Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

CPI da Veja. Dias a Merval: vale-tudo não vale nada

Na foto, Merval (D) com imortais. Jornalista bandido ...


Saiu na Carta Capital, de Mauricio Dias, na imperdível “Rosa dos Ventos”:

Veja, um caso sério


Dias se vale da contribuição do professor Marcus Figueiredo, da Uerj, que desde 1996 estuda a midia brasileira e concluiu que “… há certa resistência, da parte dos jornalistas, em admitir a legitimidade da análise de mídia.”

Completa Dias:

Há poucos dias, no entanto, o veterano jornalista Merval Pereira, de O Globo, quebrou essa regra não escrita e se dedicou ao tema. Saiu em defesa da revista Veja, envolvida com questões do receituário da CPI.


“O relacionamento de jornalistas da revista Veja com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e seus asseclas nada tem de ilícito”, assegurou Merval.


Essa afirmação vigorosa se sustenta em bases frágeis. Merval enalteceu o “jornalismo investigativo” praticado na revista. Veja, no entanto, foi parceira de um jogo criminoso. Aliou-se a um contraventor e, no afã de denunciar escândalos, criou escandalosamente um deles. Cachoeira oferecia a munição e Veja atirava.


No futuro, esse episódio e outros deverão ser objeto de estudo acadêmico possivelmente sob o título de “O caso Veja”. Melhor seria abandonar o formalismo acadêmico e chegar a um título mais adequado à tese “Veja é um caso sério”.


Não é a primeira vez que a revista sapateia sobre as regras do jornalismo. Mais do que isso. Frequentemente, ela sai do jogo e -adota o vale-tudo.


Em 2006, por exemplo, Veja foi protagonista de um episódio inédito no jornalismo mundial, ao acusar o então presidente Lula de ter conta no exterior. Na mesma reportagem, no entanto, confessa não ter conseguido comprovar a veracidade do documento usado para fazer sustentar o que denunciava. Só o vale-tudo admite acusação sem provas.


A imprensa brasileira, particularmente, tem assombrosos erros históricos. Um prontuário que inclui, entre outros, a participação na pressão que levou Vargas ao suicídio, em 1954, e quando se tornou porta-voz do movimento de deposição de Jango, em 1964.


A ascensão de um operário ao poder é outro marco divisório da imprensa brasileira. A eleição de Lula acirrou os ânimos dos “barões da mídia”. O noticiário passou a se sustentar, primeiramente, nas divergências políticas e, depois, mas não menos importante, no preconceito de classe. A imprensa adotou o que Marcus Figueiredo chama de “discurso ético de autoqualificação diante dos leitores”.


Em tempo: não deixe de ler “A voz da Veja e de Cachoeira leva Robert(o) à porta da cadeia”. E “sem Robert(o) e a Globo, a CPI será uma farsa”.

Em tempo2: como diz o delegado Protógenes, jornalista bandido bandido é.


Paulo Henrique Amorim

sexta-feira, 10 de junho de 2011

O clubinho dos mervais. Merdais (?)


“Podem ter ajudado as eleições pregressas de pitanguys e sarneys, mas a 'imortalidade' desse merval marca o ponto além do qual não há retorno”

A história parece ter esfriado – propositalmente esfriado – na mídia, mas não vou deixar passar batido: neste pé e segundo “critérios” no sentido de “popularizar” (a palavra não seria mediocrizar?), segundo a Folha de São Paulo, a ABL -  Academia Brasileira de Letras -, em poucas décadas, vai se tornar um clubinho de mervais, pleno de chás e vesperais bucólico-edílico-estivais e dos mais porretas.

Eu poderia prosseguir neste tom humorístico assim indefinidamente, o texto ia ficar muito engraçado, hilário, resvalando entre o ridículo, o sarcasmo e a ironia – aliás, minhas especialidades –, mas não seria verdade porque desta vez fiquei indignada, raivosa, irada, putíssima da vida, e isto, ao invés de prejudicar-me a expressão, ao contrário favorece e muito porque - e aqui lembro uma frase do Raduan Nassar - no escritor é a emoção que comanda a razão, até porque ninguém conduz quem o demônio extravia, sobretudo quando é preciso soltar os cachorros, dar nomes aos bois, e dar nomes – dizer que as coisas têm nome, função e razão de ser – também continua sendo tarefa do escritor.

Antes invoco José Guilherme Merquior que observa num artigo(1) famoso: pode-se dizer que o meio século (dos anos 50 até nossos dias) tem sido para a intelligentsia latino-americana em geral, e para a classe literária em particular, a época da consolidação da autonomia do campo intelectual (Bourdieu), isto é, do fortalecimento de suas próprias instâncias de seleção e consagração. Ou seja, a legitimação da literatura deixou de proceder predominantemente dos centros de hegemonia social ou de estratégias de obtenção de status, para depender mais e mais de critérios intrinsecamente estéticos e intelectuais.

Em síntese, quem consagra, premia, reconhece um escritor são os outros escritores, seus pares.

Conversando ao telefone com um escritor carioca amigo, ele comentou que nesta eleição para a ABL, Antonio Torres (vinte e oito livros publicados, traduzido em várias línguas, o diabo) tivera 13 votos contra 25 do Merval Pereira (comentarista político global, dois livros?) e que a “pressão política em favor deste fora tremenda”.

Sem que ele tivesse me dito, salvo as obviedades de plantão (João Ubaldo, Lygia e Nélida), com os 40 nomes dos “imortais” à minha frente, fui “inferindo” os prováveis votantes de Torres (claro, com alguma margem de erro): Ana Maria Machado, Carlos Heitor Cony, Carlos Nejar, Nelson Pereira dos Santos (ok, também no lugar errado, mas deixa pra lá), Lêdo Ivo, Hélio Jaguaribe, Alfredo Bosi, Sérgio Paulo Rouanet, Lygia Fagundes Telles, Sábato Magaldi, Nélida Pinõn, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro. E incrível: deu 13!Usei um método bastante simples: contei os escritores em geral, os artistas em particular e os intelectuais (críticos) em si.

Podem ter ajudado as eleições pregressas de pitanguys e sarneys, mas a “imortalidade” desse merval marca o ponto além do qual não há retorno – the point of no return – quanto ao apodrecimento e corrosão dos critérios e instâncias de consagração que (ainda) possa implicar a ABL. E desta para as “demais instituições democráticas” e “sociedade civil”, é um suspiro.

Possivelmente derradeiro.

PS:
Aos 25 votantes do merval: vocês não têm vergonha?

(1)“Situação do Escritor” in América Latina em sua Literatura. S.Paulo, Perspectiva, 1979

terça-feira, 7 de junho de 2011

Merval Pereira e a “negociata” da ABL

Por Altamiro Borges

Em mais um triste momento da sua história, a Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu o “calunista” da TV Globo, Merval Pereira, como o novo titular da cadeira 31, desocupada com a morte do escritor Moacyr Scliar. A deprimente escolha confirma o servilismo da chamada “elite da literatura” brasileira à ditadura midiática.



Entre o escritor gaúcho Antônio Torres, autor reconhecido no mundo inteiro por sua vasta obra literária – em 1999, o governo francês concedeu a ele o título de “Cavaleiro das Artes e das Letras” – e o jornalista global, os “imortais” da ABL preferiram premiar o segundo. Merval publicou dois livros: um em 1979, feito a quatro mãos, e outro do ano passado, que reúne artigos publicados no jornal O Globo – a maioria de oposição raivosa e golpista ao governo Lula.

“Uma cloaca de fazenda”

Como aponta Luis Nassif, a escolha de Merval Pereira evidencia a pequenez da “elite” literária do país. “A ABL, a casa de Machado de Assis, que deveria ser a guardiã implacável dos valores da literatura, a defensora intransigente da meritocracia, a defensora dos escritores, o selo de qualidade, o passaporte final para a posteridade, é uma casa menor, em alguns momentos parecendo mais uma cloaca de fazenda do que um lugar de luzes e de letras”.

Na prática, os “imortais” fizeram uma negociata com a “cadeira” da ABL num escambo dos mais vergonhosos. Afinal, como diz Luis Nassif, “Merval tem a visibilidade e o poder proporcionados pela Rede Globo. Tem moeda de troca – o espaço na TV Globo, podendo abastecer o ego dos seus pares e as demandas da ABL. Poderia até ganhar prêmios jornalísticos, jamais a maior condecoração da literatura brasileira”.

“Calunista” do mercado e da direita

Como lembra Mário Augusto Jakobskind, esta não é a primeira vez que a ABL serve aos poderosos. Em pleno regime militar, ela elegeu como “imortal” o general Aurélio Lira Tavares, ministro do Exército da ditadura. Agora, ela escolhe Merval Pereira, um dos colunistas preferidos do “deus-mercado”, inimigo golpista do ex-presidente Lula e amiguinho dos “milicos de pijama” e da direita nativa.

Na campanha eleitoral do ano passado, o “calunista” global virou estrela no Clube Militar e nos debates do Instituto Millenium. Agora, passará a freqüentar as festanças dos “imortais”, destilando o seu veneno elitista contra tudo o que há de progressista na sociedade. A Academia Brasileira de Letras se apequenou ainda mais com este lamentável escolha!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Escritores que ABL preteriu em favor de mervais

eduguim 















A Academia Brasileira de Letras (ABL) acaba de eleger Merval Pereira para a cadeira número 31 da instituição, em substituição ao escritor Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro.
Merval escreveu dois livros em sua caudalosa carreira literária. Um deles no ano passado, esculhambando Lula.
Abaixo, a lista de alguns dos literatos que a ABL, ao longo de sua história conservadora, preteriu em favor de “imortais” da estirpe de um ex-presidente José Sarney ou de um cirurgião plástico como Ivo Pitanguy ou, agora, de um Merval Pereira:
Carlos Drummond de Andrade
Cecília Meireles
Clarice Lispector
Erico Veríssimo
Lima Barreto
Mário Quintana
Monteiro Lobato
Vinicius de Moraes
Também não participaram da Academia os escritores Jorge de Lima e Gerardo Melo Mourão, indicados ao Prêmio Nobel de Literatura.
A boa relação da ABL com a ditadura militar é vista até hoje como relativa ao pedágio ideológico que vige na instituição.
Posições políticas, compadrios, high-society, interesses econômicos… Um livro explica a influência desses fatores na ABL: Academia Do Fardão e Da Confusão (Geração Editorial), do escritor Jorge Fernando.
A ABL “imortalizou” oligarcas endinheirados, playboys e, agora, os idiotas. Pensando bem, faz sentido.

Comentário Amoral:
Ainda vai chegar a vez de eminências pardas como ACM Neto e a compilação de seus discursos na Câmara, além de Aécio e o rol de roupa suja enviado à lavanderia!

Do ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra, logo depois da eleição do jornalista Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras, em seu perfil no twitter:

- Há 9 anos publiquei uma coletânea com meus discursos no Senado. Como ando meio sem ter o que fazer, acho que vou concorrer a uma vaga na ABL.

PodreOnline

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa (ou má fé)

Polêmica ou ignorância? 
Discussão sobre livro didático só revela ignorância da grande imprensa
Marcos Bagno
Universidade de Brasília

Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.

Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).

Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.

Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela – devidamente fossilizada e conservada em formol – que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.

Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.

A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.

Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao undamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).

Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa nãosignifica automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los aomundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.

Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles – se julgarem pertinente, adequado e necessário – possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assiti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).

O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em quea defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então?
 

A guerra suja no mercado de livros didáticos

Do Luis Nassif Online
Por Weden

Em maio de 1933, foram queimadas, pelos nazistas, milhares de obras consideradas impróprias à "verdadeira" cultura alemã. Em maio de 2011, assistimos no Brasil a algo parecido em nome da "verdadeira" Língua Portuguesa.

Se, em maio dos anos 30, participaram da queima, estudantes, políticos, autoridades e partidários do Nazismo, muitos sem saber o que estavam defendendo, neste maio de 2011, participam da queima do livro Por uma vida melhor, jornalistas, políticos, membros da Academia Brasileira de Letras e alguns intelectuais oportunistas.

O que estamos vendo hoje não é apenas uma polêmica, que, ademais, poderia ser sadia. O que testemunhamos neste momento é a execração pública de autores que seguiram, estritamente, concepções linguísticas as mais contemporâneas, parâmetros curriculares, frutos de longas discussões e pesquisas sérias, e o bom senso de condenar toda sorte de preconceito de linguagem.

O método lembra, em muito, aqueles tristes tempos: a verdade vem sendo imposta por repetição.

Observem o que diz o Globo nesta última segunda-feira, numa tentativa clara de forçar o MEC a recolher os livros:

O Ministério da Educação informou que não se envolverá na polêmica sobre o livro com erros gramaticais distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático, do próprio MEC, a 485 mil estudantes jovens e adultos. O livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos, defende uma suposta supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo a troca dos conceitos “certo e errado” por “adequado ou inadequado”.

Há na chamada pelo menos três erros grosseiros: o livro não defende supremacia alguma da modalidade oral sobre a escrita, visto que nenhum linguista defende supremacia, no que se refere às modalidades da língua; o livro não contém erros gramaticais (o que vem sendo repetido à exaustão), apenas cita frases com "erros"; os autores não "admitem" a troca dos conceitos de "certo e errado" por "adequado ou inadequado" (como se tivessem inovando neste aspecto). Eles simplesmente atendem a uma recomendação dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Língua Portuguesa, e a uma convicção dos estudos linguísticos atuais.

Portanto, só na chamada da primeira página do Globo há três equívocos gravíssimos de apuração - que, neste caso, seriam corrigidos com uma simples leitura mais atenta da obra e de documentos e teorias que a respaldam.

É no número de alunos atendidos (485 mil) que poderemos encontrar explicações para a dimensão que tomou a cruzada de alguns veículos contra o livro em questão. O livro da Global Editora ocupa um espaço precioso dentro de um nicho milionário do mercado editorial: o de livros didáticos distribuídos pelo MEC.

PNLD e oportunismo

Este foi o primeiro ano em que o Ministério também distribuiu livros em atendimento a programas de Educação de Jovens e Adultos. Trata-se, portanto, de um nicho a ser ocupado. Tanto que os livros recomendados ainda pertencem em boa parte ao catálogo de pequenas editoras: Escala, IMEPH, Aymará, Fapi, Base, Módulo, além da própria Global.

Vender para o Governo Federal pode implicar em ter que aceitar preços abaixo do mercado, mas o ganho é farto quando considerada a enorme quantidade de exemplares adquiridos pelo Plano Nacional do Livro Didático. Para 2011, por exemplo, o MEC comprou 135 milhões de exemplares, com investimentos na ordem de R$ 880 milhões.

Não se informa, na imprensa, em nenhum momento, por exemplo, que o livro passou por uma comissão de respeitáveis pesquisadores em linguística e língua portuguesa. E que eles destacaram como um ponto relevante na obra que "o aluno é chamado a refletir (...) sobre o respeito às variedades linguísticas não prestigiadas, o que promove um olhar sobre essa diversidade, tomando a variação como elemento identitário das línguas".

Ou seja: o que a imprensa vem condenando foi visto como ponto destacável na obra pelos avaliadores.

Além disso, a cruzada de alguns veículos da grande imprensa, repercutida de forma desatenta por veículos menores, tem deixado de fora os próprios linguistas. Sem contraditório, trata-se de uma campanha monofônica, com fins claros de destruir a obra publicada pela editora Global e cuja responsabilidade pedagógica é da ONG Ação Educativa.

Junte-se ainda ao preconceito, à ignorância linguística e à negligência profissional, o oportunismo leviano de professores e intelectuais que, sem lerem o livro, emitem julgamentos de valor que passam ao largo de uma apreciação atenta do texto. Como no caso de um ilustríssimo gramático que, aproveitando o linchamento público, não perdeu a chance de promover indiretamente sua própria obra, que se enquadra na tradição normativa.

O político que, de forma populista, chama o ministro às falas, e o membro da empoeirada Academia que sequer tem base teórica para fundamentar sua opinião, podem não ter sido mobilizados pelos mesmos motivos, mas, claramente, inconscientemente ou não, colaboraram, com os demais, para um dos lados na disputa sangrenta pelo mercado de didáticos.

História repetida

No caso do livro de história de Mario Schmidt, aconteceu o mesmo. Pouco havia no seu texto, com exceção de alguma diferença de estilo, que não se encontrasse também no material didático das grandes editoras, que acabaram arrematando o espaço deixado pela Nova Geração.

O que pode estar por trás desta celeuma, além do preconceito e da falta de informação já evocada em outro texto nosso, é uma guerra suja, com vistas a abrir novos espaços no setor de didáticos para o ensino da Língua Portuguesa.

Como da outra vez, a vítima é uma editora pequena, se comparada às gigantes do setor. E estas gigantes ou pertencem a grupos midiáticos ou creditam anúncios suntuosos, que fazem da redação do veículo a extensão do departamento comercial.

A ironia é que, qualquer que seja a editora, grande ou pequena, pertencente ou não aos grandes grupos de mídia, ela só poderá ter seu livro adotado, se atender aos mesmos requisitos que embasaram a obra "queimada" em praça pública.

O que se encontra na obra dos autores agora tão criticados não deixará de ser encontrado nos outros títulos. Mas sabemos que, quando as grandes editoras assumirem o espaço vazio deixado pelo livro execrado, nada se fará para denunciar o conteúdo que, em última instância, seguirá os mesmos parâmetros.

________

P.S. Estava terminando de escrever este texto, quando li um artigo do jornalista Rolf Kuntz, no portal do Estadão, que dá uma ideia de como é a estupidez repetida em tom solene.

"O nome oficial é Ministério da Educação, mas podem chamá-lo Ministério da Desigualdade. Ministério da Incompetência também serve: a palavra tanto se aplica à atuação de seus dirigentes quanto se aplicará à condição das vítimas do padrão educacional proposto no livro Por Uma Vida Melhor, comprado e distribuído pelo governo".

Ele não leu a obra, não conhece a seriedade do trabalho da ONG, não sabe nada sobre os autores e parece não ter compreendido como se dá o processo de escolhas de livros didáticos no PNLD. A gramática correta do seu texto serve apenas para alimentar uma condenação a priori. De que adianta?

terça-feira, 15 de março de 2011

Risco de retrocesso na ABL


E por estas bandas, depois da perda irreparável que representou a morte do escritor Moacir Scliar (foto), um expoente da literatura brasileira, começa a corrida na Academia Brasileira de Letras para o preenchimento da vaga deixada por ele.

Nos últimos anos até que a ABL estava deixando para trás os tempos em que até um general da ditadura brasileira, Aurélio Lira Tavares, ocupou uma cadeira. Nomes do primeiro time foram escolhidos nos últimos anos. Por lá passaram, entre outros, Darci Ribeiro, que dispensa apresentação, e seguem Ana Maria Machado, Nélida Piñon e Cícero Sandroni, entre outros.

Pois bem, não é que agora aparece um pleiteante, uma figura que representaria um retrocesso para a ABL se fosse escolhido. Trata-se do colunista de O Globo, Merval Pereira, autor de um livro intitulado “Lulismo no Poder”, um trabalho que politicamente se inscreve na categoria de panfleto de direita. E só.

Para se ter uma ideia, o referido jornalista, em setembro do ano passado, portanto, em plena campanha eleitoral, esteve no Clube Militar junto com Reinaldo Azevedo, da Veja, destilando ódio contra o então Presidente Lula e fazendo proselitismo reacionário contra a candidata Dilma Rousseff. Foi ovacionado por vários oficiais da reserva que rezam a mesma cartilha de Merval Pereira e do outro. Parte do receituário apresentado aos que tinham comando durante a ditadura encontra-se no livro que ele apresenta e com isso pretende pleitear a vaga de Scliar.

Espera-se que os acadêmicos não se dobrem ao esquema plim-plim, que além de um retrocesso representaria uma ofensa à memória de Moacir Scliar e à própria literatura brasileira. Eles farão justiça e dignificarão a Casa se escolherem, agora em abril, o escritor, aí sim um escritor na verdadeira acepção da palavra, baiano radicado no Rio de Janeiro, Antonio Torres, autor de consagradas obras, algumas circulando no exterior, como “Essa Terra”, “Um cão uivando para a Lua”, “Balada da infância perdida” e “Um táxi para Viena d’Áustria”, entre outras.

Não há grau de comparação entre um e outro. Com a palavra os acadêmicos.

Em matéria de democratização da comunicação foi dado um passo adiante com a reunião no Congresso da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular. Do grupo que está sendo criado participam parlamentares e representantes de movimentos que lutam pela democratização da mídia.

Estiveram presentes, entre outros a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), os deputados Ivan Valente (PSOL-SP) e Paulo Pimenta (PT-RS). Como representantes de entidades da sociedade civil compareceram, entre outras, a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC), a Campanha Ética na TV, o Centro de Estudos da Mídi Barão de Itararé, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

E, como afirmou Erundina, “a liberdade de expressão e o direito à comunicação são condição para o pleno exercício da democracia no Brasil”. Sem isso, podem crer, não há democracia na pura acepção da palavra, apenas a “democracia” defendida pela mídia de mercado.

Enquanto isso, na Líbia permanece o impasse nos confrontos entre as forças leais a Muammar Khadafi e os insurgentes que anunciaram a instalação de um governo na cidade de Benghazi, já reconhecido pelo Presidente francês Nicolas Sarkozy. Os países integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), capitaneados pelos Estados Unidos, seguem os preparativos para desencadearem algum tipo de ação militar que vai agravar a situação. As últimas informações indicam uma retomada de áreas pelas forças leais a Khadafi.

A Secretária de Estado (ou será Sectária de Estado?) norte-americana, cinicamente diz que o seu país não vai abandonar o povo líbio. Clinton e os seus seguidores têm menosprezo pelos líbios ou qualquer outro povo, pois o negócio deles é escoar armas e pegar o petróleo em regiões ricas pelo mundo a fora.

O Brasil que se cuide com o pré-sal, muito cobiçado pelos Estados Unidos, tanto assim que Barack Obama está vindo por aqui, isso se não acontecer nenhum adiamento da visita em função dos acontecimentos na Líbia.

Antes de falar qualquer coisa, Clinton deveria dizer a verdade segundo a qual a indústria armamentista estadunidense desovou material. bélico na Líbia, o mesmo que está sendo usado nos confrontos. Afinal de contas, para os comerciantes da morte, negócios são negócios. Agora vir com a história de que o governo estadunidense está preocupado com o povo líbio é conversa para enganar eventuais incautos e abastecer as editorias internacionais dos jornalões e telejornalões. Vamos ver o que vem por aí.

A tragédia da natureza no Japão colocou a Líbia em segundo plano nos telejornalões.


Mário Augusto Jakobskind
Direto da Redação