Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

domingo, 9 de março de 2014

A NOVA RECEITA DOS GOLPES DE ESTADO MADE IN USA


A administração saída do golpe de Estado lançou um mandado de captura internacional contra o presidente Viktor Ianoukovytch, acusando-o de ter ordenado disparos sobre os seus opositores e de ser o principal responsável dos confrontos da praça Maidan.
A Rede Voltaire sublinhou, desde o início dos confrontos, que a presença de misteriosos franco-atiradores que disparam, ao mesmo tempo, contra polícias e manifestantes tem caracterizado as diferentes «revoluções coloridas» e «primaveras árabes» registadas (registradas-Br) desde 1989.
No caso dos motins da cidade líbia de Benghazi, em 2011, 4 membros das forças especiais italianas confessaram, depois da queda de Muammar el-Kadhafi, ter sido enviados pela OTAN para aí provocar uma guerra civil, disparando sobre ambos os grupos.

A prova de que não há censura na Venezuela

Horas antes de começar a escrever este texto-denúncia uma pessoa que me segue no Twitter questionou mensagem que postei naquela rede social dizendo que a maioria dos venezuelanos não tem liberdade de expressão no Brasil devido ao fato de que, por aqui, grandes redes de televisão, grandes jornais, grandes rádios ou mesmo grandes portais de internet literalmente censuram tudo que contradiga a versão da oposição ao governo da Venezuela.
Mas como saber a versão da maioria dos venezuelanos? Eles não têm liberdade de imprensa lá”, disse-me o seguidor no Twitter.
Se quiser saber se isso é ou não verdade, sugiro que leia este texto até o fim. Em sua última parte, provo, de uma vez por todas, que não há censura alguma na Venezuela. Pelo contrário, a imprensa de lá pode mentir livremente. E sem consequência alguma.
Contudo, chega a ser surreal. Estamos em plena era da comunicação interplanetária instantânea através da internet. Em qualquer parte do planeta, basta ter acesso a um mísero celular com conexão com a internet – o que, hoje, é mais comum do que ter um forno de micro-ondas – para que se possa verificar o que se passa em qualquer parte do mundo.
Hoje, pode-se acessar livremente a imprensa até de países sob ditaduras – ou sob supostas ditaduras. Em Cuba, tão acusada de restringir liberdade de imprensa, qualquer um consegue acessar o blog da opositora mais famosa daquele regime, a blogueira Yoany Sánchez, que, diuturnamente, ataca o governo. Ainda assim, teimam em dizer que há censura em Cuba.
Mas, de fato, em Cuba não há grandes jornais de oposição e o acesso à internet ainda é dificultado pela situação econômica do país, o que impede que qualquer cubano tenha acesso à rede, tornando internet um privilégio fora do alcance de muitos. Mas, no que diz respeito à Venezuela, é uma piada dizer que não há liberdade de expressão por lá.
Há uma enormidade de jornais impressos, alguns de grande porte, ou de televisões privadas que fazem oposição ferrenha ao governo de Nicolás Maduro tanto quanto faziam ao do falecido Hugo Chávez. As televisões, as rádios e os sites opositores chegam a convocar manifestantes para se rebelarem contra o governo. Os jornais produzem diatribes diárias em editoriais, artigos, cartas de leitores etc.
No Brasil, porém, a grande mídia – Globo à frente – continua vendendo exclusivamente a opinião e a versão da oposição. Há literal censura a qualquer fato positivo sobre o país vizinho e, mais do que isso, a informações sobre o conflito entre governo e oposição que destoem da versão oposicionista. Não há, pois, noticiário sobre a Venezuela, em nosso país; há propaganda política de uma facção violenta e golpista, que está tentando derrubar o governo.
Nos últimos dias, o noticiário brasileiro tem se concentrado fortemente no número de mortos e feridos durante os protestos da oposição contra o governo. Diz a mídia brasileira que há 20 mortos e centenas de feridos, mas não diz que grande parte desses mortos e feridos é composta por governistas atacados pela oposição, muitas vezes em emboscadas de franco-atiradores, posicionados no alto de prédios durante as manifestações.
Esses métodos que estão sendo usados novamente pela oposição venezuelana para culpar o governo pelas vítimas (fatais e não-fatais) de suas ações de sedição foram imortalizados no documentário Puente Llaguno, que mostra como em 2002, em tentativa anterior de golpe, essa mesma oposição assassinou pessoas e também culpou o governo.
Esse documentário vem sendo difundido há anos por ativistas políticos independentes, mas como, ao mesmo tempo, é um documento avassalador para as farsas midiáticas contra a Venezuela, sofre, por parte dos grandes meios de comunicação, uma das censuras mais violentas de que se tem notícia.
Reproduzo, abaixo, o documentário. E sugiro, a quem quer expor a verdade sobre o conflito no país vizinho, que tente difundir ao máximo esse vídeo. Este texto prossegue em seguida.


Se está retomando o texto sem nunca ter assistido a Puente Llaguno, vale explicar que o documentário prova, sem deixar qualquer dúvida, que, em 2002, a oposição fez o que voltou a fazer neste ano, ou seja, gerar mortos e feridos para acusar o governo.
Essa, aliás, foi a base da tentativa de golpe de 2002, que o documentário Irlandês “A Revolução Não Será Televisionada” também denuncia. Abaixo, reproduzo também esse documentário. E prossigo em seguida.



Parece incrível, mas estão tentando fazer novamente na Venezuela o que fizeram em 2002. Exatamente com os mesmos métodos. Inclusive com as mídias dos países vizinhos (como a do Brasil) impedindo que a versão da maioria do povo venezuelano sobre o que está acontecendo naquele país seja conhecida em seu entorno.
Hoje, porém, há uma diferença. Após a tentativa de golpe de 2002, o falecido Hugo Chávez montou um sólido esquema de preservação das instituições e da vontade da maioria de seu povo. Além de uma rede de comunicação capaz de fazer frente à forte máquina midiática oposicionista, que dispõe de 80% dos meios de comunicação privados na Venezuela, há, naquele país, órgãos de inteligência e um verdadeiro exército popular armado.
Mesmo uma tentativa de invasão da Venezuela pelos EUA enfrentaria uma guerrilha bem armada, um exército contrarrevolucionário que resistiria a essa suposta invasão estrangeira. Além disso, as forças armadas venezuelanas expurgaram dos postos-chave todos os militares com pendores golpistas.
Pela força, portanto, a oposição venezuelana não conseguirá derrubar o governo constitucional.
Todavia, nos países vizinhos a situação é muito grave. Há uma máquina de propaganda dos golpistas funcionando a todo vapor. A mídia brasileira, por exemplo, além de praticar censura contra a versão da maioria dos venezuelanos que apoia o governo conta com a preguiça de seu público, acostumado a comprar as versões prontas que vende.
Qualquer pessoa pode acessar os grandes jornais venezuelanos pela internet e verificar se estão realmente sob censura. Uma mera busca no Google daria acesso ao site “Jornais da Venezuela”, que indica todos os grandes periódicos daquele país, com a íntegra do que publicam. E basta conhecimentos médios de espanhol para ver que esses jornais atuam com total liberdade no país vizinho.
Para navegar pela imprensa venezuelana, portanto, clique aqui
Mas, para facilitar a vida do leitor, traduzi editorial publicado no último dia 8 de março pelo maior jornal venezuelano, o El Nacional. O título do editorial, “El Madurazo”, faz alusão ao “Carazo”, uma explosão social espontânea, de grandes proporções, ocorrida em Caracas em 1989, em repúdio a pacote de medidas econômicas neoliberais imposto pelo governo de Carlos Andrés Pérez.
Leia, abaixo, o editorial do periódico El Nacional
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EL Nacional
Caracas, 8 de março de 2014
Ontem, o senhor Maduro condecorou e exaltou postumamente os integrantes da Guarda Nacional Bolivariana que faleceram durante a violenta repressão lançada pelo governo contra os estudantes que tomaram as ruas para protestar contra a bancarrota social e econômica em que se encontra o país, e que afeta os setores mais pobres da sociedade.
O senhor Maduro também condecorou 57 integrantes da Guarda Nacional que, segundo as versões extraoficiais, foram feridos em consequência dos ataques de estudantes e de pessoas residentes da região, gente que saía do metrô rumo ao seu trabalho, idosos que iam comprar alimentos e trabalhadores que seguiam para o trabalho cotidiano.
Tão perigosa aglomeração composta por simples garotos menores de idade, estudantes magricelos e jovenzinhas nada musculosas, além de pessoas do povo famélico, empobrecida e cansada, causou à treinada, disciplinada e militarizada Guarda Nacional nada menos do que 57 feridos. Valha-nos Deus. Estamos tão mal [de policiais]? Por isso o contrabando e o narcotráfico nos ameaçam de morte.
Segundo Maduro, os sargentos foram assassinados pela extrema direita enquanto cumpriam seu dever de defender a paz. Que rapidez a de Nicolás [Maduro] para investigar por sua conta um fato de natureza tão complexa que exige de qualquer equipe de investigação do Cicpc [órgão de inteligência venezuelano] um tempo prudencial e um especial cuidado para montar corretamente as peças do quebra-cabeças policial.
Que pena que Maduro não estava em Dallas quando mataram o presidente Kennedy, porque o FBI e o governo norte-americano teriam poupado tempo e dinheiro.
Já Nicolás [Maduro] cometeu a imprudência e o presumível delito de revelar parte do resumo dos assassinatos ocorridos na esquina de Tracabordo, na Zona de Chacao [bairro de Caracas] – as duas balas são iguais, afirmou –, um ato que está expressamente proibido a qualquer funcionário que tenha acesso ao material.
A procuradora-geral da república se atreverá a chamar a atenção [de Maduro] publicamente?
Enquanto se ocupava de exaltar postumamente os dois sargentos da Guarda Nacional que morreram durante os choques, o senhor maduro fazia vista grossa para os vinte venezuelanos assassinados por comandos policiais e grupos paramilitares que atuam à margem da lei e para os quais os crimes e desmandos não têm lei nem castigo. Esses vinte mortos não são seres humanos, pertencem à escoria de direita fascista e, portanto, é bom que tenham morrido.
Porém, responda, senhor Maduro: o senhor está seguro e em sua consciência não tem dúvida de que esses vinte assassinatos foram cometidos pelo que chama de “direita fascista? E se não for assim? E se o senhor, como todo ser humano, se engana? Não estaria o senhor encobrindo presumivelmente esses crimes?
O que ao senhor incomoda, senhor Maduro, é reconhecer publicamente que os que saíram à rua para protestar estão fartos de passar fome pela permanente escassez de alimentos, por ver morrerem seus familiares porque o senhor foi inepto na importação de medicamentos assim como no cuidado de dotar hospitais de equipamentos, em enfrentar a insegurança descontrolada que enche os necrotérios com centenas de cadáveres, em acabar com o narcotráfico que corrompe os jovens nas favelas, em deixar que as escolas caiam no abandono, em arrasar as terras cultiváveis e converter os camponeses em mendigos urbanos.
O senhor odeia os estudantes e mandou reprimi-los porque os jovens gritavam as demandas do povo contra a pobreza, a escassez, a fome, o inferno e a corrupção. Falavam pelo povo, expunham ao mundo a indigência e o abandono em que o senhor mantém hoje este país que um dia foi próspero e formoso.
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O “El Nacional” é o maior jornal venezuelano, algo como a Folha de São Paulo de lá. Faz parte do Grupo de Diários América, que foi citado no sábado (8) pelo Jornal Nacional como fonte das notícias que o telejornal deu sobre a crise venezuelana.
O grupo de mídia ainda é dono de outros jornais de países sul-americanos, como o El Tiempo, da Colômbia, o El Mercúrio, do Chile, e o Lá Nación, da Argentina. Todos jornais de linha conservadora. O La Nación, aliás, faz oposição cerrada a Cristina Kirschner, na Argentina.
O jornal El Nacional mente descaradamente sobre a situação na Venezuela. Dizia as mesmas coisas durante o golpe de 2002. Há provas concretas de que não são apenas “estudantes magricelos” que estão indo às ruas incendiar até a sede do Ministério Público, jogar bombas e atirar em governistas do alto dos prédios.
Mas não é o que importa, neste texto.
O que importa é que o editorial em questão desmente de forma cabal e insofismável a versão mentirosa de que não há liberdade de imprensa na Venezuela. Esse tipo de diatribe contra o governo está nas televisões, nas rádios, nos portais de internet, em toda parte daquele país. E, creia-me, leitor, o ataque do El Nacional é um dos mais suaves que se faz ao governo venezuelano.



sábado, 8 de março de 2014

Eles querem desossar a reeleição

México quebra o monopólio da Televisa: a Globo de lá perde a exclusividade sobre grandes atrações e terá que compartilhar infraestrutura com concorrentes

Pesquisa Secom/Ibope redesenha o mapa da mídia no Brasil: jornalismo impresso agoniza; TV ainda lidera, mas Internet dispara, já é a principal fonte de informação em quase a metade dos lares

Assista: Mi amigo Hugo, de Oliver Stone ( http://www.telesurtv.net/)

Países da ALBA, mais Brasil, Argentina e Uruguai bloqueiam interferência da OEA na Venezuela, como queriam EUA, Peru e a direita brasileira



Processada nos EUA por cumplicidade com fraudes que precipitaram a crise, a agência de risco S&P desembarca no Brasil para dizer se o governo é ou não confiável


por: Saul Leblon 

Arquivo














Incapaz de criar fatos que o resgatem da irrelevância propositiva, o conservadorismo salta de um lado a outro à  procura de um galho que lhe dê alguma luz.

O resultado desanima até a condescendência da mídia amiga.

Entre a toga colérica, que rasgou a fantasia ética com a própria boca,  e as máscaras incendiárias, que mais assustam do que contagiam, o saldo aderna.

A oito meses das eleições, uma  nova esperança está prestes a entrar em campo.

Com poderes para dizer se o Brasil vai ou não ‘cumprir suas obrigações fiscais’, se o ‘governo é ou não confiável’, ‘se a política econômica está ou não no caminho certo’, a ilustre visita atende pelo nome de Standard & Poor’s.

Fosse um bicho, teria a morfologia de um cão farejador.

Sendo uma  agência de risco, desembarca seu focinho tecnocrático para vasculhar até que ponto as contas do governo garantem o pagamento de juros aos rentistas da dívida pública (leia mais sobre a questão fiscal  na coluna de Jaciara Itaim; nesta pág)

É nessa condição de quem ostenta uma coleira conduzida por poderosas mãos invisíveis  –que também costumam asfixiar o pescoço de governos--  que os emissários da  ‘S&P’ terão acesso às contas brasileiras.

Reuniões em Brasília já estão agendadas para essa finalidade.

O gênero dos  economistas de bancos, tão previsível quanto seus power points,  também será ouvido, a exemplo das consultorias afinadas pelo diapasão do Brasil aos cacos.

A semelhança com as missões do FMI, ou os atuais comitês interventores da Troika, na Europa,  não é coincidência.

O espírito é o mesmo.

Métodos e métrica, idem. E por uma razão muito simples.

Os interesses que movem os  ternos negros em todo o mundo são os mesmos.

O apetite do capital  rentista utiliza regularmente a matilha carimbadora de ‘ratings’ para devolver governos e nações à disciplina dos bons supridores de juros ao capital financeiro.

O capital pode ser volátil; as políticas fiscais, não.

Não importa a que custo para a sociedade.

É com base nessa tradição que o conservadorismo e seus jornalistas isentos  esperam que a S&P reforce o  seu palanque espetando um downgrade no coração da candidatura Dilma.

Ou seja, rebaixando a nota de risco que mede a capacidade de um Estado honrar os títulos que financiam sua dívida.

A mídia isenta não concebe a hipótese de a ‘S&P’ decepcionar.

Em junho do ano passado, quase em sintonia com os protestos,  a agencia, com escritórios em 23 paíss  já havia  revisado a perspectiva  do país de "estável" para "negativa".

Não importa que as justificativas tenham sido desmentidas pelos fatos.

O PIB de 2013 cresceu mais do que estimava a torcida que agora aposta em um novo empurrão par abaixo.

A taxa de expansão da economia brasileira, de 2,3%, foi o dobro daquela do México, por  exemplo, cuja nota de risco foi elevada no mês passado por outra agencia, a Moody’s.

A do Brasil, ao contrário, caiu dois graus abaixo da classificação festejada pelo ‘amigável’ presidente mexicano, Enrique Peña Nieto  --  comprometido com as ‘reformas’, explica o jornalismo comprometido com os interesses que delas se beneficiam.

O descontrole fiscal, ‘a gastança’ –o voluntarismo petista, diria FHC--  outra justificativa para o rebaixamento brasileiro, tampouco se confirmou.

 O Brasil mantém  uma relação dívida bruta/PIB estável;  exibe ademais  uma das menores proporções de endividamento líquido (descontadas as reservas internacionais) do mundo.

No ano passado ela caiu para 35% do PIB.

Era superior a 60% há dez anos; um legado de FHC que os festejos dos 20 anos do  Real omitiram distraidamente.

A elevada expectativa conservadora, bem como  a tensão dentro do governo, com a chegada dos paletós pretos, não encontra lastro na respeitabilidade intrínseca da ‘S&P’.

No início de 2013, o Departamento de Justiça norte-americano abriu um processo por fraude contra ela.

Foi o primeiro grande processo contra uma agência de risco por sua cumplicidade com as práticas de mercado que resultaram na explosão da bolha imobiliário nos EUA, em 2008, e que acionaria o gatilho da maior crise mundial do capitalismo desde 1929.

A ‘S&P’, que ora vem cobrar rigor nas contas brasileiras e arguir as autoridades quanto a consistência das metas fiscais para 2014, enfrenta acusações por agir de forma algo discrepante em  seu país.

Entre elas a de  blindar com a nota mais alta (o almejado triplo-A)  papéis e investimentos financeiros congenitamente insolventes, como era o caso das subprimes e seus derivativos de fragilidade ainda superior.

Investidores e fundos previdenciários que se orientam pelos parâmetros supostamente ‘técnicos’  dos ratings emitidos pela ‘S&P’ empanturraram-se de material tóxico, imaginando-se a salvo da tempestade que já se desenhava no céu.

 ‘(...) “[A S&P] conscientemente e com a intenção de defraudar, participou e executou um esquema para enganar os investidores’ (...)  [passou a falsa ideia de que as suas classificações] “eram objetivas, independentes e não influenciadas por conflitos de interesses”, acusa o documento levado aos tribunais pelo Departamento de Justiça dos EUA, segundo noticiou o New York Times.

Um grupo de 13 municípios australianos abriu processo idêntico  contra a  agencia alegando prejuízos milionários pelas mesmas razões.

Estima-se que se uma única dessas ações fosse consumada, o precedente poderia despejar na ‘S&P’, sobre cujas sentenças recai boa parte das esperanças eleitorais do conservadorismo  brasileiro, ajuizamentos da ordem de US$ 200 bi.

Em 2011, na tentativa algo caricata de recuperar uma credibilidade rastejante, a agencia rebaixou a nota de risco dos EUA.

O tiro saiu pela culatra.

Não faltou quem lembrasse que o rigor de seus técnicos foi muito inferior ao concederem nota A –elevada segurança--  ao banco Lehman Brothers, cuja falência, em setembro de 2008, rompeu o dique da crise mundial.

O endosso da ‘S&P”  à instituição símbolo da ruinosa supremacia das finanças desreguladas foi concedida em agosto, um mês antes da bancarrota.

Desconfia-se que já como parte da desesperada tentativa de continuar empurrando títulos do Lehman na goela dos incautos, como forma de mitigar as perdas dos grandes acionistas, diante da quebra inevitável.

Como corolário da impoluta trajetória ética e técnica recorde-se que o governo norte-americano encontrou um erro de cálculo de ‘apenas’ US$ 2 trilhões nas contas que orientaram a Standard & Poor’s  a rebaixar o rating do país.

Esse é a folha corrida por trás da  missão reverenciada com ansiedade pelo colunismo isento e as candidaturas pró-mercados.

A participação involuntária do governo Dilma  nesse teatro de marionetes merece reflexão à parte.

Não é um problema do economicismo latente do governo –ou da complacência petista com o mercado, como se pode carimbar.

É mais grave que isso.

Decorre da paradoxal restauração de uma ordem iníqua apoiada nas ruínas de seus  próprias dogmas e promessas.

É como se o Muro de Berlim desabasse e nenhuma sola de sapato consumasse a travessia, de um lado e outro.

O dique trincou, mas as águas congelaram diante da fenda.

A autoridade da ‘S&P’ emana dessa correlação de forças inercial cristalizada desde 2008.

Seu poder de chantagem agora se amplia, com a reabertura das  rotas de fuga para as economias ricas, em ziguezagueante processo de recuperação.

De onde vem essa paralisia capaz de transformar a água em sua própria parede?

Vem da impotência anterior da democracia, que a tornou incapaz de renovar a sociedade e o desenvolvimento mesmo em meio a uma crise sistêmica da ordem neoliberal.

Desarmada pelas derrotas anteriores da esquerda, e a adesão de uma parte dela ao cuore neoliberal, o sistema representativo deparou-se com a fenda do dique sem dispor de canais de debate e organização para não só acolher como estruturar um  jorro de vontade  mudancista.

As ruas se encheram de indignação na Espanha, por exemplo.

Mas as urnas elegeriam  Mariano Rajoy, herdeiro da cepa franquista, que calafetou a muralha com uma  taxa de desemprego de 60%  entre a juventude espanhola.

A prostração democrática não é uma fatalidade diante de uma crise sistêmica.

Ela é um produto histórico. De decisões políticas. E  rendições ideológicas.

O campo progressista brasileiro tem nas eleições de outubro um poderoso instrumento para demonstrar que não é necessário que seja assim.

A ‘Standard & Poor’s  desembarca com respaldo dos mercados, da mídia e do conservadorismo não apenas para chantagear o final do governo Dilma.

Mas para engessá-la no palanque de outubro.

No limite,  desossar sua eventual reeleição.

 O que significa frustrar  o desejo mudancista do eleitor brasileiro, majoritariamente associado à sua condução do processo.

Se  a uma organização com os atributos da  ‘S&P’ é facultado o acesso a todas as informações de governo, ademais do tempo requerido de seus principais técnicos e assessores, algo equivalente deve ser feito na direção oposta.

Aquela que fortaleça a democracia, abrindo canais suplementares de participação da sociedade na discussão do passo seguinte do seu desenvolvimento.

O programa de governo da candidata Dilma Rousseff é a ponte entre a prostração democrática que favorece a chantagem dos mercados, e uma repactuação consistente do futuro, feita  de prazos e metas críveis  para a construção da cidadania plena no país.

O programa de governo da reeleição pode e deve ser construído em debate aberto com a sociedade através da rede já existente de sites e blogs progressistas.

O casamento da democracia com o desenvolvimento não acontecerá à margem do poder.

E não há nada mais poderoso do que uma plataforma de governo sedimentada em debate amplo, convergindo para círculos  e conferencias  presenciais da militância progressista.

Ilusão não é erguer pontes que materializem o horizonte de uma democracia social.

Ilusão é achar que ela pode ser construída sem essas pontes.

Ou escorada exclusivamente na busca de anuência da  ‘Standard & Poor’s’  para as contas do país.

sexta-feira, 7 de março de 2014

O “milagre maligno” da Globo: quanto menos você vê, mais ela tira de você.

controle
O jornalista Paulo Nogueira, do Diário do Centro do Mundo, com a autoridade de quem, como profissional de imprensa, trabalhou conheceu por dentro o império, descreve, como é que as Organizações Globo controlam a vida brasileira.
O “quarto poder”, se sempre alinhou, mundo afora, políticos e governantes, legislativos e executivos.
Mas o Judiciário, em geral, sempre manteve ao menos a liturgia do agastamento destes conglomerados.
As formas que a Globo usou para assumir controles sobre a Justiça são a forma que a Globo usa para tudo: poder e dinheiro.
E poder e dinheiro forma um processo que se retroalimenta.
E que ajuda Paulo Nogueira a mostrar como, com uma audiênca em queda, o impe´rio Global controla uma fatia muito superior das verbas publicitárias que mereceria – para usar a expressão de Helena Chagas – por uma “mídia técnica”.

O controle-remoto pelo qual a  Globo comanda o Brasil

Paulo Nogueira
Roberto Marinho foi um gênio, há que reconhecer.
Mas um gênio do mal.
Sua maior obra foi montar um esquema inviolável de manipulação dos poderes no Brasil.
As emissoras afiliadas, entregues a políticos amigos, como Sarney e ACM, garantiram que no Congresso a Globo jamais seria questionada seriamente.
Já sem ele, a obra de controle foi estendida à Justiça pelo Instituto Innovare, do qual falei aqui outro dia.
Na fachada, o Innovare premia anualmente práticas inovadoras no judiciário em cerimônias às quais comparecem os juízes mais poderosos do país, notadamente os do Supremo.
A aproximação, neste processo, dos Marinhos com os juízes  é uma aberração do ponto de vista ético e uma agressão ao interesse público, dados os interesses econômicos da Globo.
Contar com juízes amigos é bom para a Globo e ruim para a sociedade.
Um dia Gilmar Mendes, por exemplo, terá que explicar por que concedeu habeas corpus a uma funcionária da Receita flagrada tentando fazer desaparecer os documentos da célebre sonegação – trapaça é a melhor palavra – da Globo na Copa de 2002.
Uma passagem anedótica do Innovare junta Roberto Irineu Marinho, presidente da Globo, e o juiz Cesar Asfor Rocha. Uma foto registra um abraço cordial entre ambos numa premiação. Rocha  presidia o STJ e era cotado para uma vaga no STF, na gestão Lula. Acontece que chegou a Lula uma história segundo a qual Rocha pegara uma propina para favorecer uma empresa  num julgamento.
O mais curioso é que Rocha acabou votando contra quem lhe deu “uma mala de dinheiro”, segundo gente próxima de Lula. Investigado ele não foi —  nem pela Globo, nem pela Polícia Federal, nem por ninguém. Mas, se manteve a alegada bolsa, perdeu a indicação. Rocha, sem problema nenhum com a Justiça depois da denúncia, acabaria decidindo voltar depois para a advocacia.
A melhor prática para a Justiça é absoluta distância da plutocracia para que possa decidir causas com isenção e honestidade. (Investigar juízes acusados de pegar uma mala de dinheiro também vai bem.)
O Innovare é a negação disso.
Que políticos frequentem barões da mídia é lamentável, mas comum mesmo em democracias avançadas como a Inglaterra.
Nos últimos 30 anos, na Inglaterra, Rupert Murdoch – o Roberto Marinho da mídia britânica — foi procurado e bajulado por líderes conservadores e trabalhistas, indistintamente. (Um deles, Tony Blair, acabou estendendo a proximidade para a jovem mulher chinesa de Murdoch, com a qual teve um caso que levaria ao divórcio de Murdoch.)
Mas se juízes frequentassem Murdoch uma fronteira seria transposta. Jamais aconteceu. O juiz Brian Leveson não poderia conduzir as discussões sobre novas regras para a mídia inglesa se privasse com Murdoch.
Isto é óbvio, mas o poder prolongado da Globo a deixou de guarda baixa quando se trata de preservar a própria reputação.
O Innovare é um escândalo em si. E uma inutilidade monumental em seu propósito de fachada: melhorar a Justiça brasileira.
São dez anos de atividade. Quem poderá dizer que a justiça brasileira melhorou alguma coisa com o Innovare?
A Globo tem nas mãos como que um controle remoto com o qual comanda as coisas que lhe são essenciais no Brasil.
No futebol, um negócio de alguns bilhões por ano, a Globo teleguiou durante décadas os homens fortes da CBF, Havelange primeiro e depois Ricardo Teixeira.
‘Teleguiar” significou dar propinas, ou eufemisticamente, “comissões”. O Estadão mergulhou num caso que está na justiça suíça, relativo à Fifa. E escreveu numa reportagem: “Havelange recebeu propinas de uma empresa para garantir o contrato de transmissão do Mundial de 2002 para o mercado brasileiro.”
Quem transmitiu? E que jornal ou revista investigou o caso? A Veja não se gabava tanto de seu poder investigativo? Ou só vale para seus inimigos?
A mesma lógica de ocupação manipuladora a Globo promoveu em sua fonte de receita – a publicidade.
Nos últimos dez anos, a Globo perdeu um terço da audiência, em parte pela ruindade de sua programação, em parte pelo avanço da internet.
Mesmo assim, sua receita publicitária não parou de subir. Há uma aberração no Brasil: com 20% do bolo de audiência, medido pelo Ibope, a Globo tem 60% do dinheiro arrecadado com publicidade.
Ganhar mais publicidade com menos público é façanha para poucos.
O milagre, ou truque, se chama Bônus Por Volume, o infame BV. Basicamente, quanto mais uma agência veícula na Globo, mais recebe.
Meu amigo Jairo Leal, antigo presidente da Abril, me disse que muitas agências simplesmente quebrariam se não fosse o dinheiro do BV.
É claro que uma hora o anunciante vai se incomodar com o dinheiro excessivo posto numa emissora que perde, perde e ainda perde espectadores.
Mas até lá você – em boa parte graças ao BV – vai ver os Marinhos no topo dos bilionários do Brasil.

30 anos de Passarela. A “Ministra do Vai dar M…” e que fez não dar…

marthabrizdarcy
O Facebook deu-me a oportunidade de reparar – parcialmente, porque a omissão foi imperdoável – um pedaço da história que contei sobre os 30 anos da Passarela do Samba.
Não citei a comandante do Incrível Exército de Brancaleone da Comunicação e Correlatos, porque tudo ia acabar na área de imprensa.
Nesta tropa, eu, orgulhosamente, era soldado raso.
A jornalista Martha Alencar, Coordenadora de Comunicação do Governo do Estado, nos três anos  iniciais do primeiro Governo Brizola.
E que ninguém pense que a tarefa insana dos 110 dias do Sambódromo acabou na Quarta-Feira, porque a mesma sanha furiosa era todos os dias, sobre os Cieps, sobre o Cada Família, um Lote, sobre a Fábrica de Escolas, sobre tudo e sobre qualquer coisa.
Marta – a quem só “vi”, nos últimos tempos, num programa radiofônico em que lembramos Brizola – é uma figura essencial naquele período – e em outros – de aventura generosa de nossas vidas.
Paciente, contida, enérgica quando algo é  importante, e “sai-de-baixo” quando não tem outro jeito, é uma pessoa a quem devo muito do aprendizado daqueles anos.
Das lembranças daqueles dias, narradas por Martha, só tenho a dizer aos que não viram e não vêem as coisas serem assim: é tudo verdade!
Eu sei que todo mundo diz isso, mas fazer o quê? É tão inacreditável, mesmo…

Trinta anos esta noite!

Martha Alencar
A Rita, como sempre revirando as imagens do passado, trouxe para o Face o flagrante quase bucólico: há trinta anos eu pareço flanar no cenário do sambódromo em mais um dos 110 dias de construção. 
Tão afável, tão gentil com a imprensa, a Coordenadora de Comunicação estava se armando com unhas e dentes para a inauguração e a implantação da Passarela do Samba , uma verdadeira operação de guerra comandada por Darcy e Brizola. 
Deu no Globo ! Deu no JB ! Deu no Swan! Extra! Extra! Não vai ficar pronta! As arquibancadas vão desabar! As credenciais vão ser falsificadas ! Vai ser um prejuízo, quem vai pagar ? O samba vai atravessar !
A cada golpe, um contragolpe. O Globo publica a foto da arquibancada com uma rachadura? Montamos um espetacular teste de resistência das arquibancadas e convocamos a imprensa. A Globo não vai transmitir? Tem a Manchete. Vai ter derrame de ingressos falsificados? Chama–se uma auditoria internacional para a impressão e emissão de ingressos. 
Às vésperas do desfile ocupamos as trincheiras como se estivéssemos no delta do Mekong. Secretários de Estado chegaram a carregar caixas de papelão com material de limpeza para distribuir às equipes . Afinal, banheiros sujos rendem manchetes…. Eu que era uma espécie de ministro do “vai dar merda” fiz a maior quilometragem da minha vida, virando redondo dois dias seguidos, resgatando em qualquer ponto da passarela algum jornalista, fotógrafo ou repórter, ou estagiário, ou cabo-man que se queixasse de alguma obstrução ao livre-trânsito. Já pensou a manchete ???? Vai dar merda, manda a Martha correr lá!
Na grande noite de encerramento o nosso exército Brancaleone sabia que havíamos vencido a guerra. Depois de tentar dar ordem à invasão de câmeras e jornalistas que se equilibravam no alto do arco da Praça da Apoteose para registrar a imagem de Darcy Ribeiro e Brizola sorridentes e bêbados de felicidade, larguei tudo com a sensação de dever cumprido e finalmente acompanhei a minha Mangueira fazendo a histórica volta pelo arco da Apoteose para encantar a avenida.
O samba não atravessou, a arquibancada não caiu, enfim, não deu merda. Hoje a Mangueira vai passar e nem sei quantos coroas no meio da multidão vão lembrar de Darcy Ribeiro e Brizola.
Trinta anos depois , gosto de lembrar e sinto falta, não da minha juventude na época, mas da fé inabalável que a gente tinha naquele projeto para o Rio e para o Brasil.