Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Daslu, Danuza e Dá o fora!

Haddad lança plano de resgate dos viciados em crack que inclui moradia, emprego e saúde

Haddad lança plano de resgate dos viciados em crack que inclui moradia, emprego e saúde

De 2014 a 2017, Brasil investirá R$ 458 bi em petróleo e gás; BNDES estima que a fatia do setor no investimento total do país crescerá de 10% para 14%


Os filhos do porteiro da Danuza resolveram ir ao shopping center. E a justiça de SP autorizou guardas a dizer-lhes: Dá o fora!.

por: Saul Leblon 
Arquivo


















O Brasil tem cerca de 500 shoppings centers.

O conjunto fatura R$ 184 bi por ano, ocupa mais de 11 milhões de m2 - uns 2. 200 campos de futebol; emprega  870 mil pessoas.

Em 40 anos, desde 1996 quando surgiu o primeiro  até 2006, foram erguidos 350 shoppings no país; de lá para cá a expansão foi geométrica e ininterrupta. Nos últimos sete anos surgiram mais 120.

Outros 30 estão previstos para inauguração em 2014.

O país inteiro – capitais e interior — foi tricotado por esses centros de compra e lazer que tem a cara e a permeabilidade  da estrutura social erguida pelo capitalismo por essas bandas.

A rede de shoppings foi planejada para nuclear um público alvo da ordem de 40 milhões de pessoas.

O Brasil tem mais de 190 milhões de habitantes: 150 milhões estão fora.

Uma parcela dos excluídos agora quer entrar.

O rolezinho é uma evidencia da pressão exercida na parede do dique.

Quem quer entrar entende (com ou sem razão) que o Brasil limpo, organizado, atraente, refrigerado, seguro, iluminado, rico, antenado, onde faísca la dernier cru  do consumo e, vá lá, bonito, para os padrões dominantes,   está lá dentro.

Não nas ruas desoladoras e escaldantes  das periferias conflagradas onde vive a maioria dos integrantes do rolê.

Pode-se – deve-se - discordar da matriz de valores que atribui a um bunker do consumo o padrão de sociedade desejável para viver e se divertir.

Mas há razões para isso.

Um dado sugestivo: até o ano passado, apenas 13,5% dos municípios brasileiros dispunham  de uma secretaria voltada exclusivamente para a cultura.

Tê-la não é garantia de grande coisa.

Mas a escala da ausência emite um sinal  da atenção  dispensada a uma  área  que fala diretamente à juventude --e poderia oferecer-lhe um ponto de fuga  à pulsão consumista, diuturnamente martelada  ao seu redor.

Esforços  de investimento público tem sido feitos nessa direção.

O número de cidades com bibliotecas, por exemplo, saltou para 98% em 2012, praticamente  universalizando esse equipamento, restrito a 70% delas  até 1999.

Mas uma biblioteca convencional, de mobiliário imaginável e acervo presumível, em qualidade e quantidade, será um espaço suficiente para satisfazer as expectativas de desfrute, encontro e lazer de quem adere a um  rolezinho?

Em 2007, o governo criou um  Programa para o Desenvolvimento da Economia da Cultura (Procult).

Através do BNDES já financiou a construção ou a reforma de 259 salas de cinema.

Mas a maioria dos cinemas do país fugiu igualmente para o interior dos shoppings por conta da insegurança que também despovoou  praças e jardins, capturados pelo consórcio drogas  & desmazelo.

Apenas 10% dos municípios brasileiros dispõem de cinemas atualmente.

Pesquisa desta semana do Ibope informa que as  ‘classes’ C e D bateram recorde de horas diante da televisão em 2013: média de seis horas e 40 minutos. Por dia.

E convenhamos,  não dá para imaginar que todo mundo vá se reunir numa lan house, presente, aí sim, em 82% da malha urbana e, de fato, encontrável em qualquer bairro ou favela  por mais pobre que seja.

O espaço virtual tem limites.

O rolezinho  se vale da capilaridade digital para convocar os encontros , mas representa ele mesmo (felizmente) a insuficiência da realidade virtual na vida humana.

A dupla insuficiência – material e virtual - misturada a uma revolta difusa, temperada de hormônios e apimentada com o deboche e  o anseio por identidade olha em volta e enxerga o quê?

Enxerga aquilo que distraidamente ou de forma deliberada foi sendo construído nas entranhas da velha malha urbana, e para cujo declínio  contribuiu  ao inocular  a decadência no pequeno comércio, a escuridão no jardim, a solidão no centro velho e o sucateamento do (parco)  equipamento  público.

O shopping  center, a nova cidade brasileira.

Prefiguração  do sonho neoliberal, ela materializa  um ordenamento coletivo onde tudo é privado (leia o blog do Emir, nesta pág).

Por definição, a cidade  da mercadoria  é o jazigo da cidadania.

Não só.

O anestesiante paradigma de  ‘eficiência’ do shopping engorda o descompromisso com que  a elite consumidora  encara  seus deveres  em relação ao espaço coletivo ao seu redor.

Por que, enfim,  pagar mais pelo IPTU se já tenho o que quero e o que a cidade numa terá no shopping  –ainda que esse adicional corresponda, por dia, a uma fração do preço de um cafezinho do Starbucks no Iguatemi?

O rolezinho  sacode o pilar dessa ordem excludente deixando aflorar um conflito que há muito incomoda o conforto  das elites.

Quem não se lembra do ‘transtorno’ que a vizinha favela Funchal causava ao Vaticano dos shoppings centers no Brasil, a famosa Daslu – 20 mil m2 de pura  ostentação, gastos médios de U$ 15 mil/mês por cliente e uma sonegação de imposto de estupendo R$ 1 bilhão?

Ou do desabafo da socialite Danuza Leão, na Folha, em dezembro de 2012?

Inconsolável  com o Brasil do PT, a então colunista lamentava como ficou difícil “ser especial” nesses tempos em que “todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais” -- musicais na Broadway, por exemplo, que graça tem se  “por R$50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir”.

Os filhos do porteiro da  Danuza resolveram agora  ir ao shopping.

E a justiça de SP autorizou  seis deles a dizer-lhes: ‘Dá o fora!’.

Esse é o capítulo da novela brasileira nos dias que correm.

As raízes desse enredo de  paralelas que agora se cruzam em conflito aberto na porta de santuários do consumo  remetem à mutação inconclusa verificada no país desde 2003.

Qual seja, a pobreza caiu pela metade; o mercado de trabalho atingiu as franjas do pleno emprego;  o salário mínimo ganhou quase 60% de poder de compra, acima da inflação.

A desigualdade continua obscena, mas as placas tectônicas se moveram.

Privilégios  obcecados em preservar  um ordenamento  social patológico defendem como virtude macroeconômica  restituir as fronteiras do conflito original aos marcos do cordão sanitário instituído nos anos 90.

O superávit fiscal ‘robusto’ para assegurar o ganho dos rentistas é um desses marcos.

Outro: o salto adicional nas taxas de juros, até encostar a faca recessiva na garganta da massa ignara.

A crispação em torno dos rolezinhos  mostra o quanto será difícil devolver a pasta de dente ao tubo da história.

Nesse empurra-empurra, subjacente à disputa presidencial de outubro,  há nuances que dizem respeito  diretamente à esquerda.

O  ‘rolezinho’  denuncia  uma dimensão da luta política rebaixada nos últimos anos na conta da ilusão economicista de que o holerite e o crescimento resolviam o resto.

São imprescindíveis, diga-se.

Mas o discernimento histórico que requer a longa  construção de uma sociedade justa e virtuosa nunca será um dote intrínseco  à conquista do legítimo direito de viajar de avião, ou  comprar bens duráveis a crédito, nem tampouco uma qualidade imanente a  governantes eleitos pelos pobres.

Erguer essas linhas de passagem é tarefa das organizações progressistas que se propõem a mudar as formas de viver e de produzir em sociedade.

É delas a obrigação de associar à luta econômica sua contrapartida de ideias emancipadoras que ampliem o horizonte subjetivo para além do consumismo individualista.

Do contrário, o futuro ficará emparedado entre o horizonte do rolezinho e o interdito do dinheiro graúdo.

No limite, ambos poderão se unir em torno de um tênis Nike, contra uma repactuação mais arrojada do desenvolvimento  que implique  outra modulação do consumo.  

O mais difícil na luta pelo desenvolvimento é produzir valores, dizia o saudoso Celso Furtado, em palavras  de atualidade inexcedível.

Não apenas esse, mas  sobretudo esse passo  a esquerda deve ao Brasil.

E não parece recomendável adiá-lo mais uma vez  ‘para depois da próxima eleição’.

RESPOSTA DO STF



 CONFIRMA



 MORDOMIAS DE



 BARBOSA




Que venha a luta de classes

Comecei a ler sobre política aos 14 anos. Era 1973. Minha família assinava o Estadão. Via sempre o avô, a avó e a mãe devorarem aquelas folhas brancas com letras negras e me perguntava o que continham aqueles textos enormes para lhes prender tanto a atenção. Sobretudo o primeiro caderno. Um dia, então, aventurei-me em um tipo de leitura que nunca mais abandonaria.
A primeira vez que vi a expressão “luta de classes” foi no jornal supracitado. Por terem se passado cerca de quarenta anos, desde então, não posso precisar se foi num artigo, num editorial, numa reportagem ou numa carta de leitor. Contudo, fora usada no contexto de ser indesejável – os “comunistas” eram acusados de promover conflitos entre pobres e ricos.
Parece que foi ontem…
Ao longo da vida, luta de classes sempre me foi apresentada pela imprensa e por certos grupos políticos como sendo tragédia para uma nação, ao passo que os socialistas científicos diziam o contrário.
Demorou até que aceitasse que a melhora das condições de vida dos trabalhadores só se daria através da luta de classes, pois não conseguia dissociá-la da luta armada, que repudiava. Sempre me inclinara mais pelas ideias burguesas dos socialistas utópicos, de que a transformação social aconteceria de forma pacífica.
Por conta desse pensamento, durante a ditadura me mantive distante da política. Contudo, por sempre ter me informado – mesmo quando garotas e festas eram mais importantes –, sempre soube que a forma como o país era governado estava errada. Até porque, minha família, influenciada pelo Estadão, ao longo daqueles anos tenebrosos foi mudando paulatinamente de opinião sobre o regime que um dia apoiara, assim como o jornal.
Todo esse preâmbulo foi necessário para chegar ao ponto central deste texto: a tão temida luta de classes, se um dia ajudou a aprofundar a ditadura militar, hoje pode ser travada sem luta armada, pela via da luta política desencadeada de baixo para cima, como começamos a ver ocorrer.
A revolução proletária, aliás, vai se mostrando uma questão de tempo, neste país – ainda que torça para que transcorra de forma política, sem violência, mas sabendo que ocorrerá de uma forma ou de outra.
De dezembro último para cá, inclusive, surgiram sinais de que um choque de classes está cada vez mais próximo. E o que é mais: só não aconteceu antes por conta da forte inclusão social da era Lula-Dilma. Nesse aspecto, a elite deveria ovacionar os dois presidentes trabalhistas que, com seus programas sociais, conseguiram retardar a fervura do caldeirão social.
E quando cito “sinais de um choque de classes” iminente, refiro-me ao movimento social absolutamente desorganizado e despido de ideologias conhecido como “rolezinho”.
Os milhares de adolescentes que têm ido a templos do consumismo das classes média e alta, aos ditos “shoppings”, são a expressão mais evidente do inconformismo com a desigualdade que cresce por parte de suas vítimas, desse sentimento que vai surgindo entre essas camadas sociais ora inspiradas pelos ventos da liberdade política e ideológica que mais de duas décadas de democracia fizeram soprar.
A reação da sociedade aos abusos das forças de repressão do Estado, que hoje já não encontram espaço para a impunidade total de outrora devido ao fenômeno da democratização da comunicação social gerado pela internet, será inevitável e benéfico conquanto a democracia se mantenha preservada.
A menos que alguém acredite em outro golpe para calar de novo o grito de inconformismo que a pobreza mantém preso na garganta há tanto tempo.
Nesse contexto, surge um dado positivo. Por mais que repudiemos o status quo, não se pode negar que a grande imprensa teve um papel fundamental na denunciação dos abusos contra os meninos e meninas dos “rolezinhos”. E não só da polícia militar, mas da Justiça, que deu uma permissão bizarra para que shoppings pudessem triar quem neles ingressava com base na cor da pele, no modo de se vestir e em outros fatores subjetivos que denotassem pobreza.
A imprensa, portanto, não deixou de ser conservadora, mas vai se vendo obrigada pela comunicação abundante e incontrolável a não se deixar ficar a reboque dos fatos.
Mais de duas décadas de democracia e o advento da internet terminaram por gerar o ambiente ideal para que, cada vez mais, as legiões de vítimas da desigualdade à brasileira possam denunciar seus algozes. E os “rolezinhos” são expressão desse fenômeno.
Claro que não poderia deixar de eclodir aqui e ali, entre advogados e juristas, entre jornalistas e tantos outros expoentes da elite branca de ascendência indo-europeia o discurso absurdo sobre o caráter “privado” que teriam os shoppings, um discurso em defesa de um direito constitucionalmente inexistente de comerciantes selecionarem clientes que possam ou não ingressar nesses locais de frequentação pública.
Estão enganados. O comércio aberto ao público funciona sob a condição de estar aberto ao público, ou seja, a todos, sem discriminação de classe social, etnia, religião, orientação sexual, política e ideológica.
Aliás, discriminar no comércio varejista é crime.
O “rolezinho”, pois, é um direito contanto que não enverede pela violência ou pela criminalidade. E impedir alguém de frequentar algum lugar sob a premissa de que sua aparência denota que poderá cometer vandalismo, roubos ou qualquer outro tipo de crime é fascismo em estado puro.
Esse movimento de imberbes, portanto, na visão deste que escreve é absolutamente legítimo. Fatos e investigações revelaram-me que não guarda relação com os protestos violentos e políticos que eclodiram pelo país a partir de junho do ano passado e que agora pretendem sabotar a Copa do Mundo.
Trata-se de um movimento espontâneo e que poderá cumprir a função cívica de expor a desigualdade hipócrita que vitima o Brasil – e, assim, a função de provocar mudanças.
Os “rolezinhos”, pois, não têm parentesco com as tais “jornadas de junho”, mas com a primeira ocupação de um shopping na história recentíssima.  Em 2000, um grupo de sem-teto ocupou um desses templos de consumo e, ao fazê-lo, fincou as raízes de um processo que precisa ocorrer no Brasil, o de esfregar a desigualdade insustentável na cara da elite que dela se beneficia.
Antes de chegar à conclusão do texto, portanto, se ainda não assistiu vale muito a pena assistir ao documentário Hiato, abaixo reproduzido. Ele revela a gênese dos “rolezinhos”. O texto prossegue em seguida.




O que assistiu acima, leitor, foi o embrião dos “rolezinhos” que ora eclodem por São Paulo e que tendem a se espraiar pelo país, caso a sociedade saiba reagir à repressão.
A “luta de classes” por essa via – e por outras análogas a ela que venham a surgir –, portanto, não só precisa prosseguir como tem que ser intensificada. Sem violência, mas com firmeza. Há que mostrar a realidade a essa elite delirante que acredita que pode confinar uma maioria tão avassaladora nos guetos que para ela engendrou.
Os milhares que ocuparam e ocuparão shoppings e outros refúgios da elite poderão fazê-la entender que caso não aceite distribuição de renda por bem poderá ter que aceitar por mal. E não por conta de algum movimento politicamente organizado, mas pela paciência que se esvai nas massas, que, desprezando os intermediários e qualquer organização, instintivamente está a exigir igualdade.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Com quantos oportunistas se faz um Opportunity?

Guerra de expectativas: vendas a prazo no varejo cresceram 4,12% em 2013; Confederação dos Lojistas previa 4,5%; inadimplência subiu 2,33%; previsão era de 2%; manchete do Valor: Comércio cresce menos e inadimplência sobe mais que o previsto

Editoriais e colunistas aumentam pressão por nova alta dos juros na reunião do Copom que começa nesta 4ª feira

Justiça de SP concede liminar a seis shoppings para filtrar o ingresso de clientes; meta é barrar a entrada de menores desacompanhados e pobres

FGV prevê que a Copa do Mundo adicione R$ 142 bi ao movimento do comércio brasileiro em geral

Daniel Dantas não foi um acidente de percurso dos anos 90. As elites do país compraram a ideia de que o futuro tinha um preço: eliminar a presença do Estado.


por: Saul Leblon 
Arquivo










A trajetória do banqueiro Daniel Dantas, esquadrejada em minucioso trabalho jornalístico pelo repórter Rubens Valente (leia a resenha do seu livro ‘Operação Banqueiro’;  nesta pág)  reúne um repertório tão abrangente de personagens, crimes econômicos, ademais de manobras político-partidárias, policiais e jurídicas que involuntariamente pode anestesiar a percepção do leitor para um aspecto não negligenciado na narrativa.

Daniel Dantas não foi um acidente de percurso no Brasil dos anos 90.

A sociedade despedia-se então de um ciclo esgotado do seu desenvolvimento.

Tateava outro, embalada  na firme adesão de suas elites à ideia de que o atalho para o futuro tinha um preço: eliminar  qualquer coordenação democrática do Estado sobre a economia e o crescimento.

O PSDB do sociólogo e presidente Fernando Henrique Cardoso considerou que o custo era justo.

Isso não é o necrológio de uma época.

Tucanos e variações da mesma espécie, eventualmente com sotaque pernambucano, assim como progressistas arrependidos continuam  a crer  que a contrapartida  é uma bagatela.

A galinha morta, congelada durante cinco anos pela crise dos seus fundamentos, volta assim ao balcão das ofertas eleitorais como frango fresco.

Quiçá orgânico, graças às contribuições  de Marina Silva.

Não se pode subestimar a lição política extraída do relato minucioso de Valente.
Uma reforma política que dificulte ao máximo a captura das campanhas eleitorais pelos agentes do dinheiro grosso é um imperativo do regime democrático.

Mas ela não basta.

É preciso que os interesses graúdos sejam igualmente regulados pelas urnas na exata medida do que a sociedade requer das instituições e recursos por eles  dominados. 

Quem o fará?

Esse capítulo não consta, nem poderia constar do livro.

Antes que seja coligido por um autor, a disputa política terá que dizer o que o país pretende dos bancos e do sistema financeiro em geral.

Banqueiros, ao contrário do feérico Daniel Dantas, em geral são discretos.

O  papel que desempenham na engrenagem sistêmica recomenda uma rotina à  salvo dos refletores políticos e judiciais.

É  questão de segurança e de história.

O dinheiro grosso passa por eles  –às vezes literalmente, a caminho de paraísos fiscais como o das ilhas Cayman –mostra o livro;  ou embarcados em esféricas contabilidades que preservam a identidade, o patrimônio e a sonegação  de seus anônimos detentores.

Bancos e banqueiros formam uma espécie de estuário dos sucessos e  pecados expressos na forma mais desejada, arisca e versátil da riqueza -- a forma dinheiro, na qual todas as outras estão representadas. 

Não se confunda o sistema financeiro com mera tinturaria ou levedura dos endinheirados.

Ainda que seja isso também,  sua estrita regulação é crucial para que se aplique no que lhe cabe como provedor do crédito, sem o qual não há crescimento no capitalismo.

O multiplicador que permite ao banco emprestar várias vezes aquilo que de fato possui em depósitos, fia-se na certeza de que nem todos os correntistas e investidores vão sacar o seu pecúlio ao mesmo tempo.

É esse lastro de vento que permite ao crédito ser uma antecipação do futuro.

Ao irrigar a produção e o consumo permite à economia erguer-se pelos próprios cabelos, encorpando a musculatura da mais-valia na acumulação subjacente.

Boa parte da engrenagem se apoia numa cabeça de alfinete chamada confiança nos bancos.

O oposto é a corrida aos saques - capaz  de destruir um banco em questão de horas,  por conta justamente do descasamento intrínseco ao seu alicerce entre ativos e passivos, prazos e expectativas díspares.

Quando todas as variáveis  convergem para um mesmo ponto –a esquina do pânico -  o sistema financeiro quebra.

Influenciar sem se expor, sem gerar ruídos  é, portanto, o segredo desse negócio.
Daniel Dantas destoa no quesito recato.

Mas se encaixa no ditado, segundo o qual, não se deve cometer o equívoco de jogar o bebê com a água suja do banho.

A dimensão político- judicial da atabalhoada ascensão financeira não o torna um personagem menos elucidativo  da agenda cuja presença ainda pulsa tão forte na política brasileira quanto os interesses que ele expressou e muitos ainda expressam.

Esqueça a imagem do bandoleiro adestrado na rapinagem tosca.

Fundado em 1994 e tendo iniciado as operações em 1995, não por acaso seu banco levava o nome de Opportunity, conforme observa Rubens Valente com a mesma sagacidade do personagem.

Não era um banco convencional voltado ao financiamento da produção e do consumo.

Era uma ferramenta  dos novos tempos.

Esses que persistem insepultos apesar da crise brutal em que mergulharam o planeta desde 2007/2008.

A ‘oportunidade’ dos novos ares saltara aos olhos de Dantas, e outros, com a vitória do PSDB  nas eleições de 1994.

Fernando Henrique Cardoso assumiu com a mesma disposição de Collor.

Defenestrado no meio do caminho, o ‘caçador de marajás’ construído pela Globo e assemelhados, prometera privatizar 68 estatais.

Caiu quando tinha liquidado 18.

Dantas participou da formulação desse programa de governo.

Protegido de Mario Henrique Simonsen, de quem fora aluno brilhante, chegou a ser cogitado como ministro da Fazenda de Collor; do mesmo modo, e pelas mesmas mãos, participaria do plano de FHC, como conselheiro econômico do principal aliado tucano em 94 e 98, o  PFL (depois Demos).

‘O liberalismo econômico é a única solução para sairmos do impasse (...) é a saída mais rápida e eficaz, especialmente porque não exige coordenação. O governo deveria se engajar num amplo programa de privatizações . Deveríamos começar pela privatização do próprio  setor privado: fim das cotas, monopólios, subsídios.’

O trecho é de um artigo de 1988 (na Folha) do futuro banqueiro que estudou no MIT, era tido como garoto prodígio e começou no mercado administrando fortunas de endinheirados, como a do ex-presidente do Bradesco, Antonio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha.

Compare-se com o que diz hoje a cavalaria dos colunistas que diariamente acusa o necrológio do modelo ‘intervencionista’ do PT e o anacronismo da ação desenvolvimentista do BNDES, que adicionou R$ 190 bi ao investimento da economia em 2013.

O texto de 1988 poderia ser assinado hoje  por um formulador do tucano Aécio Neves, como Edmar Bacha. Ou um guru das microreformas, como Marcos Lisboa, que há dias despejava megatons contra o que classifica de ‘o velho desenvolvimentismo do governo’, no não menos comparável jornal Valor Econômico.

O que dizem todos os assessores de Campos se não a mesma coisa  que já dizia  FHC na famosa entrevista concedida a Folha, em 13 de outubro de 1996 quando via a humanidade a caminho de um novo Renascimento – nos braços da globalização.

É forçoso reconhecer: o  sociólogo intuía a ameaça subjacente ao pacto mefistofélico feito com os ditos ‘livres mercados’.

Na ausência de contrapesos institucionais, o que aconteceria em caso de colapso financeiro global, perguntava-se?

O tucano conservador,  porém, preferiu não dar corda às especulações do sociólogo optando por  terceirizar a governança  à hegemonia dos mercados financeiros desregulados: ‘ninguém foi capaz, nem eu sou, de dizer como se resolve essa questão das "regras de governança" em nível mundial. Não tem problema se não houver tropeço grande do sistema financeiro. Aí está: você tem um conflito aqui, outro ali, mas não dá uma crise maior’.

‘Mas, e se der?’, perguntava a si mesmo.

Estamos falando, portanto,  de um metabolismo coletivo do qual Dantas foi a artéria exposta de uma época que ainda não acabou.

Seu instinto e intelecto souberam transformar o  vento de popa da desregulação ensaiada por Collor, e consumada pelo PSDB, no combustível da engrenagem faminta que o levou onde chegou. 

Longe.

De gerente de fortunas alheias, com um caixa de US$ 50 milhões, nos anos 80, no Icatu, banco pessoal da família Braga, em 1997 ele já movimentava investimentos da ordem de US$ 3,7 bilhões a bordo do Opportunity.

O ponto de mutação envolve o mergulho de cabeça  em um enredo meticulosamente decifrado no livro.

Ele reúne a determinação do governo do PSDB de privatizar portos, jazidas, telefônicas, elétricas,  petroquímicas, siderúrgicas, ferrovias – e mesmo a Petrobrás, recomendada por  Dantas, diga-se, mas salva no escândalo da Petrobrax.

À determinação tucana aliou-se a do banqueiro de não perder a exuberante oportunidade.

Para isso juntou interesses aflorados com a grande lambança rumo a um modelo de desenvolvimento menos ‘burocratizado’, dizia-se,  literalmente franqueado aos instintos capazes de explorar todas as possibilidades do cardápio.

 O City Bank foi um dos que aderiram ao menu oferecido pelo Opportunity , que se especializou em compor pools de capitais para avançar sobre as estatais de faca na boca.

No caso do City havia  um adicional de apetite: interessava ao banco desfazer-se de papéis da moratória brasileira dos anos 80.

Em vez de direitos de saque teóricos sobre uma riqueza futura, o saque em espécie do patrimônio tangível.

As regras da privatização tucana facultavam a modalidade de gula.

O banco norte-americano colocaria  entre US$ 700 milhões e US$ 1 bi nas mãos de Dantas, com quem iria se indispor no imbróglio das teles anos depois, em conflito que se repetiria entre o banqueiro e os fundos de pensão, já aqui sob a gestão do PT, em disputa de poder pelo comando das privatizadas.

A resenha de Renato Pompeu nesta página é um precioso guia para o leitor de Rubens Valente não perder o fio da meada.

São rounds e rounds de um duelo de perder o fôlego, do qual participariam direta e indiretamente não apenas o PSDB, mas também integrantes de um pedaço do PT, da PF e do judiciário.

A endogamia entre Daniel Dantas e Gilmar Mendes é um caso à parte.

Debulhada em triangulações que envolvem escritórios de advocacia interligados por pontes de interesse familiar  e favores pessoais, reúnem material suficiente para convocar a palavra escárnio.

Ela precifica os rompantes do magistrado que evocava o risco republicano de um Estado capturado pelo PT, no julgamento da AP 470.

O livro de Rubens Valente não esgota o assunto.

Não por falha do autor.

Trata-se,  como se disse acima, de uma história inconclusa.

Interesses, visões de mundos, forças políticas e personagens centrais iluminados por ele continuam a exercer e a enxergar no Brasil uma enorme oportunidade.

Tome-se o caso pedagógico do economista  Pérsio Arida, por exemplo.

Arida participou ativamente, ao lado de André Lara Rezende e outros, da formulação do Plano Real; presidiu o BNDES  –agente financeiro das privatizações—até  a posse de FHC, em janeiro de 1995, quando assumiu a presidência do Banco do Brasil.

A esposa, Elena Landau, exerceu o cargo mais específico impossível de coordenadora do programa de desestatização do BNDES.

Arida e Landau saíram do governo FHC antes de soar a campainha convocando os mercados para o rebabofe das estatais que eles ajudaram a deixar ao ponto.

Foram direto de mala e cuia trabalhar para o Opportunity  de Daniel Dantas (Landau fez um aquecimento prévio na gerencia de investimento do banco Bearn Sterns)

Arida passou a ser apresentado aos clientes como parceiro sênior do banco, atuando diretamente na frente de investimentos, leia-se, arremate de estatais.

Que nome dar a isso?

Arida, Bacha, Landau, Lisboa, Mendonças, Lara Rezende (hoje um guru do econeoliberalismo de Marina) continuam a pontificar e a pautar a agenda econômica do país, na assessoria de forças conservadoras e como referência do colunismo embarcado.

Aquilo que especulava FHC na entrevista citada de 1996  deixou de ser especulação --‘Não tem problema se não houver tropeço grande do sistema financeiro; você tem um conflito aqui, outro ali, mas não dá uma crise maior. Mas, e se der?’

Deu.

A inexistência de alternativa à altura, porém, encoraja a mesma  turma a apostar em uma nova chance em 2014.

Uma nova oportunidade - diria aquele que de todos talvez tenha sido o mais transparente em seus propósitos
.

TIJOLAÇO ELEGE A MADRINHA DO ROLÊ. A TUCANHÊDE ! Fernando Brito sabe por que a “massa cheirosa” dá essa força ao rolê.




Conversa Afiada reproduz artigo de Fernando Brito, extraído do Tijolaço:

JÁ É CARNAVAL: CANTANHÊDE SAI VESTIDA DE “MADRINHA DO ROLÉ”



Se as eleições não tivessem outros méritos, só este já seria maravilhoso: faz a elite brasileira perceber que, afinal, existe um povo por aqui.

Hoje, a colunista da “massa cheirosa”, Eliane Cantanhêde produz um artigo em defesa da garotada da periferia que anda fazendo “rolezinhos” nos shoppings paulistas.

Claro, eles podem e devem entrar nos shoppings o quanto quiserem.

Aliás, só podem fazer isso porque eles e seus pais tiveram um expressivo aumento de renda nos últimos anos.

É uma imbecilidade – e uma ilegalidade – recebe-los a polícia, como foi (e é) uma imbecilidade receber a cassetete as manifestações contra o aumento do preço dos transportes coletivos.

Mas só um tolo não percebe as intenções dos “cheirosos aliados do povo” com esta onda em torno dos “rolezinhos”.

Uma gente que, na beira da eleição, defende o direito da gurizada de classe média baixa ou da pobreza de entrar nos shoppings.

Mas que durante anos vociferou contra o direito de entrarem na Universidade, pelo sistema de cotas.

Ou no mercado de trabalho, pela falta de vagas.

Ou até de comerem, com o Bolsa-Família.

Exceto os empedernidos, que acham que podem  barra-los com liminares, os mais espertos assumem o discurso de uma radicalidade democrática que jamais tiveram.

A direita cheirosa sente o cheiro da oportunidade.

E sua colunista-símbolo já se fantasia de “madrinha do rolé”, saudando o fato de que ali não estão os meninos ricos, “que não têm mais a ALN, a Polop, o partidão, nem ditadura, para protestar”, como se a luta contra uma ditadura sanguinária fosse “zoar” numa praça de alimentação.

Esperemos a chegada do Arnaldo Jabor e do Merval Pereira, de bermuda grunge e boné.

A democracia e as eleições, afinal, são uma festa que tem lá seus ares de carnaval.

Muita gente sai fantasiada.



Clique aqui para assistir a inesquecível vídeo da Tucanhêde sobre a verdadeira “massa cheirosa”, em sua higiênica concepção.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Justiça à brasileira: Demóstenes Torres curte Ano Novo na Itália

Dois homens, duas acusações, dois pesos e duas medidas.
O ex-senador Demóstenes Torres foi flagrado mantendo relações com um chefe do crime organizado de Goiás. Há fartas provas materiais contra ele, inclusive gravações em que aparece se corrompendo.
Demóstenes foi flagrado por uma fonte deste blog desfrutando das delícias que o dinheiro pode comprar. A foto que o leitor vê acima foi tirada na cidade italiana de Firenze no primeiro dia deste ano.
José Genoino foi acusado de corrupção ativa e formação de guadrilha e condenado a 6 anos e 11 meses de prisão sem uma única prova material ou mesmo testemunhal. Para condená-lo, usaram a teoria de que seria “verossímil” que fosse culpado.
No mesma foto acima, Genoino aparece em prisão domiciliar, em Brasília, no dia 6 último, após a justiça ter decidido lhe cobrar uma multa que vale mais do que a casa humilde em que reside, num bairro de periferia da grande São Paulo.
Os fatos acima resumem a Justiça brasileira. Abaixo, as fotos de como a elite judiciária trata a elite política deste país, que paira acima das leis enquanto debocha delas.

SEM PRENDER JEFFERSON, BARBOSA ANTECIPA FÉRIAS

KENNEDY E 1964: COMO ARROMBAR PORTA ABERTA Jornalões não sabem que furo é furado.

Roberto Jefferson PT Joaquim Barbosa mensalão
Só o Gaspari não sabia ...


A propósito do “furo” de reportagem “Kennedy cogitou (de) ação armada para depor João Goulart”, o Conversa Afiada recebeu o seguinte comentário de atento amigo navegante:

Paulo,

É impressionante como nossa imprensa cobre mal assuntos de grande relevância para o Brasil. Os jornais apresentam hoje como se fosse um furo de reportagem a gravação de diálogos do Kennedy na Casa Branca onde ele dá o sinal verde para o golpe militar no Brasil. O registro, bem como o de um diálogo do Johnson comemorando o golpe meses depois, já havia sido revelado no imperdível documentário de Camilo Tavares “O dia que durou 21 anos”.

No entanto, os jornalões e as televisões passaram batido pelo filme, que foi exibido na TV Brasil, em salas de cinema e inclusive numa sessão especial no Palácio da Alvorada.

Só me pergunto: Por que? Provavelmente porque sequer destacaram um bom repórter para ver o documentário.

Sobre o mesmo tema, o Conversa Afiada recomenda também o documentário “Dossiê Jango”.
Ali se verá que – segundo o ínclito Waldyr Pires – Jango preferiu não resistir no Rio Grande do Sul, porque tinha a informação – de San Tiago Dantas – de que os americanos iam dividir o Brasil ao meio, como tinham feito, há pouco, na Coreia.
O “furo”, como se sabe, é de autoria do historialista – não é Historiador nem Jornalista – que usa múltiplos chapéus.
O “furo”, nos Estados Unidos, é um documento público.
“Privados” são os documentos dos arquivos do major Aquino Ferreira, em que se sustenta a extensa obra do historialista.
Arquivos acumulados quando o major servia no Palácio do Planalto, como funcionário público.
O historialista terá dificuldade em arrombar essa porta ainda que aberta – só ele sabe que os americanos derrubaram Jango.
Porque dele é a tese de que Jango caiu porque gostava de pernas – de coristas e cavalos.
Clique aqui para ler “Jango não foi deposto”, e aqui para ler “Kruel traiu Jango por seis malas de dólares”.





Paulo Henrique Amorim