Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista
Mostrando postagens com marcador comissão da verdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador comissão da verdade. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

JANGO E A HISTÓRIA: O GENERAL IGNORANTE E O SILÊNCIO GERAL “A História é a Historia. Não comete erros !”


Conversa Afiada reproduz texto de Luiz Cláudio Cunha:

JANGO E A HISTÓRIA

O GENERAL IGNORANTE E O SILÊNCIO GERAL


Por Luiz Cláudio Cunha



No feérico firmamento da insensatez nacional, a frase mais boçal dos últimos tempos coube a um general de quatro estrelas. No limite da irresponsabilidade, na fronteira da grosseria, no limiar da insubordinação, o general Carlos Bolívar Goellner, 63 anos, atravessou as cerimônias oficiais da semana passada em São Borja (RS) em homenagem ao ex-presidente João Goulart (1919-1976). Supremo comandante do Comando Militar do Sul (CMS), maior guarnição do Exército no país, o general intrometeu-se dando botinadas no enterro com honras militares prestadas a Jango, sepultado pela segunda vez em sua terra natal na mesma data – 6 de dezembro – em que morreu na Argentina, em 1976, ainda no exílio forçado a que o levou o golpe de 1964.

O repórter Carlos Rollsing, do jornal Zero Hora, que cobria a cerimônia, perguntou com argúcia à máxima autoridade que representava o Exército na cerimônia se a sua presença ali representava uma retratação histórica diante do presidente reverenciado. Para surpresa do repórter e de todos à sua volta, o comandante militar do Sul vestiu a esfarrapada farda de combate de meio século atrás e trovejou com inusitada deselegância:

– Nenhuma retratação. Nenhum erro histórico [a reparar]. A história não comete erros. A história é história – espumou o general Goellner.

Mais atento aos petardos da história que o general, o repórter lembrou que o primeiro sepultamento de Jango, em dezembro de 1976, foi realizado às pressas, para atender aos temores do regime militar. A passagem do carro funerário que atravessou a ponte que liga a cidade argentina de Paso de Los Libres à brasileira Uruguaiana, na fronteira, foi duramente negociada entre o coronel da guarnição local e o líder do oposicionista MDB da época, deputado estadual Pedro Simon, hoje senador. Seguindo ordens de Brasília procedentes do Palácio do Planalto de Geisel, o coronel determinara que o esquife de Jango fosse transportado em alta velocidade, para evitar a saudação popular à beira da estrada, e que o cortejo acelerado não parasse nem para reabastecer. Assim foi vencida, em menos de duas horas e meia, a distância de 190 km da rodovia RS-472 que liga Uruguaiana a São Borja, cidade natal e destino derradeiro do ex-presidente.






O repórter de Zero Hora lembrou ao general Goellner que, naquele ritmo acelerado, o primeiro sepultamento de Jango em 1976 não teve, como agora, as honras de chefe de Estado, já que a ditadura não permitiu nem o hasteamento a meio mastro da bandeira nacional. O general não se rendeu:

– Ele não foi enterrado como cidadão comum. Ele nunca deixou de ser presidente. Estamos prestando as honras regulamentares, nada mais do que isso. Não tem nenhuma outra ilação além disso, nem a favor nem contra – esclareceu o militar, com uma frieza glacial que destoava da cálida recepção da cidade ao seu presidente morto.

Rombudo, Goellner descartou a generosa hipótese levantada pelo repórter de que a presença do comandante, ali, poderia representar uma nova era de compreensão histórica para a corporação.

– As instituições não mudam na História. Não há nenhuma modificação em relação ao Exército – resistiu bravamente o general, com os dois coturnos solidamente plantados na intransigência e no imobilismo. O apagão temporal de Goellner impediu que ele recordasse o gesto eloquente de um mês antes, que prova a dramática e inspiradora mudança experimentada pelas Forças Armadas brasileiras, o Exército incluído, com o advento da democracia revogada pelos militares com a deposição de Jango. Em 14 de novembro, Jango voltou a Brasília, de onde fora escorraçado pelas armas em 1964, recebendo as tardias honras militares na presença de três ex-presidentes da República (Lula, Sarney e Collor) e da atual, Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira que pegou em armas contra a ditadura e foi por ela presa e torturada. Na terceira fila de cadeiras reservadas às autoridades no hangar da Base Aérea de Brasília sentaram-se lado a lado os três comandantes militares – o brigadeiro Juniti Saito, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o general Enzo Martins Peri, subordinado de Dilma e chefe de Goellner.

Na segunda fila, na cadeira logo à frente do general, estava sentado o seu colega de ministério, Fernando Pimentel, titular da pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. No início da década de 1970, o Exército que Peri hoje comanda prendeu e torturou Pimentel, um jovem de 19 anos que militou sucessivamente nos grupos de ação armada Colina, VPR e VAR-Palmares, onde lutava ao lado da guerrilheira Dilma Rousseff, atual comandante-em-chefe das Forças Armadas. Nessa condição, todos os generais da democracia – incluindo Peri e Goellner – batem agora continência para a atual presidente da República, por dever constitucional e subordinação aos rígidos regimentos militares. Se o obtuso comandante militar do Sul ignora tudo isso como uma saudável modificação do Exército é porque não entende o que é História e não compreende o que é sua própria corporação.

Manda e obedece


Em São Borja, em dezembro, o general Goellner, distribuiu grosserias. Um mês antes, em Brasília, Dilma, sua comandante-em-chefe, colocou flores sobre o caixão de Jango, ao lado da viúva, Maria Teresa, num ato de emoção e elegância que resume as mudanças históricas que os antolhos do comandante do Sul não conseguem perceber, após tanto tempo. Bastaria prestar atenção às três mensagens eloquentes que a antenada Dilma transmitiu pelo Twitter, momentos antes de receber os restos de Jango em Brasília: “Uma democracia que se consolida com este gesto histórico. Essa cerimônia que o Estado brasileiro promove hoje com a memória de João Goulart é uma afirmação da nossa democracia. Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”, lembrou a presidente.

Ainda em São Borja, a fala mal-educada do general foi contestada por quatro políticos civis, procurados imediatamente pelo atento repórter de Zero Hora. Autores da resolução do Congresso que há duas semanas anulou a farsa parlamentar de abril de 1964, declarando vaga a presidência quando Jango ainda estava em Porto Alegre, os senadores Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Pedro Simon (PMDB-RS) sacaram da ironia. “O que se faz aqui é a correção de um grave erro histórico. A História é um trem alegre que atropela todo aquele que a negue”, disparou Randolfe. “Faz bem o comandante em dizer isso. Ele acerta em citar o regulamento. A presidente manda e ele obedece”, reforçou Simon, falando ao lado do general, que ouviu tudo e não disse nada.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Ibsen Pinheiro, nascido em São Borja como Jango, foi ainda mais ferino: “Acho muito bom quando os militares falam só sobre regimento. Fez muito bem o comandante, cujo nome eu não sei. Militar é para falar sobre regulamento, regimento, essas coisas. Política é para o povo falar e para os líderes políticos. Do ponto de vista do regimento, é um ato formal. Do ponto de vista do Brasil, é um grande acontecimento, cívico e emotivo”.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que ali representava a Presidência da República, insinuou uma transgressão disciplinar, a ser considerada pelos comandantes do general: “Os militares respondem, pela hierarquia, a seus superiores. Certamente, as declarações dessa pessoa, pelas funções importantes que exerce, deverão ser analisadas pelos seus superiores”.

Foi eloquente a troca de guarda nas homenagens de Brasília e de São Borja. Na capital, pelotões de honra das três Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – prestaram honras de chefe de Estado a Jango, na presença de seus comandantes e da presidente Dilma Rousseff. Na cidade natal de Jango, cerraram fileiras nas homenagens ao ex-presidente só os soldados da Brigada Militar, a força pública estadual, com uma tropa de 25 mil efetivos, a metade da guarnição militar do Sul comandada por Goellner.






Apesar da presença do general, o Exército manteve-se ostensivamente ausente e distante em São Borja. O silêncio mais eloquente, porém, foi o da imprensa brasileira, que não repercutiu a áspera declaração do general. Nenhum grande veículo de Rio e São Paulo, nenhuma rede de TV, nenhum portal na internet, nenhum editorial, nenhum blog sujinho ou limpinho deu importância ao que disse Goellner, que não é um militar qualquer.

Gaúcho como Jango, mas nascido em Santa Maria, Goellner comanda a maior concentração de tropas do Exército brasileiro, mais de 50 mil homens, um quarto do efetivo total do país. No Comando Militar do Sul, antes conhecido como III Exército, Goellner chefia 18 oficiais-generais, 160 organizações militares, 20 Tiros de Guerra, 100% da artilharia autopropulsada, 75% da artilharia geral e 90% dos 1.645 tanques de guerra de toda a força terrestre brasileira – incluindo os blindados alemães Leopard, os americanos Patton e M-113 e os brasileiros Urutu e Cascavel.

General na gangorra


A silente imprensa brasileira perdeu a chance de contar que o palavroso Goellner é muito mais do que o general com maior poder de fogo do Exército brasileiro. Ele também é, ou era, uma estrela em ascensão no opaco firmamento militar. Até o desastrado bombardeio verbal de São Borja, Goellner era cotado como o provável sucessor de Enzo Peri no Comando do Exército. Os antecedentes até recomendavam o seu nome. Goellner, nome recentíssimo no Alto Comando do Exército, ganhou sua quarta estrela em março de 2011, concedida justamente por Dilma em sua primeira promoção de generais, três meses após assumir a presidência.

Goellner formou-se cadete em Campinas, ingressando no Exército em 1967, três anos após o golpe, e tornou-se aspirante a oficial da Infantaria pela Academia Militar de Agulhas Negras em dezembro de 1972, quando o general Médici cuspia ferro e fogo na fase mais sangrenta da ditadura. Até pela tenra idade, Goellner passou incólume pelos porões da repressão e pelos horrores da ditadura que começou com a deposição de Jango, que o general ainda hoje não considera um “erro histórico”, passível de qualquer retratação.

O surto de amnésia do general impediu que ele lembrasse episódios marcantes que comprovam clamorosos erros da História – que até as O Globo assumiu, em setembro passado, ao expressar um inesperado mea culpa pelo equivocado apoio ao golpe militar de 1964. O distraído Goellner erra ao dizer que a História, como construção coletiva do homem, não comete erros. A humanidade acerta o passo, e o general deveria fazer o mesmo, quando reconhece erros brutais que ainda hoje envergonham o mundo civilizado. Erros que gritam na consciência de todos, como a escravidão (abolida só no final do século 19 no Brasil, o último país escravocrata do mundo), a exploração colonialista, a nada santa Inquisição da igreja católica, o nazifascismo, a morte em escala industrial do Holocausto, os conflitos regionais, as duas guerras mundiais, os horrores dos gulags do stalinismo, a segregação do apartheid na África e nos Estados Unidos, a perseguição do macarthismo, a truculência das ditaduras do Cone Sul, a repressão coordenada da Operação Condor, a tortura e a censura – alguns desses erros, para espanto do general, cometidos com a efetiva participação de militares do Exército brasileiro, para horror de Goellner.

O próprio Exército de Goellner errou e acertou, na gangorra da História. Sustentou a ditadura do Estado Novo getulista, flertou com o III Reich que embevecia o ministro da Guerra (Eurico Gaspar Dutra) e o chefe do Estado-Maior do Exército (Góis Monteiro) de Getúlio Vargas, cerrou fileiras com os Aliados na jornada italiana da FEB na guerra contra o nazifascismo, impediu a quartelada de 1955 que tentava barrar a posse do presidente eleito Juscelino Kubitscheck. Até o III Exército que Goellner hoje comanda, com outro nome, teve seus altos e baixos. Acertou ao apoiar o povo gaúcho e o governador Leonel Brizola, em 1961, na Campanha da Legalidade em defesa do mandato de João Goulart. Errou, três anos depois, ao se engajar na conspiração golpista que derrubou o mesmo Jango cuja posse tinha assegurado. Fica provado, assim, que a História comete erros – e o general Goellner, também.

A fala desastrada no enterro de São Borja pode ter sepultado, de vez, as chances do general de chegar ao topo da carreira como comandante do Exército. Mas isso é pouco para a afronta praticada por Goellner, que passou batida pelo silêncio obsequioso a quem ele deve satisfação e subordinação. Ninguém em Brasília contestou o general – seja pela inoportunidade, seja pela grosseria, seja pelo imperdoável deslize histórico. Nem o comandante do Exército, general Enzo Peri, seu chefe imediato. Nem o ministro da Defesa, Celso Amorim, chefe dos dois. Nem a presidente Dilma Rousseff, chefe suprema dos três. Todos se calaram, talvez pela conveniência de engolir o desaforo para evitar maiores sobressaltos políticos, especialmente num período pré-eleitoral que não recomenda marolas, especialmente em torno dos quartéis.

O Palácio do Planalto pode ter desistido de puxar as orelhas do general, ostensivamente, para puxar discretamente o tapete de Goellner como futuro comandante da força terrestre. O chilique autoritário do general passou ileso, também, pelo crivo de instituições e entidades comprometidas com a defesa da verdade, dos direitos humanos e da democracia, como o Congresso Nacional, a OAB, a ABI, a Fenaj e até a Comissão Nacional da Verdade. Ninguém pareceu se incomodar com os disparates pronunciados em São Borja pelo comandante do sul.

Corações e mentes

O episódio envolvendo o general mais poderoso do Exército brasileiro, contudo, revelou a dificuldade que os militares brasileiros têm, em plena democracia, para digerir o passado e aceitar as circunstâncias ainda constrangedoras de uma ditadura distante que não exerceram, mas que protegem com um insensato sentimento corporativo. Goellner, um general de ficha limpa diante dos abusos do regime que ele viu nascer antes de completar 14 anos e que viu morrer aos 35, é mais um dos chefes militares entrincheirados na defesa incongruente de um regime de força carcomido pelo tempo e emparedado pela democracia. Os generais, antes apenas incomodados, agora se mostram ostensivamente irritados com a cobrança por verdade e justiça, como revela a irada reação do comandante militar do Sul.

Um exemplo gritante dessa hostilidade surgiu no início de dezembro, com um depoimento reservado de 92 minutos prestado em 12 de novembro à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, pelo general de brigada (reserva) Álvaro de Souza Pinheiro, 69 anos, nascido em Cuiabá (MT) e veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia, no início da década de 1970. O texto foi recuperado pelo experiente repórter Vasconcelos Quadros, do portal iG. Antes de depor, o general expôs seu compromisso, com uma elegância peculiar, numa mensagem distribuída aos “companheiros leais”, dizendo-se preparado:
“Preparado para dizer a estes comunistas de merda, em alto e bom tom, seguro e muito firme, que orgulho-me profundamente de ter integrando as Forças Especiais do Exército Brasileiro, participado decisivamente do combate contra a subversão e o terrorismo no Brasil. E, afirmar-lhes, olho no olho, que esta Comissão que, pela sua parcialidade, nada tem de Verdade; que ela é, verdadeiramente, da Infâmia, Calúnia e Difamação. Nesse contexto, não lhe reconheço nenhuma legitimidade para questionar-me em qualquer tema, razão pela qual nada mais terei a declarar.” 


Embora desdenhando da CNV, o general Pinheiro admitiu que os guerrilheiros mortos na selva foram identificados e enterrados em locais conhecidos, mas se recusou a dar qualquer informação: “Não vou confirmar nada a comissão nenhuma. Nem o papa me obrigaria”, disse o general, escancarando o pacto de silêncio da caserna que está acima das questões de Estado. “Tô rindo. Não tenho nenhum interesse nisso. O que me interessa é que o Exército resolveu o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”, respondeu, resumindo a dificuldade da Comissão da Verdade em resgatar o passado de violência da ditadura.

Quando entrou na mata para combater a guerrilha, Pinheiro era primeiro-tenente e lá combateu num total de 247 dias. Levou um tiro na clavícula, disparado pelo guerrilheiro Bergson Gurjão Faria, morto dias depois pela equipe de Pinheiro no Araguaia. Os restos de Bergson foram identificados em 2009.

À Comissão da Verdade, o general Pinheiro explicitou a posição contrária dos militares ao conhecimento da verdade: “Não falta radical tresloucado que queira acertar contas do passado. Mas não é qualquer vagabundo que vai me pegar, nem a investida de policiais do governo”, disse Pinheiro, no tom desafiador que lembra o general do Sul. A diferença é que o general Pinheiro esteve no Araguaia e tem o que esconder. O general Goellner, não.

É ilusão imaginar que Pinheiro seja peça de museu, escondido em casa e camuflado com o pijama e as pantufas confortáveis da reserva. O general está ativo, circulante e muito, muito ouvido. Em abril passado, deu instrução sobre “Operações de Informação” aos oficiais do 2º ano do curso de Comando e Estado-Maior (Ccem) na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. É a escola que prepara os corações e mentes dos capitães e majores que, promovidos a coronéis, vão integrar os grandes comandos do país. Em maio, estava no Sul, na jurisdição do general Goellner, falando aos oficiais, subtenentes e sargentos do 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo, na Grande Porto Alegre, sobre “Operações contra Forças Irregulares e Terrorismo”.





Com o sucesso de público e crítica do general da reserva Pinheiro nos quartéis de um Brasil democrático há 28 anos, é mais fácil entender porque o general da ativa Goellner ainda acredita que a História não comete erros. Na página do batalhão de São Leopoldo, o general Pinheiro é apresentado como “um dos maiores especialistas em operações de combate ao terrorismo”.

Um ex-capitão do 1º Batalhão de Forças Especiais, Dalton Roberto de Melo Franco, contudo, apresenta uma nova faceta de Pinheiro, com quem serviu quando ele ainda era coronel, em 1989. No ano anterior, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) iniciaram uma greve e ocuparam a usina no dia 7 de novembro. Dois dias depois, com autorização do presidente José Sarney, o Exército invadiu o local.

No tiroteio, morreram três operários e 46 ficaram feridos. Em 1989, no 1º de Maio, um memorial projetado por Oscar Niemeyer foi inaugurado na praça em homenagem aos três mortos.




Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, uma bomba derrubou o monumento, que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, na intenção de preservar o atentado para sempre na memória.

Dez anos depois, em março de 1999, o ex-capitão Dalton deu uma bombástica entrevista ao Jornal do Brasil,dizendo ter sido punido e expulso do Exército porque se recusou a participar do atentado contra o memorial. Ele disse ter integrado um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN para vigiar os líderes da greve. O ex-capitão disse ao JB ter recebido uma ordem de seu chefe no destacamento, o então coronel Álvaro de Souza Pinheiro, para explodir o monumento. Dalton pediu a ordem por escrito e foi excluído da operação. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse o capitão Dalton ao Jornal do Brasil.

O ex-coronel Pinheiro, hoje general, agora ri porque o Exército resolveu “o problema grave de um foco terrorista num ambiente de selva”. Sobre os focos urbanos em Volta Redonda, ele nada fala, até porque o silêncio é um dogma quase divino. Pinheiro, acintoso, avisa que não confirmará nada a nenhuma comissão, nem que o papa obrigue. Goellner, presunçoso, continua acreditando que a História não comete erros.

Os dois generais, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre, representam as duas faces do mesmo problema. Um não diz o que sabe. O outro não sabe o que diz.

Por omissão ou precipitação, um e outro acabam cometendo um erro continuado que recai sobre o Exército e frustra o país, cada vez menos paciente com a boçalidade, cada vez mais necessitado da verdade.


***

Luiz Cláudio Cunha é jornalista 




Clique aqui para ler “Jango, Kennedy e a cobertura da Globo”

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Brasil ainda vive uma ditadura, a ditadura da mentira



Comecei a ler jornal aos treze anos.  Era 1973 e minha leitura favorita era o primeiro caderno do Estadão, o de política – começara a me interessar pelo assunto porque via a família discuti-lo de uma forma que me intrigava. Mesmo dentro de casa, familiares conversavam sussurrando. E interrompiam o assunto quando eu aparecia.
Lendo o Estadão, percebia que faltavam informações. E quando fazia perguntas à família, não conseguia respostas satisfatórias – jovens da minha idade eram tratados como crianças, àquele tempo.
Naquele ano, assisti a uma reportagem no programa Fantástico – que estreara na Globo no mesmo ano – que me faria entender que aquilo que lia no Estadão não traduzia a verdade do que se passava no Brasil.
Lembro-me com clareza do título da reportagem: “Eleição, um show americano”. Mostrava, se bem me lembro, uma convenção partidária nos Estados Unidos – só não me lembro se era do partido democrata ou republicano.
Não era ano eleitoral nos Estados Unidos, mas a matéria era sobre a forma como funcionava a democracia naquele país.
Vejo, como se fosse ontem, as bandeirolas coloridas, um clima de euforia. Parecia uma festa. Tudo aquilo era para escolher um candidato a presidente do país que produzia os filmes, seriados e revistas em quadrinhos que tanto amava.
Mas o que me intrigava era por que, no Brasil, aquilo não existia. Por que em meu país não elegíamos presidentes? O jornal não me contava.
Perguntei à família, mas me enrolaram e não responderam. Nem minha mãe, que desde que me entendo por gente fazia questão de me doutrinar culturalmente por todos os meios, deu-me uma resposta. Sugeriu-me que parasse com a leitura de política porque, em nosso país, não era “bom” se interessar por aquele assunto.
Ficara muito intrigado. Aliás, sentia uma certa revolta. Vira na televisão um país que, então, era tido como exemplo para o mundo fazendo da sua democracia uma festa. Mas, no meu país, aquilo tudo, que me parecia tão positivo, era proibido.
Por que?
Um ano mais tarde, na escola – estudava no Colégio São Luis, em São Paulo –, então no “ginásio”, travei amizade com um rapaz do “científico” (ensino médio) que me contou em detalhes o que passava no Brasil e que a família não me queria revelar.
Daniel era quatro anos mais velho do que eu – tinha 18 anos. Ele fazia parte do que chamou de “partido” e disse que o Brasil estava sob uma ditadura, que militares nos governavam na marra e, assim, não podiam permitir que votássemos porque a maioria não os queria no poder e, assim, se o povo pudesse votar eles não continuariam governando.
Naquele distante 1973, filho de uma família abastada – vivia com mãe e avós e meu avô era um alto executivo da Mercedes Bens –, descobri que o regime militar era nefasto, uma violência. Mas minha repulsa àquele período de trevas se consolidou de forma indelével em meu espírito quando meu amigo Daniel “sumiu”.
Quando parou de ir à escola, após algumas semanas peguei minha bicicleta e fui à sua casa. Sua irmã me atendeu à porta. Tinha um semblante desolador. Fiquei assustado. Disse que Daniel “viajara” e me mandou embora.
De volta à escola, seus colegas de classe, mais velhos do que eu, não quiseram me dar informações.
Alguns poucos anos depois, já sabia que meu amigo tinha sido tragado por uma repressão que destruía a todo aquele que ousava pensar diferente dos ditadores. Mesmo que fosse um rapazola.
Cheguei a frequentar reuniões no colégio Equipe, na Bela Vista. Falavam em resistência, em enfrentar a ditadura. E falavam dos riscos. Tive medo, muito medo e me omiti. Tinha uns 16 anos e, até o fim dos anos setenta, conformei-me em acompanhar pelo Estadão o processo que levaria o Brasil à abertura política. Mas nunca me envolvi.
Até hoje sinto vergonha disso, e só relato aqui como que para expiar minha culpa. Sempre que posso, confesso minha covardia na juventude.
Hoje, quando me dizem “corajoso” por incomodar os barões da mídia que atiraram meu país naquele horror, dou um sorriso amargo e me lembro de quão covarde eu fui. E reflito que ser “corajoso” hoje, em plena democracia, não tem valor algum.
Mas prometi a mim mesmo que sempre que pudesse confessaria a covardia a que me dei na juventude, quando tantos outros como eu deram sua vida para libertar o Brasil de uma ditadura feroz que – há pouco o país descobriu – chegou a torturar bebês diante de mães militantes políticas para obrigá-las a lhe dar informações.
A ditadura, porém, não terminou. Apesar de a ditadura político-institucional ter acabado há décadas, o país ainda é prisioneiro de uma outra ditadura, a ditadura da mentira.
Vejo na internet, nos jornais e até na tevê, inclusive em editoriais desses veículos, justificativas aos crimes daqueles militares e civis que ceifaram a vida de tantos jovens como meu amigo Daniel. Dizem que as vítimas daquele regime criminoso queriam implantar uma ditadura no país e atribuem a “terroristas” como aquele amigo crimes iguais aos que cometeram.
Mentirosos.
Onde estão as famílias das vítimas dos “terroristas” a bradarem contra os assassinatos ou torturas de país, mães, irmãos, amigos? Por que, como as vítimas da ditadura, não se organizam e levam fotos de entes queridos que os que tentavam devolver a democracia ao Brasil teriam exterminado ou torturado?
Claro que, sim, houve alvos militares. E é claro que alguns soldados da ditadura tombaram em combate com “terroristas”. Mas nada que sequer se aproxime dos meninos e meninas que aquele regime hediondo sequestrou, seviciou e exterminou.
Hoje, 1º de abril de 2013, faz 49 anos que o inferno foi desencadeado no país. Sobreviventes que enfrentaram aqueles psicopatas, assassinos, estupradores, ladrões, pervertidos que colocaram este país de joelhos, chegaram ao poder. Aliás, o Brasil é governado por uma heroína que, altiva, enfrentou aqueles demônios.
Contudo, o Brasil não é livre. Enquanto as mentiras que os autores daquela loucura inventaram não forem desmascaradas, enquanto o nosso povo não souber a verdade do que se passou naquelas duas terríveis décadas, a mentira continuará nos governando. Seremos tão prisioneiros dela quanto fomos da ditadura militar.
Deveria escrever mais, muito mais. Mas a boca está seca e os olhos, molhados. Quem sabe um outro dia termino de dizer tudo o que deveria. Talvez, nesse dia, consiga mergulhar fundo naquelas memórias sem ficar no estado emocional em que estou ao terminar este texto. Sobretudo pela culpa por minha omissão, que nunca me deixou em paz.

terça-feira, 19 de março de 2013

Petista afirma que Comissão da Verdade investigará imprensa


Eduguim.
Nas últimas semanas, a imprensa tem veiculado que a Comissão da Verdade, que apura o colaboracionismo de agente públicos e privados com a ditadura militar que vigeu no Brasil entre 1964 e 1985 a fim de produzir um relatório histórico, está investigando a participação de empresários e até de entidades dirigentes do futebol com aquele regime.
Todavia, até o momento a Comissão da Verdade não divulgou se irá apurar a atuação de certos agentes privados que tiveram participação preponderante para a efetivação do golpe de 1964 e para sua sustentação nos anos seguintes, até que a repressão aumentasse ao ponto de que aqueles que pediram e sustentaram a ditadura entendessem que em ditaduras só quem ganha é o ditador.
Para entender como é possível que uma Comissão que pretende apurar a verdade esteja, aparentemente, deixando de fora justamente o setor da sociedade que trabalhou com maior êxito e mais ostensivamente para a implantação do regime autoritário no Brasil dos anos 1960, o Blog da Cidadania recorreu ao presidente da Comissão Estadual da Verdade do Estado de São Paulo e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa paulista, o deputado Adriano Diogo (PT-SP).
Leia abaixo, portanto, a entrevista que o deputado estadual em questão deu ao Blog da Cidadania nesta terça-feira, 19 de março de 2013.
—–
BLOG DA CIDADANIA – Deputado Adriano Diogo, bom dia. O senhor preside a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo e a Comissão Estadual da Verdade que funciona naquela Casa, correto?
ADRIANO DIOGO – Sim, mas tenho que explicar que a Comissão Estadual da Verdade não é uma Comissão de Estado, é uma Comissão criada no âmbito da Assembleia Legislativa. Então, a partir da Assembleia Legislativa nós criamos a Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.
Não é um projeto de lei, é um projeto de resolução. É que a Comissão adquiriu tal dimensão que as pessoas acham que é do Estado de São Paulo, mas ela não teve apoio nenhum do governo do Estado. Nós trabalhamos, só os deputados, no âmbito da Assembleia Legislativa.
BLOG DA CIDADANIA – Deputado, a imprensa tem veiculado que a Comissão Nacional da Verdade está investigando a atuação de vários setores da sociedade durante a ditadura de uma forma colaborativa.
Haveria empresariado envolvido. Fala-se claramente na Folha, hoje, sobre a FIESP e há pouco [em off] o senhor me falou da relação de entidades e pessoas do futebol com a mesma ditadura, sobretudo do futebol paulista.
Mas há um setor, deputado, que teve uma intensa correlação com a ditadura e sobre o qual, até agora, não se falou nada.
Então, muito sucintamente, gostaria que o senhor dissesse como é que fica a atuação da imprensa, da grande imprensa no âmbito do golpe, naquele momento do golpe, e na posterior sustentação daquele golpe que grande parte da imprensa, da grande imprensa teve durante a ditadura e com a ditadura.
A gente sabe que vários meios de comunicação – imprensa escrita, imprensa eletrônica – tiveram relações com a ditadura e, até agora, não se falou nada disso na Comissão da Verdade. Isso não vai ser apurado?
ADRIANO DIOGO – O golpe foi dado com apoio total da imprensa. Total. O único jornal de grande circulação que ficou contra o golpe foi o jornal Última Hora. É claro que os Bloch [revista Manchete] foram muito cautelosos… Mas, na grande imprensa, o golpe foi alardeado e bancado, principalmente nos primeiros anos [da ditadura], por muitos setores da imprensa.
O Estadão e o Jornal da Tarde,  de apoiadores da ditadura, do golpe, de apoiadores do Ademar de Barros e daMarcha da Família com Deus pela Liberdade – que era um absurdo, era o golpe –,  acabaram atingidos pela censura.
O Estadão e O Globo foram jornais importantíssimos para a decretação do golpe e a sua sustentação, o que não significa que os jornalistas dessas empresas fossem golpistas. Foram os patrões deles.
Aquele jornal Shopping News ou City News, tinha um jornalista que escrevia artigos contra o Wladimir Herzog, contra o Sindicato dos Jornalistas e contra a TV Cultura. Pedia a cabeça do Wlado e de seus companheiros todo fim de semana em São Paulo. Pedia a prisão do Wlado.
Então, a atuação da imprensa [durante a ditadura] foi uma coisa cruel.
BLOG DA CIDADANIA – Então, deputado, mas o senhor me relata a atuação da imprensa nesse período que é, mais ou menos, uma coisa que todos conhecem. Mas na Comissão da Verdade, ao menos pelo que tem noticiado a imprensa, não se fala nada sobre apurar essa atuação da imprensa.
ADRIANO DIOGO – Bom, a atuação da Comissão Nacional da Verdade agora mudou de coordenador. Agora, assumiu a Comissão Nacional o diplomata Paulo Sergio Pinheiro.  Antes, era o ex-procurador-geral da República doutor Claudio Fonteles.
Possivelmente, agora eles vão mudar a técnica de abordagem. E eu acho que, uma hora, esse capítulo terá que ser abordado – sempre lembrando que uma coisa foi a imprensa, outra coisa foram certas empresas jornalísticas que emprestaram veículos [para a ditadura transportar presos políticos], [que estimularam] a repressão e tiveram um papel direto [na ditadura]. Um papel direto!
É evidente que essas questões vão ter que ser abordadas. Senão, a verdade nã será completa. Vai ser uma comissão de meia verdade. E não existe meia verdade.
Agora, tudo é um processo. Neste ano, no dia 31 de março, o golpe vai fazer 49 anos e nada – ou muito pouco – se sabe do golpe de 64. É um assunto proibido. É muito difícil dizer a verdade no país da mentira.
BLOG DA CIDADANIA – Então, deputado: é muito difícil dizer a verdade no país da mentira. Essa é a grande questão porque, neste momento, a gente vê a grande imprensa dizer que o seu partido, o PT, estaria querendo instalar a censura no Brasil através de posições do partido favoráveis à regulamentação dos meios de comunicação eletrônicos via um novo marco regulatório.
Nesse momento, não seria muito bom que uma Comissão que diz – ao menos diz – que procura a verdade mostrasse ao país qual foi o comportamento dessas empresas de comunicação que hoje estão falando em censura e acusando o seu partido de ser um partido de censores?
Minha pergunta, portanto, é se o senhor não tem nenhuma notícia de uma intenção sequer cogitada no âmbito da Comissão da Verdade sobre uma investigação da atuação da imprensa – ou de uma parte da imprensa – durante a ditadura.
ADRIANO DIOGO – Eu não disse isso. Eu disse que, até o presente momento, não foi abordado o papel da imprensa e das empresas jornalísticas. Eu não estou dizendo, com isso, que não vai ser abordado. Eu não falei isso.
BLOG DA CIDADANIA – Mas, até o momento, não foi?
ADRIANO DIOGO – Até o momento, pelo menos, [acho que] não foi. Mas a Comissão Nacional não divulga o conteúdo do material, dos depoimentos. Isso só vai ser feito através de relatório a ser publicado [ao fim dos trabalhos da Comissão da Verdade]. Até lá, nós [da Comissão Estadual] não temos acesso.
Mas eu garanto ao senhor o seguinte: na Comissão de São Paulo, tudo que estiver ao alcance, tudo que estiver documentado será apurado e divulgado.
Comento que até hoje não se sabe se o dia 1º de abril foi um dia depois do golpe ou o dia do golpe porque até isso os militares mudaram para não caracterizar o golpe como o golpe da mentira, porque o dia 1º de abril é o Dia da Mentira.
Tudo isso vai ser esclarecido porque vão ser abertos ao público todos os arquivos do Estado de São Paulo, o que será uma contribuição nossa – da nossa Comissão, de São Paulo. Faremos com que todos os arquivos do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social, órgão repressor da ditadura], de todos os órgãos da repressão do Estado de São Paulo, sejam  abertos ao público no [próximo] dia 1º no Arquivo do Estado.
Assim, é evidente que o papel da imprensa, que passa por certas empresas jornalísticas, vai ser apurado.
O que eu estou tentando explicar é que a Comissão da Verdade não é uma Comissão Técnica, ela é uma Comissão do povo brasileiro. (…) Ela não pertence a um grupo de especialistas.
O que estou tentando dizer, portanto, é que a Comissão da verdade é como o movimento brasileiro de Anistia. Um grande movimento popular, em todo o Brasil, nas universidades, nos sindicatos, nos órgãos associativos dos arquitetos, dos engenheiros, dos advogados – como a OAB de São Paulo – para contar essa verdade.
Esse relatório não vai ser um documento que vai ficar numa prateleira. Terá que ser divulgada a participação de todos. Da Fiesp, das empresas jornalísticas, das empresas automobilísticas… Todo aquele que contribuiu com o golpe, como aconteceu na Alemanha nazista, terá que aparecer. O nosso holocausto não pode ser contado pela metade.
BLOG DA CIDADANIA – Pelo que entendo, então, deputado, o senhor não acredita que será possível excluir a imprensa dessa investigação. É isso?
ADRIANO DIOGO – Ninguém poderá ser excluído.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

TORTURADOR E CORNO



Do blog do bemvindo

"- Mormaço...nem quente nem frio...morno..."...Por seres morno te vomitarei da minha boca"....esse versículo martela na minha cabeça  neste tempo abafado. A caixa do supermercado  citou esta frase quando eu disse que o tempo estava morno...Maldita...ela fez de propósito.

Agora são os crentes...todos comunistas disfarçados...são os comunistas que voltaram pregando o reino de Deus aqui na Terra. O mesmo papo marxista de sempre: riqueza  para os pobres. Maluquice...se todos forem ricos quem vai limpar minha latrina; quem vai por a minha mesa do café?

Minha pressão sobe...sou hipertenso...com a idade a gente vai adquirindo todas as mazelas. Diabético e hipertenso, setenta e cinco anos ....Há quarenta anos atrás pensava que seria eterno.

Cinco filhos. só três ainda vivem.

O mais velho morto  por uma "bala perdida" na entrada de casa,  e o do meio  consumido por um tumor cerebral aos 28 anos. Disseram que foi AIDS, não foi. Não tive filho viado. Foi tumor cerebral, graças a Deus. AIDS não!

Dos três ainda vivos, uma filha drogada, adicta, como dizem. A outra sumida no mundo. Casou-se com um holandês e nunca mais deu notícias desde a morte da mãe. Parece que trabalha numa vitrine em Amsterdã.

Hélida! A safada da minha mulher...Eu, corno !!! Nunca, jamais,  pensei que carregaria estes chifres para o resto da vida.

A devassa me trocou por um primo catarinense 30 anos mais novo que eu. Ele viera fazer o artigo 99 no Rio.

Aquela  promíscua deixou nossa casa na Ilha do Governador para morar na favela de Ramos com o catarina vagabundo.

Costurou pra fora e sustentou o gigolô por décadas. E eu, corno! CORNO! Como gritou na minha cara o Adolfo, meu  filho restante.

Um ingrato : desvelei-me para que ele fizesse a Academia Militar. Foi expulso no último ano, acusado de desvio de armamento para o tráfico.

Um canalha!!! Se eu sou corno ele é um canalha!!!

E este mormaço...este clima morno..."te vomitarei da minha boca".

Ontem uns baderneiros picharam minha calçada e o muro  da minha casa: "TORTURADOR".
Cantavam e promoviam baderna na rua gritando: ‘TORTURADOR!!!"

O pederasta petista, vizinho da frente,  ainda saiu na porta pra gritar: - "Além de torturador, é CORNO!!!"

Se fosse há uns tempos atrás este lulochavista  já estaria pendurado no pau- de - arara. Não por mim...que nunca persegui ninguém sem motivo patriótico.

Mas e se torturei? Houve a Anistia. O esquecimento. A Lei de Anistia tem que valer.

E aquilo não era tortura, era corretivo. Era defesa da Pátria. Da Democracia. O General nos garantiu que jamais seríamos incomodados por isto.

Então, uns choques elétricos na língua, um cassetete no rabo e quatro “telefones” nas orelhas, e eles abriam logo o bico.
Choravam...babavam...eu me lembro... me xingavam muito, mas nenhum me chamou de “CORNO” como este petista de merda !

A moça faleceu, é verdade,  mas o médico garantia que ela ainda aguentava mais um afogamento. Parada cardíaca foi o laudo. O culpado foi o médico. Se ele fosse competente eu teria parado antes.

Mas e  daí que ela morreu? É a vida. Meu filho também morreu. Todos morremos.

E agora na velhice , ser humilhado desta forma: “TORTURADOR E CORNO!!!” .

"Torturador"  não me incomoda tanto, mas...CORNO!!!! é humilhante para um homem como eu.

 Chamar de corno um patriota leal, um democrata! É demais!
Ainda por cima  essa tal Comissão da Verdade. Vai dar em nada. O General me garantiu .

E se a tal comissão apurar que sou Corno? Não. Não vai dar em nada. O General falou.

A menos que esta terrorista na presidência resolva ir além... Nunca se sabe...

Uma ladra, roubou o cofre do Adhemar e ficou com o dinheiro...milhões... e agora me acusam  por causa de uma televisão e uma máquina fotográfica...

Peguei sim, mas pra que ia servir ao dono? Ele não voltava mais. Tinha ido para a “Casa”  de Petrópolis. Dali ninguém saía mais. Sumia no mar.
Então peguei a Tv e a máquina. Peguei também um aquário vazio. Sempre quis ter um peixinho em casa. Acho muito delicado.

Peguei sim,  não chegou a ser crime. Não tinha mais dono...

Mormaço...Estou melado, pegajoso, este mormaço...sinto-me um sapo, suado e gordo. Um sapo CORNO!!!

O General já faleceu, a mulher dele também...aquela soube fazer a coisa com discrição.Não saiu de casa. Manteve o casamento... Mas meteu os chifres no quatro estrelas...

O capitãozinho  achava que ninguém sabia.  Porém, a Inteligência acompanhava tudo...

Mas o Corno Estrelado morreu coberto de honras...com a comenda de corno dentro do  ataúde.

Mortos: o General e a galinha oxigenada da mulher dele. Qualquer dia chega a minha vez.
Espero  que estes baderneiros de ontem  não venham a mijar na minha cova.
É melhor ser cremado, senão podem colocar uma lápide só de sacanagem: "Aqui jaz um Torturador e Corno!!!"

Vida de merda!

E este tempo morno. Tempo de quem será vomitado da boca de Deus!

Eu, aposentado com louvor por serviços prestados à Revolução de 64. Digno, justo, democrata e boa praça,  morrer vomitado. Derrotado por uma bosta de uma funcionariazinha  de Supermercado.

Morrer vomitado e CORNO!!!”

quarta-feira, 2 de maio de 2012

DESAPARECIDOS POLÍTICOS: INCINERADOS EM FORNO DE USINA DE AÇÚCAR

Banca x Democracia: Dilma alinha o 1º de Maio brasileiro à luta mundial contra a espoliação financeira (leia mais aqui)

Em troca de créditos e facilidades junto à ditadura, uma usina de açúcar do Rio de Janeiro teria cedido seu forno para incinerar cadáveres de presos políticos mortos nas mãos do aparato repressivo. A informação, divulgada pelo site iG, consta do livro de um dos protagonistas da barbárie, o agente do DOPS, Claudio Guerra, que mediou os serviços da usina e acaba de publicar um relato  desse e de outros crimes. Em 'Memórias de uma guerra suja', um depoimento a Marcelo Leite, Guerra afirma que 11 desaparecidos políticos brasileiros foram reduzidos a cinzas em 1973  num imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no município fluminense de Campos. Seu proprietário, um anti-comunista  radical, Heli Ribeiro, era amigo pessoal de Guerra. As vítimas desse Auschwitz tropical, segundo o livro, seriam: João Batista e Joaquim Pires Cerveira, presos na Argentina pela equipe do delegado Fleury;-- Ana Rosa Kucinsk e seu companheiro Wilson Silva, "a mulher apresentava marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente, e o jovem não tinha as unhas da mão direita";-- David Capistrano ("lhe haviam arrancado a mão direita") , João Massena Mello, José Roman e Luiz Ignácio Maranhão Filho, dirigentes históricos do PCB;-- Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho, militantes da Ação Popular Marxista Leninista (APML).  Informado hoje sobre a versão, o irmão de Ana Rosa Kucinski, jornalista e escritor Bernardo Kucinski, não descarta a hipótese: "Nunca tinha ouvido antes, mas é verossímel: os precursores desse método foram os nazistas', diz  Bernardo, autor de um romance que leva o leitor a percorrer o outro lado igualmente cruel da tragédia: a labiríntica procura de um pai pela filha tragada no sorvedouro do aparato repressivo. "K", lançado no ano passado pela Editora Expressão Popular, está na segunda edição com lançamentos previstos este ano na Inglaterra e Espanha. Leia as resenhas de Flávio Aguiar, Marco Weissheimer e Eric Nepomuceno, publicadas em Carta Maior. Bernardo recebeu a notícia hoje quando se preparava para prestar um depoimento à Promotoria Pública sobre o desaparecimento da irmã; uma rotina de dor e busca pela verdade que se arrasta por quatro décadas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

'Economist' analisa 'atraso' brasileiro em lidar com os crimes da ditadura

Lula e Dilma. Roberto Stucker/PR
Revista diz que três últimos presidentes sofreram com a ditadura e cita Dilma e Lula, além de FHC
Em sua edição desta semana, a revista britânica Economist trata da polêmica da Comissão Nacional da Verdade e analisa como o Brasil está atrasado em relação soa vizinhos para lidar com o legado da ditadura.
A revista lembra que o projeto da comissão, que pretende esclarecer violações dos direitos humanos ocorridas de 1946 a 1985, já foi aprovado no Senado e deve ser sancionado pela presidente Dilma Rousseff no próximo dia 23.
Diante disso, a publicação compara a situação do Brasil com seus vizinhos que mais sofreram com os chamados anos de chumbo.
"O Brasil tem sido lento na revisão dos crimes da ditadura. A Argentina começou a processar os militares logo após o colapso do regime, em 1983", diz a reportagem.
"A Suprema Corte do Chile decidiu em 2004 que os ‘desaparecimentos’ não eram passíveis de anistia."

'Amnésia coletiva'

Na avaliação dos especialistas ouvidos pela Economist, essa demora no Brasil se deve ao fato de a transição para a democracia ter sido mais lenta e controlada no país.
"O regime não entrou em colapso após uma guerra desastrosa como aconteceu na Argentina ou enfrenta ameaça de protestos, como Augusto Pinochet no Chile."
Outra razão citada é uma tendência dos brasileiros em sofrer de uma espécie de "amnésia coletiva". Segundo Maurício Santoro, da Fundação Getúlio Vargas, aponta na revista para o contraste entre o Brasil, "o país do futuro", e a Argentina, que "têm uma obsessão pela era de ouro em que viveram no passado".
Segundo a Economist, uma das consequências desse atraso "é que a repressão continua, só que agora a violência se concentra mais na polícia, e não no Exército".
A revista destaca que a truculência da polícia é raramente punida e frequentemente aplaudida, como acontece nos filmes Tropa de Elite, e que ativistas esperam que a Comissão da Verdade altere essas opiniões.
"Algumas coisas só acontecem quando e se a sociedade está pronta", diz um dos entrevistados da matéria, Atila Roque, diretor da ONG Anistia Internacional no Brasil. "Acho que estamos prontos".

sexta-feira, 11 de março de 2011

José Dirceu: Globo rasga fantasia em editorial reacionário



Com editorial com o título "Os militares e as vítimas da ditadura", no qual se perfila hoje com as Forças Armadas contra a criação da Comissão da Verdade, que vai investigar os crimes do regime militar, o jornal O Globo faz jus ao seu passado de apoio à ditadura e à repressão aos que a ela resistiram.


por José Dirceu, em seu blog

No título, que se pretende neutro, na verdade o jornal demonstra não ter coragem de assumir o que vai publicar e defender em seguida no editorial. No texto considera que "é necessário saber o destino dos desaparecidos e também os delitos da esquerda".

Em outras palavras, assume a posição das Forças Armadas que são contra a Comissão, mas como a sabem inevitável, querem a reciprocidade, investigar a esquerda, a oposição e os que integraram a resistência à ditadura.

Esquerda já foi investigada e julgada

O jornal finge esquecer-se que estes já foram julgados. A maioria, apesar de civis, por tribunais militares de exceção e, quando condenados, cumpriram duras penas. Muitos foram torturados, banidos, exilados, assassinados. O jornal quer que sejam investigados e julgados duas vezes?

É o que defendem. Querem nos investigar porque lutamos contra a ditadura. Agora, imagina se nós quiséssemos investigar as Organizações Globo pelo apoio a ditadura!

Ou, por aquela velha denúncia, por muito tempo repetida pelo falecido governador Leonel Brizola, de que o sistema Globo foi montado no pós-golpe militar de 1964 e se tornou esta potência com o apoio - financeiro, inclusive e principalmente - do grupo de comunicação norte-americano Time-Life, o que já era proibido à época pela legislação brasileira.

Sistema é a vanguarda do atraso na mídia

Não é nenhuma novidade esta posição do jornal O Globo em que se posiciona ao lado dos militares e contra a criação da Comissão da Verdade. O jornal sempre se alinhou ao que houve de mais obscurantista, retrógrado e reacionário na história do país.

Esteve, por exemplo, com a velha UDN de guerra e com um de seus líderes, Carlos Lacerda, na oposição a Getúlio Vargas (1950-1954); foi contra os pontos positivos do governo Juscelino Kubitschek (1956-1960); aliou-se à reação e pregou abertamente o golpe militar de 1964 que derrubou o presidente constitucional João Goulart (1961-1964); e foi um entusiasta apoiador dos 8 anos de tucanato de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Também a TV Globo, do mesmo grupo e linha editorial do jornal, pelo apoio e sustentação que dava ao regime militar ignorou e boicotou solenemente a campanha das Diretas Já pela volta das eleições para presidente da República.

Um aliado permanente dos reacionários

Só a noticiou quando o movimento se tornou vitorioso e ficaram evidentes os sinais de derrota da ditadura e que ela se aproximava do seu fim. O 1º grande comício da campanha das Diretas Já, por exemplo, de 25 de janeiro de 1984, na Praça da Sé, a TV Globo noticiou como uma festa pelo aniversário de São Paulo. Nenhuma menção ao objetivo da manifestação.

Se alguém quiser ver alguma novidade no editorial de O Globo de hoje, encontrará só o fato de que o jornal abandonou o lema que seguiu durante os 21 anos de ditadura militar, de que "há governo sou a favor". Está contra esta iniciativa do governo Dilma Rousseff, de criar a Comissão da Verdade. Como aliás, todo o tempo foi contra o governo Lula.

Mas, por seu passado e história, não surpreende.