Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

É injusto acusar Dilma de “estelionato eleitoral” por nomear Levy

JN domésticas 1

A crescente possibilidade de a presidente Dilma Rousseff nomear Joaquim Levy como ministro da Fazenda gerou especulações sobre seu segundo governo que desafiam os fatos. Eis no que consiste o estardalhaço em torno dessa ainda hipotética, mas provável nomeação.
Ao longo de 3 anos, 10 meses e 25 dias, o governo Dilma foi acusado de tudo, menos de ortodoxia econômica. Muito pelo contrário: a administração da economia vem sendo acusada pela direita midiática de ser “bolivariana”, no mínimo.
Ainda que a crise econômica internacional venha a impor ajustes macro e microeconômicos menos desenvolvimentistas, cobrar que o governo Dilma não faça o que fariam Aécio Neves ou Marina Silva é, no mínimo, uma impropriedade.
Em primeiro lugar, ninguém ousará dizer que Dilma ou Levy darão “independência” ao Banco Central – o que, no frigir dos ovos, tratar-se-ia não de independência, mas de dependência do sistema financeiro, que passaria a mandar na economia.
Como acusar Dilma de pretender descumprir o programa econômico de governo que venceu a eleição presidencial se não se vislumbra tal possibilidade? Com base na provável indicação de Levy? É muito pouco.
O programa econômico de governo que Dilma apresentou ao longo da recém-terminada campanha eleitoral pregou, basicamente, ajustes na economia, sim. Ela disse com todas as letras, em vários debates, que faria os ajustes que se impõem, mas que, à diferença de Aécio ou Marina, faria paulatinamente, de forma a não gerar sacrifícios insuportáveis.
Dilma mandará seu ministro da Fazenda implantar ajustes monetário (juros) e fiscal (impostos) e cortes no orçamento, entre outros. Só que de uma forma menos dolorosa. E ela disse que faria isso durante a campanha. Está gravado em vários debates.
Só para refrescar algumas memórias: enquanto Armínio Fraga, durante a campanha, pregava “redução do papel dos bancos públicos na economia”, inclusive dizendo que não sabia se iria “sobrar muito” desses bancos, Dilma dizia que, em seu segundo mandato, as instituições continuariam tendo um papel importante.
Esses são apenas alguns pontos de tudo que Dilma prometeu durante a recente campanha eleitoral e que será lembrado aqui ao longo do tempo, inclusive para cobrar promessas.
Contudo, achar que Dilma acabará com o papel que os bancos públicos têm tido ou que promoverá um choque monetário ou fiscal do tamanho e com a velocidade com que Aécio ou Marina implantariam só porque seu novo ministro é de linha mais ortodoxa, vai uma longa distância.
O governo explica a quem quiser ouvir – e este Blog sugere que os críticos à esquerda busquem tal informação junto ao governo – que o papel de Levy será o de implantar as medidas necessárias de austeridade, mas que quem decidirá em que ritmo elas ocorrerão será Dilma.
E, mais uma vez, vale repetir que Dilma disse claramente, durante a campanha, que medidas de ajuste viriam, porém em ritmo e intensidade muito diferentes do que fariam seus adversários.
A proposta de Marina e Aécio era a de dar uma paulada na inflação e no ritmo da economia enquanto ambos criticavam o baixo crescimento dos últimos anos. Qualquer um deles no poder, porém, subiria fortemente os juros, provocando uma recessão profunda, e atribuiria o desastre ao governo anterior, com apoio da mídia.
A filosofia dessa gente é a de Maquiavel, de fazer a maldade toda de uma vez e as bondades em doses homeopáticas. Vimos isso ao longo dos dois governos Fernando Henrique Cardoso. A proposta de Dilma, porém, é muito diferente.
O governo fará as “maldades” em suportáveis doses homeopáticas, evitando forte aumento do desemprego e arrocho salarial, enquanto que as “bondades” serão feitas o quanto antes, mas dentro do possível.
Adeus, Maquiavel.
Dessa forma, evitar-se-á que milhões de empregos sejam perdidos, que os salários se tornem iníquos, que a economia sofra o tal “freio de arrumação” que integra as taras de dez entre dez neoliberais.
Onde está, portanto, o “estelionato eleitoral” sugerido por campanhas que pedem que Dilma cumpra o programa de governo com o qual venceu a eleição? Na nomeação de Levy? Bobagem.
Segundo o governo, Levy será o homem certo para apontar áreas vitais para corte, o que não quer dizer que tudo que detectar e apontar será encampado por quem decide: Dilma Rousseff. Ela determinará a velocidade e a intensidade dos ajustes. Levy dirá quais são.
As campanhas contrárias à indicação do dito “discípulo de Armínio Fraga” – carimbo que carece de materialidade – para a Fazenda são bem-intencionadas, mas carecem de memória sobre o que foi que Dilma prometeu durante a campanha eleitoral.
Para demonstrar como são injustas as acusações a Dilma, este Blog reproduz, abaixo, reportagem do Jornal Nacional sobre a nova libertação de escravos durante o governo dela.  Quem promove tal feito não pode ser acusado dessa forma.

JN domésticas

TEORI COBRA EXPLICAÇÕES DE MORO SOBRE DEPUTADOS

A prova do pudim: investimentos públicos e políticas contracíclicas reduzem drasticamente as disparidade de desenvolvimento humano entre as regiões metropolitanas brasileira; diferença entre extremos cai de 22,1% para 10,3%, na década de governos do PT, diz PNUD.


 Alerta: relatório da conservadora OCDE desta 3ª feira alerta que o crescimento mundial continuará a patinar em 2015, com desemprego superior aos níveis pré- crise; embora a liquidez mundial persista elevada, OCDE cobra medidas fiscais expansionistas para o mundo sair da estagnação neoliberal


 Lição chinesa: crescendo a 7% ao ano, a China cortou a taxa de juro em 0,25% na última 6ª feira e voltou a cortar as taxas de curto prazo nesta 3ª feira para reverter a desaceleração do consumo e do investimento


 A grande obra do arrocho: há seis anos sob o tacão ortodoxo, vendido aqui como a salvação da lavoura, a Espanha acumula um feito explosivo; seis em cada dez jovens planejam deixar o país em busca de emprego e futuro


 Thomaz Piketty adverte: a insistência no arrocho levará a extrema direita a controlar regiões inteiras da França nas eleições de 2015; 'será algo violento'

cartamaior










segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Katia Abreu, Joaquim Levy e o garotinho que pôs fogo na casa

reaças


Quando meu terceiro filho tinha 4 anos – hoje tem 27 –, certo dia encontrou, no quarto das irmãs, um objeto que o fascinava: uma caixa de fósforos. Estava sobre a cama de uma das meninas por alguma dessas razões inexplicáveis. Sobre a mesma cama também havia uma colcha rendada, recém-saída do varal.
O garotinho, os fósforos e a colcha foram ingredientes de uma quase tragédia.
Curioso como toda criança de quatro anos, meu filho começou a riscar fósforos até que um dos palitos incandescentes caiu sobre a colcha altamente inflamável. Vendo o fogo aumentar, o menininho fechou a porta do quarto das irmãs e foi ter com elas e com a mãe na sala, onde assistiam tevê.
Eu estava trabalhando, naquele dia, e minha mulher tinha acabado de buscar as crianças na escola. Dera almoço a elas e depois ficaram assistindo “sessão da tarde”. Enquanto o fogo comia solto no quarto das meninas, meu filho tratava de beijar a mãe, talvez tentando atenuar o castigo que intuía que sobreviria por ter tocado fogo na colcha.
Em alguns minutos, minha mulher e filhas começaram a sentir cheiro de queimado e, inicialmente, atribuíram-no à fritura dos bifes que havia pouco tinham degustado. Logo, porém, a fumaça começou a escapar por debaixo da porta do quarto.
Minha mulher se aproximou, girou a maçaneta, a porta se abriu e por pouco uma língua de fogo não lhe lambeu o rosto – ela desviou a cabeça instintivamente.
Apesar de ninguém ter se ferido, o prejuízo foi total. Perdemos tudo. Móveis, eletrodomésticos, roupas… Tivemos que ficar 15 dias num hotel para montar a casa de novo.
Conto esse episódio porque lembrei dele quando comecei a ver a escandalização de vários setores da esquerda e dos movimentos sociais ante a suposta nomeação da senadora pemedebista Katia Abreu para o Ministério da Agricultura.
Em verdade, essa imagem vem me assolando desde junho de 2013, quando setores da esquerda foram às ruas fazer coro aos ataques da extrema-direita ao governo Dilma e ao PT.
Com frequência, a esquerda me parece aquele menininho de quatro anos que toca fogo em uma colcha sem ser capaz de refletir que aquela “arte” pode incendiar a casa toda ou, muito pior, matar sua família ou a si mesmo.
Mentes infantis têm pouca capacidade de reflexão…
Desde o início do ano, a Câmara dos Deputados já rejeitou 12 pedidos de impeachment de Dilma Rousseff, de acordo com o site Congresso em Foco. No período eleitoral, três solicitações foram apresentadas. Todos os pedidos foram rejeitados pelo mesmo motivo: inconsistência jurídica. Porém, foram feitos.
No Google, a expressão “impeachment de Dilma” soma 564 mil resultados. Durante o dia do segundo turno da eleição presidencial (26/10), os programas de “análise política” das grandes redes de tevê mostraram vários “analistas” falando sobre impedimento da presidente da República.
O candidato derrotado Aécio Neves e até pseudo aliados do governo Dilma, tal como o peemedebista Eduardo Cunha, falam em impeachment sem parar. O jornal O Estado de São Paulo, sem meias palavras cravou no título de seu editorial: “Crime de responsabilidade”. Ou seja: o fundamento jurídico para o impeachment.
O jornalão paulista em cuja sede formou-se o golpe de Estado de 1964 não esperou o fim das investigações da Operação Lava-Jato para formular a tese de que Dilma e Lula “tinham que saber” de um esquema de corrupção que atravessou décadas sem que jamais governo algum tivesse investigado.
Aliás, para a golpista família Mesquita governantes só têm que saber de casos de corrupção quando são governantes de esquerda – jamais esse pasquim reacionário disse que o governador Geraldo Alckmin ou o ex-governador José Serra “tinham que saber” do cartel do metrô que fez do sistema de transporte urbano da capital paulista o que é hoje.
Além do golpismo açulado pela Operação da Polícia Federal supracitada, de algumas semanas para cá surgiu outro “caminho” para derrubar o governo recém-eleito. A entrega da análise das contas de campanha de Dilma para um dos maiores inimigos do PT, o ministro do STF Gilmar Mendes.
Por fim, milhares de tarados de extrema-direita estão nas ruas pedindo golpe militar abertamente enquanto agridem qualquer pessoa que, por alguma fatalidade, decidiu vestir uma peça de roupa vermelha e teve o azar de passar perto deles naquele dia.
No fim da semana passada, vazou para a imprensa a mera hipótese de a senadora Katia Abreu e o secretário do Tesouro do governo Lula Joaquim Levy serem convidados para o pilotar, respectivamente, o Ministério da Agricultura e o Ministério da Fazenda.
A esquerda se desesperou. Setores do próprio PT, movimentos sociais etc. começaram a alegar “decepção”, “desalento” etc. O MST chegou a ocupar uma propriedade em protesto. Isso porque não há anúncio oficial nenhum dessas nomeações de ministros, até o momento em que escrevo.
Imagine, leitor, se as nomeações fossem oficiais…
Se tais nomeações se concretizarem, suspeito de que, tal qual nas “jornadas de junho” ou nos protestos contra a Copa, grupos de esquerda compartilharão as ruas com a extrema-direita para acuar o governo.
Assim como em meados de 2013 e de 2014, a direita saberá aproveitar a infantilidade da esquerda e se unirá a ela nas ruas, salivando diante da fragilidade política do governo agora aumentada.
As possibilidades de golpe “paraguaio” não são desprezíveis, ainda que não seja tão fácil. Tudo dependerá de a esquerda não ficar “decepcionada” e “desalentada” a ponto de abandonar o governo por ter nomeado dois ministros no âmbito de uma coalização que tem participação de partidos de direita como PMDB ou PP, entre outros.
Sem essa coalizão com partidos moderados de direita, a extrema-direita, ora unida umbilicalmente ao PSDB, estaria no poder. E não seria igual a setores da direita estarem na coalizão de Dilma, apesar do que muitos partidos de esquerda mais radicais diziam.
Na reta final do segundo turno da eleição presidencial, importantes lideranças de partidos de esquerda que se opuseram aos governos do PT desde 2005 apoiaram publicamente a reeleição de Dilma por saberem que se Aécio vencesse teríamos no Brasil um governo que massacraria os movimentos social e sindical.
Marcelo Freixo e Jean WIllys, do PSOL, ou Guilherme Boulos, do MTST, ou João Pedro Stedile, do MST, por exemplo, apoiaram publicamente a reeleição de Dilma por saberem que nunca passou de conversa infantil aquela história de que PT e PSDB são “a mesma coisa”.
O fato incontestável, é o seguinte: a esquerda brasileira é fraca. Não tem votos.
Outro dia, li artigo da ex-candidata a presidente pelo PSOL Luciana Genro na Folha de São Paulo. No texto, ela, que negou apoio a Dilma no segundo turno, martelou a tese de que PT e PSDB seriam “a mesma coisa”. O mais engraçado é que se gabou de o seu partido ter “dobrado” a bancada na Câmara dos Deputados.
Por “dobrar” a bancada, leia-se passar de três deputados para cinco…
Em São Paulo, a vitória estrondosa de Geraldo Alckmin e do seu PSDB – que fará os paulistas terem um Poder Executivo imune à fiscalização de uma oposição arrasada – ocorreu devido às tais jornadas de junho e protestos contra a Copa.
Entenda, leitor: a população paulista – e, sobretudo, a paulistana – queria um governo que impedisse os grupos que, em meados de 2013 e 2014, torturaram a cidade com protestos, incêndios etc., tornando infernal a volta de trabalhadores para casa após uma extensa jornada de trabalho.
Enfim, o que está em jogo no Brasil, hoje, é a continuidade da democracia. Se a direita não for aplacada, dará o golpe. E terá sucesso. Os EUA reconhecerão o golpe no mesmo dia. Provavelmente, também a União Europeia.
O MST, por exemplo, deveria lembrar que foi sob o governo “social-democrata” do PSDB que ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás (1996), que encontrou grande apoio da mídia tucana, dos Estadões da vida e do próprio governo FHC.
Katia Abreu é um horror. Joaquim Levy, uma desgraça. Contudo, sinto-me mais seguro com eles trabalhando em um governo do PT do que em um governo do PSDB, onde poderiam pôr para fora todas as suas taras reacionárias enquanto o presidente da República aplaudiria.
Dilma e o PT dão aval de que a coalizão integrada por partidos de centro-direita não mergulhará de cabeça nos horrores direitistas. Dilma chefiará Abreu e Levy.
Se a esquerda não quer que os partidos conservadores que venceram a eleição junto com o PT influam e tenham participação no governo que ajudaram a eleger, poderia tratar de amadurecer, de entender que o Brasil é um país conservador, ainda. A esquerda precisa parar de agir como meu filho, 23 anos atrás.
Talvez, e só talvez, concessões à direita aplaquem o golpismo, evitando um caos político, social e econômico que se instalaria no país se os planos golpistas da mídia e do PSDB forem levados adiante.
As possíveis nomeações de Levy e Abreu talvez aplaquem dois setores que constituem o motor golpista no país: os ruralistas e os bancos. Se esses se conformarem com a continuidade do PT no poder, Dilma ganhará tempo para que o país atravesse a crise.
No que diz respeito à economia, a presidente conseguirá, apesar de Levy, evitar que o custo dos ajustes que a economia sofrerá recaiam exclusivamente sobre os trabalhadores. Levy poderá ser o principal ministro da economia, mas a chefe dele será Dilma Rousseff. Assim como de Katia Abreu.

Coimbra: FHC puxou o coro do Golpe! O preconceito está incrustado no PiG, no MP e no Judiciário !

A #VejaMenteQueNemSente, que tentou esconder o Aécioporto, mas o povão foi lá e escancarou. (Sugestão de Valdira de Holanda no Twitter)

O Conversa Afiada reproduz artigo de Marcos Coimbra, extraído da Carta Capital:

A DEMOCRACIA EM RISCO


A oposição à direita reage de forma arcaica ao resultado da eleição. Mistura preconceitos e invencionices jurídicas


por Marcos Coimbra


O ano de 2014 caminha para terminar de forma preocupante na política. Não era para ser assim. Há menos de um mês, realizamos uma eleição geral na qual a população escolheu o presidente da República, os governadores dos 26 estados e do Distrito Federal, um terço do Senado, a totalidade da Câmara dos Deputados e das Assembleias estaduais.


Mesmo em democracias consolidadas, momentos como aquele, em que todos são convocados a participar diretamente das grandes escolhas de um país, são esporádicos e precisam ser respeitados e valorizados. As eleições não são situações triviais, cujos resultados podem ser ignorados ou questionados por qualquer um, no dia seguinte. São solenes.


Por isso, é comum que o clima político se desanuvie depois de uma disputa eleitoral. Que cesse o embate entre os partidos e correntes de opinião e a sociedade tenha ambiente para meditar a respeito do pronunciamento dos cidadãos, para avaliá-lo e com ele aprender.


No Brasil, a normalidade democrática sempre foi exceção. O período atual, iniciado há não mais de 25 anos, já é o mais longo sem rupturas ditatoriais ou colapsos institucionais. A eleição geral de 2014 foi apenas a sétima em sequência, mas é feito inédito em nossa história.


E foi uma bela eleição. Quase 120 milhões de eleitores compareceram às urnas e depositaram seu voto em paz. Ninguém se queixou de haver sido coagido. Não houve irregularidades. Foi rápida e segura. E contemporânea em relação ao que de melhor existe em termos de transparência, lisura e correção nos processos eleitorais.


Em quase tudo, o Brasil mostrou-se capaz de igualar ou superar as mais sólidas democracias na capacidade de fazer eleições legítimas. Menos no comportamento de parte das oposições à direita. Ao contrário do eleitorado e das instituições, reagiram de forma arcaica e atrasada aos resultados.


Desde a hora em que ficou clara a derrota, insurgiram-se. Seu inconformismo em aceitar o simples fato de não contarem com o apoio da maioria da sociedade o levou a posições descabidas.


O primeiro sinal de sua inaptidão para o convívio democrático partiu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em declaração que deveria envergonhar alguém com sua biografia, colocou em dúvida a reeleição da presidenta Dilma Rousseff pela desqualificação daqueles que nela teriam votado. Valeu-se dos mais antiquados e reacionários preconceitos contra pobres e nordestinos (como se ele próprio não tivesse ficado muito feliz em receber o voto desses eleitores nas eleições nas quais disputou).

A seguir, o lastimável episódio da solicitação feita pela campanha tucana à Justiça Eleitoral de uma “auditoria” dos resultados da eleição (algo que a legislação nem sequer admite). No fundo, apenas outra forma de expressar a rezinga de FHC.


O terceiro passo do esforço de desqualificar a vitória de Dilma foi matemático, como se a legitimidade de uma eleição decorresse de alguma contabilidade. Como se alcançar frente maior ou menor fosse relevante, em qualquer lugar do mundo, para admitir ou arguir um resultado eleitoral.


Essa mistura canhestra de preconceitos, invencionices jurídicas e péssima aritmética seria apenas cômica se não fosse trágica. Se não tivesse o apoio da mídia hegemônica conservadora e se não tivesse contraparte na ação de segmentos autoritários espalhados na sociedade e incrustada em nichos da máquina pública, em especial no Judiciário e no Ministério Público.


Mundo afora, existem e procuram impor-se correntes de opinião antidemocráticas e intolerantes. Neonazistas assombram a Europa, os Estados Unidos não conseguem se livrardos supremacistas brancos, em muitos lugares o antissemitismo permanece vivo e perigoso. Lamentavelmente, o Brasil tem radicais de extrema-direita, a espalhar seus ódios e preconceitos. Um anticomunismo ridículo e a saudade da ditadura os identificam. Agora se acham no direito de questionar a eleição.


O PSDB precisa refletir a respeito de quem pretende representar. Fazer o têm feito e falar o que têm falado algumas de suas lideranças apenas serve para açular os ultraconservadores.


O paradoxo é que vêm de São Paulo os sinais de juízo e moderação tucanos. Na seção mineira, tradicionalmente conciliadora, vigora a disposição de botar lenha na fogueira.



Leia mais:

STF É REFÉM DO MORO


COLONISTA DA GLOBO CHAMA ELEITOR DE DILMA DE CORRUPTO

sábado, 22 de novembro de 2014

POR QUE SERÁ QUE FHC FOI CONTRA A CPI DA PETROBRAS?

O tucano que iluminou o Brasil

Semler
 Ricardo Semler tem o perfil tucano padrão. Rico, 55 anos, paulista, empresário de renome, é hoje vice-presidente da Fiesp, além de CEO (executivo-chefe) e sócio majoritário da empresa Semco S/A. E não tem apenas perfil tucano; é filiado ao PSDB. E das antigas. Filiou-se quando Franco Montoro presidia o partido.
Semler tornou-se conhecido por ter implantado em sua empresa fórmulas inovadoras de gestão empresarial. Sob sua gestão, o faturamento da empresa subiu de quatro milhões de dólares em 1982 para 212 milhões de dólares em 2003.
A revista TIME elegeu o executivo paulista como um dos “100 Jovens Líderes Globais”, em 1994. O Fórum Econômico Mundial também o apontou em trabalhos semelhantes. Foi exaltado como gestor pelo Wall Street Journal – como “Empresário do Ano na América Latina”, em 1990, e “Empresário do Ano no Brasil”, em 1992.
Semler formou-se em Direito na USP e estudou Administração em Harvard. Além disso, escreveu livros que se tornaram sucesso em vendas no Brasil e exterior.
Na última sexta-feira (21), o empresário surpreendeu o país com um artigo no jornal Folha de São Paulo na linha super sincero. No texto, reconheceu que, apesar da gritaria hipócrita entoada hoje sobre corrupção – sobretudo na imprensa –, nunca se roubou tão pouco neste país.
O artigo em questão se espalhou como fogo e provocou polêmica apesar de não conter novidade. Tivesse sido escrito por um petista ou mesmo por um cidadão sem coloração partidária, teria passado batido. O que fez o texto repercutir tanto foi o fato de seu autor, declaradamente tucano, contrariar o discurso de seu partido.
O artigo de Semler gerou polêmica a partir do título: “Nunca se roubou tão pouco”. Dali em diante, sem abrir mão do discurso tucano contra o PT – de que, ao longo dos governos Lula e Dilma, houve corrupção e barbeiragens na economia –, o empresário tucano demonstrou que é possível defender as próprias bandeiras políticas e ideológicas sem cair no mau-caratismo.
O discurso de Semler em um texto literalmente antológico e que, a esta altura, quem se interessa por política com certeza já leu, se fosse entoado por Fernando Henrique Cardoso faria dele alguém que seria respeitado pela maioria, em vez de repudiado.
Infelizmente, à diferença do correligionário no PSDB, FHC se entregou à politicagem mais barata que se possa conceber, causando surtos de indignação quando se dá ao desfrute de fazer acusações de corrupção aos adversários políticos. Justamente ele, FHC…
Alguns dirão que Semler se contradiz porque reconhece que a corrupção desbragada que existia antes de o PT chegar ao Poder também existiu no governo federal de seu partido e, à diferença de hoje, não foi investigada.
Pela lógica binária, portanto, se o empresário reconhece que sob o PT a corrupção diminuiu, em vez de ter votado em Aécio Neves deveria ter votado em Dilma Rousseff. Este blogueiro, porém, entende que cada um tem o direito de votar de acordo com seus próprios interesses.
Explico: apesar de achar que os empresários brasileiros estarão mais bem-servidos por um governo que não joga nas costas do povo o preço da crise internacional, pois assim esse povo continuará movimentando a economia, Semler vive entre os ricos empresários paulistas, relaciona-se com eles, faz negócios com eles e com o resto do mundo capitalista. Por certo, não seria bem aceito em seu meio se fosse filiado ao PT, ao invés de ao PSDB.
Também dirão que Semler poderia não integrar partido algum. Mas como, se tem uma visão política tão clara e saudável como a que demonstrou em seu artigo?
Em minha visão, Semler é mais útil ao país sendo filiado ao PSDB do que ao PT. Por que? Simplesmente porque constitui uma reserva de sensatez e espírito público em uma agremiação que vem se perdendo em hipocrisia e cegueira política, ideológica e social.
Trocando em miúdos: ter gente como Semler dentro do PSDB ajuda a impedir que o partido piore ainda mais, mesmo que esse empresário provavelmente tenha pouca influência junto às hostes tucanas.
Ao ler o artigo de Semler, é quase impossível não sentir-se tentado a ser tão sincero e isento quanto ele. Aliás, sempre digo que isenção é para poucos – e sempre para os mais lúcidos e inteligentes.
Nesse aspecto, nós – blogueiro e leitores concordantes ou discordantes – que vivemos a política tão intensamente sentimos uma ponta de constrangimento porque estamos a anos-luz de sermos capazes de gesto igual ao de Semler.
Aliás, para um simpatizante ou um filiado tucano é muito mais fácil ser sincero, neste momento, do que para um equivalente petista, pois o governo recém-eleito de Dilma Rousseff está sob ameaça de golpe “paraguaio”, de modo que quem não se dá ao luxo da sinceridade de reconhecer as falhas do PT, como o empresário reconheceu as do PSDB, é porque sabe que não dá para ficar criticando o partido do governo sem ajudar aqueles que querem estuprar a democracia e jogar fora os votos de 54 milhões de eleitores.
Contudo, façamos uma concessão ao que chamo de o bom PSDB, ou seja, o PSDB que não existe mais, o PSDB daquele que Semler disse que assinou sua ficha de filiação ao partido, Franco Montoro, ou o PSDB do inesquecível Mario Covas.
Lembro-me de Montoro em 1982, lutando contra Reinaldo de Barros, candidato de Paulo Maluf ao governo de São Paulo, em um debate da campanha eleitoral para governador, naquele ano – a primeira eleição de governador após a ditadura.
O filho de Montoro André, é uma decepção. Politiqueiro, incapaz de um mísero gesto de sinceridade. Mas o pai, ah, o pai… Franco Montoro era daqueles políticos que já não se faz mais, assim como Mario Covas.
Mesmo os mais jovens devem se lembrar de Covas, em 2000, quase consumido pelo câncer interrompendo o tratamento derradeiro para apoiar Marta Suplicy contra Paulo Maluf no segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo apesar de seu candidato, Geraldo Alckmin, ter sido derrotado no primeiro turno.
Aliás, lembro-me de Covas, na campanha a governador de São Paulo em 1998, sendo traído por FHC, que apoiou Maluf escancaradamente contra um correligionário. Quanta diferença entre Covas e FHC…
FHC Maluf
Aliás, votei em Mario Covas algumas vezes. No primeiro turno de 1989, pois então eu achava Lula “muito radical” – apesar de que votei no petista no segundo turno, contra Collor –, e quando a escolha foi entre o mesmo Covas e Maluf.
E, em 1982, é claro que votei em Montoro contra Reinaldo de Barros.
Semler resgatou o PSDB decente e social-democrata que poderia existir, mas que foi corrompido por FHC e se tornou a excrescência que é hoje. Um partido ligado à extrema-direita e povoado por ricaços insensíveis, racistas e egocêntricos.
Quanto ao PT, Semler tem lá sua dose de razão. Rendeu-se ao establishment, em grande parte. Mas enxergo que o fez porque não havia alternativa – ou melhor, havia: entregar o país a uma direita das piores que há no mundo.
Apesar de o PT ter admitido gente como um André Vargas em suas fileiras, apesar de ter apelado ao mesmo caixa 2 que o PSDB e todos os outros partidos sempre apelaram, ainda é o partido que tem a proposta mais aceitável para o país.
O que me leva a apoiar o PT tão decididamente – e estou certo de que Semler entende motivos como o meu – é que, apesar dos pesares, o partido tem uma proposta invencível: divide melhor os sacrifícios que o país tem que fazer.
Por fim, um tucano iluminar de forma tão digna e decente o país, como fez Semler, permite-me fazer uma concessão à sinceridade: talvez devamos, tucanos, petistas etc., refletir que ninguém é necessariamente bom ou mau só por ser petista, tucano, corintiano ou palmeirense.
*
Leia, abaixo, o artigo antológico de Ricardo Semler publicado na Folha de São Paulo de 21 de novembro de 2014

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