Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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terça-feira, 23 de julho de 2013

JUIZ BARBOSA CONDENARIA EVENTUAL RÉU BARBOSA. DILMA: "A LUTA CONTRA A DESIGUALDADE UNE O GOVERNO E A IGREJA"

*Igreja, direita e PT disputam a nova agenda social reclamada pelas ruas :o Brasil, que já era referência em políticas públicas contra a fome e a pobreza, virou o cenário de uma  estratégica disputa pela paternidade da nova agenda social, reclamada nos protestos de junho no país**Maciçamente protagonizadas pela juventude, mas em defesa de serviços públicos dignos, as manifestações ecoaram uma insatisfação presente em amplos segmentos da população** O salto que se reclama argui não apenas o governo petista, mas todo o colar de governos progressistas da AL, focados na luta contra a pobreza e a desigualdade** Quem vai liderar as reformas para atender ao clamor irrefreável por cidades habitáveis e cidadania efetiva? A igreja de Bergoglio vê aí a chance de uma reconciliação com o evangelho social asfixiado pelo seu antecessor** A direita enxerga a oportunidade para desqualificar os avanços promovidos pelo PT desde 2003** Os petistas, reunidos no Diretório Nacional,entenderam o recado das ruas: sua prioridade é a renovação de alianças que impulsionem as reformas requeridas pela população,disse o presidente do partido, Rui Falcão. (leia as propostas de Tarso Genro; nesta pág)
'Dilma enviou uma nota burocrática e tardia para saudar (ou celebrar) o fim do papado de Bento XVI, que nas eleições presidenciais de 2010 havia se associado explicitamente ao tucanato, em uma campanha lembrada pelas baixarias homofóbicas e anti-aborto de José Serra. Dilma lembra também que não poucos bispos e arcebispos,  subitamente comovidos pelo discurso aparentemente social de Bergoglio, há três anos puseram seus púlpitos à serviço da dupla integralista Serra-Ratzinger. Dilma recebeu com simpatia a eleição de Jorge Mario Bergoglio e viajou ao Vaticano no dia 20 de março para cumprimenta-lo e reforçar o convite para ser o anfitrião da Jornada Mundial da Juventude, iniciada nesta 2ª feira. O Palácio do Planalto e círculos católicos do Partido dos Trabalhadores avaliam que Francisco pode ser um bom aliado das políticas sociais agressivas, a principal delas o Bolsa Família, implementadas por Lula desde 2003 e continuadas por Dilma.O ministro e ex-seminarista Gilberto Carvalho, está entre os defensores desta posição. Entende que, através da aproximação com a Igreja, Dilma poderá estabelecer pontes para os bem organizados e populosos movimentos sociais, tão importantes no Brasil e geralmente mais representativos que os partidos' 

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Harakiri midiático



Harakiri (腹切り) foi um ritual suicida japonês do período medieval que consistia em pessoas que queriam pôr fim à própria vida estriparem-se com uma espada samurai. A frieza e a metodologia daquela forma de suicídio a torna perfeita, como analogia, para caracterizar o que a mídia vem fazendo consigo mesma na questão da geração de energia hidrelétrica.
Na última segunda-feira, cumpriu-se uma semana da veiculação de manchete de primeira página do jornal Folha de São Paulo que alarmou a sociedade induzindo-a à crença de que estaria à beira de um racionamento de energia nos moldes daquele que o país experimentou entre o penúltimo e o último anos do governo Fernando Henrique Cardoso (2001/2002).
Nos sete dias seguintes, o Brasil foi de um pânico que fez ações das empresas geradoras de energia perderem gorda fatia de seu valor para a literal demolição daquele alarma social, com a conseqüente tranquilização e até euforia do setor empresarial com uma medida do governo Dilma que deve produzir efeitos altamente benfazejos à sociedade.
Na noite da última segunda-feira, o principal autor do pânico econômico e social que fustigou o Brasil (leia-se Rede Globo) teve que anunciar, em seu principal telejornal, que, contrariando as suas teses catastrofistas sobre “racionamento” de energia e “aumento nas contas de luz”, a partir de março o preço da energia elétrica deve cair, em média, 20%.
As empresas irão pagar 28% a menos pela energia e os consumidores residenciais, 16%. E, devido ao verdadeiro dilúvio que cai sobre o país, a tal ameaça de “racionamento”, que nunca passou de empulhação, teve que ser literalmente extirpada do noticiário.
Eis que beira a perfeição a analogia entre essa estratégia de ataque da mídia partidarizada (atucanada) ao governo federal e o método suicida japonês, pois tal “estratégia” se torna verdadeiro harakiri de imagem pública.
É ou não suicídio martelar, sob razão pífia, uma suposta incompetência gerencial do governo e uma desgraça como a que seria o Brasil, além de ter que racionar energia elétrica, pagar mais por ela?
Afinal, era enorme a fragilidade da “razão” mídiática para aquele alarde, pois escassez de chuvas e reservatórios de hidrelétricas baixos, após uma década inteira de fortes investimentos do governo Lula em geração de energia, não produziriam racionamento nem se não chovesse.
Além disso, nota-se que a mídia subestimou, de forma inexplicável, uma presidente que, antes de se eleger, ganhou notoriedade e importância justamente pelo desempenho que teve na área energética quando integrou o governo do Rio Grande do Sul e o governo Lula.
Há poucos meses, Dilma Rousseff foi à televisão anunciar queda no preço da energia elétrica. Seus adversários destro-midiáticos, porém, acreditaram que ela seria uma estúpida que anunciaria medida de tal importância para o país sem ter certeza de que poderia implementá-la.
Mesmo quem se informa mal (só pela “grande imprensa”) e não viu os telejornais noticiarem o barateamento da energia, a partir de março, quando as contas de luz tiverem sensível queda de valor, seguramente haverão de se lembrar do noticiário e, mais uma vez, aprofundarão o conceito de que a mídia promove alarmismo sob razões politiqueiras.
A própria reportagem do Jornal Nacional que noticiou a iminente redução das contas de luz após dizer exatamente o contrário poucos dias antes, deu um exemplo do potencial de beneficiamento da economia com a queda do preço da energia elétrica. Mostrou o caso de uma pequena lavanderia que gasta R$ 1,3 mil com a conta de luz e que irá economizar R$ 200.
A reportagem ainda mostrou que alguns setores da economia terão um benefício altíssimo. No setor de produção de alumínio, por exemplo, 30% dos custos são com energia elétrica. Ora, um desconto de quase 30% nessa energia tornará mais competitivas não só as empresas que produzem essa matéria-prima, mas, também, aquelas que a consomem.
O potencial econômico e social da medida do governo Dilma, assim, será sentido fortemente pela sociedade, pois o famigerado “custo Brasil” será consideravelmente reduzido para as empresas e para os setores mais pobres da sociedade, para os quais a conta de luz pesa muito.
Foi suicídio, portanto, promover alarmismo subestimando não apenas a capacidade da presidente, mas a inteligência dos brasileiros. Desse modo, o termo “harakiri” só não é perfeito porque o ritual suicida japonês era intencional e constituía pedido de desculpas por erros cometidos, enquanto que o harakiri midiático foi praticado sem querer.

Mídia: Secom simula democracia e reforça o monopólio (leia o artigo definitivo  de Venício Lima sobre o tema; nesta pág) 

IMPÉRIO: HEMORRAGIA INTERNA

Suicídios de militares causaram mais baixas às tropas norte-americanas em 2012 do que os combates no Afeganistão. A matança da guerra produziu 295 cadáveres no ano que passou; a do desespero fardado,  349 mortes. A epidemia de suicídios atinge sobretudo as forças do Exército: 182 soldados tiraram a própria vida em 2012. Os dados surpreendem na medida em que os EUA já deixaram o Iraque e apressam a saída do Afeganistão. A hemorragia é interna. Segundo o Departamento de Estado, aproximadamente um veterano de guerra se mata a cada 80 minutos nos EUA. Esta semana Obama deve anunciar medidas para controlar a venda de armas em resposta a outra epidemia dos tempos de paz: a dos serial killers. (Carta Maior; com agências)

quinta-feira, 29 de março de 2012

O infindável horrendo legado da Guerra ao Terror

‘Arapongagem’ generalizada [nos EUA, por enquanto!!]
Karen Greenberg é diretora do Centro de Estudos de Segurança Nacional,
da Faculdade de Direito de Fordham, EUA.

Agora, seria de supor que estivéssemos chegando ao fim da era 11/9. Uma guerra mal acabada no Oriente Médio Expandido, outra que se arrasta desastrosamente rumo ao fim, e a al-Qaeda tão reduzida que nem moveria a agulha do medidor norte-americano de ameaças. Seria de supor, sim, que chegara o momento de os norte-americanos voltarem os olhos, afinal, para seus próprios princípios: a Constituição e a proteção que só ela assegura a direitos e deveres.

Mas o que se vê são abundantes sinais de que 2012 será mais um ano no qual, em nome da segurança nacional, aqueles direitos e liberdades serão ainda mais capados e Guantanamizados. Exemplo disso é que, apesar de ainda haver inimigos poderosos pelo mundo, os EUA só temos olhos agora para ‘candidatos’ da oposição que denunciam ‘vazadores’, acusados de pouco menos que crimes de alta traição, porque revelaram a jornalistas e cidadãos interessados o que faz e como age o governo dos EUA.

Aqui e por todos os cantos, tudo sugere que só possamos esperar que o governo Obama continue a pavimentar o caminho que já nos levou tão longe do país que nos acostumáramos a ser. E ano que vem, se houver outro presidente na Casa Branca, só esperem que nos leve para ainda mais longe.

Com isso em mente, eis aqui cinco categorias na esfera da segurança nacional, nas quais, provavelmente, 2012 será ainda mais tenebroso que 2011.

1. Cada vez mais punições (e menos equilíbrio)
Os que suponham que a era de reações desmedidas em nome da segurança nacional estaria chegando a algum fim próximo, melhor farão se lembrarem dos espetaculosos julgamentos em tribunais de segurança nacional que estão no horizonte – e de que podemos estar-nos aproximando de uma nova era de vingancismo governamental. Dentre os mais espetaculosos: as comissões militares em Guantánamo, que julgarão Khalid Sheikh Mohammed, suposto ‘cérebro’ do ataque de 11/9 e seus co-conspiradores; além de Abd al-Rahim al-Nashiri, suposto ‘cérebro’ dos ataques suicidas de 2000, contra o porta-aviões U.S.S. Cole no porto de Aden. Aí haverá acusações de crimes que preveem execução, a serem julgados em espírito de desforra.

Esse espírito de desforra não se saciará com linchar chefetes e operadores da al-Qaeda. Vários casos que não envolvem nem ataque a nem morte de norte-americanos também chegarão aos tribunais em nome da segurança nacional e, em todos, reinará o mesmo espírito de desforra. Para começar, está em pauta a corte marcial do cabo Bradley Manning, acusado de copiar documentos secretos do governo dos EUA e entregá-los a WikiLeaks. E, claro, há também o possível julgamento de Julian Assange, fundador de WikiLeaks, por uma corte federal – uma corte federal analisa atualmente se acolhe a denúncia contra ele – por suposta colaboração com Manning.

Os dois casos tem sido apresentados em tom de ira viciosa que, aos olhos de outros povos deve soar como um murro na boca. Altos funcionários insistem em que os materiais publicados por WikiLeaks ameaçaram vidas de norte-americanos, o que teria “manchado de sangue” as mãos de ambos, Assange e Manning (embora até hoje ninguém tenha apresentado prova de que um único ser humano foi fisicamente agredido em consequência da publicação daqueles documentos).

No polo mais sanguinolento do espectro político nos EUA, o ex-governador do Arkansas e aspirante a candidato presidencial, Mike Huckabee, e o deputado Mike Rogers (R-MI), dentre outros, já clamaram pela execução de Manning. Nas palavras de Rogers, “insisto em que se considere a pena capital nesse caso, dado que [Manning] claramente colaborou com o inimigo, no que pode resultar em morte de soldados dos EUA e aliados. Se isso não é crime capital, não sei o que é.”

Desejo semelhante, embora talvez menos assassino, oculta-se na determinação com que o governo Obama persegue e pune qualquer tipo de vazamento de informações, do interior do governo para a imprensa, mesmo quando não envolve roubo de documentos oficiais. Obama, como se sabe, entrou na Casa Branca proclamando uma política “Raio de Sol”, em matéria de transparência nos serviços públicos e governamentais. Hoje, já ultrapassou George W. Bush nas tentativas de punir ‘vazadores’.

Dois julgamentos em andamento, de dois ex-agentes da CIA, exemplificam esse padrão. Jeffrey Sterling foi acusado de vazar documentos secretos para James Risen do New York Times sobre planos para dar informações falsas ao Irã, num esforço contraproducente para subverter o programa nuclear iraniano; e John Kiriakou acaba de declarar-se inocente da acusação de ter entregado à mídia informações sobre práticas de tortura na era Bush. Tudo somado, o governo dos EUA está caçando seis supostos ‘vazadores’ – mais do que todos os casos desse tipo, em todas os governos dos EUA – servindo-se para isso da lei “Antiespionagem”, Espionage Act, draconiana.

No que tenha a ver com ‘vazadores’, a mensagem não poderia ser mais clara, nem mais vingancista. O estado, nos EUA, mantém-se na seguinte posição: exponha o Estado, e cairemos sobre você com fúria inimaginável. Assim como os terroristas foram avisados de que se criariam novas leis e sistemas legais específicos para eles, assim também os acusados de vazar informações (mesmo que verídicas!) para a mídia estão sendo avisados de nem toda a lei vigente limitará o castigo que desabará sobre eles.

Basta considerar o tratamento dado a Bradley Manning no primeiro ano de prisão, quando ainda sequer estava acusado de qualquer crime: foi mantido numa masmorra da Marinha, em total isolamento, obrigado a dormir nu. Ou considere-se a tentativa, não de fazer justiça, mas de destruir a vida de Thomas Drake, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança. Drake foi acusado de vazar informação sigilosa de caso que, para Drake, não passava de programa no qual havia desperdício devastador de recursos da Agência. No fim, embora acusado nos termos da Lei Antiespionagem, Drake declarou-se culpado da contravenção de ter tomado emprestado um computador do Estado – mas, isso, depois de sua vida ter sido destruída, sua carreira arruinada e já demitido.

2. Um limbo ‘legal-ilegal’ cada vez mais sombrio (e cada vez menos consideração à Constituição)
Hoje, denúncias da ilegalidade da detenção indefinida dos acusados de “combater pelo inimigo”, já denominados “inimigos beligerantes sem privilégios”, já viraram normais. É tema considerado tão tipicamente norte-americano quanto a torta de maçã. Como, antes, o governo Bush, o governo Obama insiste na necessidade de manter presos em Guantánamo cerca de 50 homens, contra os quais não há qualquer acusação formal.

Em maio de 2009, em discurso nos National Archives, o presidente Obama não poderia ter sido mais claro: a detenção indefinida, disse ele, continua a ser utensílio para uso do aparelho da segurança nacional, também em seu governo. Assim, garantiu que uma versão norte-americana da (in)justiça além fronteiras, e traço essencial de Guantánamo – que, em campanha, Obama prometera fechar – continuaria intocada.

Mas em 2012, está surgindo outra categoria de gente que também pode ser presa sem acusação e por tempo indefinido: cidadãos norte-americanos. Antes, os norte-americanos estavam isentos do risco de serem encarcerados em Guantánamo e, portanto, da política de prender sem julgamento, sem sentença e sem, sequer, acusação. Em 2002, descobriu-se que Yaser Hamdi, cidadão norte-americano-saudita, estava também preso em Guantánamo Bay; foi imediatamente removido, de avião, na calada da noite, e encarcerado noutro lugar, sinal de que o Estado, nos EUA, ainda reconhece direitos aos cidadãos norte-americanos. E o mesmo aconteceu ao “Talibã norte-americano”, John Walker Lindh, preso no Afeganistão, no campo de batalha, e encarcerado no sistema prisional oficial dos EUA.

Depois disso, contudo, o Congresso mostrou bem menos respeito à diferença entre direitos garantidos aos cidadãos e aos não cidadãos norte-americanos. Mês passado, o Congresso aprovou a Lei de Defesa Nacional 2012 (2012 National Defense Authorization Act, NDAA). Os debates parlamentares refletiram empenho ativo em converter cidadãos norte-americanos, assim como cidadãos não norte-americanos, em alvos de detenção militar por tempo ilimitado.

No fim dos debates, concluiu-se que os cidadãos continuariam supostamente protegidos contra o ataque da nova lei, mas, foi sinal bem claro da direção na qual podemos estar caminhando. Como recente relatório do Serviço de Pesquisas do Congresso explicou, sobre a lei NDAA: a lei “não visa a afetar poderes relacionados à detenção de cidadãos ou residentes estrangeiros ilegais, nem qualquer pessoa capturada ou presa nos EUA.”

Ainda assim, restam muitos justificados temores e grande confusão sobre que proteções ainda existem aos direitos dos cidadãos norte-americanos, depois da aprovação da lei NDAA. Nem a declaração assinada pelo presidente Obama, garantindo que o presidente “não autorizaria a detenção militar indefinida sem julgamento e sentença de cidadãos norte-americanos” ajudou a aplacar aqueles temores ou a diminuir a confusão. Se os cidadãos norte-americanos continuavam a gozar de proteção legal contra detenção indefinida, depois de aprovada a nova lei... que necessidade haveria de o presidente divulgar aquela declaração assinada?

Há ainda outro campo em que a lei parece mergulhada no mais sombrio limbo, sem nada que dê proteção aos cidadãos: em águas internacionais. No início desse ano, o governo Obama anunciou que mantinha sob detenção 15 piratas capturados na costa da Somália – e que não havia qualquer fundamento legal para aquela decisão. Nas palavras de C.J. Chivers do New York Times: “onde a lei acaba começa um problema sem solução: o que fazer com piratas capturados por barcos estrangeiros?”

Segundo o Departamento de Estado, os piratas serão julgados. Mas onde? Nas palavras do vice-almirante Mark I. Fox, “Falta-nos uma cobertura prática e legal confiável.” Em outras palavras, os EUA ainda não encontraram país sob cujas leis possam levar os piratas a julgamento legal. Enquanto procuram, segundo relatórios recentes, a Marinha dos EUA mantém os detidos em celas em navios. Quer dizer: em termos conceituais, é uma Guantánamo flutuante, para inimigos da rede ‘para fins lucrativos’.

3. Cada vez mais sigilo (e menos transparência)
“Sigilo necessário” é a sempre repetida explicação para a informação mantida longe do escrutínio dos eleitores desde 11/9. As comissões militares em Guantánamo prosseguem, por exemplo, em parte sob a alegação de que, se os acusados, muitos dos quais já detidos há uma década, forem julgados por corte federal, surgirão revelações que, de algum modo, comprometerão a segurança nacional.

Para responder às declarações dos grupos de defesa de direitos civis, segundo os quais o sigilo serve exclusivamente para tentar esconder comportamento desviante ou criminoso das autoridades, o governo Obama prometeu “transparência” na atuação das comissões militares agendadas para começar a julgar os acusados no final de 2012. Entre os esforços de transparência anunciados no outono passado, havia uma página na internet, na qual documentos – cobertos de tarjas negras – ficariam acessíveis ao público; e outros documentos, com delay de 40 segundos, em circuito para leitura controlada, para a mídia e para as famílias das vítimas.

Mas durou pouco. Imediatamente o governo suspendeu os anseios de transparência, porque, nas palavras polidas de Spencer Ackerman, do blog “Danger Room”, da revista Wired, Guantánamo “não é lugar para aberturas”. Toda a correspondência entre os detidos e seus advogados (militares) de defesa é examinada e censurada, prática que, compreensivelmente, tem provocado a indignação (até) dos advogados militares.

Na categoria transparência-zero e crescente obscuridade como princípio básico do governo Obama, há também a elaborada dança de ocultamento de um memorando produzido pelo Gabinete de Assessoramento Legal (Office of Legal Counsel, OLC) do Departamento de Justiça. Foi evidentemente redigido para justificar o assassinato, em que os assassinos usaram como arma um avião-robô, drone, no Iêmen, em setembro passado, de um cidadão norte-americano, Anwar al-Awlaki, que seria “o bin Laden da Internet.”[1]

Até recentemente, o governo evita perguntas sobre o assassinato de al-Awlaki, e de outro cidadão norte-americano, Samir Khan, editor da revista Inspire, da al-Qaeda. Em janeiro, o governo anunciou que o Advogado Geral Eric Holder divulgaria o memorando do Office of Legal Counsel (OLC), que legalizava o assassinato, mas adiou a divulgação da explicação da Advocacia Geral dos EUA até o início de março. Enquanto isso, o New York Times e a American Civil Liberties Union (ACLU) requereram oficialmente a divulgação do documento, amparados na Lei da Liberdade de Informação (Freedom of Information Act, FOIA). Dia 5/3/2012, Holder finalmente divulgou explicação detalhada do tortuoso argumento que justificaria o assassinado pré-determinado [orig. targeted killing] de al-Awlaki, mas, até hoje, nem sinal do documento oficial o OLC que o legalizaria.

Durante o ano passado, a imposição de cerrado sigilo a todos os tipos de atividades do governo só se tornou cada vez mais acentuada (...), sempre em nome da “segurança nacional”.

Passada uma década, os americanos sabemos cada vez menos sobre os atos do governo que elegemos. (...) Não fossem as reclamações oficiais permitidas pela Lei de Liberdade de Informação, impetradas pela ACLU e outras organizações, bem pouco do pouco que se sabe sobre tortura, vigilância ilegal e outras práticas ilegais do governo Obama teria vindo à tona. E o número sempre crescente de processos contra ‘vazadores’ é apenas mais um modo de tornar invisíveis as ações do estado, ocultado do olhar dos cidadãos.

4. Cada vez mais suspeitas (e menos privacidade)

Durante anos, a perspectiva de gravações ilegais, feitas ilegalmente, em nome da segurança nacional, vem aterrorizando os americanos que fazem oposição às políticas do estado norte-americano na guerra ao terror. Em 2008, o presidente Bush assinou nova lei da Civil Aviation Safety Authority (agência de segurança da aviação civil), FISA, que autoriza o estado a escanear corpo e bagagem de cidadãos nos aeroportos, com praticamente nenhuma fiscalização assegurada, pelo menos, por outra instância legal também carregada de sigilos, as Cortes de Vigilância da Inteligência Estrangeira (Foreign Intelligence Surveillance Courts, instaladas em 1978 para legalizar a vigilância sobre suspeitos de espionar a serviço de outros países.) O governo Obama jamais abriu mão do poder de gravar comunicações eletrônicas entre pessoas fora dos EUA e pessoas em território norte-americano, em nome da segurança nacional.

As mais recentes revelações, de casos de cada vez menos privacidade e mais suspeitas, têm a ver com programas que teriam sido implementados pelo Departamento de Polícia Municipal de New York (New York City Police Department, NYPD), para vigiar cidadãos norte-americanos de religião muçulmana que vivem na cidade. A NYPD infiltra agentes em mesquitas e universidade, recolhe informes sobre cidadãos sobre os quais não há nenhum tipo de denúncia ou suspeita, em associação com a CIA, que treina policiais em métodos e técnicas que tradicionalmente são recursos exclusivos daquela agência.

Há aí flagrante violação da lei que rege a CIA, autorizada a fazer a vigilância de suspeitos exclusivamente em países estrangeiros; e não se vê qualquer sinal de que algum agente da CIA corra risco de ser processado. Não bastasse, a própria polícia de New York tem investigado e vigiado cidadãos norte-americanos, de religião muçulmana, bem longe dos limites de sua jurisdição – de New Haven, Connecticut, a Newark, New Jersey.

Para piorar, o governo Obama acaba de aprovar o uso de aviões-robôs, drones, como parte do arsenal de armas para recolher informação nos EUA. Dia 14/2, o presidente Obama sancionou lei que autoriza o uso dos drones em vários espaços, de atividades comerciais a investigação de crimes civis.

A mensagem é bem clara: esse ano (e o seguinte e o seguinte e o seguinte) serão anos de arapongagem generalizada. Para os agentes da lei, ao que parece, a vida privada dos cidadãos deve ser um livro aberto.

5. Cada vez mais matança (e menos paz)
Não passa um dia, sem notícias de que drones Predator e Reaper mataram gente em países estrangeiros – nos anos recentes, predominantemente no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Iêmen, Somália, Líbia e Filipinas. É como se a CIA e os militares tivessem posto as mãos num brinquedo novo, que não se cansam de usar, ou de propagandear. Segundo Atlantic, “Estimativas tímidas sugerem que centenas de civis não combatentes foram motos, só no Paquistão.”

E seguem os tambores de guerra, clamando por ataque militar ao Irã. Ante a possibilidade de ataque israelense à República Islâmica do Irã, o governo Obama continua a recusar-se a rejeitar com clareza a possibilidade de ser parte de mais essa guerra.

“Os líderes iranianos devem sabem que não tenho qualquer política de contenção” – disse o presidente Obama. “Tenho uma política para impedir o Irã de obter uma arma nuclear. E já deixei claro várias vezes, ao longo do meu governo, que não hesitarei em usar a força quando necessária para defender os EUA e seus interesses.”[2]

De fato, a urgente necessidade de impedir um confronto potencialmente desastroso, que afetaria gravemente o preço do petróleo e a economia global, já pôs a cúpula dos militares e altos funcionários do governo a voar, de um lado para outro, entre Israel e os EUA, com alertas contra qualquer ataque ao Irã. Apesar disso, diplomatas e outros especialistas continuam a discutir a questão como se a guerra já fosse evento decidido.

O futuro é certamente sombrio, todos andando claramente na mesma direção – usar a lei, ou, pelo menos, o que o Departamento de Estado supõe que seja a lei nos EUA, para justificar qualquer tipo de ação que o governo Obama considere necessária, contra quem quer que o governo decida que seja o inimigo. O Advogado Geral Holder resumiu claramente a situação, na defesa que apresentou do assassinado de al-Awlaki.

Holder explicou, com detalhes significativos, que o assassinato de um cidadão norte-americano (e suspeito de ser terrorista) seria legal, embora obrigasse a discutir o próprio sentido do que seja “o devido processo legal” nos termos da 5ª Emenda, e apesar da proteção que a lei da guerra assegura também aos inimigos. “Devido processo legal”, disse ele, “não significa processo judicial”. Espantosa teoria essa, de algo absolutamente inexistente na lei! Agora, “devido processo legal” é o que o presidente e seu círculo mais íntimo decidam que é! Recriação do direito constitucional, para justificar o assassinato premeditado (“targeted killing”) de um cidadão norte-americano.

Em resumo, a zona nebulosa em que Washington, ao longo de uma década, lançou a lei norte-americana – e todas as consequências que daí advêm, inclusive medidas punitivas, tentativas de burlar garantias constitucionais, o sigilo que tudo encobre e acoberta, a desconfiança cada vez maior, que torna suspeitos todos nós, e o assassinato – não são coisas que veremos desaparecer tão cedo. É bem claro o movimento pelo qual estamos nos afastando cada vez mais dos direitos e liberdades que temos, enquanto a Constituição for respeitada, e que os norte-americanos estamos perdendo rapidamente, nessa nova era em que mergulhamos, uma era de inimigos.

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[1] Sobre o caso, ver 7/11/2010, Ocidente em pânico: uma voz norte-americana pró-“Jihad”, Patrick Cockburn, The Independent, UK, em português em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2010/11/ocidente-em-panico-uma-voz-norte.html; e “Assassinato de Awlaki: Obama mata quem bem entenda”, 1/10/2011, Robert Dreyfuss, The Nation, em português em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2011/10/assassinato-de-awlaki-obama-mata-quem.html [NTs].
[2] O discurso (ao AIPAC, dia 4/3/2012, pode ser lido em http://www.cfr.org/united-states/obamas-speech-aipac-march-2012/p27549?cid=rss-americas-obama_s_speech_at_aipac,_march-030412. Sobre o discurso, ver “ ‘Bibi’ continua a sacudir o cachorro americano?”, 4/3/2012, Pepe Escobar, em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/03/pepe-escobar-bibi-continua-sacudir-o.html [NTs].

sexta-feira, 23 de março de 2012

O segredo do Sgt. Bales e um impasse afegão

19/3/2012, M K Bhadrakumar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/NC20Df04.html
Apesar de Washington repetir e repetir que a matança em Kandahar, há uma semana, foi resultado de um “surto”, de alguém “aparentemente descompensado” ou “provavelmente desequilibrado”, o povo afegão acredita nas provas reunidas por seus parlamentares, segundo as quais entre 15 e 20 soldados dos EUA participaram dos crimes. O presidente do Afeganistão Hamid Karzai também concordou: a versão dos EUA “não é convincente”.

E dentro do establishment militar afegão predominará a opinião exposta publicamente pelo comandante do estado-maior do exército afegão, Sher Mohammad Karimi, que condenou os soldados dos EUA. O tenente-general Karimi, que visitou a cena do crime, disse que acontecera massacre premeditado consumado por vários soldados norte-americanos.

Com tudo isso, torna-se altamente problemática a assinatura de um tratado estratégico entre Washington e Kabul, prevista para acontecer antes da reunião de cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, em Chicago, em maio. Washington espera que Karzai assine na linha pontilhada antes de maio; e Karzai sabe que seu futuro político depende de seu desempenho.

Bernard-Henri Lévy
Em comentário surpreendente, publicado semana passada, o influente criador de casos Bernard-Henri Lévy já disse, em tom de ameaça, que a comunidade internacional jamais deveria ter-se tornado “cegamente dependente do governo corrupto de Hamid Karzai”.[1]

Fazendo eco às ideias de vários comandantes norte-americanos, Henri Lévy pôs-se a criticar furiosamente a retirada planejada para 2014, como “admissão de fracasso e impotência”. Mas disse que prolongar a presença militar além de 2014 também seria difícil, “considerando-se o custo humano”. Assim sendo, a única via possível seria “ficar e sair” – quer dizer: retirar as tropas de combate, “mas deixar lá as bases militares e os instrutores.”

Lévy tem a solução: “Admitir que o Afeganistão não pode ser reduzido (...) a um confronto desesperado entre assassinos Talibã e os membros corruptos do governo Karzai (...). Em Cabul (...) estão também os herdeiros de [o falecido comandante da Aliança do Norte, Ahmad Shah] Massoud. E antes talvez de retirarmos a escada, talvez seja aconselhável aproximar-se dele, numa última tentativa, numa derradeira operação.”

Barack Obama

Karzai mais uma vez volta a ser tratado como se seu sucessor potencial já estivesse pronto e paramentado, à espera, na sala ao lado. O ponto é que, ao longo de uma sequência macabra de eventos ao longo das últimas seis, oito semanas – soldados dos EUA que urinam sobre cadáveres dos Talibã, queimam livros do Corão, massacram civis –, a meta sempre presente é conseguir que Karzai assine um pacto estratégico, que garanta presença militar norte-americana de longo prazo no Afeganistão.

Na 3ª-feira passada, o presidente Barack Obama dos EUA disse, em conferência de imprensa ao lado do primeiro-ministro britânico David Cameron, que Karzai ouvira claramente o que tinha de ouvir.

Mas, depois de Panjwayi, já nada pode continuar reduzido a uma batalha de objetivos, só entre Obama e Karzai.

Moscou entra em cena

Em entrevista exclusiva de 30 minutos, a um canal da televisão afegã, ontem à noite[2], o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, repetiu, nem duas nem três, mas quatro vezes, que a Rússia espera um Afeganistão “neutro” – palavra em código para dizer “sem presença militar estrangeira”.

A política russa está andando por duas trilhas. Uma, Moscou espera trabalhar bem próxima de Karzai. “Diferentes de outros [quer dizer “Washington”], nós não ordenamos ao governo [de Cabul] como construir o processo de reconciliação nacional. Sabemos que, além de pashtuns, há uzbeques, tadjiques, hazaras. Todos esses devem encontrar seu caminho até o sistema político, para que se sintam incluídos, não isolados, no processo. Esse é o princípio geral; como aplicá-lo na prática, não cabe aos russos dizer às autoridades afegãs”.

Por outro lado, Lavrov questionou a ideia de que o governo Obama ou a OTAN possam decidir unilateralmente sobre questão de “transição” ou de “fim da missão de combate”.

Exigiu que a Força Internacional de Assistência à Segurança [orig. International Security Assistance Force (ISAF)] demonstre ao Conselho de Segurança da ONU que cumpriu a missão que lhe foi atribuída, antes, evidentemente, de falar sobre retirada dos soldados de EUA e OTAN sem prestar qualquer satisfação à ONU sobre o resultado de sua missão no Afeganistão.

Lavrov destacou que há contradição fundamental na posição dos EUA: de um lado, (1) Washington assume que, sim, a ISAF teria cumprido a missão que recebeu da ONU e diz que retirará os soldados; de outro lado, (2) Washington continua a discutir com Kabul, “muito empenhadamente, o estabelecimento de quatro ou cinco bases militares no mesmo espaço de onde ‘retira’ os soldados, para o período pós-2014.”

Falando firme, Lavrov demarcou o quadro geral:

“Não se entende por que isso deva ser encaminhado desse modo, porque, se você precisa de presença militar, é sinal de que o mandado do Conselho de Segurança ainda não foi satisfatoriamente cumprido. Se você não quer cumprir o mandado do Conselho de Segurança, ou se supõe que o mandato já foi cumprido... para que seriam necessárias as bases militares? Não me parece que haja aí qualquer lógica. Acho também que o território afegão não deve ser usado para implantar espaços militarizados, que evidentemente preocuparão outros povos.

“Não vejo que lógica haveria em supor que, em 2014, o mandado do Conselho de Segurança possa ser dado por cumprido... se ainda for necessário haver lá muitos soldados, dentro das bases militares. Não se entende que finalidade teriam as tais bases militares e, além disso, os EUA estão em contato com países da Ásia Central, pedindo que autorizem presença militar de longo prazo. NÓS [a Rússia] queremos entender o motivo disso tudo, por que as tais bases seriam necessárias. Não acreditamos que esse grande número de bases militares contribua para a estabilidade da região.”

Para Lavrov:

(1) O terrorismo não foi derrotado, no Afeganistão;

(2) Os terroristas estão sendo “empurrados” para regiões mais ao norte em relação aos pontos onde estão sendo infiltrados, “na direção de países vizinhos da Federação Russa na Ásia Central; e não se pode dizer que contribuam para aumentar a estabilidade nessa região”;

(3) As Forças Internacionais de Assistência, ISAF, estão usando para isso a chamada “Rede Norte de Distribuição”. E “nós [a Rússia] acreditamos que essa é nossa contribuição para que seja cumprido o mandado que as ISAF receberam do Conselho de Segurança da ONU. Assim sendo, “temos o direito de exigir” que as ISAF cumpram realmente a missão para a qual foram mandadas para lá, antes de as ISAF declararem, unilateralmente, que alguma “missão de combate” estaria cumprida.

O que Moscou está fazendo é declarar que o governo Obama já não pode ditar a trajetória dessa guerra. A entrevista de Lavrov foi cuidadosamente agendada: essa semana, o Conselho de Segurança da ONU examinará o mandado que deu às ISAF, para avaliar os resultados.

Moscou está acrescentando o Afeganistão à litania de questões em relação às quais adotará abordagem “muscular” – além do sistema de mísseis de defesa que os EUA planejam, da Síria e do Irã. Semana passada, Moscou anunciou que poderia oferecer à OTAN uma base militar em Ulyanovsk, no Volga, para ser usada como armazém temporário de trânsito ferroviário de suprimentos para os exércitos da OTAN-EUA.

Dempsey, comandante do Estado-maior das Forças Armadas dos EUA

O oferecimento dos russos mete o Pentágono e a OTAN num dilema. Do ponto de vista logístico, seria assegurar uma linha vital de suprimentos; mas do ponto de vista geopolítico, Washington ainda tentou considerar a única alternativa que restava. A alternativa era voltar a discutir com o Paquistão, tentando conseguir a reabertura de duas estradas cujo trânsito está fechado. Isso, exatamente, é o que o Comandante do Estado-maior dos EUA, Martin Dempsey acaba de fazer.

Dempsey disse, em entrevista ao “Charlie Rose Show” dia 16/3,[3] que Washington está em contato “diretamente” e “privadamente” com Rawalpindi e que “estou pessoalmente otimista, que podemos reset as relações, de modo que atenda às necessidades dos dois lados.” Mencionou o general Ashfaq Kayani, comandante do exército paquistanês, com o qual teria tido “conversas absolutamente francas, sinceras”. Kayani disse que “fará o que puder”.

Dempsey chegou a jogar até “a carta da Índia”. Disse que o principal desafio para os EUA seria conseguir que os militares paquistaneses cedessem na certeza, enraizada entre eles, de que a Índia é “grande ameaça existencial contra o Paquistão”. (O general nada disse sobre o que Washington planeja fazer para espantar os medos paquistaneses.)

Bem visivelmente, vários modelos sobrepõem-se essa semana. A Rússia planeja jogar a luva e desafiar a estratégia de Washington para o Afeganistão, no momento da avaliação/renovação, essa semana, do mandado que as ISAF-EUA obtiveram do Conselho de Segurança. Os EUA, por sua vez, esperam ansiosamente algum resultado positivo das eleições parlamentares em Islamabad, que leve o Paquistão a reassumir a parceria de sempre com os EUA. E enquanto isso, um terceiro vetor gira, pendurado no ar: a fúria dos afegãos contra o massacre de Panjwayi.

O melhor que pode acontecer é que os afegãos engulam a versão “Sargento Bales”. Bales permanece preso, confinado em cela solitária, no Fort Leavenworth, no Kansas. Por curiosa ironia, exatamente ali, naquele forte, os dois generais, Dempsey e Kayani, foram colegas de classe, na Escola de Estudos Militares Avançados – onde estudaram Teatro de Operações.

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[1] 13/3/2012, Huffington Post, Bernard-Henri Lévy, “In Afghanistan, Between Plague and Cholera, There's Dr. Abdullah”, em http://www.huffingtonpost.com/bernardhenri-levy/afghanistan-abdullah-abdullah_b_1341268.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

URINANDO SOBRE AS NOSSAS CABEÇAS


Às vezes um ruído cênico sacode a monotonia da violência bélica norte-americana.Risos sobre cadáveres, por exemplo. Soldados urinando sobre corpos sem vida. A barbárie assusta, mas não é um ponto fora da curva institucional. Na nebulosa dissipação do último dia de 2011, o democrata eleito com a promessa de fechar Guantánamo, revalidou, por exemplo, o Ato de Autorização de Defesa Nacional que 'legaliza' a existência do campo de concentração e proíbe o ingresso de seus prisioneiros no território  americano; impede-os assim de recorrer ao direito ao habeas corpus, ao veto a prisão sem evidencia formal de crime e a outros marcos de legalidade que distinguem uma democracia de um estado de exceção. Dias depois, em cinco de janeiro, com a mesma ambígua desenvoltura, Obama anunciaria cortes no orçamento da defesa  compensados, advertiria em seguida, pela ênfase em operações secretas. Leia-se:  atos de sabotagem, guerra cibernética e ataques a alvos específicos 'de efeito imediato'. A julgar pelos assassinatos em série que já mataram quatro cientistas ligados ao programa nuclear iraniano, vetado pelo Império, a nova doutrina tem eficácia comprovada. O alívio aterrador de bexigas militares sobre cadáveres talebãs ampara-se, portanto, em precedente à altura: o jorro contínuo de cinismo institucional despejado pela grande bexiga do norte sobre as nossas cabeças. (LEIA MAIS AQUI)




Primavera Árabe de 2012: mais tempestades do que flores

A relação do Ocidente com o Oriente Médio é antiga e sempre teve como base os interesses da Europa e, mais recentemente, dos EUA. 2012 será de grande complexidade para a região. Salvo melhor juízo, será menos “primavera” e mais “outono”, repleto de tempestades. E serão as forças do Ocidente, principalmente os EUA, que definirão a velocidade da democratização e a reconquista da dignidade do mundo árabe. Mas, apenas se for conveniente ao seu próprio projeto. O artigo é de Mohamed Habib.

Quando o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo num gesto de protesto, acabou, sem querer, acendendo as chamas de revoltas populares em vários países árabes. Uma análise coerente dessas revoltas e suas perspectivas para 2012, deve considerar duas questões : a geopolítica e a econômica. Além disso, as interferências externas, em especial as do Ocidente dominante, que influenciam cada país do mundo árabe.

A relação do Ocidente com o Oriente Médio é antiga e sempre teve como base os interesses da Europa e, mais recentemente, dos Estados Unidos. A fase atual, é resultado dos interesses do Ocidente pós Primeira Guerra Mundial e envolve a localização e os recursos energéticos do mundo árabe. Os EUA, 3º maior produtor de petróleo e 2º maior de gás natural do planeta, não é visto como produtor e sim como grande consumidor, pois precisa do dobro da sua produção para garantir seu padrão de vida. A Europa, por sua vez, depende fortemente do gás e do petróleo árabes, principalmente da Líbia.

Para manter o consumo energético nos países árabes em cerca de 3%, foi crucial a criação de governos tiranos e/ou corruptos, protegidos pelo Ocidente, para governar os povos da região. Os países árabes foram agrupados em duas categorias, os produtores e os não produtores de petróleo e gás natural. Os primeiros propiciaram um padrão sócio-econômico mais confortável ao seu povo, ao passo que os segundos, ofereceram a miséria e a opressão. Ambos tinham em comum o estabelecimento de regimes não democráticos e de não desenvolvimento.

O Egito, um país rico por sua agricultura, turismo, pedágio do Canal de Suez e indústria, conta hoje com mais de 42% de seu povo abaixo da linha da pobreza e uma dívida externa de 32 bilhões de dólares. Com o sucesso dos levantes populares, a mídia britânica revelou que o ditador Mubarak, em 30 anos de poder, acumulou mais de 70 bilhões de dólares em bancos europeus. O Egito é considerado estratégico, pois em 42 anos, tanto Sadat quanto Mubarak, foram importantes interlocutores e representantes dos interesses do Ocidente e de Israel no Oriente Médio. Além disso, o Canal de Suez, que liga o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, é de grande importância para as navegações bélicas e comerciais.

A Líbia é fundamental para o abastecimento energético da Europa, o que justifica a intervenção da OTAN e a participação na queda e na morte de Kaddafi. Uma situação equivalente à intervenção dos EUA no Iraque e à morte de Saddam Hussein. O Iêmen, embora um país pobre, possui localização geográfica que permite total controle das navegações marítimas na conexão do Mar Vermelho com o Golfo de Aden e o Oceano Índico. O ditador Abdullah Saleh, que após meses de protestos e muita violência contra seu povo, terminou saindo no final de 2011, não sem antes deixar o seu vice-presidente no comando do estado que continua baixando a repressão. Saleh é um aliado fiel do Ocidente e dos monarcas da Península Arábica.

O que ficou claro nas declarações do o embaixador dos EUA naquele país, que classificiou de “provocações desnecessárias” as manifestações civis contra o regime e os seus assassinatos. A Síria não conta com recursos energéticos no seu território e sua localização geográfica não tem grandes significados geopolíticos. No entanto, Síria e Irã representam as últimas duas bases de aliados do eixo Rússia-China, que representam forças antagônicas aos EUA.

No início dos levantes árabes, EUA e Europa não expressavam suas preocupações e declararam apoio aos ditadores. Com o crescimento dos movimentos e o enfraquecimento dos regimes, o Ocidente passou a apoiar os movimentos, fornecendo armas e proteções aéreas. Um exemplo marcante é o apoio dos EUA à Junta Militar que governa o Egito atualmente. Os EUA não só silenciam diante dos massacres das últimas semanas contra os manifestantes civis, como também fornecem armas para essa opressão. As forças armadas, que assumiram o comando temporariamente após a queda do ditador Mubarak, tentam manobras desesperadas para continuar no poder. Porém, esta é uma situação que a sociedade egípcia não mais aceitará.

Diante deste quadro, 2012 será de grande complexidade para o Oriente Médio. Salvo melhor juízo, será menos “primavera” e muito mais “outono”, repleto de tempestades e destruições. E serão as forças do Ocidente, principalmente os EUA, que definirão a velocidade da democratização e a reconquista da dignidade do mundo árabe. Mas, apenas se for conveniente ao seu próprio projeto.

(*) Mohamed Habib é professor da UNICAMP e Vice-presidente do Instituto de Cultura Árabe (ICArabe)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Supostamente monstros, supostamente vis








A rede de televisão CNN divulgou o vídeo em que, segundo a Associated Press “supostos membros do corpo de fuzileiros navais americanos uniformizados supostamente urinam sobre cadáveres de militantes do grupo radical Taleban”.
Supostamente talibãs, devemos supor, com tanto suposto que se coloca diante do evidente.
O comando dos fuzileiros navais diz que está investigando e – pasmem – limita-se a dizer que isso não condiz com os “valores das Forças Armadas dos EUA”.
Que valores esperam de pessoas que são mandadas matar outras do outro lado do planeta, que jamais lhes fizeram coisa alguma? Nem mesmo no Afeganistão estava Osama Bin Ladem, mas no aliado Paquistão!
É essa a civilização ocidental que lá foi para tirar os “bárbaros fanáticos” da vida primitiva com aviões, mísseis, lasers, escudos, radares, quase invulneráveis?
Haverá uma indignação mundial, em poucas horas.
Porque já é criminoso que se produzam cadáveres. Profaná-los, é mais que isso, é monstruoso.
E agora não há George Bush a quem atribuir isso.
Barbárie é uma palavra por demais gentil para definir isto.
Monstruosidade é o nome, e nada suposto, disso.
E pensar que um soldado dos Estados Unidos, Bradley Manning, está sendo condenado por deixar vazar as provas dos atos criminosos do exército americano no Afeganistão e no Iraque.

ONDE MORA O PERIGO

**quatro soldados americanos riem e urinam em três cadáveres no Afeganistão: o filme postado no YouTube é mais um emblema da barbárie imperial auto-investida em escudo da civilização contra o suposto fanatismo islâmico** produção industrial caiu em novembro, pelo 3ºmês seguido, na zona do euro**PIB da Alemanha recuou 0,25 no 4º trimestre de 2011 reforçando a dinâmica recessiva na UE**vítima de atentado a bomba nesta 4ª feira, Mostafa Ahmadi Roshan é o 4º cientista do programa nuclear iraniano assassinado desde 2010** Teerã atribui ações a serviços secretos de Israel e EUA** em recente anúncio de cortes de gastos militares, Obama adiantou que a nova doutrina de segurança dos EUA vai privilegiar ações 'pontuais' de eficiência imediata, espionagem e guerra cibernética 


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Para além do besteirol do Fantástico



Líbia:
OTAN não aprendeu as duras lições do Afeganistão 24/7/2011, Patrick Cockburn, The Independenthttp://www.independent.co.uk/opinion/commentators/patrick-cockburn-nato-in-libya-has-failed-to-learn-costly-lessons-of-afghanistan-2319539.html

Ataques aéreos são a principal arma com que as potências ocidentais contam para controlar o Oriente Médio e o sul da Ásia, sem ter de pôr soldados em terra, onde as mesmas potências podem sofrer graves baixas, além de humanas, também políticas. Grã-Bretanha, França e EUA só têm poder aéreo para fazer guerra contra a Líbia, que se arrasta há quatro meses. Os EUA também estão ampliando a ofensiva aérea no Iêmen, onde a CIA deve começar a operar à distância os aviões-robôs drones, com soldados em terra; e prosseguem os ataques de aviões-robôs também no noroeste do Paquistão. Também no Iraque, de onde se espera que os EUA se retirem em breve, a população da cidade de Amarah, semana passada, foi aterrorizada por ataques de jatos bombardeiros.

O emprego de forças aéreas como policiais coloniais na Região tem história longa e sangrenta, e sempre, no longo prazo, mostrou-se ineficaz. O piloto da OTAN, que bombardeou Ain Zara ao sul de Trípoli no início desse mês com certeza jamais ouvir contar que seu ataque aconteceu quase exatamente 100 anos depois de a mesma cidade ter sido atingida por duas bombas lançadas de um avião italiano, em 1911.

O ataque aéreo italiano foi o primeiro da história, lançado pouco depois de a Itália ter invadido e que depois viria a ser a Líbia, durante um dos muitos conflitos com o Império Otomano. O primeiro voo de reconhecimento militar tomou uma rota próxima de Benghazi em outubro de 1911 e dia 1º de outubro o subtenente Giulio Gavotti tornou-se o primeiro aviador a despejar bombas. Voou baixo sobre um campo turco em Ain Zara e ali despejou quatro granadas de 4,5lb que levava numa sacola de couro no cockpit. Os turcos protestaram que as bombas de Gavotti atingiram um hospital e feriram vários civis.

Os prós e contras já poderiam ter sido constatados, ali. Não que os ataques aéreos sejam sempre fúteis. Eu estava em Bagdá durante o bombardeio dos jatos norte-americanos em 1991 e depois, novamente, durante a operação “Raposa do Deserto” em 1998. Acocorado num canto do meu quarto de hotel, vendo as colunas de fogo surgirem pela cidade e a patética reação do fogo antiaéreo, foi experiência limite. Por outro lado, encurralado num abrigo a oeste de Beirute durante as guerras civis, foi ainda pior, em certo sentido, porque durou mais tempo e tudo era menos previsível. Em Bagdá, eu supunha que os norte-americanos soubessem contra que alvos atiravam, se por mais não fosse, por razões de ‘Relações Públicas’. Mas minha confiança logo acabou, quando mataram cerca de 400 civis num abrigo em Amariya.

Por mais assustador que seja sentir-se alvo de bombardeio aéreo, as forças aéreas sempre superestimam a própria importância. Jamais são precisos como alegam ser; a eficácia de ataques aéreos depende integralmente de informações de inteligência. Bombardear dá mais certo como arma para aterrorizar civis; como arma de punição generalizada. Contra soldados bem preparados, como os guerrilheiros do Hezbollah, os bombardeios aéreos sempre funcionaram mal.

A desastrosa aventura de Israel no Líbano poderia bem entrar para a história como a mais espantosamente ineficaz guerra aérea de todos os tempos, não fosse o dia em que França e Grã-Bretanha resolveram aliar-se àquelas milícias entusiásticas, mas sem qualquer treinamento, para derrubar o coronel Muammar Gaddafi.

Não começou assim. Quando os aviões da OTAN atacaram pela primeira vez, foi apenas para impedir que os tanques de Gaddafi avançassem pela estrada, de Ajdabiya rumo à Benghazi dos ‘rebeldes’. Esses ataques foram efetivos. Mas o objetivo foi repentinamente alterado, e a coisa converteu-se em guerra sem prazo para terminar para derrubar Gaddafi; a OTAN, então, passou a dar apoio aéreo aos ‘rebeldes’. Muito parecido com o que fizeram as forças imperiais francesas na África Ocidental, é espantoso que essa aberta intervenção estrangeira contra país soberano ainda não tenha sido adequadamente criticada na Grã-Bretanha.

Os ‘rebeldes’ sempre foram muito mais fracos do que seus patrocinadores da OTAN divulgaram. Claro que quem queira pode reconhecê-los como legítimo governo da Líbia, mas não é o que pensam os líbios. O grupo internacional Crisis Group, em geral sempre bem informado, diz que um item chave “na capacidade de Gaddafi para permanecer em seu posto sem oponentes no oeste da Líbia é o número ínfimo de defecções, até agora, entre as principais tribos que, tradicionalmente, são aliadas do regime”. A verdade é que uma OTAN dividida escolheu um dos lados de uma guerra civil na Líbia – exatamente como fizera antes no Afeganistão; e como EUA e Grã-Bretanha fizeram no Iraque.

Em ataques aéreos, a primeira semana é, quase sempre, a melhor. Ao final de uma primeira semana de ataques bem planejados e bem executados, os alvos mais expostos do inimigo já devem estar destruídos; nesse momento, o inimigo já aprendeu a esconder-se, dispersou as forças e evita expor-se como alvo. No caso da Líbia, as tropas pró-Gaddafi começaram a usar caminhões velhos com uma metralhadora pesada, pela retaguarda dos rebeldes. A OTAN atingiu várias vezes os próprios aliados, com efeitos devastadores.

Até agora não houve na Líbia ataque aéreo da OTAN com morte de grande número de civis. Depois que isso aconteceu pela primeira vez no abrigo de Amariya em Bagdá em 1991, a seleção de alvos passou a ter de ser confirmada pelo próprio comandante do exército, Colin Powell; e não houve outros ataques aéreos contra a capital. Os generais da Força Aérea costumam elogiar a precisão de suas armas maravilhosas, capazes de atingir alvos pontuais minúsculos. Mas só muito raramente explicam que essa ‘precisão’ depende de informação de inteligência também muito precisa.

Essas informações de inteligência são, quase sempre, confusas. Eu estava em Herat, no oeste do Afeganistão em 2009, quando jatos norte-americanos mataram 147 pessoas em três vilas ao sul. As bombas pulverizaram as casas de tijolos de barro e destroçaram os moradores, cujos cadáveres foram recolhidos aos pedaços. Naquelas vilas, em território ‘profundo’ dos Talibã, alguns veículos norte-americanos e afegãos haviam sido emboscados; assustados e sem saber o que fazer, os soldados requisitaram apoio aéreo. Aos gritos de “Morte aos EUA” e “Morte ao Governo”, sobreviventes enfurecidos recolheram numa caçamba os restos dos mortos e, com a caçamba atrelada a um trator, levaram os cadáveres até o gabinete do governador em Farah.

A resposta do secretário de Defesa dos EUA, Robert Gates, àqueles eventos, foi dizer que os Talibã haviam invadido as vilas, jogando granadas. Mentiras desse tipo podem ter algum efeito interno, nos EUA, mas enfureceram ainda mais os afegãos, que, diariamente, viam pela televisão as crateras abertas pelas explosões. A campanha aérea na Líbia terminará em desastre semelhante? Já é pequena a tolerância nos EUA e na Grã-Bretanha em relação à guerra na Líbia. E qualquer notícia de morte em massa de civis pode gerar indignação pública em toda a Europa e nos EUA.

Desde quando, há 100 anos, quando o subtenente Gavotti jogou aquela granadas pala janela do cockpit, os governos ocidentais têm-se deixado seduzir pela ideia de que podem vencer guerras só com aviões – hoje, os aviões-robôs drones tripulados à distância. Parece ser guerra barata, que não compromete soldados nem os expõe a riscos em campo. Tarde demais descobre-se, como já se vê hoje na Líbia, que só muito excepcionalmente se vencem guerras, pelo ar.

RIZOMA BEATRICE

domingo, 8 de maio de 2011

Carta de um Nobel da Paz a Barack Obama



Quando te outorgaram o Prêmio Nobel da Paz, do qual somos depositários, te enviei uma carta que dizia: “Barack, me surpreendeu muito que tenham te outorgado o Nobel da Paz, mas agora que o recebeu deve colocá-lo a serviço da paz entre os povos; tens toda a possibilidade de fazê-lo, de terminar as guerras e começar a reverter a situação que viveu teu país e o mundo”. No entanto, ao invés disso, você incrementou o ódio e traiu os princípios assumidos na campanha eleitoral frente ao teu povo, como terminar com as guerras no Afeganistão e no Iraque e fechar as prisões em Guantánamo e Abu Graib no Iraque. O artigo é de Adolfo Pérez Esquivel.

Estimado Barack, ao dirigir-te esta carta o faço fraternalmente para, ao mesmo tempo, expressar-te a preocupação e indignação de ver como a destruição e a morte semeada em vários países, em nome da “liberdade e da democracia”, duas palavras prostituídas e esvaziadas de conteúdo, termina justificando o assassinato e é festejada como se tratasse de um acontecimento desportivo.

Indignação pela atitude de setores da população dos Estados Unidos, de chefes de Estado europeus e de outros países que saíram a apoiar o assassinato de Bin Laden, ordenado por teu governo e tua complacência em nome de uma suposta justiça. Não procuraram detê-lo e julgá-lo pelos crimes supostamente cometidos, o que gera maior dúvida: o objetivo foi assassiná-lo.

Os mortos não falam e o medo do justiçado, que poderia dizer coisas inconvenientes para os EUA, resultou no assassinato e na tentativa de assegurar que “morto o cão, terminou a raiva”, sem levar em conta que não fazem outra coisa que incrementá-la.

Quando te outorgaram o Prêmio Nobel da Paz, do qual somos depositários, te enviei uma carta que dizia: “Barack, me surpreendeu muito que tenham te outorgado o Nobel da Paz, mas agora que o recebeu deve colocá-lo a serviço da paz entre os povos; tens toda a possibilidade de fazê-lo, de terminar as guerras e começar a reverter a situação que viveu teu país e o mundo”.

No entanto, ao invés disso, você incrementou o ódio e traiu os princípios assumidos na campanha eleitoral frente ao teu povo, como terminar com as guerras no Afeganistão e no Iraque e fechar as prisões em Guantánamo e Abu Graib no Iraque. Não fez nada disso. Pelo contrário, decidiu começar outra guerra contra a Líbia, apoiada pela OTAM e por uma vergonhosa resolução das Nações Unidas. Esse alto organismo, apequenado e sem pensamento próprio, perdeu o rumo e está submetido às veleidades e interesses das potências dominantes.

A base fundacional da ONU é a defesa e promoção da paz e da dignidade entre os povos. Seu preâmbulo diz: “Nós os povos do mundo...”, hoje ausentes deste alto organismo.

Quero recordar um místico e mestre que tem uma grande influência em minha vida, o monge trapense da Abadia de Getsemani, em Kentucky, Tomás Merton, que diz: “a maior necessidade de nosso tempo é limpar a enorme massa de lixo mental e emocional que entope nossas mentes e converte toda vida política e social em uma enfermidade de massas. Sem essa limpeza doméstica não podemos começar a ver. E se não vemos não podemos pensar”.

Você era muito jovem, Barack, durante a guerra do Vietnã e talvez não lembre a luta do povo norteamericano para opor-se à guerra. Os mortos, feridos e mutilados no Vietnã até o dia de hoje sofrem as consequências dessa guerra.

Tomás Merton dizia, frente a um carimbo do Correio que acabava de chegar, “The U.S. Army, key to Peace” (O Exército dos EUA, chave da paz): “Nenhum exército é chave da paz. Nenhuma nação tem a chave de nada que não seja a guerra. O poder não tem nada a ver com paz. Quanto mais os homens aumentam o poder militar, mais violam e destroem a paz”.
Acompanhei e compartilhei com os veteranos da guerra do Vietnã, em particular Brian Wilson e seus companheiros que foram vítimas dessa guerra e de todas as guerras.

A vida tem esse não sei o quê do imprevisto e surpreendente fragrância e beleza que Deus nos deu para toda a humanidade e que devemos proteger para deixar às gerações futuras uma vida mais justa e fraterna, reestabelecendo o equilíbrio com a Mãe Terra.

Se não reagirmos para mudar a situação atual de soberba suicida que está arrastando os povos a abismos profundos onde morre a esperança, será difícil sair e ver a luz; a humanidade merece um destino melhor. Você sabe que a esperança é como o lótus que cresce no barro e floresce em todo seu esplendor mostrando sua beleza.

Leopoldo Marechal, esse grande escritor argentino, dizia que: “do labirinto, se sai por cima”.

E creio, Barack, que depois de seguir tua rota errando caminhos, você se encontra em um labirinto sem poder encontrar a saída e te enterra cada vez mais na violência, na incerteza, devorado pelo poder da dominação, arrastado pelas grandes corporações, pelo complexo industrial militar, e acredita ter todo o poder e que o mundo está aos pés dos EUA porque impõem a força das armas e invade países com total impunidade. É uma realidade dolorosa, mas também existe a resistência dos povos que não claudicam frente aos poderosos.

As atrocidades cometidas por teu país no mundo são tão grandes que dariam assunto para muita conversa. Isso é um desafio para os historiadores que deverão investigar e saber dos comportamentos, políticas, grandezas e mesquinharias que levaram os EUA á monocultura das mentes que não permite ver outras realidades.

A Bin Laden, suposto autor ideológico do ataque às torres gêmeas, o identificam como o Satã encarnado que aterrorizava o mundo e a propaganda do teu governo o apontava como “o eixo do mal”. Isso serviu de pretexto para declarar as guerras desejadas que o complexo industrial militar necessitava para vender seus produtos de morte.

Você sabe que investigadores do trágico 11 de setembro assinalam que o atentado teve muito de “auto golpe”, como o avião contra o Pentágono e o esvaziamento prévios de escritórios das torres; atentado que deu motivo para desatar a guerra contra o Iraque e o Afeganistão, argumentando com a mentira e a soberba do poder que estão fazendo isso para salvar o povo, em nome da “liberdade e defesa da democracia”, com o cinismo de dizer que a morte de mulheres e crianças são “danos colaterais”. Vivi isso no Iraque, em Bagdá, com os bombardeios na cidade, no hospital pediátrico e no refúgio de crianças que foram vítimas desses “danos colaterais”.

A palavra é esvaziada de valores e conteúdo, razão pela qual chamas o assassinato de “morte” e que, por fim, os EUA “mataram” Bin Laden. Não trato de justificá-lo sob nenhum conceito, sou contra todas as formas de terrorismo, desde a praticada por esses grupos armados até o terrorismo de Estado que o teu país exerce em diversas partes do mundo apoiando ditadores, impondo bases militares e intervenção armada, exercendo a violência para manter-se pelo terror no eixo do poder mundial. Há um só eixo do mal? Como o chamarias?

Será que é por esse motivo que o povo dos EUA vive com tanto medo de represálias daqueles que chamam de “eixo do mal”? É simplismo e hipocrisia querer justificar o injustificável.

A Paz é uma dinâmica de vida nas relações entre as pessoas e os povos; é um desafio à consciência da humanidade, seu caminho é trabalhoso, cotidiano e portador de esperança, onde os povos são construtores de sua própria vida e de sua própria história. A Paz não é dada de presente, ela se constrói e isso é o que te falta meu caro, coragem para assumir a responsabilidade histórica com teu povo e a humanidade.

Não podes viver no labirinto do medo e da dominação daqueles que governam os EUA, desconhecendo os tratados internacionais, os pactos e protocolos, de governos que assinam, mas não ratificam nada e não cumprem nenhum dos acordos, mas pretendem falar em nome da liberdade e do direito. Como pode falar de Paz se não quer assumir nenhum compromisso, a não ser com os interesses de teu país?

Como pode falar da liberdade quanto tem na prisão pessoas inocentes em Guantánamo, nos EUA e nas prisões do Iraque, como a de Abu Graib e do Afeganistão?

Como pode falar de direitos humanos e da dignidade dos povos quando viola ambos permanentemente e bloqueia quem não compartilha tua ideologia, obrigando-o a suportar teus abusos?

Como pode enviar forças militares ao Haiti, depois do terremoto devastador, e não ajuda humanitária a esse povo sofrido?

Como pode falar de liberdade quando massacra povos no Oriente Médio e propaga guerras e tortura, em conflitos intermináveis que sangram palestinos e israelenses?

Barack, olha para cima de teu labirinto e poderá encontrar a estrela para te guiar, ainda que saiba que nunca poderá alcançá-la, como bem diz Eduardo Galeano. Busca a coerência entre o que diz e faz, essa é a única forma de não perder o rumo. É um desafio da vida.

O Nobel da Paz é um instrumento ao serviço dos povos, nunca para a vaidade pessoal.

Te desejo muita força e esperança e esperamos que tenha a coragem de corrigir o caminho e encontrar a sabedoria da Paz.

Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz 1980.
Buenos Aires, 5 de maio de 2011