Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sábado, 12 de outubro de 2013

Oliver Stone: No esforço para reescrever a história, Vietnã agora é símbolo de heroísmo



“Nós usamos armas químicas no Vietnã”

Entrevista com Oliver Stone e Peter Kuznick, reproduzida no Counterpunch

Por Satoko Oka Norimatsu e Narusawa Muneo

tradução de Heloisa Villela

O semanário japonês Shukan Kinyobi e o Asia-Pacific Journal: Japan Focus entrevistaram conjuntamente Oliver Stone e Peter Kuznick, coautores de The Untold History of the United States (A história dos Estados Unidos que não foi contada), um documentário dividido em dez episódios (transmitido pela Showtime Network, 2012-2013) e acompanhado de um livro com o mesmo título (Simon and Schuster, 2012), no dia 11 de agosto, em Tóquio.
Era o oitavo dia daa turnê de 12 dias pelo Japão, logo depois de visitarem Hiroshima e Nagasaki, para participar do 68º aniversário do bombardeio atômico nos dias 6 e 9 de agosto, respectivamente, e antes da visita a Okinawa, para testemunhar a realidade da ocupação militar que continua, com a base norte-americana, e a resistência a ela.
Stone e Kuznick, descontraídos com alguns drinks no fim da tarde, entre dois importantes eventos públicos em Hibiya, Tóquio, conversaram sobre a importância de se ensinar e aprender história, sobre “a ameaça à civilização” como “arma da verdade” para o povo, para se defender do poder do império norte-americano, cuja imagem foi moldada na contínua distorção da história e na glorificação de guerras passadas.
Isso também se aplica ao Japão e à negação do governo dos Estados Unidos a respeito das agressões em suas guerras passadas. A entrevista versa livremente sobre os cinco anos de colaboração entre eles noUntold History.
Na comemoração dos 50 anos da Guerra do Vietnã, em 2012, Oblama refletiu sobre a guerra “com reverência solene a respeito do valor da geração que serviu com honra”, e deu início a um programa de 13 anos para “prestar homenagem aos homens e mulheres que responderam ao chamado do dever com coragem e heroísmo”. Por que as experiências da Guerra do Vietnã estão sendo glorificadas agora? A guerra não teve resultados desastrosos, como você argumenta no livro?
Stone: Houve, com certeza, um sopro para a direita tanto nos Estados Unidos como, agora, no Japão. A guinada para a direita começou com Reagan, apesar de algumas pessoas argumentarem que começou com o Nixon, e com Johnson, depois da morte do Kennedy – você  pode dizer isso.
Mas a guinada para a direita se acelerou sob o Reagan, e Reagan foi o mais agressivo na redefinição da Guerra do Vietnã  como, não uma desgraça, mas algo para se orgulhar. Ele chamou o negativismo com relação à guerra de “Síndrome do Vietnã”, que era bastante forte considerando-se que apenas dez anos antes tínhamos saído do Vietnã e estávamos realmente perdidos.
Acho que Reagan acreditava que ele podia reconstruir a sociedade norte-americana dando a ela poder econômico e propósito histórico, como Abe está tentando fazer no Japão. Você reescreve a história, e você redefine a economia.
Reagan começou com isso e George H.W. Bush fez ainda melhor. Foi ele que sofreu com o “fator wimp [fracote]”, mas depois da invasão do Kuwait em 1991 anunciou que “o espectro do Vietnã foi enterrado para sempre sob as areias do deserto da Península Arábica”, e depois isso foi reforçado pelo Clinton.
Essa agora é a tradição. O Obama recentemente deu uma declaração no aniversário de 60 anos do armistício da Guerra da Coréia para dizer que “a guerra não terminou em empate. A Coréia foi uma vitória”. Ele elogiou os militares norte-americanos de forma extravagante.
Então, esse é um tipo de síndrome diferente nos Estados Unidos. Não importa o que a história diga, os militares são reverenciados. Se você analisar as declarações do Obama no aniversário de 50 anos na Guerra do Vietnã, ele não fala realmente da guerra quando diz: “Nós refletimos com solene reverência sobre o heroísmo de uma geração que serviu com honra”.
Você não pode nunca questionar o heroísmo dos seus soldados. A maior parte dos veteranos que serviu na guerra quer se sentir como se tivesse servido com honra, mesmo que fosse uma causa perdida ou uma causa ruim.
Por outro lado, por trás disso existe uma revisão da história na qual ele está basicamente dizendo que a guerra no Vietnã foi uma causa nobre. Eu acho que foi uma causa perdida, uma causa ruim. A batalha do futuro é a história. História, memória da história e a memória correta da história é são o equilíbrio de nossa civilização.
Sei disso  no meu coração: você pensa nisso, na sua própria vida, vidas anteriores, minha vida, sua vida, o que temos?
Aonde estamos agora? Nós todos temos uma história. Temos amores, ódios, casos – atravessamos a vida e cada um de nós tem algo a dizer sobre a história.
Aqueles que se lembram da história e têm uma compreensão maior sobre si mesmos se saem melhor na vida, de uma forma geral.
Eles são capazes de se avaliar enquanto amadurecem, podem mudar como eu mudei, eles evoluem, se a evolução vem do fato de saber quem você é. Então, o próprio conceito de negar seu próprio passado é mentir no nível mais elevado. Vai direto ao âmago de cada indivíduo e ao âmago de uma nação.
Kuznick: A síndrome do Vietnã é muito importante. O ataque à síndrome do Vietnã começou assim que a guerra acabou.
Durante seu governo, Gerald Ford disse, “temos de parar de olhar para o passado, temos de olhar para o futuro”. Isso foi uma semana antes da queda de Saigon, no dia 30 de abril de 1975, o fim da Guerra do Vietnã.
O processo começou deste ponto, para esquecer o Vietnã, para apaga-lo da história – as causas e as consequências do Vietnã.
Em 1980 a revista predileta dos neocons, Commentary, editada por Norman Podhoretz, dedicou uma edição completa à síndrome do Vietnã. Os conservadores entenderam, naquele momento, que a não ser que pudessem mudar a percepção do povo norte-americano a respeito da Guerra do Vietnã, eles não poderiam mais intervir quando bem entendessem em outro países e não poderiam expandir o que veio a ser o Império Americano.
Por isso eles fizeram um esforço deliberado para mudar a narrativa sobre a Guerra do Vietnã, porque o Vietnã havia se tornado um pesadelo para os norte-americanos naquele momento. Algumas pessoas consideraram isso um erro, mas muitos de nós entendemos que era um exemplo extremo e horroroso da política intervencionista norte-americana que estava sendo implantada no mundo por décadas.
A direita fez um esforço sistemático para limpar a história porque ela sabia que era essencial para construir o tipo de império que ela queria atingir e, como diz o Oliver, o Reagan perseguiu esse objetivo mais agressivamente.
Mas também vimos exemplos com o Carter. O Carter começou sua administração como progressista, mas no fim ele já tinha migrado para a direita e estava falando da nobreza da luta no Vietnã.
O Reagan abraçou a causa diretamente, como o Clinton também, que em seus tempos de estudante se opôs ativamente à guerra. Se você for ler o que ele diz, foi o mesmo que o Ford, o Reagan e todos os outros: a nobreza da causa – as tropas norte-americanas eram ótimas, simplesmente porque lutaram e morreram, e você tem que balançar a bandeira para as tropas norte-americanas.
Isso também foi essencial para os neocons defensores do “novo século americano”.
Pessoas por trás de George W. Bush novamente reescreveram a história do Vietnã. A confusão conservadora tem sido deliberada e sistemática. Até mesmo nos nomes. Nos Estados Unidos, nós nos referimos à “Guerra no Vietnã”. Nós falamos sobre “a invasão soviética do Afeganistão”, mas não falamos sobre a “invasão norte-americana do Vietnã”.
Mas foi isso – uma invasão sangrenta que começou lentamente e cresceu ao longo dos anos, na qual os Estados Unidos usaram todo tipo de arma letal, com exceção da bomba atômica. Nós tínhamos zonas de tiro livres nas quais podíamos atirar e matar em qualquer coisa que se movesse.
Foi uma guerra de atrocidades. As pessoas dizem que o massacre de My Lai foi uma atrocidade, mas o consideram uma aberração. Mas se você estudar a história de verdade, ler o novo livro do Nick Turse, ou assistir os filmes de Oliver, vai ver que o Vietnã foi uma série de atrocidades.
É por isso que os vietnamitas ficam surpresos com o foco dos americanos em My Lai. Eles sabem que May Lais, em escalas menores, estavam acontecendo em todo o país com uma regularidade chocante.
O Memorial do Vietnã em Washington, DC, é  forte e emocionante. Ele tem os nomes de todos os 58.286 americanos mortos na guerra. A mensagem é que a tragédia no Vietnã  foi o fato de que 58.286 americanos morreram. Isso é realmente trágico.
Robert McNamara (secretário da Defesa de 1961 a 1968) veio na minha sala de aula e disse que aceitava o fato de que 3,8 milkões de vietnamitas morreram. O memorial não tem os nomes dos 3,8 milhões de vietnamitas ou as centenas de milhares de laosianos, cambojanos e outros.
O memorial da guerra em Okinawa conta uma outra história.  Ele tem os nomes de todos, japoneses, norte-americanos e todos os que morreram na Batalha de Okinawa, e isso é uma declaração real a respeito dos horrores da guerra.
O Memorial do Vietnã, não. Se a parede de 250 pés de comprimento do memorial do Vietnã tivesse todos os nomes de vietnamitas, laosianos e cambojanos, sabe qual seria o tamanho dela? Mais de seis quilômetros! Que declaração seria isso!
Mas agora existe uma campanha para esquecer. E o Obama participou dela quando deu as boas vindas às tropas que voltaram do Iraque. Obama é a voz do império, e um império requer esquecer, purgar, limpar o passado sobre o Vietnã, Iraque, Kuwait, El Salvador e até mesmo sobre a Segunda Guerra Mundial.
Nenhuma dessas histórias foi contada honesta e verdadeiramente nos Estados Unidos e por isso é tão importante lutar pela interpretação correta da história; de outro modo os líderes dos Estados Unidos vão repetir os crimes e atrocidades e escapar sem problemas, como fizeram no passado.

Vítimas do agente laranja no Vietnã (foto James Nachtwey)
Por mais de dez anos, desde o nascimento do século XXI, os Estados Unidos estão engajados na chamada “Guerra contra o Terror”. Parece que a avaliação norte-americana a respeito da guerra é ambígua, mas qual é a dimensão da sensação de fracasso lá? No fim nada mudou? Afinal sobre o que era essa guerra?
Kuznick: A “Guerra contra o Terror” é um absurdo desde o começo. Faz parte dessa experiência da Alice no País das Maravilhas olhar pelo vidro e ver o mundo de cabeça para baixo; você está em um mundo de absurdos.
Depois do 11 de setembro de 2001 os Estados unidos entraram em um mundo no qual os inimigos foram transformados nestas forças terrivelmente poderosas. O 11 de setembro foi um vacilo colossal do governo Bush.
O agente do FBI de Mineápolis, Coleen Rowley, estava tentando alertar o governo Bush de que havia pessoas aprendendo a pilotar aviões, que tinham interesse em aprender como pousar.
Houve vários alertas de que o Osama bin Laden e a Al Qaeda estavam planejando atacar os Estados Unidos. Oficiais do serviço de espionagem sabiam que um ataque era iminente e tentaram desesperadamente alertar Bush.
George Tenet, chefe da CIA, estava correndo por todo lado em Washington com o cabelo em chamas, tentando fazer com que alguém o ouvisse – Condoleezza Rice, Donald Rumsfeld, George Bush, Dick Cheney – e todos mandaram ele sumir.
Tinham assuntos mais importantes para resolver. Então antes de mais nada o 11 de setembro foi um fracasso completo do governo Bush, parte do serviço de inteligência, mas acima de tudo da liderança, e ao invés de olhar para esse problema como ele é – uma operação bem pensada e bem executada, um crime contra o povo norte-americano cometido por um grupo vil que precisava ser julgado pela justiça – eles transformaram isso em uma Guerra contra o Terror global e perseguiram a agenda neocon que prejudicou mais os Estados unidos do que a Al Qaeda poderia ter prejudicado em mil anos.
Zbigniew Brzezinski, cujo trabalho como anti-soviético Diretor de Segurança Nacional do governo Carter nós criticamos muito, definiu muito bem desde o começo. Ele disse que você não pode travar uma guerra contra uma tática. Quem é o verdadeiro inimigo?
O Bush disse que eles nos odiavam por causa da nossa liberdade. Que declaração mentirosa e absurda! “Eles nos odeiam por causa da nossa liberdade”! Os líderes dos Estados Unidos sabiam que havia problemas reais.
Nós não concordamos com os extremistas islâmicos nem aprovamos as táticas deles, mas havia problemas com a política norte-americana para Israel, a repressão aos palestinos e a presença de tropas americanas na Arábia Saudita, a terra sagrada deles.
Esses eram problemas reais. Não existe justificativa para o que eles fizeram. Foi um de uma série de ataques terroristas – o USS Cole, a bomba em Riad, os bombardeios na África – isso vinha acontecendo fazia tempo.
Mas Bush e Cheney decidiram usar o momento e o relatório do ano 2000. O Project for the New American Century dizia que ía levar um bom tempo para os Estados Unidos remilitarizarem e aumentarem os gastos com defesa da maneira que eles queriam a não ser que houvesse um “novo Pearl Harbor”.
Os Estados Unidos ganharam um novo Pearl Harbor, e eles cinicamente exploraram isso alimentando o medo dos norte-americanos de que eles estavam vivendo em um mundo tão hostil e perigoso, cercado de inimigos com capacidades assustadoras.
Essa mentalidade continuou e foi adotada pelo Obama. Bush, Cheney e Obama levaram isso tão longe a ponto de termos um estado de vigilância que foi exposto pelo Edward Snowden.
Apesar da guerra não beneficiar ninguém, o governo norte-americano parece não ter mudado sua política de guerra ou ter reduzido fundamentalmente os gastos com defesa, que consomem quase 40% do orçamento federal. A guerra é um programa inevitável para os Estados Unidos? Ele continua fazendo guerra por causa dos que lucram com ela dentro do governo?
Stone: Acho que é uma boa pergunta. Eu me lembro de quando era um garoto, aluno de história. A gente sempre ouve falar da guerra de 1812, a guerra revolucionária, depois você ouve falar da guerra contra os índios Creek, se pode considerá-la uma guerra, foi uma guerra contínua – existem batalhas contra os indígenas o tempo todo.
A Guerra Civil, a Guerra do México e depois o período da reconstrução sem guerras estrangeiras, até a guerra Hispano-Americana de 1898. Foi um longo período.
Então, os Estados Unidos tiveram uma história de guerra relativamente austera, mas certamente agressiva. Nós invadimos o Canadá em 1812 e fomos expulsos pelos britânicos novamente.
Quando chegamos à Primeira Guerra Mundial, éramos verdadeiros novatos em matéria de guerra. Eu acho que a Guerra civil foi extremamente sangrenta, mas a Primeira Guerra mundial foi um novo século, e os Estados Unidos mudaram.
Muitos norte-americanos recuaram depois da Primeira Guerra e eu acho que isso foi em parte o motivo de termos demorado tanto a entrar na Segunda Guerra Mundial.
Foi um sentimento muito forte de que estávamos sendo arrastados pelos impérios britânico e francês para a Primeira Guerra. Para não mencionar o papel desempenhado pelo banco Morgan. As pessoas estavam realmente furiosas nos anos 30, e com razão.
Nós não descartamos, mas a história americana não leva em conta o Comitê Nye, os interrogatórios dirigidos pelo senador Gerald Nye, de Dakota do Norte, a respeito dos lucros auferidos durante a Primeira Guerra Mundial.
Eu acho isso fascinante. Eu li alguns desses interrogatórios e fiquei revoltado porque, apesar de tudo que o Nye e outros críticos disseram ser verdade, nós tiramos as conclusões erradas e quando realmente era importante, na Espanha, que nós enfrentássemos o fascismo, nós não o fizemos.
É irônico como a história funciona. (Ele se vira para o Peter) Você quer continuar?

Os banqueiros da Brown Brothers Harriman, na Economist
Kuznick: Com certeza. Nós estamos tão focados em Hiroshima e Nagasaki nessa viagem, e nos temas relacionados aos Estados Unidos e Japão, que não tivemos oportunidade de falar sobre esses outros temas. Vamos falar de guerra agora. Vamos falar sobre o que é a guerra.
Smedley Butler, um almirante muito condecorado, disse que “a guerra é um mercado negro”.
Ele disse ser “um segurança de alta classe para os grandes negócios, para Wall Street, para os bancos… um gângster do capitalismo”.
Ele começou nas Filipinas e depois seguiu por todos os países nos quais liderou intervenções. Ele disse ser um laranja para os Brown Brothers Harriman.
O exército era o braço dos banqueiros e industriais porque traçarmos a história do império norte-americano desde os anos 1890 veremos que foi a depressão de 1893, nos Estados Unidos, que de certa forma marcou o começo.
Depois de 1893, os líderes dos Estados Unidos tinham duas saídas: distribuir a riqueza para que houvesse um número suficiente de consumidores para comprar os produtos americanos e promover a recuperação e sair da depressão, ou expandir além das fronteiras em busca de recursos, mão de obra barata e novos mercados.
O que os Estados Unidos fizeram? Se expandiram no exterior.
Stone: Eu fico curioso com isso. Quando Henry Wallace se tornou secretário da Agricultura, durante a depressão, ele adotou uma política de recuperação através da escassez. O que ele fez? Ele matou muitos porcos e cortou a produção de algodão.
Kuznick: Isso foi uma medida temporária. Ele odiava isso. Recuperação através da escassez vai contra os princípios mais básicos dos norte-americanos.
Uma abordagem semelhante ficou evidente na Lei de Recuperação da Indústria Natural. O que eles estavam tentando fazer era reduzir o superávit no mercado para aumentar os preços. Eles mataram os porcos, mas distribuíram ao povo norte-americano, assim ao menos Wallace alimentava os famintos em escala sem precedentes.
 Stone: Então, os Estados Unidos pagaram os fazendeiros para que não plantassem. É uma loucura.
Kuznick: É louco e Wallace disse isso na época
Stone: Mas tem uma coisa que eu quero dizer, e é um ponto importante. Wallace entendeu um ponto importante no mundo – comida. Se as pessoas plantam comida para o mundo, haverá paz. E acho que isso é muito verdadeiro, e tão básico porque quando você analisa a história do mundo, a escassez de comida produziu tantas guerras.
Eu não posso acredita no que ouvi no Japão nas últimas semanas. As pessoas falando de fome durante a guerra. Wallace endendeu que era realmente necessário produzir comida suficiente para alimentar todo mundo para que as pessoas não fossem à guerra por comida e recursos.
Kuznick: Por décadas, o milho híbrido do Wallace alimentou o mundo.
Stone: Um dos movimentos da história que o Peter me apontou foi que em 1940 Franklin Roosevelt escreveu uma carta ao Partido Democrata que dizia: “O Partido Democrata não pode olhar em duas direções ao mesmo tempo… ou vocês são a favor de Wall Street (dinheiro e lucro) ou são a favor das pessoas”.
Roosevelt deixou claro que o candidato dele era Henry Wallace e ele não concorreria a um terceiro mandato a não ser que Wallace fosse indicado. Foi uma carta poderosa, que o Partido Democrata deve reler a cada quatro anos e acordar, porque eles perderam essa visão.
Kuznick: Eu dei essa carta ao Ralph Nader e ele a citou em seu livro. Em retrospecto, pode ter sido um erro. Como o Oliver disse, o Partido Democrata perdeu seu rumo e está tropeçando no legado de Roosevelt e Wallace, na pós-crise dos mísseis em Cuba, do John Kennedy.
Agora [o Partido Democrata] defende a vigilância, defende a triplicação do número de soldados no Afeganistão, defende rebocar os banqueiros. Nós gostaríamos de pensar que os democratas são progressistas, mas com os Clinton e Obama, eles se tornaram administradores mais eficientes do império norte-americano.
Eles não questionam o império. Os republicanos são rudes. Os republicanos tentam impor o império à força. O Obama é mais inteligente. Ele sabe que pode impor o império através da enganação.
Ele descobriu a maneira de institucionalizar as políticas do Bush e torna-las características permanentes da vida norte-americana. É por isso que o porta-voz do Bush, Ari Fleischer, disse recentemente que nós estamos vivendo no quarto mandato do Bush. Isso não é verdade em certos aspectos da política doméstica, mas infelizmente é muito próximo da verdade na política externa. E em alguns aspectos, Obama é ainda pior do que o Bush.
Stone: Eu acredito em evolução. Eu entendo porque um país comete erros. Eu rezo para o meu país todas as manhãs nas minhas meditações. Eu levo pelo menos meia hora meditando. Eu rezo pelo meu país e pelo mundo. Gostaria que as pessoas pudessem aprender a ser mais doces. Mais delicadas.

O império americano não parece ter poderes eternos, principalmente por causa de suas dificuldades financeiras. Mas se você analisa a recente subserviência da União Europeia ao lidar com o caso do Edward Snowden, os Estados Unidos ainda parecem ter muito poder e controle. Para onde você acha que vai o império?
Stone: Essa é a razão pela qual estou por aqui, porque essa é uma boa história. Existe tensão. Não sabemos qual será o resultado. Ninguém nessa sala sabe, nem o Obama sabe. Esse é o  jogo.
Todo dia nós usamos toda nossa sensibilidade política e enviamos diplomatas ao exterior e nosso exército. Como continuamos sendo quem somos? É nisso que eles pensam. Ou como pensamos no futuro? Como eles fazem planos para isso?
Voce se dá conta que todos os dias acordamos neste Godzilla, nesta besta gigantesca mundial? Como vivemos com o monstro? Todos os dias temos milhões de homens trabalhando nas forças armadas, no complexo nacional de segurança, em toda parte do mundo.
Nós somos um império móvel massivo, maior do que qualquer coisa que qualquer pessoa já tenha sonhado. Esse é um lado da história. E o outro lado é a percepção errônea de que se não crescermos hoje, se não comermos mais, o que vai acontecer conosco?
O apetite do império é insaciável. É preciso responder a essa insegurança. É como se fosse um dragão dizendo, “o que vou comer hoje”? Você entende como isso pode ser ruim? Então, para o dragão dizer “eu não preciso comer tantos ovos, leões e árvores hoje. Posso sobreviver com menos”.
Essa é a tensão dos nossos tempos. É por isso que todas as pessoas como os hibakush e os ativistas pela paz estão trazendo força moral para o universo – budistas, católicos por todo o mundo. Existe uma energia enorme emergindo.
Acredite, eu posso sentí-la. Existe uma batalha enorme, como diz o Peter, entre o dragão armado e nós, que temos apenas a verdade como nossa arma, e acho que esse é o grande tema atual. E é por isso que ainda estou por aqui, caso contrário acho que morreria. Se os bandidos ganharem, não quero estar por perto.
Kuznick: O perigo advém da existência de um império com poderio militar ilimitado e uma visão moral bastante limitada, com controle econômico cada vez menor. Isso cria a situação mais perigosa de todas.
Impérios em queda puxam todos para baixo com ele. Países também podem fazer isso. Se Israel se sentir existencialmente ameaçado, é quase certo que usará suas armas nucleares. Os Estados Unidos perderam a autoridade moral e a visão filosófica e as gerações mais jovens estão perdendo a esperança num futuro melhor.
Stone: É toda essa garotada que aplaudiu a morte de Osama bin Laden. A maioria dos americanos achava que tudo estava indo bem. Aliás, uma pesquisa mostrou que 51% dos americanos na faixa dos 18 aos 29 anos acham que a Guerra do Vietnã foi uma boa guerra.
Kuznick: Porém, se você analisar as pesquisas sobre abolir as armas nucleares, esta mesma faixa etária é a favor. Então, o que estou dizendo é que eles estão confusos. Eles não têm uma compreensão clara da história.
A posição em que os Estados Unidos estão, armados até os dentes, capazes de destruir o mundo, mas perdendo poder, influência e autoridade moral. Nós a perdemos no 11 de setembro, nossa resposta com Abu Ghraib, com Guantánamo, a tortura, a Lei Patriota, vigilância massiva, as políticas belicistas de George Bush…
E vemos o que estão prontos para fazer na Ásia. Nós estamos militarizando o Pacífico para conter a China. Mas os Estados Unidos estão se tornando relativamente mais fracos, enquanto a China e outros países estão crescendo bem mais rápido.
A China gasta três vezes mais em infraestrutura do que os Estados Unidos. Em 2011, o PIB per capita da China foi apenas 9% do americano, mas foi o dobro do que era quatro anos antes.
Uma parte tão grande da nossa economia agora está baseada em finanças, na especulação. Os Estados Unidos não produzem como produziam antes. Nós estamos perdendo poder neste momento crucial no qual a China está crescendo, a Índia está crescendo e talvez o Japão esteja encontrando seu equilíbrio novamente.
Stone: Este é o mesmo argumento de quando a Grã-Bretanha estava perdendo poder porque a Alemanha estava ganhando em 1914, mas não subestime a Grã-Bretanha.
Nós somos o Império Romano. Eu me interesso pelo Império Romano porque ele não sucumbiu. O cristianismo foi imposto por Constantinopla, e de uma hora para outra o império se estendeu por quatrocentos, quinhentos anos.
Ele destruiu Jesus ali por 33 DC, Jerusalém em 70 DC. Ele tomou Roma 230 anos para abraçar o cristianismo. Pense nisso, nós podemos muito bem seguir o exemplo de Roma, abraçar alguma variação desta religião e encontrar nossa saída.

Obama preside um estado policial
Kuznick: Justamente. Ainda temos esperança. Muitos americanos odeiam o caminho que o país está segundo e querem um futuro diferente. Obama representava isso na mente dos norte-americanos e especialmente nas mentes dos jovens durante a primeira campanha. É por isso que, em parte, tenho tanta raiva dele, porque pegou os sonhos das novas gerações que acreditavam nele e os destruiu.
Stone: Império. Lembre-se, nenhum império dura para sempre. O Peter diz que o império nos Estados Unidos pode negar a história e superá-la, e falamos de Guerra nas Estrelas na nossa série –  como isso pode ser cruel, destruir o que está contra você  do espaço.
Nós nos tornaremos uma tirania. A pergunta é: a tirania pode durar?
Kuznick: E eu estou dizendo que não – não como tirania
Stone: A Alemanha durou… em 1941 ninguém podia parar a Alemanha, que grande momento para Hitler, até que, em 1943, ele começou a correr. Então, nenhum império dura para sempre. Isso é tudo que eu posso te dizer, mas o Império Romano desafiou a lógica durando mais porque você podia estar no Império Romano em 800 DC e ter um vestígio de civilização na Grécia e em outros lugares.
Kuznick: Mas o nosso objetivo é mudar a rota dos Estados Unidos, mudar antes que o país se torne uma tirania absoluta. Os Estados Unidos fazem coisas terríveis, mas existem outras coisas acontecendo por lá também.
Nós ainda temos a liberdade de fazer o tipo de documentário que fizemos e escrever os livros que escrevemos. Não minimize a importância que isso tem. As pessoas não são totalmente reprimidas nos Estados Unidos apesar de estarem nos monitorando e serem fisicamente capazes de nos reprimir.
Existe muitas pessoas, inclusive no poder e nas forças armadas, que desafiam a noção de que os Estados Unidos devam se tornar uma tirania, um estão de segurança nacional total, o pior tipo de ditadura.
Nós não sabemos para que lado os Estados Unidos irão. Meu medo é de que ao invés de afundar, nós arrastemos o resto do mundo conosco, mas é isso que estamos tentando evitar. Nós estamos em uma encruzilhada histórica especial.
Nosso objetivo é garantir que tenhamos um futuro para que as gerações futuras façam a coisa certa, mas existe a possibilidade de explodirmos tudo antes que isso aconteça. Nossa missão é atravessar esse período de trevas para que haja um futuro.
O Oliver diz que ele não espera ver isso na vida dele e, realisticamente, ele pode estar certo, mas nosso objetivo é garantir que haja um futuro.
Stone: Acho que muita gente, através da história, se sentiu da mesma forma. Todo mundo diz que é uma crise agora.
Acho que em 800 DC, se você vivesse na periferia da Grécia ou da Turquia, se sentiria da mesma forma. Todo mundo cria suas crises em seu próprio tempo, então essa é uma história antiga.
Kuznick: Mas é uma história nova, de certa forma, porque os Estados Unidos têm armas nucleares capazes de acabar com a vida no planeta. Em 800 DC eles não podiam acabar com a vida no planeta. Eles podiam sair por aí matando todo mundo sistematicamente mas isso não se compara a uma guerra nuclear.
Stone: Isso é cruel, quando alguém vem te matar.
Por falar em crueldade, nós vimos a crueldade do exército japonês em Nagasaki – exposições sobre o Massacre de Nanking, escravas sexuais dos militares, e a unidade 731 no Museu de Oka Massaharu. Os Estados Unidos também, mesmo depois do uso da bomba atômica, usou armas cruéis como o agente laranja, armas de urânio empobrecido, bombas cluster, drones. A natureza da guerra é cruel, mas no caso dos Estados Unidos parece desenfreado. Existe algum significado histórico nessa crueldade dos Estados Unidos?
Stone: Eu não acredito que os Estados Unidos tenham sido tão cruéis como a Alemanha e o Japão foram. Quer dizer, eu estava no Vietnã. Eu vi o agente laranja ser jogado sobre nós várias vezes. Eu ainda não sei.
Talvez eu venha a ser uma vítima disso. Não penso sobre isso muito, mas sei que muitas pessoas dizem ter sido. Nós vimos o resultado com os vietnamitas. O agente laranja foi o auge da nossa crueldade. Apesar de termos criado o agente mostarda na Primeira Guerra Mundial, nunca o usamos.
A bomba atômica e o agente laranja foram os piores. Quando o Obama fala da Síria e diz que a linha vermelha para a Síria é o uso de armas químicas, que hipócrita filho da puta! Por que ele não olha para a nossa própria história?
Ele provavelmente nem admitiria que usamos armas químicas no Vietnã. E nós fizemos muito barulho porque Saddam Hussein usou armas químicas quando estávamos tentando justificar a invasão do Iraque.
Kuznick: Mas quando Saddam as usou contra os iranianos, nós interferimos por ele na ONU, esvaziando uma resolução que condenava o uso das armas química no Iraque explicitamente. Ele era nosso aliado.
E depois que ele as usou contra os curdos do Iraque em Halabjah, em 1988, os Estados Unidos aumentaram a ajuda financeira para aquele regime vil.
Stone: Então, quem ganha dinheiro com isso? A Dow Chemical lucrou imensamente com o Vietnã mas os estudantes expulsaram os representantes da empresa dos campus universitários.
Mas crueldade, não. Crueldade não é da natureza humana. Existem sempre soldados cruéis em todo país do mundo, pessoas que são racistas, que são estúpidas. Mas como política, os Estados Unidos… veja a simulação de afogamento.
Nós fazemos, mas sempre recuamos, enquanto você tem que admitir que os alemães e japoneses adotaram a crueldade com toda força durante anos. Se eles tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial, nós estaríamos experimentando a Unidade 731 na Manchúria.
Kuznick: Nós não sabemos. É uma dessas incógnitas porque existem outras facetas do Japão também. A crueldade japonesa era extraordinária, mas nós sabemos que os norte-americanos também foram muito cruéis com os japoneses.
Eles executaram prisioneiros de guerra e arrancaram seus dentes de ouro com baionetas. Nós fervemos seus crânios durante a Segunda Guerra e os soldados norte-americanos enviaram os crânios para as namoradas deles. Nós cortamos as orelhas deles. E somamos algumas atrocidades nossas – como bombardear mais de 100 cidades japonesas e as bombas atômicas para as quais não existe justificativa – moralmente ou militarmente – apesar de sete décadas de distorções.
A guerra por si só transforma pessoas e nações em bestas, não todo mundo, mas um número suficiente de pessoas, especialmente quando incentivadas por seus líderes.
Aí você tem o Massacre de My Lai. Aqueles soldados não eram monstros. Eram os escoteiros. Eram os meninos que namoravam sexta-feira à noite no estacionamento. Não começaram como monstros. Mas os Estados Unidos, como disse D. H. Lawrence, “a alma americana é dura, isolada, estoica e assassina”.
Martin Luther King, no discurso “I  have a dream” pediu por um mundo sem racismo. Que tal um mundo sem guerra? Que tipo de liderança é necessário ter para alcançar isso?
Kuznick: O sonho de Martin Luther King não era apenas de igualdade racial. Ele foi um dos primeiros defensores da eliminação das armas nucleares nos Estados Unidos.
Martin Luther King e Coretta Scott King estavam profundamente comprometidos com o fim das armas nucleares. Se opunham profundamente à guerra. King odiava a Guerra do Vietnã. Ele esperou para denunciar, mas o fez muito cedo comparado com a compreensão popular sobre o assunto.
E os demais líderes do movimento de direitos civis tentaram contê-lo. Tentaram calá-lo dizendo: “Você vai esvaziar o movimento de direitos civis se falar sobre a Guerra do Vietnã”. Mas ele disse: “Tenho que fazê-lo”.
Então, não está desconectado. Martin Luther King sabia que a crueldade em uma área está conectada com a crueldade em outra e é preciso ter uma visão holística a respeito da maneira que as pessoas são reprimidas. Isso é o que estamos tentando fazer – não se pode compartimentar historicamente o que aconteceu nos anos 1890 ou nos 1900 e o que está acontecendo hoje.
Nós procuramos os padrões desde o começo, e essa é a chave do nosso projeto The Untold History. Por isso tentamos cobrir um período de tempo tão vasto, porque esses padrões mostram que não eram aberrações. Os padrões mostram que esses acontecimentos estão intrinsicamente enraizados na psique americana, na economia, no exército, na cultura e na sociedade norte-americanas.
Mas também queremos mostrar um outro lado, porque, assim com o Japão, a história norte-americana é uma briga pela alma americana. Em 1941, Henry Luce disse que o século XX deveria ser o século americano, e poucos meses depois o vice presidente Henry Wallace respondeu que o século XX deveria ser, na verdade, o “século do homem comum”.
Aí estão duas visões fundamentalmente conflitantes sobre o que os Estados Unidos devem ser, e isso é o que estamos tentando mostrar. King entendeu isso, e King ficou com Henry Wallace, John Kennedy, Franklin Roosevelt, Eleanor Roosevelt, Eugene Debs, Charlotte Perkins Gilman, Paul Robeson, Howard Zinn, e, algumas vezes, William Jennings Bryan – as forças progressistas da história americana.
Stone: A pergunta que eu levanto é sobre cada líder que surge. Um líder tem que durar, tem que lidar com o poder, e por isso o Kennedy foi especial. Roosevelt foi especial. Roosevelt teve pólio. Kennedy foi ferido na Segunda Guerra Mundial e também tinha a doença de Addison. Acho que é a volta por cima que fabrica os líderes. Nelson Mandela na prisão, e Aung San Su Ki em Burma [Myanmar].
O Japão enfrenta debates históricos sobre o Massacre de Nanking e as escravas sexuais dos militares, e quando tentamos tratar desses assuntos honestamente somos chamados de anti-japoneses. Você também sofre esse tipo de reação? É chamado de anti-americano, anti-patriota? Como lida com as críticas?
Stone: Acho que a credencial mais forte que poderia apresentar seria, primeiro, meu serviço militar no Vietnã, o que é  difícil para eles contestarem. John McCain pode rugir o quanto quiser, mas no fim do dia, ele foi um piloto de bombardeio.
Ele bombardeou pessoas do ar e sabe disso. Eu não entendo a mentalidade do homem, como, depois de se prisioneiro de guerra como ele foi, ele ainda pode ter tanto ódio no coração para os que são vistos como inimigos dos Estados Unidos, possivelmente incluindo, logo, logo, a China.
McCain é o que eu chamaria de um soldado que não evoluiu. Existem muitos. Eu, por outro lado, me sinto bem com a minha missão porque servi honradamente. Para ser honesto, não foi uma guerra honrosa, mas servi honradamente dentro dos limites do meu próprio entendimento a respeito da guerra.
E no fim do dia me tornei um lutador pela paz, que é o que eu sou hoje, não um lutador por mais guerras. E número dois, penso que é muito importante para mim não ter dito nada até ter completado meu décimo oitavo longa.
Falei como um dramaturgo, que é a minha profissão. Não sou um historiador, e não pretendo ser. Não tenho embasamento histórico, mas me importo com a história e posso dramatizá-la bem.
Agora, quando falo como documentarista com o histórico de ter feito filmes, sou criticado por razões tolas. A maneira que me acusaram foi que eu estava inventando a história, e me levou tempo entender. Muitos dramaturgos usaram a história antes, e eu não peço desculpas por fazer um drama histórico.
Nunca disse que estava fazendo documentário e eu não estava fazendo um documentário, nunca, e puseram palavras na minha boca. De qualquer modo, é por isso que sinto que posso falar com convicção agora, sem vergonha.

Por ter lutado no Vietnã, Oliver Stone fala com autoridade sobre o assunto
No fim do seu livro você confia a esperança às pessoas. Os americanos são responsáveis em lidarem com o que se chama de “excepcionalismo americano”, mas a responsabilidade também é das pessoas no Japão e no resto do mundo. O que as pessoas no Japão e no resto do mundo podem fazer, em solidariedade com os cidadãos norte-americanos, para atingir o “século das pessoas comuns”, como disse Wallace, e confrontar e vencer a ganância por poder e controle?
Kuznick: É preciso um esforço internacional na linha que você sugeriu. Estamos tendo respostas muito positivas pelo mundo afora ao que estamos fazendo.
No Reino Unido, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Turquia, Rússia, Bulgária, Israel… a maioria dos países entende os problemas da maneira que apresentamos porque estamos falando diretamente com os norte-americanos, mas também estamos falando com as pessoas do mundo.
A natureza corrosiva do império não afeta apenas as pessoas nos Estados Unidos, mas as pessoas em toda parte. Nós vemos esperança em resposta que estamos recebendo em toda parte, particularmente entre os jovens.
Estamos tentando dar a eles uma compreensão diferente a respeito da história porque acreditamos que a história é a ferramenta. Enquanto as armas dos nossos inimigos são militares, a nossa arma é a história, o conhecimento, o saber, a verdade.
Então a questão é, qual é a força da honestidade e da verdade contra a força dos canhões, das bombas, dos submarinos e da tecnologia de vigilância? Essa é a nossa batalha.
Já vimos a verdade vencer em algumas situações, prevalecer sobre a força militar e é isso que estamos fazendo, e isso é um esforço global. Achamos que as pessoas no Japão devem repudiar o AMPO [tratado militar com os Estados Unidos] junto com as bases norte-americanas, assumir a liderança na briga pela abolição das armas nucleares e começar a falar a verdade sobre sua própria história.
Nós queremos que vocês façam isso em solidariedade ao povo norte-americano. Nós sabemos que a sociedade japonesa tende ao conformismo, ao contrário de fazer ondas. Mas depois de Fukushima, começamos a ver os japoneses se organizando para protestar.
Isso aconteceu nos anos 60 com AMPO e Vietnã, e nunca mais aconteceu em uma escala tão grande. Então, esperamos que os japoneses, incluindo aí o bravo povo de Okinawa, e as pessoas ao redor do mundo se unam a nós nesse esforço.
Achamos que o projeto Untold History é um veículo em torno do qual todos podem se mobilizar. Nós estamos todos no mesmo barco quando falamos de governos que mentem sobre o passado. Eles mentem porque sabem que podem escapar ilesos. Mas estamos dizendo que eles não podem.
Oliver Stone, cineasta, ganhou vários Oscars com filmes como Platoon, Wall Street, JFK, Born in the Fourth of July, Natural Born Killers, Salvador e W. Ele e Peter Kuznick são co-autores do Untold History of the United States, um documentário de 10 partes exibido pelo Showtime Network, e do livro que tem o mesmo título, publicado pela Simon & Schuster, em 2012.
Peter Kuznick é professor de história e diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University. Autor de Beyond the Laboratory: Scientists as Political Activists in 1930s America.

terça-feira, 28 de maio de 2013

A dissolução dos mitos americanos


Mauro Santayana

Como todos os povos, ele teve e tem grandes pensadores e cientistas, e é claro que houve (hoje provavelmente não haja mais) soldados que se destacaram por sua bravura nas lutas pela independência, na Guerra da Secessão e nas duas guerras mundiais de que participaram. Na primeira delas, durante a batalha de Argonne, na frente francesa, o sargento Alvin York avançou com seu grupo sobre um ninho de metralhadoras, matou 28 soldados alemães, prendeu 132 e se apropriou de 32 metralhadoras. Era um homem do campo, que mal sabia ler, e que se tornou o mais condecorado soldado dos Estados Unidos durante o conflito.
Outro homem do campo — o oposto do protótipo do super-herói americano, posto que de estatura baixa e corpo mirrado — foi Audie Murphy, o mais condecorado militar dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Esse conseguiu retirar algum proveito do mito, tornando-se ator de cinema de talento reduzido mas de boa bilheteria, por seu heroísmo real. Os dois, como sabemos, foram heróis em guerras que podemos considerar justas, ainda que servissem também aos poderosos de seu país.
Fora das guerras citadas —  da Independência, a da Secessão e as duas mundiais — não houve heróis, ainda que tenha havido sacrifícios imensos de seus homens, nos combates travados pelos norte-americanos. Não os houve na guerra de anexação contra o México, nem contra a Espanha — e menos ainda, em decorrência desse conflito, na repressão à luta das Filipinas pela independência.  E ninguém encontrará heroísmo ianque na Coreia, no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão. E nem se fale da Somália, de onde os norte-americanos saíram apressadamente, da mesma maneira que deixaram Saigon. No caso do Iraque, o mais liberal dos regimes da região, a mentira foi usada com desfaçatez: Saddam não possuía qualquer arma de destruição em massa, e era inimigo declarado de Al Qaeda — a mesma Al Qaeda que participa da contrarrevolução síria.
Dessas incursões criminosas falam mais as imagens de Abu Ghraib e de Guantánamo com a tortura contra prisioneiros indefesos, e os relatos brutais da chacina de My Lai, no Vietnã.
Ontem, no Cemitério de Arlington, na cerimônia anual pelos que morreram em combate, Obama apelou para o sentimento de patriotismo dos norte-americanos, lembrando que os meios tecnológicos da guerra não bastam para substituir o “valor” dos soldados. Ele ponderou que, pelo fato de que, hoje, os soldados são voluntários, e não conscritos, como no passado, o povo não se sente tão empenhado em solidarizar-se com os seus exércitos. Na realidade, o Pentágono “terceiriza” a guerra e usa mais mercenários do que patriotas nos combates.
Na semana passada, ele dissera, em outra cerimônia militar, que os Estados Unidos devem terminar com a guerra contra o terrorismo tal como ela se desenhara no governo Bush. Ontem, no entanto, insistiu que “a América ainda está em guerra”.
É possível que os mitos em torno da superioridade norte-americana, alimentados pela imprensa, pela literatura e, sobre todos os outros  meios, pelo cinema e pela televisão, estejam sendo dissolvidos pela realidade. Há coisas novas, que nos trazem certa esperança. Entre elas, o primeiro compromisso entre o governo colombiano e as Farc, a propósito da política agrária a ser adotada no país. E, por mais que a França e a Inglaterra advoguem uma intervenção militar na Síria, não parece que Washington e Moscou, cada capital com as próprias razões, aceitem essa nova aventura.
Obama parece sincero em seu apelo ao Congresso para que autorize fechar Guantánamo e em sua disposição de deixar o Afeganistão no ano que vem. Mas isso não o isenta do que seu país fez na Líbia e em sua cumplicidade com Israel contra o povo palestino.
As virtudes do povo americano — e são muitas — só serão conhecidas quando eles esquecerem os mitos e assumirem sua plena humanidade.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Heloisa Villela: Americano que ganha até R$ 2 mil mensais leva o Bolsa Família

por Heloisa Villela, de Washington
“O presidente dos cupons de comida [food stamps]”. Essa é a última gracinha do pré-candidato republicano Newt Gingrich. Tentar colar no Presidente Barack Obama a pecha de que ele promove a política da esmola para quem não quer trabalhar e sim viver de favores do governo.
É assim que os radicais da direita norte-americana se referem à rede de amparo social. Medidas adotadas no período da depressão econômica, depois da derrocada da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, para aliviar a pobreza e a miséria no país. O seguro desemprego é uma delas. Outra, o tal cupom de comida. O programa que, antigamente, dava um cupom a quem precisava de ajuda para que a família trocasse o cupom por comida em lojas e armazéns.
Para as historiadoras Lisa Levenstein e Jennifer Mittelstadt, Obama não deveria fugir do apelido e sim abraçá-lo e usá-lo com orgulho. Aproveitando para explicar o que ele realmente significa. O chamado Food Stamps durou de 1939 a 1943, na primeira fase. Depois voltou, no governo do Presidente Kennedy, nos anos 60, e se tornou permanente. Atende mais gente nos momentos difíceis, e menos nas fases de expansão econômica.
A ideia surgiu para ajudar os pobres, os agricultores e os comerciantes. Com os cupons, muita gente passou a ter um mínimo de segurança alimentar. Os agricultores encontraram uma forma de escoar parte da produção excedente e os comerciantes ganharam consumidores que, sem os cupons, não apareceriam nas lojas. O projeto, que começou pequeno, em poucos estados, hoje é adotado no país inteiro e, desde o começo da crise econômica, em 2007, vem batendo recorde atrás de recorde em número de famílias atendidas. Claro. Sem trabalho e sem salário, cupons (hoje são cartões de débito) para alimentar a família.
Por mais que os republicanos esperneiem, o programa faz sucesso e os comerciantes não querem vê-lo desaparecer. A rede Wal-Mart, por exemplo, já detectou o aumento significativo das vendas de comida nas primeiras horas do primeiro dia de cada mês. É exatamente quando vira o reloginho e o dinheiro dos cupons cai na conta da família beneficiada. Muitas famílias entram nas lojas da rede poucos minutos depois da meia-noite. Desesperadas para levar ovos, leite e pão para casa!
E quem recebe o benefício? Nem todo mundo que tem direito a ele porque muitas pessoas pobres nem sabem como se inscrever para conseguir os cartões. Na média nacional, somando o que acontece em todos os estados, 28% dos americanos que precisam desta ajuda não recebem nada. Mas vamos aos critérios que qualificam uma pessoa interessada em receber os tais cupons:
– É preciso ser norte-americano ou ao menos imigrante com situação regular morando no país há  mais de 5 anos;
– Um indivíduo tem que ganhar menos de U$ 1.174 por mês (quase R$ 2.000 reais);
– Para uma família de quatro pessoas, a renda mensal não pode passar de U$ 2.389,00 (R$ 4.061,00 por mês).
E os que se inscrevem no programa e são aceitos, o que ganham do governo? U$ 133,00 (R$ 266,00) por mês para comprar comida, no caso do indivíduo, e U$ 290,00 para a família (R$493,00).
Hoje, mais de 46 milhões de americanos recorrem aos cupons para complementar as compras de comida ou contam exclusivamente com eles para comer. É um país inteiro, do tamanho da Espanha, por exemplo. Maior do que o vizinho Canadá que tem 33 milhões de habitantes. Um país pobre, dentro dos Estados Unidos ricos, que seria o vigésimo sétimo do mundo, em matéria de população. E que continua crescendo. Em 2006, o número de americanos que recorriam ao programa fechou em 26,7 milhões. De lá prá cá, houve um aumento de mais de sessenta por cento.
O governo norte-americano, hoje, gasta U$ 75 bilhões de dólares por ano com o programa. Mas o orçamento que o presidente Barack Obama apresentou ao Congresso para o ano fiscal 2012-2013 diz que o gasto vai diminuir, já que o índice de desemprego está caindo. Mais gente trabalhando, renda familiar mais alta, menos gente pedindo os cupons. Segundo as projeções do governo, o gasto será de US$ 69,9 bilhões no ano que vem.
Se os republicanos ganharem as eleições presidenciais, em novembro, eles prometem cortar este e todos os outros programas que fazem parte da rede de amparo social, tecida na pós-depressão e incrementada nos anos 60. Mas com a popularidade que os programas têm e a necessidade que suprem, não vai ser fácil varrê-los do mapa.
PS do Viomundo: Esta é a primeira de uma série de reportagens da Heloisa Villela, tratando da chamada safety net, ou rede de seguridade social, sob ataque mas ainda vigorosa nos Estados Unidos, se comparada à existente no Brasil.
Leia também:
Allen Frances: Um alerta a médicos e pais sobre o déficit de atenção

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OS MENDIGOS QUEIMADOS EM BRASÍLIA. A GLOBO E A ANTÁRTICA

Globo: Antártica é para a Dilma o que o Vietnã foi para Johnson


Uma das explicacões para a profunda crise política que se instalou nos Estados Unidos com a guerra do Vietnã (a primeira vez em que um sub derrotou um desenvolvido) foi o papel de uma nova e poderosa mídia: a televisão.

As imagens, dia após dia, nos telejornais nacionais, dos corpos dos soldados americanos mortos em combate jogou a opinião pública contra um presidente popular, Lyndon Johnson.

A sucessão de corpos envoltos em embrulhos de plástico ou em caixões cobertos com a bandeira americana provocou um impacto que destruiu Johnson e seu candidato, o vice Hubert Humphrey, e elegeu Richard Nixon.

Coube a Nixon sair às carreiras de Saigon e, depois, fugir para New Jersey, escorraçado em Watergate.

A Globo tentou reconstruir o Vietnã.

E transformar a Antártica no Vietnã da Dilma.

Mostrar os corpos envoltos pela bandeira brasileira, na base aérea do Galeão, como se fosse a base de Andrews, em Washington, onde Johnson percebeu que, com a televisão, tinha perdido a classe média americana.

É o que a Globo, desde o inicio da tragédia na estação brasileira da Antártica, tenta fazer.

O momento superior desse Golpe foi quando o repórter da Globo, ao acompanhar o féretro, disse “que grande emoção !”

Notável.

Enquanto isso, a Globo passou por cima dos mendidos incendiados em Brasília.

Duas vítimas, também, como na Antártica.

Mauro Santayana, ao descrever a elite offshore de São Paulo, trata dessa tragédia tão perto de casa, da sede da Globo, em Brasíia.

E da impunidade de que se beneficiaram os mauricinhos brasilienses que botaram fogo, anos atrás, no índio Galdino.

A Globo e seu Guardião de Fé, o Gilberto Freire (*) brasileiro, com “i”, Ali Kamel, não tem compromisso com o Brasil.

Se a tragédia da Antártica – que cabe lamentar com a mesma intensidade e tristeza com que se chora a dos mendigos de Brasília – servir para dar à Dilma o destino melancólico do Lyndon Johnson, tanto melhor.

Os pacotes de corpos valem pela imagem.

Não pelo que levam dentro.

Imperdível foi, depois da cobertura editorializada da Antártica, o William Bonner dizer que o ” jn no ar” passou o dia no ar !

Notável !

(*) Conta-se que, em Apipucos, D. Madalena, um dia, chegou para o mestre Gilberto Freyre e disse: Gilberto, essa carta está há um mes em cima da tua mesa e você nao abre. O Mestre de Apipucos respondeu: não é para mim. É para um Gilberto Freire com “i”. Não posso abri-la. A propósito do pseudo antropólogo da Globo, leia “como PHA se defendeu de Gilmar, Kamel e Heraldo P. Carvalho“.

Não deixe de ler sobre “Tomara ! O que Dilma fez para provocar a tragédia da Antártica“.


Paulo Henrique Amorim

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Reconhecendo as “Não-pessoas”


Tradução de Heloisa Villela, no Vi O Mundo

No dia 15 de Junho, três meses depois do começo dos bombardeios da OTAN na Líbia, a União Africana apresentou ao Conselho de Segurança da ONU a posição Africana sobre o ataque – na realidade, bombardeio de seus tradicionais agressores imperiais: França e Grã-Bretanha, junto com os Estados Unidos, que inicialmente coordenaram o ataque, e outras nações, marginalmente.

É preciso relembrar que houve duas intervenções. A primeira, sob a Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 17 de Março, estabeleceu uma zona de exclusão aérea, um cessar-fogo e medidas de proteção aos civis. Depois de poucos momentos, essa intervenção foi deixada de lado, pois o triunvirato se juntou ao exército rebelde, servindo de força aérea para ele.

No começo do bombardeio, a UA conclamou esforços diplomáticos e negociações para tentar evitar uma catástrofe humanitária na Líbia. Em um mês, à UA se juntaram os países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e outros, inclusive a maior força regional da OTAN, a Turquia.

Na realidade, o triunvirato estava bastante isolado nos seus ataques – usados para eliminar o tirano imprevisível que eles apoiaram enquanto era vantajoso. A esperança era ter um regime que acatasse melhor as exigências do Ocidente com relação ao controle sobre os ricos recursos da Líbia e, talvez, oferecer uma base africana ao Comando militas dos Estados Unidos para a África – AFRICOM –, por enquanto confinado em Stuttgart.

Ninguém sabe dizer se o esforço relativamente pacífico proposto pela Resolução 1973 da ONU, que tinha o apoio de quase todo o mundo, teria sucesso em evitar a terrível perda de vidas e a destruição que se seguiu na Líbia.

No dia 15 de Junho, a UA informou ao Conselho de Segurança que “ignorar a UA por três meses e levar adiante os bombardeios da terra sagrada da África foi desrespeitoso, arrogante e provocador”. A UA foi adiante e apresentou um plano de negociação e policiamento dentro da Líbia, pelas forças da UA, além de outras medidas de reconciliação – para nada.

O informe da UA para o Conselho de Segurança também relatou o contexto das preocupações dela: “A soberania tem sido a ferramenta da emancipação dos povos da África, que estão começando a forjar novos caminhos depois de séculos predatórios com o tráfico de escravos, o colonialismo e o neocolonialismo. Assaltos descuidados à soberania dos países da África, portanto, significam abrir feridas recentes no destino dos povos africanos”.

O apelo africano pode ser encontrado no jornal indiano Frontline, mas praticamente não foi ouvido no Ocidente. Isso não é uma surpresa: os africanos são “não-pessoas”, para adaptar um termo de George Orwell para os que não estão qualificados para entrar na História.

No dia 12 de Março a Liga Árabe ganhou status de pessoa ao dar apoio à Resolução 1973 da ONU. Mas essa aprovação logo desapareceu, quando a liga se recusou a apoiar o subsequente bombardeio Ocidental à Líbia.

No dia 10 de Abril, a Liga Árabe voltou à categoria de “não-pessoa” ao pedir à ONU que impusesse uma zona de exclusão aérea sobre Gaza e levantasse o embargo israelense, o que foi virtualmente ignorado.

Isso também faz muito sentido. Os palestinos são os típicos “não-pessoas”, como vemos regularmente. Considere a edição Novembro/Dezembro da revista Foreign Affairs, que começa com dois artigos sobre o conflito Israel-Palestina.

Um, escrito pelos oficiais israelenses Yosef Kuperwasser e Shalom Lipner, culpa os palestinos pela continuação do conflito, por se recusarem a reconhecer Israel como um estado Judeu (para ficar em dia com a norma diplomática: Estados são reconhecidos, mas não setores privilegiados dentro deles).

O segundo, do estudioso americano Ronald R. Krebs, atribui o problema à ocupação israelense; o subtítulo do artigo é: “Como a Ocupação está Destruindo a Nação”. Que nação? Israel, claro, ferida por ter suas botas nos pescoços das “não-pessoas”.

E não ficamos sabendo de nada a respeito de centenas de detidos, mantidos em prisões israelenses, por longos períodos, sem que haja uma acusação contra eles.

Entre os presos não mencionados estão os irmãos Osama e Mustafa Abu Muamar, civis sequestrados por forças de Israel que assaltaram Gaza City no dia 24 de Junho de 2006 – um dia antes da captura de Shalit. Os irmãos foram “desaparecidos” dentro do sistema carcerário de Israel.

Não importa o que se pense sobre a captura de um soldado de um exército que ataca, sequestrar civis é simplesmente um crime mais sério –- a não ser, claro, que eles sejam “não-pessoas”.

Para se ter certeza, esses crimes não se comparam com outros, entre eles os constantes ataques aos cidadãos beduínos de Israel, que vivem no sul do deserto de Negev.

Eles estão, novamente, sendo expulsos sob um novo programa desenhado para destruir dúzias de vilas beduínas para as quais foram forçados anteriormente. Por razões benignas, claro. O gabinete israelense explicou que 10 assentamentos judeus seriam fundados ali “para atrair uma nova população para o Negev” – ou seja, para substituir as “não-pessoas” por pessoas legítimas. Quem se oporia a isso?

As estranhas crias dos “não-pessoas” podem ser encontradas por toda parte, inclusive nos Estados Unidos: nas penitenciárias que são um escândalo internacional, nas cozinhas públicas, nas favelas em decadência.

Mas os exemplos enganam. A população mundial como um todo balança na beira de um buraco negro.

Somos relembrados diariamente, até  mesmo por incidentes pequenos –- por exemplo, no mês passado, quando os republicanos da Câmara dos Deputados barraram uma reorganização praticamente sem custos que investigaria as causas das variações extremas de clima em 2011, oferecendo assim melhores previsões do tempo.

Os republicanos temiam que essa pudesse ser uma brecha para “propaganda” sobre o aquecimento global, um não-problema, de acordo com a catequese recitada pelos candidatos à indicação para concorrer à Casa Branca do que, no passado, foi um partido político autêntico.

Triste espécie.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Nasce um novo movimento social nos Estados Unidos



A presença de um amplo leque de sindicatos transformou o perfil do movimento iniciado por algumas centenas de jovens em Nova York, em sua maioria brancos, de universidades privadas, no dia 17 de setembro. Mudou não só em números, mas também em diversidade, gerando o que muitos líderes sindicais e comunitários estão chamando de um novo movimento social por justiça econômica. Algumas fontes policiais estimaram em mais de 10 mil os participantes da marcha e os organizadores calcularam o dobro. A reportagem é de David Brooks, do La Jornada.



Somos os 99%, gritaram juntos milhares de estudantes, sindicalistas, veteranos, imigrantes, professores e ativistas de todo tipo na primeira ação massiva contra o cobiça empresarial do 1% mais rico, a corrupção do sistema político e a desigualdade econômica que cresceu desde que o setor financeiro provocou a pior crise econômica desde a Grande Depressão.

A presença de um amplo leque de sindicatos transformou o perfil do movimento iniciado por algumas centenas de jovens, em sua maioria brancos, de universidades privadas, no dia 17 de setembro. Mudou não só em números, mas também em diversidade, gerando o que muitos líderes sindicais e comunitários estão chamando de um novo movimento social por justiça econômica. Algumas fontes policiais estimaram em mais de 10 mil os participantes da marcha e os organizadores calcularam o dobro. Na noite de quarta, ao terminar a manifestação, foram reportadas algumas detenções quando um grupo de manifestantes tentou ingressar em Wall Street.

Bob Masters, diretor político do distrito noroeste do sindicato de telefonistas CWA, declarou: Ocupa Wall Street lançou um novo movimento e juntos ganharemos. Enquanto milhares continuavam chegando à Praça Foley, no meio dos tribunais de Nova York, onde ocorreu a marcha, Masters fez um chamado pela solidariedade ao movimento. “Todos juntos estamos dizendo: já basta!”.

Todo o dia, toda a semana, Ocupa Wall Street, gritavam enquanto caminhavam pela Broadway. Entre eles estavam as filiadas ao Sindicato Nacional de Enfermeiras (com cartazes que diziam ‘Vamos curar os Estados Unidos’), trabalhadores do metrô, motoristas de ônibus do TWU e trabalhadores de lojas de departamentos do sindicato UFCW. Com a brisa, tremulavam bandeiras do sindicato de professores (UFT), dos automotrizes (UAW), do setor público (AFSCME), do setor de serviços (SEIU), de professores e pesquisadores de universidades da cidade de Nova York, como Columbia.

Também participaram da manifestação uma ampla gama de organizações comunitárias, com latinos, hindus, chineses, porto-riquenhos, dominicanos, mexicanos e árabes, entre outros, que se somaram ao ato em solidariedade. “Filipino-estadunidenses” apoiam Ocupa Wall Street, lia-se numa faixa, e outra proclamava o mesmo de parte de indígenas norteamericanos. Estudantes abandonaram as aulas em vários cursos da Universidade Estatal de Nova York para somarem-se aos protestos.

Uma multiplicidade de expressões mostrava o mosaico de cartazes feitos a mão. “Comam os ricos”, “Se o governo não pode deter Wall Street, nós o faremos”, “Quando os ricos roubam dos pobres isso se chama negócio; quando os pobres se defendem se chama violência”, “Protejam as escolas, não aos milionários”.

Circula um par de camisetas de estadunidenses com a imagem de Zapata e um jovem que esteve na Praça Liberdade desde o dia 17 de setembro mostra orgulhoso um emblema do EZLN ao saber que o La Jornada estava cobrindo a marcha.

O mesmo que ocorreu no Egito está acontecendo aqui; já não podemos aguentar mais, afirmou Hank, integrante do Sindicato de Trabalhadores do Transporte Público (TWU), quando marchava. Um turista espanhol tirava fotos da marcha e comentava com seus companheiros: olha que bonita, igual a nós.

Ao passarem por ônibus de turismo, os manifestantes gritavam: deixem de tomar fotos e unam-se a nós. Outros alertavam ao exército de policiais: vocês também são parte do 99%, venham com nós. Trabalhadores da construção que trabalham em um edifício próximo liam exemplares do jornal Wall Street Journal Ocupado.

Tudo começou quando uma marcha desde a praça ocupada a um par de quadras de Wall Street se dirigiu à Praça Foley, a umas dez quadras de distância. Ao chegar ali, se escutou um ensurdecedor grito de júbilo no momento em que se encontravam com um ato organizado pelos principais sindicatos de Nova York com organizações comunitárias. Depois dos inevitáveis discursos, ocorreu a marcha de regresso à rebatizada Praça Liberdade, movimento que levou umas duas horas pelo seu tamanho. Assim se celebrou a solidariedade entre Ocupa Wall Street, sindicatos e organizações comunitárias.

AFL-CIO: o movimento capturou a paixão de milhões nos EUA
Desde Washington, o presidente da central operária nacional AFL-CIO, Richard Trumka, fez uma declaração pública: o movimento conhecido como Ocupa Wall Street capturou a paixão de milhões de estadunidenses, que perderam a esperança nos políticos desta nação e, agora, com esses atos, falam diretamente a eles. Apoiamos os manifestantes em sua determinação de responsabilizar a Wall Street por suas ações e demandar a criação de empregos. Estamos orgulhosos que hoje em Wall Street, motoristas, pintores, enfermeiras e trabalhadores de serviços básicos unam-se a estudantes, proprietários de casas, desempregados e aos que não têm emprego fixo para fazer um chamado por mudanças fundamentais que precisam ser feitas.

Um pouco antes, os integrantes do comitê executivo – presidentes de sindicatos nacionais – tinham aprovado de maneira unânime dar apoio a Ocupa Wall Street.

Também ocorreram ações semelhantes em outras partes do país. Em Boston, centenas de estudantes e enfermeiras sindicalizadas fizeram um ato de protesto contra os altos custos da educação, as reduções orçamentárias na saúde e o que definem como controle do governo pelas corporações. Em Seattle, foram reportadas algumas prisões quando “ocupantes” se recusaram a acatar ordens de abandonar um espaço público.

Em Los Angeles, relata a agência Associated Press, houve um tratamento diferente do governo, depois que conselheiros municipais aprovaram uma resolução de apoio ao Ocupa Los Angeles, e o gabinete do prefeito Antonio Villaraigosa distribuiu 100 capas de plástico para os manifestantes se protegerem da chuva. Também ocorreram ações em Boise, Idaho e outras cidades.

Hoje esse movimento deu um giro que não só ampliou suas bases, mas que, caso essa nascente aliança entre estudantes e trabalhadores se consolide, pode transformar o panorama político dos Estados Unidos.

Tradução: Katarina Peixoto

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A Nação Falcão: um guia para o debate sobre o teto da dívida catastrófica


Os Estados Unidos têm muitos problemas no momento: um alto e persistente nível de desemprego, uma catástrofe em execuções patrimoniais, uma economia em desaceleração, que não tem se recuperado e não vai se recuperar da Grande Crise, e os desafios em curso, no quesito infraestrutura, energia e mudança climática. Crise fiscal? A coisa toda é uma ficção, inventada por homens espertos a repetirem suas advertências repetidas e infinitas vezes e as vincularem às projeções de técnicos do Gabinete Orçamentário do Congresso e fora dele. O artigo é de James K. Galbraith.

Novos informes dão conta de que o Presidente Obama obteve uma vitória política ao concordar em pôr o Medicare e o Social Security na guilhotina para obter uma “grandiosa” soma de 4 trilhões em redução de déficit. O porta-voz [da Câmara de Representantes dos EUA, John] Boehner teve de conceder que os republicanos não votarão em pacote algum que inclua aumento de impostos – e a negociação morreu. Assim o ardil operado e o Presidente emergiram com uma imagem sólida como a do Falcão Alfa do déficit, para a qual só se pode dizer: que bom para ele.

Estamos num verão que só Salvador Dalí poderia pintar uma realidade tão distorcida que quase se pode desejar a simples verdade a respeito da Guerra ao Terror ou até da invasão do Iraque. Assim como hoje, para ser sério, deve-se ser um “falcão”. (A pomba é uma fraca, uma perdedora, e a coruja, para fins práticos, não existe). Então vamos rever algumas das estranhas e misteriosas faces deste pássaro feio e cruel.

O primeiro teto da dívida foi decretado em 1917. Por que? A data nos diz tudo: estávamos às portas da Primeira Grande Guerra. Para financiar esse esforço, o governo Wilson precisava emitir os Títulos da Liberdade. Foi uma medida controversa, e o teto da dívida foi coberto, aprovado para assegurar aos caipiras de que o Congresso seria “responsável” até mesmo quando o país estava indo para a guerra. Era, desde o começo, um exercício de má fé e assim perseverou, em cada segundo até hoje.

Hoje, essa lei de má fé é levada ao seu extremo absurdo, para forçar cortes massivos nas políticas públicas, como o preço a pagar por não denegar a dívida pública dos Estados Unidos. Não importa que forçar o default nas obrigações públicas dos Estados Unidos seja flagrantemente inconstitucional. A seção 4 da 14° emenda diz em linguagem simples que obrigações públicas devidamente autorizadas por lei e inclusive pensões, a propósito, “não devem ser questionadas”. O propósito dessa linguagem foi o de tornar efetivo o direito, para além de questões políticas, de modo a impedir qualquer possibilidade de que os fundos de pensão e sindicatos saíssem impunes, caso denegassem suas obrigações em pensões e benefícios. Mas a sua aplicação é muito geral e as cortes têm decidido que o princípio permanece em vigor até os dias que correm.

O que está em curso no Congresso dos EUA neste momento é já uma violação ao que manda este dispositivo legal. Trata-se de um esforço para subverter a autoridade do governo de encontrar e, portanto, gerar obrigações de qualquer natureza possível. É um ataque ao conceito mesmo de governo – como o próprio “Tea Party“ até em seu nome mesmo concorda, sem duvidar. Isso, portanto, pinta esses falcões do déficit, que estão usando o debate sobre o teto do déficit para operar sequestros orçamentários, como inimigos da Constituição dos Estados Unidos.

O presidente, embora seja supostamente um expert constitucional e tenha jurado “preservar, proteger e defender” a Constituição, não dirá tal coisa. Em vez disso, ele parece tratar a Constituição como uma matéria opcional, a qual não apelará, na esperança de que, negociando com os sequestradores poderá obter algum resultado razoável que preservará o bom nome de todos. (o grande acadêmico de Harvard, Laurence Tribe, argumentou recentemente que o Presidente não pode enfrentar o aumento do déficit sozinho. Este é um ponto discutível). É como se Lincoln, em 1861, diante do Forte Sumter sitiado, tivesse se rendido aos comissários Confederados para ver o que poderia ser arranjado.

Em Washington parece que esse ataque ao governo tem uma larga medida de apoio da elite e da mídia, não de modo grosseiro ou em personalidades vulgares, mas porque possivelmente forçaria os partidos a fazer “o que deveriam, em todo caso” – a saber, chegar a um acordo da dívida e do déficit de longo prazo. Um acordo como esse cortaria gastos, aumentaria alguns impostos, poria a relação dívida/PIB em razão decrescente e resolveria “a crise fiscal do governo”.

Que crise fiscal? A grande questão não respondida neste verão de som e fúria é “por que?”. Os Estados Unidos têm muitos problemas no momento: um alto e persistente nível de desemprego, uma catástrofe em execuções patrimoniais, uma economia em desaceleração, que não tem se recuperado e não vai se recuperar da Grande Crise, e os desafios em curso, no quesito infraestrutura, energia e mudança climática. Crise fiscal? A coisa toda é uma ficção, inventada por homens espertos a repetirem suas advertências repetidas e infinitas vezes e as vincularem às projeções de técnicos do Gabinete Orçamentário do Congresso e fora dele.

As projeções, eu andei escrevendo [aqui], são traçadas com base em dois argumentos economicamente impossíveis. Um é o de que haverá uma grande recuperação econômica, próxima de uma situação de pleno emprego, por volta de 2013. Nós já estaríamos fora desse caminho, como alguns de nós disse [http://www.washingtonmonthly.com/features/2009/0903.galbraith.html] desde o começo. É claro, uma recuperação reduziria o déficit, mesmo que nada fosse feito. Mas aí o Gabinete Orçamentário do Congresso recria a explosão da dívida por hipóteses, as quais incluem crescimento sólido e baixa inflação, mas custos bruscamente mais altos na assistência em saúde e muito mais altas taxas de juros de curto prazo. Isso leva o déficit projetado às alturas, superando no curto prazo todos os recordes em relação ao PIB.

Isso é possível? Não, não é. O Banco Central estadunidense [Federal Reserve] jamais aumentaria as taxas de juros no curto prazo, como projeta o GOC [CBO, na sigla em inglês], sem que antes haja um aumento da inflação, coisa que o GOC reconhece não ocorrerá. Caso ocorresse, a economia colapsaria! E, se não, o déficit não ficaria fora de controle. Tenho apresentado esses simples números [aqui]. Pois, o que vale, se você acredita que o mercado de capitais sinaliza para alguma coisa, eles o fazem é para a sua descrença nas previsões do juízo final, nas taxas de juros de longo prazo, nos títulos do governo americano, diariamente [every single day].

É possível que o corte no governo seja, por algum outro caminho, a maneira de recuperar a economia?

Há muita gente que acredita com fervor na resiliência do setor privado e para quem o governo não passa de um fardo. Algumas dessas pessoas são puros predadores: magnatas da finança, magnatas da mídia, magnatas banqueiros. Outros tem fechado os olhos para o papel real que o governo joga na sustentação das redes de comunicação, nos sistemas de proteção social que organizam nossas vidas e imaginam que se pode voltar ao tempo das fazendas de subsistência, caridade religiosa e crédito com caderninho no mercado da esquina; só que havia um número muito menor de gente nesse mundo, essas pessoas não faziam o que nós fazemos e não vivam tanto como nós.

Em termos gerais, o governo hoje faz quatro coisas maiores:

. Provê a defesa nacional

. Fornece bens e serviços à economia privada para um vasto leque de propósitos públicos, a maior parte deles em escala bastante pequena em relação ao PIB.

. Regula um vasto setor privado de atividades ligadas a segurança, saúde, meio ambiente e outros propósitos, inclusive a estabilidade financeira – ou assim se espera que o faça.

. Administra os programas sociais como Social Security, Medicare e Medicaid, assim como outros programas de benefícios em saúde e aposentadoria.

Em que alguma dessas funções é ampla demais? Como economista comprometido com as questões de segurança e paz [http://www.epsusa.org/], eu realmente acredito que faríamos melhor se terminássemos a guerra no Iraque e no Afeganistão rapidamente, que poderíamos dispensar os custos financeiros de tantas bases militares no exterior, com porta-aviões, aviões e submarinos e armas nucleares deixados pela Guerra Fria. Mas esses são juízos relativos à segurança, não econômicos. Em outras palavras, eu não cortaria um centavo dos gastos do Pentágono que fossem verdadeiramente necessários para defender os Estados Unidos, caso isso baixasse as taxas de juros e a dívida pública.

Pelo mesmo raciocínio, por que deveríamos cortar gastos em transporte, saúde pública ou proteção ambiental, ou pesquisa científica, ou fiscalização da atividade bancária ou de fundos de pensão que financiam escolas públicas? Pode-se argumentar dessa maneira com base em cada um dos programas sociais – e se deve fazê-lo. (Eu cortaria alegremente os subsídios para o etanol e poria fim aos benefícios fiscais das empresas de petróleo, para começo de conversa). Mas não é o caso de a economia impor limites amplos, e é óbvio que os 500 mil trabalhadores do setor público – inclusive muitos professores, policiais, bombeiros e guardas-florestais, bibliotecários – que perderam seus empregos desde 2009[ http://thinkprogress.org/yglesias/2011/07/08/263588/the-conservative-recovery-continues-2/], estariam fazendo coisas boas e úteis que hoje fazem falta. Se cuidar deles tivesse sido bom para a economia, estaríamos tendo uma recuperação mais forte do que estamos tendo.

Finalmente, há o Social Security, o Medicare e o Medicaid. Diferentemente dos programas militares ou de transporte, o Social Security não é um programa de aquisição pelo governo. Ele portanto não requer nada diretamente do setor privado. O que ele faz? Provê previdência: protege os trabalhadores da pobreza da velhice, caso suas famílias não queiram ou não possam cuidar deles. E taxa todos os trabalhadores, para que eles não sejam sobrecarregados com o cuidado dos pais, ou de sobreviventes, ou dos portadores de necessidades especiais, que teriam de ser sustentados. Junto ao Medicare e ao Medicaid, o Social Security é um poderoso instrumento de proteção para toda a população – jovem e idosa. Ele redistribui o poder de compra, que decai em relação a ganhos passados, de modo que conduz à convergência de necessidades básicas para um grande número de americanos que, de outra forma, em muitos milhões de casos, seriam destituídos de recursos ou ficariam sem assistência em saúde.

A que serviria o propósito de cortar esses programas? Fazer isso iria redistribuir renda de novo. Muitos dos futuros idosos estarão em situação muito pior e é claro que muitos morrerão mais jovens do que do contrário iriam. Sobreviventes e portadores de necessidades especiais também iriam sofrer. Em troca, o que o governo federal e o país ganham? Uma liberação de recursos reais para o setor privado? O Social Security não retira recursos reais do setor privado! Taxas de juros menores? A ideia é absurda, e não apenas porque hoje as taxas de juros estão baixas. A noção de que o corte do Social Security ajudaria a manter as taxas de juros baixas é absurda porque as taxas de juros são dispostas de maneira tal que não têm relação alguma com o Social Security, o Medicare ou o Medicaid (*).

Esse argumento não tem coisa alguma a ver com a metáfora várias vezes repetida e perfeitamente verdadeira de que o sistema do Social Security não contribui com o déficit. Não importaria se contribuísse. A questão que importa é: os benefícios são muito elevados? Obviamente não. E quanto à taxação da folha de pagamentos, também é baixa? Não é o caso para isso, tampouco. Uma das muito poucas luzes na política recente foi a decisão de reduzir a taxação sobre a folha de pagamentos para os empregados temporariamente, enquanto se deixa o Social Security a salvo.

Se você quiser acumular recursos em cima disso, os passos certos seriam baixar ][http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/01/02/unconventional_wisdom?page=0,7] – e não subir – a idade mínima de aposentadoria com o Social Security, permitindo por alguns poucos anos que trabalhadores mais velhos saiam do mercado de trabalho permanentemente em termos melhores do que os disponíveis para eles hoje. Isso, junto à baixa idade para ingressar no Medicare trabalharia rapidamente para reequilibrar a força de trabalho, reduzindo o desemprego e o trabalho precário dentre os trabalhadores mais velhos, enquanto aumentaria a oferta de trabalho para os jovens. Trata-se da aplicação pura e simples do senso comum. E, diferentemente das pressões para que operem cortes de longo prazo nesses programas, isso ajudaria a resolver um dos maiores problemas que se tem a seguir.

Em vez disso, o que nós temos, de um presidente que se diz membro do Partido Democrata? Em primeiro lugar, há a afirmação de que estamos numa crise fiscal, o que é uma grande inverdade. Segundo, uma concessão em princípio de que deveríamos lidar com essa crise ao permitir o corte massivo nos gastos dos serviços públicos, por um lado e, por outro, nos programas de seguridade social. Essa é uma arbitrariedade cruel. Terceiro, uma recusa de se manter firme ao lado da Constituição, contra aqueles cujo propósito aberto e declarado é rasgar esse documento e espatifar o crédito público.

No diário da besta aos domingos [In the Daily Beast on Sunday], Howard Kurtz escreveu em termos otimistas a respeito dos prognósticos para um acordo sobre o déficit. “Mas, longe das câmeras, até os políticos de língua afiada reconhecem o imperativo de impedir o destino da Grécia. É um sinal dos tempos que os atores de teatro kabuki de Washington irão aplaudir por terem advertido da catástrofe”.

Kurtz não disse que o grande Kabuki aqui é sua própria noção de que de algum modo os EUA estão diante do destino da Grécia – um pequeno e constrangido membro de uma zona monetária que não pode controlar. Ele não disse que a catástrofe que teme – um default do governo estadunidense frente a suas obrigações – foi inteiramente produto de uma política de má fé, aprovada por um presidente irresoluto, que parece não perceber o perigo de permitir que a Constituição fracasse.

E ele não disse que aplaudiria o acordo com cortes no Social Security, no Medicare, no Medicaid e todas as funções legítimas e necessárias do governo – que seriam para milhões de americanos a própria catástrofe.

(*) Taxas de Juros de curto prazo são o que o Comitê Federal de Mercado Aberto dita o que elas devam ser. E se o Tesouro quer pagar baixas taxas de juros da dívida, podem sempre emitir títulos da dívida de curto prazo – ou pode emitir títulos de longo prazo e o Federal Reserve pode compra-los de volta, mantendo o padrão de taxa de juros que preferir. Não há risco de default no mercado, nem ameaça à “solvência” por uma “perda de confiança” - nada que o setor privado possa fazer para que o governo dos EUA pague mais do que quer – um ponto que deveria ser óbvio, dado o fato de que as decisões sobre taxas do Federal Reserve nunca são sobrepujadas pelo mercado. A única maneira de o governo dos EUA vir a declarar default é se tomar uma decisão de assim proceder – que é o que os apologistas do déficit e sequestradores do orçamento ameaçam e o que a Constituição proíbe.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte:
http://www.newdeal20.org/2011/07/11/hawk-nation-a-guide-to-the-catastrophic-debt-ceiling-debate-51211/

domingo, 8 de maio de 2011

Dez guerras e dez mentiras midiáticas


Por Michel Collon, no sítio Pátria Latina:

Cada guerra é precedida por uma mentira dos meios de comunicação de massa. Hoje Bush ameaça a Venezuela e o Equador. Amanhã será o Irã? E depois, quem mais? (...) Recordemos simplesmente quantas vezes os mesmos Estados Unidos e os mesmos meios já nos manipularam. Cada grande guerra se “justifica” pelo que mais tarde (demasiado tarde) aparecerá como uma simples desinformação. Um rápido inventário:

1) Vietnã (1964-1975)

Mentira midiática: Nos dias 2 e 3 de agosto o Vietnã do Norte teria atacado dois barcos dos Estados Unidos na baía de Tonkin.

O que se saberá mais tarde: Esse ataque não aconteceu. Foi uma invenção da Casa Branca.

Verdadeiro objetivo: Impedir a independência de Vietnã e manter o domínio dos Estados Unidos na região

Conseqüências: Milhões de vítimas, malformações genéticas (agente laranja), enormes problemas sociais.

2) Granada (1983)

Mentira midiática:: A pequena ilha do Caribe foi acusada de que nela se construía uma base militar soviética e de trazer perigo à vida de médicos americanos.

O que se saberá mais tarde: Absolutamente falso. O presidente Reagan inventou esses pretextos.

Verdadeiro objetivo: Impedir as reformas sociais e democráticas do premiê Bishop (depois assassinado).

Conseqüências: Brutal repressão e restabelecimento da tutela de Washington.

3) Panamá (1989)

Mentira midiática: A invasão tinha o objetivo de prender o presidente Noriega por tráfico de drogas.

O que se saberá mais tarde: Formado pela CIA, o presidente Noriega reclamava a soberania ao fim do acordo do canal, o que era intolerável para os Estados Unidos.

Verdadeiro objetivo: Manter o controle dos Estados Unidos sobre essa estratégica via de comunicação.

Conseqüências: Os bombardeios dos Estados Unidos mataram entre 2 e 4 mil civis, ignorados pelos meios.

4) Iraque (1991)

Mentira midiática: Os iraquianos teriam destruído parte da maternidade da cidade de Kuwait.

O que se saberá mais tarde: Invenção total da agência publicitária Hill e Knowlton, paga pelo emir de Kuwait.

Verdadeiro objetivo: Impedir que o Oriente Médio resista a Israel e se comporte com independência em relação aos Estados Unidos.

Conseqüências: Inumeráveis vítimas da guerra, depois um longo embargo, inclusive de medicamentos.

5) Somália (1993)

Mentira midiática: O senhor Kouchner aparece na cena como herói de uma intervenção humanitária.

O que se saberá mais tarde: Quatro sociedades americanas tinham comprado uma quarta parte do subsolo somali, rico em petróleo.

Verdadeiro objetivo: Controlar uma região militarmente estratégica.

Conseqüências: Não conseguindo controlar a região os Estados Unidos a manterão num prolongado caos.

6) Bósnia (1992-1995)

Mentira midiática: A empresa americana Ruder Finn e Bernard Kouchner divulga a existência de campos de extermínio sérvios.

O que se saberá mais tarde: Ruder Finn e Kouchner mentiram. Eram apenas campos de prisioneiros. O presidente muçulmano Izetbegovic o admitiu.

Verdadeiro objetivo: Quebrar uma Iugoslávia demasiado esquerdista, eliminar seu sistema social, submeter a zona às multinacionais, controlar o Danúbio e as estratégicas rotas dos Bálcãs.

Conseqüências: Quatro atrozes anos de guerra para todas as nacionalidades (muçulmanos, sérvios, croatas). Provocada por Berlin, prolongada por Washington.

7) Iugoslávia (1999)

Mentira midiática: Os sérvios cometem um genocídio contra os albaneses do Kosovo.

O que se saberá mais tarde: Pura e simples invenção da OTAN como o reconheceu Jaime Shea, seu porta-voz oficial.

Verdadeiro objetivo: Impor o domínio da OTAN nos Bálcãs e sua transformação em polícia do mundo. Instalar uma base militar americana no Kosovo.

Conseqüências: Duas mil vítimas dos bombardeios da OTAN. Limpeza étnica de Kosovo pelo UCK, protegido pela OTAN.

8) Afeganistão (2001)

Mentira midiática: Bush pretende vingar o 11 de setembro e capturar Bin Laden.

O que se saberá mais tarde: Não existe nenhuma prova da existência dessa rede. Além disso, os talibãs tinham proposto extraditar Bin Laden.

Verdadeiro objetivo: Controlar militarmente o centro estratégico da Ásia, construir um oleoduto que permitisse controlar o abastecimento energético do sul da Ásia.

Conseqüências: Ocupação extremamente prolongada e grande aumento da produção e tráfico de ópio.

9) Iraque (2003)

Mentira midiática:: Saddam teria perigosas armas de destruição, afirmou Colin Powell nas Nações Unidas, mostrando provas.

O que se saberá mais tarde: A Casa Branca ordenou falsificar esses relatórios (assunto Libby) ou fabricá-los.

Verdadeiro objetivo: Controlar todo o petróleo e chantagear seus rivais; Europa, Japão, China…

Conseqüências: Iraque submerso na barbárie, as mulheres devolvidas à submissão e ao obscurantismo.

10) Venezuela – Equador (2008?)

Mentira midiática: Chávez apoiaria o terrorismo, importaria armas, seria um ditador (o pretexto definitivo parece não ter sido escolhido ainda).

Verdadeiro objetivo: As multinacionais querem seguir com o controle petroleiro e de outras riquezas de toda América Latina, temem a libertação social e democrática do continente.

Conseqüências: Washington empreende uma guerra global contra o continente: golpes de estado, sabotagens econômicas, chantagens, estabelecimento de bases militares próximas às riquezas naturais.