Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A Globo é contra a inclusão ou foi só muleta para Temer? Veja a vaia…


Por


vernaglobo

A atitude da Globo de não transmitir a bela festa de abertura das Paraolimpíadas não é só uma traição à luta das pessoas portadoras de deficiência que, dentro e fora do esporte, superam a discriminação e o preconceito de que são vítimas.

Também é um desrespeito à sua obrigação de concessionária de um serviço público, estabelecida na Constituição, de ter como princípio ter “finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas” e guardar “valores éticos e sociais da pessoa e da família”.

É tudo isso, mas não foi por isso que ela privou os brasileiros de assistirem, na TV aberta, a celebração da igualdade humana para além das diferenças.

Foi para “esconder” Michel Temer – mais do que ele próprio e a organização do evento o fizeram – das vaias e do coro de “Fora Temer” que, por três vezes, tomou conta do estádio do Maracanã.
Como se ainda fosse possível, na era da internet, que um monopólio de televisão faça as coisas “não existirem”, por não serem vistas.

Para que se sustente o discurso de que os protestos são “mini”, de 40,  de 50 pessoas?
Não é apenas odioso que se faça isso com um evento que tem tantas características de humanidade, mostrando o que o desprezo à democracia é, essencialmente, um desrespeito à diversidade.
É inútil, porque apenas retarda a percepção da realidade como ela é: o Brasil estar sendo governado por um presidente clandestino, incapaz de encarar seu povo.

Um presidente que não se sustenta e que precisa das muletas da manipulação midiática para se manter de pé  é um rato, perto daqueles homens e mulheres  que desfilaram, ontem, mostrando que a superação depende de coragem, não da covardia.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

MORAIS: ‘SOMOS OU NÃO RACISTAS, ALI KAMEL?’

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Documento: Globo censurou o exoesqueleto do Nicolelis Blog Megacidadania foi em busca da comprovação documental



Bomba! Documento comprova, Globo censurou exoesqueleto


Após três postagens enfatizando que a Tv Globo censurou o momento do chute inicial da Copa 2014, o blog Megacidadania foi em busca da comprovação documental que fundamentasse definitivamente nossa afirmação e a disponibiliza ao distinto público.

O documento está disponível no próprio portal da Rede Globo (clique aqui).

A SEGUIR ALGUNS TRECHOS DO DOCUMENTO DA PRÓPRIA TV GLOBO


A maior e mais desafiadora cobertura esportiva já feita pela Globo tem a missão de levar a Copa do Mundo FIFA 2014 para a casa de cada brasileiro. E de ser os olhos de cada torcedor em tudo que acontece no Brasil durante o Mundial.

Para isso, a Globo está mobilizando toda a sua rede …

São 1.496 profissionais credenciados … em uma operação que envolve cerca de 2.500 profissionais …

GLOBO PREPARA UMA GRANDE FESTA PARA O DIA 12 DE JUNHO; SAIBA TUDO

… equipe de 80 repórteres que vão trabalhar na cobertura …

… a Globo terá cinco câmeras exclusivas …

*

E a pergunta óbvia é: por que mesmo com todo este aparato, inclusive com cinco câmeras exclusivas, a Tv Globo deixou “escapar” a cobertura do ponta pé inicial ?





O depoimento do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis elucida a questão.

Foi censura política sim.

É desculpa esfarrapada da Tv Globo que a FIFA e “só” a FIFA estava gerando as imagens.

A Tv Globo com suas cinco câmeras exclusivas não fez a cobertura jornalística do exoesqueleto, com a devida ênfase, simplesmente por que assim decidiu seus dirigentes.


Obs.: se por acaso a Globo retirar o acesso ao documento, é só nos avisar aqui mesmo nos comentários, pois o salvamos na íntegra.

Em tempo: o Enio Barroso, famoso cadeirante paulista, fez um sincero e indignado comentário sobre o caso e teve mais de dois milhões de visualizações:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=843795528982344&set=a.226577860704117.72168.100000557142557&type=1&theater&notif_t=photo_reply


Clique aqui para ler “​A Copa comeu a Globo”

E aqui para “Dilma: a seleção está acima da política”

E aqui para
“Nicolelis joga Veja onde ela se rola”

sábado, 25 de janeiro de 2014

Faz 30 anos, “bom jornalismo” da Globo apresentou comício das Diretas como “festa de aniversário” de São Paulo

24/01/2014 – Copyleft
Os 30 anos do comício que a Globo transformou em festa
Após 20 anos de ditadura, 300 mil brasileiros foram à Praça da Sé pedir eleições diretas. Jornal Nacional disse que o ato era festa pelo aniversário de SP.
Brasília – Há exatos 30 anos, cerca de 300 mil pessoas foram à Praça da Sé, em São Paulo, para reivindicar eleições diretas para presidente. No palanque, políticos, artistas, sindicalistas e estudantes. Era o maior ato político ocorrido nos primeiros 20 anos da ditadura brasileira, com todo o seu saldo de mortes, torturas, desaparecimentos forçados, censuras e supressões dos direitos individuais. Mas o foco da reportagem que o telejornal de maior audiência do país, o Jornal Nacional, da TV Globo, levou ao ar naquela noite, era a comemoração pelos 430 anos de São Paulo.
O histórico comício da Praça da Sé ocorreu em um momento em que o Brasil reunificava suas forças para tentar por fim ao regime de exceção, em um movimento crescente. Treze dias antes, um outro ato político realizado em Curitiba (PR), com a mesma finalidade, havia sido completamente ignorado pela emissora. Mesmo a chamada para o ato que os organizadores tentaram veicular na TV como publicidade paga não foi aceita pela direção. O Jornal Nacional nada falou sobre o comício que levou 50 mil pessoas às ruas da capital paranaense. Antes dele, outros, menores, já ocorriam em várias cidades brasileiras desde 1983. Nenhum mereceu cobertura.
Em 1982, a entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 22 permitiu eleições diretas para governadores. Entretanto, previa que, em 1985, fosse realizada eleição indireta para o novo presidente, a ser escolhido por um colégio de líderes formado por senadores, deputados federais e delegados das assembleias legislativas estaduais. Os brasileiros, porém, queriam enterrar de vez os anos de arbítrio. Oposição e movimentos sociais se uniram para pedir Diretas Já.
Aliada inconteste da ditadura civil militar, a TV Globo demorou a acertar na análise da conjuntura. Acompanhando a leitura rasa dos militares que ocupavam o Palácio do Planalto, acreditou que os atos por eleições diretas não passariam de “arroubos patrióticos”, como depois definiria seu então diretor de Jornalismo, Armando Nogueira. Mas a estratégia de ignorar as diversas manifestações que pipocavam em várias cidades do país já estava arranhando sua credibilidade. Decidiu mudar.
Quando a multidão ocupou a Praça da Sé, a Globo optou por maquiar o ato e alterar suas finalidades. No telejornal mais visto do país, o apresentador Sérgio Chapelin fez a seguinte chamada: “A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”. A matéria que entrava a seguir, do repórter Ernesto Paglia, evidenciava os 30 anos da Catedral da Sé e os shows artísticos pelo aniversário da cidade. Só no finalzinho, o repórter dizia que as pessoas pediam a volta das eleições diretas para presidente, como se aquilo tivesse sido um rompante espontâneo no evento convocado para outros fins.
Apesar da postura da maior rede de TV nacional, a campanha Diretas Já ganhava o país. No dia 24 de fevereiro, um novo grande comício foi realizado em Belo Horizonte (MG), e reuniu um contingente ainda maior de pessoas do que o de São Paulo. No mesmo Jornal Nacional, apenas rápidas imagens da multidão que saiu às ruas e dos muitos oradores que pediam o fim da ditadura, acompanhados de um texto que desvirtuam o sentido do ato.
A hostilidade com que os manifestantes tratavam a emissora só fazia aumentar. Foi nesta época que os protestos de rua passaram a bradar o slogan ouvido até hoje: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Foi nesta época também que os repórteres da Globo passaram a ser achincalhado nas ruas. Alguns sofreram agressões físicas.
Roberto Marinho, o fundador da emissora, era comprometido com a ditadura até o pescoço. Afinal, foram os militares que encobriram as irregularidades que marcaram a inauguração da TV Globo, investigada por uma CPI Parlamentar por conta de ter recebido injeção ilícita de capital estrangeiro, no escândalo conhecido como Caso Time-Life. E também foram os militares que ajudaram a emissora a se tornar a maior do país, em troca de apoio sistemático ao regime de exceção.
Mas Marinho não era burro. Viu que era impossível conter a nova força política que se tornava hegemônica no país e, de uma hora para outra, virou seu jogo. No dia 10 de abril, duas semanas do Congresso votar a proposta de eleições diretas já, ele autorizou que sua emissora cobrisse à campanha. O comício realizado aquela noite, no Rio de Janeiro, que reuniu mais de 1 milhão de pessoas na Candelária, enfim ganhou espaço devido no Jornal Nacional.
A emenda que previa as Diretas Já, apresentada pelo até então quase desconhecido Dante de Oliveira, não foi aprovada. Mas Marinho já estava aliado comas forças que venceriam a eleição indireta: Tancredo Neves, o presidente eleito que morreu antes de tomar posse, e José Sarney, que por uma contingência do destino, iria assumir o posto. Naquela época, a família Sarney já controlava a mídia no seu estado de origem, o Maranhão. Reza a crônica política que, de olho em uma parceria de sucesso com a Globo, o novo presidente da república submeteu até mesmo o nome de seu ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, à aprovação de Roberto Marinho.
Erro histórico
O erro histórico da Globo de manipular a campanha Diretas Já até hoje assombra a emissora. Em setembro do mesmo ano de 1984, em matéria publicada pela revista Veja sobre os 15 anos do Jornal Nacional, Roberto Marinho já tentava minimizar o fato: “Achamos que os comícios poderiam representar um fator de inquietação nacional, e por isso, realizamos num primeiro momento apenas reportagens regionais. Mas a paixão popular foi tamanha que resolvemos tratar o assunto em rede nacional”, justificou.
Não foi suficiente. A história continuou rendendo acusações, livros e teses acadêmicas, além de correr mundo. No documentário “Muito Além do Cidadão Kane”, da emissora pública britânica Channel 4, de 1993, um trecho da matéria exibida pelo Jornal Nacional sobre o comício da Praça da Sé ajuda a comprovar a tese expressa no título pelo diretor, Simon Hartog. No filme Cidadão Kane, de 1941, considerado a melhor produção cinematográfica de todos os tempos, o genial Orson Wells narra a historia de um magnata das comunicações que, para assegurar lucro e poder, não tem escrúpulos em apoiar governantes diversos, indepentendes de partidos e ideologias.
Um trecho da polêmica “cobertura” da Globo pode ser conferida no documentário Muito além do Cidadão Kane, mais precisamente à 1h,18m02s.


Foram necessários muitos anos de democracia e, principalmente, de pressão popular, para que a emissora voltasse a enfrentar o assunto. Depois que as primeiras edições do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre (RS), colocaram o debate sobre a manipulação da imprensa na agenda nacional, outros caciques da Globo tentaram apaziguar a história. Em depoimento gravado em 2000, o ex-diretor da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, admitiu a fraude, ainda que apresentando motivações enviesadas. “Enquanto as outras emissoras cobriam isso, nós ficamos limitados, pelo poder de audiência que a Globo tinha, a cobrir isso como se fosse um show de cantores”.
http://globotv.globo.com/para-assinantes/ta-na-area/v/diretas-ja-19831984/2233321/
Um ano depois, foi a vez do ex-diretor de Jornalismo da Globo, Armando Nogueira, revisitar a polêmica, em outro vídeo: “As passeatas, as manifestações, aquilo acabou se transformando em uma avalanche. E a Rede Globo, com o instinto de sobrevivência que sempre teve seu patrono, Roberto Marinho, não poderia ficar insensível a isso, embora tivesse duramente pressionada pelo Palácio do Planalto a não prestigiar o que se supunha, lá no Palácio do Planalto, apenas uns arroubos patrióticos, quando na realidade era a manifestação irresistível da consciência nacional”.
http://globotv.globo.com/para-assinantes/jornal-da-globo/v/diretas-ja-19831984/2233346/
Em 2003, o diretor executivo de jornalismo da emissora, Ali Kamel, reabriu a polêmica ao colocar no ar uma chamada em comemoração aos 34 anos do Jornal Nacional que evidenciava o pequeno trecho da matéria em que o repórter falava em “eleições diretas para presidente”. E no artigo “A Globo não fez campanha; fez bom jornalismo”, publicado na sequência no jornal O Globo, ainda teve a ousadia de afirmar que a chamada servia “para rechaçar de vez uma das mais graves acusações que o JN já sofreu: a de que não cobriu o comício das diretas, na Praça da Sé, em São Paulo”.
Os muitos autores que, até então, publicaram obras rechaçando a postura da emissora contra-atacaram, evidenciando a desproporção com que o tema foi tratado no telejornal. Ninguém nunca conseguiu saber, ao certo, se a vinheta de Kamel exibia a reportagem que, de fato, fora levada à época ao Jornal Nacional ou se era uma das tais “reportagens regionais” a que Roberto Marinha se referiu na entrevista à Veja de 1984. De certo, ficou apenas que o assunto não teve, no principal veículo de informação da emissora, o tratamento que merecia. E que o Brasil verdadeiramente democrático jamais engoliu a manipulação.
*****
A GLOBO NÃO FEZ CAMPANHA; FEZ BOM JORNALISMO
Ali Kamel
Para comemorar os 34 anos do Jornal Nacional, a TV Globo pôs no ar uma série de chamadas comemorativas muito simples: flashes dos principais momentos da História do Brasil e do mundo que o telejornal líder de audiência nas últimas três décadas exibiu. Foi uma pequena mostra dos serviços que o JN presta ao Brasil, o único órgão de imprensa presente, graças às afiliadas, em 115 municípios, nos 26 estados do país e no Distrito Federal, com equipes completas de jornalismo. Tudo feito por brasileiros, para brasileiros, em defesa do Brasil.
Mas não escrevo para elogiar o JN. Escrevo porque, em uma daquelas chamadas, uma pequena imagem do repórter Ernesto Paglia pode ter contribuído para rechaçar de vez uma das mais graves acusações que o JN já sofreu: a de que não cobriu o comício das diretas, na Praça da Sé, em São Paulo. Uma acusação que está, inclusive, em muitos livros. Leiam a seguir uma pequena mostra: Primeiro, Eugênio Bucci, em seu livro Ética e imprensa, editado pela Companhia das Letras em 2000, na página 29: No dia 25 de janeiro de 1984, o Jornal Nacional tapeou o telespectador. Mostrou cenas de uma manifestação pública na Praça da Sé, em São Paulo, e disse que aquilo acontecia em virtude da comemoração do aniversário da cidade. A manifestação era real: lá estavam dezenas de milhares de cidadãos em frente a um palanque onde lideranças políticas discursavam. Mas o motivo que o Jornal Nacional atribuiu a ela não passa de invenção. Aquele comício nada tinha a ver com fundação de cidade alguma. A multidão estava lá para exigir eleições diretas para Presidência da República. O Jornal Nacional enganou o cidadão naquela noite – e prosseguiu enganando durante semanas a fio, ao omitir as informações sobre a campanha por eleições diretas. Para quem só se inteirasse dos acontecimentos pelos noticiários da Globo, a campanha das diretas não existia.
Mario Serio Conti, em seu livro Notícias do Planalto, também editado pela Companhia das Letras, em 1999, nas páginas 37 e 38, foi mais longe: “Em 25 de janeiro de 1984, o patrão (Roberto Marinho) estava irredutível. Para aquele dia, aniversário de fundação da cidade de São Paulo, fora marcado um ato público na Praça da Sé. Centenas de milhares de pessoas compareceram. No palanque se encontravam desde o presidente do PT, o Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio Lula da Silva, até Tancredo Neves, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB, passando por cantoras, compositores, atores e atrizes de novelas da Globo. O próprio apresentador da manifestação, o locutor de futebol Osmar Santos, era um astro da Rádio Globo. Com a Bandeirantes e a Manchete dando flashes ao vivo e dedicando a maior parte de seus noticiários à manifestação na Sé, Boni imaginou uma maneira de mencioná-la, ao mesmo tempo que cumpria a ordem de não noticiá-la. Numa reunião na sala de Armando Nogueira, determinou que uma repórter falasse da Praça da Sé, em menos de vinte segundos, que ali estava sendo comemorado com um show o aniversário de São Paulo. Não deu certo: além de omitir, a Globo foi acusada de distorcer a verdade.”
Até mesmo no prestigiado Dicionário Histórico Biográfico, da Fundação Getúlio Vargas, na página 4.921, está dito: “Em 1984, o país viveu o ápice da campanha das diretas para a Presidência da República, desencadeada no final do ano anterior. Ignorando-a inicialmente, a Globo dava pouco espaço, nos noticiários, aos grandes comícios e passeatas que impulsionaram a campanha. O comício da Praça da Sé de São Paulo, em janeiro, recebeu uma cobertura de poucos flashes que apenas mostrava artistas, caracterizando o evento como uma comemoração do aniversário da cidade e desprezando a presença de dez governadores de estado.”
Luiz Felipe Miguel, em seu artigo Mídia e manipulação política no Brasil, publicado em Comunicação e política, volume VI, página 124, segue a mesma linha: “Outro episódio significativo se refere à grande mobilização popular exigindo o retorno das eleições diretas para a Presidência da República, em 1984 – e que a Globo procurou ignorar. No dia 25 de janeiro, um comício em São Paulo reuniu cerca de 300 mil pessoas em defesa das diretas, dando início a uma série de grandes manifestações populares. No Jornal Nacional, porém, o comício foi despido de seu caráter político e noticiado como se fosse um espetáculo comemorativo do aniversário da cidade de São Paulo.”
Deve haver muitos outros livros, a produção acadêmica no Brasil nessa área aumentou muito nos últimos anos. O que diminuiu foi a ênfase no método, na pesquisa. Bastava uma visita ao Centro de Documentação da TV Globo, onde todas as reportagens estão arquivadas, para que acusações tão graves simplesmente não existissem. A reportagem de Ernesto Paglia foi ao ar na noite do comício, realizado no dia 25 de janeiro, entre outros motivos, justamente por ser o aniversário de 430 anos da cidade, um feriado. O aniversário é o mote do locutor, e o repórter, de fato, inicia a reportagem por ele, mas, em seguida, fala do comício, diz que ele pede as diretas para presidente, descreve o que aconteceu e termina com o discurso do então governador de São Paulo, Franco Montoro. Leiam a transcrição:
Repórter: “São Paulo, 430 anos, nove milhões de brasileiros vindos de todo o país. A cidade de trabalho. São Paulo fez feriado hoje para comemorar o aniversário. Foi também o aniversário do seu templo mais importante, a Catedral da Sé. De manhã, na missa, o cardeal arcebispo dom Paulo Evaristo Arns lembrou o importante papel da Catedral da Sé nesses 30 anos em que ela vive no coração da cidade.
Dom Paulo: Nessa igreja se promoveu praticamente a libertação de um povo que quer manifestar-se como povo. Eu acho que isso é fundamental para uma igreja mãe que é tratada com tanto carinho.
Repórter: E junto com a cidade aniversariou também hoje a Universidade de São Paulo. A USP completou 50 anos de existência. A ministra da Educação, Ester Figueiredo Ferraz, foi à USP hoje. Ela falou da importância da Universidade com suas 33 faculdades e 45 mil alunos e assistiu a uma inesperada manifestação de estudantes e funcionários. Eles tomaram o anfiteatro com faixas e cartazes e pediram verbas para a educação, eleições diretas para reitor e para presidente da República. Mas à tarde, milhares de pessoas vieram ao Centro de São Paulo para, na Praça da Sé, se reunir num comício em que pediam eleições diretas para presidente. Não foi apenas uma manifestação política. Na abertura, música, um frevo do cantor Moraes Moreira. A Praça da Sé e todas as ruas vizinhas estão lotadas (panorâmica da multidão e das ruas ao lado, tomadas). No palanque mais de 400 pessoas, deputados, prefeitos (imagens do palanque) e muitos artistas, Christiane Torloni, Regina Duarte, Irene Ravache, Chico Buarque, Milton Gonçalves, Ester Góes, Bruna Lombardi, Alceu Valença, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil. A chuva não afasta o povo. Os oradores se sucedem no palanque e ninguém arreda pé. O radialista Osmar Santos apresenta os oradores. O governador de S. Paulo, Franco Montoro, fez o discurso de encerramento (imagens e som de Montoro, ao lado de Ulysses Guimarães, Orestes Quércia, Brizola e Lula). Franco Montoro: Um dos passos na luta da democracia. Houve a anistia, houve a censura, o fim da tortura; mas é preciso conquistar o fundo do poder que é a Presidência da República.
A fita está à disposição. Não houve omissão. Está tudo na reportagem de Paglia. Já na USP, a menção, com imagens, do protesto dos estudantes pedindo diretas para presidente. E as imagens da praça lotada, o motivo do comício dito com todas as letras, a ênfase na disposição cívica do povo “que não arreda pé nem com a chuva”, os políticos mostrados no palanque e o discurso final, na voz de Montoro, forte, incisivo, em tom de convocação. Sim, na noite de 25 de janeiro de 1984, os brasileiros se informaram na Globo de que um comício pelas diretas se realizara em São Paulo.
Como sempre, estavam bem informados. Desde o momento em que Dante de Oliveira protocolou sua emenda na Câmara dos Deputados, em março de 1983, a Globo cobriu todos os passos da luta pelas diretas. Já em março daquele ano, o então repórter Antônio Britto, numa reportagem para o Jornal Nacional, entrevistando o então líder do PMDB Freitas Nobre, contou aos brasileiros qual seria a estratégia da oposição para aprovar a emenda. E nos meses seguintes, foram inúmeras as reportagens a respeito, não somente sobre a tramitação da emenda, como também sobre as manifestações populares (a Globo cobriu os comícios, desde a caminhada pelas diretas no dia 13 de janeiro de 1984).
A minha tese é que não há má-fé por parte de quem difunde a acusação de que a Globo não cobriu o comício de São Paulo. Eu sou fortemente inclinado a supor que a Globo é tão querida, e tão reconhecidamente competente, que muitos não a perdoaram por não ter feito uma campanha pelas diretas, no estilo das que faz em época de Copa do Mundo. Esquecem-se de que a ditadura ainda estava forte, tão forte que as diretas foram votadas sob a vigência das medidas de emergência, um dispositivo constitucional, decretado nas vésperas da votação, que proibiu manifestações populares em Brasília (lembram-se do general Newton Cardoso, em seu cavalo, dando chicotadas em carros presos num engarrafamento?) e proibiu a transmissão por emissoras de rádio e televisão da sessão do Congresso Nacional que acabaria rejeitando as diretas-já. Não, a Globo não fez uma campanha, mas não deixou de fazer bom jornalismo.”
TV GLOBO E AS DIRETAS
Mario Sergio Conti
“Carta a Ali Kamel”, copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 4/10/03
Caro Ali,
Li com interesse e espanto o seu artigo n’O Globo do último dia 24. Interesse porque você transcreve o texto da reportagem do Jornal Nacional de 24 de janeiro de 1984, quando houve o primeiro grande comício pelas edições diretas para presidente. E espanto porque você conclui que naquela noite, e durante toda a campanha pelas diretas, “a Globo fez bom jornalismo” (transcrição abaixo).
Não foi de imediato que pensei em comentá-lo. Mas como comecei a imaginar indagações e contrargumentos, resolvi então compartilhá-los. Torno a carta pública porque acredito que o seu artigo suscita questões que podem interessar a vários de nossos colegas. E também porque podemos inaugurar um gênero inédito: a polêmica entre jornalistas que não desanda em gritaria, desqualificação, insultos ou baixaria.
***
Você acusa todos que criticaram a cobertura do Jornal Nacional daquele comício de não terem feito a pesquisa necessária: “Bastava uma visita ao Centro de Documentação da TV Globo, onde todas as reportagens estão arquivadas, para que acusações tão graves simplesmente não existissem”.
Perfeito. Mas eu fui, diversas vezes, ao Centro de Documentação da Globo quando fiz a pesquisa paraNotícias do Planalto. E pedi a fita do JN de 24 de janeiro de 1984. As fitas daquele ano, explicaram-me, foram gravadas no sistema X, e estavam em processo de transcodificação para o sistema Y. Pedi para ver aquele telejornal específico lá mesmo, numa máquina qualquer, da maneira que fosse. Não dava, foi a resposta. Ao longo de quase dois anos de trabalho no livro, de vez em quando telefonava para o Centro de Documentação e perguntava se dava para ver o raio do JN do comício das diretas na Praça da Sé. Nunca deu.
Acredito no que os funcionários do Centro de Documentação me disseram. Cheguei a eles por intermédio de João Roberto Marinho, que gentilmente recomendou que me ajudassem. Eles foram sempre eficientes e rápidos, além de simpáticos. Arrumaram-me a fita do Globo Repórter de abril de 1987, sobre a caça aos marajás que o então governador Fernando Collor fazia em Alagoas. Deram-me também a fita com a edição que o Jornal Nacional fez do debate entre Lula e Collor na véspera do segundo turno das eleições de 1989. E explicaram que não tinham a fita com a edição do mesmo debate que foi levada ao ar horas antes porque o Hoje não era arquivado.
Agora, graças ao Centro de Documentação da TV Globo, e à sua curiosidade, a fita está a disposição. Não é mais preciso recorrer à memória, pessoal e de outrem, para saber o que o JN mostrou naquele dia. A memória, como você, eu e todo leitor de Freud e Proust sabe, é parcial e enganadora. Ela não é regida por mecanismos racionais. Com o passar do tempo, as recordações assumem um caráter fluido e vago como o dos sonhos. (Falar em memória, como trezentas pessoas te devem ter dito, há um lapsus linguae no artigo: foi Newton Cruz, e não Cardoso, o milico que chicoteou uma carreata em Brasília).
Eu gostaria de ver a fita. Não, Ali, não precisa se incomodar em mandá-la. O sistema de vídeo francês é diferente do brasileiro. Também não se dê ao trabalho de descobrir se é possível transcodificá-la. Não tenho aparelho de vídeo ou de DVD (nem assino canais a cabo). Esses troços são caros e meu dinheiro é contado. E o que tem de noticiário e documentário nos canais abertos já me é mais do que suficiente.
***
Gostaria de ver a fita não só por nostalgia (cobri o comício), e sim para fazer uma análise semelhante às que fiz do Globo Repórter dos marajás e da edição do Jornal Nacional do debate de Lula e Collor. Queria saber, de cara, se o Cid Moreira (foi ele mesmo o apresentador daquela noite?) leu uma manchete na abertura do jornal sobre os acontecimentos na Sé. As manchetes de um telejornal, como estamos carecas de saber, resumem os fatos mais importantes do dia. Elas funcionam como a primeira página de um jornal impresso: hierarquizam as notícias da edição, chamando a atenção para as mais importantes, que ocupam espaço maior na página.
O que aconteceu na Sé foi considerado relevante o suficiente para abrir o JN? Se não, quais outras notícias foram consideradas mais importantes? Se sim, com que palavras o fato foi descrito: comemoração do aniversário de São Paulo, show, comício pelas diretas?
Gostaria também de saber o que o locutor disse ao anunciar a reportagem de Ernesto Paglia. Ou seja, qual foi o título da notícia. No seu artigo, você escreve que o aniversário (de São Paulo) é o mote do locutor. Sim, mas ele disse “comemoração”, “festa”, “show”, “comício”?
Com a fita em mãos, eu faria então uma minutagem, uma contagem do tempo dedicado a cada notícia. Para saber, no aspecto material mais elementar – o tempo -, qual o peso editorial ocupado pela reportagem da Sé naquela edição do Jornal Nacional. Um por cento, 3%, 5% do total do JN?
(Parênteses: sei que a matéria tem menos de um minuto. Fiz a contagem quanto voltei do comício, ao assistir a fita do JN na redação da Veja. Não porque eu seja um maníaco por cronômetros. No dia seguinte, ia entrevistar o Osmar Santos para uma “amarela”. E queria perguntar-lhe o que achava da Globo ter dado pouco tempo ao comício. A entrevista foi publicada, e a pergunta está lá).
De Paris, posso ouvir os seus bocejos no Rio, Ali. Reconheço que esses raciocínios sobre manchete, título e tempo de notícias são chatos, por serem o beabá do nosso metiê. Mas eles são importantes para que eu possa fazer as seguintes afirmações categóricas. Ei-las:
O Jornal Nacional não deu manchete com o comício pela diretas, que levou mais de duzentas mil pessoas à praça da Sé. Logo, não o considerou um dos grandes fatos jornalísticos do dia. O título da matéria do Paglia também omitiu que se tratava de uma manifestação pelas diretas. O tema das diretas ocupa metade do tempo da reportagem. Nela, dois entrevistados falam, D. Paulo Evaristo Arns e Franco Montoro, e apenas o governador se refere às diretas. A reportagem cita o nome de dez artistas e apenas o de dois políticos: a então ministra da Educação, Ester Figueiredo Ferraz, e Montoro.
A isso você chama de “bom jornalismo”.
***
O bom jornalismo não ocorre no vácuo. Ele pode ser contraposto ao mau jornalismo, ao péssimo, ao regular, ao excelente. Como nem o JN nem a Globo estavam (ou estão) sozinhos no universo, façamos algumas comparações
Na tarde do comício, as redes Bandeirantes e Manchete deram flashes ao vivo da preparação da manifestação (acompanhei as duas na redação, antes de sair para a cobertura). Com emissoras de rádio, a mesma coisa (ouvi rádio no táxi, da Veja até a Sé). Nos telejornais do horário nobre, a Manchete e a Bandeirantes dedicaram bem mais da metade do tempo ao comício (perguntei aos colegas, ao preparar a entrevista com o Osmar Santos) No dia seguinte, a Folha dedicou a primeira página inteira ao assunto. O Estadão, O Globo e o JB deram a manchete principal ao assunto. No fim de semana, Veja e Istoé vieram com fotos de capa, praticamente idênticas, com a multidão na praça (consulte os arquivos).
Todos os órgãos da grande imprensa cobriram o ato público na Sé de maneira extensa e intensa. Para os seus diretores e proprietários, ele foi a grande notícia do dia e da semana. Só o Jornal Nacional fez diferente. Ele reduziu drasticamente a relevância e o impacto da notícia. Ele colocou dentro da notícia informações que visavam deturpar o seu sentido, a sua verdade — a de manifestação popular contra a ditadura.
Já que você sustenta que a Globo fez “bom jornalismo”, como classificaria o trabalho das outras redes, dos jornais e das revistas naqueles dias? Eles se saíram melhor que o JN? Se sim, eles então fizeram “ótimo” ou “excelente” jornalismo. Dito de outra forma: em relação a eles, a Globo fez um jornalismo ruim. Ou péssimo.
Sua resposta pode ser outra: só a Globo fez bom jornalismo. Os demais órgãos da grande imprensa fizeram mau jornalismo porque exageraram a notícia. Fizeram “campanha”.
***
No último parágrafo do artigo você exemplifica o que entende por “campanha”:
“Eu sou fortemente inclinado a supor que a Globo é tão querida, e tão reconhecidamente competente, que muitos não a perdoaram por não ter feito uma campanha pelas diretas, no estilo das que faz em época de Copa do Mundo”.
Confesso que não entendi. Não acho que a Globo faça “campanha” em época de Copa do Mundo. Campanha para quê? Com que objetivo? Campanha para o Brasil ganhar? Na Copa, a Globo como um todo — e sobretudo seus pontas-de-lança, os locutores das partidas — , torce pelo time brasileiro. Todos os órgãos de imprensa fazem o mesmo. (Na França, idem: os locutores parecem estar transmitindo uma partida de xadrez, de tão fleumáticos que são, mas torcem adoidado pelos bleus. Eles torcem bufando: bufffff!)
Campanha jornalística é outra coisa. Como você, dou um exemplo: a Folha fez campanha pelas diretas. Bem antes do comício da Sé, o jornal fez editorial de primeira página a favor das diretas. A campanha popular passou a orientar o seu noticiário político, sua página de Opinião e seus colunistas. O jornal usava tarjas amarelas, a cor da campanha.
Quanto aos outros órgãos de imprensa, francamente não sei. Uns fizeram editoriais a favor das diretas. Outros não. Podiam estar em campanha ou não. Mas todos noticiaram a campanha amplamente. Inclusive O Globo. A única cobertura estruturalmente diferente foi a do Jornal Nacional.
E a diferença acabou dois meses depois, no comício pelas diretas na Candelária, no Rio. O JN fez uma cobertura oposta à do ato na Sé. Se você me permite um pouco de cabotinismo (e de preguiça também: não vou ficar procurando um jeito diferente de escrever o que já escrevi), cito o trecho de Notícias do Planalto sobre a Candelária:
“Com a cidade parada, a expectativa do comparecimento de um milhão de pessoas, e a previsão de se cantar o Hino nacional no horário do JN, uma parte da manifestação teria de ser exibida ao vivo. Boni defendia que o comício não destruísse a programação. O que importava, em termos jornalísticos, era mostrar a dimensão colossal do ato na Candelária, e não a pregação de tal ou qual demagogo. Mexer na programação, sobretudo no horário das novelas, era alienar uma parte considerável da audiência, argumentava. Armando Nogueira dizia que enquanto houvesse notícias a Globo deveria transmitir. Que se danassem as novelas. A preocupação de Roberto Irineu Marinho era evitar a transmissão do discurso de algum panfletário. Queria evitar ataques às Forças Armadas e incitações a saques e depredações. O poder de corte e edição, de decidir o que mostrar aos brasileiros, não ficou com os profissionais. Ficou com Roberto Irineu Marinho. Monitores foram acomodados na sua sala, e se fez uma ligação direta entre ela e a mesa de corte, na Central de Jornalismo. A convite de Roberto Irineu, a diretora italiana de cinema Lina Wertmuller acompanhou a movimentação. Pôde perceber que as discussões sobre televisão, política e jornalismo não eram acadêmicas: pouco depois das 8 da noite um helicóptero militar postou-se na altura da janela da sala de Roberto Irineu. Piloto e co-piloto encaravam o alto escalão da Globo, com o evidente propósito de intimidá-lo. Roberto Irineu abriu a janela e lhes deu uma banana. Passaram alguns momentos e os militares foram embora.”
Como você qualificaria o trabalho do JN no comício da Candelária? Os telespectadores da Globo foram mal informados, bem informados, excessivamente informados, informados por um jornalismo de “campanha”?
Se você quer minha opinião, ela é óbvia. A cobertura da Sé deixou os telespectadores desinformados. A da Candelária esteve à altura do comício.
***
Você reduz o contexto da época, no finzinho do artigo, a uma frase: “a ditadura ainda estava forte, tão forte que as diretas foram votadas sob a vigência das medidas de emergência, um dispositivo constitucional, decretado nas vésperas da votação, que proibiu manifestações populares em Brasília”.
A ditadura podia estar forte. Mas não a ponto de impedir que centenas de milhares de pessoas fossem à Sé. Ela também não evitou que órgãos de imprensa mais fracos que a Globo noticiassem o comício com destaque.
Havia, naqueles dias, uma crise política nacional. Essa crise reverberou dentro da Globo. Pela última vez, juro, dou uma de cabotino e me repito:
“Desde o final de 1983 as manifestações se sucediam. Quanto mais gente juntavam, maior o impacto da ausência delas no Jornal Nacional. O ministro Leitão de Abreu, da Casa Civil, convencera Roberto Marinho que a campanha era nociva ao governo do presidente João Baptista Figueiredo e, portanto, ao bem-estar nacional. O melhor era ignorá-las. Assim foi feito, com prejuízo para a credibilidade da rede. Seus repórteres e veículos foram hostilizados, enquanto os da Bandeirantes e da Manchete, que noticiavam a campanha, eram alvo de gestos de simpatia. Nos atos públicos e passeatas uma das palavras-de-ordem gritadas com mais entusiasmo era ‘o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!’ A mesa de Roberto Marinho foi coberta por telexes, telegramas e cartas de protesto contra as distorções no noticiário. Algumas delas assinadas por anunciantes e donos de agências de propaganda. ‘Se a Globo continuar ignorando as diretas, corre o risco de perder verbas publicitárias’, avisou o diretor de Comercialização, Dionísio Poli, a Roberto Marinho – que relutava em deixar focalizar o povo nas ruas.”
***
Ao longo dos últimos dezenove anos, consolidou-se a percepção social que cobertura da campanha das diretas feita pela Globo foi um escândalo. Repito: é ótimo que você tenha publicado o texto da reportagem. Mesmo sem citar as manchetes do dia e o título da notícia. Porque agora dá para saber melhor a partir de qual base factual se produziu o balanço (em livros, artigos e na memória das pessoas) daquela cobertura.
Nessas quase duas décadas, acho que li boa parte do que foi publicado a respeito. Conversei com dezenas de colegas da Globo. Entrevistei muitos deles e lhes fiz perguntas específicas sobre a campanha das diretas. Pois nenhum, jamais, defendeu a tese do ‘bom jornalismo”. Alguns falaram em ‘erro’, outros se referiram a ‘pressões’, muitos disseram que ‘foi feito o possível’. Nenhum deles se vangloriou do que foi levado ao ar. A começar por Roberto Marinho.
Para todos, contudo, as lições foram assimiladas. E colocadas em prática. Tanto que, no movimento para a tirada de Collor do poder, não houve reportagem que lembrasse a do comício na Sé – apesar de Roberto Marinho ser contra a saída do presidente. Todos, dentro e fora da Globo, aprenderam. É esse aprendizado coletivo que você quer reverter.
O sentido dessa carta, meu caro Ali, não é o de esmiuçar o passado. É o de apontar para o futuro. Outras crises virão. Políticas e jornalísticas. Você ocupa uma posição de responsabilidade na imprensa brasileira. O que você escreve deve ser ponderado e levado em conta. É por isso que, fraternalmente, discordo do seu exemplo — do seu conceito — de ‘bom jornalismo’. Ele transforma em paradigma o que foi uma aberração.
Com o abraço de sempre,

Mario
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sábado, 7 de dezembro de 2013

LULA: IMPRENSA QUE FALA DE DIRCEU ESCONDE 445 KG DE COCAÍNA

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

TV Globo estuda substituir Salve Jorge por pronunciamentos de Dilma


 piauí Herald


Manifestantes invadiram o Instituto Lula para exigir a desapropriação de Salve Jorge

ISTAMBUL - Após analisar os índices de audiência e a repercussão do pronunciamento de Dilma Rousseff em cadeia nacional ontem à noite, executivos da TV Globo viajaram para Brasília com o intuito de convencer a presidenta a ocupar, com intervenções de segunda a sábado, o horário da novela Salve Jorge. "Para o caso de ela hesitar, estamos levando um documento lavrado em cartório em que nos comprometemos a não apoiar Lula nas eleições de 2014", afirmou o diretor-geral de jornalismo da emissora, Ali Kamel.

Em reunião fechada, ocorrida num bunker escuro na Turquia, um grupo de criativos rascunhou o formato da nova trama. "A série de pronunciamentos será batizada de Encontro com Dilma, e todos os dias trará boas novas no horário nobre até entrarmos com a próxima novela", explicou o presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu Marinho. "A primeira notícia, claro, será o fim de Salve Jorge", anunciou, para palmas generalizadas dos jornalistas que cobriram a coletiva de imprensa. Marinho estuda reprisar Encontro com Dilma todas as manhãs das 10h30 ao meio dia.

Nos programas seguintes, Dilma revelará que José Dirceu não está por trás do tráfico internacional de mulheres. Dirá também que Lula nada sabia a respeito da trama de Salve Jorge. Na semana seguinte, arguirá Guido Mantega em questões básicas de tabuada, e demitirá, ao vivo, um ministro escolhido pelo público. No último programa, quando o público já não souber como a trama poderá ser superada, a mandatária anunciará a aposentadoria de José Sarney.

Assim que tomaram conhecimento da iniciativa, 1.437 parlamentares do PMDB exigiram uma ponta no Encontro com Dilma.



As cinco exigências de Cameron para manter o Reino Unido na UE

Pressionado pela recessão e vendo o aumento da popularidade de seus adversários trabalhistas, primeiro-ministro britânico propõe referendo e abre negociações com europeus para ampliar papel dos Estados-membro. Conciliadora, a chanceler alemã Angela Merkel disse que estava pronta a “examinar as reivindicações”.


Berlim – Quando o então primeiro-ministro da Grécia Giorgos Papandreou anunciou, em novembro de 2011, que pretendia fazer um referendo em seu país sobre os planos de austeridade – arrocho, traduzindo bem – cuja adoção a Troika (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI) estava forçando – houve uma reação estrepitosa e violenta. Papandreou foi espinafrado pela Europa afora, e uma blitz retórica liderada pela então dupla Merkozy literalmente ejetou-o do governo grego, substituído pelo “emissário” daqueles poderes, o “tecnocrata” Lucas Papadimos, catapultado do BCE para o Antigo Palácio Real, onde se realizam as sessões do Parlamento, no papel de primeiro-ministro.

Agora que o primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que pretende realizar um referendo sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Européia – promessa de conseqüências potencialmente muito mais complexas e graves –, não passou pela cabeça de ninguém, apesar das críticas que surgiram, dispensar-lhe o mesmo tratamento dado a Papandreou.

Houve reações amuadas. O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, por exemplo, deu uma declaração dizendo que Cameron estava tentando conseguir a sua “cereja” do bolo. O presidente francês François Hollande declarou que se deve aceitar a União Européia “como ela é”. Outros dirigentes também foram reticentes, como o primeiro-ministro holandês. Já a chanceler Angela Merkel mostrou-se surpreendentemente mais conciliadora, dizendo que estava pronta a “examinar as reivindicações” de Cameron. Surpreendentemente? Nem tanto. A chanceler alemã já tem problemas suficientes para conviver com o presidente francês, e ela certamente não quer abrir distância de seu aliado conservador do Reino Unido quando vai enfrentar uma eleição no segundo semestre.

O que pediu Cameron? Cinco pontos:

1) Maior flexibilidade na União Européia, atentando para a história, as condições e as características próprias de cada país;
2) Aumentar a competitividade da União Européia como um todo. Este segundo ponto tem raiz na crise recessiva que o Reino Unido enfrenta e nas políticas de competitividade adotadas por Berlim, junto com as que se vêm anunciando para a Zona do Euro, de que o Reino Unido não faz parte;
3) Reforçar o poder dos estados-membros;
4) Valorizar a participação dos parlamentos nacionais (recado direto para o parlamento britânico, em especial para seus aliados de governo);
5) Tratamento igual para os estados-membros.

Da negociação destes cinco pontos vai depender a posição que ele assumirá no referendo, quando de sua realização. 

A reação da mídia alemã a essa carta de reivindicações foi bastante moderada. Quase todos os jornais ressaltaram que sua estratégia pode ser perigosa e ter o ar de uma “chantagem”, mas que sua análise não está equivocada. Também esta reação pode ser compreendida. Boa parte dos agentes políticos e econômicos alemães temem que, com um reforço dos poderes de Bruxelas (Comissão Européia), de Estrasburgo (Parlamento Europeu) e de Frankfurt (Banco Central Europeu), a Alemanha tenha de dar contribuições financeiras maiores para tentar debelar a crise financeira em que a Zona do Euro e o continente como um todo se debatem. Vários jornais reforçaram a tese de que “Cameron não está só” em seu discurso.

O primeiro-ministro britânico tentou acalmar mais ainda os ânimos quando de sua participação na abertura do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, no dia seguinte, quando deu garantias de que não quer ver Londres fora da União Européia (aliás, o presidente Barack Obama fez-lhe um pedido direto neste sentido). Mas pode-se ver que Cameron está pressionado pela situação política interna de seu país e de seu partido. Em ambos cresce o número de “eurocéticos”, como se diz por aqui. O apoio à permanência do Reino Unido na UE, que era de 51% em 2011, caiu para 45%, enquanto o apoio à saída estáem 40%. Políticos “eurocéticos” vêem seu prestígio aumentar fora do Partido Conservador e dentro dele também. E se a eleição fosse hoje, os trabalhistas retornariam ao poder.

Uma situação difícil, portanto, para Cameron digerir. Mas, felizmente para ele, ele não é Papandreou, em 2011 o dirigente de um país que, na ocasião, teve um tratamento digno de alguém que fosse “de segunda mão”. Ninguém vai fazer isso com Cameron, muito menos com a City (o centro financeiro londrino). Afinal, todos podem merecer, como quer a quinta reivindicação de Cameron, tratamento igual. Mas alguns são “mais iguais” do que os outros.


A justiça econômica segundo Martin Luther King


Em meio aos debates sobre Lincoln, a escravidão e a posse de Obama, Osagyefo Sekou, fundador da Igreja da Liberdade de Nova York, comenta neste artigo o papel histórico de Martin Luther King, que não somente dizia “não” à segregação, mas também à injustiça econômica: “Eu estou convencido de que a abordagem mais simples se provará a mais efetiva – a solução para a pobreza é sua abolição imediata por uma medida já muito discutida: a renda garantida”.


“Querida, eu sinto muito sua falta. Na verdade, muito para meu bem. Eu nunca havia percebido que você era parte tão íntima de minha vida”, escreve um jovem estudante de pós-graduação, Martin Luther King Jr., à sua amada, Coretta Scott. Eles separaram-se por alguns meses porque Martin teve que ir a Atlanta após seu primeiro ano como estudante PhD na Escola de Teologia da Universidade de Boston. A carta de Martin começa por partilhar a saudade que ele sente. Afiando a oratória que capturaria a consciência de uma nação, escreve Martin: “minha vida sem você é como um ano sem primavera, que vem iluminar e aquecer a atmosfera saturada pela gelada brisa do inverno”.

Voltando-se para “algo mais intelectual”, Martin indica que havia terminado de ler o “fascinante” livro de Bellamy. Em abril de 1952, Coretta o enviou uma cópia do romance socialista de Edward Bellamy, Looking Backward 2000-1887. Ela registrou o presente com uma nota expressando seu interesse pela reação de Martin à “predição de Bellamy sobre nossa sociedade”. Escrito em 1888, o romance de ficção-científica se passa no ano 2000. A protagonista da obra, Julian West, acorda de um cochilo de 130 anos para perceber que os Estados Unidos haviam se transformado numa sociedade socialista. West oferece uma crítica assombrosa das práticas religiosas do século XIX:

Na melosa carta de amor de julho de 1952, Martin agradece Coretta “um milhão de vezes” por tê-lo apresentado a um livro “tão estimulante”. Após caracterizar Bellamy como um “profeta social”, Martin faz uma confissão notável: “eu sou mais socialista do que capitalista em minha teoria econômica”. Ele continua por dizer que o capitalismo durou mais tempo do que deveria. Para o jovem estudante, o capitalismo é “um sistema que toma necessidades das massas para oferecer luxúrias às classes abastadas”. No entanto, Martin acredita que a profecia de Bellamy é prematura porque “o capitalismo vai precisar de mais de meio século para morrer”. King celebra a nacionalização da indústria que se dá no romance. Ao passo que rejeita o marxismo e o materialismo dialético, ele divide com sua futura esposa que concorda com a tese básica de Bellamy.

O Reverendo Martin Luther King Junior
A casa de King em Sweet Auburn sempre foi atuante na política racial e no radicalismo religioso. Seu pai, o venerável “Papai” King, fundou, em Sweet Auburn, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor e trabalhou para melhorar as condições educacionais do povo negro de Atlanta. O avô e bisavô de King eram pregadores do evangelho que criam que a igreja deve melhorar a situação social da população.

Formado pelo cristianismo social negro segundo o qual a cristandade deve ocupar-se tanto da salvação pessoal quanto da social, King cresceu imerso na tradição dos clérigos estadistas – Benjamin Mays, Mordecai Johnson e Howard Thurman. Thurman, Mays e Johnson fizeram peregrinações para a Índia para estudar os ensinamentos de Mahatma Gandhi. Eles eram grandes referências para o jovem estudante do Morehouse College. King sempre viajou com uma cópia da reprimenda teológica de Howard Thurman à segregação – Jesus e os Deserdados. Como pós-graduando da Universidade de Boston, King conduziu, além da própria peregrinação à Índia, um seminário sobre a filosofia da não-violência.

Mais para o final da carta, King afirma uma visão profética. Com esperança, trabalho e oração, King aspirava por “um mundo sem guerras, uma melhor distribuição da riqueza, e uma irmandade que transcenda a raça e a cor. É este o evangelho que pregarei para o mundo”.

O furacão da história testaria a resolução do jovem teólogo. Do boicote aos ônibus em Montgomery à marcha de Washington, da campanha de Birmingham até o Prêmio Nobel da Paz, King manteve firme seu comprometimento com a não-violência e o cristianismo social negro. Em 30 de setembro de 1961, King proferiu um sermão com o tema “Pode um cristão ser um comunista?” em sua igreja batista. No sermão, Martin levantou a questão da desigualdade. “Ninguém precisa ser comunista para se preocupar com isso. Eu digo a vocês que só 0,1 por cento da população desta nação controla quase metade da riqueza, e eu não me importo de dizer que há algo de errado nisso”.

Com Lincoln vigiando os nobres herdeiros da Proclamação da Emancipação, o Reverendo Martin Luther King Junior deu testemunho para uma nação que impacientava-se com a opressão racial e econômica. Durante o agora onipresente discurso “Eu Tenho um Sonho”, King articulou a “feroz urgência do agora”. Ele insistiu em apontar que os Estados Unidos não poderiam contentar-se enquanto o a mobilidade social do “povo negro é aquela que vai de um gueto menor para um gueto maior”.

No celebrado discurso contra a Guerra do Vietnã, King lembrou-se de Coretta e falou de seu evangelho para o mundo. No dia 4 de abril de 1967, Martin subiu ao púlpito da catedral do Protestantismo Liberal – a Igreja de Riverside. De maneira vagarosa e triste, ele apelou para que sua nação se libertasse de sua desorientada aventura no Sudeste Asiático:

“eles perguntam-me, ‘por que você está falando da guerra, Dr. King? Por que você se junta ao coro dos descontentes? Você não se vê prejudicando uma causa que pertence a seu próprio povo?’ E, quando eu os escuto, apesar de conhecer a origem dessa inquietude, me vejo muito entristecido. Essas perguntas significam que eles não conhecem a mim, meu compromisso, meu chamado... À luz dessas trágicas incompreensões, eu julgo de suma importância expor com clareza a razão pela qual creio que o caminho iniciado na Igreja Batista da Avenida Dexter – a igreja em Montgomery, Alabama, onde comecei meu pastorado – trouxe-me até aqui. Eu estou aqui para fazer um apelo apaixonado para minha querida nação”.

A justiça econômica segundo Martin Luther King
Um dos movimentos mais ardentes de seu discurso sublinha os impactos da Guerra do Vietnã na “Guerra à Pobreza”. Um ano antes de seu discurso, King atentou para a pobreza que o norte dos Estados Unidos atravessava. Compreendendo que o fim da segregação nas lanchonetes era só parte da solução, King é citado por colegas por ter dito que, após chegar a uma lanchonete, o homem precisa de dinheiro para comprar um hambúrguer. Acabar com a segregação, de acordo com King, não custou um centavo à nação, que deveria agora gastar muito dinheiro com programas de combate à pobreza.

Em 1966, King mudou-se para um conjunto habitacional no gueto de Chicago. A intenção de King e de sua organização, a Conferência dos Líderes Cristãos do Sul (SCLC, do inglês), era a de usar a “força moral do movimento de não-violência para erradicar um sistema perverso que procura continuar colonizando milhares de negros num ambiente miserável”. A campanha levou King a enfrentar a pobreza urbana e a privação econômica. A contar desse momento, Martin trouxe para sua crítica à Guerra do Vietnã a conexão com a pobreza dos guetos estadunidenses.

“Há uma conexão muito óbvia entre a Guerra do Vietnã e a luta que empreendemos nos Estados Unidos. Há alguns anos essa luta conheceu um momento brilhante. Parecia haver uma verdadeira esperança para o povo pobre, seja ele branco ou negro, em virtude do Programa Contra a Pobreza. Então, veio o Vietnã. Os fundos necessários não serão investidos enquanto aventuras como a do Vietnã continuarem a puxar homens e dinheiro como um tubo de sucção demoníaco. Eu tornei-me, pois, obrigado a enxergar a guerra como uma inimiga dos pobres”.

Pouco mais de um mês após esse discurso, King foi à NBC participar do “The Frank McGee Sunday Report”. Lá, o Reverendo acrescentou sua voz à dos dissidentes com base em sua convicção moral e sua obrigação ministerial. Durante a entrevista, ele recusou a acusação de que o movimento pelos direitos civis estava morto. King argumentou que o movimento havia entrado numa nova fase – a da justiça econômica.

“Por 12 anos nós lutamos para contra a segregação legal e toda a humilhação que a cercava. Era uma luta por decência. Agora nós buscamos igualdade genuína enfrentando questões sociais e econômicas duríssimas. É bem mais fácil pôr fim à segregação nas lanchonetes do que garantir um salário. É bem mais fácil pôr fim à segregação nos ônibus do que conseguir um programa que force o governo a gastar bilhões de dólares em bairros miseráveis”.

Após reconhecer o número desproporcional de afro-americanos morrendo nos pântanos vietnamitas, King comenta que afro-americanos também morriam, espiritual e psicologicamente, nos guetos estadunidenses.

O Reverendo não somente dizia “não” à segregação, também à injustiça econômica. Essa foi sua última cruzada. Tendo contado com o apoio do governo federal para alcançar os objetivos do movimento pelos direitos civis, a nova fase do movimento desafiava o governo a dedicar bilhões de dólares para acabar com a pobreza. Com esse objetivo, King e a SCLC lançaram a Campanha do Povo Pobre. Em 1968, a Campanha do Povo Pobre questionava por que as grandes corporações tinham lobistas, enquanto 35 milhões de pessoas vivendo na pobreza não. Com a montagem de uma coalizão multirracial pelo povo pobre, a campanha planejava ir a Washington e ocupar a capital nacional até que o Congresso aprovasse uma lei garantidora de renda.

Em seu último livro, Where Do We Go From Here: Chaos or Community? [Para onde vamos daqui: caos ou comunidade?], King deu voz a ainda mais uma possibilidade socialista e democrática. “Eu estou convencido de que a abordagem mais simples se provará a mais efetiva – a solução para a pobreza é sua abolição imediata por uma medida já muito discutida: a renda garantida”, escreveu King. Durante uma de suas últimas reuniões, ele pediu para que desligassem o gravador e disse que era um socialista democrático, apesar de que poderia dizê-lo em público sem perder ainda mais apoio popular.

Com a bala do assassinato já polida e pronta para encher a nação de cólera, King foi ao púlpito sagrado do pentecostalismo negro. Em defesa dos trabalhadores do saneamento, King disse uma palavra sobre o próprio legado. Sempre ligando os pontos, ele fez um pedido aos que o escutavam na Igreja de Deus em Cristo de Mason Temple. Ele disse que duas grandes corporações, Coca-Cola e Wonder Bread, não estavam tratando como deveriam as crianças de Deus. E, então, solicitou um boicote econômico a essas companhias. Em Trumpet of Conscience [Trombeta da Consciência], King instigava a organização de deslocamentos em massa que ressaltassem a injustiça econômica.

Muito após o silenciamento do profeta norte-americano, suas palavras mantém uma precisão assustadora. Nos últimos dois anos, cidadão comuns de todo mundo – Egito, Palestina, Tunísia, Wall Street, Grécia, Paris e Londres – carregaram suas palavras e seu espírito enquanto arriscavam as próprias vidas para libertarem-se da tirania e da pobreza.


*O Reverendo Osagyefo Sekou é escritor, documentarista, teólogo e intelectual público. Considerado um dos maiores líderes religiosos de sua geração, Sekou é o fundador da Igreja da Liberdade de Nova York.

Tradução de André Cristi