Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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domingo, 8 de maio de 2011

Carta de um Nobel da Paz a Barack Obama



Quando te outorgaram o Prêmio Nobel da Paz, do qual somos depositários, te enviei uma carta que dizia: “Barack, me surpreendeu muito que tenham te outorgado o Nobel da Paz, mas agora que o recebeu deve colocá-lo a serviço da paz entre os povos; tens toda a possibilidade de fazê-lo, de terminar as guerras e começar a reverter a situação que viveu teu país e o mundo”. No entanto, ao invés disso, você incrementou o ódio e traiu os princípios assumidos na campanha eleitoral frente ao teu povo, como terminar com as guerras no Afeganistão e no Iraque e fechar as prisões em Guantánamo e Abu Graib no Iraque. O artigo é de Adolfo Pérez Esquivel.

Estimado Barack, ao dirigir-te esta carta o faço fraternalmente para, ao mesmo tempo, expressar-te a preocupação e indignação de ver como a destruição e a morte semeada em vários países, em nome da “liberdade e da democracia”, duas palavras prostituídas e esvaziadas de conteúdo, termina justificando o assassinato e é festejada como se tratasse de um acontecimento desportivo.

Indignação pela atitude de setores da população dos Estados Unidos, de chefes de Estado europeus e de outros países que saíram a apoiar o assassinato de Bin Laden, ordenado por teu governo e tua complacência em nome de uma suposta justiça. Não procuraram detê-lo e julgá-lo pelos crimes supostamente cometidos, o que gera maior dúvida: o objetivo foi assassiná-lo.

Os mortos não falam e o medo do justiçado, que poderia dizer coisas inconvenientes para os EUA, resultou no assassinato e na tentativa de assegurar que “morto o cão, terminou a raiva”, sem levar em conta que não fazem outra coisa que incrementá-la.

Quando te outorgaram o Prêmio Nobel da Paz, do qual somos depositários, te enviei uma carta que dizia: “Barack, me surpreendeu muito que tenham te outorgado o Nobel da Paz, mas agora que o recebeu deve colocá-lo a serviço da paz entre os povos; tens toda a possibilidade de fazê-lo, de terminar as guerras e começar a reverter a situação que viveu teu país e o mundo”.

No entanto, ao invés disso, você incrementou o ódio e traiu os princípios assumidos na campanha eleitoral frente ao teu povo, como terminar com as guerras no Afeganistão e no Iraque e fechar as prisões em Guantánamo e Abu Graib no Iraque. Não fez nada disso. Pelo contrário, decidiu começar outra guerra contra a Líbia, apoiada pela OTAM e por uma vergonhosa resolução das Nações Unidas. Esse alto organismo, apequenado e sem pensamento próprio, perdeu o rumo e está submetido às veleidades e interesses das potências dominantes.

A base fundacional da ONU é a defesa e promoção da paz e da dignidade entre os povos. Seu preâmbulo diz: “Nós os povos do mundo...”, hoje ausentes deste alto organismo.

Quero recordar um místico e mestre que tem uma grande influência em minha vida, o monge trapense da Abadia de Getsemani, em Kentucky, Tomás Merton, que diz: “a maior necessidade de nosso tempo é limpar a enorme massa de lixo mental e emocional que entope nossas mentes e converte toda vida política e social em uma enfermidade de massas. Sem essa limpeza doméstica não podemos começar a ver. E se não vemos não podemos pensar”.

Você era muito jovem, Barack, durante a guerra do Vietnã e talvez não lembre a luta do povo norteamericano para opor-se à guerra. Os mortos, feridos e mutilados no Vietnã até o dia de hoje sofrem as consequências dessa guerra.

Tomás Merton dizia, frente a um carimbo do Correio que acabava de chegar, “The U.S. Army, key to Peace” (O Exército dos EUA, chave da paz): “Nenhum exército é chave da paz. Nenhuma nação tem a chave de nada que não seja a guerra. O poder não tem nada a ver com paz. Quanto mais os homens aumentam o poder militar, mais violam e destroem a paz”.
Acompanhei e compartilhei com os veteranos da guerra do Vietnã, em particular Brian Wilson e seus companheiros que foram vítimas dessa guerra e de todas as guerras.

A vida tem esse não sei o quê do imprevisto e surpreendente fragrância e beleza que Deus nos deu para toda a humanidade e que devemos proteger para deixar às gerações futuras uma vida mais justa e fraterna, reestabelecendo o equilíbrio com a Mãe Terra.

Se não reagirmos para mudar a situação atual de soberba suicida que está arrastando os povos a abismos profundos onde morre a esperança, será difícil sair e ver a luz; a humanidade merece um destino melhor. Você sabe que a esperança é como o lótus que cresce no barro e floresce em todo seu esplendor mostrando sua beleza.

Leopoldo Marechal, esse grande escritor argentino, dizia que: “do labirinto, se sai por cima”.

E creio, Barack, que depois de seguir tua rota errando caminhos, você se encontra em um labirinto sem poder encontrar a saída e te enterra cada vez mais na violência, na incerteza, devorado pelo poder da dominação, arrastado pelas grandes corporações, pelo complexo industrial militar, e acredita ter todo o poder e que o mundo está aos pés dos EUA porque impõem a força das armas e invade países com total impunidade. É uma realidade dolorosa, mas também existe a resistência dos povos que não claudicam frente aos poderosos.

As atrocidades cometidas por teu país no mundo são tão grandes que dariam assunto para muita conversa. Isso é um desafio para os historiadores que deverão investigar e saber dos comportamentos, políticas, grandezas e mesquinharias que levaram os EUA á monocultura das mentes que não permite ver outras realidades.

A Bin Laden, suposto autor ideológico do ataque às torres gêmeas, o identificam como o Satã encarnado que aterrorizava o mundo e a propaganda do teu governo o apontava como “o eixo do mal”. Isso serviu de pretexto para declarar as guerras desejadas que o complexo industrial militar necessitava para vender seus produtos de morte.

Você sabe que investigadores do trágico 11 de setembro assinalam que o atentado teve muito de “auto golpe”, como o avião contra o Pentágono e o esvaziamento prévios de escritórios das torres; atentado que deu motivo para desatar a guerra contra o Iraque e o Afeganistão, argumentando com a mentira e a soberba do poder que estão fazendo isso para salvar o povo, em nome da “liberdade e defesa da democracia”, com o cinismo de dizer que a morte de mulheres e crianças são “danos colaterais”. Vivi isso no Iraque, em Bagdá, com os bombardeios na cidade, no hospital pediátrico e no refúgio de crianças que foram vítimas desses “danos colaterais”.

A palavra é esvaziada de valores e conteúdo, razão pela qual chamas o assassinato de “morte” e que, por fim, os EUA “mataram” Bin Laden. Não trato de justificá-lo sob nenhum conceito, sou contra todas as formas de terrorismo, desde a praticada por esses grupos armados até o terrorismo de Estado que o teu país exerce em diversas partes do mundo apoiando ditadores, impondo bases militares e intervenção armada, exercendo a violência para manter-se pelo terror no eixo do poder mundial. Há um só eixo do mal? Como o chamarias?

Será que é por esse motivo que o povo dos EUA vive com tanto medo de represálias daqueles que chamam de “eixo do mal”? É simplismo e hipocrisia querer justificar o injustificável.

A Paz é uma dinâmica de vida nas relações entre as pessoas e os povos; é um desafio à consciência da humanidade, seu caminho é trabalhoso, cotidiano e portador de esperança, onde os povos são construtores de sua própria vida e de sua própria história. A Paz não é dada de presente, ela se constrói e isso é o que te falta meu caro, coragem para assumir a responsabilidade histórica com teu povo e a humanidade.

Não podes viver no labirinto do medo e da dominação daqueles que governam os EUA, desconhecendo os tratados internacionais, os pactos e protocolos, de governos que assinam, mas não ratificam nada e não cumprem nenhum dos acordos, mas pretendem falar em nome da liberdade e do direito. Como pode falar de Paz se não quer assumir nenhum compromisso, a não ser com os interesses de teu país?

Como pode falar da liberdade quanto tem na prisão pessoas inocentes em Guantánamo, nos EUA e nas prisões do Iraque, como a de Abu Graib e do Afeganistão?

Como pode falar de direitos humanos e da dignidade dos povos quando viola ambos permanentemente e bloqueia quem não compartilha tua ideologia, obrigando-o a suportar teus abusos?

Como pode enviar forças militares ao Haiti, depois do terremoto devastador, e não ajuda humanitária a esse povo sofrido?

Como pode falar de liberdade quando massacra povos no Oriente Médio e propaga guerras e tortura, em conflitos intermináveis que sangram palestinos e israelenses?

Barack, olha para cima de teu labirinto e poderá encontrar a estrela para te guiar, ainda que saiba que nunca poderá alcançá-la, como bem diz Eduardo Galeano. Busca a coerência entre o que diz e faz, essa é a única forma de não perder o rumo. É um desafio da vida.

O Nobel da Paz é um instrumento ao serviço dos povos, nunca para a vaidade pessoal.

Te desejo muita força e esperança e esperamos que tenha a coragem de corrigir o caminho e encontrar a sabedoria da Paz.

Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz 1980.
Buenos Aires, 5 de maio de 2011

charge on line do Bessinha


As 10 transnacionais secretas que controlam as matérias primas


Como é possível que no século 21 ainda existam empresas "secretas" e/ou piratas, que se dão ao luxo de não ter ações nas bolsas de valores, mas que gozam de todas as vantagens do "livre mercado", incluindo operações suspeitas em paraísos fiscais. Pode manter-se "secreta" a atividade dessas dez transnacionais "gigantes" que controlam os alimentos e a energia, usados como "armas de destruição maciça" contra a maioria do gênero humano? O jornal The Daily Telegraph revelou a identidade oculta das principais 10 transacionadoras globais de petróleo e matérias primas. O artigo é de Alfredo Jalife-Rahme.

Antecedentes: Zheng Fengtian, professor da Escola de Economia Agrária da Universidade Renmin, na China (Global Times, 13/4/11), fustiga "o monopólio dos cereais que o Ocidente exerce" e a "manipulação deliberada dos preços pelos especuladores internacionais" graças à desregulação de que gozam em Wall Street e na City, assim como nos paraísos fiscais (nomeadamente a Suíça): "não podemos depender apenas dos Estados Unidos (EUA) para resolver a crise alimentar global" nem das "quatro (sic) gigantes (sic) transnacionais".

Não especifica quais, mas os leitores podem consultar os meus artigos sobre o "cartel anglo-saxão da guerra alimentar" e o seu "meganegócio" (Radar Geopolítico; Contralínea, 30/1/11). Fengtian adota a velha tese deBajo la Lupa sobre a "guerra alimentar" que trava Washington para submeter o mundo: "no passado (sic), os EUA aproveitaram as vantagens do seu papel dominante no mercado global de alimentos para adotá-los como arma (¡supersic!) política".

Atos: O mundo anglo-saxão cacareja vaziamente sobre a transparência e a prestação de contas, enquanto oculta simultaneamente as suas "10 gigantes (sic) transnacionais secretas (¡supersic!)" que "controlam a comercialização dos hidrocarbonetos e das matérias primas", segundo The Daily Telegraph (15/4/11). Como se não bastassem as depredadoras transnacionais (BP, Tepco, Schlumberger/Transocean, etc.) que estabelecem suas cotações desapiedadamente na bolsa!

Para além dos tenebrosos grupos da plutocracia – como o grupo texano Carlyle (ligado ao nepotismo dos Bush) e o inimputável Blackstone Group (controlado por Peter G. Petersen e Stephen A. Schwarzman, cujas façanhas remontam ao macabro recebimento dos seguros das Torres Gémeas do 11/9) – The Daily Telegraph revela a identidade oculta das "principais 10 transacionadoras globais de petróleo e matérias primas":

1. Vitol Group: sede em Genebra e Roterdan, com resultados de 195 mil milhões de dólares na comercialização de hidrocarbonetos; a primeira petrolífera a exportar com pontualidade da região controlada pelos rebeldes na Líbia.

2. Glencore Intl.: sede em Baar (Suíça), com resultados por 145 bilhões de dólares em metais, minerais, produtos agrícolas e de energia; fundada pelo israelo-belga-espanhol Marc Rich; acusada pela CIA (¡supersic!) de subornar governantes; controla 34 por cento da mineira global suíço-britânica Xstrata; apostou na subida do trigo durante a seca russa (The Financial Times, 24/4/11); o banqueiro Nat Rothschild "recomendou" o seu polêmico novo director Simon Murray (The Daily Telegraph, 23/4/11); destaca a circularidade financeira do binômio Rotshchild-Rich.

3. Cargill: sede em Minneapolis, Minnesota, com resultados por 108 bilhões de dólares em agronegócios, carnes, biocombustíveis, aço e sal; severamente criticada pela desflorestação, contaminação de todo o gênero (incluindo a alimentar) e abusos contra os direitos humanos.

4. Koch Industries: sede em Wichita, Kansas, com resultados por 100 bilhões de dólares em refinação e transporte de petróleo, petroquímicos, papel, etc.; empresa familiar (a segunda mais importante nos EUA depois da Cargill) manejada pelos irmãos ultraconservadores David e Charles Koch, que financiam o Tea Party.

5. Trafigura: sede em Genebra, com resultados por 79,200 bilhões de dólares em petróleo cru, comercialização de metais; depredadora tóxica em África; provém da separação de várias empresas do israelo-belga-espanhol Marc Rich.

6. Gunvor Intl.: sede em Amsterdã e Genebra, com resultados por 65 bilhões de dólares em petróleo, eletricidade e carvão.

7. Archer Daniels Midland Co.: sede em Decatur, Illinois, com resultados por 62 bilhões de dólares em milho, trigo, cacau; listada na Bolsa de Nova Iorque; atuação escandalosa e processada por contaminação reiterada; beneficiou com os subsídios agrícolas do governo dos EUA.

8. Noble Group: sede em Hong Kong, com resultados por 56 700 bilhões de dólares em açúcar brasileiro e carvão australiano; sólidos laços com a HSBC e a polêmica empresa contabilística Pricewaterhouse Coopers; cotada no Índice Strait Times (Singapura).

9. Mercuria Energy Group: sede em Genebra, com resultados de 46 bilhões de dólares em petróleo e gás.

10. Bunge: sede em White Plains, Nova Iorque, com resultados de 45,7 bilhões de dólares em cereais, soja, açúcar, etanol e fertilizantes; multada nos EUA por emissões contaminantes.

The Daily Telegraph adiciona surpreendentemente como "menção especial" a Phibro, hoje subsidiária da Occidental Petroleum Corporation (Oxy): sede em Westport (Connecticut), com 10 por cento dos resultados do banco Citigroup em 2007 em petróleo, gás, metais e cereais, onde iniciou a sua "aprendizagem" o israelo-belga-espanhol Marc Rich.

Das 11 transnacionais piratas, cinco pertencem aos EUA, três à Suíça (notável paraíso fiscal bancário), duas são suíço-holandesas e uma é de Hong Kong (ligada à Grã-Bretanha). Se as 11 fossem cotadas na bolsa colocar-se-iam da posição sete até à 156 na classificação da Fortune Global 500. Sem penetrar na genealogia dos seus testa-de-ferro e verdadeiros donos, destaca-se a nefasta sombra do israelo-belga-espanhol Marc Rich em três empresas piratas: Glencore Intl., Trafigura e Phibro.

O israelo-belga-espanhol Marc Rich merece uma menção honrosa e com uma biografia mafiosa revela quiçá uma das razões do hermetismo das "gigantes" transnacionais que não estão cotadas nas bolsas e que movimentam nocivamente verdadeiras fortunas sem o menor escrutínio governamental ou cidadão. Será mera causalidade que Rich apareça em três das "secretas" 11 empresas "gigantes" que especulam na penumbra com os preços dos alimentos, hidrocarbonetos e metais?

Marc Rich, perseguido por evasão fiscal nos EUA (logo perdoado, polemicamente, por Clinton), foi denunciado como "espião da Mossad israelense" (Niles Latham, New York Post, 5/2/01) e "lavador de dinheiro" das mafias (The Washington Times, 21/6/02).

O investigador William Engdahl expôs há 15 anos "a rede financeira secreta (¡supersic!)" por trás dos banqueiros escravagistas Rothschild, o megaespeculador "filantropo" George Soros e Marc Rich. Cada vez se afirma mais o papel determinante de Israel na lavagem de dinheiro global (ver Bajo la Lupa, 20/4/11).

Conclusão: Como pode uma transnacional "gigante" passar sem ser detectada na época da antiterrorista "segurança interna"? Será possível que no século 21 ainda existam empresas "secretas" e/ou piratas, que se dão ao luxo de não se cotar nas bolsas, mas que gozam de todas as vantagens do "livre mercado", incluindo operações suspeitas em paraísos fiscais.

São "gigantes secretos" e/ou "clandestinos" tolerados pelo sistema anglo-saxão e seus mafiosos paraísos fiscais? Pode manter-se "secreta" a atividade dessas transnacionais "gigantes" que controlam os alimentos e a energia, usados como "armas de destruição maciça" contra a maioria do gênero humano?

(*) Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

A guerra fria, que não parou nas revistas e virou TV



A repórter Marcelle Ribeiro publica uma pérola de matéria hoje, em O Globo, que faço questão de reproduzir, na íntegra, com meus sinceros aplausos.  É o retrato da batalha pelos nossos “Corações e Mentes”, como dizia o clássico documentário sobre a Guerra do Vietnã. A revista americana Life -  do famoso gruto Time-Life- fazia matérias alardeando a pobreza brasileira, pelo nada nobre motivo de desqualificar o país e se contrapor à ascensão da esquerda nacionalista brasileira. E a resposta, na bucha, dos Diários Associados, que editavam a publicação de maior circulação no país, O Cruzeiro.
A matéria só tem uma omissão, importantíssima mas compreensível, pelo fato de a repórter trabalhar onde trabalha. É não dizer que o grupo Time-Life, de tão preocupado que era com o controle ideológico do Brasil ter se associado a Roberto Marinho para erguer a Rede Globo de Televisão, que cumpriu – e cumpre – muito melhor este papel do que qualquer outro veículo de comunicação jamais fez.

Em plena Guerra Fria, disputa entre revistas ‘Life’ e ‘O Cruzeiro’ evidenciava preocupação dos EUA com avanço da esquerda no Brasil

SÃO PAULO – Uma grande revista americana expõe, em fotos que ficaram famosas mundo afora, a miséria numa favela carioca. Para dar uma resposta ao “imperialismo americano”, uma das maiores revistas brasileiras revida, com uma reportagem mostrando a pobreza de uma família num cortiço de Nova York. Foi o ponto de partida, em plena Guerra Fria, para um debate ideológico, social – com direito a arrecadação de fundos nos EUA – e de ética no jornalismo.
O ano era 1961, e os EUA nutriam preocupação crescente com o avanço da esquerda na América Latina. A Casa Branca temia que o governo de João Goulart transformasse o Brasil em uma nova Cuba. E os brasileiros, incomodados com a ingerência americana na política nacional, desejavam mostrar que a pobreza não era exclusividade daqui, aconselhando os vizinhos do norte a olharem para o próprio quintal.
Essa história, que teve como protagonistas as revistas “Life” e “O Cruzeiro”, é relembrada por uma nova pesquisa de Fernando de Tacca, professor do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação da Unicamp, que ganhou com ela o Prêmio Marc Ferrez de Fotografia/Funarte, no ano passado.
Tacca analisou a reportagem da “Life” que traz uma imagem do carioca Flávio da Silva, 12 anos na época, alçado à fama ao ser fotografado doente e deitado numa cama na Favela da Catacumba, na Lagoa. Ele estudou, também, o revide de “O Cruzeiro”, a melhor revista brasileira da época, que publicou pouco depois a manchete “Repórter Henri Ballot descobre em Nova York um novo recorde norte-americano: MISÉRIA”.
Flávio, símbolo da pobreza
Com o título “Uma família castigada numa favela do Rio. O temível inimigo da liberdade: pobreza”, a “Life” de 16 de junho de 1961 apresentou ao mundo a história da família de José Manuel da Silva e Nair Germana da Silva. Com oito filhos, o casal morava na comunidade da Catacumba, que, após a remoção dos seus cerca de 10 mil habitantes nos anos 70, deu lugar ao Parque da Catacumba.
Acompanhado do jornalista brasileiro José Gallo, o fotógrafo americano Gordon Parks passou dias observando a vida da família de retirantes nordestinos. Focou o seu olhar no menino Flávio, de 12 anos, que, mesmo asmático, cuidava dos irmãos menores e das tarefas domésticas.
Na reportagem, os Silva são apresentados como um exemplo de pobreza que pode ser encontrada também em Venezuela, Chile, Bolívia e Equador e que implica “perigo acentuado”. “Na maior parte aglomerados em bolsões (…), largamente distribuídos nos morros das cidades, onde a abundante pobreza se torna campo fértil para a exploração política comunista e castrista”, disse a revista.
A reportagem sobre o Brasil foi a segunda de uma série de “Life” sobre a América Latina. A primeira tratava da ascensão de Fidel Castro em Cuba, com analogia às Ligas Camponesas brasileiras, lideradas pelo então líder comunista Francisco Julião – que, do fim dos anos 50 ao golpe militar de 1964, tentou implantar a reforma agrária no país, para temor dos americanos. A terceira reportagem abordou a Bolívia.
- O objetivo ideológico da “Life” era alertar para o avanço dos movimentos populares na América Latina e sua influência no sucesso da Revolução Cubana – explica Tacca.
O pesquisador ressalta, também, a relação da reportagem com o acordo conhecido como Aliança para o Progresso, tema de uma reunião dois meses antes. Idealizada pelos EUA, e tendo como pano de fundo a Guerra Fria, a Aliança previa investimentos na América Latina para promover o desenvolvimento regional, tentando conter o avanço do comunismo e a influência de Fidel Castro no continente.
Tacca explica que, para a “Life” e o governo americano, a pobreza era o berço preferido da temida proliferação da ideologia esquerdista. A reportagem sobre a Catacumba foi publicada numa época em que a política externa brasileira preocupava os EUA, com os presidentes Jânio Quadros e João Goulart – este último, derrubado pelos militares – simpáticos a uma aproximação com países comunistas.
A reportagem de “Life”, publicada também na edição em espanhol, comoveu os americanos, sensibilizados com a imagem do menino Flávio. Sua fotografia foi publicada ao lado de outra, em que o corpo de uma suposta vizinha do garoto jaz num caixão.
A revista organizou uma arrecadação de dinheiro nos EUA para ajudar a criança, levada àquele país para fazer tratamento. A família do garoto ganhou uma casa própria e mobiliada, fato noticiado por grandes jornais brasileiros da época. A “Life” fez nova reportagem sobre a recuperação de Flávio, que apareceu sorridente na capa da edição de 21 de julho de 1961, e a nova vida de sua família.
A "vingança" de O Cruzeiro": fotos da miséria em Porto Rio.
Mas a denúncia da miséria no Rio mexeu com “O Cruzeiro”. A revista enviou o fotógrafo Henri Ballot para Nova York, com a missão de mostrar que também havia miséria nos Estados Unidos. Na cidade, a publicação mostrou, em fotos com ângulos semelhantes aos usados pela reportagem da “Life”, a vida de uma família portorriquenha num cortiço sujo e infestado por insetos e ratos. “A miséria não é exclusividade nossa”, dizia o texto de 7 de outubro de 1961.
Como a rival americana, “O Cruzeiro” destacou a vida de um dos filhos da família, Ely-Samuel Gonzalez, de 8 anos. “O seu corpo magro de subnutrido é coberto de feridas, roído por baratas que invadem sua cama cada noite”, escreveu, destacando uma fotografia em que o garoto aparecia deitado coberto de baratas, em alusão à imagem de Flávio da Silva na “Life”.
A reação de “O Cruzeiro” gerou um debate sobre a ética do fotojornalismo. A revista “Time” publicou, poucos dias após a edição brasileira, reportagem questionando a postura do fotógrafo brasileiro Henri Ballot. Ele foi acusado de ter montado a foto em que Ely-Samuel aparece dormindo com baratas no cortiço em Nova York.
A “Time” relatou o polêmico embate entre “Life” e “O Cruzeiro” em reportagem com o título “A imprensa: vingança carioca”.
“O fato é que a fotografia mais comovente de Ballot – a de Ely-Samuel, frágil filho de 8 anos de Gonzalez, dormindo num colchão imundo e com aparentes baratas em seu corpo – fora posada. O fotógrafo capturou e distribuiu baratas com esse objetivo”, denunciou a “Time”, que enviou repórteres para conversar com a família portorriquenha retratada por Ballot.
A revista “O Cruzeiro” não contra-atacou a reportagem da “Time”. “O que, de certa forma, é uma aceitação da versão americana”, escreve Tacca na pesquisa.
Após fazer as polêmicas imagens sobre a miséria americana e ter sua ética questionada pela “Time”, Ballot foi proibido de voltar aos EUA, num momento de acirramento da Guerra Fria.”
As balas e as baratas, a rigor, se existiram, têm pouca importância. Havia muito mais que ética jornalistica em disputa ali, como os anos seguintes iam mostrar com o apoio à criação de um monopólio de mídia no Brasil.

sábado, 7 de maio de 2011

O massacre continuado da CBN Manaus contra a médica


Enviado por luisnassif

Do blog O Caso de Bianca Abinader

Um diretor com vergonha do próprio filme 

No último dia 26 de abril, a médica Bianca Abinader protocolou um mandado de segurança junto ao Tribunal de Justiça do Amazonas, alegando que não tinha condições de trabalho até que fosse reconsiderado seu pedido de licença não remunerada de 2 anos. Dias antes, a Prefeitura negara o pedido, alegando que servidores em processo de sindicância não podiam entrar em licença.
Não existe, no Estatuto Municipal do Servidor Público, nada que impeça um servidor de pedir licença, especialmente não remunerada. Bianca alegava que, depois de sucessivos ataques nas diversas unidades de saúde por onde passou desde janeiro de 2010, não tinha mais condições de trabalhar em paz. Os ataques e invasões, cometidos pelo radialista Ronaldo Tiradentes, já afetavam o trabalho diário da médica e de seus colegas, além do atendimento aos pacientes.
O mandado de segurança de Bianca foi impetrado durante o plantão judicial. O magistrado plantonista negou o recebimento, e o mandado chegou um dia depois (quarta, 27) às mãos de uma juíza. No dia seguinte, quinta, o advogado de Bianca procurou a vara de Justiça pra saber se já havia uma decisão da juíza. E viu, na chegada ao juizado, ninguém menos que o radialista Ronaldo Tiradentes em pessoa saindo do local. Testemunhas confirmaram a presença do radialista. Ao procurar informações sobre uma possível decisão, o advogado recebeu a informação de que a magistrada acabara de se declarar incompetente para julgar a ação, alegando foro íntimo.
O mandado foi então encaminhado para a juíza substituta, que está em férias. Durante todo esse processo burocrático, Bianca precisou trabalhar normalmente na UBS Amazonas Palhano, no São José, sem condições psicológicas, com medo de ser atacada a qualquer momento. Seu advogado pediu novamente que o mandado fosse julgado durante o plantão, e o pedido foi novamente negado, pois o juiz entendeu que não havia urgência na questão. Mas deferiu o pedido para que o mandado fosse redistribuído, em vez de obrigar Bianca a esperar pelo retorno da juíza em férias.
Como vem fazendo desde que recebeu advertência oficial e por escrito do Conselho de Ética da Rede CBN nacional, Ronaldo deixou de falar sobre Bianca no ar durante seu programa diário de opinião, com 1,5 hora de duração. Criou uma conta no Twitter e ali vem divulgando, em primeira mão, decisões internas tomadas por seus amigos, Francisco Deodato e Orestes Guimarães, antes mesmo das publicações oficiais. É ali também que Ronaldo vem anunciando a manipulação que estaria ocorrendo: "PRONTO! O TRIANGULO DUPLO MORTAL JÁ ESTÁ ENCAIXADO. PODE ESTRIBUCHAR, GEMER, GRITAR E BATER. CAIO NUNES SÓ LARGA QUANDO NOCAUTEAR."
Ou assim "O DIÁRIO OFICIAL DE HJ TRÁS MÁS NOTÍCIAS PARA QUEM NÃO GOSTA DE TRABALHAR. ESTÁ ABERTO O PROCESSO DE DEMISSÃO."
A mensagem acima é de 1h46 da tarde do dia 28 de abril. Somente seis horas e meia depois, às 20h15, o Diário Oficial do Município publicava a portaria 255/2011, assinada pelo secretário Francisco Deodato, determinando a instauração de Processo Administrativo Disciplinar contra Bianca. O motivo não era assiduidade ou "não gostar de trabalhar". Na portaria, Deodato afirmava: "posto que [Bianca] incorreu a infração disciplinar de referir-se de modo depreciativo, às atividades e atos da administração pública". Confira na imagem abaixo. 

O que é mais grave? Que depois de um ano e meio sendo acusada de faltar ao trabalho, denúncia nunca comprovada, Bianca passe repentinamente a ser acusada de falar mal de atos da Prefeitura? Ou que o secretário, ao instaurar o processo, já dê um veredito e indique que houve a infração?
Ao contrário do que afirma Ronaldo Tiradentes, não há provas das faltas, do uso da internet nem dos atrasos da médica. Ao contrário do que afirma seu amigo, Francisco Deodato, também não há provas da “infração disciplinar” de Bianca.
Há, pelo contrário, fartas provas a favor de Bianca. Uma delas é o vídeo gravado pelo próprio Ronaldo no dia 15 de março, às 12h10. Naquele dia, o radialista invadiu a UBS Amazonas Palhano no turno da tarde, à procura de Bianca, que trabalha pela manhã. Invadiu o refeitório e foi desmentido pela diretora do posto, Eurinete Santana. Foi ao guichê de atendimento e foi desmentido pelos atendentes. Tentou encontrar pacientes não atendidos por Bianca, mas não os achou.
Desorientado, vagou pelo salão de espera à procura de uma brecha para acusar a médica. Na falta dessa brecha, apontou sua câmera para o Termo de Exclusão de Bianca do programa Saúde da Família, solicitado e assinado pela médica no dia 7 de fevereiro. O documento, que continha um erro (informava que a carga de Bianca era de 6 horas diárias em vez de 4) foi corrigido no mesmo dia. Ou Ronaldo não recebeu esse documento, ou recebeu e guardou, como fez com o relatório da sindicância de 2010.
Os dois documentos estão à disposição no site O Caso Bianca Abinader: o termo errado e o termo corrigido, ambos publicados na mesma data. Não existe médico com carga de 6 horas diárias em todo o quadro da Prefeitura de Manaus. A prova é outro documento, o de relotação da médica justamente para aquela UBS, a Amazonas Palhano, onde se lê que a carga horária é de 20 horas semanais. Como todos os outros documentos que provam a fraude das acusações, este também está aqui. Veja na imagem abaixo.

Mas a prova mais forte da acusação falsa é justamente a atitude de Ronaldo Tiradentes, ao esconder o próprio filme. Depois de invadir a UBS e filmar sua ação desesperada, o radialista correu pro Twitter e anunciou que, naquele mesmo dia, publicaria o vídeo no site da rádio CBN. No microblog, Ronaldo disse, entre 12h56 e 13h03:
  1. “@ismaelbneto VOCÊ SABE ME DIZER ONDE ESTÁ SUA AMIGA BIANCA ABINADER. FIU FAZER UMA CONSULTA NO AMAZONAS PALHANO HOJE. NÃO ENCONTREI A DRA.”
  2. “CONTINUA GAZETANDO O TRABALHO? FUI FAZER UMA CONSULTA HOJE E NÃO TE ENCONTREI. O QUE EU DEVO FAZER?”
  3. “@biabinader SEU CONTRATO DE TRABALHO É DE 6 HS E 10 MINUTOS DIA, MAS VOCÊ SÓ APARECE DE 8 AS 11 HS. PORQUE?”
  4. “PRECISAMOS CORTAR NO MEIO O SEU SALÁRIO. VC SÓ ESTÁ TRABALHANDO A METADE DO CONTRATO. E AGORA @biabinader ?”
  5. “FALEI PARA VOCÊ NÃO ENCHER O SACO DO CAIO NUNES, VC NÃO OUVIU. MAIS TARDE VC ESTARÁ NO YOUTUBE.”
  6. “SE ENCHER MAIS O SACO, AMANHÃ ESTARÁ NA CBN E NOS BLOGS. CAIO NUNES VAI MANDAR DEIXAR AMANHÃ A CÓPIA DA GRAVAÇÃO.”
  7. “TENHO TUDO FILMADO. SUA ENTRADA DEPOIS DAS 8 E A SAIDA UM POUQUINHO ANTES DAS 11.”
  8. “@biabinader CUIDADO, O ROLO COMPRESSOR PODE TE ESMAGAR. NÃO ME OBRIGUE A FICAR ANDANDO ATRÁS DE VC. SAUDAÇÕES”
A mentira não resiste sequer à filmadora do próprio Ronaldo Tiradentes. Sabedor de que não encontraria Bianca no turno da tarde, Ronaldo foi à UBS para montar um flagrante falso. Não filmou a chegada nem a saída da médica. Ao contrário do que ouviu dos funcionários no próprio vídeo, disse que Bianca chegou depois das 8h e saiu antes das 11h. Depois de zanzar perdido em busca de um mísero depoimento que lhe ajudasse, filmou uma sala de espera cheia de pacientes à espera de outros médicos, e tentou fazer com que as imagens comprometessem alguém que saíra dali uma hora antes.
Repare no filme que Ronaldo gravou e mandou para Deodato. A 2 minutos e 47 segundos do início, há um corte sem explicações. Depois disso, Ronaldo pergunta a Dona Eurinete:“A… senhora… tem controle de ponto aí? Dos médicos? Hum?” Com a boca cheia de comida, a diretora da UBS Amazonas Palhano assente com a cabeça: sim. Esse é o momento da verdade, é a hora em que Ronaldo pode comprovar, com um documento oficial oferecido pela diretoria da UBS, os crimes da médica.
E o que o acusador faz? “Ok, tá bom, brigado… Tchau!”, e vira as costas. Permanece sem explicação até hoje, na SEMSA, por que Ronaldo virou as costas para o que seria a prova cabal de suas denúncias: a folha de frequência dos médicos. O radialista preferiu voltar ao salão de espera, abarrotado de pacientes de um turno que não era o de Bianca, para procurar um paciente da médica.
Voltou ao guichê, onde os funcionários não se entendiam sobre o horário dos médicos. Um deles dizia que o horário era de 8h às 11h, outro dizia ser a partir das 7h. Uma confusão desnecessária, Ronaldo acabava de saber que havia registros oficiais dos horários de entrada e saída dos médicos, mas preferiu não vê-los.
Era a pressa pra ir pra casa “twittar”. O radialista, que acusava Bianca de usar o microblog Twitter compulsivamente, fez seu vídeo às 12h10 da tarde e já a partir das 12h56 disparou as 8 mensagens acima no Twitter, em impressionantes 7 minutos.
Seu filme, gravado no dia 15 de março, nunca foi publicado. No lugar disso, Ronaldo o editou (tirando o trecho em que agredia funcionários da UBS), escreveu uma carta em nome da CBN e enviou tudo aos amigos, Deodato e Orestes, para que instalassem outra sindicância.
E mais uma sindicância foi instalada.
A bagunça que Ronaldo vem causando dentro da SEMSA é tão grande que ninguém mais sabe que sindicância investiga o quê. A única finalizada até hoje, em 2010, investigava as denúncias de faltas e o uso indevido do computador durante o expediente, e atestava queBianca tinha 99% de aprovação entre os pacientes e não tinha sequer UMA falta injustificada.
Dias atrás Bianca depôs novamente, agora sobre o vídeo acima, que Ronaldo fez e escondeu, mas que no gabinete dos secretários da SEMSA fez sucesso. Bianca precisou se explicar sobre isso que você vê acima.
Na tarde desta quarta (4), Bianca foi intimada novamente a depor. Como fracassaram as acusações de que faltava ao trabalho, não atendia os pacientes e se atrasava nos atendimentos, uma terceira sindicância foi instaurada. Hoje Bianca precisou se explicar sobre críticas que teria feito à Prefeitura de Manaus na internet.
A denúncia que levou a SEMSA a intimar a médica novamente, foi novamente feita pelo tuiteiro Ronaldo Tiradentes. Dessa vez, o tuiteiro enviou aos amigos da SEMSA transcrições que seriam de comentários da médica no Twitter. Para isso, Ronaldo usou como “prova” o seu próprio blog, para onde teria copiado os originais dos comentários da médica na rede social.
E os originais do que Ronaldo afirma que Bianca disse? Onde estão?
Eles não existem. Para que fique comprovado que o radialista não adulterou provas e que Bianca realmente disse o que ele a acusa de ter dito, a Prefeitura (ou a CBN, hoje é difícil separar) precisará encontrar a prova material da ofensa. Basear-se na quinta mentira do acusador para acusá-la, depois das quatro primeiras terem sido desmascaradas, é irresponsabilidade da Prefeitura, que corre o risco de embarcar, à toa, na mais criminosa campanha de assassinato moral da história do jornalismo amazonense.
Depois de 16 meses sendo acusada, pela CBN Manaus e por outras pessoas na internet, Bianca Oliveira Abinader Gavinho já foi declarada inocente, pelos membros das Comissões de Sindicância da Prefeitura, nas acusações de que falta ao trabalho e não atende seus pacientes.
Nas próximas horas, o site O Caso Bianca Abinader divulga os nomes das pessoas que, consciente ou desavisadamente, republicaram na internet as acusações falsas de Ronaldo Tiradentes e sua CBN. Com a decisão da SEMSA de inocentar a médica das acusações de faltas, atrasos e uso indevido do computador no horário de trabalho, o caminho natural é que essas 7 pessoas, todas reais, com nomes e sobrenomes, sejam denunciadas à polícia e à Justiça sobre o que publicaram e comentaram.
Vídeos: 
Veja o vídeo

sexta-feira, 6 de maio de 2011

HÁ VIDA FORA DA ORTODOXIA: REGULAÇÃO ESTATAL CONTEM PREÇOS SEM ELEVAR JUROS


 
A Petrobrás vai triplicar a participação no mercado brasileiro de etanol, atualmente na faixa de 5%. Meta é introduzir um regulador estatal no setor e evitar oscilações de preços e de oferta, habituais nos períodos de entressafra. Mediação estatal ajudará ainda a ordenar contratos e evitar o pêndulo que desloca produção das usinas para o refino de açúcar, sempre que a exportação dessa commoditie se torna vantajosa, em detrimento do abastecimento doméstico de etanol. A solução para o mercado de etanol reduzirá a contaminação inflacionária decorrente da especulação com açúcar nas bolsas de Chicago e Nova Iorque. Efeito semelhante foi obtido pela Argentina, para todos os produtos agrícola exportáveis, ao estabelecer um imposto que anula o ganho de sobrepreço propiciado pela especulação externa, evitando-se o nivelamento no mercado nacional. Esta semana, a Cepal  elogiou o modelo argentino apontando-o como uma opção às pressões inflacionárias originárias da especulação com alimentos. A vantagem evidente é que, agindo sobre as causas do problema, o país não precisa girar a manivela dos juros para destruir a demanda doméstica e, assim, conter a inflação.
(Carta Maior; Sábado, 07/05/ 2011)

O terrorismo econômico na mídia não se sustenta – 2



Um mês atrás publiquei um post sob este mesmo título, mostrando que o alarde que o jornal O Globo fazia em torno do número de falências de empresas não passava do mais descarado terrorismo econômico.
Hoje, a nota publicada pelo Jornal da Tarde, sem destaque, mostra que era isso mesmo:
“O número de falências decretadas de micro e pequenas empresas nestes quatro primeiros meses do ano é o menor desde 2005, quando foi editada a nova Lei de Falências. No período, o total de firmas falidas passou de 979 a 193, aponta indicador produzido pela Serasa Experian, empresa de informações de crédito.
De janeiro a abril de 2011, apenas 48 empresas por mês foram à falência no País. O motivo, explica o assessor econômico da Serasa Carlos Henrique de Almeida, é o bom momento da economia.”
A imprensa brasileira tornou-se uma máquina de propaganda e de desinformação, é muito triste dizer. Claro que há muitas e honrosíssimas exceções a esta regras, e não tenho dificuldade nenhuma em registrar aqui que não confundo jornalistas com linha editorial dos jornais.
A grande verdade sobre o papel dos jornais foi publicada muito discretamente por eles. Foi a afirmação da presidente da Associação dos Jornais de que, já que a oposição era fraca e desarticulada, era o papel da mídia ser a oposição.
Informar, assim, certamente não é.

Ah, se a elite ouvisse o povo… Bem, às vezes ouve. E ainda pagando…



Poucas coisas são tão terríveis no Brasil quanto o desprezo histórico que a elite econômica brasileira tem pelo seu povo. Duvido que os empresários japoneses falem mal de seu povo, ou que os magnatas dos EUA tenham uma postura de desprezo pelos cidadãos norteamericanos. Bem, aqui, nem é preciso falar, não é? É “povinho”, quando não acompanhado daquele adjetivo que Fernando Henrique usou para falar dos aposentados…
Por isso, é muito interessante ler a bela reportagem de Vanessa Adachi, no Valor Econômico de hoje, descrevendo a palestra de Lula para empresários, num evento promovido pelo Bank of América em São Paulo. Como o acesso é só para assinantes, reproduzo alguns trechos:
“Eu nunca votei no Lula e nunca votarei. Mas vim por causa dele.” Essa era a afirmação mais repetida na noite de quarta-feira em dezenas de rodinhas formadas por empresários, banqueiros, executivos e advogados que lotaram o amplo salão da Casa Fasano, templo de festejos luxuosos da elite paulistana.
Pouco mais de 450 pessoas se espalharam pelo espaço de pé direito altíssimo e paredes de intrigante transparência, que deixam ver os aviões que cruzam o céu. O Bank of America Merrill Lynch, um dos maiores bancos dos Estados Unidos, era o anfitrião da noite e comemorava a autorização do Banco Central do Brasil para que a instituição passe a operar como banco múltiplo, ampliando sua atuação no país.
Alexandre Bettamio, presidente do BofA no Brasil, provavelmente também não votou em Lula em 2002 ou 2006. Mas elegeu o ex-presidente para ancorar o mais importante evento já realizado pela instituição no país apostando que seria um grande chamariz. A escolha foi certeira.
Lula tem cobrado cachê de “palestrante global”. No caso, o valor não confirmado pelos assessores do presidente ou pelo banco, de quase R$ 200 mil, incluía discurso de 45 minutos seguido de mais meia hora de “social” pelo salão. O contrato foi cumprido à risca e, talvez sensível à praxe do setor financeiro, o ex-presidente concedeu um bônus aos banqueiros e falou por 1 hora e dois minutos. Parte da plateia nunca havia tido a oportunidade de estar tête-à- tête com o ex-presidente. Outros queriam vê-lo falar de novo e esperavam “se divertir” com o discurso bem humorado. Pouco depois das 20 horas o salão já estava cheio e, por volta das 21h30, quando Lula começou a falar, o público se aglomerou ao seu redor, abrindo um clarão ao fundo. Aguentaram firme, em pé, por mais de uma hora. (…)
Lula fez uma palestra sob medida para o público presente. Temas como a explosão do crédito consignado e o desenvolvimento do mercado de capitais foram cuidadosamente escolhidos para rechear a fala. Munido de um discurso oficial de cinco páginas, Lula fez a alegria dos presentes ao abusar de seus famosos improvisos. “He speaks very well”, dizia um executivo brasileiro a outro, estrangeiro, no meio do salão.
Arrancou gargalhadas sinceras e mesmo aplausos, em diversos momentos, ao debochar do que seria o estereótipo da forma de pensar da elite brasileira. “Tem gente que fala: esse Lula colocou os pobres no lugar que só nós viajávamos”, afirmou, por exemplo, ao referir-se ao fato de “os pobres” estarem viajando de avião. Mais tarde, disse que muita gente começa a falar inglês antes mesmo de sair do aeroporto, só para mostrar que sabe.
Apelou para a emoção e deixou a plateia silenciosa ao falar do Programa Luz para Todos e descrever que “quando chega a luz elétrica na casa de uma pessoa é como se você, num passe de mágica, pegasse uma pessoa do século 18 e trouxesse para o século 21. É como se fosse a máquina do tempo.”
Lula queria provar, caso alguém ali ainda tivesse dúvida, que a política de seu governo fez bem ao empresariado. Já perto das 22h30 e do fim de sua palestra, quando a audiência se mostrava um pouco cansada com a longa fala do ex-presidente, ele arrematou: “Eu sei que tem gente que tem preconceito contra mim. Mas eu desafiaria qualquer um de vocês: eu duvido que algum empresário já ganhou mais dinheiro nesse país do que no meu mandato. Duvido que os bancos já tiveram mais lucro nesse país do que no meu mandato.”(…)
“Ele é muito bom”, “ele é muito inteligente”, “agora dá para entender [a sua popularidade]“, saíram falando aqueles que nunca votariam nele.
Das poucas pessoas dentro da Casa Fasano que haviam votado em Lula, duas copeiras não escondiam a excitação com a presença de seu ex-presidente. Difícil foi encarar a frustração de não poder vê-lo: muito profissionais, não abandonaram o posto e ficaram confinadas no banheiro feminino durante quase toda a noite, prestando assistência às convidadas.
Pois é. As copeiras (brasileiras) “muito profissionais, não abandonaram o posto”. Quando os nossos figurões aprenderem que elas também podem dar um pulo no salão, realizarem seu desejo – nem que seja o de ver Lula de perto, apenas – e entenderem que aquele que admiram e pagam caro para ouvir pôde chegar ali e fazer o que fez com o voto delas, não com o deles.