Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Talvez você seja um experimento de Popper. Talvez a Raquel de “Blade Runner”

Praça Tahrir, Egito e a Primavera Árabe
(11/2/2013)
Quando ocorreram as trágicas, (agora sabemos devido ao retrocesso e condenações à morte) jornadas da primavera árabe, fui tomada por um senso de déjà vu, confesso.
Durante minha estada na Europa, tive a oportunidade de conviver com vários ucranianos e outros imigrantes, seja em instituições de ensino ou ajuda humanitária. Perguntados sobre a vida em seu país, reportavam-me uma realidade dura e as novidades no lado da União Europeia (UE) eram consideradas a certeza de uma vida melhor. 
Já em 2012, uma pesquisa revelava que 80% dos imigrantes ucranianos eram mulheres envolvidas em trabalho doméstico, um fenômeno recente se comparado aos países da área.
As ucranianas que conheci faziam tarefas como cidadãs de “segunda classe”, ilegais. Elas estavam no centro da economia informal junto com polonesas e romenas, sejam como babás, cuidadoras ou faxineiras e outros. Muitas delas possuíam curso superior e estavam na maturidade dos seus 40 anos fazendo cursos extensivos e graduação. Questionadas, os discursos eram sempre de mandar dinheiro para família ou comprar um celular. Depois disso, voltar para o país de origem após algumas temporadas de trabalho in nero (ilegal). 
Penso (conhecendo bem) em como estas pessoas se decepcionaram com a não entrada da Ucrânia na União Europeia (UE) quando esta acenou com “tamanha benevolência”. Ali, estava a solução para anos de trabalho análogo a escravidão.
Dentro deste contexto, fica claro parte dessas forças externas que atuaram na Ucrânia sem uma visão mais amiúde de tudo que estaria em jogo.
Entretanto, devido as circunstâncias atuais, parece que os cidadãos ucranianos estão descobrindo que a União Europeia não é aquela que o marketing e a idealização inicial “contou”. Dados recentes comprovam a mudança inevitável:
TAXA DE DESEMPREGO MENORES DE 25 ANOS
Alemanha - 7,8%
Espanha - 54%
Eurozona - 23,3%
França - 22,5%
Grécia 57,7%
Itália - 43%
Portugal - 34,8%
Fonte: Eurostat - Maio/14
Essa é a realidade da UE de hoje.
Os dados acima, tornam muito compreensível que o governo ucraniano, à época inicial dos eventos, fizesse a escolha pela estabilidade russa descartando a entrada na União Europeia.
Trata-se de objetividade e realismo diante de um novo contexto. Se agrava também uma espécie de conjunção profana no encontro da esquerda e direita radicais em diversos eventos da atualidade, festejadas inclusive na arte geral. Obras digitais, a exemplo de recente exposição em Viena, reunindo várias delas sob o título de “EU SOU UMA GOTA NO OCEANO” [I Am a Drop in the Ocean - vídeo] e cinema, além de outras não diretamente ligadas a Ucrânia. 
"Eu sou uma Gota no Oceano"

Esse fato tem, enfim, despertado a atenção de muitos para a propagação de um determinado conceito. Dito isso, volto a uma afirmação vista em alguns jornais: a parte ocidental da Ucrânia é mais propensa a receber influências externas, além de ter menor média etária.
Os jovens são mais propensos a esse contato midiático. Talvez sejam, mas de um fascínio fugaz e pouco analítico. Os jovens vivem um desejo por realizações pessoais e embevecidos por fazer história. No entanto, o enredo se assemelha as telenovelas na sua produção, visto que os atores muitas vezes não sabem o que o autor lhes reserva, utilizando-os ao sabor da audiência e interesses momentâneos dos anunciantes.
Tal fato pode ser comparado à formação observada na Ucrânia, em um estado que se aproxima cada vez mais de ser um grande conglomerado financeiro sem regras claras para a população e instituições democráticas. Devido a isso, o país enfrenta uma longa crise onde surge a necessidade, e pré-acordada na transição, de mais empréstimos para pagar dívidas já “insolventes”, deixando de se investir no país. 
Dentro deste contexto, agentes externos aliam-se com antigas e escabrosas forças políticas ucranianas como os partidos fascistas (Svoboda e Setor Direita).
Os agentes externos aliados e esses partidos “exigem” que Estado Russo pague a conta, passivamente, dos acordos desfeitos. Mas isto não vai acontecer. Agora, não há mais espaço para opiniões ou dissidências entre todos os desiguais envolvidos, imersos num mesmo poço inesperado.
Karl Popper
Mergulhados em uma crise mortal e vida barbaresca, a Ucrânia sedimenta um modus operandi percebido já no Egito, na Líbia, etc. (salvo particularidades culturais, óbvio). Aos poucos, vai tomando corpo a teoria que muitos desconhecem e insistem em repetir mundo afora, sem perceber que sufocará o direito a manifestação e escolha chamados por muitos de democracia.
Um fator importante nos últimos acontecimentos dessa novela, que tem sido escrita em várias partes do planeta, é um filosofo nascido em 1902 em meio a efervescência cientifica do período, Karl Popper.
Para ele uma teoria só é considerada cientifica se puder ser contestada. Popper talvez não seja tão conhecido nestas sociedades, mas teve como seu discípulo o magnata George Soros. Este, junto a outros agentes mais ou menos conhecidos, leva às últimas consequências (como sociopatas, digamos) os conceitos de Popper na vida das massas.
A teoria só é cientifica se possibilita a contestação exitosa ou não. Mas como isso se aplica na Ucrânia? A resposta é Open Society Fondations (OSF).
Henri Bergson
Nome originário de um conceito do filósofo francês, estudioso da memória, o que é imensamente relevante para nosso argumento já que a memória é uma construção mental e sofre diversas influências nessa construção, entre outras, de Henri Bergson. 
A primeira fase da OSF foi como organização criada para fazer a transição comunista para um sistema de capital. A Open Society tem muitos serviços prestados com esse fim, ela pertence a Soros, “muito entusiasta dos movimentos sociais” e com muitos tentáculos em países no Oriente Médio, África e emergentes. Ao todo 60 países no mundo. Soros é também um hábil homem de negócios. Soros, tem textos onde exorta jovens ucranianos. Por volta de 07 abril de 1914 George Soros escreveu: Mantenha o Espírito do Maidan Vivo (em inglês) direcionado aos jovens da Ucrânia conclamando pessoalmente os ucranianos a contestar.
George Soros, aproveita essa sede de contestação natural que é parte da busca da identidade, inerente ao jovem e na ideia dessa “Sociedade Aberta” (Open Society) um conceito social de Karl Popper, seu mentor, onde a “resistência” é o contraditório de sua vida e ações ao discurso que faz; é maleável em diversos momentos.
Investe em várias ações para alcançar seus objetivos. Se vale de diferentes abordagens, métodos, paradigmas e muitos formadores de opinião sempre “uns jovens contestadores”, “repetidores independentes”, ligados a sua obra.
Não à toa o nome dado a esse organismo criado por Soros teve em suas duas edições, mudando o nome, mas mantendo sempre a “Open Society”: é o conceito do mestre Popper, que definiu assim a sociedade aberta:
Um lugar em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais.
Distanciando por fim das escolhas tradicionais e coletivas do tribal, o que seria uma evolução natural, segundo ele.
Voltando a Bergson, o estudioso da memória, podemos encontrar a conclusão que definem as ações de cidadãos ucranianos (ou não pelo mundo das manifestações) simples, jovens e criando sociedades convulsionadas pelos agentes da tese de Popper que se regozija no túmulo.
O capitalismo sempre se utilizou dessas maquinações e do desconhecimento de propagação de conceitos. Soros parece negar Popper para um leitor menos atento, mas muito pelo contrário, o utiliza para um mais perspicaz observador de forma sistemática e coerente.
Quando se vir o filósofo, porém, não o identificará com sociedade aberta democrática ou capitalismo laissez-faire, mas sim com um “quadro crítico de espírito por parte do indivíduo” (nem esquerda, nem direita o que eu quero é “liberdade”?).
Ucrânia e a Praça Maidan em Kiev
Os manifestantes agem de acordo a interesses comuns, em um grupo de qualquer espécie ao utilizar um discurso de sociedade que se rebela, de forma criticar, e despreza o conceito de esquerda ou direita para aderir a só sua individualidade, e mistura diferentes ideologias. Cria-se então, uma pasta humana que serve aos aliciadores e multiplicadores de organizações como a OSF, mas não ao público.
George Soros
É uma mudança rumo ao desconhecido. Aplicado tão bem por Soros quando “reconhece a força emocional de continuar”, do que o filósofo chamou de “espírito de grupo perdido do tribalismo”, tal como se manifesta por fim, por exemplo, nos totalitarismos do século passado.
Isso que, na prática, foi a aposta no Egito e está se dando na Ucrânia, por exemplo.
Para aqueles sem nenhuma consciência de como seus anseios pessoais são usados em benefício de algumas experiências de negócios lucrativas, e de sobrevida do sistema, abrindo novos parceiros em nações que serão mais dependentes, gerar mais empréstimos e menos cooperação com parceiros próximos geográfica e culturalmente.
O sucateamento da memória de um povo é condição sem a qual, ao se crer independente e em novos movimentos “supostamente” sem lideres, sem partidos e sem fins objetivos, se repetem em alguns eventos.
Para articuladores financistas ainda é prazeroso poder olhar as teorias apreendidas na juventude sendo provadas (implementadas) arriscar em meio aos momentos de lazer com as massas, entre os negócios, a Sociedade Aberta e o seu teste sendo aplicado como teoria social em constante aperfeiçoamento ao sabor do contexto em que se aplica.
O discípulo nega e se mostra critico, mas está aplicando perfeitamente seu mestre que se sentiria homenageado. 

PS: Quando criança pensava e dizia à minha mãe que tudo que repetimos massivamente já foi pensado e disposto por algum professor em uma universidade pelo mundo.
Camille Helena Claudel
[*] Camille Helena Claudel é uma pesquisadora, historiadora e licenciada. Nascida no Brasil, estudou na Itália, Espanha e Alemanha onde trabalhou com projetos sociais e culturais. Tem diversos cursos na Itália e Brasil, além de artigos publicados em revistas voltadas a história e também de cultura italiana e brasileira. Colabora atualmente com o Jornal Rebate, redecastorphoto e sites no exterior como o Jornalistas Sem Fronteiras e Informare per Resistere. Foi militante contra a ditadura pelas diretas e movimentos dos estudantes secundaristas. Atuou nos movimentos sociais de ajuda e reabilitação de crianças de rua, imigrantes e também a pastoral carcerária, na Alemanha.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Tahrir, a praça política mais eficaz do mundo




A praça Tahrir, no centro do Cairo, sugere uma dessas rotatórias inóspitas,como tantas outras, destinadas a ordenar o fluxo do trânsito nas grandes metrópoles subdesenvolvidas, pouco ou nada pensadas para o convívio humano. Mas desde fevereiro deste ano, quando foi palco de 18 dias consecutivos de protestos gigantescos que derrubaram o ditador amigo das potências, Hosni Mubarak, a praça Tahrir ingressou definitivamente no panteão dos símbolos libertários do nosso tempo.

Na sua textura inóspita o povo egípcio plantou uma das mais vigorosas sementes da primavera política que sacode o norte africano e todo o Oriente Médio. Desde a última 6ª feira, a semeadura tem sido regada a sangue outra vez (veja as cenas).

Novos confrontos, a partir de Tahrir, espalham-se por todo o país com um saldo devastador nas últimas 72 horas: 33 mortos pela repressão do Exército; 1.500 feridos e a renúncia do gabinete civil que desde a queda de Mubarak ordena a transição democrática, subordinado à mão dura militar.

A uma semana das eleições parlamentares, a sociedade egípcia está farta da tutela que pretende se sobrepor à nova institucionalidade, esvaziando-a na prática, a exemplo do que os mercados financeiros fazem com as democracias maduras de uma Europa em transe. No Egito, o definhamento opera pelo canal do adiamento das eleições presidenciais; na zona do euro, com a captura do Estado pela lógica financeiro, tornando ornamental a rotatividade do poder.

A principal singularidade egípcia está na eficácia das grandes mobilizações de massa. Armadas de alvos claros, cirúrgicos e avessos às tergiversações conservadoras --mas permeados de intensa capilaridade junto a organizações civis e partidos políticos, ao contrário do mito da 'revolução digital'-- , elas arremetem contra o despotismo de plantão com uma contundência pavorosa para os seus ocupantes. Foi assim que Tahrir derrubou Mubarak em 11 de fevereiro, após 18 dias de protestos que custaram 300 mortos e cinco mil feridos.

É assim que ela se volta agora contra o cabresto militar, unificando partidos e vozes em uma exigência clara, incontornável, de rápida aderência popular: fim da tutela --ou como se ouve em Tahrir, 'deixem-nos respirar; deixem-nos viver'. A articulação e a objetividade das jornadas nascidas na praça política mais eficaz do mundo talvez tenham algo a ensinar aos indignados do resto do planeta, ainda carentes da mesma habilidade para traduzir o descontentamento social em alvos progressivos, práticos, de precisão egípcia.

**um capitão do Exército,Ahmed Shoman, junta-se aos manifestantes no Cairo e diz que militares não deveriam se colocar acima do povo
** Tahrir vence de novo: Junta Militar já admite antecipar eleições presidenciais em seis meses, para junho de 2012
**protestos se espalham por todo Egito
** jornalistas denunciam que junta militar tornou o trabalho de imprensa mais perigoso do que sob a ditadura Mubarak
** Exército corta eletricidade nas ruas de acesso à praça Tahrir e adjacências
** convocada pelos movimentos '6 de Abril' e '25 de janeiro', passeta do 'milhão' deve começar às 19 hs, horário de Brasília
**colunas de trabalhadores dos distritos operários dirigem-se ao centro do Cairo
** coletivos de médicos montam hospital de campanha na rua** canção símbolo da praça Tahrir: http://www.youtube.com/watch?v=Fgw_zfLLvh8&feature=player_embedded

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

ALVOS DE PRECISÃO EGÍPCIA



A praça Tahrir, no centro do Cairo, sugere uma dessas rotatórias inóspitas,como tantas outras, destinadas a ordenar o fluxo do trânsito nas grandes metrópoles  subdesenvolvidas,  pouco ou nada pensadas para o convívio humano. Mas desde fevereiro deste ano, quando foi palco  de 18 dias consecutivos  de protestos  gigantescos que derrubaram o ditador  amigo das potências,  Hosni  Mubarak,  a praça Tahrir  ingressou definitivamente no panteão dos símbolos libertários do nosso tempo. Na sua textura inóspita o povo egípcio plantou uma das mais vigorosas sementes da primavera política que sacode o norte africano e todo o Oriente Médio. Desde a última 6ª feira, a semeadura tem sido regada pelo sangue derramado em novos confrontos que, a partir de Tahrir, espalham-se por  todo o país com um saldo devastador nas últimas 72 horas: 33 mortos pela repressão do Exército; 1.500 feridos e a renúncia  do gabinete civil que desde a queda de Mubarak  ordena a transição democrática, subordinado à mão dura militar. A uma semana das eleições parlamentares, a sociedade egípcia está farta dessa tutela que pretende se sobrepor  à nova institucionalidade, esvaziando-a na prática, a exemplo do que os mercados financeiros fazem  com as democracias maduras de uma Europa em transe.  No Egito, o definhamento opera pelo canal do  adiamento das eleições presidenciais; na zona do euro, com a captura do Estado pela lógica financeiro, tornando ornamental a rotatividade do poder. A principal  singularidade egípcia  está na eficácia das grandes mobilizações de massa. Armadas de alvos claros,  cirúrgicos e avessos às tergiversações  conservadoras  --mas permeados de intensa capilaridade junto a organizações civis e partidos políticos, ao contrário do mito da 'revolução digital'-- ,  elas arremetem contra o despotismo de plantão com uma contundência pavorosa para os seus ocupantes. Foi  assim que Tahrir derrubou Mubarak em 11 de fevereiro, após 18 dias de protestos que custaram 300 mortos e cinco mil feridos. É assim que ela se volta agora contra o cabresto militar, unificando partidos e vozes em uma exigência clara, incontornável, de rápida aderência popular: fim da tutela --ou como se ouve em Tahrir, 'deixem-nos respirar; deixem-nos viver'. A  articulação e a objetividade das jornadas  nascidas na praça política mais eficaz do mundo  talvez tenham algo a ensinar aos indignados do resto do planeta, ainda carentes da mesma habilidade para traduzir  o descontentamento social em alvos progressivos, práticos, de precisão egípcia.   
(Carta Maior; 2ª feira; 21/11/ 2011)