No último domingo, o corista mais ousado da Lava Jato e um outro
menos conhecido vieram a público para um novo showzinho, desta vez sem
power point. Os procuradores da República Deltan Dallagnol e Orlando
Martello trataram de defender a Operação das críticas crescentes que
está recebendo, basicamente, por abuso de poder e partidarismo.
O show foi encenado na página A3 da Folha de São Paulo, na sessão
Tendências/Debates. Ocupou a página de alto a baixo. No texto em
questão, sem auxílio de power point os procuradores tiveram que
preencher o espaço com outro tipo de diversionismo. Vamos ao show,
então. Quem sabe o leitor encontre a confissão da Lava Jato.
Continuo em seguida à matéria da Folha abaixo reproduzida.
Achou?
Imagino que sim. Mas caso alguém não tenha encontrado, impressione-se
com o que os dois procuradores dizem sobre as acusações de abuso da Lava
Jato: “Só 3% estão encarcerados sem condenação”
Só?! Como assim, “só”? Pelas contas da Lava Jato, ela acusou 241
pessoas em 52 investigações e só 3% dessas pessoas estão cumprindo pena
sem julgamento. Assim, segundo a Lava Jato, em torno de 7 pessoas estão
encarceradas e cumprindo pena sem condenação, ou melhor, sem terem tido
direito a um julgamento justo.
É pouco?!!
Assassinos costumam aguardar o julgamento em liberdade. Para acusados
de crimes não-violentos, começar a cumprir pena sem ter sido julgado ou
preso em flagrante é um abuso, uma medida ditatorial. Não se explica.
Mas hilariante mesmo é a explicação de Dallagnol e Martello sobre por
que a Lava Jato só prende petistas ou aliados de petistas. Segundo
eles, é porque o PT estava no Poder, de modo que só existiria corrupção
no partido que governa.
É mesmo? Será verdade?
Pergunta: a Odebrecht, a OAS, a Camargo Correia e outras máfias da
construção pesada que começaram a roubar ainda no regime militar e que
roubaram a Petrobrás são as mesmas Odebrechet, OAS, Camargo Correia etc.
que prestaram serviços ao metrô de São Paulo, à CPTM, ao Rodoanel?
Quem está no poder no Estado de São Paulo, responsável pelo metrô,
pela CPTM e pelo Rodoanel, e em tantos outros Estados e municípios? É o
PT?
Mas se são as mesmas Odebrecht, OAS, Camargo Correia e companhia,
então não dá pra entender. Se são as mesmas empresas, por que a
roubalheira que promoveram junto ao governo do Estado de São Paulo não é
investigada?
Ou será que as denúncias de que elas roubaram também em São Paulo não são verdadeiras?
A Lava Jato só investiga corrupção da Odebrecht, da OAS, da Camargo
Correia e do raio que as parta se essa corrupção envolver petistas. Como
a corrupção que essas empresas promovem nos Estados e municípios não
interessa aos procuradores da República e delegados da PF porque atinge
diretamente o PSDB, não rola investigação.
Aliás, com muito atraso há uma encenação de que está sendo
investigada alguma coisa contra José Serra – após anos de investigações
que ignoraram o que as empreiteiras faziam em São Paulo ou Minas Gerais,
onde os esquemas movimentaram muito mais dinheiro que na Petrobrás.
Faz tempo que a Lava Jato não consegue explicar por que suas
investigações são seletivas. E agora não consegue explicar como é
possível que o Brasil mantenha pessoas cumprindo pena de encarceramento
sem terem tido direito a um julgamento justo.
Mas o que assusta mesmo é Dallagnol e Martello acharem que há pouca
gente presa sem julgamento. Fiquei esperando que ele se gabasse de “só”
estar torturando psicologicamente os encarcerados sem julgamento pela
Lava Jato, de não praticar torturas físicas.
“Lata Jato avança ao atingir todos sem distinção”.
Quer dizer: agora, e somente agora, a Lava Jato atinge — alegadamente — a todos?
Ao longo de todo este tempo Moro e seus comandados trataram de destruir o PT.
Num jogo combinado com a mídia, a começar pela Globo, armaram
operações cinematográficas quando se tratava de prender pessoas de
alguma forma vinculadas a Lula.
Como esquecer as cenas da condução coercitiva de Lula para um depoimento para o qual ele sequer fora convocado?
E o vazamento ilegal das falas entre Lula e Dilma?
E tantas, tantas, tantas outras coisas que colaboraram decisivamente
para a derrubada de Dilma e que, pelo script previsto, levariam a tirar
Lula do caminho em 2018?
Uma democracia foi destruída. 54 milhões de votos foram incinerados
para que a plutocracia chegasse ao lugar a que não consegue pelas urnas.
E agora somos obrigados a engolir que a Lava Jato é, aspas e gargalhadas, “apartidária”? Isenta?
Coloquemos assim: a Lava Jato tem a isenção que está fixada na missão do Jornal Nacional.
Nela, o JN diz que noticia os fatos do dia com “isenção”.
A Lava Jato foi, desde o início, tão isenta quanto o Jornal Nacional.
As coisas saíram do controle de seus mentores, e da própria mídia,
quando delatores graúdos citaram pessoas, de novo aspas e gargalhadas,
“acima de qualquer suspeita”.
Veio o caos, para os administradores da Lava Jato e para a imprensa.
Nenhum entre eles poderia esperar que da Odebrech saísse a informação
preciosa de que Serra recebera 23 milhões de dólares num banco suíço
para a campanha de 2010.
E atenção: em dinheiro de 2010. Hoje, seriam 34 milhões.
A confusão entre as corporações jornalísticas ficou estampada notavemente nisso: a Folha deu manchete e o JN ignorou.
O fato é que mudaram as circunstâncias: Moro já não é o mesmo.
Caminha para ser o juiz de primeira instância de origem.
Hoje é menor do que foi ontem, e amanhã será menor do que é hoje.
E a ideia disparatada de Dallagnol de que a Lava Jato “avança ao atingir a todos sem distinção” merece que evoquemos Wellington.
Só acredita nela quem acredita em tudo.
A não ser que a tomemos como uma confissão de que ela até aqui pegou apenas um lado.
O ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, apresentado pela Lava Jato como o maior corrupto de todos
os tempos, poderá ser canonizado quando vierem à tona novos episódios
como do chanceler José Serra, acusado de ter recebido R$ 23 milhões, por
fora, numa conta secreta na Suíça; se Lula, com seus pedalinhos e as
reformas em dois imóveis que não lhe pertencem (o sítio em Atibaia e o
apartamento no Guarujá), é o maior corrupto do País, como deve ser
tratado Serra?; eis uma questão que cria dificuldades para a narrativa
oficial da Lava Jato
247 – No dia 14 de
setembro, o procurador Deltan Dallagonol apresentou sua denúncia contra o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que ele foi colocado no
centro de um power point, como se fosse o chefe do maior esquema de
corrupção da história do País.
Na Lava Jato, Lula foi acusado de
ter sido corrompido pelas reformas realizadas em dois imóveis que,
segundo os registros imobiliários competentes, não lhe pertencem: um
apartamento no Guarujá (SP) e um sítio no Guarujá (SP), onde foram
fotografados dois pedalinhos comprados por Marisa Letícia, a
ex-primeira-dama.
Mais recentemente, Lula também foi
acusado de ter ganho um estádio de futebol, mas a acusação não prosperou
diante do seu próprio surrealismo (leia mais em "Piada de domingo", por Clayton Netz). Diante disso, Lula poderá ser
canonizado quando vierem à tona novos episódios como o do chanceler José
Serra, acusado de ter recebido da Odebrecht R$ 23 milhões, por fora,
numa conta secreta na Suíça – um valor que, corrigido, chegaria a R$
34,5 milhões.
Se Lula, com seus pedalinhos, é o
maior corrupto do País, como deve ser tratado Serra? Essa é uma questão
que cria dificuldades para a narrativa oficial da Lava Jato.
Jornalista Esmael Morais ironiza o power point do procurador
Deltan Dallagnol, quando apresentou a última denúncia do Ministério
Público contra Lula, ao preparar uma versão de Eduardo Cunha; o deputado
cassado está ligado a todos os caciques do governo Temer: Renan
Calheiros, Eliseu Padilha, Moreira Franco, Valdir Raupp, Romero Jucá e o
próprio presidente
Por Esmael Morais - O PowerPoint da suposta delação de Eduardo Cunha, que atinge a cúpula do PMDB, já circula com força nas redes sociais.
Trata-se de uma paródia da apresentação do procurador Deltan
Dallagnol, da Lava Jato, que em setembro mostrou uma estrutura em
PowerPoint para incriminar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Brincadeira dos internautas à parte, o ex-presidente da Câmara
prepara superdelação [que se preze] com os seguintes mandachuvas
peemedebistas: Michel Temer, Renan Calheiros, Romero Jucá, Moreira
Franco, Eliseu Padilha e Valdir Raupp.
Portanto, o PMDB ficará órfão. Quem irá herdar o comando partido?
Lembra daquela tirada do chefe da Lava Jato, o Dr. Deltan Dallagnol, dizendo que “ “quem
veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi
para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam
realizar seus sonhos, era um outro perfil de colono”.
Pois é, a pessoas que acham que a origem de seus ancestrais é o determinante de seu caráter, infelizmente, não são tão raras.
O pessoal que quer “serrar” o Brasil e separar o Sul (sentimento também de alguns paulistas) tem as mesmas inspirações.
Olha só o que eles dizem no UOL:
” o movimento salienta que a população do Sul, de origem europeia,
sofreu uma miscigenação que, associada a fatores climáticos e
geográficos próprios, “moldou o perfil que é peculiar do sulino,
diferenciando-o das demais regiões brasileiras”.
Só não têm a coragem de dizer “raça superior”.
Vão fazer uma palhaçada amanhã, colocando “urnas” (será que
“emprenhadas”?) para as pessoas dizerem o que acham da separação do
Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul do nosso país. Será que também não querem a volta da escravatura?
Não há nada mais perverso, doentio
e perigoso que a mistura entre radicalismo político e radicalismo
religioso. O fanático político-religioso não tem limites; não tem ética;
não age com a razão. Age por convicção, ou seja, pela crença pervertida
que é um porta-voz do bem ou um discípulo de uma causa transcendental. É
convicto que tem uma missão a ser cumprida e sendo superior, porque é
um enviado de Deus para extirpar o mal da terra, deve salvar o mundo
daqueles "eleitos" como sendo os ímpios.
Os fanáticos político-religiosos
se congregam em castas herméticas cujo objetivo é criar mecanismos de
autoproteção. Só assim, sentem-se seguros e empoderados para cumprir sua
missão redentora. Estão convictos: somos do bem; podemos tudo!
É por isso que o fanático
político-religioso tem na pregação e na oratória suas principais armas
para arrebanhar adeptos. Utiliza-se da propagação do medo para
justificar a consolidação de uma seita baseada em discursos de ódio e de
vingança. Lembremos da advogada Janaína e seus espetáculos em nome de
um deus que “vai nos salvar": “Se tem alguém fazendo algum tipo de
composição nesse processo, é deus", disse ela na defesa do impeachment.
O filósofo e cientista político
esloveno Slavoj Žižek nos ajuda a entender esse fenômeno: a unificação
de todos os medos (e/ou discursos do medo) numa (falsa) verdade é o
grande objetivo que move os ideais dos grupos e líderes fanáticos. Essa
estratégia justificou, por exemplo, o nazismo (os nazistas tinham horror
dos judeus, dos homossexuais...); ou o golpe civil-militar de 1964 (o
medo do comunismo).
A soma dos muitos medos
(os verdadeiros ou aqueles construídos no imaginário social) produz um
ambiente propício para se criar um clima de pânico; instalar a
desconfiança generalizada; propagandear uma insatisfação irracional,
mesmo num espaço institucionalmente normal. A partir daí, podem-se
construir as saídas autoritárias e os golpes, através de pseudo-heróis
"salvadores da Pátria"; justifica-se o injustificável com argumentos
falaciosos, mas aparentemente palatáveis e aceitos pela cultura
vingativa que, em alguma medida, nos congrega enquanto herdeiros da
tradição cristã ocidental que se contenta, muitas vezes, com a eleição
de bodes expiatórios para a superação das nossas mazelas.
A partir da unificação dos medos é
fácil propagar o discurso do ódio, da violência e da eliminação a
qualquer custo daqueles que encarnam os “males” que devem ser combatidos
e extirpados pelos “bons”.
O espetáculo midiático promovido
pelo promotor Dallagnol– um fervoroso fiel religioso que prega o combate
à (um determinado tipo de) corrupção em templos pelo país afora –
mostra que o fanatismo de base política e religiosa contaminou parte das
instituições do sistema de justiça brasileiro. Talvez, por isso, há
tantos “homens e mulheres da lei” (advogados, policiais, promotores,
juízes) ligados umbilicalmente a certas igrejas e sociedades secretas.
Vários grupos incrustados em
segmentos da advocacia, dos ministérios públicos, das instituições
policiais e da magistratura têm se comportado como “caçadores de
corruptos” cuja pregação e discursos de base religiosa significam uma
ameaça efetiva ao estado democrático e de direito.
Pensam, tacanhamente, que o
direito penal, seletivamente aplicado, resolve todos os problemas e
mazelas sociais e políticos. Exercem seu ministério com base numa
paranoia de acusação sem direito à defesa, facilitando a "perseguição"
ou "delação" - ao gosto dos clientes, no caso, da mídia hegemônica, dos
políticos tradicionais organicamente corruptos e de segmentos
privilegiados da sociedade.
O reducionismo judicial,
transformado em ativismo persecutório, tem produzido uma justiça ainda
mais seletiva e corroborado um pensamento torto, simplista, odioso e
infantil Brasil afora. Esse pensamento espraia-se nas redes sociais,
contaminando-as de ódio e caca às bruxas.
Até a morte de um ator global tem
sido atribuída ao PT. São tantas as sandice, as expressões de
irracionalidade e mesquinhez – inexplicáveis pela razão – que somente
podem ser entendidas, de fato, por convicções de base religiosa.
Obviamente, uma religião imatura, infantilizada, persecutória,
vingativa.
É preciso lembrar: o Ministério
Público, as instituições policiais, inclusive a Polícia Federal, e o
Judiciário foram recepcionados pela Constituição Federal de 1988 sem
nenhuma prestação de conta de suas ações e omissões durante a ditadura. E
mais: esses órgãos foram fortalecidos a partir de 1988, sem nenhum
mecanismo efetivo de controle. Milhões de juízes, promotores e
policiais, por exemplo, têm vencimentos acima do teto constitucional e
isso parece natural e legal. Atualmente, parte dessas estruturas,
povoadas pelos filhos das elites - que buscaram nas carreiras jurídicas
do Estado a fonte de privilégios e defesa de interesses de classe -,
formam uma espécie de estado paralelo dentro do estado de direito: uma
juristocracia.
A aliança espúria e virulenta
entre setores do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário
com a imprensa, desde o chamado “Mensalão” e agora na “Operação Lava
Jato” – tramando jogadas midiáticas com traços fascistas –, constitui
num perigo inominável não somente para a ordem democrática, mas também
para todos os cidadãos e as demais instituições sociais.
Quando a acusação em doses
cavalares e à revelia do devido processo legal é transformada em
evidências de culpa, convicção, chantagem e difusão do medo e do ódio,
mesmo não havendo investigações suficientes, provas cabais e
apresentação do contraditório; quando a justiça não age de forma
isonômica; quando o objetivo é destruir carreiras e reputações e
promover caça às bruxas flerta-se com um estado totalitário.
Como está cada vez mais evidente e
já foi apontado por Jânio de Freitas noutra ocasião, “o que a Lava Jato
investiga de fato, por meio de investigações secundárias, não é a
corrupção na Petrobras; não é a ação corruptora de empreiteiras; não são
casos de lavagem de dinheiro: são os governos do PT”.
E, dado que a coalizão golpista
apeou a presidenta Dilma do poder à força, resta agora, aos torquemadas
sacrossantos, a perseguição inquisitorial a Lula (que como já escrevi
noutro post, não é nenhum santo). E, na sequência, como sempre prega o
impoluto Aécio Neves, a eliminação do PT. Aí, todos os males da face da
terra serão expurgados e os homens e mulheres de bem reinarão para
sempre. Amém!
Fábio Konder Comparato
escreveu célebre artigo sobre o caráter patrimonialista, elitista,
hermético e autoritário do Judiciário brasileiro. Esse poder, desde os
seus primórdios, se tornou o menos transparente da República, avesso a
investigações de toda ordem, impedindo, desde sempre, que as inúmeras
denúncias de corrupção e favorecimento de seus quadros e de elites
políticas tradicionais fossem punidas nos limites da lei (veja aqui).
Que fique claro: apesar da
podridão do sistema político, os excessos e arroubos autoritários
cometidos pelas convicções juízes, policiais e promotores na Lava Jato
fazem com que o primeiro poder a ser questionado, nesse momento, seja
justamente o Judiciário.
A Operação Lava Jato, que vinha mantendo seu foco no envolvimento de
políticos do PMDB com o esquema de corrupção na Petrobrás, e causou a
queda de três ministros de Temer, voltou a mirar o PT nesta
quinta-feira, dois dias depois da visita do ministro da Justiça,
Alexandre de Moraes, ao comando da Operação em Curitiba.
A coincidência está sendo registrada por petistas e por movimentos
sociais que também foram alvo da Operação Custo Brasil de hoje, que
prendeu o ex-ministro Paulo Bernardo e o secretário municipal de Gestão
de São Paulo, Valter Correia, invadiu a sede do PT em Brasília e São
Paulo e fez busca e apreensão na casa do ex-ministro Carlos Gabas. O MST
também foi alvo da operação em Goiás. A mudança de foco, do PMDB para o
PT, favorece o governo na fase final do impeachment da presidente
Dilma Rousseff.
Em sua visita a Curitiba na terça-feira, a pretexto de apoiar a Lava
Jato, o ministro da Justiça reuniu-se com o juiz Sergio Moro, com
procuradores e mais longamente com a equipe da Polícia Federal. Deste
último encontro participaram o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, o
superintendente regional no Paraná, Rosalvo Ferreira Franco, e o chefe
da PF na Lava Jato, em Curitiba, Igor Romário de Paula. Fez declarações
enfáticas de apoio à Operação.
A visita de “cortesia” do ministro foi vista como um gesto para
neutralizar as suspeitas de que, sob Temer, a Lava Jato seria
enfraquecida, tal como projetado nas conversas que Sergio Machado gravou
com Romero Jucá e outros peemedebistas, tramando o impeachment como
meio de deter a “sangria” da classe política. Na semana passada o
ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, defendeu a fixação de
prazo para o encerramento da Operação, o que também pegou mal em
Curitiba.
Sobre a relação que vem sendo feita entre sua viagem a Curitiba e a
operação desta quinta, Moraes comentou: "Não há nenhuma relação da minha
visita institucional, de apoio à Lava Jato, provavelmente seja isso que
tenha deixado desconfortável essas pessoas, é que o governo anterior
jamais apoiou institucionalmente a Lava Jato, porque o governo anterior
jamais apoiou o combate à corrupção", disse.
Depois da posse de Moraes, que foi advogado de Eduardo Cunha, o
presidente da Associação Nacional dos Delegados Federais chegou a
externar a “preocupação” da instituição com a nomeação de ministros
investigados pela Lava Jato. O procurador Deltan Dallagnol também
mencionou o temor de que “pessoas poderosas e influentes” tentassem
barrar as investigações.
PF, lava jato, moro,
Com a operação de hoje, a Lava Jato prova que continua tendo bala na agulha, mas mudou a direção de seus tiros.
Levantamento junto ao Tribunal Superior Eleitoral das doações eleitorais feitas pelas empresas investigadas na Lava Jato nos anos de 2010, quando a presidente Dilma Rousseff venceu José Serra, e de 2014, quando ela superou Aécio Neves, revela que os valores doados por Odebrecht, Galvão, UTC, Camargo Correa, OAS, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Iesa, Queiroz Galvão, Engevix, Setal, GDK, Techint, Promon, MPE e Skanska aos diretórios petistas e tucanos são praticamente equivalentes; mais: o PMDB também recebeu valores muitos próximos; a questão é: por que as doações a alguns partidos são consideradas propina pelo Ministério Público Federal e a outros são classificadas como algo normal?
247 - Um dos pedidos de inquérito do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, na Lava Jato compra a tese de que doações legais de empreiteiras a determinados partidos políticos, na realidade, seriam propina. Com base nesse argumento, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) chegou até a apresentar um projeto propondo a cassação do registro de partidos que possam ser enquadrados nessa classificação – seu alvo, obviamente, é o PT.
Para provar essa tese, o Ministério Público pretende fazer uma varredura em R$ 62 milhões doados pelas empresas investigadas na Lava Jato nos últimos anos (leia mais aqui).
Ocorre, no entanto, que um levantamento das doações de campanha feitas por essas mesmas empresas em 2010 e 2014, anos das duas últimas eleições presidenciais, mostra que os valores doados aos diretórios nacionais de PT e PSDB foram praticamente idênticos. E mais: o PMDB também recebeu um valor muito próximo, tendo sido o primeiro no ranking em 2010 e o terceiro em 2014.
O levantamento envolve as empresas Odebrecht, Galvão, UTC, Camargo Correa, OAS, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Iesa, Queiroz Galvão, Engevix, Setal, GDK, Techint, Promon, MPE e Skanska.
Eis os números de 2010:
Partido Valor % sobre o total da arrecadação
PMDB 32.850.000,00 24
PT 31.400.000,00 23
PSDB 27.770.000,00 20
PSB 19.515.000,00 14
PR 6.501.000,00 5
PP 4.950.000,00 4
Fonte: TSE
Os dados revelam, portanto, que, em 2010, quando a presidente Dilma Rousseff superou José Serra na disputa presidencial, o PMDB recebeu R$ 32,8 milhões, seguido pelo PT, com R$ 31,4 milhões e pelo PSDB, com R$ 27,7 milhões. Nos três casos, a participação das empreiteiras sobre o total arrecadado foi próxima a 20%.
Em 2014, quando a presidente Dilma Rousseff superou Aécio Neves, não foi muito diferente.
Eis os números:
Partido Valor % sobre o total da arrecadação
PT 56.386.000,00 25
PSDB 53.730.000,00 24
PMDB 46.620.000,00 21
PSB 15.800.000,00 7
DEM 12.100.000,00 5
PP 10.255.000,00 5
Fonte: TSE
É novamente uma situação de equilíbrio entre os três maiores partidos: PT, PSDB e PMDB. E, de novo, com a participação das empreiteiras sobre o total arrecadado pouco superior a 20%.
Esses dados revelam a incoerência de quem pretende demonstrar que as doações a determinados partidos são "propina", enquanto a outros representam algum tipo de convicção ideológica ou cidadania corporativa. (A esse respeito, vale ler, aqui, a análise de Fernando Brito, editor do Tijolaço)
Advogado-geral da União (AGU), ministro Luís Inácio Adams, criticou a ação do Ministério Público de tentar ampliar o número de delações na operação Lava Jato, por meio de ameaças econômicas: “O foco deles é o penal, e nesse sentido, subordinar o processo administrativo ao penal. Isso está errado, legalmente e conceitualmente. Quando você faz isso, você força o estrangulamento da empresa como instrumento de produção de confissões”; na semana passada, o procurador Deltan Dallagnol ajuizou cinco ações de improbidade administrativa cobrando a devolução aos cofres públicos de R$ 4,47 bilhões, como punição “exemplar” contra a corrupção; “Não estamos falando de um sócio da empresa ou de um diretor, mas de milhares de funcionários e milhares de fornecedores que não têm nada a ver com o assunto”, alertou Adams; para empresários, Lava Jato é o 'elefante colocado na sala' da economia minist 247 – O advogado-geral da União (AGU), ministro Luís Inácio Adams, criticou a ação do Ministério Público de tentar ampliar o número de delações na operação Lava Jato por meio do “estrangulamento das empresas”.
“O foco deles é o penal, e nesse sentido, subordinar o processo administrativo ao penal. Isso está errado, legalmente e conceitualmente. Quando você faz isso, você força o estrangulamento da empresa como instrumento de produção de confissões”, disse em entrevista ao Valor.
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou cinco ações de improbidade administrativa cobrando a devolução aos cofres públicos de R$ 4,47 bilhões das empreiteiras Camargo Corrêa, Sanko, Mendes Júnior, OAS, Galvão Engenharia e Engevix e dos executivos dessas empresas. Para o coordenador da Força-Tarefa Lava Jato do MPF, procurador da República Deltan Dallagnol, a punição aplicada às empresas e aos executivos investigados pela Lava Jato deve ser “exemplar” para que a corrupção deixe de ser vista como caminho mais vantajoso.
“Não estamos falando de um sócio da empresa ou de um diretor, mas de milhares de funcionários e milhares de fornecedores que não têm nada a ver com o assunto”, rebate Adams. Ele defende os acordos de leniência: “Ao antecipar-se à investigação, ela coloca à disposição de quem investiga – MP, CGU ou TCU, todos os elementos que ela tenha à disposição para esse trabalho. Outra coisa: a necessidade do acordo está associada às condições econômicas da empresa. Vai esperar a empresa fechar para fazer o acordo de leniência?”, questionou (leia aqui).