Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

CIDADANIA: TIJOLO, CIMENTO E DEMOCRACIA.



** A mexicanização da seguraça pública em São Paulo : leia a coluna de estréia do jurista Luiz Flávio Gomes, presidente do Instituto Avante Brasil **os textos  que Obama precisaria ter lido para  ir além do discurso ornamental sobre a igualdade: leia os artigos de George Montbiot, Michael Hudson, Vicenç Navarro e Michael Roberts (nesta pág)


Cerca de 27 milhões de moradias terão que ser construídas no Brasil até 2023. Quase 6%  dos brasileiros, mais de 11,5 milhões de pessoas, vivem em favelas - 88% delas em regiões metropolitanas. São escalas que podem mudar o rosto de um país.Como já ocorreu no passado, pelo avesso.Durante 23 anos, desde a extinção do BNH, em 1986, o Estado brasileiro ignorou a sorte de famílias com até três salários de renda: 80% do déficit habitacional ficou fora da agenda. Agora isso mudou. Mas há uma escolha a fazer e São Paulo pode dar o exemplo. A opção é coletivizar o poder sobre a nova cidade em construção, ou terceirizar a travessia à lógica imobiliária. Poucas áreas reúnem massa crítica, recursos e legitimidade para imprimir um salto histórico na modulação do desenvolvimento brasileiro quanto o tripé indissociável da moradia, da cidade e da cidadania.Não se trata de substituir uma lacuna do processo econômico por um fetiche: a 'urbanização redentora'.Trata-se de afrontar um déficit político com aquilo que Henri Lefevbre denominou o 'direito à cidade'. Sua referência é a Comuna de Paris. (LEIA MAIS AQUI)




O neoliberalismo está acabado? Pense bem antes de responder

Observando, atônito, as lições desaprendidas na Grã-Bretanha, na Europa e nos Estados Unidos, me chama a atenção que toda a estrutura do pensamento neoliberal seja uma fraude. As demandas dos ultra-ricos se vestiram de teoria econômica sofisticada e foram aplicadas independentemente de seu resultado. O completo fracasso desta experiência em escala mundial não é impedimento para que se repita. Isto não tem nada a ver com a economia. Tem absolutamente a ver com o poder. A análise é de George Montbiot, do The Guardian


Londres - No ano 2012, as cem pessoas mais ricas do mundo enriqueceram 241.000 milhões de dólares a mais [veja nota 1]. Sua riqueza se estima agora em 1,9 trilhões de dólares, só um pouco menos que o PIB do Reino Unido.

Isto não é consequência do azar. O aumento das fortunas dos super-ricos é resultado direto de medidas políticas. Aqui vão algumas: a redução das taxas de impostos e da ação fiscal; a negativa dos Estados em recuperar uma porção dos ingressos procedentes dos minerais e da terra; a privatização de ativos públicos e a criação de uma economia de cabines de pedágio; a liberalização salarial e a destruição da negociação coletiva.

As medidas políticas que fizeram tão ricos os monarcas globais são aquelas medidas que estão espremendo todos os demais. Não é isto o que a teoria previa. Friedrich Hayek, Milton Friedman e seus discípulos – em mil escolas de negócios, o FMI, o Banco Mundial, a OCDE e mais ou menos todos os governos modernos – argumentaram que quanto menos os Estados acionem fiscalmente os ricos, menos defendam os trabalhadores e redistribuam a riqueza, mais próspero será todo o mundo. Toda tentativa de reduzir a desigualdade iria ferir a eficiência do mercado, impedindo que a maré ascendente elevasse todos os barcos [2]. Seus apóstolos levaram a cabo uma experiência global durante 30 anos e os resultados estão hoje à vista. Fracasso total.

Antes de continuar, deveria esclarecer que não acredito que o crescimento econômico perpétuo seja sustentável ou desejável [3]. Mas se o objetivo é o crescimento – um objetivo que todo governo diz perseguir –, não se pode organizar maior desatino no tocante a isso que liberando os super-ricos das restrições estabelecidas pela democracia.

O relatório anual do ano passado da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) deveria haver suposto um atestado de óbito do modelo neoliberal desenvolvido por Hayek, Friedman e seus discípulos [4]. Mostra, inequivocamente, que suas políticas conseguiram resultados opostos aos que previam. Na medida em que essas políticas (cortar impostos aos ricos, privatizar ativos do Estado, desregular o mercado de trabalho, reduzir a seguridade social) começavam a dar dentadas, dos anos 80 em diante, também passaram a cair as taxas de crescimento e a aumentar o desemprego.

O notável crescimento dos países ricos durante as décadas de 50, 60 e 70 se fez possível graças à destruição da riqueza e do poder da elite, como resultado da Depressão e da II Guerra Mundial. Sua escalada outorgou, aos 99% restante, uma oportunidade sem precedentes de exigir tudo o que tal crescimento estimulou em redistribuição, gasto público e seguridade social.

O neoliberalismo foi uma tentativa de inverter o sentido destas reformas. Generosamente financiado por milionários, seus defensores tiveram um êxito assustador: no político [5]. No econômico, fracassaram.

Em todos os países da OCDE, os impostos se fizeram mais regressivos: os ricos pagam menos, os pobres pagam mais [6]. O resultado, sustentavam os neoliberais, seria que aumentariam a eficiência econômica e o investimento, enriquecendo todos. Aconteceu o contrário. Enquanto diminuíam os impostos aos ricos e às empresas, caiu a capacidade de gasto, tanto do Estado como da população mais pobre, e se contraiu a demanda. O resultado foi que caíram as taxas de investimento, em sintonia com as expectativas de crescimento das empresas [7].

Os neoliberais insistiram também em que a desigualdade irrestrita em ingressos e os salários flexíveis reduziriam o desemprego. Mas em todo o mundo rico, tanto a desigualdade como o desemprego dispararam [8]. O recente salto do desemprego na maioria dos países desenvolvidos – pior que o de qualquer recessão prévia das últimas três décadas – se viu precedido da cota em proporção dos salários no PIB mais baixa desde a II Guerra Mundial [9]. Explode em migalhas a teoria. Fracassou pela mesma razão evidente: os baixos salários deprimem a demanda, que deprime o emprego.

Conforme os salários se estancavam, as pessoas complementavam seus ingressos endividando-se. O aumento da dívida alimentou os bancos desregulados, com as consequências que todos somos conscientes. Quanto maior a desigualdade, descobre o relatório das Nações Unidas, menos estável é a economia e mais reduzidas suas taxas de crescimento. As medidas políticas com as quais os governos neoliberais tratam de reduzir seu déficit e estimular sua economia são contraproducentes.

A eminente redução no degrau superior do imposto sobre a renda no Reino Unido (de 50% a 45%) não suporá um impulso para os ingressos do Estado ou da empresa privada [10], mas enriquecerá os especuladores que fizeram vir abaixo a economia: o Goldman Sachs e outros bancos estão agora pensando em como aproveitar-se disso [11].

A lei de bem-estar social aprovada pelo Parlamento britânico na semana passada não ajudará a limpar o déficit ou estimular o emprego: reduzirá a demanda, suprimindo a recuperação econômica. O mesmo vale para o teto posto às remunerações do setor público. “Voltar a aprender algumas antigas lições sobre justiça e participação”, afirma a ONU, “é a única forma de acabar superando a crise e prosseguir por um caminho de desenvolvimento econômico sustentável” [12].

Como disse antes, não tenho favorito nesta corrida, salvo a crença de que ninguém, neste oceano de riquezas, deveria ser pobre. Mas observando, atônito, as lições desaprendidas na Grã-Bretanha, na Europa e nos Estados Unidos, me chama a atenção que toda a estrutura do pensamento neoliberal seja uma fraude. As demandas dos ultra-ricos se vestiram de teoria econômica sofisticada e foram aplicadas independentemente de seu resultado. O completo fracasso desta experiência em escala mundial não é impedimento para que se repita. Isto não tem nada a ver com a economia. Tem absolutamente a ver com o poder.

Notas:

[1] http://www.bloomberg.com/news/2013-01-01/billionaires-worth-1-9-trillion-seek-advantage-im-2013.html

[2] Milton Friedman e Rose Friedman, 1980, Free to Choose, Secker & Warburg, Londres [Libertad en elegir, Grijalbo, Barcelona, 1992].

[3] Para uma visão alternativa, veja-se Tim Jackson, 2009, Prosperity Without Growth [Prosperidad sin crecimiento, Icaria, Barcelona, 2011], Sustaintable Development Commission, http://www.sd-commission.org.uk/data/fiis/publications/prosperity_without_growth_report.pdf

[4] UNCTAD, 2012, Trade and Development Report: Policies for Inclusive and Balanced Growth,http://unctad.org/en/PublicationsLibrary/tdr2012_en.pdf

[5] Veja-se David Harvey, 2005, A Brief History of Neoliberalism, Oxford University Press [Breve historia del neoliberalismo, Akal, Madrid, 2007].

[6] Informa a ONU: “O efeito conjunto destas mudanças na estrutura fiscal fez mais regressivos os impostos. Um exame das reformas fiscais dos países da OCDE não encontrou nenhum país no qual o sistema fiscal se tornou mais progressivo (Steinmo, 2003: 223)”, UNCTAD, 2012, como supra.

[7] “A redistribuição por meio de medidas fiscais pode, portanto, dar-se em interesse da sociedade em seu conjunto, especialmente ali onde a desigualdade é especialmente elevada, como em muitos países em desenvolvimento. Apoia isto a experiência dos países desenvolvidos, pois as taxas de investimento não eram mais baixas – mas geralmente mais altas – nas primeiras três décadas da época de pós-guerra, ainda que os impostos sobre benefícios e os níveis superiores eram mais elevados que depois das amplas reformas fiscais aplicadas posteriormente. Existem fortes razões para acreditar que a disponibilidade dos empresários em investir em uma nova capacidade produtiva não depende primordialmente dos benefícios líquidos em um determinado período de tempo, mas em suas expectativas com respeito à futura demanda de bens e serviços que podem produzir com capacidade adicional. Isto acaba sendo de especial importância quando se considera o efeito conjunto de um aumento dos impostos empresariais. Sempre e quando os ingressos fiscais mais elevados sejam utilizados para gasto adicional do Estado, melhorarão as expectativas das empresas de crescimento da demanda. Este efeito de demanda é independente de se os gastos adicionais do Estado adotam a forma de consumo do Estado, investimento público ou transferências sociais. Quando o nível do investimento fixo se mantém como resultado de expectativas de demanda favorável, subirão os benefícios brutos, e geralmente também os benefícios líquidos, não obstante o aumento inicial de impostos. Nesse processo, se criarão ingressos e emprego adicionais para a economia em seu conjunto”, UNCTAD, 2012, como supra.

[8] “A proposição de que uma maior flexibilidade do nível salarial agregado e dos salários médios mais baixos é necessária para impulsionar o emprego, pois conduz à substituição de trabalho por capital na economia em seu conjunto, pode ser refutada diretamente, dada a forte correlação positiva entre investimento na formação de capital fixo bruto (FCFB) e a criação de emprego que existe nos países desenvolvidos (gráfico 6.3). Esta correlação contradiz o modelo neoclássico: no mundo real, as empresas investem e desinvestem em capital e trabalho ao mesmo tempo, e o nível de seu investimento depende do estado conjunto de suas expectativas de demanda. Isto implica que, no contexto macroeconômico, capital e trabalho podem se considerar substitutos apenas em uma medida muito limitada”, UNCTAD, 2012, como supra.

[9] “Justamente antes do último e enorme salto do desemprego nos países desenvolvidos – de menos de 6% em 2007 a cerca de 9% em 2010-2011 - a proporção dos salários no conjunto do PIB havia caído a seu nível mais baixo registrado desde o final da II Guerra Mundial (ou seja, a 57%, de mais de 61% em 1980). Isto deveria supor um sinal de alerta. Se o desemprego cresce mais que durante qualquer outra recessão ocorrida nas últimas três décadas, ainda que a parte dos salários no PIB tenha baixado, deve haver algo fundamentalmente errado em uma teoria econômica que justifica o aumento da igualdade principalmente em termos da necessidade de atacar um desemprego persistente”, UNCTAD, 2012, como supra.

[10] Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Stefanie Stantcheva calculam que o nível ótimo do degrau superior do imposto sobre a renda (para maximizar ingressos) se encontra entre 57 e 83%. Piketty, Saez e Stantcheva, 2011, Optimal taxatiom of top labor incomes: A tale of three elasticities, National Bureau of Economic Research, Cambridge, MA. http://www.nber.org/papers/w17616

[11] Patrick Jenkins, “Goldmam Eyes Tax Delay om UK Bonuses”, Financial Times, 14 de janeiro de 2013.

[12] UNCTAD, 2012, como supra.

*George Monbiot é um dos jornalistas ambientais britânicos mais respeitados, autor de livros como The Age of Consent: A Manifesto for a New World Order e Captive State: The Corporate Takeover of Britain, assim como de volumes de investigação e viagens como Poisoned Arrows, Amazon Watershed e No Man's Land. Viveu por dois anos no Brasil cobrindo a região amazônica.



Recuperação, recessão ou depressão?


Os governos capitalistas tem duas alternativas para enfrentar a austeridade. A primeira seria o não pagamento de dívidas com o setor privado, como na Grécia. Essa é a solução da escola austríaca de economia. Ou ainda podem forçar para baixo os juros da dívida para manter seus custos menores, esperando que a economia se recupere à frente. Ambas soluções, porém, implicam que os governos não honrarão suas dívidas. A análise é do economista Michael Roberts, do blog "The Next Recession"


O recente relatório do Banco Mundial (Bird) sobre as perspectivas econômicas mundiais (GEP13AFinalFullReport) é uma leitura sombria sobre a economia do planeta. O banco estima que a economia global crescerá apenas 2,4% este ano em todo o mundo, incluindo a Ásia, a China e as economias capitalistas em desenvolvimento de mais rápido crescimento. É mais ou menos o mesmo que aconteceu em 2012. O banco espera que chegue até 3,3% em 2014, mas não dá para confiar muito, uma vez que ele vem revisando para baixo suas previsões a cada ano. Em junho passado a instituição afirmava que o crescimento mundial se situaria em 3% este ano.

Enquanto para os EUA o Bird prognostica um crescimento real este ano de apenas 1,9% e de 1,1% para o Reino Unido, muito abaixo da maioria dos prognósticos de consenso, prediz que a zona do euro permanecerá em recessão. Portanto, o Banco Mundial espera que os EUA cresçam mais lentamente neste ano que no anterior. Entre as principais economias, acredita que só a China tenha um crescimento mais rápido em 2013 (8,4%) do que em 2012 (7,9%). De fato, as chamadas economias capitalistas em vias de desenvolvimento cresceram apenas 5,1% no ano de 2012 em seu conjunto, o crescimento mais lento em uma década.

Dei uma olhada nos dados sobre o crescimento econômico mundial do Banco Mundial, remontando até 1960. Voltei a lembrar da intensidade da Grande Recessão. O PIB real mundial se contraiu em 2009 em 2,2%, o único ano em que se produziu uma contração desde 1960! Apesar da profunda recessão de 1982, ainda houve um pequeno aumento no PIB mundial, e subiu mais de 1% na primeira recessão mundial do pós-guerra, em 1974.

Claro, o PIB real per capita (que leva em conta o aumento da população mundial) se contraiu nessas recessões anteriores, mas a queda do PIB real per capita em 2009 foi mais que o dobro de 1982.

E, quando chegamos na maior economia capitalista, os EUA, os dados mostram o mesmo. Doug Short, em seu excelente blog sobre dados dos EUA, segue quatro indicadores chave para a saúde da economia dos EUA: produção industrial, vendas no varejo, emprego e ingressos pessoais. Short considera que a Grande Recessão foi realmente enorme para a economia dos EUA, com um descenso médio da média agregada destes indicadores acima de 10%, quase o dobro da queda de 1974-5.

E, se olharmos mais de perto a grande recessão nos EUA e a posterior recuperação, Short constata que se produziu uma importante recuperação do piso de 2009, mas ainda há um longo caminho a percorrer para chegar de novo ao máximo anterior. Poder-se-ia argumentar, como fazem alguns, que a queda da Grande Recessão foi tal que se necessitará mais tempo para a recuperação que em recessões anteriores. Sem dúvida, mas, no ritmo atual de recuperação, poderia levar três anos mais, o que somaria oito anos no total. E Short encontrou indícios de que o ritmo da recuperação em 2012 estava debilitando-se. Como cantava Bruce Springsteen em seu último disco, Wrecking Ball, nesta depressão "estivemos abaixo, mas nunca tão abaixo".

E se aprofundamos nos setores produtivos da economia dos EUA, como a produção industrial, se observa uma desaceleração do crescimento. Não é um retorno à recessão, mas a recuperação está dando lugar a uma depressão em longo prazo.

E, como tenho demonstrado em muitas ocasiões anteriores, a recuperação do emprego de seu piso na Grande Recessão tem sido particularmente fraca nos EUA – a chamada recuperação sem emprego (em relação às anteriores recuperações das recessões).

Se a recuperação dos EUA é fraca em comparação com as anteriores, continua sendo muito melhor que na zona do euro. Depois de tudo, o PIB real de EUA em 2012 foi 7% superior ao de 2006, enquanto na zona do euro foi apenas 2%; ainda que provavelmente seja mais justo comparar o PIB real com seu último pico no final de 2007: nesse caso o PIB real de EUA é só 2,5% superior ao de cinco anos atrás.

Paolo Manasse estudou as diferenças entre os porcentuais de recuperação dos Estados Unidos e da zona do euro. Descobriu que o déficit público nos EUA aumentou muito mais que na zona do euro, 12%, em vez de 5% do PIB entre o piso e o teto. Argumenta que isso demonstra que na zona do euro a politica de austeridade foi aplicada com mais dureza e que isso explica a pior recuperação.

Talvez seja assim, mas a outra cara da moeda é que a relação da dívida com respeito ao PIB do governo dos EUA aumentou muito mais, provocando, em minha opinião, graves problemas para o crescimento nos EUA.

Em um relatório privado, os economistas do banco de investimentos Morgan Stanley analisaram o estado das finanças públicas nas economias capitalistas e argumentam que o financiamento da dívida atual e futura se transformará em uma carga significativa para a rentabilidade e o crescimento do setor privado.

Os governos capitalistas terão duas políticas alternativas para enfrentar a austeridade. A primeira seria o não pagamento de suas dívidas com o setor privado, como na Grécia. Essa é a "solução" da escola austríaca de economia: desfazer-se da dívida excessiva. Ou podem forçar para baixo os tipos de juros da dívida para manter seus custos baixos, com a esperança de que a economia se recupere nesse meio tempo (a chamada repressão financeira). Essa é a solução keynesiana. Mas esse caminho significa que não haverá benefícios para quem investe em bônus do Estado ou que seja "animado" a fazê-lo pelos governos.

Ambas "soluções" implicam que os governos não honrarão suas dívidas de uma maneira ou outra, a fim de que a futura carga do aumento dos impostos sobre os setores produtivos capitalistas possa reduzir-se. Entretanto, ambas as soluções são um problema para o setor financeiro que possui a maior parte da dívida pública. Preferem que todas as dívidas do governo sejam honradas e pagas, seja porque os setores produtivos assumem a fatura ou, melhor ainda, os trabalhadores pagam mais impostos e recebem menos serviços e gasto social.

Quer dizer que a austeridade continua pelo momento. O não pagamento significaria uma nova recessão. Mas a repressão financeira implicaria baixo crescimento durante muito tempo porque supõe que o setor produtivo privado, de alguma maneira, se livrará da carga de sua própria dívida com o setor financeiro, assim como a limitação de uma rentabilidade relativamente baixa - para assim restaurar o crescimento.

*Michael Roberts é um reconhecido economista marxista britânico que trabalhou 30 anos na City londrinense como analista econômico. Ele publica o blog The Next Recession



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Autores de enquete anti Lula já fizeram passeatas fracassadas


Posted by  


Uma notícia se espalhou pelos mais importantes veículos da grande imprensa brasileira no fim de semana: enquete de um Movimento que se intitula “31 de julho” – segundo o site, o nome vem do dia e mês do primeiro ato público do “movimento”, em 2011 – promoveu no Facebook enquete que resultou em “vitória” de Lula para o “Troféu Algemas de Ouro”.
A enquete foi intensamente divulgada por grandes meios de comunicação tais como O GloboCBNFolha de São Paulo e por sites de grupos de interesse político como o site do PSDB e o do ex-governador Anthony Garotinho
Desde o início, um nome liderou a votação: o do ex-presidente Lula, contra quem não pesa ação alguma na Justiça, mas que, na visão dos autores da “enquete” e dos que dela participaram, seria mais “corrupto” do que o ex-senador do DEM Demóstenes Torres, recentemente cassado pela Câmara dos Deputados e que está prestes a ser expulso do Ministério Público Federal de Goiás.
Tucanos como Eduardo Azeredo, acusado principal do inquérito do “mensalão do PSDB”, tiveram votações pífias.
Como se podia prever, a “enquete” redundou na “vitória” de Lula como “o político mais corrupto de 2012”. E, como ocorreu durante a coleta de votos, a iniciativa recebeu grande divulgação da mídia, tendo ido parar até em comentário da CBN que você pode conferir logo abaixo.
O que esses veículos não informaram é que o tal “Movimento 31 de Julho” é o mesmo que, ao longo do ano passado e do anterior, convocou várias passeatas no Rio de Janeiro sob a mesma campanha de divulgação da grande mídia, tendo conseguido reunir na Cinelândia, em 2011, cerca de 2,5 mil pessoas (segundo o site do PSDB – link não funciona, página foi apagada) para protestarem “contra a corrupção”.
No ambiente virtual, porém, o tal “31 de julho” conseguiu um resultado menos ruim que na rua, tendo, segundo seus organizadores, obtido cerca de 14 mil votos no total, 10 mil dos quais teriam ido para Lula. Contudo, esse resultado foi obtido após os organizadores da enquete terem expurgado milhares de votos que disseram que tinham sido falsificados contra o PSDB.
Não houve, porém, qualquer auditoria nem maiores informações da imprensa sobre quem são os organizadores, se os milhares de perfis no Facebook que participaram da enquete são mais reais do que os dos votantes que foram expurgados ou se estes realmente eram falsos.
Seja como for, os fatos acima falam por si. Houve coordenação entre grupos de mídia e o PSDB para divulgar a enquete e, depois, o seu resultado. O site do “Movimento 31 de Julho” praticamente só noticia fatos contra Lula, o PT e “mensaleiros” e a favor de juízes do STF que condenaram os réus da AP470.
Ou seja: quem fez a enquete indicou quem deveria ser o mais votado.
Enquetes assim existem às milhares na internet. Muitas com resultados bem mais expressivos. Aqui mesmo neste blog, um desagravo ao ministro Ricardo Lewandowski alcançou 15 mil manifestações de apoio no Facebook e um desagravo a Lula alcançou 4 mil. E sem uma única menção de grandes veículos da imprensa escrita e muito menos da eletrônica.
É legítimo fazer manifestações contra ou a favor de quem quer que seja. Todavia, quem não conhece o viés político da grande imprensa brasileira não entende por que uma enquete obviamente dirigida como essa ganhou tanta cobertura (de nível nacional), tendo ido parar até na mídia eletrônica. Mas você que lê este blog entende muito bem.

Os escândalos “de emergência” da máfia – midiática


*Barack Obama inicia o seu 2º mandato nesta 2ª feira em cerimônia pública nas escadarias do Capitólio: sem o mesmo brilho, e com os mesmos problemas de quatro aos atrás.
OBAMA E A MÁQUINA DE ENGOLIR MOEDA
"Ao invés de taxar as grandes fortunas, o peso dos impostos recai sobre o custo de vida e a produção --um dos grandes motivos pelos quais a economia norte-americana hoje sofre um processo de desindustrialização. A questão principal é: o que o 1% faz com  sua receita "libertada" dos impostos. A resposta é que eles, emprestando-a, endividam o 99%. Isso polariza a economia entre credores e endividados. Durante a última geração, o 1% mais rico reescreveu as leis fiscais de maneira tal que agora recebe dois terços de toda riqueza (juros, dividendos, rendas e ganhos de capital). Eles usaram esse dinheiro para financiar campanhas eleitorais de políticos empenhados em transferir impostos para os 99%. Também, compraram os meios de comunicação (...); empresários tornam-se presidentes de muitas universidades e direcionam as grades curriculares para uma formação "business friendly" (...) O 1% endivida o 99% - junto com a indústria e os governos - a tal ponto que todo o excedente econômico é um serviço de dívida (...) desde setembro de 2008 eles ficaram com 93% do crescimento da renda norte-americana. Isso, e retomada do crescimento e do emprego são antíteses".

Posted by  

De repente, um personagem até então desconhecido pela esmagadora maioria do país começou a aparecer em jornais, rádios, televisões e portais de internet da máfia – midiática e tupiniquim, não da siciliana e italiana. Trata-se do potiguar Henrique Alves (PMDB-RN), o até aqui candidato da base governista a presidente da Câmara dos Deputados.
Apesar de ser hoje o parlamentar mais antigo daquela Casa, é um político apagado, daqueles “de bastidores”, o famoso come-quieto. E, como todo bom come-quieto, enquanto fica quietinho no seu cantinho papando todas (refiro-me a verbas), ninguém se lembra de lhe fazer perguntas. E ele, de dar explicações.
A historieta desse personagem, porém, é como tantas outras de tantos outros parlamentares de qualquer uma das casas do Legislativo ou dos Poderes Executivo e Judiciário.
São histórias de sinecuras, jeitinhos, enfim, de malandragens mil que tornam idílicas as vidas de parlamentares, juízes, prefeitos e governadores – presidentes não conseguem ser “comes-quietos” com muito sucesso devido à ultra-exposição a que estão permanentemente submetidos.
Além das regalias com o nosso dinheiro, esses detentores de cargos nesses Poderes têm licença para promoverem alguns absurdos como o de um deputado dar o uso que quiser a sinecuras como são as “emendas parlamentares”.
Alves não é o único a usar dinheiro público repassado pelo Executivo a quem indica e quando indica. Seu “escândalo de emergência” surgiu tão rápido porque aguardava, como tantos outros, o momento de ser usado. Ou alguém acredita na coincidência de terem descoberto o tal “Bode Galeguinho” só no momento em que o parlamentar está para se tornar presidente da Câmara dos Deputados?
É claro, óbvio, cristalino como a lágrima de uma das milhões de crianças pobres deste país que não conseguem estudar porque espertalhões sugam parte de verbas que a elas deveriam ser destinadas que é uma afronta a explicação de Alves para o “escândalo de emergência” que acaba de ser assacado contra si.
Emenda parlamentar do deputado peemebista foi repassada a empresa com a qual um seu assessor de gabinete tem vínculos concretos e não refutados por ele mesmo, razão pela qual se desligou do cargo em que estava empregado.
Que é uma vergonha, é. Mas é uma das muitas vergonhas do mesmo tipo que ocorrem o tempo todo e pelas quais a “imprensa” – que tem hoje, no país, a primazia de “hierarquizar” escândalos contra personagens públicos – não se interessa.
Por que a dita “imprensa” (um aglomerado de grandes grupos econômicos) não se interessa? Porque os outros escândalos de plantão que tem em suas escandalosas prateleiras de “armas” contra todos para usar no “momento certo”, esses ficarão acobertados para futuras chantagens ou “eliminações políticas”.
O que mais e quanto mais a “imprensa” tem em suas mangas? E contra quem…
A vez do potiguar Alves chegou porque ele declarou, semanas atrás, que, eleito presidente da Câmara, dará à ordem de cassação de condenados pelo STF o mesmo tratamento que o antecessor direto, Marco Maia, disse que daria se permanecesse no Cargo, ou seja, o de garantir o mandato daqueles condenados.
Há, portanto, uma agenda de “escândalos de emergência” contra prováveis alternativas a Alves que poderão ser usadas ou não pela “imprensa” a depender de quem possa vir a substituí-lo como candidato da base governista a Presidente da Câmara, cargo para o qual o PMDB, no âmbito de acordo com o PT, tem a prerrogativa de indicar o nome.
Não existe um único deputado que não possa ter questionamento acerca do destino das verbas oriundas de suas emendas parlamentares porque elas são usadas em projetos que todos esses parlamentares elaboram para atenderem às suas bases, o que implica em destinarem dinheiro público àqueles com os quais tem relações.
É vergonhoso porque se trata de dinheiro público sendo usado para fins políticos-eleitorais, independentemente do interesse público. Só que é assim que a banda toca.
É comum na Câmara, no Senado ou em qualquer outro Poder da República o dinheiro público ser usado de uma forma que permita questionamento, pois este pode ser feito à incongruência elementar de leis formuladas para atender a grupos políticos e a outros interesses variados.
Enquanto a incongruência da lei que permite que “emendas parlamentares” sejam usadas dessa forma vira escândalo nacional, centenas de outros casos parecidos, iguais e até muito mais graves dormitam nas prateleiras da máfia (midiática), apenas esperando a próxima vendetta a que dará curso.

domingo, 20 de janeiro de 2013

CALMA, FIÚZA, A VIDA NÃO ESTÁ TÃO RUIM ASSIM


:
No sábado, ele chama Guido Mantega de estelionatário. Um bandido capaz de causar inveja em Marcos Valério. No domingo, Dilma Rousseff é a presidente chavista que já arruinou o setor elétrico e estaria prestes a calar a imprensa livre. Parece até "Dudu, o alarmista", personagem criado por Luís Fernando Veríssimo, que só enxergava o pior. Relaxa, Guilherme. Pega uma praia
247 - "Dudu, o alarmista" foi um clássico das tiras em quadrinhos no País. Criado por Luís Fernando Verissimo, o personagem só enxergava o pior. Às vezes, um "pior" que ninguém via, além dele.
O Brasil tem hoje um novo personagem. É "Fiúza, o alarmista". Escritor talentoso, responsável por livros de sucesso como "Meu nome não é Johnny" e, agora, "Giane", Fiúza consegue cativar o leitor por saber enxergar o que as pessoas têm de melhor.
No entanto, ele é também cronista político e econômico. Nesse papel, o Fiúza boa gente encarna um outro personagem. É o crítico amargo que enxerga um desastre após o outro. 
No sábado, Guido Mantega, ministro da Fazenda, era um estelionatário (leia mais aqui), no artigo de Fiúza, no Globo. No domingo, Dilma Rousseff é a presidente chavista que acaba de arruinar o setor elétrico brasileiro e que estaria prestes a calar a imprensa livre.
Relaxa, Fiúza. Este não é o melhor dos mundos possíveis, como diria Dr. Pangloss, mas também não é o pior. As pessoas estão trabalhando, o desemprego é o menor em dez anos, o Brasil não está nos braços do FMI, os reservatórios estão enchendo...
Relaxa, Fiúza. Pega uma praia.
Abaixo, o artigo de "Fiúza, o alarmista", neste domingo na revista Época:  
No jeitinho venezuelano, a lei é soberana, desde que não contrarie o espírito bolivariano
O Brasil apoiou o adiamento da posse presidencial na Venezuela para esperar um pouco mais por Hugo Chávez. O jeitinho venezuelano de preservar sua democracia na marra tem dessas licenças poéticas. A lei é soberana, desde que não contrarie as conveniências do espírito bolivariano, encarnado no coronel-presidente. Diante desse truque da esquerda bandoleira, o Brasil poderia até ter deixado passar, ter fingido que não viu, ter mudado de assunto. Mas não: ergueu-se a voz do Itamaraty, sacudindo o Barão do Rio Branco nas catacumbas, para anunciar que o governo da companheira Dilma apoia o contrabando político do companheiro Chávez.
A solidariedade é compreensível. São dois projetos - o que governa o Brasil e o que governa a Venezuela - irmanados no mesmo princípio essencial: não largar o osso, custe o que custar. Nunca é demais lembrar que o Itamaraty, na era do governo popular, segue a linha doutrinária de Marco Aurélio Garcia - aquele flagrado comemorando com gestos obscenos (o clássico "top-top") a notícia de que as duas centenas de mortes no acidente da TAM se deveriam a falhas do avião, e não do governo.
A escala de valores dessa turma, como se vê, obedece a códigos humanitários muito especiais. Também ficou na história - ou melhor, não ficou, porque o Brasil esquece tudo - a declaração do então ministro da Previdência e prócer do PT, Ricardo Berzoini, durante uma operação para recadastramento de aposentados do INSS. Depois de insistir em obrigar velhinhos de 90 anos a penar em filas imensas a céu aberto, Berzoini finalmente recuou diante das imagens de idosos desmaiando nas calçadas. E justificou o recuo, placidamente, dizendo que o "desgaste" seria grande. Com aposentados sob tortura nas ruas, o ministro se referia ao desgaste do PT. Eles só pensam naquilo.
É, portanto, absolutamente natural o apoio do Itamaraty ao cambalacho constitucional dos companheiros chavistas. O que importa é manter viva a lenda terceiro-mundista da revanche popular sobre as elites – conto de fadas que alimenta a mais formidável indústria do voto da história das Américas.
Foi sob essa mesma doutrina que Lula trocou carinhos em público com o sanguinário Muammar Khadafi, o falecido (linchado) ditador líbio que brilhava no presépio do antiamericanismo. Com Mahmoud Ahmadinejad, o tarado atômico do Irã, o governo popular foi mais longe, convidando-o para passear de queixo empinado em nossos quintais – como parte da pantomima de resistência contra o império ianque. Sem falar na comparação antológica do lulismo entre bandidos paulistas e presos políticos cubanos – para legitimar o apoio do PT a Fidel Castro.
E tome literatura progressista, com a aliança folclórica entre as "presidentas" Dilma Rousseff e Cristina Kirchner - na qual a brasileira banca ideologicamente os arroubos autoritários da colega argentina, em sua cruzada contra a liberdade de expressão. O mesmo plano de controle da mídia está firme no ideário do PT, e só não foi posto em prática (ainda) porque a imprensa brasileira é mais vigorosa. Mas a demagogia tarifária que apodreceu o setor elétrico argentino já foi devidamente importada, com as conseqüências devastadoras a que o Brasil hoje assiste nas empresas de energia.
O alinhamento do Itamaraty com mais esse golpe da democracia privatizada venezuelana não é só um ato vergonhoso, para enriquecer o folclore de um governo que fala com o mundo por meio do sectarismo obsceno de um Marco Aurélio Garcia. Esse gesto expressa a inequívoca tentação chavista do regime liderado pelo PT, que está há dez anos manobrando para subjugar o Estado brasileiro pelo aparelhamento político. O mensalão nada mais foi do que o capítulo mais escandaloso dessa doutrina.
Mas os brasileiros não se importam com a implantação desse parasitismo institucionalizado, e marcham para dar-lhe o quarto mandato presidencial consecutivo, visando ao aperfeiçoamento da obra.
O Itamaraty pode apoiar todos os golpes chavistas, assim como pode dar passaporte diplomático para Valdemiro e Franciléa, líderes da Igreja Mundial do Poder de Deus, alegando que isso seja de interesse nacional. Deve ser mesmo. Os interesses da nação têm obedecido a crenças que até Deus duvida.

FOLHA ESCALA MAIS UM PARA DESANCAR DILMA


:
Agora é Vinícius Torres Freire, que tenta reduzir a pó o governo Dilma. Segundo ele, a presidente não entende de economia, não tem ministros competentes, só construiu puxadinhos de papelão e toma atitudes que "não fazem lé com cré". Ele reclama até do aumento do salário mínimo. E tudo isso num só artigo
247 - Aparentemente, o comando na Barão de Limeira, em São Paulo, onde funciona a sede da Folha de S. Paulo, é apontar todos os canhões na direção da presidente Dilma. Agora é Vinícius Torres Freire, colunista de economia que, até recentemente, era percebido como um nome mais à esquerda no jornal quem tenta reduzir a pó o governo Dilma. Num só artigo, ele reclama de tudo – até do aumento do salário mínimo –  e reclama da "escassa noção de macroeconomia" da presidente. Leia abaixo:
FOLHA DE SP - 20/01
Dilma promete crescimento 3S, "sério, sustentável e sistemático", mas dedica-se a maquiagens
DILMA ROUSSEFF construiu uns puxadinhos no primeiro ano de governo. Feios, mas talvez apenas uns improvisos provisórios de política econômica. Daí passou a erguer barracos e ora se muda para umas caixas de papelão na calçada.
Barraco de papelão, ou simplesmente papelão, é o que parecem os remendos nas contas do governo, maquiadas no final do ano passado com uns artifícios que não enganariam ninguém nem resolveriam problema concreto algum.
Em seguida, Dilma mendigou uns adiamentos de reajustes de ônibus e metrô com governos de São Paulo e Rio. Queria evitar a impressão de descontrole, uma alta de preços que estourasse a meta nos próximos meses, o que deixaria o governo ainda mais mal falado. Mas, para usar uma frase original, a emenda piorou o soneto.
Dilma ameaça desmoralizar a ideia de que existem políticas econômicas alternativas àquelas pregadas por economistas-padrão, mercadistas e viúvas do governo FHC. Remendos e puxadinhos não são alternativas.
Toma atitudes que não fazem lé com cré. Talhar a indecente taxa de juros básica a machadadas poderia ser boa coisa. Mas não funciona se o governo gastar mais, seja diretamente ou por meio de endividamento com o objetivo de turbinar os bancos públicos. Não funciona porque alimenta a inflação, que o governo quer disfarçar. Mais um pouco (de inflação) e os juros vão subir, sem que o país tenha saído do lugar.
O governo gasta mais e mal, de resto, vitaminando o consumo, sem investir mais.
De certo modo, ainda tênue, as medidas econômicas de Dilma lembram bobagens dos governos de esquerda, "populares", da América Latina da segunda metade do século 20, ruins não porque "populares", mas porque destrambelhados e ingênuos. Queriam distribuir renda rapidamente, por vias tortas, o que dava em inflação, a qual tentavam domar com tabelamentos e coisas do gênero, o que dava em escassez.
Somadas, carestias e carências davam em tumulto e, assim, serviam de desculpa para a direita dar golpes.
Estamos, claro, muitíssimo longe disso. Mas Dilma também tenta controlar lucros e preços, fazer "política de rendas" (na Petrobras, em tarifas públicas, com bancos etc.). Mexe em efeitos em vez de tratar das causas. Continuou a aumentar demais o mínimo, para o que ainda houve alguma folga no governo Lula, mas não mais agora. A alta do mínimo ora ajuda a estourar as contas do governo e aduba a inflação.
Dilma não tem ministros capazes; não delega, pois, e se ocupa de muita coisa ao mesmo tempo, em geral de muita coisinha. Se presta a megalomanias (trens-bala) quando seu governo não consegue nem construir postes para transmitir eletricidade de usina que está pronta (quando falta energia no país); o investimento federal caiu desde que assumiu. Acha que pode "destravar" o investimento no país pedindo dicas a uns empresários e dando safanões noutros.
Tem escassa noção de macroeconomia, mas se acredita guia genial da política econômica; não tem planos de médio prazo. Achou que perderia tempo se dedicando a reformas grandes e agora se perde em miudezas. Seu governo parece não ter tempo senão para maquiagens, mas parece descabelado

GURU DA DIREITA VÊ PLANO MACABRO DE DILMA E LULA


:
Conheça Rodrigo Constantino, sócio do Instituto Millenium, colunista do Globo, amigo de Reinaldo Azevedo e autor do livro "Privatize, já". Num vídeo impressionante, ele consegue ser contra o Bolsa-Família, a venda de carros e celulares, a expansão do crédito e os juros baixos. Ele afirma que o Brasil já é um país socialista e que Lula e Dilma plantaram diversas bombas-relógio que causarão uma crise de proporções apocalípticas
247 - A direita brasileira tem um guru em formação. Seu nome é Rodrigo Constantino e ele é autor do livro "Privatize, já". Graças a ele, recebeu elogios de Reinaldo Azevedo, ganhou uma coluna no Globo e passou a ser sócio do Instituto Millenium, onde se reúnem colunistas bem colocados nos grandes jornais brasileiros, como Merval Pereira, Guilherme Fiúza, Marco Antonio Villa e Carlos Alberto Sardenberg, entre outros.
O pensamento de Constantino está reunido num vídeo, que foi apelidado no YouTube de Manual de Destruição do Brasil. Segundo ele, Lula e Dilma plantaram uma crise de dimensões apocalípticas, que em breve explodirá. No vídeo, ele consegue ser contra o Bolsa-Família, a venda de carros e celulares, a expansão do crédito, o Minha Casa, Minha Vida e os juros baixos.
Vale a pena assistir. Nem que seja por mera diversão:

Falta eventual de luz diminuiu no Brasil entre 2001 e 2012

Não basta lamentar um pseudo tipo de jornalismo que é feito cotidianamente no Brasil através da mais pura vigarice, de uma tentativa revoltante de enganar o público veiculando informações falsas, incompletas, distorcidas ou até mesmo escandalosamente omitidas.
Cabe, pois, ao cidadão engajado na luta por informação de melhor qualidade no país combater tais práticas fazendo o contraponto, pegando no pé de quem faz isso e não largando mais, porém sempre de forma leal, justa, civilizada e honesta.
Nesse aspecto, a objetividade é um caráter fundamental da notícia. Quanto mais seu autor dá voltas para chegar ao ponto, menos tem a dizer. É o que ocorre com notícia veiculada em destaque no UOL, conforme a imagem acima.
Fato: o portal de internet do Grupo Folha informa que a falta de energia episódica que sempre ocorreu aqui e sempre ocorrerá em qualquer parte, variando apenas a freqüência com que isso acontece, teve o maior aumento em três anos.
Não é mentira, mas não é toda a verdade. Faltou uma informação para que o público pudesse mensurar se é verdadeira a insinuação contida na notícia de que está havendo algum problema mais sério com a geração e a transmissão de energia no Brasil.
Descendo à matéria em questão, ela informa ao distinto público, já no primeiro parágrafo, que “Os consumidores brasileiros tiveram de conviver em 2012 com um recorde incômodo: o de cortes de luz”.
Recorde? Que tipo de recorde?
Sim, a matéria informa que é um “recorde” em três anos, mas não informa que, em relação ao período que originou o termo “apagão” (2001/2002, quando o Brasil teve que racionar energia), estamos proporcionalmente sofrendo menos com aquela boa e velha falta de luz que costuma ocorrer durante rápidas tempestades ou mesmo em razão de falhas na transmissão de energia como incêndio, curto circuito etc.
Veja o gráfico abaixo, publicado na matéria da Folha em questão.
A matéria do UOL (manchete de primeira página da Folha de São Paulo de 19 de janeiro de 2013), como se vê, diz que, em 2001 e 2002, quando o país teve que racionar energia durante cerca de um ano, ocorreram, respectivamente, 157 e 194 blecautes episódicos – então decorrentes de escassez de geração e transmissão de energia elétrica –, enquanto que, em 2011 e 2012, agora sem escassez de geração e transmissão, ocorreram, também respectivamente, 221 e 241 blecautes daquela natureza.
Ora, a conclusão óbvia, assim, é a de que a situação, hoje, é ainda pior do que a de 2001/2002, certo?
Errado. A situação é muito melhor porque, como o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, informou em entrevista coletiva à imprensa no último dia 8 (há, portanto, meros 11 dias), “De 2001 a 2012 a capacidade instalada de geração de energia cresceu 75% no Brasil, tendo havido um “Aumento de 150% na capacidade instalada de termelétricas, excluindo usinas a biomassa e nuclear”. E, como se não bastasse, o presidente da EPE (criada no governo Lula para planejar a oferta de energia no país)  informa que “Cerca de 85% dessa expansão ocorreram nos últimos dez anos”.
Ora, se a capacidade de geração de energia cresceu 75% no Brasil de 2001 até agora – e se 85% desse crescimento ocorreram nos governos Lula e Dilma (últimos dez anos), há que atualizar os pesos de 157 blecautes em 2001 e de 194 em 2002 para que possam ser comparados com os que ocorrem hoje.
Assim, 157 “apagões e apaguinhos” (by Folha) em 2001, hoje equivaleriam a 274 apagões, e 194 em 2002, hoje equivaleriam a 339,5. Assim, os 221 blecautes de 2011 representam uma queda de 20% em relação a 2001, e os 241 do ano passado uma queda de 29% em relação a 2002.
Mas isso não é o principal. A relação entre a geração de energia hoje e em 2001/2002 é muito melhor, razão pela qual houve racionamento naquele período e hoje não há, pois estamos gerando mais energia do que a demanda e não menos, como naquela época.
E como prova de que é assim, o presidente da EPE informa que, em relação ao período do racionamento de energia, hoje “Triplicou a capacidade de o Nordeste, onde as previsões são de menor volume de chuvas,  importar energia  de outras regiões
Tolmasquim ainda afirma que “O Nordeste ficou menos vulnerável porque pode contar com as outras regiões”. E que isso se deu “Porque houve melhora na rede de transmissão de energia”.
Sempre segundo o presidente da EPE, “Antes de 2001, implantavam-se, em média no Brasil, 1 mil quilômetros de linhas por ano” e, “Nos últimos dez anos, média tem sido de 4,3 mil quilômetros de linhas de transmissão implantadas por ano”.
Enfim, esses são os dados corretos. Não há aumento de blecautes ou ameaça de racionamento no Brasil. A matéria da Folha que o UOL está martelando em sua home no momento em que escrevo, é falsa como uma nota de três reais.


sábado, 19 de janeiro de 2013

KEYNES, HEGEMONIA E OS ZUMBIS DA HISTÓRIA





Um afoito  exército está à espera de ordens nas redações. Enerva-se nas baias. Adestrado, cevado no cocho neoliberal,  quer trotar seus dotes; reclama serviço. 'É preciso travar Lula!"  --antes que ele destrave o país, os investimentos etc. As ventas cospem impaciência. O conservadorismo brasileiro detém os meios; mas faltam-lhe os fins, o discurso claro, convincente; a meta crível e pertinente. Clareza e votos são imiscíveis no seu caso. A transparência, ao contrário, favorece o governo a avançar na reordenação do desenvolvimento brasileiro. O que falta, então, para conquistar a confiança do capital privado, por exemplo, e os projetos acontecerem? Talvez a resposta não esteja na palavra confiança. Ou talvez aquilo que o keyenesianismo chama de confiança tenha uma tradução mais completa na palavra hegemonia. A  confiança, vista desse mirante,  não é um saldo cumulativo de incentivos fiscais, mas um campo conflagrado. Nele os vivos disputam o futuro com zumbis. O requisito para vencê-los é não temer o passo seguinte da história.(LEIA MAIS AQUI)



Manchetinha safada

Capa do jornal Folha de São Paulo

Evidentemente, não há outra classificação para esta manchete, a principal da 1ª página do Folhão de hoje: "SP tem 661 mil pedidos médicos na fila de espera". Tudo bem, é notícia - e triste -, mas lendo-se a matéria descobre-se que se trata de uma lista só da Prefeitura da capital, de pacientes inscritos para atendimentos em órgãos de saúde municipais.
Por que a Folha de S.Paulo não dá a lista do Estado? Os corredores dos hospitais públicos e demais instituições de saúde estaduais estão cheios de pacientes e de macas com doentes à espera de vagas para tratamento e internação.
É só conferir no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, na capital (HC-FMUSP), e nos outros hospitais públicos do Estado na capital e no interior, para ver o apagão, o estado de calamidade pública a que chegou a saúde em São Paulo nestes 20 anos em que o Estado é governado pelos tucanos.
Jornal parece querer proteger o governo tucano. Será?
Parece. Mas, assim, da forma como a Folha dá a notícia abordando os pacientes à espera por atendimento nos hospitais e postos de saúde da capital, parece proteção ao governo tucano do Estado - será ?!!! - e um ensaio de que vai fazer oposição declarada ao novo prefeito paulistano, Fernando Haddad (PT).
Sem lhe dar sequer aquela trégua que os jornalões costumam dar às autoridades que chegam, para que elas digam a que vieram.
A propósito e embora os assuntos sejam tristes, um leitor deste blog conta hoje que viu na GloboNews que os responsáveis pelas ONGs integradas à Rede Nossa São Paulo vão entregar ao prefeito Haddad os resultados da pesquisa Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (iRBEM) e cobrar-lhe o descalabro da segurança pública em São Paulo. Só que o responsável pela segurança pública paulista é o governo do Estado...
Os dois pesos e duas medidas de sempre
O mesmo leitor contou ter comprovado os dois pesos e duas medidas com que o Sistema Globo de Comunicação se porta em relação aos governos que apoia e os do PT aos quais faz oposição.
O leitor disse ter visto na Globo News que o ex-prefeito de São Luis/MA João Castelo deixou o material escolar enviado pelo Ministério da Educação apodrecer. E que outro prefeito, este de Meridiano (SP), Aristeu Baldin, mandou uma ambulância da cidade percorrer 2 mil km, levando a mudança da filha de uma funcionária municipal.
Nos dois casos, a GloboNews não informou o partido dos prefeitos. Eles são do PSDB. Já se fossem prefeitos do PT, vocês sabem...