Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

CAMPELLO DERRUBA OS MITOS CONTRA O BOLSA FAMÍLIA Homem adulto que recebe o Bolsa trabalha ! Mulher não engravida para ter o dinheiro.

Elas combatem a fome, a miséria - e o preconceito


O governo lançará nesta quarta-feira (30), na comemoração do aniversário dos dez anos do Bolsa Família, em Brasília, com a Presidenta Dilma e o Nunca Dantes, um livro de 500 páginas com estudos sobre o programa.

O livro desmonta os mitos – preconceitos – contra o Bolsa Família.

O mito de quem recebe o Bolsa Família não trabalha.

Ou seja, o pobre é vagabundo.

O mito de que a mulher engravida para não sair do Bolsa Família.

Ou seja, a mulher pobre é pilantra.

O mito de que o Bolsa Família não tem “porta de saída”.

Ou seja, o Bolsa dá a vara mas não ensina a pescar.

O mito de que o Bolsa Família é um desperdício, “patrimonialista”, “paternalista”.

Ou seja, o Lula criou o Bolsa Família para assegurar os votos do Nordeste.

Paulo Henrique Amorim entrevistou, por telefone, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

Ela desmonta os mitos todos.

Eis a entrevista em áudio e texto:


PHA: O candidato à presidência da República, Eduardo Campos, acaba de fazer a seguinte afirmação: “Estamos vendo hoje as filhas do Bolsa Família se tornando mães do Bolsa Família. A gente vai assistir elas sendo avós do Bolsa Família? Como fazemos fazer com que isso se rompa, se não por uma política de educação transformadora?”
O que a senhora diria sobre isso? As filhas do Bolsa Família estão se tornando avós do Bolsa Família?

Tereza Campello: Nós temos 50 milhões de pessoas no Bolsa Família, quase 14 milhões de famílias.

Então, obviamente, que as pessoas sempre vão poder achar um caso de “as filhas, das filhas…” Se procurar bem, já vão achar até as avós dentro do próprio Bolsa Família, porque nós estamos falando de dez anos.

Nós temos que falar do Bolsa Família, primeiro, como processo. E, segundo, com a escala com que estamos trabalhando, não a partir das exceções e do baixo astral.

Nós estamos lançando quarta-feira (30) um livro.

Um livro realmente impactante, de 500 páginas. Com pesquisadores; cientistas; estudiosos – com 29 capítulos, mais de 60 autores, passando por vários mitos, vários boatos e analisando cada um deles.

Eu ousaria dizer que o que mais me impressionou no conjunto dos estudos foi justamente o impacto do Bolsa Família no que se refere a transformação nas crianças e nos jovens do Brasil.

Muito se fala no impacto do Bolsa Família sobre a pobreza e na extrema pobreza – e ele é realmente muito importante.

Mas, se a gente for olhar a transformação na vida dessas crianças, crianças que, muitas vezes, nem chegavam à escola e hoje a gente vê que todas estão na escola.

O nível de abandono da escola das crianças do Bolsa Família é muito inferior à das demais crianças. 

A taxa de permanência (na escola) das crianças do Bolsa Família é muito superior.

Quando a gente olha no primeiro ano, no segundo ano, ela já é superior. Mas quando a gente olha no ensino médio, nossas crianças estão muito mais na escola do que as crianças que não são do Bolsa Família.

Só isso já mostra o efeito transformador sobre essas crianças – que, antes, eram as primeiras a se evadir (da escola).

Agora, quando a gente verifica o desempenho das nossas crianças, veremos que elas estão indo bem, muito bem.

E quando chegam ao ensino médio, elas estão indo melhor do que os demais jovens.

Obviamente, a escola tem muito a melhorar.

Nós estamos fazendo um esforço enorme, criando escolas em tempo integral, direcionando a escola em tempo integral justamente para a população do Bolsa Família.

Nós queremos que as crianças entrem antes na escola, que tenhamos mais creches.

É claro que ninguém faz isso da noite para o dia, isso está em pleno processo, em plena transformação.

Agora, pela primeira vez na História do Brasil o indicador dos mais pobres está a cima da média do Brasil.

Eu gostaria de convidar a todos – não só os que hoje, eventualmente, criticam o Bolsa Família, mas o conjunto da sociedade – para conhecer esses números que são realmente entusiasmantes.


PHA: Existe algum motivo especial para se imaginar que a situação do Bolsa Família seja pior em Pernambuco, ou Pernambuco está dentro da média?
Campello: O Nordeste em especial tem um desempenho muito bom. Alguns estados melhores do que outros, mas, em geral, o Nordeste se destaca.

Esse é um esforço das prefeituras. No Nordeste, muitos municípios aderiram quase que imediatamente ao Bolsa Família. Nós temos um trabalho lá que é de longa data.

Uma coisa que pouca gente sabe, Paulo Henrique. As pessoas perguntam: “como a gente sabe que as crianças estão na escola?”

Nós temos um exército de servidores na área da Educação, nos municípios, que acompanham a frequência dos estudantes do Bolsa Família mensalmente.

Todo mês, os meninos do Bolsa Família tem sua frequência anotada. E a frequência deles é maior do que a das demais crianças. Isso (a frequência) é obrigatório.

A frequência (mínima) dos meninos do Bolsa Família é de 85%. A dos que não são do Bolsa Família, é de 75%.

Então eles tem um nível de exposição à escola maior, são mais cobrados.

Às vezes nós somos até criticados por isso, dizem que nós estamos exigindo muito dessas crianças, mas, de fato, nós queremos que eles possam ser bem-sucedidos na vida, e que possam romper com uma trajetória que era uma trajetória historicamente triste.

E eles estão indo bem, todos os indicadores que envolvem nutrição, que envolvem o desempenho escolar, são excepcionais.



PHA: Quais são os pré-requisitos – mesmo depois de dez anos ainda vale a pena lembrar isso – para que uma mãe receba o Bolsa Família, no que concerne ao desempenho escolar ?
Campello: A criança tem que ter frequência acima de 85% – como eu disse, contra 75% que é a frequência mínima do conjunto das outras crianças, tanto da rede pública quanto da rede privada.

E isso não é medido no ano, é bimestral. Então a aula começa em fevereiro, em março a gente já olha para ver se a frequência está em 85%. Se não está, essa família já começa a ser notificada.

Nós queremos ter criança em sala de aula o tempo todo, para ela se alimentar melhor, e porque a exposição à Educação é positiva para essa criança – todos os indicadores do mundo mostram isso.

As mães (que recebem o Bolsa), quando gestantes, tem que fazer o pré-natal. E no caso da saúde das crianças, elas tem que ir ao posto de saúde semestralmente onde elas tem de ser medidas, pesadas e vacinadas.

No caso da Educação, o que nós estamos exigindo é frequência.

Quando a criança deixa de ir à escola nós informamos à família e, antes de cortar o benefício vai uma assistente social à casa da criança para tentar entender o que está acontecendo.

Eventualmente, pode ter acontecido alguma coisa, algum motivo de força maior que justifique (a ausência), como justificaria qualquer outra criança.


PHA: É claro que nessa crítica feita pelo governador Eduardo Campos tem a questão da porta de saída. Eu lhe pergunto: quantas pessoas hoje já deixaram o Bolsa Família porque melhoraram de vida ?
Campello: Nós temos 1,7 milhões de famílias que deixaram o Bolsa Família. Isso dá em torno de 6,5 milhões de pessoas que saíram do Bolsa Família.

Agora, as pessoas acham – e de certa forma isso é natural – que ficar no Bolsa Família é um sinal de fracasso.

Na nossa avaliação, é que não é.

A maioria dos adultos do Bolsa Família trabalha, e trabalha na mesma média dos demais que não são do Bolsa Família.

Metade da população do Bolsa Família não trabalha, por quê ? Porque tem menos de 16 anos. Então não trabalha e não deve trabalhar.

Dos adultos, 75% trabalham. Essa é exatamente a média que nós encontramos na População Economicamente Ativa (PEA).

Se exige do público do Bolsa Família que ele deixe o Bolsa Família. Nós queremos desse público que ele trabalhe e prospere. Eles já trabalham, então como fazê-los prosperar ?

Primeiro: levando qualificação profissional e oportunidade.

Isso nós estamos fazendo com um sucesso muito grande. Uma das áreas que estão tendo um retorno excepcional é o PRONATEC, que é o programa de qualificação profissional, e que tem passado por uma grande transformação no Brasil.

Tradicionalmente, os programas de qualificação profissional que eram oferecidos para os mais pobres eram cursos muito ruins.

Cursos de uma semana, de duas semanas, que eram mais para dar um susto nas pessoas; elas acabavam aprendendo só a fazer um currículo. Em duas semanas vai se aprender o quê ?

E eram cursos feitos por entidades com baixa qualificação técnica. A Presidenta (Dilma) mudou isso radicalmente ao criar o PRONATEC.

Alterou a oferta. Agora os cursos tem que ser de alto nível.

Quem é que está oferecendo cursos de qualificação para os mais pobres hoje ? 

Coisa que não acontecia antes. 

São cursos do ”Sistema S”, SESI, SENAI, SESC, SENAC, SEBRAE. 

Ou seja, o que nós temos de melhor no Brasil. E tem também os nossos Institutos Federais.

O ‘PRONATEC está funcionando há um ano e oito meses, em um ano e oito meses nós qualificamos 800 mil pessoas do “Brasil Sem Miséria”.

Nós tínhamos uma meta de 1 milhão até dezembro de 2014. Nós vamos praticamente ter uma vez e meia isso, se nós continuarmos com o desempenho que estamos tendo até agora.

A qualificação profissional ajuda a realocar essa pessoa no mercado de trabalho.

Porque – como eu já disse – elas já trabalham, mas, às vezes, trabalham no pior emprego que tem – ele é pedreiro, mas como ele não fez o curso de qualificação, faz um bico numa obra clandestina; trabalha dia sim, outro não.

Com um curso de qualificação para pedreiro, para auxiliar de pedreiro, para azulejista, encanador, eletricista ele consegue melhorar a inserção no mercado, já que ele tem um curso e um certificado bom.

A mesma coisa no comércio: auxiliar de cozinha, cozinheiro, garçom. 

Nós estamos formando milhares e milhares de pessoas em áreas que, tradicionalmente, antes, nosso público não trabalhava. E que hoje são áreas que o mercado de trabalho procura.

Por exemplo, cuidador de idoso.

O Brasil está melhorando, tem uma população idosa cada vez maior, uma população idosa bem colocada, de classe média. Muitas vezes, o idoso não precisa de um auxiliar de enfermagem, precisa de alguém que o apoie no dia a dia, alguém que faça companhia.

Nós estamos formando centenas e mais centenas de cuidadores de idosos e cuidadores de crianças no público do Bolsa Família.

Agora, o encanador, pode tanto arrumar um emprego em alguma empresa, como pode montar seu próprio negócio de encanador.

A costureira pode arrumar um emprego numa fábrica, ou montar uma cooperativa com as suas vizinhas, ou ainda costurar para fora e se tornar uma microempresária – isso tem acontecido muito.

Nós temos dados muito recentes que mostram que, na verdade, o Bolsa Família é uma grande porta de entrada.

Entrada para quê?

Das crianças para o ensino integral; das crianças para a creche – porque quando a criança é do Bolsa Família, o governo paga 50 reais a mais se o município abrir uma vaga e colocar essa criança, que é mais pobre.

Para os adultos, é uma oportunidade para quem está no campo, e ainda não tem luz, entrar no “Luz para Todos”; entrar no ”Minha Casa Minha Vida”; no ”PRONATEC”; no ”Crescer”, que é o microcrédito produtivo orientado.

Mais de 50% dos empréstimos do “Crescer” são para pessoas de baixa renda e baixa escolaridade do “Cadastro Único”.

Nós temos hoje cerca de 10% dos microempreendedores, que se formalizaram no Brasil, que são do Bolsa Família.

Isso mostra que é preconceito contra pobre dizer que eles não trabalham. Achar que eles não querem trabalhar, que eles precisam de favor. Esse público não precisa de favor. Precisa é de oportunidade.

O Bolsa Família muitas vezes é uma oportunidade inclusive para que a pessoa tenha um dinheirinho extra.

Pra quem não tiver trabalhando poder ir atrás do emprego
.

Essa coisa de “só pode usar com comida”, não é verdade. Se quiser pegar o ônibus, pode; se quiser comprar material de higiene, para cuidar bem das crianças, pode; se quiser comprar uma roupinha, um calçado, pode.

E eu acho que um dado novo e surpreendente, que estará nesse nosso livro, e que nós já divulgamos na semana passada, é que para aqueles que achavam que nós estávamos gastando mal os R$ 24 bilhões do Bolsa Família – veja, nós não fazemos o Bolsa Família para ter retorno financeiro, fizemos para três coisas: para combater a pobreza; levar as crianças para escola; e levar as crianças para o Sistema de Saúde – mas, como essas famílias gastam o dinheiro com bens que são produzidos dentro do Brasil, que é: comida, roupa, remédio, material escolar, material de higiene e assim por diante, o que acontece ? 

Cada 1 real investido no Bolsa Família, retorna para o PIB com R$1,78.

E no consumo geral das famílias (o retorno é de) R$2,40.

Numa cidadezinha pequena, a mãe vai para feira e gasta o dinheiro dela na feira. Gera renda para o agricultor familiar – que vendeu na feira o seu produto – e que, por sua vez, gasta também na cidade.

Por isso, hoje a gente diz que o Bolsa Família beneficia todo o Brasil. É muito difícil encontrar uma pessoa (no Brasil) que não seja direta, ou indiretamente, beneficiada pelo Bolsa Família.



PHA: A senhora falou sobre pessoas que estão nos municípios checando a frequência escolar. Quantas pessoas do Bolsa Família estão trabalhando nisso pelo Brasil?
Campello: Na rede de Educação, fazendo esse levantamento, tem um conjunto de servidores da área de educação que, além de suas funções normais, tem que entrar bimestralmente em um sistema, que é um sistema que acompanha a frequência dos alunos.

Nós chamamos esse sistema de SICOM. Eles tem que alimentar esse sistema bimestralmente. São 32 mil servidores da Educação que fazem isso.



PHA: Sobre um efeito imaterial do Bolsa Família, que é muitas vezes subestimado: o efeito do Bolsa Família na vida das mulheres, que são quem recebem pela família o benefício. O que aconteceu com a mulher beneficiária do Bolsa Família nesses dez anos?
Campello: Primeiro, uma parte grande dessas mulheres, até pela condição de pobreza, ficava em casa cuidando das crianças, não tinha nenhum tipo de decisão familiar.

Se você pegar a mulher do campo, por exemplo, todo o processo de decisão sobre o gasto familiar era feito pelo homem: onde ia se plantar, o que ia se plantar, tudo era decidido pelo homem.

Esse processo começou a mudar, isso aparece em todas as pesquisas que a gente fez, inclusive qualitativas, mostrando que as mulheres conquistaram um poder decisório maior sobre os gastos da família.

Segundo, essas pessoas passaram a ter um dinheiro com que elas podem contar todo mês, e não um dinheiro variável, como era muitas vezes – fazia um bico hoje, ganha dois reais, compra arroz; fazia outro bico amanhã, ganhava cinco reais e comprava feijão e tomate.

O dinheiro do Bolsa Família gerou isso que nós chamamos de ”educação financeira” nas mulheres e nessas famílias.

Elas passaram a planejar o que fazer. Muitas vezes, poupar para comprar alguma coisa, um calçado, um eletrodoméstico para a casa.

Eu acho que houve um processo de inclusão financeira, de empoderamento, já que essas pessoas eram completamente excluídas desse elemento da modernidade, que é ser incluída financeiramente.

Acho que esse é o maior processo de inclusão financeira já feita no país, nessa população pobre. Mesmo os que não tem conta vão ao banco, vão à casa lotérica (receber o beneficio), aprenderam a usar esse universo, que é um universo também de cidadania.


PHA: Existe a desconfiança – aqui e em países como os Estados Unidos, no “Food Stamp”, países em que existem programas de inclusão como o Bolsa Família – de que há ”mães profissionais”, que engravidam para continuar a receber o Bolsa Família. O que aconteceu com o índice de natalidade entre as mulheres que recebem o Bolsa Família ? Subiu ou diminuiu ?
Campello: Esse é outro capítulo do nosso livro, sobre fecundidade, sobre esse preconceito – porque as pessoas partem do princípio de que só porque a pessoa é pobre ela age dessa forma oportunista.

É difícil imaginar alguém querendo ter um filho só para ter o beneficio. Até porque seria muita burrice. Todos nós pais sabemos o trabalho que dá criar um filho até a idade adulta.

Mas, felizmente, hoje nós temos estatísticas que colocam abaixo qualquer suspeição dessa natureza.

A taxa de natalidade caiu muito fortemente no Brasil, caiu 20% nos últimos dez anos. Caiu inclusive de forma assustadora, porque, se ela continuar a cair nesse ritmo, nós não teremos mão de obra suficiente nos próximos 20 anos.

E entre os mais pobres, a natalidade caiu 30%.

Ou seja, caiu 20% na média nacional e entre os mais pobres caiu 30%, exatamente entre a população que recebe o Bolsa Família. O que bota um fim nesse mito e nesse preconceito contra a população pobre.


PHA: Agora, minha desconfiança é que a senhora, mesmo com esse livro, e com outras entrevistas que a senhora dê, não conseguirá enfrentar os mesmos preconceitos de sempre.
Campello: Paulo Henrique, acontece o seguinte: vamos imaginar que parte dessas pessoas que reproduz esse pensamento o reproduzissem por ignorância, porque não tinham acesso à informação.

Tem mais achismo. Muitas pessoas que dizem isso tem acesso à informação, sim.

Agora (com as informações disponíveis), se disser isso, é preconceito mesmo.

Agora nós temos prova, temos estatísticas, estudos que provam isso. 

Agora, não tem nenhum estudo do lado de lá. Que venham os estudos do lado de lá.

Eu duvido que apareça um pesquisador no Brasil, sério ou não sério, diga o contrário. 

Então ficará provado que é só preconceito.



PHA: O Bolsa Família continua naquele patamar de 1% do PIB?
Campello: Não, é só 0,46% do PIB.


PHA: A senhora vê que até eu que me considero sem preconceito contra o Bolsa Família ignorava que custa a metade de um por cento do PIB… Ministra, eu vou lhe pedir para que entre os dados que a senhora se propôs a mandar ao Conversa Afiada, que a senhora mande, por favor, dados específicos sobre Pernambuco. Para se saber se, por acaso, Pernambuco apresenta resultados piores do que no resto do Brasil.
Campello: Paulo Henrique, no caso do Bolsa Família eu acho difícil que a gente consiga demonstrar isso por Estados, porque os dados são por municípios. Eu acho difícil a gente fazer isso e é desnecessário.

Eu gostaria que o nosso governador Eduardo Campos, que sempre reconheceu a importância do Bolsa Família, desde a época do presidente Lula, que ele mantivesse a sua posição.

E lesse o nosso livro, né? Eu vou mandar o nosso livro pra ele.  

Redução da pobreza: é esse o modelo que dizem estar esgotado?

renda


29 de outubro de 2013 | 08:39
Elaborei o gráfico acima com base em estudos do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, com dados do IBGE, divulgados em matérias de O Globo.
Repare: na década neoliberal, a pobreza extrema (extremíssima, eu diria ) caiu 28%, baixando de 15,5 em cada 100 brasileiros para 11,1 por cem.
Já em nove anos de mudança de modelo (ou até menos, porque o primeiro mandato de Lula ainda foi marcado por certo arrocho) essa queda foi de 74%, daqueles 11,1 por cento para quatro em cada cem brasileiros.
(Como a turma “do contra” anda ruim de matemática, explico que é procedente esta comparação de percentagens: afinal, quando a inflação passa de um para 2%, diz-se que ela dobrou, certo?)
Já a parcela de brasileiros ganhando razoavelmente bem – R$ 10 mil numa família de quatro pessoas – cresceu 48% no primeiro período e 68% no segundo.
Mesmo que a gente considere os limites muito baixos, seja para a pobreza – melhor chamar de míséria, repito – e para a “riqueza”, é um avanço impressionante.
E, ainda mais importante é o que diz o economista Manuel Thedim, que elaborou o estudo:
- É uma tendência, um pouco resultado das políticas que estão fazendo com que a pobreza vá desaparecendo do país. No grupo da pobreza extrema, o Bolsa Família foi fundamental. Porém, o que mais contribuiu para a migração das pessoas da renda baixa-baixa para baixa-média ou baixa-alta foi a melhora do mercado de trabalho.
A diferença entre as duas faixas de renda é abissal – 175 vezes – mas está se reduzindo: entre 2011 e 2012, o grupo dos mais ricos ficou 8,3% maior e sua fatia na renda total cresceu um pouco menos: 5,23%. Já o grupo dos mais pobres encolheu 14% e sua fatia na renda.
O problema é que aos mais bem aquinhoados no país incomoda muito que os pobres avancem, mesmo que um pouquinho. Já pensou se essa turma começar a pensar que é gente, com os mesmo direitos, inclusive a sonhar com igualdade de oportunidades?
Por: Fernando Brito

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Os urubus da economia têm fome de notícia ruim

urub


O desemprego no Brasil, segundo o IBGE, igualou, em setembro, a menor taxa já alcançada em toda a história para igual mês: 5,4%
desempO número é oficial e os jornais receberam os comentários do IBGE sobre a pesquisa com o mesmo gráfico que reproduzo aí do lado, onde o que salta aos olhos de qualquer um é a espetacular queda do desemprego em uma década.
Um variação de 0,1% em qualquer pesquisa é o que é, estatisticamente: nada.
Não é outra coisa o que diz a análise do próprio IBGE:
“A taxa de desocupação em setembro de 2013, foi estimada em 5,4% para o conjunto das seis regiões metropolitanas investigadas. Na comparação com agosto (5,3%), a taxa ficou estável. Frente a setembro do ano passado (5,4%), esse indicador também se manteve estável”
Mas uma variação de um, dois, três ou quatro por cento, sim, é muito significativa.
E foi isso o que aconteceu, na mesma pesquisa, com a apuração do rendimento médio (real, descontada a inflação) do trabalhador.
rendreal
Subiu 1% em relação a agosto e 2,2% em relação a setembro de 2012.
Crescimento real, repito, considerada a inflação.
Está aí ao lado o gráfico do IBGE.
Isso, uma boa notícia, não foi para nenhuma das manchetes, que colecionei na ilustração acima.
O Brasil, um país ainda pobre e carente, está cheio de más notícias.
Não é preciso “arranjar” desgraça.
Salvo para injetar na cabeça de quem só lê o título que as coisas vão mal, mal e piorando.
Bem, ao menos no nível do jornalismo de economia vão piorando mesmo.
Por: Fernando Brito

FT: Brasil está em pleno processo global de desenvolvimento tecnológico

"O Brasil precisa aceitar a mudança para florescer". Esse é o título de uma das manchetes do jornal inglês especializado em negócios Financial Times, nesta quinta-feira (24/10), e aborda o aumento na produção da indústria de petróleo no país, que está incentivando uma "onda" de pesquisas na área de energia. Como cenário, a reportagem utiliza o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, justificando que a sua localização na Baía de Guanabara é estratégica dada a sua finalidade. A matéria explica que nesse local estão as grandiosas descobertas da Petrobras e esses campos em águas profundas são os conhecidos pré-sal, porque estão sob uma camada de cloreto de sódio e são responsáveis pelas inovações no setor da energia.
Segundo o FT, o parque tecnológico da universidade federal no Rio está desempenhando o seu papel, desempenhando software para empresas do ramos petrolíferos e ajudando na exploração das descobertas. "O parque está em vigor há 10 anos. A velocidade de seu desenvolvimento tem sido quase assustadora", comentou ao FT o diretor-executivo do projeto, Maurício Guedes.
Avaliando o fenômeno recente, o FT afirma que como o Brasil é a sexta ou sétima maior economia do mundo, de acordo com a taxa de câmbio, o país quer garantir o seu lugar no ranking das inovações, pesquisa e desenvolvimento, mesmo não sendo capacitado ainda para ser um fabricante ou produtor de commodities. O sucesso, na opinião do veículo, vai depender de como o país vai compensar os altos custos e as mudanças demográficas provenientes da aceleração da produção tecnológica. O jornal informa que o Fórum Econômico Mundial classifica o Brasil na fase final da transição para uma economia desenvolvida, caracterizada pela evolução a partir de um modelo de crescimento eficiente e orientado pela inovação de outros semelhantes. 
O Financial Times destaca que o Brasil tem feito progressos em inovação, pesquisa e desenvolvimento e cita a Embraer, a terceira maior produtora de jatos comerciais do mundo em unidades vendidas, considerando o seu projeto inovador tanto em termos de negócios quanto de produção de aeronaves. O FT elogia a empresa pela iniciativa de trabalhar com a sua cadeia global de fornecimento de compomentes originais, compartilhando também o risco de desenvolvimento de produtos e convidando os fornecedores para participar como parceiros de seus programas. No mesmo contexto, o FT comentou também a experiência bem sucedida da agência de pesquisa agrícola Embrapa, que trouxe para o país a soja da Ásia e o gado da Índia, para superar os problemas gerados pelas duras condições do cerrado e da savana brasileiros.
Reportagem do inglês Financial Times sobre o Brasil
Reportagem do inglês Financial Times sobre o Brasil
Retornando aos comentários sobre a Petrobras e o pré-sal, o jornal enfoca que com a maior parte de sua produção offshore, a estatal está adentrando cada vez mais o oceano em busca de reservas, citando como exemplo o campo de Lula. De acordo com a reportagem, o centro de pesquisa que fica próximo ao Parque Tecnológico do Rio, 227 laboratórios foram instalados no local e desenvolvem pesquisas diversas, desde a tecnologia sísmica para avaliar campos em águas profundas como para os materiais necessários para resistir à produtos químicos corrosivos e às altas temperaturas das jazidas de petróleo.
No setor automotivo, o FT diz que o Brasil é conhecido por inovações importantes. "Não só tem adaptado o uso do motor 'Flex' - capaz de funcionar com etanol ou gasolina -, mas várias empresas têm desenvolvido modelos originais. Chevrolet construiu a minivan Meriva em São Paulo e a Volkswagen criou o pequeno carro Fox especialmente para o Brasil", destaca o texto. No setor on-line, o FT também coloca o país em desenvolvimento, citando o uso do smartphone e do Facebook. "O número de investimentos de capital de risco está aumentando. Baseado em dados de inicialização DealBook Brasil, tecnologia start-ups que aumentou de 45, em 2011, para 79 no ano passado", diz a reportagem.
No final da reportagem, o Financial Times avalia que alguns desafios podem interferir nesse pleno processo de desenvolvimento tecnológico. O jornal destaca um depoimento do consultor americano Nicholas M. Donofrio, do NMD Consulting, sobre a questão. O especialista diz que "um fato importante é que o Brasil precisa organizar-se melhor através de investimentos em infra-estrutura e escolas (...) Não é que o Brasil carece de talento (...) A questão é que você tem isso organizado de uma forma que pode ser colaborativo e multi-disciplinar". A reportagem fornece dados do Fórum Econômico Mundial em termos de inovação, apontando o Brasil no 55o. lugar quanto o índice de competitividade global, em comparação com a China e a Índia, que estão no 32o. e 41o., respectivamente. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Um discurso para o PT em 2014



Finalmente chegamos à encruzilhada que se podia vislumbrar lá atrás, quando o Partido dos Trabalhadores chegava ao poder e, a partir de concessões que passara a fazer aos “mercados” e à direita, despertava nos setores partidários mais ideológicos o temor de que a legenda terminaria por trair os ideais que lhe ensejaram a criação.
Apesar da construção de um certo senso comum nesse sentido, discordo de que tal tenha ocorrido. As concessões foram necessárias. O Brasil que Lula passou a governar a partir de 2003 era prisioneiro de uma fragilidade externa que tornaria um rotundo fracasso um governo hostil aos tais “mercados”.
Naquele 2003, o PT não poderia declarar moratória da dívida externa, atacar os lucros de um setor bancário em frangalhos, impor aumentos salariais que um empresariado descrente, assustado e descapitalizado não poderia suportar.
A Globalização tornara-se uma realidade. O capitalismo “derrotara” o socialismo e, agora, era preciso sobreviver na nova realidade que se impunha ao mundo ou deflagrar um processo de derrubada do novo governo trabalhista, provavelmente com o concurso dos militares, que olhavam com lupa a nova experiência político-administrativa que se inaugurava.
O capitalismo social de Lula foi um estrondoso sucesso. Usando as ferramentas de um modelo que dominara o mundo, respeitando as regras do jogo, logrou romper amarras que nada tinham que ver com o capitalismo, como uma espécie de obrigatoriedade de manter relações comerciais preferenciais com os Estados Unidos.
Ora, nunca existiu, no manual capitalista, a obrigatoriedade de uma economia priorizar relações comerciais com a potência hegemônica. Lula, pois, fez um governo capitalista, mas independente da Europa e dos Estados Unidos.
Por tal ousadia, Lula pagou – e ainda paga – um preço alto. No entanto, hoje, enquanto o mundo rico se debate em agonia, com os povos desses países perdendo qualidade de vida, mergulhando no desemprego e na convulsão social, países latino-americanos como o Brasil, que abandonaram o barco primeiro-mundista, distanciam-se do caos.
“Mascate” do capitalismo verde-amarelo, o ex-presidente operou esse milagre peregrinando pelo mundo nas asas de uma premissa envolta em inquestionável sentido: os dólares asiáticos, africanos, do Oriente Médio ou de qualquer parte eram e continuam sendo tão verdes quanto os dos americanos e europeus.
Nesse interim, a governança do país enveredava pelo capitalismo ao fortalecer o sistema bancário, garantindo o direito de propriedade, sendo ponderada em demandas salariais respeitadoras das possibilidades das empresas – que mal se recuperavam da hecatombe tucana que vigeu entre 1997 e 2002.
Ao mesmo tempo, Lula erigiria um sistema de proteção social verdadeiro, em lugar do arremedo de políticas sociais da era tucana que se baseava em ideias corretas, mas nas quais o governo não investia de verdade.
Com programas sociais verdadeiros e política econômica capitalista, mas não entreguista, o país floresceu. Tornou-se uma economia dinâmica, respeitada, com uma confiança internacional que se traduz pelo grau de investimento que lhe foi concedido pelas agências de classificação de risco, que cresceu o dobro do que crescera na era tucana e com metade da inflação média daquele período, sem falar nos avanços sociais mensuráveis e representativos, em proporção adequada ao tamanho da iniquidade social vigente.
Hoje, o Brasil é uma economia sólida, diversificada, que caminha para o meio trilhão de dólares de reservas cambiais, com inflação sob controle – apesar dos picos –, com uma revolução social em curso e com pobreza e desigualdade caindo a olhos vistos ano após ano.
O Brasil de 2013, pois, tanto no aspecto econômico quanto no social pouco lembra o de dez anos antes. Não padece mais das mesmas fragilidades econômicas e, ao invés de concentrar renda, distribui. Para avançar mais a partir de agora, no entanto, terá que contrariar cada vez mais os caprichos do mercado e das elites.
Contudo, sempre há que deixar claro que não se prega, aqui, uma revolução socialista com violação ao direito de propriedade ou a quaisquer outros valores “sagrados” do capitalismo; o que se prega é que os mecanismos de concentração de renda sejam paralisados e desmontados.
A primeira década de governança progressista fez o que tinha que fazer e na velocidade que tinha que fazer, mas, a partir de agora, o ritmo se torna lento demais. Mudanças estruturais que foram postergadas em nome da fragilidade econômica e das desconfianças iniciais dos Donos do Poder, agora têm que entrar na agenda pública.
O formato do sistema político, as relações entre os poderes, a democratização da comunicação de massas – bem como seu enquadramento ao interesse público –, a regulação da distribuição agrária no país e tantas outras questões precisam ser alvo de reestruturação. Tudo isso não pode continuar igual a quando o Brasil era um país em eterna crise e sem perspectivas.
Essa obra – até aqui vitoriosa – de soerguimento nacional partiu de poucas cabeças. Lula e José Dirceu foram os grandes arquitetos da recuperação econômica e social do país.
O primeiro, no entanto, não pôde dar prosseguimento à própria obra pelo fim de seu mandato. O segundo, talvez mais vital do que o primeiro para o projeto de país que fora pensado, foi literalmente destruído pela direita não pelos seus defeitos, mas por seus méritos.
Dilma Rousseff chega ao poder e se descobre que não poderia ser mais distante da realidade a ideia de que seria “um poste”. Cheia de ideias próprias, imprime ao seu governo um ritmo algo diferente do de Lula nos seus anos finais – do ponto de vista político, ela age, após dez anos de PT no poder, como se tivesse chegado hoje.
Politicamente inexperiente, apesar do massacre do mensalão entre 2005 e 2010, acha que pode se entender com os Donos do Poder aproximando-se de seus impérios de comunicação, de forma a que aceitem o processo de distribuição de renda que incrementaria.
Vale a pena discorrer um pouco sobre esse processo
O de Dilma está sendo mais rápido do que o de Lula, até pelas condições que o ex-presidente deixou para que tal ocorresse. A redução nos lucros dos bancos e no preço da energia elétrica é redistribuição de renda na veia. Grupos econômicos os mais privilegiados perderam fortunas, as quais foram divididas entre dezenas e dezenas de milhões de brasileiros.
Que não se enganem os que torcem contra: esse processo se refletirá em estatísticas quando estas apurarem a distribuição de renda ocorrida nos últimos anos.
Todavia, políticas públicas que estão gerando tal distribuição podem ser revertidas por governos sucedâneos. Ou seja: o processo redistributivo não está se fazendo acompanhar de mudanças estruturais que tornarão mais difícil, quando a direita retomar o poder – e seria absurdo ignorar que isso ocorrerá um dia –, desfazer o que foi feito, reconcentrando a renda de forma lenta, gradual e contínua sob silêncio cúmplice da imprensa afinada consigo ideologicamente.
Vale uma reflexão: como se poderia denunciar, em um futuro em que a direita esteja no poder, que medidas para promover concentração de renda estejam sendo adotadas? Se concessões públicas de rádio e televisão voltarem a defender o governo como faziam no tempo de FHC, estará implantada uma ditadura no Brasil.
Seja como for, todos os fatores supra elencados constroem o cenário com que o país vai chegando ao processo eleitoral de 2014.
Políticas sociais de caráter emergencial são bem vindas, mas o que mudará de fato a face deste país? A condução da economia já provou ser eficiente no que interessa à sociedade, promover bem-estar com criação de empregos e aumento da renda. O que haverá que discutir no ano que vem, portanto, será redistribuição dessa renda.
A sociedade precisa entender que tudo que permanece ruim após a década de ouro que o Brasil vem experimentando a partir de 2003 se deve à insuperável concentração de renda brasileira, e que, sem atacar com mais ímpeto essa chaga, não será possível avançar de forma irreversível.
Terá Dilma clarividência e competência para explicar à sociedade que há hoje no Brasil uma guerra entre uma minoria que não quer perder privilégios e uma imensa maioria que quer apenas ter um mínimo de equilíbrio de oportunidades, de forma que se crie uma taxa minimamente aceitável de mobilidade social?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Não seria melhor voltar a escravatura?

 

Com a escravatura, sem salário, quantos empregos mais poderíamos ter?
A Folha publica hoje matéria sobre o acréscimo de renda provocado pelo aumento do salário mínimo, mostrando que a classe C – mais do que as D e E – é a grande beneficiária dos R$ 63,98 bilhões que serão injetados na economia, ficando com R$ 48 bilhões, contra R$ 12,5 bi apropriados pelas classes D/E.
Corretamente, o diretor do Datapopular explica que o vínculo formal de remuneração da classe C faz este impacto ser mais diretamente absorvido na renda, embora não se mencione que esta diferença, na verdade, é apenas metade do que parece ser, pois a classe C tem hoje quase o dobro do número de integrantes do grupo D/E.
Mas a Folha, claro, não pode deixar de ouvir “o outro lado”. Ou seja, aqueles que sempre arranjam uma “boa razão” para que não se eleve o valor do trabalho do nosso povão. E o escalado é o economista José Márcio Camargo, integrante do núcleo do grupo que migrou de um vago esquerdismo para formar o “bunker” do pensamento neoliberal da PUC do Rio de Janeiro.
Não é preciso comentar, basta transcrever:
“O economista José Márcio Camargo, da Opus Investimentos, é crítico desse incremento econômico (o do aumento do salário-mínino).
“Esse dinheiro tem que sair de algum lugar. As empresas vão ter que deixar de comprar, de investir, para arcar com esses custos adicionais.”
O resultado, diz, é que a renda total -e o consumo-não deverá aumentar tanto quanto se prevê com o aumento do salário.
“Com um lucro menor, as empresas poderão gerar menos empregos”, afirma.
Estamos, atenção, no século 21 e ainda há quem deite doutrina para afirmar que salário-mínimo – e ainda um dos menores do mundo – é empecilho para o emprego e o progresso econômico.
Quem sabe se com a escravatura iríamos ter mais progresso que tivemos com a sólida – embora ainda modesta – elevação dos salários? Afinal, pobre está ficando muito caro, não é?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Por que cresce o ódio racial da elite branca

BLOG CIDADANIA-EDUARDO GUIMARÃES
Apesar das negativas da grande imprensa, é inegável que nos últimos anos o Brasil começou a operar uma forte distribuição de renda de um grupo étnico minoritário e privilegiado para outro amplamente majoritário e eternamente prejudicado na divisão da riqueza.
Por estar a serviço do setor privilegiado – pois, em última instância, pertence a ele –, a mídia corporativa meramente canaliza um sentimento de “revolta” de classe e racial desses setores da sociedade que, até há pouco, vinham ganhando a luta de classes – que alguns tentam apresentar como anomalia ou desejo de grupos políticos, mas que, em um país tão injusto, é mera conseqüência de sua realidade social.
Estudo recente, pois, explica o ódio da elite branca contra um governo que desencadeou esse necessário processo redistribuidor de renda em prol da maioria étnica brasileira que sempre ostentou condições de vida infinitamente piores do que as de uma casta branca e descendente de europeus.
Data Popular é uma instituição que, segundo diz sua mensagem institucional, dedica-se a produzir “Conhecimento de qualidade sobre o mercado popular no Brasil”. Ao entrar no site, a mensagem institucional inicial esclarece a que ele se dedica:
Bem-vindo ao mundo do carnê, do consórcio, do SPC.
Bem-vindo ao mundo do metrô, do buzão, da lotação, da CBTU, do seminovo zerado.
Bem-vindo ao mundo do vale-refeição, do PF e da marmita.
Bem-vindo ao mundo do supletivo, da escola de cabeleireiro e do curso de computação.
Bem-vindo ao mundo do celular pré-pago, da megasena.
Bem-vindo ao mundo do trabalho informal, da pensão do INSS, do despertador pras 5,
da mobilidade social.
Bem-vindo ao mundo do Ratinho, Raul Gil, Bruno & Marrone, Banda Calypso, Calcinha Preta, MC Leozinho e da Rádio Tupi.
Bem-vindo ao mundo do supermercado com a família, da cervejinha gelada, da macarronada com frango, do financiamento da Caixa.
Bem-vindo ao mundo surpreendente da economia da base da pirâmide.
O trabalho mais recente do Data Popular, concluído nesta semana, busca prover com dados científicos o crescente interesse de grandes empresas por esse segmento em ascensão social, segmento no qual os negros sobressaem.
A renda da população negra no país atingiu R$ 544 bilhões. Segundo estudos recentes, desde 2007 a renda média per capita do negro cresceu 38% – o dobro da renda média do branco, que teve alta de 19% no mesmo período.
A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), feita pelo IBGE, deixa ver claramente como durante o governo Lula essa parcela amplamente majoritária – e “afrodescendente” – da população brasileira começou a ser resgatada da injustiça social em que foi mantida durante o século XX.
Segundo Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto de pesquisa Data Popular, o “enriquecimento” dos negros é resultado do aumento da renda da população da base da pirâmide de renda do país: “tem mais negros nas classes C e D, que teve aumento maior de renda que nas classes A e B [no período analisado]”.
Esse estudo não precisaria ter sido feito para que os beneficiados pelo processo redistribuidor  de renda percebessem-no.  Quem está comprando mais bens de consumo durável, vestuário, alimentos, ou que está chegando a universidades na condição de primeiro universitário da família, bem sabe o que lhe está acontecendo – e inclusive votou para manter esse processo.
Além de subsidiar empresas interessadas no mercado de consumo de massas que o governo do PT fez surgir, o estudo serve para finalmente calar os que tentam atribuir tal processo a governos que trataram de impedi-lo ou àqueles que tentam negar que tal processo esteja ocorrendo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Artigo do Wanderley no Valor de hoje, sobre eleições

Reproduzo abaixo um artigo do brilhante cientista político Wanderley Guilherme dos Santos.

Do Valor Econômico

Repartição de renda faz sua última eleição.
Wanderley Guilherme dos Santos| Do Rio

30/09/2010

Registro dois óbitos iminentes: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda e o do poder desestabilizador da grande mídia. São movimentos dessa natureza que brazilianistas e a nova direita chic, os comunistas nostálgicos, não antecipam. Há quem acredite que nada mudou no Brasil desde a Primeira Missa. Outros, que mudou para pior desde a Primeira República. São ecos do passado, nutridos pela lerdeza real com que o país tem resolvido alguns problemas clássicos da modernidade. A urbanização custou a chegar, assim como a industrialização e a transformação da estrutura ocupacional. Argentina, Chile e Uruguai brilhavam com taxas européias de urbanização e alfabetização (nada de industrialização, é bem verdade) quando o mundo era campestre e a poesia e o romance, bucólicos. Em um par de décadas, contudo, a urbanização e a transformação ocupacional brasileiras bateram recordes históricos, deixando na rabeira não só a América do Sul, mas China, Índia e, em alguns aspectos, a Rússia, inventando ao longo da travessia um eleitorado de 136 milhões de votantes, indomável a qualquer elite leninista e, cada vez mais, insubmissa ao comando coronelista. A poda das oligarquias hereditárias ocorre de Norte a Sul do país. Por fim, descobriu-se uma classe média (próxima de 90 milhões de pessoas) quase do tamanho do Japão. Dezenas de milhões de "japoneses", digamos assim, falando português, mas com igual apetite consumista, invadiram as lojas de eletrodomésticos, de roupas, agências de viagens, aviões, hotéis e, até mesmo, as revendedoras de automóveis japoneses propriamente ditos. Não há nostalgia que suporte isso sem virar ressentimento. Mas, a contragosto, será nesse depósito que a história obrigará os conservadores a colher votos no futuro.

Do berço ao túmulo, a população brasileira passou a ser assistida por complexa rede de políticas sociais institucionalmente inéditas, em grande parte, e incomparáveis em sua cobertura. Multidões foram extraídas à miséria e à pobreza em prazo mínimo, se confrontado aos quase cem anos que o sistema social europeu exigiu para ser elaborado e implementado. Evidentemente, nossos séculos preguiçosos legaram tal espetáculo de carências que a profunda subversão de prioridades operada pela era Lula não está senão a meio caminho da empreitada em seus efeitos estruturais. Metas ainda por atingir, ocasionais gestões deficientes, equívocos de formulação inicial de alguns programas fazem parte da história real do período e comparecem na queda de braço das argumentações eleitorais. Mas não é nesse discurso ao tele-espectador que se encontra o coração da matéria.

Grande parte das políticas sociais em curso dispensa intermediários. Os atingidos têm acesso direto aos benefícios, extinguindo-se o pedágio de gratidão que deveriam pagar aos agentes executivos das ações distributivas. A fruição dos bens sociais a que têm direito independe de conexão com algum doador individualizado, subordinando-se tão somente ao vínculo formal com a apropriada agência de implementação. O funcionamento do sistema, naturalmente, claudica aqui e ali e a eficiência da máquina não é uniforme. Isso tende a melhorar. E tende a melhorar na exata medida em que os beneficiados deixam de aceitar o serviço ou o bem como favor (a cavalo dado não se olham os dentes) e a entendê-lo como obrigação do Estado. Nessa mesma medida o voto-gratidão ou se transforma em voto-confiança ou migra. Em breve a população brasileira sentirá a rede social em expansão (volume e qualidade) como estado da natureza, solo sobre o qual se desloca sem prévia licença de autoridade política a que deva lealdade. Certamente que o eleitorado, sobretudo o mais antigo, preserva um estoque de confiança nas lideranças que deram origem à re-fundação do pacto político original. Mas a simples lembrança daquele momento pode se tornar insuficiente para a renovação da confiança. E é assim que deve ser.

Nova classe média tende ao conservadorismo por entender que existem limites à mobilidade social ascendente

Parte considerável da nova classe média tende ao conservadorismo por entender com absoluta lucidez que existem limites à mobilidade social ascendente e que mudanças, dadas certas circunstâncias, serão, provavelmente, para pior. É sociológica e economicamente impossível que a totalidade das pessoas que alcançaram ou venham a alcançar em breve o topo salarial ou de posição em algum ramo do comércio, serviços ou ocupação industrial, se transfiram para um patamar acima na estratificação social, dando início a nova trajetória ascendente. A maioria das moças e rapazes que, recém alfabetizados ou saídos de escolas profissionalizantes, encontram vagas em abundância como atendentes, vendedoras, caixas, recepcionistas etc., irão se aposentar na mesma profissão ou em profissão aparentada. Algumas chegarão a supervisora ou gerente de filial; pouquíssimas a postos de direção. Grandes agregados sociais não costumam pular dois degraus na estratificação, independente da orientação dos governos e dos sociólogos de boa vontade. A ascensão inter-geracional é outra história. Em uma geração, porém, o jovem que se entusiasmava com o fervilhante trânsito social é o mesmo adulto maduro que, seguro em sua posição atual e aposentadoria próxima, teme promessas de solavancos sociais. O mais provável é que o solavanco o desaloje. Alguns chamam o fenômeno de "aversão ao risco", mas podemos chamá-lo, sem ofensa, de "potencial de votos conservadores". Em próximas eleições, o aceno da consolidação de conquistas feitas pode ser tão ou mais atraente do que prometida alvorada de grandes transformações.

E eis que o poder desestabilizador da grande mídia parece agônico. Poder que detinha menos em função do jornalismo político investigativo, exacerbado em períodos eleitorais, e mais pelas ilações que faz, os olhos que a liam e os ouvidos que as ouviam. Acusar a mídia de omitir informações, procede, com frequência, mas é trivial. Negar os resultados reais do jornalismo investigativo é tolo e inútil. O mesmo leitor que recusa o exagero aceita o fato comprovado. E o que importa, em primeiro lugar, são os fatos comprovados. Culpa cabe ao governo, ao atual, aos anteriores e a todos os que vierem depois, por entregarem seus eleitores e apoiadores aos embaraços de se verem expostos aos resultados de uma política negligente de recrutamento de pessoal para cargos de absoluta relevância e respeitabilidade. Não é aceitável, em nenhum governo, que ocupantes de cargos de confiança estejam a salvo para operar sem sistemático escrutínio da legalidade e lisura de seus atos. Os órgãos de segurança do governo devem ser responsabilizados pelas constantes provas de incompetência que vêm dando. Um aparato estatal oligárquico, historicamente destituído de capacidade operacional para implementar políticas de grande envergadura – por isso mesmo obrigado a recrutar rapidamente quadros capazes, mediante concursos e funções de confiança – está especialmente sujeito a ser penetrado por funcionários cuja idoneidade ainda está para ser comprovada. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, antes que meramente burocrático. Não é o governo que se torna vulnerável. Isso pode passar. São os seus eleitores que se envergonham e gaguejam, pagando enorme preço em estima social pela confiança que depositaram em governantes, e que a transferiram à desonra. Por isso, não é a grande mídia a responsável. Ao contrário, deve-se ao jornalismo investigativo de boa fé a fiscalização que órgãos governamentais deixam escapar e que a desídia de uma oposição de nariz arrebitado não exercita.

Referia-me ao jornalismo investigativo de boa fé. As ilações editoriais pertencem a outro departamento. Fora da temperatura eleitoral, não há pessoa de bom senso suscetível à idéia de que o presidente Luiz Inácio, ou qualquer outro presidente normal, tenha montado um governo para saquear o país ou promover o nepotismo como política oficial. Não haveria recursos, tempo e sequer mão de obra para, ao mesmo tempo, reduzir espetacularmente a miséria, redistribuir renda e estimular o desenvolvimento econômico. A transferência de significado dos reais ilícitos administrativos para deliberadas intenções políticas se deve ao exercício do poder desestabilizador da grande mídia. Não consta de nenhuma apuração jornalística nem faz qualquer sentido no contexto geral das eleições. Mas é recorrente no Brasil. Assim aconteceu em 1950, 1954, 1960, 1964, no século passado, e em 2002 e 2006, no atual. Ao contrário de épocas pretéritas, todavia, suspeito que esse poder desestabilizador agoniza e, por isso, esperneia.

Tudo começou, creio, com a decisão do então presidente Fernando Henrique Cardoso de criar o Ministério da Defesa, entregando seu comando a um civil. O grande economista Inácio Rangel sorriria ao verificar que, mais uma vez, teria que ser um membro da elite a tomar medidas bastante ousadas. Fernando Henrique, candidato preferencial que fora da oficialidade militar, fez, sem susto, o que Lula, certamente, não teria condições de fazer, à época. Firmou-se constitucional precedente e a sucessão de ministros naturalizou a condição civil do cargo. Despreocupado com problemas de soberania, contudo, Fernando Henrique levou as Forças Armadas à mesma dieta do resto do funcionalismo público e das instituições do Estado, fazendo-as raquíticas, quando não as esfacelando. Outra vez, coube agora ao ex-espantalho Lula, comprometido com a recuperação do povo e da soberania nacional, re-incorporar as Forças Armadas à sociedade e integrá-las em projeto comum. Hoje, nem o Exército nem as demais forças militares estão em busca de identidade, como diria o sociólogo Edmundo Campos, distinta da identidade dos demais segmentos do país. Não obstante resquícios de privilégios, preconceitos e temores herdados de passado nem tão remoto, o entendimento entre as instituições civis e militares se manifesta na total discrição e profissionalismo com que os responsáveis pelos comandos armados têm agido de tempos para cá. Na verdade, o que está fugindo ao poder desestabilizador da grande mídia são os olhos e ouvidos militares. Ela nunca interpretou, fora raros momentos, o sentimento da maioria da população, valham as sucessivas derrotas de seus candidatos como recibo da afirmativa. Mas vociferava aboletada em tanques. Hoje, resta-lhe o potencial para assassinatos de caráter – algo ainda terrivelmente assustador. Tímidas tentativas de se aconchegarem aos bivaques, entretanto, diria o marechal Castelo Branco, têm sido apenas patéticas.

A influência dos meios de comunicação nos processos eleitorais é inteiramente normal em democracias. Inevitável, ademais. Perigoso é quando, além da malícia retórica, o poder desestabilizador busca se realizar, irresponsável, pela mão de terceiros. Isso, parece, está fora de cogitação. A propósito, em 2012 o opúsculo "Quem Dará o Golpe no Brasil?" completará cinquenta aninhos.

E para não dizer que não falei de flores: o poder desestabilizador se concentra, hoje, nesse fóssil institucional que é a Justiça Eleitoral.

Wanderley Guilherme dos Santos integra a Academia Brasileira de Ciências/Universidade Candido Mendes