Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Mídia brasileira oculta histórico golpista do prefeito de Caracas

ledezma

Olhando a situação política da Venezuela através dos relatos da parcialíssima grande imprensa brasileira, e sem maiores explicações sobre a história recente do país, as atitudes do governo venezuelano soam esdrúxulas e autoritárias. Porém, o contexto político daquele país justifica medidas que em situação de normalidade democrática seriam realmente inaceitáveis.

Na quinta-feira da semana passada, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma (59), foi preso pelo serviço de inteligência venezuelano (Sebin – Serviço Bolivariano de Inteligência) sob acusação de estar encabeçando preparativos para um golpe de estado através de um dito “plano Jericó”.

Assista, abaixo, à explicação do governo venezuelano sobre o plano golpista.

Ledezma era alvo de investigação havia mais de um ano sem que essa investigação fosse conhecida, e sua prisão foi levada a efeito sem apresentação de provas de seu envolvimento em um plano para derrubar o governo constitucional de Nicolás Maduro.

Curiosamente, no Brasil está em curso uma operação da Polícia Federal, agora encampada pelo Ministério Público e pela Justiça, que não perde em nada para a operação do serviço de inteligência venezuelano. A Operação Lava Jato encarcerou empresários sem apresentação de prova alguma justamente porque esse tipo de investigação é sempre conduzido em sigilo.

Sucedem-se os relatos sobre condições degradantes de encarceramento dos alvos da Lava Jato e sobre a falta de informações e apresentação de provas, tal qual ocorreu na Venezuela durante a prisão de Ledezma. Isso porque investigações e inquéritos como esse são levados a cabo em sigilo.

Então surgem as perguntas óbvias: como investigar alguém avisando-o de que está sendo investigado e por que a imprensa brasileira cobra apresentação de provas que, no Brasil, ainda são desconhecidas devido ao “segredo de justiça” envolvendo a Lava Jato?

Há duas vertentes na oposição venezuelana. Uma é encabeçada pelo candidato derrotado à Presidência Henrique Capriles Radonski e defende uma saída eleitoral e constitucional para chegar ao poder; outra tem como expoente o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e prega, abertamente, que o poder seja tomado à força, porque acusa o regime bolivariano de fraudar eleições, comprar votos etc., o que centenas de observadores internacionais negaram tanto sobre a eleição presidencial de 2012, que Hugo Chávez disputou com Capriles antes de morrer, quanto sobre a de 2013, em que Maduro derrotou o mesmo Capriles.

Se a Venezuela vivesse uma situação de normalidade democrática como o Brasil seria defensável cobrar do governo daquele país uma condução mais serena e transparente dos processos contra opositores, já que, em princípio, usar o poder de Estado contra a oposição soa a autoritarismo. Porém, desde 2002 a Venezuela deixou de viver uma situação de normalidade democrática.

A imprensa brasileira apresentou o prefeito recém-encarcerado de Caracas como vítima inocente e indefesa de um regime truculento, mas não é bem assim.

Em fevereiro do ano passado, Ledezma defendeu publicamente a violência nos protestos contra o governo que deixaram 43 mortos e milhares de feridos. Ao longo do ano passado, houve quase uma guerra civil na Venezuela. Ocorreram mortes dos dois lados.

Ao lado do líder partidário Leopoldo Lopez e da ex-deputada Maria Corina Machado, Ledezma defendia abertamente que Maduro deveria deixar a Presidência sem citar processo de impeachment ou referendo revogatório como aquele a que Chávez se submeteu – e venceu –em 2004, dois anos após o golpe de Estado que sequestrou e encarcerou por 48 horas o presidente constitucional do país, até que o povo venezuelano cercasse os golpistas no Palácio Miraflores e exigesse a libertação de seu líder político.

Em janeiro deste ano, Ledezma foi signatário de um manifesto que considerava “inadiável” a deposição de Maduro em 2015. E como o texto não fazia menção a nenhum processo eleitoral para tirar o presidente do poder, contribuiu para a acusação de golpe sob a qual o prefeito de Caracas foi preso.

Contudo, o histórico golpista de Ledezma vem de bem antes.

Em abril de 2002, durante o fracassado golpe que tirou Chávez do poder, o atual prefeito caraquenho e um grupo de sicários sob seu comando invadiram a prefeitura do município de El Libertador – o principal município da Grande Caracas, que inclui o centro histórico da capital venezuelana – para derrubar pela força o prefeito Freddy Bernal, então aliado de Chávez, que estava sequestrado pelos golpistas.

Ledezma foi um dos artífices do golpe fracassado de 2002. Junte-se a isso a reiterada pregação que vem fazendo pela tomada do poder pela força e a atuação concreta para esse fim ao comandar protestos em que seus partidários pegaram em armas contra o governo no ano passado – do que resultaram dezenas de mortes de governistas e oposicionistas –, a forma como o prefeito caraquenho foi preso encontra justificativas.

Após a prisão de Ledezma, Maduro anunciou, publicamente, que, nesta segunda-feira (23), pretende apresentar ao mundo vídeos, áudios e “outras provas” de que Ledezma estava planejando executar plano que já anunciara publicamente de derrubar o regime sem detalhar por que forma isso seria feito.

A situação política sui-generis que vige na Venezuela, o histórico golpista da oposição, a atuação de Ledezma durante os protestos violentos de 2013 e 2014, tudo isso explica o cuidado do governo em prender o opositor para desarticular o que é verossímil que se julgue uma nova ofensiva golpista.

Claro que o governo venezuelano está obrigado a exibir ao mundo as provas que alega ter de que o tal “plano Jericó” não foi uma invenção para justificar atos de arbítrio, mas a história recente da Venezuela justifica medidas de exceção para manter a vontade que o povo daquele país manifestou em 2012 e confirmou em 2013.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A revolução que não sai no jornal

Há uma revolução em marcha nos bastidores da sociedade venezuelana. Uma revolução pelo livro, ancorada em uma rede de editoras e livrarias públicas.

por: Saul Leblon

Divulgação



















 
Que uma feira de livros inaugurada em Caracas, na semana passada, tenha atraído tanto ou mais público que um protesto contra Cuba marcado para o mesmo dia, pode soar estranho ao discernimento de quem se informa apenas pela mídia conservadora.

Mas foi exatamente o que sucedeu na última sexta-feira, como relata o economista Pedro Silva Barros, que passa a colaborar com Carta Maior diretamente da capital venezuelana.

Seu oportuno texto de estreia (leia nesta pág.) informa não apenas que –pasmem-- existem venezuelanos mais interessados em literatura do que em rejeitar a parceria cubana nas áreas da saúde, educação etc.

O inusitado, quando se toma a emissão conservadora como norma, é mais amplo e profundo.

Pedro Silva Barros relata a existência de uma verdadeira revolução silenciosa nos bastidores da suposta conflagração irreversível da sociedade venezuelana, sugerida pelos despachos que o ‘jornalismo isento’ envia ao Brasil.

Erradicado o analfabetismo em 2005, feito atestado pela Unesco e graças à estreita cooperação entre Havana e Caracas, o governo venezuelano cuida de baratear o acesso à literatura, expandindo uma rede de livrarias públicas e semeando editoras pelo país.

Uma delas, informa Pedro Barros, a Editorial El Perro y la Rana, já reúne um catálogo de mais de 4.300 títulos.

A malha de livrarias públicas --Librerías del Sur, inclui lojas em todos os estados. A venda de livros subsidiados em locais de grande circulação pública, como estações do metrô, tornou-se trivial.

Não há notícia de ‘dirigismo autoritário’ na política editorial. A menos que se inclua nessa pauta conservador a distribuição gratuita de um milhão de exemplares de Don Quixote de La Mancha, obra-prima da literatura mundial, cujo quarto centenário foi festejado assim pelo então Presidente Chávez.

Essa revolução se entrelaça a outra, a do acesso à educação superior na Venezuela: o país tem cerca de 28 milhões de habitantes e dois milhões de universitários (o Brasil tem sete milhões para uma população de 190 milhões).

Nada disso diminui nem desmente a existência de uma polarização política nesse momento, extremada pela radicalização de uma parte da oposição venezuelana, e que já fez 29 vítimas fatais dos dois lados.

O que esses relatos ajudam a entender é por que um governo que teria contra si uma sociedade integralmente dilacerada, como ensina o martelete conservador, não caiu até agora .

A dificuldade de se obter maior transparência no noticiário relacionado aos conflitos e disputas vividos naquele país –razão do novo nome incorporado à equipe de colaboradores de Carta Maior-- fala diretamente ao momento brasileiro.
Não se trata de equiparar a radicalidade , nem os desafios contidos na agenda venezuelana.

Trata-se de chamar a atenção para o decisivo papel da informação plural quando do que mais se necessita é dotar a agenda do desenvolvimento de um razoável grau de coerência, que permita concentrar energias em processos e prioridades de interesse da maioria da população.

Essa é uma das mais delicadas operações da democracia: assegurar que o embate político gere a força, a legitimidade e o consentimento necessários à aglutinação das grandes maiorias requeridas às transições de ciclo histórico.

O oposto disso é o golpe. A crispação neoudenista. O comportamento vergonhoso de uma mídia que, à falta de cardápios defensáveis dedica-se a denunciar supostos privilégios no do ex-ministro José Dirceu.

Escandaliza-a a hipótese de que o ex-ministro possa, digamos, ter devorado um Big Mac na Papuda, mas não a sua retenção ilegal em regime fechado, depois do direito assegurado ao semiaberto.

Qual o passo seguinte dessa espiral da exasperação?

Aquilo que o conservadorismo brasileiro não hesitou em acionar há 50 anos.

Quando se viu na iminência de ceder espaço à hegemonia em formação em torno das reformas de base propostas por Jango, (como ficou documentado em pesquisas do Ibope, só recentemente divulgadas), golpeou a democracia a propósito de defendê-la.

É impossível exagerar a importância da mídia no processo de desenvolvimento de uma sociedade.

De qualquer sociedade. Mas sobretudo daquelas que, a exemplo da Venezuela, Brasil, Argentina, entre outras, vivem nesse momento a inflamável confluência de uma dupla travessia.

Ela inclui reformar o motor de desenvolvimento em meio à habitual escassez de recursos, agravada pela reordenação da economia mundial .

O conjunto estreita adicionalmente a margem de manobra do Estado para gerir as dilacerantes contradições do capitalismo na América Latina.

A alternativa ao golpismo é a repactuação política da agenda do desenvolvimento.

Seu requisito básico é facultar à sociedade o acesso a dados e análises que lhe permitam assumir o comando do seu destino.

Se nem o florescimento editorial na Venezuela é informado por aqui, o que esperar das questões mais agudas --e as graúdas- que envolvem as escolhas do desenvolvimento brasileiro?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

RODRIGO: FOLHA LUTA COM AS “PALAVRAS” A batalha em Caracas, Kiev e em São Paulo se trava nas camionetes do PiG (*).

Conversa Afiada reproduz do Escrevinhador irretocável artigo de Rodrigo Vianna:

UCRÂNIA E VENEZUELA: LUTAR COM PALAVRAS



“Lutar com palavras é a luta mais vã. No entanto lutamos mal rompe a manhã.” (Drummond)

por Rodrigo Vianna

Não se trata de poesia. Mas de política. A edição da “Folha” desta sexta-feira é mais uma demonstração de que a batalha nas ruas de Kiev ou Caracas não é feita só de coquetéis molotov, bombas e fuzis. A batalha se dá na mídia, na TV, na internet, nas páginas envelhecidas dos jornais. São Paulo, Caracas, Kiev, Moscou e Washington. A batalha é uma só.  

Reparemos bem. Acima, temos a primeira página do jornal conservador paulistano – o mesmo que apoiou o golpe de 64 e emprestou seus carros para transporte de presos durante a ditadura militar. Na capa da “Folha”, ucranianos escalam uma montanha de entulho no centro de Kiev, e a legenda avisa: “Manifestantes antigoverno usam pneus e entulho para montar barricadas…” Logo abaixo, uma chamada sobre reintegração de posse em São Paulo: “Em SP, invasores destroem imóveis do Minha Casa”. Numa página interna, o jornal informa que esse “invasores resistiram e, até a noite, praticavam atos de vandalismo”. (página C-1)

Ucranianos não praticam “vandalismo”. São tratados de forma heróica. Ainda que se saiba que parte dos manifestantes em Kiev tem um discurso racista, próximo do nazismo. Brasileiros são “vândalos”. Ucranianos são “manifestantes”.

Mas sigamos adiante. Nas páginas internas, a “Folha” traz vários textos do enviado especial a Kiev. Num deles, o repórter mostra uma pequena fábrica para produção de coquetéis Molotov, dentro do Metrô de Kiev. O cidadão que produz as bombas é descrito assim: “Sem afiliação a partidos ou uma proposta ideológica clara, o cidadão diz ter sido atraído pela praça e pelas manifestações a partir da ideia de que é necessário mudar o sistema político na Ucrânia.” 



Mudar o sistema político. Hum. Não fica claro se o cidadão quer uma ditadura. A Ucrânia não é uma democracia? O governo não foi eleito pela maioria? Hum… “Sem afiliação a partidos” – essa parece ser a chave para legitimar tudo nos dias que correm. A CIA, os EUA, a CNN, a Folha não tem filiação a partidos. Não. Nem o nobre manifestante de Kiev.

Ao lado da reportagem sobre os molotov, um texto opinativo assinado por Igor Gielow (sobrenome “eslavo”, muito bom! Isso dá credibilidade ao comentário). Basicamente, Gielow diz que a crise na Ucrânia é “reflexo da estratégia de Putin para a região”. Ele não está errado. Pena que esqueça de contar uma parte da história. “O importante não é o que eu publico, mas o que deixo de publicar”, dizia Roberto Marinho.

Gielow e a “Folha” ensinam: Putin é um líder malvado, que pretende manter na Ucrânia “a esfera de poder dos tempos imperiais e soviéticos”. Aprendam: só a Rússia tem interesses imperiais na Ucrânia. Do outro lado, há cidadãos sem afiliação partidária, lutando contra um insano governo pró-Moscou.  Os EUA e a Europa não têm interesses na Ucrânia. Só Putin. A culpa é dos russos.

Na “Folha” luta-se com as palavras muito antes da manhã começar. Luta-se com as palavras em Kiev, em São Paulo, Moscou. Washington fica invisível. E toda a estratégia passa por aí. O poder imperial só existe por parte da Rússia. Washington não tem qualquer projeto imperial: nem na Ucrânia, nem na Síria, nem tampouco na América Latina…

Falando nisso, a cobertura sobre a Venezuela é também grandiosa no diário da família Frias. Declarações de Maduro aparecem entre aspas. Velho truque jornalistico para desqualificar, colocar no gueto da suspeição, qualquer fala dos chavistas. Segundo a Folha, o governo de Maduro afirma que o movimento (golpista? Isso a Folha não diz) é uma armação de “forças de ultradireita da Venezuela e de Miami”. No texto original a expressão está assim, entre aspas. Por que? Para dar a impressão de que Maduro é um lunático, e que não há forças de ultradireita lutando nas ruas. Não. Há só “estudantes” e “manifestantes” (e agora sou eu que coloco entre aspas).



A legenda da foto acima (também publicada pelo jornal conservador paulistano) diz: “Estudantes queimam lixo em atos contra Nicolás Maduro”. Primeiro, como se sabe que o sujeito é um “estudante”? Depois, reparem que queimar lixo na Venezuela é “ato contra Maduro“. Queimar prédios em desapropriação, em São Paulo, vira “vandalismo”.

Em Caracas não há “vândalos”.

Ao lado da foto, um texto assinado por repórter (que está em São Paulo!!!!!) narra  roubo de equipamento da CNN em Caracas: “o ataque à CNN se assemelha a inúmeros relatos de motociclistas intimidando manifestantes, com tolerância e até respaldo das forças de segurança do governo”. O roubo ocorreu em manifestação da oposição. Mas o roubo certamente é coisa dos chavistas. Claro. Nem é preciso ir até Caracas pra saber (registro a bem da verdade factual que o repórter – a quem conheço, ótima pessoa – foi correspondente em Caracas).

No mesmo texto (assinado, de São Paulo) os grupos que defendem o governo são chamados de “milícias”. Ok. Já estive em Caracas cinco ou seis vezes. E há grupos chavistas que se assemelham mesmo a milícias. Mas do lado da oposição há o que? Não há milícias? A turma de Leopoldo, que deu golpe em 2002, é formada por cidadãos inocentes. E só.

Quem lê a “Folha” aprende que, em Caracas,  há de um lado “milícias chavistas”. De outro, só “estudantes” e “manifestantes”.  

Não há neutralidade no uso das palavras. Nunca houve. Nunca haverá. E quanto mais agudas as crises, mais isso fica claro. Há escolhas. A “Folha” faz as suas. A CNN, a Telesur, a VTV – ou esse blogueiro. A diferença é que uns assumem que têm lado. Outros fingem que estão “a serviço do Brasil”.  

Lutemos, com as palavras. Não há saída. O outro lado luta todos os dias, todas horas.

“Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate” (Drummond).



(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Onde mora o Leopoldo López nativo

Para escapar das agências de risco, governo corta crescimento e aumenta economia para pagar juros: menos R$ 44 bilhões em investimentos

Maduro faz gesto de conciliação: convida oposição a um diálogo nacional; liberta 90% dos estudantes presos e demite chefe do serviço de espionagem por descumprir ordens de moderação diante dos protestos

Doações ultrapassam 80% da multa aplicada a Dirceu

PSDB faz gato e sapato da justiça: partido tira Azeredo da cena para abafar o mensalão tucano e blindar Aécio em ano eleitoral; Gilmar e Barbosa vão se manifestar?



A mudança de ciclo na economia mundial enseja o aparecimento desses %u218heróis do ultimato%u219 ao estreitar o espaço de manobra progressista da América Latina.

por: Saul Leblon 



A oito meses da eleição de outubro, a  Presidenta Dilma tem a aprovação de 55% dos brasileiros, diz a pesquisa da CNT divulgada nesta 3ª feira.

O dado ficou três pontos abaixo dos 58% registrados na enquete anterior  - festeja a emissão conservadora.

É fato. Mas em 2006, com a mesma contagem regressiva no calendário, o então Presidente Lula tinha uma taxa de aprovação menor: 53% de aprovação. A de Fernando Henrique Cardoso, em fevereiro de 2002,  patinava em 40,5% .

O endosso ao desempenho da Presidenta, portanto,  sugere que a população sabe diferenciar a diretriz mais geral, das oscilações conjunturais e setoriais que fizeram com que o índice de ótimo e bom do seu governo ficasse em 36,4% (39% na última avaliação), saltando para mais de 74% quando à percepção positiva se agrega o sentimento dos que percebem a gestão como ‘regular’.

O diagnóstico favorável encontra lastro na pesquisa de intenção de votos da CNT: com 43,7% , Dilma teria sua eleição garantida no 1º turno, contra qualquer adversário, caso o pleito fosse hoje.

O pleito é em outubro e os 43,7% ficam sugestivamente numa faixa intermediária entre o seu potencial de crescimento (até os 55% da avaliação pessoal) e os 36,4% do endosso mais assertivo ao conjunto do governo.

Ademais  do intervalo de oito meses há uma Copa do mundo no meio do caminho.

Oitenta e cinco por centro dos brasileiros acreditam que ocorrerão manifestações durante o evento --cujos gastos, pouco explicados pela comunicação institucional,  tem a reprovação da maioria.

A unanimidade negativa nesse aspecto é  pontual, insuficiente para criar uma sentimento de oposição ao governo, o que é corroborado por outra sugestiva maioria: 82% dos brasileiros não pretendem participar das eventuais mobilizações de protesto.

O que aparenta um paradoxo insere-se numa expectativa de continuidade com avanços.

A vasta maioria dos eleitores espera, como é natural, que um próximo governo incorpore mudanças no comando do país. Mas apenas 37% desejam uma guinada radical, o que supostamente validaria um outro projeto sob um novo comando político.

Em resumo, o conservadorismo, qualquer que seja a sua tonalidade, necessita de algo mais para produzir aquilo que seus partidos, togas, o dispositivo midiático, o rentismo e a energia auxiliar de mascarados --que a exemplo do general da ditadura querem que o país exploda--  não foram capazes de providenciar até agora: o descrédito em um projeto negociado de construção da democracia social no Brasil.

Erra, no entanto, quem atribuir a tarefa da reeleição ao piloto automático da inércia publicitária.

Quando a democracia desautoriza suas demandas, o conservadorismo não desiste.

As distâncias e contextos são apreciáveis, mas o que se assiste na Venezuela nesse momento é pedagógico do quão elástico é  o apego liberal à democracia quando ela o desfavorece.

O bolivarianismo por certo acumula erros e limitações sabidos.

Sem a liderança carismática de Chávez as inconsistências encontraram um catalizador na inexperiência de um Maduro desprovido de tempo, recursos e tolerância para empreender retificações inadiáveis.

Entre elas, um ajuste cambial em processo (lá como cá, na Argentina e no resto da AL).

Ele adiciona nitroglicerina inflacionária a uma inquietação social extremada pelo golpismo, que tem em Leopoldo López sua expressão caricatural: o ex-prefeito de Chacao,  foi um dos operadores de rua do fracassado golpe contra Chávez, em 2002.

Um democrata.

O fato é que a mudança de ciclo na economia mundial enseja o aparecimento desses ‘heróis das ruas’, na medida em que estreitou o espaço de manobra dos governos progressistas da América Latina.

Seja na Venezuela, na Argentina e mesmo no Brasil esse é o elemento novo com que contam as oposições para pavimentar uma volta ao poder até agora desprovida de chão firme no embate com os projetos e resultados em andamento.

O ajuste internacional  embalado pela cambaleante recuperação econômica nos países ricos sacode esse equilíbrio em três frentes simultaneamente: o custo de financiamento externo dos países em desenvolvimento tende a crescer com o ensaio de retorno dos capitais aos EUA e Europa; a confortável valorização das moedas locais --mantida assim como recurso de acomodação dos conflitos sociais via importações baratas—tornou-se inviável sob risco de colapsar exportações e esfarelar contas externas já pressionadas pelo menor ingresso de capitais; os preços das commodities cujo fastígio contribuiu para lubrificar a expansão do emprego, projetos sociais, crédito e consumo, refluem sob o duplo torniquete da alta dos juros e da menor demanda chinesa.

Ademais de frear a mobilidade social , as medidas de reacomodação requeridas pressionam a inflação e desafiam a capacidade do setor público de realizar  os investimentos cobrados pela expansão da demanda popular.

Não é um processo linear, nem atinge todos os países em desenvolvimento de maneira uniforme.

‘Os vulneráveis’, como gosta de proclamar o ressentimento conservador ao nivelar Brasil e Turquia, por exemplo, são tão idênticos quanto um tuiuiú e um tico-tico.

Mas as transições de ciclo de desenvolvimento nunca foram  feitas à frio, nem a salvo de um acirramento político dos conflitos de interesse.

O que o conservadorismo busca no Brasil é antecipar os sacolejos desse processo para com ele animar uma aspiração eleitoral até agora desautorizada, como mostram os números da CNT.

Longe de dispor do combustível à mão disponível na Venezuela ou mesmo na Argentina  –juntos os dois países tem reservas cambiais pouco superiores a 15% dos quase US$ 400 bi do Brasil--  o tudo ou nada local  aposta no poder ‘premonitório’ dos mercados para se viabilizar.

Os mercados dispõem de distintos mecanismos para precificar imediatamente, no presente, as especulações de dificuldades futuras que eles próprios cogitam, ou são por eles magnificadas.
O martelete incansável do dispositivo midiático é um deles e a guerra de expectativas está nas manchetes: elas gritam onde eles querem chegar e para onde pretendem arrastar o país

Agências de risco são outra coleira poderosa dessa engrenagem destinada a adestrar governos e submeter as nações à supremacia de uma lógica que une interesses  do rentismo local e internacional.

Uma espécie de cães farejadores dessas massas de capital fictício, elas latem alertando para eventuais perigos mais adiante e com isso promovem as fugas em massa de fundos investidores.

Mesmo erradas no diagnóstico, como agora ao nivelarem o Brasil aos ‘vulneráveis’,  acabam produzindo os desdobramentos de seu vaticínio equivocado.
São quase autossuficientes na sua dupla ação.

Não se trata, ademais, de um poder equacionável exclusivamente na esfera econômica e financeira, exceto se atendido integralmente em seus desígnios, em colisão frontal com as urgências nacionais.

Alguns números liberados pela Associação Internacional de Fundos de Investimento (citados entre outros pelo jornal El País) resumem o poder de coação subjacente a essa engrenagem.

No final de 2013, o patrimônio administrado pelos fundos de investimento e os fundos de pensões equivalia a 75,5% do PIB mundial; hoje, essas trincheiras da lógica especulativa detém 31% mais dinheiro do que antes da crise de 2007; tem bala  suficiente para comprar todas as empresas do planeta cotadas em bolsa –ou para destruí-las com ordens de vendas maciças.

O mesmo duplo efeito se aplica aos títulos públicos detidos por essas máquinas de reproduzir o capital fictício.

As agências de risco são os cães de guarda dessa usinagem financeira.

Seria um suicídio anunciado desafiar o conjunto sem dispor de um contraponto  à  previsível fuga de capitais  –um fundo emergencial  compatível só teria viabilidade no âmbito dos BRICs, com participação ativa das reserva chineses; o que existe hoje é um ensaio disso e reúne apenas US$ 100 bi.

O caminho que resta entre a rendição incondicional cobrada pelo conservadorismo e o voluntarismo  irresponsável é a construção de um poder político dotado de força e consentimento social para resistir , ganhar tempo e promover uma transição negociada em direção a um novo ciclo de desenvolvimento.

Trata-se de estender urgências e ajustes no tempo; suavizar os custos da transição e não  abdicar dos objetivos maiores em jogo: a construção da democracia social no país.

Enfim, tudo o que não cabe no ultimatismo inflamável dos black blocs de máscara ou de gravata de seda.

Não há no horizonte brasileiro um Leopoldo López pronto. Mas conservadorismo tenta substituí-lo pelo ultimato das agencias de risco. E as divisões autodestrutivas da esquerda podem lubrificar a montagem de um similar nacional.