Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Ameaça de Palocci de delatar bancos e empresas de comunicação pode ter sido “recado” chave para soltura de José Dirceu

por Luiz Carlos Azenha
Anos 2000. Redação da TV Globo de São Paulo. Venho do posto de correspondente da TV Globo em Nova York. O chefe de reportagem Luiz Malavolta me procura com um e-mail. Malavolta é meu amigo desde a adolescência, em Bauru. Trabalhamos juntos no Jornal da Cidade e na TV Bauru.
Malavolta diz que gostaria que eu fizesse uma investigação a partir do conteúdo do e-mail. Já experiente, eu digo a ele: Malavolta, um e-mail sem origem? E se isso for grampo, tiver origem ilegal?
Ele pensa um pouco e responde: vamos confirmar o conteúdo do e-mail, assim a gente elimina qualquer dúvida sobre a origem e descarta o e-mail.
Mais tarde, fiquei sabendo que a origem da mensagem tinha sido um araponga ligado ao então deputado ACM Neto, conhecido nos bastidores por motivos óbvios como “grampinho”. A mensagem foi enviada diretamente à alta hierarquia da Globo (num futuro livro, prometo reproduzir o e-mail), que a repassou hierarquia abaixo.
Fomos investigar caixa dois do PT em Goiânia. Bingo. Todos os caminhos levavam a Adhemar Palocci, irmão de Antonio Palocci, mais tarde diretor da Eletronorte.
O caso foi parar em uma das três CPIs que investigavam o mensalão petista em Brasília. Tratava-se de caixa dois bancado por uma seguradora chamada Interbrazil, que faliu deixando um rombo na praça.
A CPI pretendia convocar Adhemar Palocci. Nos bastidores da Globo, veio a resposta: se Adhemar for convocado, o ministro da Fazenda pedirá demissão do cargo. Fomos à Eletronorte: Adhemar não quis dar entrevista.
Em votação, a convocação de Adhemar foi derrotada. Logo em seguida, a Globo me mandou retornar de Brasília e encerrou a cobertura do caso.
Foi logo depois de o dono da seguradora falida depor na CPI dizendo que havia contribuído não apenas com o PT, mas com o PSDB, PMDB, enfim, com todos os partidos, sempre em material e “por fora”.
Para mim, ficou claro: a emissora não queria denunciar Palocci, o ministro da Fazenda, nem deixar claro que o homem do caixa dois petista tinha feito absolutamente o mesmo de forma generalizada.
Como era uma das minhas primeiras investigações depois de quase duas décadas nos Estados Unidos, caiu a ficha: se for contra o PT, vale tudo.
Ficou a pergunta: houve algum acerto de bastidores com o Palocci?
Um detalhe do caso sempre nos chamou a atenção: eu e Malavolta queríamos aprofundar as investigações sobre o instituto de resseguros do Brasil, que nos parecia ter agido de forma relapsa ao permitir a falência de uma seguradora que deixou um grande rombo na praça.
De repente, o executivo-alvo apareceu todo sorridente passeando pela sede da Globo em São Paulo, ao lado do diretor regional de jornalismo da emissora. A especulação que nunca pudemos comprovar era de que o executivo sabia muito sobre o Banco Roma, que havia sido o braço financeiro da família Marinho. O assunto morreu ali.
Corte para Antonio Palocci, preso em Curitiba, depondo diante do juiz Sergio Moro.
“Tenho certeza disso”, respondeu o ex-ministro, sobre se a Odebrecht contribuiu com José Serra e Aécio Neves tanto quanto em favor de candidatos do PT.
Segundo Palocci, na campanha de 2014, “a Odebrecht fez chegar ao presidente Lula […] que havia uma provisão em torno de R$ 200 milhões. O presidente Lula me procurou surpreso, estranhando e disse que nunca tive ‘conversa desse tipo'”.
Palocci questionou Marcelo Odebrecht, que informou que era comum a empresa fazer “provisões”.
“Fui ao presidente Lula e disse que foi um mal entendido”, explicou.
Mais tarde, Palocci disse que recebeu a estranha visita de uma pessoa — “uma grande personalidade do meio financeiro” — que falava em nome de um banco e que afirmava ser o responsável por “financiamento de campanha”. O ex-ministro se dispôs a informar Moro, em sigilo, mais tarde, sobre o nome do representante do banco.
“O senhor também mencionou uma das grandes empresas de comunicação”, perguntou um dos advogados presentes em seguida.
“Olhando o cenário de hoje parece que todos os governos só trabalham em função da empresa Odebrecht e o que eu procurei demonstrar é que o primeiro problema que tive quando sentei na cadeira de ministro da Fazenda foi o setor da construção civil”, afirmou Palocci, antes de a audiência ser interrompida.
Mais tarde, ele afirmou: “Empresas de comunicação tiveram sérios problemas neste período [quando ele era ministro da Fazenda], inclusive com algumas empresas declarando default nos seus compromissos externos”. A essa altura, Moro interrompe bruscamente Palocci: “Quando o sr. se encontrava com o sr. Marcelo Odebrecht, onde é que se davam esses encontros?”.
Ficou claro que o juiz de Curitiba não pretendia tratar do assunto.
Pela época da qual tratava Palocci pode se deduzir que ele falava da TV Globo, que enfrentou profunda crise quando o Brasil “quebrou” sob FHC, na passagem para o governo Lula. A Globo tinha imensa dívida em dólar e sofreu com a repentina desvalorização do real.
Foi um dos motivos pelos quais a emissora fez uma armação nas ilhas Virgens Britânicas para não pagar impostos na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, esquema denunciado pela blogosfera que resultou em cobrança superior a R$ 615 milhões da Receita Federal à emissora (ver documentos abaixo).
Um dos vazadores oficiais da Lava Jato “informou” há pouco que Antonio Palocci teria “repensado” a ideia de fechar acordo de delação premiada, diante da soltura de seu ex-colega de ministério José Dirceu.
Se receber o mesmo benefício, ele pode simplesmente ficar calado.
A ver.
Palocci disse, em seu depoimento diante de Moro: “Acredito que posso dar um caminho, que talvez vá dar um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil”.
Globo? Banqueiros? A quem interessa calar Palocci?
Talvez trazendo de volta a gravação da conversa entre o senador Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, a gente entenda:
MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.
MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.
JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.
PS do Viomundo: Não se esqueçam que, na busca e apreensão feita no escritório paulistano da fabricante de empresas-laranja, a Mossack & Fonseca, do Panamá, a Polícia Federal encontrou anotações referentes a Paula Marinho, neta de Roberto Marinho.
São indícios de que ela pagava as taxas de manutenção de três empresas offshore, a Vaincre LLC, a Juste e a A Aplus, sediadas respectivamente nos Estados Unidos, ilhas Seychelles e Panamá.
Nas planilhas também há menção à Glen, de Alexandre Chiapetta de Azevedo, hoje ex-marido de Paula.
A Vaincre LLC é uma das donas da mansão de concreto em Paraty atribuída aos Marinho.
A A Plus e a Glen participam da concessão ilegal, sem concorrência pública, dada pelo governo do Rio ao casal há mais de 20 anos.
O estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, espaço público, foi transformado num luxuoso centro de consumo em local estratégico do Rio de Janeiro, gerando lucros privados.
Há duas ações do Ministério Público do Rio a respeito: uma questionando a concessão, outra pedindo de volta todo o dinheiro público investido no estádio em diferentes ocasiões, sem que o concessionário tirasse um tostão do bolso.
Pergunta sem resposta: quem precisa de três offshore, pelo menos uma delas com dupla blindagem — ou seja, você não sabe quem é o dono verdadeiro, nem quem atua em nome do dono — para gerir os valores relativamente pequenos envolvidos numa concessão que envolve cinemas e restaurantes? Haveria algo além disso?
Infelizmente, até agora, parece que o caso foi entregue ao Geraldo Brindeiro, o engavetador-geral da República em priscas eras.
A família Marinho diz que Paula nunca teve absolutamente nada com os negócios do ex-marido, mas é uma defesa inverossímil, já que numa das anotações apreendidas na Mossack, ao lado do nome da neta de Roberto Marinho, aparece o número de uma conta bancária de onde aparentemente se originava o dinheiro utilizado para pagar as taxas de manutenção das offshore. Além disso, ela assinou como fiadora numa das ocasiões em que a concessão foi renovada, sempre sem concorrência pública.
Leia também:

domingo, 31 de agosto de 2014

O PALOCCI NÃO MOSTROU, BLÁBLÁ TEM QUE MOSTRAR ! Quem são os clientes secretos da Bláblá ?




A Fel-lha (de bilis podre) (*) revelou que a Bláblárina, coitadinha, tão pobrinha, frágil, desprotegida, faturou mais de R$ 1 milhão em palestras.

E que não vai identificar os clientes por causa de uma cláusula de confidencialidade.

Não pode !

Onde é que nós estamos ?

Na selva ?

Quer dizer, na floresta ?

O amigo navegante se lembra que a Presidenta Dilma Rousseff mandou embora seu Chefe da Casa Civil, porque ele se recusou a identificar os clientes de sua consultoria.

E a Presidenta fez muito bem: não poderia conviver com o malfeito.

Conversa Afiada desconfia que Palocci preferiu cair a ter que dizer que seu cliente era o Abílio Diniz, que pretendia, naquela altura, recomprar o Pão de Açúcar com o seu, o nosso dinheiro e do trabalhador, com o FAT do BNDES.

E olha que ele era apenas, apenas !, chefe da Casa Civil.

Agora, imagine uma candidata já eleita pelo PiG (**) Presidenta do Brasil !

E se o cliente for o Itaúúú?

A Natura ?

E se for o doleiro Youssef ?

Ou o Aref do Prefeito Cerra ?

E se for o James Cameron ?

E se for a Chevron do Cerra ? 

Taí, um bom tema para a Presidenta Dilma explorar no horário eleitoral: quem banca (sem trocadilho) a Antonia Conselheira, a mesma do crime eleitoral do jatinho sem dono ?

Sobre a matéria, leia aqui o que Rubens Valente – autor do imperdível “Operação Banqueiro” – escreveu sobre os clientes secretos da Bláblá.

Clique aqui para ler “Janio e a Petrobrax. Bláblá = Arrocho”.

Aqui para ler “Jean Wyllys: Bláblá, você mentiu !”.

Aqui para ler “Caetano apoia Bláblárina. Ôba !”.

aqui para ler “Malafaia sobre Bláblá: melhorou, mas não basta”.


Paulo Henrique Amorim


(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a  Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

KAMEL SABE QUE VISANET NÃO É DINHEIRO PÚBLICO O que Lula disse a um dos filhos do Roberto Marinho, na crise do mensalão. E o que disse ao Palocci …


O ansioso blogueiro conversou com graduado petista que se viu envolvido, por tabela, no julgamento do mensalão, por obra e graça do insigne Roberto Gurgel, que não é mais Procurador Geral e, nesta feliz data, mereceu singela homenagem do Bessinha.

O prezado amigo contou ao ansioso blogueiro duas histórias que envolvem o mensalão (o do PT) e a Globo Overseas Investment BV.

Numa, no auge da crise do mensalão,  quando o Farol de Alexandria defendeu a “teoria do sangramento” – leia o “em tempo” – , Lula se encontrou com um dos filhos do Roberto Marinho – eles não têm nome próprio.

E disse: eu não sou Getúlio para se matar, Jânio para renunciar, nem Jango para se derrubar.

Se vocês insistirem em me derrubar, eu racho esse país.

Essa reação foi a sequência de uma sugestão – já conhecida – do Antonio Palocci.

Para puxar a sardinha para a própria brasa, Palocci queria que Lula propusesse um  “acordo” à Globo: eu não me candidato à reeleição e vocês não me derrubam.

A resposta de Lula ao Palocci é impublicável.

Como se sabe, Palocci pretendia ser a alternativa neolibelês (*) à sucessão de Lula.

O “petista confiável”, assim como o Bernardo Plim-Plim/Trim-Trim, segundo o detrito de maré baixa.

A outra história surgiu a propósito do rejulgamento do mensalão.

O prezado amigo contou que ao explodir o mensalão, travou-se uma batalha sangrenta entre a redação de Brasília da Globo e a Santa Sé da direção do jornalismo da Globo, já naquela altura sob a regência do Gilberto Freire com ï” (**).

Não era apenas uma batalha política.

Era, também, técnica.

O Freire com“i” nunca foi repórter, de queimar o traseiro na rua, atrás de incêndio ou batida de carro.

Sempre foi um “intelectual” – um antropólogo, sociólogo e teólogo de computador.

Além de ser um militante.

E um devoto da causa Marinha – como diz o Paulo Nogueira: o Freire com “i” e o Ataulfo Merval (***) se debatiam nas reuniões com um filho do Roberto Marinho para ver quem concordava mais com ele.

É o que fazem até hoje, pelo jeito.

Quando estourou o mensalão, o Freire com “i” viu ali a oportunidade de entrar para a História e derrubar o Nunca Dantes.

Como hoje, no rejulgamento do Dirceu, o ponto central era saber se o dinheiro da Visanet é público.

Se fosse público – o que não é – estava comprovada a tese do Gurgel de que o Dirceu entrou de pá, na calada da noite, de pá e picareta nas arcas do Tesouro Nacional, e tirou de lá o Maior Crime da História !

Como não é público, o mensalão se tornou o Mentirão, ou, um julgamento de exceção para pegar o PT e mais ninguém.

(Por que o Gurgel não mandou a Globo devolver o BV da Visanet ?)

Aí, o com “ï” queria tratar o mensalão como um “assalto ao dinheiro público”.

O pessoal da Globo de Brasília respondia: sim, mas temos que provar !

O dinheiro é privado, respondiam.

As provas ! As provas ! – detalhe que o Gurgel e o “mata no peito”, por exemplo, menosprezaram.

O com “i” insistia: é dinheiro público !

A equipe de Brasília reagia: sim, mas e as provas ? A origem é privada !

Kamel – como o Gurgel – jamais produziu as provas !

E daquela equipe de profissionais da Globo em Brasília – os da versão “privada” – só sobrou o continuo.

Outros, em boa parte, aderiram.

E levaram ao público o que fazem na privada.

Em tempo: o Farol de Alexandria, na Sociologia, criou a “teoria da dependência “ aos Estados Unidos, que um de seus inexpressivos chanceleres traduziu por tirar o sapato antes de entrar em território americano. Outra teoria notável do Farol foi a do “sangramento”. O Agripino Maia, esse notável pensador oposicionista, queria ir para o impeachment, para o putsch parlamentar, com a eclosão do mensalão. Como o Golpe do insigne paulista Auro de Moura Andrade,  que declarou a vacância do poder com o Jango no Brasil. O “sangramento” consistia em bater no Lula, bater tanto que ele sangrasse e chegasse à campanha da reeleição destroçado, impotente. E, aí, o FHC voltaria ao poder nos braços do povo (de Higienópolis e da Avenue Foche).


Paulo Henrique Amorim


(*) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.

(**) Ali Kamel, o mais poderoso diretor de jornalismo da história da Globo (o ansioso blogueiro trabalhou com os outros três), deu-se de antropólogo e sociólogo com o livro “Não somos racistas”, onde propõe que o Brasil não tem maioria negra. Por isso, aqui, é conhecido como o Gilberto Freire com “ï”. Conta-se que, um dia, D. Madalena, em Apipucos, admoestou o Mestre: Gilberto, essa carta está há muito tempo em cima da tua mesa e você não abre. Não é para mim, Madalena, respondeu o Mestre, carinhosamente. É para um Gilberto Freire com “i”.

(***) Ataulfo de Paiva foi o mais medíocre – até certa altura – dos membros da Academia. A tal ponto que seu sucessor, o romancista José Lins do Rego quebrou a tradição e espinafrou o antecessor, no discurso de posse. Daí, Merval merecer aqui o epíteto honroso de “Ataulfo Merval de Paiva”, por seus notórios méritos jornalísticos,  estilísticos, e acadêmicos, em suma. Registre-se, em sua homenagem, que os filhos de Roberto Marinho perceberam isso e não o fizeram diretor de redação nem do Globo nem da TV Globo. Ofereceram-lhe à Academia.E ao Mino Carta, já que Merval é, provavelmente, o personagem principal de seu romance “O Brasil”.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O efeito Palocci

 
Lula foi profético ao prever que se a mídia conseguisse derrubar Antonio Palocci o governo Dilma se arrastaria por quatro anos, com ministros sendo derrubados como se fossem peças de dominó. Três já caíram, após Palocci, e mais três estão na corda bomba – Cidades, Turismo e Comunicações. Sem falar da ministra Gleisi Hoffmann, que já começa a entrar na alça de mira da direita midiática.
Como interromper esse processo, portanto, é a grande questão neste momento – ou deveria ser, ao menos para o governo Dilma. E, para tanto, o que precisa ser feito é resistir, pois até os ministros que estão rendendo os defenestrados também já sofrem acusações aqui e ali.
O grande problema é que, como no caso do ministro da Agricultura, as pessoas tendem a não suportar a artilharia da mídia, pois lhes afeta as famílias. Filhos e esposas ou esposos começam a ser discriminados socialmente. Vizinhos, parentes e amigos se afastam. Há filho de um ministro que sofreu assédio na escola. E o que é pior: sem que se tenha mais do que acusações sem provas.
A única forma de os ministros resistirem ao bombardeio da mídia seria a presidente Dilma em pessoa deixar bem claro que não demitirá ministros sem provas, dando declarações de apoio aos bombardeados. Pelo menos até que exista algo de concreto contra eles – o que, até agora, jamais ocorreu.
Palocci caiu, sumiu e as denúncias contra si também sumiram. Simplesmente porque não havia nada de concreto contra ele. Ao menos nada ilegal. O mesmo se dá com os outros ministros demitidos e é o que se dará com os que vierem a cair. Essa é a maior prova de que o processo que os está defenestrando em série não passa de jogada política.
As pessoas que dizem apoiar este governo e que ajudaram a derrubar Palocci tinham – e têm – uma lista de ministros dos quais não gostam e que querem que caia. Partem da premissa de que é possível restringir os ataques só àqueles que não gozam de popularidade entre setores da esquerda.
O fato é que ninguém escolherá que ministros cairão. Quem escolhe é a mídia, sob orientação da cúpula do PSDB. Vejam o caso do ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso. Os que pediram a queda de Palocci queriam que fosse o próximo, mas ele não está na agenda da mídia. Quem está na agenda são os que, caindo, podem abalar a base aliada.
Os ministros do PT não interessam. Neste momento, há que fustigar ministros que, caindo, podem fazer minguar a base de apoio do governo no Congresso, sendo as cerejas do bolo os peemedebistas. Aposta-se que o PMDB deixe a aliança e, com isso, o governo Dilma se veja em uma crise de governabilidade que o fará chegar a 2014 em frangalhos.
As previsões que este blog fez – inclusive antes de Lula dizer que Dilma não deveria entregar a cabeça de Palocci – não param de se confirmar. Foi uma ingenuidade dos que, apesar de apoiarem este governo, fizeram o jogo da imprensa. A partir dali, ficou claro que seria fácil derrubar ministros. Tivesse havido resistência, o governo não estaria na situação em que está.
Enquanto Dilma tenta apagar o fogo na base aliada, acalmando o PMDB e trazendo o PR de volta à base do governo, a mídia continua fustigando ministros que, caindo, podem abalar a aliança governista. São várias frentes de ataque. Quanto mais ministros caírem, mais fácil será vender, lá na frente, a tese de que a presidente escolheu mal seus auxiliares.
Só há uma forma de interromper o efeito Palocci, portanto: resistindo. Se a presidente resistir, se os governistas contra-atacarem cobrando que a ética midiática não se restrinja só ao governo do PT, acusando que governos tucanos são poupados apesar de terem também seus problemas, a estratégia midiática será desmontada. Do contrário…

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Saída de Palocci desencoraja BC, e juro sobe como previa 'mercado'


Banco Central mantém arrocho monetário e aumenta o juro pela quarta vez seguida no governo Dilma Rousseff. Até 20 de julho, maior taxa do planeta valerá 12,25%, como apostava o 'mercado'. Substituição de Antonio Palocci, que se vendia como 'fiador' do governo junto ao sistema financeiro, desencorajou BC a tomar decisão diferente da prevista pelo 'mercado'. Para CUT, foi 'lamentável'. Para, Fiesp, 'inoportuna'.

BRASÍLIA – Mesmo diante da recente queda da inflação, o Banco Central (BC) subiu a taxa básica de juros da economia brasileira pela quarta vez no governo Dilma Rousseff, nesta quarta-feira (08/06). A taxa, a maior do planeta, passou de 12% para 12,25%, em decisão unânime da diretoria do BC. O aumento, anunciado depois de dois dias de reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), segue à risca o que apostava o “mercado”.

Segundo Carta Maior apurou junto à equipe econômica, a saída do ex-ministro Antonio Palocci do governo desencorajou o Copom a tomar uma decisão diferente do que esperava o “mercado”, ao contrário do que aconteceu da última vez que discutira o assunto. Como Palocci cultivava a imagem de que era uma voz “sensata” e mais ortodoxa no governo, sua substituição, combinada no mesmo dia com uma nova surpresa do BC, poderia inquietar o “mercado”.

Na pesquisa que o Banco Central realiza toda semana com cerca de 90 instituições privadas, em sua maioria ligadas ao sistema financeiro, o “mercado” apostava numa elevação do juro de 0,25 ponto percentual. Fez tal previsão mesmo tendo, pela quinta semana seguida, baixado sua expectativa para a inflação de 2011. A expectativa do “mercado” sobre a variação dos preços é um dos elementos mais importantes para o BC, na hora de decidir se mexe nos juros.

Para ao ano que vem, no entanto, a previsão do “mercado” para o reajuste de preços continua acima daquilo que o BC está perseguindo, e esse também é um fator importante para o banco. A meta de inflação de 2012 é de 4,5%, e o “mercado” prevê, hoje, um resultado de 5% no ano que vem. Em 2011, a meta também é de 4,5%, mas o BC já avisou que aceitará um resultado maior, para não sacrificar tanto o crescimento da economia.

No comunicado que divulga para se explicar sempre que discute juro, o BC deixou claro que o cenário para 2012 pesou. Segundo o texto, o banco não sabe ao certo o tamanho do desaquecimento da economia, e o cenário fora do país continua complexo, de modo que “a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado continua sendo a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012”.

As justificativas não convenceram trabalhadores e empregados. Em nota, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique, chamou a alta do juro de “lamentável”, porque a inflação está sob controle e porque o aumento só beneficia “banqueiros e os ricos que têm aplicações financeiras”. Para a CUT, a promessa da presidenta Dilma Rousseff de baixar os juros para patamares internacionais é, por ora, uma “miragem”.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também criticou, em nota, a decisão e a classificou de “inadequada e inoportuna”. “Depois de cinco semanas de queda consecutiva na expectativa de inflação, da queda de 3,8% na produção da indústria paulista e de 2,1% da brasileira de abril ante março, eu gostaria de saber por que os juros ainda subiram”, diz Skaf.

O BC voltará a sentar para discutir os juros nos dias 19 e 20 de julho.

PERDAS E DANOS COM A ALTA DOS JUROS

 
Só a nova alta de 0,25% da taxa Selic, anunciada ontem pelo BC, representará um  gasto adicional de R$ 3 bi no pagamento de juros da dívida pública. O governo acaba de anunciar licitações para a privatizar aeroportos porque não tem entre R$ 5 bi a R$ 6 bi para contratar as obras necessárias à  expansão dessa infraestrutura. Nos últimos 12 meses a Selic subiu mais de três pontos percentuais. Ou seja,  acrescentou mais R$ 50 bi às despesas com  juros. Esse valor equivale a tudo aquilo que o governo anunciou de cortes no orçamento público este ano --entre investimentos e despesas correntes suspensas. Cada ponto de alta na taxa de juros permitiria sustentar um ano de Bolsa Família, beneficiando 50 milhões de brasileiros.  Neste 1º quadrimestre de 2011 , o arrocho para pagar juros da dívida pública foi de R$ 57 bi; em 12 meses o custo é superior a R$ 214 bi.
(Carta Maior; 5º feira, 09/06/ 2011)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

.Degola de Palocci enterrou “ley de medios”


O processo que culminou com a defenestração de Antonio Palocci gerou uma situação desconhecida na política nacional. Pela primeira vez, parcela relevante do partido que esteve unido em torno de Lula desde a sua criação ignorou seus pedidos de sustentação no primeiro grande ataque que mídia e oposição fariam ao governo Dilma.
Aprofundei-me no debate com os setores do PT que passaram a usar, ipsis litteris, o discurso de colunistas da grande imprensa como Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhêde, Merval Pereira, Lucia Hippolito, Ricardo Noblat e por aí vai. Há centenas e centenas de comentários neste blog que chegam a reproduzir até frases literais desses colunistas.
A posição de setores do PT, do movimento sindical, da blogosfera, da grande imprensa e da oposição coincidiu ao ponto em que se tornaram voz uníssona a repetir as mesmas frases sobre “ética” em uma campanha moralista idêntica à que gerou o mensalão, mas com a diferença de que surgiu sem mero indício de qualquer ilegalidade por parte do alvo da campanha de desmoralização, Palocci.
Em pouco tempo, mídia, oposição, setores do PT e da blogosfera já reconheciam que estava sendo usada uma acusação sem provas para destruir a imagem do principal ministro do governo Dilma Rousseff. A questão ética seria pretexto para uma inviabilidade política dele, mas o que facilitaria sua queda seria a acusação falsa.
Obviamente que isso não significa que essas parcelas do PT e da blogosfera tenham se aliado à mídia golpista. Apenas se valeram dela para promover o que julgavam ser uma “faxina” no governo, empreendida contra a vontade da presidente Dilma Rousseff e de Lula, que resistiram a ceder à denúncia da Folha de São Paulo contra Palocci até onde deu.
É importante que fique claro: não se tem dúvidas, aqui, da honorabilidade dessas pessoas que, de boa fé, pediram a queda de Palocci. Acreditaram estar fazendo o melhor.
Por outro lado, os relatos de que Dilma acabou desconsiderando a posição de Lula de que ela não deveria ceder, sucedem-se ininterruptamente. Quem ainda não leu nenhum, ainda vai topar com alguns deles. Todavia, há quem diga que foi Palocci que não agüentou a pressão. Essa é, ainda, uma das grandes dúvidas. Dilma teria pensado em resistir?
Cheguei a achar que sim, que Palocci é que teria decidido se render. Mas o meu amigo Paulo Henrique Amorim, que sabe das coisas, diz que foi Dilma quem cedeu e que Palocci estava disposto a enfrentar mídia, oposição, parcelas do PT e até o próprio Paulo, blogueiro conceituado cuja opinião é muito respeitada.
Após o desastre, os que agiram de boa fé por acreditarem que faziam o certo passaram a um processo de negação de uma vitória da direita midiática que a mesma direita midiática já comemora nos jornais, com manchetes tripudiando sobre o governo, na tevê, na internet etc.
Essa parte é a mais incrível, do ponto de vista sociológico, pois dizem que quem fez a denúncia (a Folha) foi derrotado quando essa denúncia surtiu o efeito pretendido. Freud explica.
Mas um analista sempre sensato, Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populi, explica direito como e por que o governo Dilma foi derrotado inclusive com a ajuda de parcela importante de seu partido, ainda que não veja nessa derrota o fim do governo.
—–
(…)
Pelo que se lê na imprensa, o caso Palocci terá sido, para ela, o fim dessa etapa. A crer em seu coro quase uníssono, de agora em diante, enfrentará problemas crescentes. Perdeu a iniciativa do jogo político e só lhe resta esperar até que sua popularidade comece a cair.
Será? O golpe na imagem do governo terá sido tão fundo? O caso atingiu uma proporção tão grande da população, de maneira tão severa, que não cicatrizará nunca mais?
Parece improvável. Pelo que conhecemos de nossa sociedade, ministros com problemas são coisas que não afetam o governo inteiro. Mas é razoável supor que alguns admiradores tenham se afastado da presidente.
(…)
—–
“Alguns admiradores” significam pontos nas pesquisas. Para quem não sabe, o Vox Populi está entre os institutos que monitoram a popularidade de Dilma para clientes diversos. Não há uma semana em que não esteja sendo monitorada. E Coimbra alude ao senso comum, que toma o país, de que o governo perdeu.
A perda foi pelo fato de que ficou claro, inclusive diante do mundo, que o principal ministro do governo Dilma foi mal escolhido. Particularmente, também acho. Mas, de uma vez escolhido, não poderia sair assim para não ficar tão gritante o erro político. Porque – e agora vem a bomba – deixar a mídia vencer inviabilizará várias políticas nas quais se acreditava.
Com o novo poder da imprensa e da oposição de provocarem sublevações no próprio partido do governo, de agora em diante será só descobrir quais ministros e outros integrantes desse governo podem ser acusados analogamente a Palocci – e dizem as lendas que há muitos – e contar com a mesma militância governista para ajudar a desestabilizá-los.
Na defensiva, o governo Dilma não terá como partir para a ofensiva. A derrubada de Palocci foi só um aviso: “Não tente o fim da propriedade cruzada de meios de comunicação, Dilma, senão vamos inviabilizar o seu governo pondo a nu os políticos só do seu lado. E, agora, com ajuda interna de suas forças”.
Se Dilma não teve nem força para manter sua decisão inicial de não demitir Palocci, como terá força para aprovar uma lei que proíba um quase monopólio de meios de comunicação no Brasil que não existe em lugar algum do mundo desenvolvido?
Não parece polêmico dizer que a lei da propriedade cruzada não vem de jeito nenhum. Alguns dizem que não viria mesmo antes do caso Palocci. Contudo, participo de fóruns pela democratização da comunicação há anos, fui delegado por São Paulo na Conferência Nacional de Comunicação, em 2009, e posso afirmar que muitos acreditavam na “ley de médios”.
Não virá. Aliás, o ministro Paulo Bernardo, que as más línguas dizem que queria derrubar Palocci para pôr a mulher no lugar dele e que esteve por trás das articulações dentro do PT, já dissera que não, que a lei da propriedade cruzada ainda não tinha “condições políticas”, blábláblá e mais blábláblá. Chamou até o Paulo Henrique de “ansioso”.
Claro que ninguém pode dizer se é verdade. Não conheço o ministro, mas tudo isso é dito abertamente. Aliás, muitos dos que ajudaram a derrubar Palocci, até há pouco chamavam o ministro das Comunicações de Paulo Hibernardo… Só o futuro dirá se é injustiça. Por enquanto, é hipótese política absolutamente legítima.
O quadro político é realmente nebuloso. Ao fraquejar como fraquejou, o governo Dilma criou uma enorme dúvida sobre a sua capacidade de sobrepujar obstáculos quase intransponíveis que tem pela frente, com a continuidade da guerra da direita midiática contra seu governo e seu partido, que só terá fim se a presidente capitular de vez.
Neste momento, portanto, a bandeira da “ley de medios” parece esfrangalhada. Ninguém mais sabe o que significa essa lei. A da Argentina, que lhe deu origem, conheço muito bem. Como vendedor que viaja pela América Latina há mais de vinte anos, acompanhei os processos de Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina.
Nenhum desses países teria conseguido impor o fim da propriedade cruzada sem governos fortes. E não foi cedendo à mídia e à oposição que conseguiram, isso posso garantir. Simplesmente porque a tal “ley de medios” prejudica financeiramente os impérios de comunicação que acabam de obter vitória tão estrondosa.

A OPORTUNIDADE DE UM RECOMEÇO

 Ao afastar Antonio Palocci, a Presidenta Dilma Rousseff  ganha espaço para uma reordenação política que corrija as lacunas de um ciclo inicial em que a principal agenda do seu governo era negativa: conter o crescimento para conter a inflação e a apreciação cambial. A inflação já reverteu a curva ascendente. A instabilidade cambial não cede sem baixar os juros que atraem capitais especulativos, mesmo com algum controle sobre os fluxos externos. Um bom recomeço seria interromper a nova alta da Selic que está sendo discutida na reunião do BC iniciada na terça-feira. O país vive um momento privilegiado de retomada dos investimentos nas áreas da infraestrutura, energia e construção civil. Nenhuma economia do mundo rivaliza com o leque de obras públicas em marcha no Brasil nesse momento, que
 inclui a construção --simultânea-- de 3  hidrelétricas, 3  ferrovias e 5 refinarias, ademais de investimentos superiores a US$ 220 bilhões da Petrobrás na exploração do pré-sal, apenas no período 2011- 2015. A expansão da capacidade produtiva, conforme mostrou o  IBGE no 1º trimestre, cresce  50% acima da expansão do consumo. O horizonte econômico, portanto, esboça uma espiral virtuosa em que o fôlego da oferta corre à frente do ímpeto da demanda. Esfarela-se a chantagem ortodoxa do descontrole inflacionário. O economista Amir Khair advertiu em recente artigo em Carta Maior que não se deve esperar da recuperação dos países ricos,sobretudo da economia norte-americana que patina em desordem financeira, dívidas insolúveis e  retração do consumo, qualquer incentivo ao nosso desenvolvimento. O mercado interno, sinaliza Khair,deve ser o grande fiador da travessia brasileira nessa longa convalescência da crise mundial. Sufocá-lo com novas altas dos juros é transpor para a lógica economica a sangria imobilizante que se decidiu evitar na esfera política, com a mudança na Casa Civil.
(Carta Maior; 4º feira, 08/06/ 2011)

sábado, 4 de junho de 2011

Guilhotina cega do JN falha ao tentar decapitar Palocci

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”
Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago

Cada um viu o que quis, mas a maioria viu o que não queria mesmo sem enxergar um palmo diante do nariz.
As previsões eram de que a entrevista de Antonio Palocci ao Jornal Nacional seria o golpe de misericórdia que ele receberia – ou daria em si mesmo, pois, segundo um importante analista, o ministro teria optado pela “guilhotina”.
Não foi o que se viu. E pude confirmar isso indo ao Twitter provocar opiniões sobre a entrevista.
Apesar de alguns mais inconformados com o fato de que acusar quando o acusado se defende é mais difícil terem optado por teimar que teria havido a materialização da decapitação, a maioria reconhecia que Palocci fora bem, sim, mas atribuía ao fato de que a Globo o teria “ajudado”.
Diante disso, coube-me uma pergunta óbvia: se o JN aliviou, não fez as perguntas que devia, o que você perguntaria ao ministro para, digamos, arrasá-lo ao vivo e à cores? Recebi dezenas de mensagens. Dezenas. E nenhuma resposta.
Palocci foi bem simplesmente porque se manteve calmo e porque mostrou ao repórter Julio Mosquera e ao público que toda aquela história de que ele estaria “se escondendo” não se justificava, como se viu.
E o que se viu, em vez da decapitação, foi quase um chá das cinco ao melhor estilo bretão.
Palocci deixou claro que todas as perguntas que lhe fazem sobre quem são seus clientes, quanto lhe pagaram etc. serão respondidas aos “órgãos de controle”, ou seja, à Procuradoria-Geral da República, ainda que esta já tenha avaliado os dados antes de ele entrar no governo.
Logo, os pistoleiros do PIG começaram a rever a teoria da decapitação. O ministro, provavelmente, não cairia mais. A decapitação não ocorreria já, apesar de que era dada como favas contadas.
Pode ser, claro, que ocorra por razões políticas, sem provas, mas será dado à direita midiática e à manada útil o direito de punir alguém sem julgamento, sem provas e sem meros indícios.
E há outro motivo pelo qual a decapitação de Palocci não ocorrerá. Reportagem da revista IstoÉ de 1999, sobre o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, ajudará a entender por que.
Fraga deixou de receber um salário 20 vezes maior como empregado do mega investidor George Soros para trabalhar no governo FHC por 7 mil reais. À diferença de Palocci, porém, ninguém exigiu maiores explicações sobre a razão da troca de emprego.
Leiam, abaixo, a reportagem. Os mais sagazes entenderão tudo rapidamente, outros precisarão de explicação para entender e alguns não entenderão simplesmente porque não querem, o que não mudará nada.
—–
Revista IstoÉ
N° Edição:  1532 |  10 de fevereiro de1999
Ao mestre com carinho
Ligação com o especulador George Soros é virtude e defeito de Armínio Fraga, novo presidente do BC

ANDRÉ VIEIRA
Dinheiro em dobro. Foi o que garantiu Armínio Fraga Neto, o novo presidente do Banco Central (BC), aos investidores que lhe confiaram suas poupanças no final de 1992. Quem investiu a quantia de US$ 100 mil no fundo Quantum Emerging Growth – gerido por Fraga – colheu cerca de US$ 199 mil em dezembro, mesmo com a quebradeira generalizada dos países emergentes, como México, os Tigres Asiáticos e a Rússia neste período. O desempenho só não foi melhor porque o fundo perdeu 29,4% em 1998. Experiente operador, Fraga deveria causar uma sensação de bem-estar à frente da mesa de operações do BC, exceto por um detalhe. Quem irá preservar o valor da moeda mais derretida dos últimos tempos – o real –, afastando do Brasil os especuladores, tinha como patrão George Soros, ícone do capitalismo especulativo. “Ao indicar o senhor Armínio Fraga, funcionário e escudeiro de confiança de Soros, o governo pretende sinalizar com clareza: basta de intermediários, vamos logo colocar a raposa para tomar conta do galinheiro”, atacou a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Decidido a voltar ao Brasil apenas em julho, quando terminassem as férias de seus dois filhos, Fraga antecipou seu retorno devido aos incessantes pedidos da equipe econômica. A abrupta troca de comando gerou, além de críticas e vivas, muitos boatos e suspeitas. Afinal, ele se desligou do Soros Fund Management, a empresa do megaespeculador, em Nova York, na segunda-feira 1º para desembarcar no dia seguinte, já no Brasil, como chefe indicado do BC brasileiro. Deixou um salário de cerca de US$ 60 mil por mês em honorários para receber cerca de R$ 7 mil como funcionário do primeiro escalão do governo FHC. Na viagem de volta, veio acompanhado do economista Paulo Leme, executivo da Goldman Sachs, que acabou a semana convidado para uma das diretorias do Banco Central. Nestes dias de trocas de cadeiras, o mercado financeiro agitou-se bastante, com expressivos lucros dos fundos de investimentos (leia à pág. 26). No encontro anual de economistas na cidade de Davos, na Suíça, Soros deu uma lacônica resposta aos jornalistas: “Estou tão surpreso quanto vocês.” Horas depois, uma nota de seu fundo reiterou que o megaespeculador nada sabia antes da nomeação, embora fosse de seu conhecimento os vários contatos mantidos entre o governo brasileiro e o seu destacado funcionário.
Apesar da polêmica relação com Soros, Fraga é um daqueles garotos prodígios do mercado financeiro. Aos 34 anos, já tinha feito doutorado na Universidade de Princeton, trabalhado no Federal Reserve (Fed) e nos bancos Garantia e Salomon Brothers. Em 1991, comandou pela primeira vez uma das diretorias do Banco Central, quando sustentou uma política monetária austera, cujo resultado fez elevar as reservas internacionais de US$ 8 bilhões para US$ 25 bilhões, criando um colchão de liquidez para a criação do Plano Real. Saiu do BC com a queda de Collor. Mas o êxito da política monetária carimbou seu passaporte para Nova York a fim de seguir os passos de Soros, que começava a ganhar fama como o “homem que quebrou o Banco da Inglaterra”. Num dia conhecido como a “quarta-feira negra”, em setembro de 1992, o investidor havia apostado US$ 10 bilhões na desvalorização da libra esterlina. Com a moeda esvaindo nas mãos dos ingleses, Soros ganhou US$ 1 bilhão e obrigou a Grã-Bretanha a sair do Sistema Monetário Europeu (SME), que controla o regime de câmbios dos países da União Européia (UE).
Ações da Vale Antes disso, Soros já era um conhecido de Wall Street por fazer apostas arriscadas, inclusive em países em desenvolvimento. No Brasil, tornou-se o primeiro cliente estrangeiro do Banco Pactual em 1986, numa parceria que durou até a contratação de Fraga. Por intermédio do brasileiro, pôde comprar participações na Escelsa e na Vale do Rio Doce nos processos de privatização. No entanto, a maioria de seus investimentos concentra-se na área imobiliária, como shopping centers e empreendimentos construídos em parceria com a incorporadora paulista Cyrela, do empresário Elie Horn. Todos os negócios são feitos pela Brazil Realty, uma joint venture entre a Cyrela e a Irsa, holding argentina onde o megaespeculador possui importante participação. Na Argentina, Soros é dono de nove shoppings, alguns hotéis e vários escritórios comerciais. Na semana passada, adquiriu por US$ 152 milhões cerca de 15% das ações do Banco Hipotecario, a maior instituição de crédito imobiliário do país. Além disso, titula-se como o maior latifundiário da Argentina, com meio milhão de hectares de terras.
A trajetória de Soros repete a saga de um magnata em transformação, tal como um personagem de romance. Judeu húngaro nascido em 1930, foi obrigado a se esconder do nazismo durante a Segunda Guerra e abandonar seu país depois que os comunistas tomaram o poder em 1947 para estudar na Inglaterra. Em 1956, já nos Estados Unidos, trabalhou como operador em diversas corretoras de Wall Street, onde fundou em 1969 o fundo de investimentos Quantum. Como qualquer multimilionário, Soros poderia se aposentar apenas como um excêntrico filantropo, capaz de doar US$ 500 milhões à Rússia, ou como o mais famoso megaespeculador da história recente. Mas, aos 68 anos, assumiu o papel de um virulento crítico do capitalismo financeiro globalizado do qual é – ironicamente – um dos maiores expoentes e beneficiários. Boa parte de suas idéias estão no livro A crise do capitalismo, lançado no final do ano passado e que tem prefácio, no Brasil, do próprio Armínio Fraga. O guru ideológico de Soros é o filósofo austríaco Karl Popper, que defendia a idéia de uma sociedade aberta – politicamente democrática e economicamente orientada pelo mercado. Essa formação permitiu que criticasse a lógica do capital financeiro para preservar o sistema capitalista como um todo. Quando houve o ataque especulativo às moedas asiáticas em 1997, Soros foi bombardeado pelo primeiro-ministro da Malásia, Mahatir Mohamed, que o acusava de ser o responsável pela catástrofe financeira que se abatera sobre seu país. Em resposta, o investidor apontou os perigos do retrocesso do capitalismo, representado pelo controle de capitais imposto pelo governo malaio. “Uma coisa é certa: os mercados financeiros são propriamente instáveis; eles precisam supervisão e regulação”, escreveu Soros, num resumo de seu novo livro reproduzido na semana passada pela revista americana Newsweek. Uma boa recomendação para saber o que pode acontecer no BC brasileiro.
Colaboraram: Osmar Freitas Jr. (NY), Hélio Contreiras (RJ) e Isabela Abdala (DF)
A primeira suspeita
Uma possibilidade de que George Soros teria se aproveitado de informação exclusiva sobre a nomeação de seu ex-funcionário Armínio Fraga Neto para o BC já circulou pelo mercado financeiro internacional na semana passada. O principal indicativo de que algo estranho aconteceu foi a valorização dos C-Bonds, papéis da dívida externa brasileira, que pularam de US$ 56,563 para US$ 57,688 entre a segunda-feira 1º e a quarta-feira 3, data posterior à indicação. “Fundos de investimentos compraram pesadamente bônus brasileiros e reais pouco antes e durante o anúncio oficial de Fraga, apenas para se desfazerem das mesmas posições com lucro na própria terça-feira”, constatou Simon Treacher, diretor para mercados emergentes do banco Morgan Grenfell, de Londres. “Mas não há como provar que o dinheiro veio de Soros ou de outro investidor e que eles usaram informações confidenciais”, ressalva. Os ganhos fáceis teriam ocorrido porque era certo que o mercado receberia bem a nomeação de Fraga. O operador de um banco brasileiro lembra que a movimentação em torno dos títulos poderia ter influído inclusive na baixa da cotação do dólar, que chegou a R$ 1,75 na terça-feira, após o pico de R$ 2,15 da sexta-feira 29. “Os C-Bonds e o dólar estão interligados. Se os títulos valorizam, o dólar cai.”

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Por ser do PT, Palocci teria que dar consultoria de graça para empresários? Ou ser mal remunerado?

O Brasil é um país capitalista ainda e está longe de ser um país socialista. Se Palocci decidiu atuar para a iniciativa privada, não é nenhum absurdo que consiga também ter sucesso na empreitada. Foi bem mais difícil um médico sanitarista conseguir ser Ministro da Fazenda do Brasil, e mais difícil ainda ser bem aceito e se sair bem no cargo, a ponto de ser derrubado por adversário, não por fracassos no cargo, mas por seus méritos, para não nascer um novo líder forte no estado de São Paulo, o quartel general dos tucanos.

Quando todos os consultores da elite, "PhD's" de Harvard, de Oxford, da Sorbonne, apostavam que o primeiro governo Lula seria um fracasso (como De La Rua, na Argentina), Palocci estudou, se orientou e decidiu, junto ao então presidente Lula, rumos que deram bons resultados na economia.

Se Palocci resolveu ganhar dinheiro na iniciativa privada, quando estava no limbo político, o valor dele no mercado sempre teria que ser baixo? Ele não pode ser bem pago, porque foi ministro do governo Lula? Será que ser Ministro da Fazenda naquele primeiro governo Lula, quando recebeu o Brasil quebrado, e contribuiu para entregar saneado e com um novo rumo para a população mais pobre, não é uma experiência mais importante do que muitos executivos que dirigiram empresas? Quantos executivos conseguiram conquistar mercado para seus produtos, como o governo Lula conseguiu, ao incluir milhões de brasileiros com acesso ao mercado de consumo?

Palocci tem visão e conhecimento dos rumos do mercado interno e da economia brasileira, que muitos economistas e administradores da elite brasileira não tem. Por mais que tenham estudos especializados, seus conhecimentos são baseados no pensamento do século passado ou vindos do estrangeiro, voltados para 30% da população brasileira que tinha poder de compra. Estão tendo que se reciclarem diante da nova realidade. E gente como Palocci já sabe na prática e no planejamento, o que a antiga elite está tendo que aprender com a observação e estudo do que se passou e está se passando no Brasil.

Se uma empresa quer investir voltada para a classe emergente que subiu socialmente no governo Lula, é natural que procure a opinião de alguém como Palocci, para ajudar a fazer cenários futuros e avaliar perspectivas do tamanho do mercado interno nos próximos anos. Palocci tem conhecimento neste tipo de assunto. E consultoria deste tipo, para ajudar na tomada de decisão não tem nada de ilegal.

Só haveria ilegalidade se houvesse informação sigilosa privilegiada ou tráfico de influência. Mas então, é preciso fundamentar uma denúncia consistente, antes de sair acusando por aí. Porque isso, em tese, se for para fazer ilação, qualquer um poderia estar fazendo neste exato momento: Alckmin, Serra, Aécio, Anastasia, Beto Richa, Marconi Perillo, Gilmar Mendes, FHC, etc.

Só por ter feito sua carreira política toda no PT, não há razão para depreciar o valor do conhecimento adquirido por Palocci sobre a visão e perspectivas da economia brasileira, útil na tomada de decisão de empresários.

Oscar Niemeyer sempre foi ideologicamente comunista, mas sempre cobrou caro de empresários que quiseram seus projetos arquitetônicos. Por que ele deveria trabalhar barato para milionários? O mesmo vale para Palocci. Não tem sentido dar consultoria de graça para orientar empresários milionários no rumo dos negócios, e não tem sentido depreciar o valor do trabalho para quem possa pagar o que vale.

A menos que haja provas ou pelo menos algum fundamento robusto, acusem Palocci de ter deixado de ser trotskista e ter aderido à vida capitalista. Para muitos militantes esquerdistas esse é um "crime" maior do qualquer coisa. Porém é questão política. É disputa de esquerda x direita, e assim deve ser tratada.

Não faz sentido a esquerda entrar no jogo da oposição (incluindo a imprensa demo-tucana), de que petista não pode ganhar dinheiro de acordo com as regras legítimas do mundo dos negócios, senão é automaticamente culpado e taxado de corrupto.

É estupidez petistas abaixarem a cabeça para a imprensa corrupta, e se deixarem depreciar nas atividades privadas, desde que sejam honestas. Hoje atacam Palocci. Amanhã atacarão Lula pelo dinheiro que ganha honestamente em suas palestras. Qualquer um que tiver algum sucesso nos negócios privados lícitos e dentro da ética vigente poderá ser a próxima vítima, se for filiado ao PT, PCdoB, PDT, PSB ou outra legenda governista e de esquerda.

É óbvio que um PT só de gente com o perfil de Palocci o descaracterizaria como partido dos trabalhadores. Mas com um só Palocci não compromete a natureza do partido, e contribui para os pactos trabalhistas, onde se faz necessário conciliar o capital e o trabalho. Se o PT não tiver um Palocci dentro do governo, terá que ceder espaço para alguém com esse perfil, de outro partido de centro ou de direita.

Por fim, quem responde pela vida privada de Palocci é ele mesmo. Não deveria caber ficarmos defendendo politicamente assuntos que deveriam ter uma dimensão muito menor que está tendo. Mas cabe menos ainda a oposição ficar atacando sem um motivo real. Significa que o motivo real é outro: desgastar o governo, e fabricar crises políticas para atrapalhar Dilma trabalhar, e enfraquecer o partido de Dilma e de Lula. E aí que a discussão se torna política.

Se a oposição quiser atacar, que faça o dever de casa, e procure algum ilícito de verdade, em vez de ficar especulando para ver se dali sai alguma coisa.

Leia também no blog "Os amigos do Brasil":

- "Por enquanto, o máximo que se pode acusar Palocci é de praticar o capitalismo"

- Protógenes defende Palocci e sugere convocação de FHC e Serra para explicar ligações PSDB-Opportunity

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Bessinha flagrou Tony Palocci em ação



Saiu na Folha (*), pág. A7:

“Críticos minaram diplomacia comercial do Brasil com os EUA.”

“Estratégia do Itamaraty foi atacada em contatos com americanos … ”

“Defensores da ALCA acenaram aos EUA com a chance de reativar as negociações em 2005, quando o então Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, aproveitou um encontro de Lula com o Secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, para debater a idéia.”

“Segundo os americanos, (Tony – PHA) Palocci ‘se ofereceu (sic) para liderar (sic) um esforço para dar novo impulso às negociações’ e levar (sic) o Itamaraty a ‘uma postura mais proativa (sic)’. Lula ‘desconversou’, indicando que não tinha interesse.”

Navalha
Quer dizer, então, que, depois do Nelson Johnbim, temos agora o ministro Tony Palocci.
Dois que espinafram a política externa brasileira para autoridades americanas.
Papelão, hein ?
Como o Celso Amorim deve ter sofrido, nas mãos do Tony e do Johnbim.
A ALCA, como se sabe, foi uma tentativa americana de unir as Américas, sob a liderança americana.
Era a criação de um Commonwealth do Império Americano.
A tentativa começou com Bush, o pai, tomou outro formato com Clinton, e Bush, o filho, tentou ressuscitá-la.
O principal objetivo sempre foi botar o Brasil – o maior país da América Latina – debaixo do guarda-chuva americano.
Outro grande da America Latina, o México, já estava devidamente abrigado sob o guarda-chuva do Nafta.
E deu no que deu.
O PiG (**) e a elite branca se excitaram com a idéia de aderir à ALCA e oficializar a volta à condição de colônia com que sempre sonharam.
Lula resistiu.
Celso Amorim comeu o pão que o diabo amassou nos editoriais coloniais do Estadão.
O que não se sabia é que Tony trabalhava nos bastidores.



Em tempo: como sempre, a Folha (*) errou na hora de fazer o título. Quando deu a notícia de que o Johnbim foi ao embaixador americano para solapar a política externa do Governo a que servia, o título da Folha (*) era outro. Escondia a infidelidade do ministro serrista. Agora, para proteger Tony Palocci – quindim de Iaiá do PiG (**) – fez o mesmo. Deu a proteção dos últimos parágrafos da matéria.


Paulo Henrique Amorim