Dilma peita o conservadorismo e nega ajuste no lombo dos trabalhadores: 'Não pretendo de maneira alguma acabar com a política de valorização do salário mínimo' (que passa a valer R$ 788 reais)
Marina critica desaceleração da economia, mas desdenha do pré-sal que prevê US$ 220,6 bilhões em investimentos até 2018; encomendas requeridas pela Petrobrás vão gerar 2 milhões de empregos até 2020.
Hollande faz na França o ajuste que Aécio e Marina preconizam para o Brasil; resultado: desemprego recorde de 3,4 milhões de franceses
Desemprego na Itália salta para 12,6% em julho
Gasto do consumidor tem queda nos EUA, a primeira desde janeiro
Inflação média nos 42 meses do governo Dilma: 6,1%; inflação média nos oito anos de governo FHC: 9,2%. Portanto, Aécio, menos, menos.
Marina copia o PSDB no neoliberalismo; segue Malafaia nos costumes e obedece aos mercados na independência ao Banco Central.
Mercados deliram e Bolsa sobe 1,6% no dia em que o PIB cai 0,6%. Motivo: Marina topa tudo, de tarifaço a arrocho fiscal; de câmbio livre ao esvaziamento do Mercosul.
Programa
de Marina pode ser resumido em uma linha: nova política reserva 20% do
orçamento para educação e saúde, mas entrega comando fiscal à agenda do
arrocho.
por: Saul Leblon
O programa de Marina Silva,
lançado na mesma sexta-feira em que o Datafolha lhe dava uma vantagem de
10 pontos sobre Dilma Rousseff no segundo turno --ao qual se credenciou
depois de crescer nada menos que 13 pontos em 11 dias-- tem 242
páginas.
É um livro.
Mas poderia ser resumido em uma
linha: a ‘nova política’ da novíssima Marina Silva é ortodoxa nas
questões econômicas que condicionam o destino da sociedade, e liberal
nos costumes que já romperam as amarras do presente.
Assim: o
Brasil de Marina Silva entrega a moeda, os juros, o câmbio, os salários,
a política externa e a fiscal à supremacia dos mercados financeiros.
Em resumo, o país renuncia ao comando do seu destino e ao destino do seu desenvolvimento.
Mas
acolhe o que já é um fato reconhecido até pela Justiça: o justo pleito
da união civil entre homossexuais e o direito à adoção de crianças por
casais gays, por exemplo.
Se do ponto de vista da evangélica
Marina Silva isso pode criar algum ruído junto a apoios prometidos –como
o do pastor Silas Malafaia , um cruzado da homofobia (leia ‘
Ousar e vencer ou entregar o Brasil aos mercados passivamente?’;
nesta pág) ; de outro lado, essa concessão é mais que compensada pela
abrangência de interesses contemplados por outras diretrizes de
superlativo impacto na repartição do poder e da renda.
Por exemplo, rebaixar o espaço estratégico do pré-sal na política de desenvolvimento e resgatar o da energia nuclear.
Mas
também fragilizar o Mercosul em benefício de acordos bilaterais
–leia-se subordinar a diplomacia brasileira à agenda hegemônica dos
livres mercados numa restauração da lógica da Alca sepultada desde 2003 (
leia mais no blog do Emir; nesta pág.)
Marina
Silva se oferece assim às elites e aos endinheirados como uma espécie
de ‘topa tudo’. Um candidatura desfrutável como um Bom Bril, que se
presta a mil e uma utilidades.
Não é pouco .E não surpreende que
amplas parcelas do PSDB --e da mídia que apoiava seu candidato, já
tenham cristianizado Aécio Neves, para embarcar no meteórico ônibus da
‘nova política’, rumo à Brasília.
Repita-se aqui o que disse
Carta Maior em nota anterior. A oportunidade representada por Marina
Silva contempla aspirações de poder que invariavelmente, desde 2002,
encontraram dificuldade de se expressar através de um palanque que
emprestasse carisma popular a um projeto de raízes tão excludentes.
Agora não mais, graças à ascensão desse super-bond chamado ‘nova política.
De novo, vale repetir: trata-se de um retrofit político e ideológico.
Retro, do latim “movimentar-se para trás” e fit do inglês, adaptação, ajuste.
Termo originado da arquitetura, o retrofit é recomendável quando um edifício chega ao fim de sua vida útil.
É
uma opção para corrigir o desgaste e a decadência do uso sem, todavia,
alterar seus alicerces e estruturas de sustentação. Fica mais barato e é
funcional.
O programa de Marina Silva é um retrofit do neoliberalismo .
O
desafio de vida ou morte do campo progressista nesse momento é
restaurar a transparência dos dois polos em confronto na sociedade
brasileira, dissimulados sob a aparência de uma ‘nova política’.
O
calcanhar de aquiles do retrofit conservador é o antagonismo entre a
maquiagem da fachada e de alguns equipamentos e a rigidez dos pilares e
colunas estruturais.
Num edifício isso é contornável com algum jogo de decoração.
Numa sociedade pode ser insuportável.
A
participação soberana e democrática da população nas decisões sobre o
desenvolvimento frequentemente evoca mudanças estruturais que colidem
com os interesses calcificados que a ‘nova política’ visa preservar.
Um exemplo resume todos os demais.
O
programa de Marina Silva afirma que vai destinar 10% do orçamento à
educação em seu mandato –antes, portanto, do ciclo de dez anos previsto
pelo governo Dilma, que ancora sua projeção em ganhos com os royalties
do pré-sal, cuja centralidade será descartada em um governo do PSB.
Diz, ainda, que assentará 85 mil famílias de sem terra (em 2012 foram assentadas 23 mil).
E sinaliza que destinará outros 10% do orçamento à saúde.
Uma
pergunta: fará tudo isso ao mesmo tempo em que entrega aos centuriões
do mercado o comando da política fiscal para procederem ao arrocho no
gasto público?
Não só.
Marina afirma apoiar o decreto de Dilma, demonizado pela elite que a festeja, da Política Nacional de Participação Social.
É
justo perguntar: participação em que, quando se terceiriza aos
operadores do mercado a prerrogativa de fixar os principais preços da
economia, entre eles a taxa de juros, delegada a um Banco Central
independente? (
Leia esclarecedor artigo de Paulo Kliass sobre esse tema; nesta pág).
Marina e seus formuladores defendem a mesma autonomia em relação a outros preços estratégicos.
O câmbio, segundo eles, deverá flutuar livremente.
Quanto
aos ao salários (o terceiro preço decisivo no capitalismo) , já se
antecipou que a política de valorização do salário mínimo adotada pelos
governos petistas será revertida.
É justo repetir a pergunta:
assim encapsulada a economia nas mãos do mercado, o que sobra à
participação social endossada por Marina Silva?
Visto desse
prisma da dinâmica econômica e social, o programa de 242 páginas
resume-se a um embrulho vistoso que guarda uma única determinação
implacável: devolver a agenda do desenvolvimento à supremacia dos
mercados.
A um custo social não mencionado, mas implícito.
Dizer
que manterá o Bolsa Família , como o faz o calhamaço, mas sinalizar com
o arrocho do salário mínimo, implica devolver à miséria milhões de
famílias assalariadas.
Prometer assentar 85 mil sem terra e
praticar uma política cambial, monetária e tarifária como querem os
operadores de mercado é enxugar o chão com a torneira aberta: centenas
de milhares de famílias serão cuspidas de seus lugares e de seus
empregos.
Por tudo isso, é pertinente dizer que o endosso de
Marina à política de participação social lançada por Dilma significa
pouco mais que um retrofit na palavra simulacro.
O conjunto,
porém, envolve uma operação de potencial lucrativo tão elevado que ao
mercado compensa tolerar os penduricalhos da ‘professora que veio dos
seringais’ –desde que a cozinha econômica fique, como já se definiu que
ficará, nas mãos experientes dos açougueiros do mercado financeiro.
Não é só uma sucessão presidencial, portanto, o que está em jogo.
É
uma mutação histórica do desenvolvimento brasileiro que se for
implementada marcará funestamente a vida desta e de futuras gerações.
Diante da gravidade do que se avizinha, Carta Maior reitera seu editorial anterior:
Ao
aluvião de interesses graúdos -- e de descontentamento difuso, seduzido
pelo glamour da ‘nova política’, não basta contrapor o exaustivo
balancete publicitário do que se conquistou e se incorporou à rotina do
país nestes últimos 12 anos.
É importante, mas não é suficiente.
É forçoso contrapor à ‘nova política’ aquilo que a desnuda e afronta.
É urgente dizer pelo que se luta; e contra quem se trava a batalha dos próximos dias e noites.
Essa
é uma batalha entre a democracia social e as forças regressivas
mobilizadas pelos interesses globais que acossam a economia brasileira.
É preciso escancarar a contradição entre o retrofit messiânico que as expressa e as estruturas calcificadas que ele maquia.
É
preciso contrapor a isso um salto efetivo da democracia participativa
que devolva à sociedade o poder reordenador que agora se pretende
terceirizar aos mercados.
Tornar esse salto palpável aos olhos da
população requer um símbolo de magnetismo equivalente às tarefas que
essa agenda encerra em termos de repactuação de metas, concessões,
salvaguardas e organização política.
Um novo governo estruturado
em torno dessa renegociação do desenvolvimento requer um chefe de Casa
Civil dotado, ao mesmo tempo, de inexcedível sintonia com a Presidenta
Dilma , e de incontrastável representatividade popular.
Essa
referência existe; já funciona de fato como líder político do campo
progressista; deveria ser oficializado desde já no anúncio antecipado da
composição de um segundo governo Dilma.
Seu nome é Lula.