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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Trem-bala: ousar e pensar grande


MARTA SUPLICY
Esse empreendimento deve ser encarado com a compreensão de que sua implementação é urgente para uma região que concentra 33% do PIB do Brasil
O Brasil se consolida cada vez mais como uma nação que é capaz de enfrentar grandes desafios. Um deles é dar condições para que milhares de brasileiros possam ter acesso a transporte público de qualidade. Além dos investimentos que são necessários dentro das cidades, uma outra parte do problema reside em não termos muitas opções além de rodovias e aeroportos entre grandes capitais.

Para isso, temos que ser ousados e implantar o trem de alta velocidade. O chamado TAV fará primeiro a ligação entre Rio de Janeiro e Campinas, em São Paulo. A partir da apropriação da tecnologia e do desenvolvimento do país, outras capitais, como Curitiba e Belo Horizonte, se seguirão.

Assumi, com entusiasmo, a relatoria da medida provisória que trata do tema no Senado. Quando prefeita de São Paulo, tive como principal desafio a redefinição do transporte público e a implantação do Bilhete Único. Sei o que significa para a população um transporte mais barato e mais rápido.

É também sabido que a diversificação dos meios de locomoção interurbanos, permitindo o transporte por ônibus, aviões e trens, pode tornar o mercado mais competitivo, melhorar o serviço e promover a redução das tarifas, favorecendo o passageiro.

A proposta do governo para o TAV permite uma estruturação financeira da qual participam BNDES e investimentos privados nacionais e internacionais. Em nenhum lugar do mundo esses trens foram implantados sem envolvimento governamental.

Escutei críticas de que o recurso seria mais bem investido nos precários meios de transporte já existentes, mas não se trata de uma questão de priorização de recursos: aquilo que já está destinado para as outras modalidades de transporte não será afetado.

A implantação do TAV também reduzirá significativamente os acidentes e congestionamentos rodoviários e gerará emprego e renda (a previsão é de 12 mil postos) aos dois maiores centros urbanos do país.

Sem contar que a maioria da mão de obra (cerca de 75%), das matérias-primas e de outros insumos serão contratados, adquiridos ou fabricados localmente, desenvolvendo a economia da região.
Menos poluente que outros meios de transporte, o trem de alta velocidade despeja seis vezes menos CO2 na atmosfera que um avião. Ele também ajudará a sanar outra ferida das grandes cidades brasileiras: a falta de espaço para novos projetos de moradia.

Na medida em que tivermos transporte coletivo interurbano de qualidade e de fácil acesso, áreas mais afastadas das regiões metropolitanas poderão receber novos centros habitacionais.
Na Câmara, na semana passada, os deputados fizeram a sua parte, aprovando o brilhante relatório do deputado Carlos Zarattini.

Agora é hora de os senadores tomarem a sua decisão. Afinal, esse é um empreendimento para ser encarado não como uma marca de governo, mas com a compreensão de que a sua implementação se faz urgente para uma região que concentra 33% do Produto Interno Bruto e 20% da população do Brasil. Temos que pensar grande!

O Brasil tem condições de dar um passo ambicioso com a implantação do TAV e, com boa gestão e economia sólida, progredir na infraestrutura necessária para o país. Assim como a China, o Japão, a França e a Espanha, o Brasil investirá na integração de grandes regiões. Seja do ponto de vista econômico, social ou cultural, o projeto se justifica. O Brasil tem condições de ousar.

No desenvolvimento de um país, há que se ter planejamento de longo prazo e gestos que só a visão de estadistas com coragem de empreender têm. Nossa presidenta, assim como o presidente Lula, que desenvolveu o projeto, tem a dimensão da importância do TAV para o Brasil. Nós, no Senado, temos que seguir o mesmo caminho: ousar e pensar grande.

MARTA SUPLICY, senadora pelo PT-SP, é vice-presidenta do Senado Federal. Foi prefeita da cidade de São Paulo pelo PT (2001-2004).


Leia mais em: Esquerdop̶a̶t̶a̶ 
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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Trem de alta velocidade e empresa nacional

31/08/2010E.M.PintoDeixar um comentárioIr para os comentários
ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS


Está programada para novembro a divulgação do edital de licitação para projeto e obras do Trem de Alta Velocidade (TAV), que fará a ligação entre as cidades e aeroportos do Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas, também atendendo algumas poucas paradas intermediárias.

Do ponto de vista tecnológico, em seus mais variados aspectos, será uma obra fantástica, tanto pela performance programada (velocidades superiores a 300 km/ h, condições de segurança absoluta, comodidade competitiva com a do avião) como pelas diversificadas e problemáticas características geológicas, geotécnicas e ambientais presentes ao longo de seu traçado.

Do ponto de vista financeiro, com valor estimado em mais de 30 bilhões de reais, é um dos empreendimentos hoje mais atraentes no âmbito internacional.

Declarações oficiais dão conta de que cuidados especiais serão tomados para que se garanta a absorção pelo país das tecnologias que serão aplicadas na implantação do empreendimento.

No entanto, é justamente nesse específico aspecto tecnológico que os interesses estratégicos maiores do país podem ser preteridos.

Se, na superestrutura viária do TAV (equipamentos, componentes e sistemas operacionais), teremos a oportunidade de absorver novas tecnologias, na implantação da infraestrutura somos nós que temos muito, ou tudo, a oferecer.

Ao longo do eixo Rio-Campinas, o traçado do TAV atravessa singulares e sensíveis domínios geológicos com complexos comportamentos geotécnicos: baía de Guanabara, Baixada Fluminense, serra do Mar, bacia sedimentar de Taubaté (Vale do Paraíba), bacia sedimentar de São Paulo, mar de morros cristalinos dos trechos de planalto.

Sobre todos esses domínios geológicos a engenharia brasileira, com o suporte da engenharia geotécnica e da geologia de engenharia nacionais, implantou nas últimas décadas um expressivo número de grandes obras viárias.

Como exemplo, podemos citar a ponte Rio-Niterói, o metrô no Rio e em São Paulo, as rodovias dos Bandeirantes, dos Imigrantes, Ayrton Senna e Carvalho Pinto e o Rodoanel de São Paulo, entre vários outros destacados empreendimentos.

Todas essas obras contaram com a aplicação do vasto know-how brasileiro acumulado, assim como, elas próprias, permitiram avançar ainda mais a excelência desse know-how, condição essencial para a mais correta definição das concepções de projeto e da tipologia de soluções de engenharia capazes de assegurar para o TAV o elevado nível de segurança geotécnica exigido por esse empreendimento.

Ou seja, não se trata apenas de proporcionar procedimentos de absorção tecnológica; trata-se de, estrategicamente, garantir a aplicação efetiva de tecnologia nacional já dominada. E essa aplicação só será possível via real participação em projeto e obra da empresa nacional e das instituições nacionais de pesquisa tecnológica.

ÁLVARO RODRIGUES DOS SANTOS, geólogo, é consultor em geologia de engenharia, geotecnia e meio ambiente. Foi diretor de Planejamento e Gestão do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e diretor da Divisão de Geologia. É autor, entre outras obras, de “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”.