Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Os EUA por trás do Golpe no Brasil Como os americanos ganharam com a queda da Dilma

Black Friday BR.jpg
Conversa Afiada reproduz artigo de Brian Mier, geógrafo norte-americano e editor da Brasil Wire (clique aqui para ler o texto original em inglês):
Os Estados Unidos e o Golpe de 2016
O que sabemos, o que não sabemos e o que podemos deduzir sobre o papel de hegemonia geopolítica no “golpe suave” que retirou a Presidenta Dilma Rousseff e seu governo.
Durante uma visita recente a Porto Alegre, o professor e escritor cubano Raúl Antonio Capote Fernandéz falou sobre o processo de 20 anos de recrutamento que resultou no Projeto Gênesis da CIA. O objetivo da CIA era de fomentar um “golpe suave” em Cuba, utilizando um aplicativo, parecido com Twitter, para gerar descontentamento com o governo cubano e, através do financiamento e capacitação para artistas, estudantes e professores (utilizando-se de ONG’s) criar um partido de oposição de falsa esquerda. Fernandéz falou que estratégias parecidas eram aplicadas na Venezuela, Irã e Líbia e continuavam a ser implementadas em muitos outros países no terceiro mundo. Ele falou, também, que uma estratégia-chave do “golpe suave” é solapar os pilares de um governo até que ele imploda, gerando caos. “Com o país em caos,” ele disse, “é possível recorrer a meios mais extremos.” Fernandéz relatou que o projeto Gênesis foi baseado nas teorias de Gene Sharp sobre o “golpe suave”. No caso cubano, o projeto da CIA enfraqueceu em 2006, quando Fidel Castro renunciou. De acordo com Fernandéz, os fatores que causaram o fracasso do plano em Cuba foram: 1) O Agente Darsi Ferrer desistiu dos seus planos de participar da geração de notícias falsas sobre o “caos em Cuba” que seriam espalhadas nas companhias de mídia americanas em 2006; 2) Os EUA subestimaram a inteligência do povo cubano; 3) a má compreensão sobre a revolução cubana, tida apenas como o culto à personalidade construído sobre Fidel Castro ao invés da expressão da vontade coletiva da grande maioria da população cubana; e 4) o fato de que a inteligência cubana sabia sobre o projeto o tempo todo e a CIA, inadvertidamente, contratou um agente duplo para gerenciar Projeto Gênesis.
Por uma questão retórica vou supor que Fernandéz está falando a verdade e vou procurar fazer alguns paralelos entre a tentativa de “golpe suave” fracassado em Cuba e o “golpe suave” brasileiro de 2016, com o intuito de lançar alguma luz sobre o possível envolvimento do estado norte americano em todo este processo. Quando eu me refiro ao estado norte americano, penso no que Buci-Glucksmann chama de o “estado expandido” - não apenas o governo e suas instituições, mas a mídia comercial, o setor empresarial, partidos políticos e instituições de ensino que suportam tal estado.
A primeira pergunta que farei é: Como os Estados Unidos podem se beneficiar de um golpe suave no Brasil? Algumas possíveis razões estão abaixo:
1) Petróleo. Brasil tem enormes depósitos de petróleo na bacia de Santos, o pré-sal, que antes do golpe de 2016 estavam nas mãos de uma empresa que, embora seja de capital misto, continuava 100% brasileira, a Petrobras. Depois do golpe, a Petrobras começou vender acesso aos seus depósitos de pré-sal para empresas estrangeiras por preços abaixo do valor de mercado. O envolvimento do José Serra, Ministério de Relações Exteriores pós-golpe, em articulações de longo prazo com a empresa Chevron e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, encorajou a privatização e o abandono da lei do pré-sal, tudo documentado aqui.
2) Enfraquecimento dos BRICS. Antes do Brasil ser desestabilizado e as economias da China e Rússia diminuírem o crescimento pareceu que os BRICS estavam se transformando em um poderoso contrabalanço ao poder estadunidense no palco mundial. Neste momento, as economias das nações que compõem o BRICS, somadas, quase igualaram a norte americana, e o Brasil era seu segundo membro mais rico. Os Estados Unidos tradicionalmente preferem negociações bilaterais às negociações com blocos comerciais. Um argumento similar pode ser feito sobre o desejo de enfraquecer Mercosul.
3) Os Estados Unidos sempre intervieram em assuntos brasileiros. Em seu novo livro best-seller, O Quarto Poder, Paulo Henrique Amorim documenta os 70 anos de penetração norte-americana nos assuntos políticos e econômicos brasileiros. “US Penetration of Brazil”, de Jan Black, conta em detalhes o apoio e envolvimento estadunidense com a ditadura militar brasileira, incluindo treinamento em técnicas de interrogação e tortura para milhares de policiais e militares brasileiros, em lugares como a Escola das Américas. Apesar do fato de que China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil em anos recentes, ainda serve aos interesses do setor empresarial norte-americano que os preços das commodities brasileiras se mantenham baixos e a produção industrial interna seja limitada para encorajar compras dos produtos norte-americanos.
4. Hegemonia. O governo petista foi caraterizado por uma economia política neo-desenvolvimentista. Enquanto Lula manteve o tripé macroeconômico neoliberal de FHC e a autonomia para o Banco Central (movimento livre de capital e politicais fiscais rígidas), ele também implementou uma série de medidas tradicionalmente desenvolvimentistas que se aprofundaram durante os primeiros 4 anos da presidência de Dilma Rousseff. Estas incluem aumentos anuais do salário mínimo acima do nível de inflação, bilhões de reais de estímulos para produção e consumo industrial interno, estabelecimento de um sistema de bem-estar social e vinculação das pensões do INSS ao salário mínimo. Essas medidas redistributivas criaram uma majoritária população de classe média, pela primeira vez na história do Brasil, além de retirar o Brasil do Mapa Mundial da Fome da ONU. Será que o fato de que o segundo maior país do hemisfério ocidental estava caminhando bem e em um sistema que não era 100% neoliberal foi uma pedra no sapato dos Estados Unidos? E se os norte-americanos começarem a exigir que, como no Brasil, as universidades fossem 100% gratuitas? E se eles demandarem que a comida das merendas escolares seja comprada exclusivamente dos pequenos agricultores, como é no programa brasileiro do PAA? O que aconteceria se eles exigissem que os pagamentos mínimos de pensão precisariam igualarem-se ao salário mínimo? O fato que o Brasil estava andando bem e não seguindo ao pé da letra a fórmula do FMI/Banco Mundial era uma tapa na cara do Consenso de Washington e seu dogma da TINA (Não há alternativa/There Is No Alternative) além de si.
Agora que motivos possíveis foram estabelecidos vou olhar áreas possíveis em que o estado norte-americano poderia ter “solapado os pilares” do governo brasileiro até que ele implodisse, em 2015, quando o maior parceiro da coalizão política governante, o PMDB, traiu Dilma Rousseff e fez o impeachment por uma infração que foi legalizada pelo Senado dois dias depois do afastamento da presidenta do cargo.
Apoio para novos partidos da “esquerda”
Fernandéz falou que uma das estratégias para solapar os pilares dos governos de esquerda é a criação de uma falsa “nova esquerda”. Será que atores do estado norte-americano apoiaram partidos políticos de uma falsa nova esquerda durante a preparação para o golpe no Brasil?
Pode ser que o Partido Verde tenha começado com boas motivações, mas ele foi imediatamente sequestrado pela família Sarney, que são responsáveis pelo desmatamento quase inteiro do estado do Maranhão. Com o Ministério do Meio Ambiente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Sarney Filho, filho do ex-presidente José Sarney, reduziu a percentagem de Mata Amazônica existente a ser protegida de 50% para 25% em cada propriedade. O PV tradicionalmente se alinha com a extrema-direita assim como o partido DEM apoia o conceito de “capitalismo verde”. A rejeição do “capitalismo verde” foi o objetivo principal dos ativistas do mundo inteiro que participaram do Fórum Alternativo ao Rio+20, ocorrido também no Rio de Janeiro em 2012. Entretanto, a traidora ambiental Marina Silva candidatou-se à presidência com uma pauta claramente de capitalismo verde em 2010, com apoio de um dos maiores bancos brasileiros, empresas de agroindústria e uma mídia internacional empolgada, com publicações como o New York Times Time a promovendo, quase até o status de uma deusa.
O partido Solidariedade, criado pelo Paulinho da Força em 2013, apresenta-se como uma nova alternativa para os trabalhadores organizados. Parece que depois das acusações de fraude contra Paulinho da Força, o partido está enfraquecendo, porém o fato dele compartilhar o nome com Solidarity (o mesmo do sindicato de Lech Walesa apoiado pela CIA em Polônia no fim da época da União Soviética) faz especular que, talvez, ele tenha sido criado para solapar o pilar sindicalista do governo petista.
Marina Silva, a queridinha da imprensa internacional liberal, tentou criar um partido político novo em 2013 chamado REDE. De acordo com Marina, este seria “nem esquerda nem direita”. Por conta de alegações de fraude na coleção das assinaturas ele foi impedido de legalmente formar-se antes das eleições presidenciais de 2014. Ela, então, foi convidada para ser vice-presidente com Eduardo Campos, numa plataforma ideologicamente incoerente com o PSB. Logo depois, Campos morreu num acidente de avião e Marina acabou candidatando-se a presidente de novo. De novo falou sobre capitalismo verde e de novo recebeu os aplausos da mídia norte americana. Depois que ela perdeu, a Rede conseguiu se legalizar e juntou-se com Marina napoio para o tecnicamente ilegal impeachment.
O PT nunca teve mais do que 22% da bancada no Congresso e foi obrigado para poder governar a uma coalizão com um grupo de partidos corruptos e conservadores, como o PMDB, legado de um dos dois partidos oficiais permitidos durante a ditadura militar. Esta coalizão forçou o PT a sacrificar muitos dos seus objetivos mais importantes, como acabar com a polícia militar, a reforma agrária e a reforma política, e acabou afundando o partido na lama de uma série de escândalos de corrupção, enquanto a mídia brasileira ignorava os principais culpados e colocava toda culpa no PT. Isso alienou a corrente interna da esquerda radical do partido, chamada “Socialismo ou Barbárie”. Liderada pela senadora Heloísa Helena, muitos deles saíram e formaram o Partido de Socialismo e Liberdade (PSOL). O PSOL foi uma força importante nas eleições presidenciais de 2006, quando Helena levou 7% dos votos no primeiro turno, forçando Lula para o segundo turno contra governador conservador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Em 2010 o candidato a presidente do PSOL (e lenda da reforma agrária), Plínio Arruda, não conseguiu mobilizar o apoio integral dos sindicatos e movimentos sociais recebendo menos de 1% dos votos. Em 2014, Luciana Genro melhorou um pouco, recebendo 1,5%, mas ela só ficou em quinto lugar nas eleições recentes para prefeito, em Porto Alegre. Se você escutasse vários acadêmicos da esquerda norte americana, imaginaria que PSOL era uma força crescente, representando a verdadeira esquerda brasileira e não o que Gramsci chamou um “partido de autoridade moral” sem plano sério de tomar o poder. Será que o PSOL recebeu apoio indireto dos Estados Unidos e suas instituições de estado, expandindo-se em sua apresentação como uma alternativa viável ao PT? Ele certamente é apoiado por vários (aparentemente) bem-intencionados acadêmicos e publicações de esquerda burguesa norte americana, que têm o costume de papagaiar sua propaganda partidária sem análise crítica.
Transformando a narrativa midiática para promover um senso de caos no Brasil
Em sua entrevista ao jornal Sul 21, Fernandéz explicou como a CIA planejou criar notícias falsas sobre “caos em Cuba” e espalhá-las pelas maiores companhias midiáticas americanas, “como eles fizeram na Líbia”. Começando em 2013, a cobertura mediática do Brasil transformou matérias geralmente positivas em calúnias. O New York Times publicou uma matéria enorme cheia de fotos branco e pretas de pessoas com rostos deprimidos e obras em construção inacabadas. As manifestações, inicialmente sobre aumentos de tarifas de ônibus e contra prefeitos e governadores, em 2013 foram quase totalmente transformadas em manifestações anti-Dilma e durante meses matérias apareceram insinuando que teriam enormes manifestações anti-governo durante a Copa do Mundo. Não aconteceram. Em uma das tentativas mais óbvias de criar caos às vésperas da Copa do Mundo, a produtora “Vice” dos Estados Unidos intitulou um documentário sobre greves de professores no Rio e em São Paulo, “Caos no Brasil, nas ruas na Copa do Mundo”.
Infiltração na Media Social
Como nos Estados Unidos, o bombardeamento de informações falsas na mídia social contribuiu para o ressurgimento da extrema-direita e seus ataques contra imigrantes, gays, mulheres, sindicatos e minorias étnicas. Em 2013, Aécio Neves contratou a empresa que foi gerenciada pelo ex-coordenador da campanha de Barack Obama, David Axelrod, para coordenar a sua campanha digital durante o período eleitoral. Neste período, várias páginas de extrema-direita apareceram no Facebook e Twitter, campanhas de difamação contra a Presidente Dilma Rousseff, Lula e seu filho (que processou várias companhias da mídia por falsas acusações de que ele era um bilionário e dono de Friboi). Duas destas páginas mais populares, Movimento Brasil Livre e Estudantes pela Liberdade, receberam financiamento dos bilionários petrolíferos da família Koch, que têm interesse na privatização do pré-sal, por exemplo.
Desestabilização econômica
Edward Boorstein, no seu livro “Allende's Chiledocumentou como o governo norte-americano e a empresa ITT causaram um boicote mundial ao cobre Chileno para desestabilizar a economia às vésperas do golpe que colocou Augusto Pinochet no poder. Durante o processo rumo ao golpe de 2016, o Juiz Sérgio Moro, que, de acordo com documentos vazado do departamento do Estado dos Estados Unidos, está recebendo apoio técnico do governo Americano para investigar crimes de lavagem do dinheiro como parte do “Projeto Pontes” desde, pelo menos, 2009, congelou operações das maiores companhias de construção civil no pais, causando uma queda de 6,7% no setor de construção civil e, segundo matéria da BBC, toda a lava à jato provocou uma queda de 2,5% no PIB do país . Apesar de ter várias razões para a desaceleração da economia brasileira, incluindo o erro do cálculo na taxa Selic feito pelo ex-Ministro de Fazenda Guido Mantega, a paralisação das indústrias de construção e petróleo feita por Moro foi um fator significante.
Apesar de talvez não haver provas concretas suficientes e disponíveis para fazer um argumento totalmente convincente sobre o envolvimento dos Estados Unidos no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, certamente existem provas suficientes para se especular sobre esta possibilidade. Será que os Estados Unidos se beneficiam com as novas políticas deste governo? Com certeza. Ele tem motivos para apoiar o golpe? Sim. Elementos do estado expandido norte-americano, como a imprensa burguesa, solaparam os pilares do governo Brasileiro? Sim. Será que o governo dos Estados Unidos foi diretamente envolvido nesta desestabilização? Neste momento as únicas provas concretas são as correspondências do Departamento de Estado dos EU implicando Sergio Moro, embora o nível deste envolvimento ainda não é claro. Entretanto, sob o risco de ser acusado de um teórico de conspiração, eu previno que com a passagem de tempo, como no caso do Golpe de 1964 no Brasil e do golpe de 1973 em Chile, mais e mais provas de envolvimento dos Estados Unidos na mudança de regime de 2016 vai subir até a superfície.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Brasil desfruta da santa paz dos cemitérios

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Seria de alegrar a alma se a realidade por trás das aparências não fosse tão desoladora e cruel. O cenário é embriagante. Fim de tarde em um bairro de classe média alta de São Paulo, olhando pela janela do nono andar, o que se vê é uma tarde gloriosa, ensolarada e verdejante a partir da vista aérea daquela que é uma das artérias da cidade.
Com efeito, as aparências enganam…
Há algo de muito errado nessas imagens. Estamos em um mês de janeiro, mas há muito não se via a avenida 23 de maio – ou qualquer outra artéria da cidade – com trânsito tão bom no horário de pico.
Por estranho que pareça, as imagens do vídeo acima combinam com o noticiário. É estranho ou não é? Mas é verdade. Confira, abaixo, o índice da Folha de São Paulo de 10 de janeiro de 2017.
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No caderno de política, sete matérias. Nos outros jornais não é muito diferente. Nas redes sociais, tampouco. Tanto nas ruas quanto na imprensa ou nas ondas da internet, a sensação é de estar em uma cidade fantasma.
Ou no Paraíso.
Há uma paz opressora pesando sobre a Nação – excluindo, obviamente, as chacinas de dezenas de detentos (muitos dos quais ainda nem tinham sido julgados) em presídios ou causadas por psicopatas de extrema-direita que exterminam famílias inteiras bradando contra os direitos humanos…
Enquanto desfrutamos dessa verdadeira Pax Romana, no Amapá a polícia política do Regime invade uma Casa Fora do Eixo (coletivo de jovens que promove shows e é também sede do grupo de jornalistas independentes Mídia Ninja) sem mandado judicial e sob alegação de perturbação do “sossego” da vizinhança, o que jamais havia acontecido.
No âmbito do país violento, golpista, clivado por grupos políticos em pé-de-guerra, agrilhoado por uma crise política sem fim, sem saída, sem perspectiva de solução, os atos de monstruosidade ou de indiferença pelo direito alheio se tornam banais.
Um ambulante que teve a infeliz ideia de separar uma briga teve a cabeça pisoteada até o esmagamento por duas feras humanas enquanto os transeuntes mal desviavam o olhar do linchamento que tinham diante dos olhos.
Onde estão as pessoas que deveriam estar nas ruas correndo atrás de produzir para o país sair do buraco?
Onde estão as pessoas que deveriam estar nos parlamentos buscando soluções ou propostas?
Onde estão os ativistas que deveriam estar bradando, nas ruas e/ou nas redes, que não está tudo bem, não, e que não podemos nos dar ao luxo de ir salgar a bunda na praia porque instalaram uma ditadura no país?
Essa paz é falsa, é uma Pax Romana (longo período de relativa paz, gerada pelas armas e pelo autoritarismo, experimentado pelo Império Romano em 28 a. c.)
O grande risco que os golpes e as ditaduras deles decorrentes oferecem é o que está acontecendo no país, é a acomodação e o desalento, diferentes no conteúdo mas idênticos na forma.
As pessoas desistem de lutar e decidem ir “cuidar de suas vidas”. E é com isso que os golpistas contam, é com isso que os carrascos do povo contam, é com isso que os tubarões capitalistas contam, é com isso que os fascistas contam.
O objetivo do fascismo é justamente desestimular reações aos desmandos dos regimes autoritários vigentes ou pretendidos. Uma vez que você não se rebela mais, que esconde suas opiniões políticas, que aceita de cabeça baixa os desmandos dos novos donos do poder, o objetivo foi alcançado e não há mais necessidade de a militância fascista fazer suas blitz do ódio.
O Brasil ainda está vivendo do pouco mais de uma década de bonança econômica e social gerada pelos governos petistas. Ainda tem “gordura” para queimar. Mas a nova realidade irá se impor quando as reservas acabarem.
Só aí, quando o cinto apertar de verdade, é que as pessoas vão se dar conta de que não deveriam ter se acomodado, pois a viagem de volta à democracia só começará no momento em que a sociedade se der conta de que vai ter que se mexer ou continuará afundando na areia movediça do autoritarismo e da injustiça.
Mexa-se, saia do marasmo, não se desligue de tudo, não vá “cuidar da sua vida”, pois sua vida é seu país, sua vida depende da taxa de democracia por habitante que sua pátria tiver. Os problemas não desaparecem quando você os ignora. Pelo contrário, aumentam.

Os comunistas do Colégio Central da Bahia Uma história de resistência!

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Carteira de filiação de Marighella ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) - Crédito: Reprodução
Conversa Afiada publica artigo de Emiliano José:
Três comunistas do Colégio Central da Bahia
Emiliano José
O primeiro, nasce em 5 de dezembro de 1911.
O segundo, em 2 de outubro de 1912.
O terceiro, em 14 de junho de 1923.
Marighella, Maurício e Mário.
Baianos.
Os três estudaram no assim nascido Liceu Provincial, e nascido nas lonjuras de 1836, e mal surgido, com vida interrompida pela Sabinada, movimento separatista a pretender a proclamação do Estado livre e independente da Bahia.
Eclética programaticamente, a Sabinada não apoiava a monarquia constitucional unitária, nem a proclamação da República, ficava a meio caminho. Firmava o compromisso de revisar tudo no momento da maioridade de D. Pedro II.
Tal revolução, datada de 7 de novembro de 1837, condenava a aristocracia e defendia a abolição do trabalho escravo. Propostas obviamente ousadas para a época, sem que, no entanto, as lideranças apontassem os caminhos para alcançar objetivos tão avançados. Não prosperou. Mas Salvador viveu dias turbulentos com os sabinos.
O ensino foi seriamente afetado.
Até porque havia alguns professores envolvidos na insurreição, o mais famoso dos quais o padre Antônio Joaquim das Mercês.
Tanto o Liceu Provincial como a Escola Normal, nascida também em 1836, tiveram suas atividades interrompidas por conta da revolução, última das sublevações armadas da Bahia. Como Salvador, as escolas só voltaram à normalidade em 1842.
As duas escolas foram criadas para cobrir lacunas.
O Liceu, para substituir as aulas avulsas de latim, francês e grego.
A Escola Normal, para formar professores do ensino elementar.
O Liceu Provincial tornou-se Ginásio da Bahia. Depois, Colégio Central, nome consagrado até hoje.
Os três estudaram no Central.
Um ninho de comunistas, assim o pensamento conservador qualificava o Central.
Talvez tivesse razão.
Por volta dos anos 40 do século XX, o PCB contava com sete células estudantis, coisa de 20 militantes, o que pode parecer pouco. Mas, só parece para quem não conhece a capacidade da militância comunista no período, a preparação de cada um dos estudantes que ingressavam no partido. Esses poucos militantes foram os principais organizadores das grandes manifestações de massa ocorridas em Salvador a favor da entrada do Brasil na Guerra Mundial, o que acabou acontecendo.
Carlos Marighella, dos três, o precursor.
Nascido em Salvador, espírito irrequieto, do samba de roda, da capoeira, do futebol, carnavalesco e namorador, poeta, inteligência rara, famoso na Baixa dos Sapateiros onde nasceu, comunista muito jovem, revela-se um arguto provocador ao responder provas em versos, o Central foi o seu berço, que lhe deu régua e compasso. Preso na Bahia por Juracy Magalhães em 1932, entra para o PCB, é preso outra vez no Rio de Janeiro no 1º de Maio de 1936, violentamente torturado, sai em julho de 1937, e pouco mais de três anos depois da segunda prisão é encarcerado novamente, 26 de maio, em São Paulo, saindo apenas com a anistia em 1945.
Em seguida, elege-se deputado federal constituinte pela Bahia, já legenda do PCB, recém-legalizado, condição efêmera, mandato-relâmpago, pois o partido foi colocado na ilegalidade em maio, sempre maio, do ano de 1947. Junto com ele, Marighella também na clandestinidade, e nessa situação vai viver até o momento em que é assassinado na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969, num cerco armado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Marighella já então militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), surgida do inconformismo de comunistas insatisfeitos com os rumos adotados pelo PCB, considerados reformistas, sem capacidade para enfrentar a conjuntura de ditadura. Era então considerado o inimigo número um da ditadura militar, que não o queria vivo. Tornou-se, morto, uma referência ainda maior para a esquerda brasileira, por sua coragem e combatividade, exemplo para todos os que se dispõem a lutar pela revolução.
Maurício Grabois, também de Salvador, também do Central, onde aprendeu as primeiras lições comunistas. Muito cedo, foi dirigente da Juventude Comunista, e integrou a Aliança Nacional Libertadora, que tentou a Insurreição de 1935, derrotada.
Com 19 anos, vai para o Rio de Janeiro, estuda na Escola Militar de Realengo, depois na Escola de Agronomia, abandonada no 2º ano em favor da atividade política revolucionária. Edita o jornal A Voz Operária e passa a dirigir a Editora Vitória, ambos do PCB.
É preso no verão de 1941, solto em 1942. Um dos organizadores da Conferência da Mantiqueira, fundamental para a reorganização do PCB, nela é eleito para o Comitê Central do partido.
É eleito deputado federal para a Constituinte, e lidera a bancada comunista.
Com o partido cassado, cai na clandestinidade. Em 1954, no IV Congresso, é reeleito para o Comitê Central.
Em 1962, insubordina-se com a orientação considerada reformista do PCB, e funda o PCdoB ao lado de vários outros companheiros, como João Amazonas, Diógenes Arruda e Pedro Pomar.
Chega à região do Araguaia em dezembro de 1967 para organizar a luta armada revolucionária na perspectiva maoísta. Com ele, segue o filho André Grabois, morto na selva pela ditadura em 1972. Maurício Grabois é morto no natal de 1973 por forças militares do Exército. Tornou-se uma referência para os comunistas.
O terceiro, filho de latifundiário de Sento Sé, sertão da Bahia, Mário Alves, chegou ao Central em 1935, ingressa no PCB em 1939 aos 16 anos, recruta ninguém menos que Jacob Gorender para o partido, torna-se orador combativo nas manifestações a favor da entrada do Brasil na II Guerra contra o nazifascismo, torna-se jornalista do jornal O Estado da Bahia, seu primeiro emprego.
Torna-se, com apenas 20 anos, dirigente do Comitê Central como resultado da Conferência da Mantiqueira.
Em 1945, é diplomado em Ciências Sociais. Joga pro alto o emprego na imprensa burguesa – afasta-se de O Estado da Bahia, a rede dos Diários Associados. Torna-se, aos 23 anos, o redator-chefe de O Momento, o primeiro jornal comunista do período da fugaz legalidade do PCB. Ali ganhava apenas o suficiente para se manter. Enfrentou o empastelamento do jornal em 27 de maio de 1945, sob o governo de Otávio Mangabeira, conhecido por posições democráticas, mas cedendo ao endurecimento de Dutra.
Em 1947, segundo semestre, vai para o Rio de Janeiro, profissionalizado pelo partido. Com o crescimento repressão sob Dutra, segue para São Paulo. Dirige depois a Escola do PCB, orientando os cursos de formação. Vai tornar-se um dos principais quadros teóricos do partido.
Veio 1964, e Mário Alves, ao lado de Apolônio de Carvalho e Jacob Gorender, funda o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), opondo-se, como Marighella e Grabois, ao que considerava conciliação do PCB, e passa a defender a luta armada. Cai na noite de 16 de fevereiro no Rio de Janeiro, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro. É morto empalado, de modo atroz. Nunca será esquecido: foi modelo de militante comunista, capaz sempre de unir teoria e prática, leal aos seus ideais e a seus camaradas.
Curioso, o destino dos três.
Um mesmo berço: a Bahia.
Um mesmo colégio, o Central.
A beleza da opção pelo comunismo na juventude.
Vidas que não se deixam seduzir pelos encantos burgueses.
Um mesmo caminho na maturidade: o rompimento com o PCB e a adesão à luta armada.
Um mesmo fim, trágico: o assassinato nas mãos sangrentas da ditadura.
Seus erros, à luz da história, podem ser discutidos hoje.
Ninguém deixará de lembrar de seus exemplos, de seu amor às grandes causas da humanidade.
Pudessem, e poderiam dizer, com Brecht no seu belo poema “Aos que virão depois de nós”:
...Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Filme inglês mostra tragédia que Temer nos prepara

Paulo Moreira Leite
Se há vários motivos para aplaudir o filme "Eu, Daniel Blake," de Ken Loach, Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo, é fácil reconhecer a razão principal.
Centrado na luta de um carpinteiro para proteger seus direitos, a obra apresenta um retrato sem enfeites do colapso do Estado de bem-estar social na Inglaterra, país que, entre outros benefícios sociais, construiu um sistema público de saúde gratuito e universal, ponto de partida para diversos países, inclusive o nosso SUS.
Do ponto de vista dos 200 milhões de  brasileiros, Eu, Daniel Blake ganha uma importância especial pela conjuntura política, de guerra aberta do governo Temer e da equipe de Henrique Meirelles contra a CLT e programas sociais como Bolsa Família, Previdência Social e Minha Casa Minha Vida. Neste momento, Loach mostra o destino de um dos países mais ricos do planeta, antiga potência imperial, que se encontra numa etapa posterior do processo que leva ao Estado Mínimo.
"Eu, Daniel Blake" registra numa cena a condição de cidadãos britânicos que passam fome.
A tradução para a realidade brasileira exige adaptações importantes, como uma renda per capta menor, um patrimônio acumulado também menor -- apesar do crescimento dos últimos anos. Considerando que os seres humanos tem necessidades básicas semelhantes em qualquer latitude, pode-se imaginar o tamanho da tragédia em curso. 
O mundo que se vê na tela retrata uma classe trabalhadora capaz de gestos individuais de solidariedade mas vencida em derrotas sociais imensas, onde homens e mulheres são obrigados a lutar de forma individual por seus direitos e improvisar caminhos no limite da ilegalidade para reforçar a dispensa. Num momento divertido, retrata-se um cidadão que engorda os ganhos pelos labirintos da globalização, fazendo contrabando de tênis produzidos na China.
No mundo pós-moderno de Eu, Daniel Blake, as ações coletivas sequer são cogitadas. A existência de sindicatos, que já foram uma glória do movimento operário, nem é mencionada. Ao longo do filme, o protagonista está mergulhado numa realidade que os brasileiros conhecem muito bem: no combate por direitos estabelecidos junto aos serviços de telemarketing, enfrentando um exasperante labirinto de recomendações e explicações que nada resolvem. São apenas uma forma cínica encontrada pelos governantes para adiar a entrega de um direito que as duas partes sabem que é liquido e certo -- mas dificilmente será reconhecido.
Nas cenas finais, o filme mostra o que vem depois. Após perder os direitos como trabalhador, o protagonista também é destituído de direitos como cidadão e acaba sendo tratado como criminoso comum quando  tenta de realizar um protesto por conta própria.
Com preciosas lições para a atualidade, Eu, Daniel Blake  tem uma omissão do ponto de vista histórico. Você vai para casa perguntando como tudo aquilo pode acontecer.
Em vários momentos, o filme faz referências esparsas ao governo responsável pela tragédia social do país, o Partido Conservador. Está correto. Nos 18 anos em que permaneceram no poder, onze deles com Margaret Thatcher  como primeira-ministra, os conservadores fizeram um trabalho meticuloso e profundo para destruir o Estado de Bem-Estar Social. O problema é que, a seguir, o Partido Trabalhista ocupou o governo por treze anos. Em dez deles, Tony Blair foi o primeiro ministro e, contrariando as expectativas da maioria dos britânicos, nada fez para reverter a herança recebida. Em 2010, o Labour sofreu uma nova derrota nas urnas e até agora não se recuperou.
Cabia ao Labour, pelo seu lugar na história do país, o papel de resistir aos ataques contra os direitos da maioria. A recusa em assumir este lugar também ajudou a criar um mundo no qual a questão social virou caso de polícia -- e este também é um debate que interessa aos brasileiros de 2017. Sem resistência, seus direitos também vão se transformar em poeira.

Políticos insuflam comemoração de chacinas em presídios

criminosos

Energúmenos de todas as idades, estratos sociais e regiões do país chamam de “politicamente correto” o que é, tão-somente, comportamento civilizado. Essa guerra contra o comportamento civilizado vem surpreendendo os setores civilizados da sociedade.
Desse combate que esse tipo de gente vem dando têm decorrido atitudes assustadoras como a do homem que, bradando contra o “politicamente correto” e os “direitos humanos”, pôs fim às vidas de sua esposa, filho e mais 10 pessoas.
Os entusiastas do “politicamente incorreto” agridem (verbal ou fisicamente) as mulheres, os homossexuais e os nordestinos; pedem volta da ditadura militar e o fim da defesa de “direitos humanos”; defendem execuções sumárias e chacinas de infratores da lei – contanto que sejam pobres.
Os machões e as machistas sem sensibilidade social e preconceituosos estão virando quase um modelo de comportamento.
Até as manifestações de 2013, pensava-se que extremistas de direita estavam restritos a pessoas idosas, de alto poder econômico que se isolaram a partir do fim da ditadura militar. Nos últimos três anos, porém, descobrimos legiões de jovens que flertam com o nazifascismo. Muitos, de origem pobre.
Extremistas de direita que querem volta da ditadura, chacinas em presídios, execuções sumárias de “bandidos” sem nem julgamento podem ser encontrados até entre minorias que deveriam lutar contra toda forma de discriminação e violência contra grupos, como é o caso de homossexuais, ou mesmo entre maiorias como a dos afrodescendentes, que constituem mais da metade da população brasileira.
Os recentes episódios de chacinas em presídios nos oferecem uma dica sobre o que está fazendo ascender esse comportamento incivilizado, selvagem dos que, entre um culto religioso e outro, renegam todos os principais mais elementares do cristianismo, tais como piedade, generosidade, amor ao próximo, caridade, respeito à vida etc.
O que diriam esses pseudorreligiosos de extrema-direita sobre Jesus Cristo ter perdoado um homem (crucificado ao seu lado) que matou e roubou durante a vida? Se o “filho de Deus” vivesse nos dias de hoje, por “defender bandido” seria tachado de “petralha”.
Porém, quem lidera hoje no Brasil a selvageria, as pregações de ódio, de preconceito, de violência policial e carcerária são os grupos religiosos mais fanatizados. Quanto mais religioso, atualmente, maior é a intolerância com a diferença e o desejo de ver atrocidades como chacinas ocorrerem com aqueles que o cristianismo manda perdoar.
Mas de onde vêm essas aberrações? Por que, do nada, começaram a aparecer pessoas capazes de comemorar chacinas de seres humanos, por exemplo?
Esses recentes episódios de chacinas em presídios permitiram ver quem são os propagadores dessa mentalidade.
Na primeira semana de 2017, uma centena de encarcerados – muitos dos quais sequer foram julgados ainda – foi trucidada das formas mais cruéis que se possa conceber. A começar pelos de Manaus.
O que se esperaria do responsável maior pela segurança pública daquele Estado, o governador José Melo (PROS-AM), seria que manifestasse tristeza pela tragédia e se solidarizasse com as famílias dos detentos, as quais, obviamente, não cometeram crime algum.
A atitude do governador foi digna desses moleques que ficam barbarizando nas redes sociais. “Não havia nenhum santo entre os mortos nessa rebelião”, afirmou o chefe do Executivo amazonense, supostamente o líder político de um Estado da Federação.
Como o governador do Amazonas sabe que não havia inocentes entre os presos chacinados se grande parte deles sequer havia tido julgamento?
Mas a postura irresponsável desse governador foi só o aperitivo do que viria. E quando o assunto é ignorância, truculência, insensibilidade, não pode faltar a opinião de Jair Bolsonaro, que desponta como candidato competitivo à Presidência da República.
Para quem não tem conta no Facebook e, por isso, não conseguiu ver o vídeo, basta saber que Bolsonaro apoiou as chacinas em presídios.
Esse discurso é hoje uma febre. Pesquisa Datafolha de 2015 mostrou que a maioria dos brasileiros concorda com essas ideias.
Essa maioria não quer saber se todos os encarcerados são iguais ou não, se todos são inapelavelmente culpados ou não, ou o que acontecerá quando, após anos nesses infernos, forem colocados de volta nas ruas, já que grande parte dos que estavam presos não fora nem julgada e outra grande parte cumpria penas curtas por pequenos crimes e só ficou presa por não poder pagar advogado.
Concomitantemente aos outros energúmenos, apaniguado filho de aliado político de Temer dá sua contribuição à barbárie. O ex-secretário Nacional de Juventude Bruno Júlio diz, publicamente, que seria bom haver “uma chacina [de detentos] por semana”.
Na mesma leva de horror, o ex-candidato a prefeito de São Paulo “Major Olímpio”, atual deputado federal paulista, fez piada com a tragédia nos presídios de Manaus e Roraima, onde morreram, respectivamente, 56 e 30 detentos em uma chacina em que a principal forma de execução foi decapitação: exortou a presídio carioca de Bangu a superar o número de chacinados nos outros Estados.
Outro que alia religião com selvageria e violência é o “pastor” e deputado federal Marco Feliciano. Em vídeo sobre as chacinas em presídios foi mais sutil que os colegas e simplesmente pregou “destruir o problema”, ou seja, os presidiários brasileiros.
Até o “presidente da República”, mister Fora Temer, deu sua contribuição ao caos carcerário ao qualificar como “acidente” um caso claro de desleixo e irresponsabilidade das autoridades.
Poderíamos ficar aqui por horas buscando políticos de direita que, entre um culto religioso e outro, lideram essa onda de comemorações das chacinas em presídios, do extermínio cruel e anticristão de seres humanos.
Apesar de a mídia conservadora abrigar colunistas, apresentadores etc. que chegam perto de propor atrocidades como “uma chacina por semana”, no geral ela se portou bem. Manteve o tema em evidência em tom de reprovação, ainda que não tenha tido coragem de explicar por que ninguém ganha com prisões desumanas.
Quem lidera hoje no Brasil essa mentalidade, portanto, são políticos de partidos como PMDB, DEM, PSDB, PTB, PP, PSC, PROS, SOLIDARIEADE, PPS e as conhecidas legendas de aluguel. Enfim: quem insufla mediocridade e truculência em nosso povo – e, sobretudo, entre nossos jovens – são os políticos.
Neste exato momento, quantas crianças não estão ouvindo os pais comemorarem massacres de pessoas, pregarem violência, enfim, desvalorizarem a vida humana em prol do sentimento mais venenoso que existe, o desejo de vingança? Em que essas crianças se transformarão quando chegarem na vida adulta?
Esses políticos legarão ao Brasil gerações de pessoas monstruosas, insensíveis, sádicas, burras ao extremo, adeptas de teorias nazifascistas. Eles contaminam os país das crianças brasileiras, que ensinarão essas loucuras aos filhos.
Como a história já se cansou de mostrar, nada tem potencial maior que a política para gerar tragédias às nações. Todas as guerras, todas as perseguições, todas as injustiças já vistas originaram-se de discursos políticos como os supra reproduzidos.

ASSANGE: TEMER TROCOU SEGREDOS DO BRASIL POR APOIO DOS ESTADOS UNIDOS



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Quem ganhou em 2016 vai perder em 2017

farsantes

Muito se falou de 2016. Que não vai terminar ou que foi o annus horribilis do século XXI para o Brasil. Alguns, porém, dirão que foi magnífico. Há os que têm o que comemorar. É gente que quer que o país se dane; enquanto quase todos perderam, esses grupelhos ganharam justamente porque quase todo mundo se deu mal.
A Folha de São Paulo captou muito bem essa disparidade de visões dos agentes políticos no ano que (não) se encerrará algumas horas após a confecção deste texto. O jornal abriu a dois agentes políticos opostos a seção de suas páginas destinada a um artigo para cada lado das polêmicas que elege.
A polêmica deste sábado, 31 de dezembro de 2017, da Folha foi: “2016 deixará saudade?”
Responderam (sim) Janaína Paschoal – uma entre os juristas que propuseram o impeachment de Dilma Roussef – e (não) José Eduardo Cardozo – ex-ministro da Justiça e advogado-geral da União do governo Dilma Rousseff.
É óbvio que Janaína terá todos os motivos do mundo para vir a ter saudade de 2016, assim como José Eduardo Cardozo terá sempre carradas de motivos para carregar as piores lembranças desse ano terrível para seu grupo político e para quase todos os brasileiros.
Janaína está entre os poucos salafrários que saíram do anonimato para a fama e subiram muito na escala social e política. Essa mulher era uma advogada obscura que mal se fazia notar em suas aulas olhadas de soslaio na faculdade de Direito da USP e, em 2016, ganhou fama nacional e inscreveu seu nome na história, ainda que, no futuro, ela venha a figurar como uma das figuras nefastas que causaram tanto mal a este país com um processo que lhe desfigurou a democracia.
Outros ganhadores são os movimentos de extrema direita surgidos nos protestos de junho de 2013, tais como Vem Pra Rua ou MBL, e que, tanto quanto Janaína, saíram do anonimato e de problemas financeiros sérios para uma fama compulsiva e para lucros astronômicos com o que chamam de “militância política”.
Partidos ganharam. PSDB e DEM, até 2013 vinham minguando. As bancadas reduziam-se eleição após eleição e não tinham mais discurso para oferecer a uma sociedade satisfeita com forte e rápida ascensão social e econômica que experimentava.
De repente, a partir do início da crise política, 3 anos e meio atrás, esses grupelhos foram se tornando os “gurus” improváveis de uma nação dopada e apavorada pela volta de problemas econômicos que não conhecera durante 11 dos 13 anos de governos do PT.
2016 foi o ápice do sucesso de gente que fracassara durante mais de uma década em começar (ou voltar) a se locupletar com a política.
Gente a quem o eleitorado brasileiro não confiou nada desde as eleições de 1998, de repente chegou ao poder e começou a aplicar um programa de “reformas”, ditas “coisas impopulares”, que este povo rejeitou claramente nas eleições de 2014.
Essa gente ganhou muito em 2016. Ganhou tudo. Poder, fama, dinheiro… Mas tudo que os golpistas ganharam será cobrado por quem deu. E quem deu tudo a essa canalha foi o povo, o mesmo povo que virá cobrar a fatura e que não aceitará pagamento falso, pois sabe muito bem o que quer de volta.
O que espera dos golpistas um povo que melhorou tanto de vida na primeira década do século XXI e nos primeiros anos da segunda? O povo quer de volta o consumo fácil, a ascensão social rápida, enfim, tudo aquilo que, entre 2003 e 2011, viu que era possível o povo ter.
É aí que os golpistas que tanto ganharam em 2016 vão se ver diante da conta com a carteira vazia.
Ano que vem, a esta hora, os brasileiros vão ter descoberto que a chegada do PMDB e do PSDB ao poder lhes tirou direitos que há décadas todos pensávamos consolidados e uma melhora de vida que permeou os 14 primeiros anos do século XXI. E vão querer de volta todo o poder e regalias que deram aos farsantes que os enganaram.
*
Em 2017, o Blog da Cidadania comemora 12 anos de existência. Há leitores que estão aqui há todo esse tempo. Com a esmagadora maioria dessas pessoas eu converso muito pouco, mas quero desejar a todas que 2017 seja justo para todos. Para credores e devedores, para inocentes e culpados.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Corrupção ou traição? Cadê o Mal Lott?

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Eu sou Joaquim, mas pode me chamar de Sérgio
Conversa Afiada reproduz artigo de Pedro Augusto Pinho*:
Com um mínimo de reflexão, talvez passássemos a entender a ação dos impérios, as farsa das propagandas nos veículos de comunicação de massa e a atuação deletéria de vários homens públicos, reduzindo nosso Brasil a uma eterna colônia de escravos. Não é em seu bolso que metem a mão, é em seu cérebro, pobre brasileiro que ainda acredita no perigo comunista e no surgimento de um salvador.
Em 1973, os comandos militares acolhiam, pelo que se dizia na época, a indicação do General Emilio Médici e escolhiam o General Ernesto Geisel para Presidente do Brasil, de 1974 a 1979. Os grandes problemas que enfrentaria Geisel seriam decorrentes do rompimento unilateral dos Estados Unidos da América (EUA) com o “Acordo de Bretton Woods”, encerrando o padrão dólar-ouro, em 1971, e as consequências cambiais e nas taxas de juro daquela decisão, e a dependência brasileira pelo petróleo.
Tratarei, inicialmente da questão do petróleo. A Petrobrás formou ao longo de sua existência, e Geisel presidente da empresa muito contribuiu para isso, equipe técnica de excelência, reconhecida pelas congêneres estrangeiras e nos simpósios, congressos e seminários internacionais que seus empregados participavam. A realidade geológica já havia sido percebida pelo ex-geólogo-chefe da Standard Oil, que veio estruturar a exploração de petróleo no Brasil: Walter Link. As bacias terrestres não tinham petróleo suficiente. A ida para a plataforma continental exigiu esforço tecnológico, participação da engenharia brasileira e muita pesquisa. Mas começou, ainda com Geisel, a mostrar resultados animadores. No entanto a questão fora muito anterior, quando, na vassalagem colonial, o Brasil optou pelo transporte terrestre e nele investiu, quando o transporte marítimo e fluvial e o transporte ferroviário eram muito mais adequados aos recursos e à geografia brasileira. Esta errônea opção deixava o País refém do produto que não tinha nem dominava, política ou militarmente, as fontes. Em suplemento sobre a economia nas Américas, The New York Times (28/01/1973), sob o título “Brasil, o Novo Japão”, elogiava a ditadura militar, a indústria automobilística e, ironicamente, o aumento da dívida “pública e particular”.
Mera coincidência, junta o Governo Geisel à luta dos capitais industriais com os financeiros, com a vitória dos últimos, onde as “crises” do petróleo desempenham papel preponderante. O Brasil sofreria muito e ocorreria o terceiro golpe dentro do golpe de 1964, levando João Figueiredo à Presidência. O Projeto Geisel era de Brasil Potência, um país soberano, não justo, mas com o controle das principais tecnologias do século: nuclear, informática e aeroespacial. Do mesmo modo que o sucesso da tecnologia petroleira incomoda até hoje as mentes entreguistas e os capitais estrangeiros, a nuclear também é combatida desde o momento que se transformou em objetivo nacional. A prisão do Almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva nada tem com a corrupção, nem deveria estar sob a Lava Jato, mas ali domina um representante do império para eliminar a engenharia e a tecnologia brasileiras.
A espionagem dos EUA na Petrobrás começa nos anos 1980, já afastado o General Geisel e necessitando a área de geofísica da empresa um computador mais potente, para os processamentos sísmicos, cada vez mais importantes nos trabalhos de exploração de petróleo. Para que a Petrobras pudesse contratar este computador, assinou uma série de salvaguardas, inclusive do controle estrangeiro à sala onde seria instalado o equipamento. Seria humilhante, não estivesse o País já sob o controle da banca (sistema financeiro internacional), exaltando o neoliberalismo e combatendo o “estatismo”.
Depois vieram os mordomos, os capitães do mato, e a Petrobrás franqueou seus sistemas, eliminou seus controles, destruiu a hierarquia estrutural que a colocara no píncaro da indústria petroleira. Daí a gravação das conversas destes gestores, onde não faltam a vaidade, o machismo, a inexistente intimidade com os poderes e os poderosos que os transformariam vítimas do sistema, planejado e com os elementos treinados nos EUA, para a destruição da maior empresa genuinamente brasileira, detentora única de tecnologia de exploração e produção em águas ultraprofundas, e das empresas de engenharia também brasileiras que deslocavam, pela capacidade técnica e empresarial, as congêneres do Hemisfério Norte. Como pode a colônia superar o Império?
A operação Lava Jato se desnuda. Não é a corrupção seu objetivo, fosse-o e estariam atrás das grades os FHCs e filhos, seus apartamentos e fazendas, os Aécios e sócios, com helicópteros do tráfico, aeroportos e desvios de dinheiro de estatais, as cúpulas dos partidos no governo, ávidas das gorjetas e farelos que lhes deixam os donos do mundo. A Lava Jato é um caso de traição, o antro dos Joaquins Silvérios dos Reis do século XXI.
O jornalista Paulo Henrique Amorim pergunta onde está o Marechal Lott para garantir a constituição, hoje; nem vou tão longe em nossa história, pergunto se ainda há um General Geisel, para defender o interesse nacional em nossas Forças Armadas?
* Avô, administrador aposentado, foi do Corpo Permanente da Escola Superior de Guerra.
Comentário de um leitor: Em Nuremberg cortaram as cabeças, mas preservaram as empresas. Aqui na lava-jato, coroam as cabeças e destroem as empresas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Marcelo Zero: 2016, o ano em que o Brasil “chutou a escada” do futuro de país desenvolvido

viralatismo

2016: o Ano do Vira-Lata
por Marcelo Zero
Normalmente, países costumam ser destruídos por guerras. Sejam intestinas ou agressões eternas, as guerras deixam um rastro terrível de destruição que pode retroceder o desenvolvimento de um país em décadas. A destruição é ainda maior quando o Estado Nação fica muito fragilizado e o país se torna presa fácil de interesses externos.
Os recentes casos de países do Grande Oriente Médio, como Iraque e Líbia, são emblemáticos. Hoje, tais países não passam de territórios controlados por diferentes grupos armados, abertos à “predação” internacional sem controle.
Mas há casos em que países são destruídos ou fragilizados por meios pacíficos e sutis. Sem sangue. Sem que seja necessário disparar um tiro.
É o caso do Brasil. Com efeito, o ano de 2016 ficará conhecido como o ano em que o Brasil se autoimplodiu. O ano em que “chutamos a escada” do nosso próprio desenvolvimento.
Tudo começou com a implosão da nossa democracia, com o álibi inventado das “pedaladas fiscais” e a desculpa esfarrapada do “combate à corrupção”.
Isso permitiu que a presidenta honesta fosse afastada para dar lugar à amálgama política canhestra da hipercorrupta “turma da sangria” com os interesses do capital internacionalizado e “financeirizado” e da mídia oligárquica.
Mesmo sem nenhuma legitimidade e nenhum voto, esse “Frankenstein” político do golpe tomou rapidamente decisões estruturantes que reverterão todo o progresso social e econômico obtido em anos recentes e comprometerão, talvez de forma definitiva, a possibilidade de o Brasil se converter num país plenamente desenvolvido.
Tais decisões, explicitadas na “Pinguela para o Passado”, de fato implodirão todos os vetores, recursos e mecanismos que o Brasil dispõe para alavancar seu desenvolvimento econômico e social.
Não se trata apenas de promover um óbvio retrocesso social, em nome da redução dos custos do trabalho e do nosso incipiente Estado do Bem Estar, mas de limar a possibilidade do país promover um ciclo de autêntico desenvolvimento, em nome de aposta insana num modelo econômico ultraneoliberal, concentrador, excludente e antinacional.
O primeiro mecanismo a ser abatido por esse modelo fracassado, que não tem mais apoio nem mesmo no FMI, é o do mercado interno.
Ao contrário do que se diz, os extraordinários progressos que o Brasil fez no início deste século não se basearam, de modo decisivo, nas exportações e no “boom das commodities”.
O crescimento substancial das exportações foi vital para superação da vulnerabilidade externa da economia e para o acúmulo de grandes reservas internacionais, que nos transformou de devedor em credor externo.  Mas o eixo estratégico do nosso ciclo de desenvolvimento recente foi a dinamização do mercado interno de consumo de massa.
A contribuição das exportações para o crescimento do PIB só foi significativa no período de 2001 a 2005, durante o qual elas se igualaram ao consumo das famílias, no estímulo a atividade econômica.
Já no período 2006- 2010, para um crescimento de médio de 4,51% ao ano, o consumo das famílias contribuiu com 2,66 pontos percentuais, ao passo que as exportações contribuíram com somente 0,22 pontos percentuais, abaixo também da formação bruta de capital (1,07 p.p.) e do consumo do governo (0,55 p.p.).
E, no período 2011 a 2015, para um crescimento médio de 1,05% (por causa da queda em 2015), o consumo das famílias respondeu por 0,95 pontos percentuais, ao passo que as exportações responderam por apenas 0,25 pontos percentuais.
O Brasil, um país continental com mais de 200 milhões de habitantes, não pode se desenvolver plenamente sem a dinamização desse mercado, ainda mais numa conjuntura de estagnação do comércio internacional.
Nos períodos mencionados, a dinamização do mercado interno de consumo se deu por quatro vertentes: as políticas sociais distributivas, com programas como o Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada, o aumento real do salário mínimo em mais de 70%, a substancial geração de mais de 20 milhões de empregos formais e a forte expansão do crédito popular, graças à atuação dos bancos públicos.
Em virtude desses fatores, o volume do comércio varejista aumentou mais de 100%, em apenas 8 anos.
Ora, o modelo ultraneoliberal do golpe está fazendo o oposto.
Pretende diminuir substancialmente o alcance das políticas sociais, acabar com a política de valorização do salário mínimo, desvincular o salário mínimo de benefícios previdenciários e assistenciais, restringir o crédito pela amputação ou privatização dos bancos públicos e implementar, como regra, a precarização das relações trabalhistas.
Com efeito, todas as medidas aprovadas ou anunciadas até agora, a PEC 55, a PEC da Previdência e as novas normas trabalhistas, conduzem à desconstrução massiva dos direitos sociais e trabalhistas assegurados na Constituição 88 e na CLT.
É que o golpe trabalha com a lógica de que é preciso diminuir os custos previdenciários, sociais e trabalhistas para que o Brasil possa crescer.O golpe aposta no retorno da desigualdade, da pobreza e da precariedade laboral como elementos indutores do investimento privado.
Trata-se do oposto ao que fizemos no início deste século e do que uma parte dos países desenvolvidos, com o apoio do FMI, tenta fazer agora.
Assim, com o modelo ultraneoliberal do golpe, a redução da demanda interna, que hoje é apenas conjuntural, se tornará estrutural.
Dentro desse modelo, poderemos ter até espasmos de crescimento, “voos de galinha”, mas jamais um ciclo de desenvolvimento sustentado que promova o bem-estar de todos os brasileiros.
Outro vetor importante para o nosso desenvolvimento que o golpe vai destruir é o do Estado como estimulador da atividade econômica.
A PEC 55, em particular, impedirá novos investimentos estatais em educação, saúde, infraestrutura, ciência e tecnologia, defesa nacional, etc. por longos 20 anos, mas não impedirá o pagamento dos maiores juros do mundo aos abonados rentistas, bem como a oferta desinteressada de presentinhos modestos a amigos, como os R$ 100 bilhões às teles, e a compra necessária de mimos inocentes com sabor a Häagen-Dazs.
Além disso, haverá a “privatização de tudo o que for possível”, isto é, de tudo, mesmo. Petrobras, pré-sal, Banco do Brasil, Caixa Econômica, terras e tudo o mais entrarão, mais cedo ou mais tarde, fatiados ou não, no grande balcão de negócios do golpe. Com isso, o Brasil perderá instrumentos insubstituíveis para a alavancagem de seu desenvolvimento.
Aliás, a substancial redução do papel do BNDES como banco de desenvolvimento e a destruição da cadeia de petróleo e gás, inclusive da política de conteúdo nacional, já retiram do Estado brasileiro mecanismos vitais para o estímulo à atividade econômica.
Não há país que tenha se desenvolvido sem um forte estímulo estatal à atividade econômica. O Brasil não será exceção.
Mas a redução estrutural do mercado interno e a destruição dos mecanismos estatais de indução ao desenvolvimento não são os fatores decisivos para a fragilização do nosso Estado Nação.
O fator realmente decisivo é externo.
O golpe tem uma agenda geopolítica implícita.
Trata-se de extinguir diretrizes vitais da antiga política externa altiva e ativa, como a da integração regional via Mercosul, a da cooperação Sul-Sul, a das alianças estratégicas com os BRICS, a da reaproximação à África e ao Oriente Médio, etc.
Essas diretrizes nos transformaram de país frágil e periférico da década de 1990 em ator internacional de primeira grandeza, com espaço de relevo assegurado em todos os foros internacionais e com interesses próprios e independentes bem definidos.
Na realidade, o objetivo maior do golpe é reinserir o Brasil na órbita dos interesses geoestratégicos dos EUA e aliados e abrir nossa economia às necessidades do capital financeiro globalizado e das “cadeias mundiais de valor”.
Isso não é teoria de conspiração. É somente a dura realidade da implacável e óbvia luta geopolítica que se desenvolve hoje no mundo. Quem não consegue entender isso, não conseguirá entender nada.
O fato concreto é que o golpe vem apequenando o Brasil em todos os sentidos.
O pior, contudo, é que esse processo de fragilização do nosso Estado Nação não foi imposto pela força. Foi alegremente assumido por setores importantes das nossas “elites”.
Em particular, os procuradores e juízes da Lava Jato deram contribuição substancial para tanto, ao destruírem, em nome da cooperação internacional no combate à corrupção, o braço empresarial da nossa política externa, que exportava serviços para o mundo, abrindo portas dos mercados para produtos brasileiros, e a base empresarial da indústria da defesa, inclusive à que tange à construção do nosso submarino nuclear. De quebra, submeteram a Petrobras a investigações externas.
Messiânicos, cooperando à margem da autoridade central prevista em acordos, julgam-se heróis de um mundo kantiano de interesses universais comuns. Na verdade, não passam de instrumentos cegos da luta “clausewitziana” que rege a geopolítica mundial.
Como a maior parte das nossas classes dirigentes e empresariais e de vastos setores da classe média, acreditam numa suposta superioridade intelectual, cultural e moral dos países hoje desenvolvidos.
Com aliados internos desse calibre, os interesses externos podem aqui se tornar hegemônicos, sem necessidade de bombas e grupos armados.
Vira-latas se autoimplodem. Não precisam de disciplinamento. Ante quaisquer gestos de aceitação, de cooperação, abanam os rabos para seus donos.
O ano de 2016 foi o ano em que, além de toda a tragédia política e social, o Brasil se autoimplodiu. Implodiu seu futuro de país plenamente desenvolvido.
O ano de 2016 foi o ano do vira-lata.
Marcelo Zero é  sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI).
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