Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sexta-feira, 21 de março de 2014

Anticomunista, católico, golpista bem sucedido: conheça o cinema do Ipês


Conheça o cinema do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, fundado em 1961, essencial na aceitação pacífica do golpe por grande parte da sociedade civil. 

Caio Hornstein e Rodrigo Giordano
 
arquivo de youtube.com

E é justamente para coordenar o pensamento e a ação de todos aqueles que não querem ficar de braços cruzados diante da catástrofe que nos ameaça, que é necessário criarmos um organismo novo, com uma mensagem nova para a nova realidade do Brasil de hoje. Temos uma finalidade básica: evitar que a difícil situação que o país atravessa venha a comprometer nossas instituições democráticas e tradições cristãs.

Esse discurso faz parte do vídeo abaixo, um curta-metragem documentário chamado "O que é o Ipês”, um dos quinze curtas (que se tem notícia) produzidos pelo Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, fundado em 1961. O artífice de sua criação é o general Golbery do Couto e Silva. A ele se juntaram empresários e “democratas” que pretendiam “ver, julgar e agir em defesa da pátria”.
 

O nome do instituto vem da árvore tipicamente brasileira, a qual perde as folhas para florir novamente, simbolismo que evidencia a principal intenção do instituto: derrubar o governo legítimo para construir um novo país.

Como base teórica e prática, os fundadores optaram pela soma da Ata da Aliança para o Progresso, projeto de Kennedy que consistia em apoio financeiro americano para evitar o avanço comunista em países da América Latina, e os princípios da Encíclica Mater et Magistra (Sobre a recente evolução da questão social à luz da doutrina cristã), escrita em 1961 pelo Papa João XXIII.

O verdadeiro princípio do Ipês, no entanto, era construir, a partir de incentivos financeiros estrangeiros e do empresariado local, um aparato ideológico de comunicação a fim de afastar o perigo comunista, derrubar as Reformas de Base propostas por João Goulart e conseguir o apoio civil na troca por um governo que garantisse a manutenção da ordem e da propriedade privada.

Na fundamental obra 1964: A Conquista do Estado, o autor René Armand Dreifuss aponta que “o que ocorreu em 1964 não foi um golpe conspirativo, mas sim o resultado de campanha política, ideológica e militar travada pela elite orgânica, centrada no complexo Ipês/IBAD.”

O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) era uma organização anticomunista, fundada em 1959. Em conjunto com o Ipês, visava fazer oposição ao governo através de propaganda em todos os meios de comunicação possíveis. No entanto, foi dissolvido em 1963, após CPI que apurou o financiamento do instituto a partir de fundos de origem estrangeira sem autorização. Entre as empresas que desviavam dinheiro para o IBAD estavam Texaco, Shell, Esso, Bayer, IBM, Coca-Cola, General Motors.

Em seu livro Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe, Denise Assis aponta que 70% das doações feitas ao Ipês tinham origem nas seguintes empresas: Listas Telefônicas Brasileiras, Light, Cruzeiro do Sul, Refinaria União e ICOMI (Indústria e Comércio de Minerais). Estava posto, portanto, o suporte financeiro para a produção do material de propaganda ideológica. Documentos, seminários, livros, filmes, espaços no rádio e na TV: o Ipês se utilizou de todos os meios possíveis para fazer chegar sua mensagem à sociedade.

Os diretores do instituto consideravam o cinema a mais forte fonte de propaganda da época. Foi elaborada, então, uma comissão composta por ensaístas, escritores e intelectuais com o intuito de produzir roteiros para os filmes que levariam ao público a posição do Ipês em relação ao contexto político e social brasileiro da época. O fotógrafo francês Jean Manzon participou ativamente das atividades de produção e direção de vários curtas do Ipês, assim como o produtor Carlinhos Niemeyer, inventor do Canal 100. O escritor José Rubem Fonseca revisava os roteiros.

Como é possível ver no vídeo abaixo, o curta "A Boa Empresa", os primeiros filmes produzidos eram primordialmente voltados ao empresariado e ao operariado da fábrica, tratando de temas mais específicos, rechaçando a ação de greve (“traz prejuízo e angústia a toda coletividade”) e enaltecendo o empreendimento privado.



   


O cenário político e o aumento das tensões, porém, fazem com que os filmes passem a ser mais incisivos, passando a tratar de assuntos mais universais. A chamada do público para tomar algum tipo de ação é direta, mas qual ação seria essa especificamente fica apenas sugerido.

No vídeo abaixo, o curta "O Brasil precisa de você", a manipulação barata da montagem coloca lado a lado Musolini, Hitler, Stalin e Fidel Castro. A ideia era relacionar um regime de esquerda com o totalitarismo. No final, a mensagem é enfática: "O Brasil não pode esperar mais".




A utilização do cinema como instrumento político era feita de forma padronizada. Os filmes são didáticos e informativos, sempre com uma voz over masculina (o locutor Luiz Jatobá), cujas explicações são ilustradas pelas imagens. A montagem é usada tanto para a criação de uma ideia de ameaça, quanto para uma imagem de harmonia social, dependendo do tema do curta.

O Ipês tinha acerto com distribuidoras e exibidoras para que os filmes fossem exibidos em sessões regulares, antes de filmes estrangeiros. Além disso, todo material criado pelo instituto (filmes, panfletos, livros) era enviado para sindicatos, grêmios estudantis e empresas. A intenção era não só angariar simpatizantes à causa, mas formar de fato quadros conservadores nesses setores. E apesar de ter a burguesia e a classe média como alvos, os filmes também foram exibidos em favelas e bairros de periferia, onde era dada ênfase no caráter ateu do comunismo.

O Ipês concentrou suas atividades cinematográficas entre 1962 e 1963. Após o golpe, com a missão cumprida, os empresários não viam mais sentido em continuar bancando as produções do instituto. A pretensão inicial já havia sido conquistada: o apoio civil contra o governo e a organização da elite empresarial. Em sua obra acima citada, Denise Assis aponta o Ipês como "a mais poderosa agremiação civil dos últimos tempos". Ela divide da opinião de Dreifuss, para quem a propaganda massiva elaborada pelo instituto pavimentou a queda do governo Jango. O Ipês foi essencial na aceitação pacífica do golpe por grande parte da sociedade civil e sua produção cinematográfica ajudou a construir as condições políticas para o levante militar de 1964.



Créditos da foto: arquivo de youtube.com

sexta-feira, 21 de junho de 2013

AZENHA VIU O ÓDIO CONTRA LULA E DILMA “Notei que meia dúzia de militantes levantou seguidamente o braço direito e gritou três vezes “sieg heil”.

Na foto, um manifestante apartidário (PHA) (Foto: Marcos Bezerra / Futura Press)



Do Viomundo:

OS PELA “DEMOCRACIA SEM PARTIDOS” ATACAM MILITANTES DE ESQUERDA



por Luiz Carlos Azenha


Os militantes de partidos de esquerda que foram à avenida Paulista nesta quarta-feira — e se identificaram com suas bandeiras — foram seguidos continuamente por um grupo considerável de manifestantes aos gritos de “sem partido”. Houve empurra-empurra, troca de insultos, agressões físicas e a tomada de bandeiras vermelhas, que eram em seguida queimadas. Isso aconteceu até mesmo com bandeiras do PSTU, cujos militantes gritavam palavras de ordem contra o governo Dilma durante a passeata.

Desta feita o formato da celebração organizada pelo Movimento Passe Livre foi distinto. Os integrantes do MPL vieram na frente, seguidos dentro do mesmo cordão de isolamento por gente do PSTU, PCO, PCdoB e PSOL (não necessariamente nesta ordem). O último grupo misturava militantes dos movimentos sociais — como UNE e MST — a petistas com meia dúzia de bandeiras do partido. Um cordão de isolamento fechava a passeata e ficou todo o trajeto exposto a xingamentos e tentativas de agressão.


Quem atacava era um grupo razoavelmente organizado. Tentativas de identificá-los foram inúteis. Todos se diziam apenas “apartidários”. Além de “fora PT, leva a Dilma com você”, gritavam também “o povo, unido, não precisa de partido”. Houve vários bate-bocas ao longo do trajeto. Em resposta aos gritos de “sem partido”, militantes de esquerda gritavam “sem censura, acabou a ditadura”. A tensão na manifestação durou enquanto os vermelhos desfilavam com suas faixas, bandeiras e cartazes (os do PSOL, amarelos).

O risco de violência física fez com que boa parte deles se dispersasse bem antes de atingir o prédio da TV Gazeta — partiram da esquina da Paulista com a Consolação.

Outra vez a manifestação teve de tudo: protestos contra a Copa, a PEC 37 e o deputado Feliciano. Jovens de classe média eram majoritários. Havia skatistas, punks e estudantes de ensino médio, misturados a anarquistas e gente que aparentava ser neonazista. Notei várias pessoas que pareciam policiais à paisana. A Polícia Militar acompanhou desarmada, à distância.


Os únicos militantes que levaram faixas contra o governador tucano Geraldo Alckmin, que desatou a repressão sem precedentes contra o Movimento Passe Livre, estavam dentro da passeata de esquerda.

A certa altura, duas passeatas corriam paralelas: numa pista, os militantes de esquerda; na outra, os de direita, que se agacharam e começaram a gritar “fica em pé turma da corrupção”, ou algo assim.

Veja:


Testemunhei várias situações em que militantes de esquerda argumentavam e discutiam com os de direita, sem agressões. Os primeiros eram acusados de “oportunismo”. Respondiam gritando “fascismo”, relembrando que Mussolini também governou sem partidos.

Todos os militantes de esquerda com os quais conversei se mostravam preocupados. Um deles, chorava.

Aparentemente, no vácuo da desorganização da militância que se deu paulatinamente depois da chegada do PT ao poder, a direita brasileira construiu um quadro razoável de ativistas organizados. Hoje eles carregavam cartazes: “Dilma vaca”, dizia um; “Goleiro Bruno, fica com a Dilma e deixa o resto com o Macarrão”, dizia outro.

Igor Fellipe, integrante do MST, acompanhou tudo de perto: “O grupo que agrediu o bloco de movimentos sociais, organizações políticas, movimento estudantil, sindicalistas e os partidos era de encapuzados, muitos bombados, parte deles deve ter sido paga e outra parte caiu nessa onda conservadora de agredir”.

“O mais assustador é que a violência começou com foco no PT, mas quando a militância petista se dispersou entre os outros partidos, as agressões se voltaram contra toda a esquerda, do PSTU ao PSOL, do PCdoB ao PCO”, continua.


“Ou seja, é um sentimento antidemocrático contra qualquer organização política”, diz Igor. “O que foi impressionante é que todos fomos agredidos juntos. A esquerda se uniu sob o cacete da direita”, continuou.

O nível de agressividade contra o PT em particular e as bandeiras vermelhas em geral era organizado. “Foi orquestrado para fazer com que essa nova classe média se revolte contra os partidos”, concluiu Igor.

Tirando esta polarização mais aguda e localizada, a manifestação foi bastante tranquila e com muitos pedidos de “sem violência”, assim que se armava alguma confusão.

Porém, a repulsa aos partidos teve cenas preocupantes. Várias bandeiras e faixas vermelhas foram “capturadas” por incursões no meio da passeata de militantes de esquerda. Numa delas deu para ver claramente a estrela do PT. Em seguida, eram queimadas diante de fotógrafos e cinegrafistas. Assisti a algumas incursões, de longe. Depois de uma delas, no meio da confusão, notei que meia dúzia de militantes levantou seguidamente o braço direito e gritou três vezes “sieg heil”.


domingo, 26 de maio de 2013

O reacionarismo insensível dos médicos brasileiros


Parece que essa montagem é de Alex Moreira. Ou não.
O passado desnecessário

Os médicos brasileiros contrários à vinda de médicos estrangeiros para atuar no interior desassistido ainda não perceberam que desejam modelar o futuro com pedaços do passado de má memória até para eles.

Quando a crise social e econômica bateu aqui de verdade, muitos médicos se foram em busca de alguma oportunidade nos Estados Unidos. Os dentistas brasileiros descobriram Portugal. A propagação do conceito de serem mais atualizados tecnicamente, à época, lotou seus consultórios com a clientela portuguesa. E levou mais dentistas daqui.

Dos anos 1980 para os 1990, a batalha foi intensa e incessante, com envolvimento diplomático, dos governos, médicos e dentistas, meios de comunicação, entidades científicas de um lado e do outro. As relações entre os dois países ficaram difíceis.

Os portugueses cobravam que os dentistas brasileiros se submetessem, para validação dos seus diplomas, a exame baseado no currículo local. Os brasileiros respondiam que o currículo português incluía, em detrimento do maior domínio técnico, matérias médicas não adotadas no Brasil. Atritos e impasse por mais de dez anos.

A recusa à vinda de médicos reproduz exatamente a posição dos portugueses, à qual nenhum núcleo médico, odontológico, intelectual ou outro deu apoio no Brasil. A diferença entre os fatos de lá e os de cá está só nos motivos. Já foi dito que os médicos brasileiros defendem o seu mercado, a tal reserva de mercado. Só os portugueses fizeram isso.

Os médicos daqui não querem saber do interior atrasado, não importa que mercado haja aí e que condições sejam oferecidas. Mesmo as periferias das cidades são incapazes de atraí-los no número necessário, como prova a procura para os hospitais e postos públicos. A mera recusa à contratação de espanhóis, cubanos e portugueses despreza ainda outra realidade inegável: a dos milhões deixados a sofrimentos que até conhecimentos médicos elementares podem evitar ou atenuar.

Responder à proposta do governo com grosserias, como tem feito o Conselho Federal de Medicina, não disfarça outra realidade. Médicos de alta reputação e entidades científicas e de classe têm insistido na adoção, para os recém-diplomados, de exame à maneira do que faz a OAB para dar status de advogado aos bacharéis em direito. O pedido do exame é o reconhecimento de que a proliferação de faculdades tem diplomado levas de médicos com despreparo alarmante.

* A coluna de Janio de Freitas comenta também outro assunto, mas eu a editei para não misturar alhos com bugalhos.