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terça-feira, 17 de junho de 2014

A 'turma dos anos 90' e a pigarra da história

O maior desafio de Aécio Neves reside naquilo que fez a convenção do PSDB parecer uma daquelas tertúlias de aposentados gabolas.

por: Saul Leblon

Divulgação













A convenção do PSDB  que oficializou  Aécio Neves como candidato  tucano, no último sábado, foi tão marcante que o  principal destaque ficou por conta do que não houve.
 
O partido adiou, mais uma vez,  o anúncio do  vice em sua chapa.
 
A 19 dias de esgotar o prazo para o registro das candidaturas, o problema de Aécio é saber quem desagrega menos.
 
Não é uma escolha  fácil.
 
O repertório vai  de um impoluto Paulinho ‘Boca’, da Força Sindical,  ao demo Agripino Maia, ou talvez o híbrido de  pavão e tucano, Tasso Jereissati , ambos, como se sabe, referências  de enorme apelo popular. Correndo  por fora, a opção puro sangue,  Aécio – Serra, reúne afinidades  equivalentes  à convergência entre o  fósforo e a pólvora.
 
O dilema não é novo no PSDB. O  ex-governador  José Serra viveu problema semelhante em 2010.
 
A indecisão quanto ao nome que o acompanharia na derrota para Dilma  começou justamente quando  Aécio tirou o corpo fora, recusando a vaga que hoje oferece ao rival.
 
Sem opções que agregassem voto, tempo de TV ou base no Congresso (caso, pelo menos, do marmóreo vice de Dilma, o pemedebista Michel Temer), Serra postergou a decisão até o limite final, para então protagonizar  o abraço de afogado com um jovem demo.
 
Tal qual emergiu, Índio da Costa (DEM-RJ) submergiria  para a eternidade do anonimato após a derrota.
 
A dificuldade com o vice é sintomática da representatividade dos aliados.
 
Mas não é o principal obstáculo  para ampliar o teto da candidatura conservadora.
 
Passada a fase alegre da postulação interna contra rivais destroçados,  Aécio  terá que dizer ao país a que veio.
 
Seu maior desafio  reside naquilo que fez  a convenção de sábado  parecer uma daquelas tertúlias típicas de  aposentados   gabolas.
 
O celofane da mocidade mineira talvez seja insuficiente para conter o cheiro de naftalina que irradia das imagens  sempre que a ‘turma dos anos 90’, integrada por Serra, FHC, Pimenta da Veiga, Agripino e assemelhados  se junta para renovar o formol do velho projeto.
 
Por mais que a palavra mudança seja evocada por entre cenhos franzidos, comissuras enérgicas e punhos  erguidos, não cola.
 
Não há pastilha Valda que conserte a pigarra da história.
 
A  esperança em um futuro crível  para a economia e a sociedade  é incompatível com a regressão  apregoada pelos defensores de um modelo  que, a rigor,  não dispõe mais de força nem de consentimento para se repetir.
 
Para entender o porquê  é preciso enxergar os ingredientes que fizeram o fastígio da hegemonia neoliberal no final do século XX.
 
A saber.
 
Três décadas de arrocho sobre o rendimento do trabalho nas principais economias ricas, facilitado pela ascensão industrial chinesa; um contrapeso de crédito farto ao consumo  –e em muitos casos, irresponsável, como se viu na gota d’água das subprimes e, finalmente, por sobre o conjunto, uma untuosa camada de mimos tributários que rechearam os cofres dos endinheirados , contribuindo para a superliquidez  que caracterizou a praça mundial  durante décadas.
 
Foi sobre essa base de Estado mínimo com desonerações para os ricos, renda e trabalho esfacelados, que se deu o auge e o colapso do modelo. Um movimento inscrito dentro do outro, como em uma sinfonia.
 
O arranjo  só não desafinou  antes, repita-se, graças à válvula de escape de endividamento maciço de Estados e famílias, propiciado pela desregulação  que liberou a banca de controles e permitiu a lambança do crédito lastreado em derivativos tóxicos.
 
Era tanto dinheiro que permitia viver hoje como se não houvesse amanhã.
 
Em vez de salários e direitos, créditos sobre créditos para famílias quebradas.
 
Em vez de arrecadar  mais dos ricos, tomar  emprestado deles  na  forma de endividamento público, para suprir a anemia fiscal de Estados obrigados a dar conta de  serviços não lucrativos, por isso não privatizados.
 
O endividamento público lubrificado, no caso brasileiro,  por um juro real superior a 10% ao ano durante o ciclo do PSDB (hoje é de 5%), supria os cofres dos governos  e alegrava o rentismo.
 
 A tentativa atual de 'limpar’  a implosão do modelo removendo apenas seus ‘excessos  na ponta do crédito  resulta no filme de terror  em cartaz na Europa.
 
Preservar  para cima, com arrocho para baixo, associando à seca do crédito cortes sobre direitos e salários, ademais da retração do emprego, significa  uma carnificina econômica e social.
 
No caso brasileiro há  o inconveniente adicional de que  –nos marcos do regime democrático--   essa operação  talvez não seja mais viável depois de 12 anos de governos do PT.
 
A ‘mensagem mudancista ‘  de Aécio está visivelmente emparedada nessa encruzilhada.
 
De um lado, ele precisa atender o camarote vip que encarna e que o patrocina.
 
Engajados em uma cruzada de preconceito belicoso  contra  Dilma e o PT, os endinheirados exigem compromissos com medidas  heroicas .
 
Aquelas que Aécio prometeu tomar  --‘se der, no primeiro dia’, como afirmou  às papilas empresariais famintas, reunidas  num regabofe na casa do animador de eventos, João Dória Jr, (conforme a Folha 02/04).
 
A esperança  conservadora é a de que a baixa atividade decorrente de uma paulada imediata no juro, com consequente recuo do crédito e compressão  do salários real,  devolva  a  senzala ao seu lugar.
 
E o país aos bons tempos.
 
O trânsito ficaria menos carregado; os aeroportos recuperariam o velho charme .
 
Não só.
 
Um desemprego ‘funcional’  de 12,5%, como no ciclo do PSDB (hoje é da ordem de 5%), estalaria a chibata da redução do custo Brasil nas costas de quem tem 500 anos de familiaridade com o assunto.
 
Mais quatro anos, que diferença faz?
 
Novidades  no front sugerem talvez não seja tão simples assim rodar  o modelo original  no azeite do arrocho.
 
Um Brasil formado por dezenas de milhões de famílias antes apartadas na soleira da porta, do lado de fora do país,  agora cobra  a sua vaga no mercado e na cidadania.
 
No seleto clube  do juro alto  essa gente figura como estorvo.
 
No ciclo de governos do PT o estorvo tomou gosto da mobilidade social.
 
No cálculo político do candidato tucano a precaução recomenda que não se diga em público aquilo que se afirma na casa do animador do ‘Cansei’, Dória Jr.
 
Instala-se assim um malabarismo de alto risco no picadeiro do circo conservador.
 
Aécio, ora assume  o estereótipo  de mineirinho afável, ora  tenta distrair  a plateia acusando  pecadores com o fogo dos savonarolas  de passado inflamável.
 
Enquanto isso, operadores de mercado que o representam  costuram  o peru recheado de arrocho servido nos regabofes  da plutocracia insaciável.
 
O principal personagem  dessas tertúlias é Armínio Fraga, espécie de ‘é com esse que eu vou lucrar até cair no chão’ da nação rentista.
 
O  prestígio não é obra do acaso.
 
Armínio carrega no currículo o feito de ter elevado a taxa de juro brasileira de 25% para  45%, em março de 1999.
 
O colosso se deu  quando esse quadro reconhecido como ‘nosso homem no Brasil’  pela alta finança  internacional  –Timothy Gartner, ex-secretário do Tesouro americano, sugeriu o seu nome a Obama para presidir  o Fed -- assumiu a presidência do BC brasileiro, no governo Fernando Henrique Cardoso.
 
Em declarações para o público mais amplo,  Armínio, que também possui cidadania americana, procura demonstrar serenidade e comedimento. Veste o figurino do Aécio afável e apregoa um caminho gradual, ‘sem choque’, para  recolocar as coisas nos eixos.
 
Nas entrelinhas do comedimento, porém,  ressoa o  ‘matador dos mercados’, que parece falar diretamente ao camarote vip do ‘Itaquerão’.
 
Na hipótese de uma extrema eficiência na lavagem cerebral  promovida pela mídia, a ‘turma dos 90’ pode até vencer em outubro.
 
Mas conseguiria governar emparedada nesse duplo torniquete,  entre o compromisso com a alta finança, de um lado, e a pressão ascendente de um Brasil que tomou gosto pela cidadania, de outro? 
 
Confira, abaixo, trechos das dubitativas respostas de  Armínio , em entrevista ao Valor, nesta 2ª feira:
 
Sobre baixar  a meta da inflação (leia-se, sobre o  tamanho da paulada nos juros num eventual governo tucano):

‘Tem que ter uma sequência. Primeiro, chegar a uma situação de preços normais, não tabelados, não reprimidos, levar essa inflação para a meta e, depois, decidir o que fazer. Acho que a meta deveria cair um pouco e lentamente...Vamos ter que tirar o remédio do paciente, que está dopado.

Sobre a conveniência de Aécio dizer que está pronto para tomar  ‘medidas impopulares’

'Sincericídio', acho que não. É um pouco de 'honesticídio', isso sim. Temos que cair na real: as coisas não estão dando certo.

Sobre o futuro dos salários num governo tucano.

 Acho os salários no Brasil ridiculamente baixos porque o Brasil é um povo pouco educado e pouco produtivo. Por isso é que os salários aqui correspondem a 20% dos salários dos países ricos. Há algumas áreas que ganham salários parecidos, mas o salário médio aqui é muito baixo porque somos um país pobre. E por que somos pobres? Porque o país não está crescendo. O salário tem que guardar alguma relação com a produtividade. Isso está nas atas do Copom e nas melhores cabeças que estão no governo. O país não está crescendo, caia na real! Qualquer coisa que eu diga vão interpretar como arrocho enquanto o arrocho já está aí, está sendo feito pela inflação.

Sobre a fuga de capitais que estaria em curso no país enquanto o investimento privado vive uma greve branca.

 O brasileiro gosta do seu país, gosta de morar aqui, de investir aqui. Mas o grau de incerteza hoje é tal que as pessoas estão pensando em investir fora do Brasil, estão pensando até em sair do Brasil. Há um medo que vai além da economia, é medo político também. Há uma sensação de medo que as pessoas não têm coragem de manifestar abertamente. Medo de uma atitude contra a liberdade de imprensa, contra a democracia.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Do 1% por 1% para o 1%. EUA, a obra-prima neoliberal



O gordo e furioso pode ter a melhor casa, mas seu destino depende dos 99%

Clique aqui para ver o vídeo em que Stiglitz trata dessa democracia neoliberal: a do 1%, que tem pavor de povão.

O amigo navegante Luiz Felipe recomenda a leitura de artigo de Joseph Stglitz, na revista americana Vanity Fair:

Of the 1%, by the 1%, for the 1% | Society | Vanity Fair

É sobre a obra-prima neoliberal:

“Desigualdade – os americanos assistem hoje a protestos contra regimes ditatoriais que concentraram uma enorme quantidade de riqueza nas mãos de uma elite reduzida. Porém, em nossa democracia, um por cento da população fica com 40% da renda da nação – uma desigualdade de que os próprios milionários um dia se arrependerão.”

“Enquanto a renda do 1% subiu 18% na última década, a renda da classe média – homens que não entraram na faculdade – caiu num precipício: menos 12% nos últimos 25 anos.

“Todo o crescimento econômico das últimas décadas (Bush I – Clinton – Bush II (PHA) ) se concentrou nas mãos dos que estão no topo da pirâmide.”

“A distribuição de renda dos Estados Unidos hoje se parece muito com países que o Presidente Bush desprezava, como a Rússia, e a oligarquia do Irã.”

“Enquanto antigos centros de desigualdade na América Latina, COMO O BRASIL (ênfase minha – PHA) lutaram e tiveram sucesso na luta para melhorar a vida dos pobres e reduzir a distância entre ricos e pobres, a América permitiu que a desigualdade prosperasse.”






Navalha

Portanto, amigo navegante, quando os corifeus brasileiros do neoliberalimso – de FHC à urubóloga – falarem em “reduzir o papel do Estado”, “sufocante carga tributária”, “Bolsa Vagabundagem”, “o ENEM não presta”, “o PAC empacou”, “não vai ter nem bola de futebol para realizar a Copa”, “China, vade retro !”, “Lula inchou a máquina do Estado” (clique aqui para ler o que Mauricio Dias disse sobre o assunto), ponha Pixinguinha para tocar e divirta-se !
Paulo Henrique Amorim

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Debate: Ponto alto da Dilma foi nos 12 metros escavados nos portos



por Luiz Carlos Azenha
Uma amiga ligou durante o debate da Band. Foi para comentar o que considerou o ponto alto de Dilma: a demonstração de conhecimento técnico dado pela candidata governista quando falou na necessidade de escavar 12 metros para permitir a ancoragem de navios nos portos brasileiros e o fato de que, durante o governo FHC/Serra, isso era feito de forma inconsistente.
De fato, este talvez tenha sido um dos pontos altos de Dilma. A demonstração de conhecimento técnico. Também foi importante ela ter explicado o “processo” de aprovação dos projetos do programa Minha Casa Minha Vida. Serra argumentou que o programa entregou menos casas que o prometido, mas enfraqueceu seu próprio argumento dizendo ter entregue, quando governador, um número menor de casas!
Outro ponto alto foi quando Dilma relacionou as dificuldades nos aeroportos ao crescimento do número de brasileiros que viajam de avião. Isso faz pleno sentido para os telespectadores. Foi importante lembrar que exigencias do Fundo Monetário Internacional (FMI), aos quais estava submetido o governo FHC/Serra, reduziram o ritmo de investimento na infraestrutura do Brasil. Faltou, no entanto, uma amarração mais sólida deste conjunto de ideias: submissão ao FMI, menos investimento em infraestrutura; soberania em relação ao FMI, reconquista do poder de investimento do estado,crescimento econômico acelerado, gargalos da infraestrutura que estão sendo enfrentados.
É importante mencionar que a reorganização do estado brasileiro, que estava desmilinguido no período FHC/Serra, é que permite retomar a capacidade de planejamento, para que o governo não fique “correndo atrás”. Essa reorganização passa pelos concursos públicos, por melhores salários, por aquilo que Serra e aliados identificam como “inchaço da máquina pública” ou “vagas para companheiros”. Em uma questão não relacionada a esta, a do Ministério da Segurança, Dilma tocou nos salários de policiais e delegados paulistas, mas não usou o slogan PSDB, “piores salários do Brasil”, criado pelos próprios policiais. Ainda na questão do ministério, tanto Dilma quanto Serra usaram argumentos toscos para falar em fiscalização da fronteira.
Nem aviões não tripulados, nem “milhares” de policiais dão conta de guardar uma fronteira de 8 mil quilômetros. É um completo absurdo. Perguntem ao Wálter Maierovitch. O que é preciso nas regiões fronteiriças são forças-tarefa que usem inteligência para monitorar a infraestrutura urbana, onde se organizam as quadrilhas que fazem tráfico de armas e drogas. As quadrilhas se organizam nas cidades de fronteira, alugam e compram automóveis, compram imóveis e fazem transações bancárias de grandes quantias. Vender a ideia de que é possível ocupar fisicamente as fronteiras é um absurdo! Aqui, Dilma poderia ter falado no fortalecimento da Polícia Federal, que se deu em todo o Brasil, mas especialmente na Amazônia. E retomar a questão da reorganização do estado brasileiro, dos concursos públicos, etc.
Infelizmente, os dois candidatos não falaram na necessidade de reaparelhamento das Forças Armadas, nem tocaram na questão espinhosa que é deslocar contingentes militares das praias maravilhosas do Sudeste para as regiões de fronteira terrestre.
Na questão das estradas, que Dilma evitou, é pertinente deixar claro que existem dois modelos de pedágios — o adotado por São Paulo e o adotado pelo governo federal.
O debate das privatizações é favorável se estiver conectado aos temas dos quais tratei acima: o modelo FHC/Serra, essencialmente privatizador, enfraqueceu o estado brasileiro e, portanto, a capacidade de investir e de planejar o futuro. Muitas das carências atuais do Brasil ainda resultam disso.
A candidata governista fez uma boa conexão entre pré-sal e futuros investimentos, mas “educação de qualidade” é um termo vago.  Faltou falar na taxa de nacionalização das plataformas de exploração de petróleo e da indústria naval. Faltou estabelecer um nexo entre educação de qualidade, ambientalismo e soberania nacional. É disso que querem ouvir falar os jovens de classe média urbana: qual será o futuro para eles?
Não adianta mencionar apenas a dúzia de universidades construídas pelo governo Lula, contra zero de FHC, mas conectá-las ao futuro: é nelas, presumo, que o Brasil pretende construir conhecimento e desenvolver as tecnologias para fazer as máquinas que hoje importa. É nas universidades e nos centros de pesquisa da Amazônia que o Brasil vai desenvolver a biotecnologia para explorar sem destruir a riqueza de nossa biodiversidade. É no Instituto Internacional de Neurociência de Natal, dos drs. Miguel Nicolelis e Sidarta Ribeiro, que faremos pesquisa de ponta no setor.
Os pontos altos de Serra no debate:
1. Quando Dilma não respondeu sobre a questão dos genéricos;
2. Quando ele disse que tinha como aliados dois presidentes, FHC e Itamar, contra Sarney e Collor.
Concordo com meu colega Rodrigo Vianna: o debate tirou a candidata governista da defensiva, colou em Serra a pecha de difamador — incapaz de defender a própria esposa — e de privatista. Além disso, levantou dúvidas sobre as promessas de continuidade dos programas do governo Lula, ao confrontá-lo com a promessa não cumprida, em papel timbrado da Folha — que ironia! — de que não deixaria a Prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo paulista, em 2006.
A tal ponto que, em suas considerações finais, Serra prometeu ampliar todos os programas do governo Lula: ou seja, “eu sou o lulismo”. Na entrevista que se seguiu ao debate, ele correu para dizer que pretende “reestatizar” todas as empresas públicas.
Além disso, Dilma se descolou positivamente de Lula. Demonstrou firmeza e autonomia. Soou falsa a acusação de Serra de que Dilma teria sido “treinada” de forma eficaz. Aqui, Dilma perdeu uma oportunidade de ouro, que surgirá naturalmente nos próximos debates: mencionar a condescendência de Serra com a candidata e, portanto, com as mulheres. Será que ele não acredita em mulheres autônomas, independentes, donas de seus narizes?
Debate não ganha eleição e é óbvio que os quatro grandes grupos midiáticos — Organizações Globo, Folha, Abril e Estadão — vão fazer a leitura que for conveniente para José Serra.
A candidata governista demonstra crescente domínio das técnicas do debate e pode chegar ao confronto que realmente interessa, o da Globo, equilibrando firmeza com conhecimento técnico, visão de conjunto com preocupações sociais.
Mas o importante é que a campanha de Dilma deixou claro que pode usar os debates para trazer à tona todos os assuntos relativos ao adversário que a grande mídia esconde, criando uma clivagem entre as redações e o público leitor, ouvinte e telespectador.
Isso é sinal de que a candidata governista colocará em seu programa eleitoral gratuito as declarações de aliados de Serra — e da mulher do candidato — equiparando o Bolsa Família a uma Bolsa Esmola? Seria a bomba atômica, especialmente para os eleitores do Nordeste.
A ver.
PS do Viomundo: As enquetes não científicas da grande mídia estão viciadas pela trollagem organizada pela campanha de Serra!

Os anos FHC e a morte da alma nacional



Neste momento em que se discute o futuro do Brasil e que o país está colocado diante de dois caminhos, a Carta Maior relembra a obra de um grande brasileiro, o jornalista Aloysio Biondi, que, durante a década de 90, foi uma das raras vozes a se levantar contra a abertura econômica sem freios e a condução das privatizações pelo governo Fernando Henrique Cardoso. No primeiro artigo desta série, Biondi escreve sobre como FHC não destruiu apenas a economia nacional, tornando-a dependente do exterior. "Seu crime mais hediondo foi destruir a Alma Nacional, o sonho coletivo. Com o jogo perverso de estimular a busca de pretensas vantagens individuais, o governo FHC destruiu a busca de objetivos coletivos".
(*) Artigo publicado na revista Bundas, em 7 de agosto de 1999

Para conhecer a vida e a obra de Aloysio Biondi

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Reverencialmente, peço licença ao mestre Celso Furtado para repeti-lo: 

“Nunca estivemos tão longe do país com que sonhamos um dia”.

Uma pequena frase. Capaz, porém, de detonar um turbilhão de lembranças, das emoções e expectativas, dos dias em que o Brasil era um país e tinha sonhos. Um povo que sonhava virar Povo. Estudantes, intelectuais, empresários, trabalhadores, agricultores, classe média envolvidos no debate pelo desenvolvimento, conscientes, todos, de que havia um preço a pagar, resistências a enfrentar. Inimigos, interesses externos a vencer. Um país com alma, sonhos. 

Durante 40 anos, 45 anos, houve crises de todos os tipos. Mas havia o amanhã, a promessa do amanhã. A busca do amanhã. Um lugar no mundo. Na década de 50, com a economia resumida praticamente ao café, açúcar, algodão e outros produtos agrícolas, o país lançou-se à loucura de buscar a industrialização. Sem dólares para importar máquinas e equipamentos, pois os preços dos produtos agrícolas estavam de lastros no mercado mundial, estrangulando países pobres como o Brasil. Mesmo assim, o país ousou. Era a época em que os intelectuais e formadores de opinião escreviam livros, artigos, teses sobre e contra as políticas de estrangulamento que os países ricos impunham a países como o Brasil. Ou faziam músicas, peças teatrais, filmes sobre a realidade brasileira. Reforçavam a alma brasileira. O sonho realizável. Será que dona Ruth Cardoso se lembra disso? 

Chegou a década de 60, e com ela o golpe militar inspirado pelos EUA, desvios de rota que, no entanto, não conseguiram enterrar de vez os sonhos de construção de um país... A alma nacional resistia. Veio a crise do petróleo, no começo dos anos 70, e o país, que produzia 130 mil barris por dia, mergulhou novamente no abismo da falta de dólares, na recessão, no avanço da miséria. Um país “quebrado”, com total falta de dólares, mas que insistia em sonhar com um amanhã.

Em nome desse sonho, novamente, a população pagou a conta. O governo contraiu dívidas fabulosas, criou impostos, apertou o cinto e o crânio dos brasileiros, para canalizar o dinheiro disponível, dos impostos ou empréstimos, para montar indústrias capazes de fornecer produtos que ainda eram importados, de aço a alumínio, de celulose a petroquímicos, de máquinas a sistemas de telecomunicações. Substituir importações para economizar dólares, necessários para a compra do petróleo, ainda não descoberto em grande escala no território brasileiro. 

Para atender a todas essas novas indústrias, era preciso também construir usinas, as Itaipus, rodovias, ferrovias (o Brasil chegou a produzir 5.000 vagões por ano, com encomendas do governo), sistemas de telecomunicações. Mais aperto de cinto, mais impostos, menos dinheiro para as questões sociais, nunca esquecidas nem mesmo nos debates e escritos dos economistas, ou de empresários. Mas havia a esperança do amanhã. O sonho, de que fala mestre Furtado, de um país economicamente forte, exatamente por dispor de todos os recursos naturais para isso, mas também capaz, ao atingir esse estágio, de maior justiça social, de extinção da miséria. Habitado por um Povo. Orgulhoso de si. Solidário, porque se reconhecendo no outro.

No começo dos anos 90, o sonho estava ao alcance da mão, o amanhã chegava. O Brasil conquistara uma posição entre as dez maiores economias do mundo. Melhor ainda: o Brasil nadava em dólares, porque era capaz de realizar exportações muito maiores do que as importações. Poucos se lembram disso hoje, mas o Brasil tinha um dos maiores saldos comerciais positivos (exportações menos importações) do mundo, na casa dos 10 a 15 bilhões de dólares por ano. Tinha dólares seus, não precisava mais de empréstimos ou de capital das multinacionais para realizar investimentos e manter a economia em expansão, para criação de empregos e solução dos problemas do seu povo. Foi ontem, e está tudo tão distante. 

A serviço de outros países, o governo escancarou o mercado às importações e às multinacionais. Feiticeiros malditos transformaram o saldo positivo da balança comercial em um “rombo” permanente, deram vantagens na cobrança de impostos sobre a remessa de juros e de lucros estimulando o envio de dólares para o exterior, elevaram os juros para cobrir os rombos criados, “quebraram” assim a União, Estados, Municípios. Destruíram a indústria e a agricultura. Em cinco ou seis anos, clones malditos dos intelectuais de ontem destruíram o que havia sido construído ao longo de décadas. Destruíram mais. Destruíram o sonho, a Alma Nacional.

O que somos hoje? Um quintal dos países ricos? Não. Somos um curral. Bovinos ruminando babosamente enquanto o vizinho do lado, o trabalhador, o funcionário público, o aposentado, o agricultor, o empresário, todos, um a um, são arrastados para o grande matadouro em que o país se transformou, com suas mil formas de abate como o desemprego, os cortes na aposentadoria, as falsas reformas do funcionalismo, a falência, as importações. Bovinos ruminando no curral, enquanto empresas de todos os portes são engolidas por grupos estrangeiros e até o petróleo, ou os campos mais fabulosos de petróleo do mundo, com poços capazes de produzir 10.000 (dez mil) barris por dia, em um único poço, são entregues a preço simbólico às multinacionais.

Em cinco anos, o governo Fernando Henrique Cardoso não destruiu apenas a economia nacional, tornando-a dependente do exterior. Seu crime mais hediondo foi destruir a Alma Nacional, o sonho coletivo. Para isso, e com a ajuda dos meios de comunicação, jogou o consumidor contra os empresários nacionais, “esses aproveitadores”; o contribuinte contra os funcionários públicos, “esses marajás”; o pobre contra os agricultores, “esses caloteiros”; a opinião pública contra os aposentados, ”esses vagabundos”. 

No governo FHC, o brasileiro foi levado a esquecer que, em qualquer país do mundo, a sociedade só pode funcionar com base em objetivos que atendam aos interesses, necessidades de todos – ou, mais claramente, não se pode por exemplo ter uma política de importação indiscriminada, a pretexto de beneficiar o consumidor, sem provocar desemprego e quebra de empresas. Ou, a longo prazo, desemprego generalizado.

Com o jogo perverso de estimular a busca de pretensas vantagens individuais, o governo FHC destruiu a busca de objetivos coletivos. Destruiu a Alma Nacional, o Projeto Nacional. A violenta desnacionalização sofrida pelo Brasil, em sua economia, vai eternizar a remessa de lucros, dividendos, juros para o exterior. Isto é, vai torná-lo totalmente dependente da boa vontade dos governos de países ricos em fornecer dólares e, portanto, de ordens e autorizações desses governos de países ricos. Uma espécie de colônia, mesmo, como alertou o economista Celso Furtado em palestra que ele encerrou com sua frase, arrasadora para quem viveu o Brasil de 50 para cá, “nunca estivemos tão distante do Brasil com que um dia sonhamos”. 

Mesmo sem tê-lo consultado a respeito, uma sugestão: escreva a frase de Furtado em um pedaço de papel, e a releia todos os dias. Ou faça decalques com ela. Sugira que seus amigos façam o mesmo.

E comece a agir. Ainda há tempo de ressuscitar a Alma Nacional, antes que o Brasil vire colônia.