeça de Cunha serve como esparadrapo na imagem de um governo corroído pela ilegitimidade.
Passa, ademais, a imagem de um suposto controle sobre o Congresso --para aprovar ‘as reformas’ exigidas pelo mercado.
É
improvável que gere retaliações: o descarte não teria ocorrido sem
garantias robustas e generosas, inclusive de salvo conduto na Lava
Jato.
O conjunto reafirma no
presente, em cores ainda mais vivas, aquilo que já era verdade na
travessia do primeiro para o segundo mandato do governo Dilma: o nome do
novo protagonista capaz de sacudir a espiral conservadora, com escala e
força capaz de derrota-la, é a rua mobilizada.
Manifestações recorrentes tem arrastado centenas de milhares de pessoas às praças e avenidas de todo o país.
A
maciça presença, inclusive de famílias inteiras de classe média, deu a
elas um peso pedagógico em si: a desobediência civil diante da violência
fardada ou midiática desmente para o conjunto da sociedade a fraude do
‘consenso golpista’.
É essa
rota de colisão em defesa de eleições diretas que vai trincar a ordem
unida da santa aliança entre a escória parlamentar, a mídia, o dinheiro e
o judiciário
Para que ela se consolide, porém, não basta a rua dizer o que não quer para o Brasil.
A
agenda antissocial e antinacional do golpe terá que ser afrontada por
pleitos, bandeiras e projetos que ofereçam à nação uma nova referência
de futuro crível para a economia, a sua gente e a sua esperança.
A chance de as forças progressistas se transformarem nessa baliza depende da escala e da consistência desse repto nas ruas.
Há
um requisito mais geral para isso: a determinação para enxergar o
esgotamento de um ciclo e as balizas que podem pavimentar o próximo.
Das
muitas conversas que Carta Maior teve sobre essa travessia com
intelectuais e lideranças progressistas, uma se notabilizou pelo
desassombro atrelado à experiência.
‘Essa
crise não se parece com nenhuma outra que vivi’, disse a professora
Maria da Conceição Tavares ainda no início da ofensiva golpista, cuja
virulência ela precificava, intuitivamente, no diagnóstico sobre a
dissociação extremada de interesses econômicos e sociais em confronto.
‘Nenhuma
das que acompanhei mais de perto –o pós-Getúlio e a do golpe de 1964,
para não falar das outras, como a do fim da ditadura—envolvia um
travamento estrutural e político tão difícil’, explicou para sublinhar
em contraponto: ‘ Sem falar no quadro internacional, que é completamente
outro, marcado pelo ambiente financeiro destrambelhado’.
‘Estamos
em uma transição de ciclo estrutural’, escandiu a professora para
demarcar o que de essencial precisaria ser contemplado na busca de
alternativas progressistas para o futuro brasileiro.
Nos
anos 50 e nos anos 70, depois do suicídio de Getúlio, discorria então
--‘assim como após o golpe militar, havia espaço para se agregar novos
setores à estrutura econômica brasileira’.
“Agregar
é mais fácil do que reformar as estruturas, me entende?, repetiu
algumas vezes durante a conversa, sem disfarçar a apreensão com a
gravidade das próprias palavras .
A agregação amortece a colisão entre os interesses já instalados e os novos.
O
que fez, afinal, Getúlio quando foi reconduzido ao poder em apoteótica
votação nas eleições de 1950, com o Brasil desordenado pela ‘malta
liberal’ de Dutra?
‘Getúlio
viu espaço oco para agregar novos motores na economia’, observava a
decana dos economistas brasileiros na conversa premonitória sobre o
golpe que se desenhava.
Segundo
ela, Vargas tomou uma série de iniciativas diante da avenida aberta a
sua frente: o Plano de Eletrificação, em 1951; o BNDES, em 1952; a
Petrobrás em 1953.
‘Eram
medidas convergentes com uma industrialização ainda em fraldas, onde
muito havia por fazer, mas que já dava um horizonte à nação’.
Vargas
modernizou áreas já existentes, adicionou novas turbinas a elas,
investiu no setor de bens de base -- ‘de base porque produz
equipamentos, componentes, insumos universais, para todos os segmentos,
certo?’.
Interligou isso aos
duráveis, amalgamando a economia com uma cola política feita de expansão
do emprego e extensão de direitos ao florescente operariado urbano.
‘Aí acharam melhor eliminá-lo, que a coisa estava indo longe demais’, brincou a voz professoral.
‘Mas
a crise da morte do Vargas’, atalharia em seguida a economista, ‘embora
violenta por todos os seus ingredientes, paradoxalmente durou pouco’.
Aqui puxou a memória de acontecimentos que acompanhou diretamente, jovem matemática atravessando a fronteira para a economia.
‘Durou
pouco porque havia toda uma avenida aberta, aquela que Vargas deixou
para JK agregar: a dos bens de consumo’, interrompeu para retomar o
fôlego.
‘O que fez JK, então?
Fez o Plano de Metas dilatou a infraestrutura; trouxe o parque
automobilístico, deslanchou um novo ciclo de expansão’.
O
impasse vivido por Jango seria um primeiro sinal de que a agregação
pura já enfrentava gargalos estruturais, lembrou Conceição a Carta Maio,
convidada a traçar um paralelo com a gravidade da crise que, pouco
depois redundaria no golpe atual.
‘Tanto
que tivemos ali uma ruptura violenta’, pontuou a economista que se
exilou no Chile durante a ditadura, onde assessorou a equipe de Salvador
Allende, cuja derrubada completou quarenta e três anos neste 11 de
setembro.
Quando Jango se viu
na contingência de ampliar o espaço do brasileiros miseráveis,
excluídos do mercado e da cidadania --que dilataria o fôlego do
desenvolvimento pela alavanca do mercado de massa-- os interesses
estabelecidos reagiram violentamente.
‘Por quê?, indaga a narradora como se visse um filme rebobinado passando outra vez diante de seus olhos atentos e fixos.
Em vez de apenas agregar, as reformas de base buscavam democratizar o que antes era um privilégio dos herdeiros da casa grande.
Eis a diferença sinalizada por ela.
A
terra, por certo. Mas também a educação, o comando sobre riquezas
naturais; o controle sobre a moeda e os capitais; a ampliação da
democracia na base da sociedade.
Deu-se o que é sabido.
‘Só
que os milicos do golpe eram eles mesmos desenvolvimentistas! ‘,
atalhou Conceição rindo das ironias da história. Os ‘milicos’ no
entanto tropeçariam ‘feio’, lembra.
Fizeram
o torto por linhas certas: em vez de agregar novos polos de ponta à
industrialização, como eletroeletrônica etc, o regime ditatorial
super-dimensionou outros já existentes --a siderurgia, por exemplo.
A
‘sobreagregação’ expandiu o PIB por um tempo, mas endividou o país sem
contrapartida exportadora para os dólares tomados a juros baixos, mas a
taxas flutuantes.
Quando
elas flutuaram ferozmente para cima --saltaram de 7,5% para 20,18% em
1980—‘o regime perdeu o assoalho’, disparou a voz rouca inconfundível.
‘O
que se tem agora é mais sério, de qualquer forma, do que a transição de
Vargas para JK e de Jango para o golpe’, sentenciaria em seguida
antevendo o embate que, afinal, se concretizou.
‘É estrutural’, repetia Conceição mais uma vez.
Estrutural,
insiste, significa que não se resolve adicionando mais carga na mesma
máquina de crescimento -- como se fez antes para reacomodar os conflitos
de classes.
‘O Brasil não
vai acabar, nem o capitalismo’, brincou então querendo desanuviar a
turbulência intrínseca ao quadro que desenha em largas pinceladas de
cores fortes. ‘Mas há um esgotamento desse correr para frente baseado em
aditivos que se sobrepõem à engrenagem anterior claudicante’.
Ainda por cima, coroado por um ambiente internacional pantanoso.
Então é diferente de tudo o que Conceição viu e viveu.
‘A
estrutura econômica do país está montada. É preciso recauchutar a
máquina mas, sobretudo, reorientar seu rumo’, aqui a professora retomava
o fio do impasse.
O Brasil
viveu um período acelerado de consolidação industrial no 2o PND
(1975/79) , o plano de desenvolvimento da ditadura –‘dificilmente
repetirá aquele desempenho característico da fase de instalação e
consolidação de um parque industrial’, adverte.
Esse tempo acabou.
A indústria brasileira, na verdade, está sendo corroída por duas inércias que o ciclo iniciado em 2003 não
corrigiu. De um lado, a valorização cambial acumulada nas últimas
décadas asfixiou o parque fabril brasileiro sob a avalanche das
importações asiáticas. Simultaneamente, cristalizou-se uma inserção
internacional capenga, que perdeu o bonde tecnológico dos anos 80/90
porque ruminava a dolorida digestão da dívida externa da ditadura.
‘O
bonde perdido de um ciclo internacional não passa de novo’, adverte a
professora na conversa premonitória. ‘Não vamos mais competir com os
chineses naquilo que eles tomaram de nós e se mostraram líderes no
mundo’, advertiu sobre a erosão sofrida em vários setores e cadeias
industriais.
Por isso o
pré-sal e o mercado de consumo doméstico, revigorado pelo ganho de poder
de compra e escala propiciados pelas novas balizas sociais e salariais
do ciclo do PT, bem como o PAC na infraestrutura e, objetivamente, o
agronegócio, são tão importantes.
É esse o novo chão do desenvolvimento brasileiro no século XXI.
Os
encadeamentos inscritos no regime de partilha do pre-sal e a exigência
de conteúdo nacional, ambos demonizados e agora às portas de serem
revogados pelo golpe com a decisiva indução de um ex- companheiro de
exílio de Conceição –José Serra-- encerram impulsos industrializantes
de ponta, com escala capaz de criar, aí sim, uma inserção virtuosa do
país nas cadeias internacionais.
O
mercado de massa, por sua vez, poderá atrair plantas industriais e
lastrear segmentos ainda não triturados por décadas de importações
baratas. ‘O PAC arremata o comboio puxando tudo pela alavanca do
investimento público’.
Conceição
contextualizou esse tripé de forma realista, ciente de que a areia
movediça da crise política estreitou a margem de manobra em todas as
frentes.
‘Hoje isso depende
muito do financiamento chinês para se viabilizar. É por aí que vamos
completar o investimento público do PAC; não enxergo outra saída com as
restrições impostas na frente fiscal’, suspirava a olhar o país a
escapar-lhe pelos dedos.
Seu
próprio desalento, porém, sofre um safanão em tom de advertência na
frase seguinte: ‘ Mas se não defendermos as políticas sociais, o PAC e o
pré-sal não teremos mais modelo nenhum, nem de desenvolvimento, nem de
industrialização, nem nação; o Brasil vai para o ralo’.
A
costura dessa travessia envolve uma operação essencialmente política,
como já explicou, porque mexe profundamente em interesses cristalizados.
O nome do jogo não é mais ganha/ganha: é correlação de forças. E ele se joga na rua.
A
alternativa ao ajuste golpista baseado na supressão de direitos
trabalhistas, por exemplo, adquire subversiva transparência: chama-se
taxação das fortunas, do lucro dos bancos, dos dividendos, das remessas
disfarçadas de assistência, das heranças etc.
´Não
existe resposta técnica para o que se esboça diante de nós’, projetaria
com precisão a professora de uma geração inteira de economistas, entre
alunos e amigos, que a ouvem e respeitam, mesmo quando dela divergem.
Como
já antevia, com o golpe, os gargalos se fecharam em arrocho, que já
derrete o consumo das famílias, derradeiro lacre de segurança do ciclo
petista que avançou de forma quase ininterrupta até meados de 2014.
O consumo das famílias pesa 63% na demanda da economia e arrastou junto a receita, o investimento, o emprego... O que sobra?
‘A
sobra é insuficiente para sustentar uma nação, um governo e um projeto
progressista de desenvolvimento’, diz a voz naturalmente grave, mas com
sustenido emotivo.
‘Você não
sairá disso com debate econômico’, profetizou Conceição. ‘É preciso
algo amplo, democrático que se imponha como um lastro, uma nova
referência’.
Conceição quis
dizer exatamente isso que hoje significa ser contemporâneo do próprio
tempo: a rua munida de projeto para o conjunto da sociedade –
‘inclusive para os setores produtivos’.
A
professora vislumbrou tudo isso meses antes, talvez porque quisesse
acelerar o tempo, a tempo de ver seu país resgatar o sonho de ser a
grande nação pela qual ela lutou durante seus oitenta e seis anos.
Tem uma classe média que percebeu que é um golpe do "sindicato de ladrões"
O Conversa Afiada republica os trechos finais do excelente artigo de Jessé Souza, presidente do IPEA, no caderno Ilustríssima, da Fel-lha, nesse domingo 24/abril.
A propósito, o artigo começa assim:
"O Golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante, desde nosso passado escravocrata."
Não deixe de assistir também às entrevistas que ele deu à TV Afiada. Aqui e aqui.
QUEM DEU O GOLPE CONTRA QUEM?
(...)
A manipulação da “corrupção seletiva” pela imprensa é o discurso ideal para travestir, também aqui, os mais mesquinhos interesses corporativos em suposto “bem comum”. O troféu de “campeão da moralidade pública” passa a ser disputado por todas as corporações e se estabelece um conluio entre elas e a imprensa que os vazamentos seletivos cuidadosamente orquestrados comprovam tão bem.
Esse é o elemento novo do velho golpe surrado de sempre. Ainda que o golpe tenha se dado no circo do Congresso em uma palhaçada denunciada por toda a imprensa internacional, sem o trabalho prévio dos justiceiros da “justiça seletiva” ele não teria acontecido. O Estado policial a cargo da “casta jurídica” já está sendo testado há meses e deve assumir o papel de perseguir com base na mesma “seletividade midiática” o princípio: para os inimigos a lei e para os amigos a “grande pizza”. A “pizza” para os amigos já está em todos os jornais e acontece a luz do dia. O acirramento da criminalização da esquerda é o próximo passo. Esse é o maior perigo. Muita injustiça será cometida em nome da justiça.
Mas existe também a oportunidade. Nem toda classe média é o aprendiz de fascista que transforma seu medo irracional em ódio contra os mais fracos travestindo-o de “coragem cívica”. Ainda que nossa classe média esteja longe de ser refletida e inteligente como ela se imagina, quem quer que tenha escapado do bombardeio diário de veneno midiático com dois neurônios intactos, não deixará de estranhar o mundo que ajudou a criar: um mundo comandado por um sindicato de ladrões na política, uma justiça de “justiceiros” que os protege, uma elite de vampiros e uma sociedade condenada à miséria material e à pobreza espiritual. Esse golpe precisa ser compreendido por todos. Ele é o espelho do que nos tornamos.
Cerra (caça às bruxas) vai para a Fazenda
Ele vai querer o BC, o BB, a CEF - e a Lava Jato!
O PiG cheiroso informa na primeira página que o Padim Pade Cerra esteve com o traidor no Palácio do Jaburu a partir das 21h30 deste domingo 24/abr.
Segundo o PiG cheiroso, o Ministério da Fazenda está entre o Cerra e o Meirelles, o Henrique, que foi presidente do Banco Central no Governo Lula e só operava com juros estratosféricos.
Desse momento em diante, a integridade do Meirelles passa a correr sério risco.
Nada impede que, a qualquer hora, surja o dossiê fatal contra ele!
E olha que o PSDB ainda não sabe se vai aderir ao Temer!
Mas, o Cerra já aderiu.
Em 1964 ele fugiu para os Estados Unidos.
Agora, fugiu para o Jaburu!
Qual a primeira consequência da nomeação do Cerra?
O abafamento da Lava-Jato!
Foi essa a premissa da aliança entre Cerra e Temer, segundo descrição do Estadão: não promover a "caça às bruxas", ou seja, fechar a Lava Jato e deixar só os petistas lá dentro.
Nem mais nem menos!
Como o Temer está incurso em vários capítulos da Lava Jato, o Aecím, FHC Brasif e o Cerra em muitos outros, Cerra assume o Banco do Brasil, promove uma mega-operação para a Globo, e fecha a Lava Jato.
Convido o leitor a um exercício de imaginação. A presidenta Dilma é impichada e assume a presidência da república o vice da chapa, Michel Temer, do PMDB. Na consequência do golpe parlamentar, os golpistas organizam um novo governo de coalizão com os partidos da oposição neoliberal - o PSDB, o DEM, o PPS, o SED e demais consortes de oportunismo político.
Os golpistas não passarão, mas mesmo assim é de suma importância perguntar: Qual seria o programa do novo governo? Que propostas teriam para resolver a crise brasileira? Embora os artífices do golpe, bem como mídia interessada, busquem ocultar na algaravia de argumentos mentirosos do impeachment os verdadeiros interesses, pode-se gritar como na fábula infantil ao aviso de incêndio, “fogo na floresta”.
Aonde podemos encontrar o “fogo”, a diretriz e o programa do golpe? Pois bem, a programática miserável de um governo saído do golpe do impeachment está escrita, com todas as letras, sem subterfúgios, no documento “Uma ponte para o futuro” - também conhecido como “Projeto Temer”, vindo a lume no dia 29 de outubro do ano passado.
Logo que lançado, o documento coordenado por Temer recolheu propostas e diagnósticos do capital financeiro, dos rentistas da dívida pública, dos grandes grupos de mídia e da intelectualidade neoliberal. Trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais não entram nesse time. De todo modo, até por isso, neste momento de aguçar do ponto de ebulição máximo da crise política é de fundamental importância desmontar e desmascarar o malfadado documento “Uma ponte para o futuro", pois assim esclarecemos os danos irremediáveis de um governo saído do golpe para o futuro do Brasil, do povo e dos trabalhadores brasileiros.
Por tudo isso, advirto que nas crescentes mobilizações e certamente exitosas contra o golpe, não é suficiente, embora fundamental, desmontar os inconsistentes argumentos políticos e jurídicos arguidos na inepta representação do impeachement acolhida por vingança por Eduardo Cunha - a inocuidade das tais das “pedaladas fiscais” para caracterizar “crime de responsabilidade”. Falta o outro lado da mesma moeda. No mesmo diapasão, também é da maior importância a leitura, seguida de denúncia, do que estou chamando de o plano econômico do golpe - neste caso apelidado por seus escribas sob o pomposo título que pronuncio mais uma vez, de “Uma ponte para o futuro”. Ambos, representação inepta e plano neoliberal, condensam tanto os motivos das conspirações em curso contra o governo da presidenta Dilma como antecipa o perfil global, econômico e social, do que porventura virá.
Diga-me com quem tu andas e digo eu quem é você. O plano Temer serve para mapear o conjunto das andanças conspiratórias de Temer com os setores e os intelectuais orgânicos do grande capital. Agora mesmo, especula-se que a área econômica do hipotético governo do golpe será entregue a um dos dois personagens testados, Henrique Meirelles (expresidente do Banco de Boston) ou Armínio Fraga (exassessor de George Soros), ambos conhecidos representantes do capital financeiro. No entanto, curiosamente, embora se especule nomes, nenhum dos oposicionistas se abre para o debate franco de opinião pública das medidas a serem adotadas.
Qual seria o motivo? Simples: o plano é indefensável em um regime democrático e republicano. Mas serve de roteiro de maldades do novo governo saído de um golpe.
Não estou sozinho na constatação do “Plano Temer” como uma bússola de maldades. Ninguém menos que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista ao jornal Valor Econômico de 20/11/2016 considerou o programa do vice-presidente golpista "excessivamente liberal do ponto de vista econômico”. Vou mais longe: trata-se do mais neoliberal dos todos os programas escritos no Brasil até hoje. Lá se pode antever o conteúdo de um governo pós-impedimento.
Peço um parêntesis para uma breve digressão. O neoliberalismo se adapta muito bem às ditaduras e regimes de exceção, tanto duradouros como passageiras soluções cenaristas. É público e notório que o primeiro plano econômico neoliberal, antes de Margaret Thatcher na Inglaterra e Ronald Reagan nos Estados Unidos, aconteceu no Chile da ditadura de Pinochet, na década de 1970, conduzido pela assessoria direta de 25 Chicago Boys. Recentemente na Itália, na sequência da crise de 2008 (de 2011 a 2013), assumiu o cargo de primeiro ministro, quase como um interventor, o economista Mario Monti, que não era filiado a nenhum partido (foi o primeiro e único primeiro ministro “independente” ou “avulso" da história da Itália, numa espécie de golpe cesarista).
A grande questão política é que as medidas neoliberais radicais não conseguem ganhar eleições no Brasil. Ninguém vai ganhar uma eleição direta para presidente no Brasil, passar pelo crivo da vontade popular, exibindo de público um programa impossível como “Uma ponte para o futuro”. Como não se ganha eleições com essa programática, advém à tentação de repetir o passado inglório dos golpes brasileiros.
Ato contínuo meu foco neste artigo passa à análise de alguns dos pontos principais de “Uma ponte para o futuro” - o famigerado Plano Econômico do Golpe.
1. Prevalecer o negociado sobre o legislado. Retrocesso dos direitos do trabalho.
Sobre a luta e os direitos dos trabalhadores, o Plano Temer doutrina o seguinte absurdo: “na área trabalhista, permitir que as convenções coletivas prevaleçam sobre as normas legais, salvo quanto aos direitos básicos”.
Sem eufemismos, o que se pretende é ACABAR com a CLT. De vez em quando, essa questão aparece como a necessidade “priorizar o negociado sobre o legislado”, mas felizmente nunca é aprovada no parlamento, pois entram em cena, denunciando, o movimento sindical e os parlamentares comprometidos com os trabalhadores. Todo mundo sabe que o poder de barganha direto, sem a mediação estatal, do capital é muito maior que o do trabalho. Caso essa medida um dia levada a cabo no Brasil, passaremos a ter uma configuração do mundo do trabalho ainda mais terceirizada, precarizada e de baixos salários que hoje.
2. Orçamento Zero. Desvinculação das receitas de saúde, educação e transferência de renda.
O plano faz menção à necessidade de “estabelecer uma agenda de transparência e de avaliação de políticas públicas, que permita a identificação dos beneficiários, e a análise dos impactos dos programas”. Trata-se do famigerado “orçamento de base zero”.
O novo modelo orçamentário se propõe a fazer o inexequível. Instituir no Brasil um orçamento que não existe em nenhuma outra nação civilizada do ocidente: desvincula com uma canetada as receitas para saúde, educação e demais políticas sociais. Essas receitas, em vez dos pisos constitucionais, seriam avaliadas ano a ano, não se sabe bem por quem - certamente um comitê autônomo de burocratas sem mandato popular. Além de derruir o conceito de orçamento plurianual, acabando com o planejamento de longo prazo em relação às políticas sociais, que se veriam à mercê dos ventos da conjuntura, o resultado final desse desatino - alguém dúvida? - seria elevar robustamente a pobreza e a desigualdade.
Políticas e programas sociais, isto é, ações nas áreas da saúde, educação, previdência, assistência, geração de emprego e renda, habitação, saneamento e transporte público devem necessariamente ter continuidade ao longo do tempo. Primeiro, porque as demandas ainda não atendidas são enormes e, segundo, mesmo programas que podem ser considerados emergenciais podem durar anos até que determinada conformação estrutural seja modificada (um exemplo: o Programa Mais Médicos).
E há outro lado: beneficiários de programas ou políticas sociais precisam de segurança, de certeza de continuidade, para que possam ingressar em determinada ação governamental (um exemplo: o FIES ou os programas assistenciais a cotistas). O que se pretende com o tal de "Orçamento de Base Zero” “- uma ideia que vem de setores da administração privada -, aplicado às finanças públicas, é o descompromisso absoluto do Estado com a continuidade de políticas e programas sociais e a desvinculação total de todas as receitas e gastos sociais existentes. Ou seja, um grave retrocesso civilizacional.
3. Ajuste Fiscal restritivo para fazer superávits primários.
Em diversas passagens, o documento afirma que o ajuste fiscal é condição necessária para o crescimento (“... é uma questão prévia” ou ainda “O ajuste fiscal não é um objetivo por si mesmo. Seu fim é o crescimento econômico que, no nosso caso, sem ele, é apenas uma proclamação vazia.”).
Isso é um erro teórico e mostra quanto há de desconhecimento sobre a realidade, inclusive a brasileira. É o crescimento que gera receitas públicas, que reduz déficits orçamentários - e não o contrário. O maior exemplo é o 2º governo do presidente Lula: crescimento médio de 4,5% com déficits nominais de 2,4% do PIB (média do período). Corretamente o governo do presidente Lula não promoveu corte de gastos para melhorar resultados orçamentários.
O assim chamado Documento Econômico do Golpe faz uma crítica ao suposto “excesso de gastos” do governo federal, considerando que esta é a causa do nosso desequilíbrio fiscal. Afirma o documento: “Nos últimos anos é possível dizer que o Governo Federal cometeu excessos, seja criando novos programas, seja ampliando os antigos, ou mesmo admitindo novos servidores ou assumindo investimentos acima da capacidade fiscal do Estado. A situação hoje poderia certamente estar menos crítica.”
O diagnóstico exposto acima é equivocado. Os problemas fiscais somente ocorreram em 2014 e suas causas são bem conhecidas: gastos com pagamentos de juros da dívida da ordem de R$ 311,5 bi, desonerações tributárias excessivas que alcançaram R$ 104 bi e a baixa arrecadação devido ao crescimento pífio da economia. E os problemas fiscais de 2015 estão sendo causados pela política monetária e fiscal do plano de austeridade do governo. Cabe ser enfatizado que de 2005 a 2011, as contas do governo atingiram resultados bastante satisfatórios.
O documento está voltado para estrangular o orçamento das políticas sociais e, para tanto, argumentam que problemas fiscais são as causas de todos os problemas: inflação e juros altos também (são causados pelos gastos ficais sociais). Afirma o documento: “Precisamos de uma trajetória virtuosa em que os novos horizontes das contas fiscais produzam efeitos cumulativos e retro alimentadores nos juros, nos preços e no endividamento, tudo desembocando na volta do crescimento econômico.”
Cabe salientar que: a inflação sempre esteve dentro das metas de 2004 a 2014. Só irá estourar em 2015, mas a causa foi o choque de preços administrados dado pelo Governo (eletricidade e combustíveis) e não um superaquecimento econômico resultante de gastos excessivos do governo. E os juros são altos por pressões políticas de interesses rentistas, nada tem a ver com o controle da inflação (a prova é que temos juros altos e inflação estourando a meta em 2015).
4. Reforma Tributária regressiva em benefício dos muito ricos
A reforma tributária sugerida pelo documento do golpe é vazia e não ataca o problema da regressividade do sistema e suas injustiças. Querem uma reforma para poupar os ricos, milionários, banqueiros e multinacionais. Falam somente em deixar as coisas como estão ou simplificar a parafernália tributária brasileira, como se o sistema tributário fosse um problema menor e aí não estivesse uma das soluções dos entraves atuais. Diz o documento: “Qualquer ajuste de longo prazo deveria, em princípio, evitar aumento de impostos, salvo em situação de extrema emergência e com amplo consentimento social. A carga tributária brasileira é muito alta e cresceu muito nos últimos 25 anos.” E em outra passagem consideram que: “o nível dos impostos e a complexidade tributária, combinados ...[são os maiores responsáveis]... pelos problemas para realizar negócios no país.” Em verdade, o grande problema do nosso sistema tributário é que pobres, trabalhadores, a classe média e funcionários públicos pagam pesados impostos - e ricos, latifundiários, multinacionais... o “andar de cima” é aliviado e não contribui com o desenvolvimento do país.
5. Manutenção da política monetária de juros altos
No diagnóstico fiscal o documento do golpe não considera as despesas com juros o elemento central dos nossos problemas orçamentários. Coloca o problema central nos direitos sociais que impõem custos orçamentários, obviamente. Diz o documento de forma taxativa: “A conclusão inevitável a que se chega é que os principais ingredientes da crise fiscal são estruturais e de longo prazo. De um lado, a falta de espaço para aumento das receitas públicas através da elevação da carga tributária, de outro, a rigidez institucional que torna o orçamento público uma fonte permanente de desequilíbrio.”
Ora, basta lembrar números para desmontar essa “conclusão”: os orçamentos do Bolsa-Família, Minha Casa Minha Vida, abono salarial, seguro desemprego, educação, saúde (tudo somado) não alcança R$ 300bi – enquanto as despesas com juros superarão R$ 500 bi em 2015.
Assim sendo, o Plano Temer não aponta os juros Selic como o elemento principal que faz sangrar o orçamento da União, conclui-se que objetivam fazer todo o esforço fiscal necessário para honrar essa despesa – mesmo que isso signifique sacrificar os investimentos em saúde e educação. Para tanto, defendem que os mínimos constitucionais que devem ser investidos nessas áreas sejam suprimidos, afirma o documento: “...é necessário em primeiro lugar acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação...”. Privilegia, dessa forma, banqueiros e rentistas em detrimento de todo o povo trabalhador e pobre.
6. Término da política de reajustes reais anuais do salário mínimo e da vinculação do piso dos benefícios da previdência
Os ataques aos direitos sociais não se limitam à saúde e à educação. Querem quebrar a regra de reajuste do salário mínimo e querem retirar o piso de um salário mínimo dos benefícios da Previdência. Em linguagem um tanto dissimulada afirmam: “Outro elemento para o novo orçamento tem que ser o fim de todas as indexações, seja para salários, benefícios previdenciários e tudo o mais.” Não conhecem a realidade brasileira: o salário mínimo é crucial para elevar todos os rendimentos do trabalho daqueles que ganham rendas baixas ou médias. A valorização do salário mínimo associado à queda do desemprego foi o grande responsável pela constituição do enorme mercado de consumo de massas brasileiro. 90% dos assalariados brasileiros ganham até três salários mínimos e foram beneficiados com a sua valorização. E acabar com o piso do benefício previdenciário é outra demonstração de desconhecimento da realidade ou de insensibilidade social: os elementos que mais contribuíram para a melhoria distributiva de renda nos últimos anos foram: queda do desemprego, aumento dos rendimentos do trabalho e o volume de recursos transferidos pela Previdência Social. São pagos por mês aproximadamente 28 milhões de benefícios, 70% desses benefícios têm o valor do piso: um salário mínimo.
7. Reforma da previdência pela via do aumento da idade mínima
Querem fazer uma nova reforma previdenciária. Falam em déficit da Previdência, que tem um orçamento anual em torno de R$ 500 bi, mas esquecem de dizer que gastaremos R$ 500 bi em 2015 com os rentistas pagando juros. A reforma que propõem está baseada na ideia que precisamos economizar com os “velhos” que recebem benefícios da Previdência para poder gastar mais com os “novos” em educação, por exemplo. Afirma o documento: “A situação é insustentável, pois o país tem jovens para atender, tem problemas de assistência de saúde, de educação, de segurança.” É outro erro: milhões de famílias são sustentadas pelos “velhos” aposentados (avôs e avós), principalmente quando o desemprego aumenta ou em regiões em que o emprego é precário. Reduzir gastos com Previdência pode melhorar a contabilidade das contas públicas, mas certamente piora a qualidade de vida de milhões de pobres, que são os principais beneficiários da Previdência Social no Brasil.
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Last but not least, o documento mostra inacreditável desconhecimento da economia e da realidade social brasileira, defeito grave a quem pretende governar o Brasil, mesmo que pela via de um golpe. Nele, está escrito assim: “nos últimos anos o crescimento foi movido por ganhos extraordinários do setor externo e o aumento do consumo das famílias, alimentado pelo crescimento da renda pessoal e pela expansão do crédito ao consumo. Esses motores esgotaram-se e um novo ciclo de crescimento deverá apoiar-se no investimento privado e nos ganhos de competitividade do setor externo, tanto do agronegócio, quanto do setor industrial.”
Tudo errado!!! O crescimento apoiado no boom de commodities foi somente entre 2006-2008 (o boom de preços de commodities acabou em 2008), mas mesmo assim nesse período houve forte crescimento do consumo e o soerguimento dos investimentos públicos e privados (o PAC é de 2007). O desempenho econômico extraordinário de 2010 e o impecável enfrentamento da crise financeira internacional de 2009 estão relacionados quase que exclusivamente a fatores internos. Em verdade, a Era Lula foi a Era do investimento. Durante o governo do presidente Lula, a taxa de crescimento do investimento era sempre dois a três vezes maiores que a taxa de crescimento do PIB. Eram investimentos públicos e privados. Em média, pode-se aferir que de cada R$ 10 investidos na economia apenas R$ 2 (ou menos) são investimentos dos municípios, estados e da União. A Era Lula foi a Era onde o consumo privado e o investimento público estimularam o investimento privado. Portanto, não existirá nenhum novo período baseado exclusivamente no crescimento do investimento privado: o empresário somente investe quando percebe o consumo batendo na sua porta e há investimento público em infraestrutura. No recente período democrático, as maiores taxas de investimento aconteceram no governo do presidente Lula. Não podemos aceitar a argumentação que contraria os números de que não houve investimentos naquele período, de que só teria havido consumo das famílias. Dizer isto é má fé e ignorância em relação aos números da nossa economia.
O chamado “Plano Temer” contém muitos outros absurdos, cada um quais a merecer artigos específicos. Vale observar, contudo, que um ajuste neoliberal de tamanha radicalidade, como o proposto por jamais foi intentado por nenhum presidente eleito, nem mesmo Collor ou FHC. Por isso, não adianta por panos quentes nem tergiversar: caso as medidas especuladas sejam confirmadas num eventual “governo Temer” pós golpe, passaremos a viver no Brasil um momento histórico da maior gravidade, nada mais nada menos que o rompimento do contrato social estabelecido nos marcos institucionais da constituição de 1988. Pior: acabará de vez as conquistas da “Era Vargas” e retroagiremos, em termos de direitos sociais, aos tempos da República Velha (1889-1930).
Não tenho dúvida que um hipotético "governo Michel Temer” ungindo através de um golpe parlamentar de impedimento da presidenta Dilma será uma grande tragédia histórica. Nosso povo não merece tamanho destino inglório. Por isso, não passarão!
PT CONVOCA PARA
ATO DO DIA 31 E
ALERTA SOBRE
RISCOS DO GOLPE
Partido afirma que, com o vídeo divulgado nas redes sociais, pretende "esclarecer a população dos riscos que os setores populares correm com a quebra da legalidade democrática"; na peça, atores recordam das consequências do golpe de 64, como a censura, crimes e até mesmo a corrupção, tão combatida atualmente
247 – O Partido dos Trabalhadores divulgou um vídeo nas redes sociais em que convoca manifestantes a defender a democracia em um ato marcado para esta quinta-feira, dia 31 de março e alerta a população sobre os ricos de um golpe no governo da presidente Dilma Rousseff.
O objetivo do vídeo, divulgado nas redes sociais, é "esclarecer a população dos riscos que os setores populares correm com a quebra da legalidade democrática", diz o partido. Nele, atores recordam as consequências do golpe de 1964, como a censura, crimes e até mesmo a corrupção, tão combatida atualmente.