Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sábado, 27 de julho de 2013

O colonialismo mental faz enxergar o mundo “ao contrário”











A semelhança é tão grande e repetida que não dá para considerar coincidência.
Ontem, escrevi aqui provocado por uma nota da Folha sobre os lucros da multinacional Unilever, onde se dizia que o crescimento de “apenas” 10,3 nas vendas nos emergentes tinha sido a causa do retraimento dos ganhos da empresa, embora o mercado nos países ricos tenha sido negativo em 1,3%.
É ótica distorcida dos cordeiros que pensam com a “razões do lobo”.
Mais tarde, o Estadão publicou outra matéria, desta vez com o próprio lobo falando, pela revista The Economist.
A sua capa mostra o Brasil e os demais emergentes atolados num lamaçal.
A imagem não é má, desde que se façam algumas correções.
Primeiro, o lamaçal é feito pela enxurrada de moeda que os países-lobos despejaram sobre nós, para continuar remunerando seu capital, sem opções de investimento em seus territórios queimados pela recessão econômica e seus povos com o consumo interno estagnado pelo desemprego monstruoso que se gerou por lá e pela queda de sua renda.
Segundo, era preciso desenhar umas cordinhas nas costas dos emergentes, para mostrar que eles, além de se desvencilharem da lama monetária que nos arranjaram, ainda tem que carregar o peso dessa retração econômica na estagnação do preço das matérias primas que exportam para o mundo desenvolvido, que atendem pelo pomposo nome de commodities.
The Economist acerta ao dizer que “a Grande Desaceleração significa que as economias emergentes em expansão já não conseguem compensar a fraqueza nos países ricos. Sem uma recuperação mais forte nos Estados Unidos ou no Japão, ou um avivamento na área do euro, a economia mundial dificilmente crescerá  muito mais rápido do que ao ritmo medíocre de hoje, de 3%”.
Acerta no diagnóstico, mas erra nas causas da doença.
A começar que, se de alguém seria necessário “compensação” seria deles, dos países ricos, que construíram suas riquezas ou com o saque colonial mercantil (a Europa) ou com o saque colonial monetário-financeiro, quando os Estados Unidos transformaram o dólar num bem internacional, que podiam produzir sem efeitos inflacionários, desde o final da 2a. Guerra.
Depois, porque insistem em um modelo de relações internacionais perverso, tanto nas trocas comerciais quanto nas financeiras e nas tecnológicas, onde nos exigem preços aviltados, juros suicidas e patentes escravizantes.
E – last but not the least, como dizem por lá –  com o atraso e a destruição que produziram continuamente desde o final dos nos 50, pelos territórios do Terceiro Mundo. Se só a guerra do Iraque custou aos EUA mais de dois trilhões de dólares, quanto terá custado ao pobre povo daquele país bombardeado, destruído e massacrado por eles? Quanta riqueza os 190 mil mortos por lá deixaram de produzir?
Não vamos falar do Vietnã, nem de Angola, nem da Coreia, nem do Afeganistão, nem da Líbia, nem da Síria, para não ficarmos parecendo ressentidos, não é? Nem nas dezenas de golpes autoritários que promoveram, criando elites perdulárias e insensíveis, governos corruptos e flagelos como a violência e o tráfico de drogas.
E há algum sinal de arrependimento e vontade de mudar? Nada, nadica de nada.
Países como a Grécia – e logo a Espanha e a Itália, veremos – são forçados a se ajoelhar, implorando e suplicando ajuda, à custa de mais recessão e desemprego.
The Economist diz que “ao longo dos próximos dez anos, as economias emergentes ainda vão crescer, mas de forma mais gradual” e que  ”isso marca o fim da primeira fase mais dramática da era dos mercados emergentes”
sur
Fim, uma pinóia!
Isso é o que eles desejam que façamos, quando começam a colocar o pescoço alguns centímetros fora do pântano em que estão mergulhados desde ocrack financeiro de 2008.
O mundo em desenvolvimento não pode se conformar com a tal “desaceleração” além do que ela é inevitável pela recessão dos ricos. Se, em nome dos interesses dos países ricos, nos submetermos a voltar ao receituário que sempre nos impuseram e que só nos trouxe empobrecimento e crises, estamos olhando o rio da economia fluir com a visão do lobo e a nós sempre nos caberá a sede.
E continuaremos a achar estranho o desenho do artista e pensador uruguaio Joaquín Torres Garcia que reproduzo aí ao lado e não entenderemos as palavras com que ele o explica:
“Não deve haver norte, para nós,
senão por oposição ao nosso Sul.
Por isso agora colocamos o mapa ao contrário,
e então já temos uma justa ideia de nossa posição,
e não como querem no resto do mundo”


Por: Fernando Brito

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mariana Gomes: Brasil deve rejeitar seu papel no imaginário racista e colonizador



Hasteamento da bandeira olímpica no Rio de Janeiro. (Foto Tânia Rêgo, Agência Brasil)
O jeitinho brasileiro nas Olimpíadas de Londres
por Mariana Selister Gomes*
O brasileiro, com seu sorriso e samba no pé, cativa o segurança britânico e, com seu jeitinho brasileiro, entra nas Olimpíadas de Londres.
Um britânico branco, detentor da vigilância, tenta humilhar o brasileiro negro que acaba por conquistá-lo com dança e sorriso.
Essa é a imagem que o Brasil ainda quer mostrar ao mundo?
Ainda vamos aceitar essa parte que nos cabe no imaginário internacional racista e colonizador?
Temos que mostrar nosso samba no pé e nosso sorriso com muito orgulho.
Mas esse povo que samba também trabalha e com seu árduo trabalho, principalmente dos brasileiros afrodescendentes, ajudou a construir inclusive a riqueza europeia.
Temos que mostrar nosso samba como parte da nossa história e não como entretenimento para inglês ver.
Temos que mostrar nossos Renatos Sorrisos com toda a dignidade e grandeza que nós merecemos e não sendo corridos por seguranças europeus e tendo que cativar gringos com ginga para serem respeitados.
Já é chegada a hora de acrescentar a nossa capacidade de trabalho (técnico, científico, intelectual e artístico) à imagem de samba e de alegria.
Não queremos mais ser apenas o “bobo da corte” dos grandes centros mundiais.
As Olimpíadas são um importante momento de (des)(re)construção da imagem de um país no mundo.
Eu, que há alguns anos tenho pesquisado a imagem do Brasil, tenho esperança que a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e as Olimpíadas do Rio de 2016 sejam (ao menos) aproveitadas para reposicionar a imagem do nosso país.
Na amostra em Londres (ainda bem) não apresentaram mulheres dançando seminuas para alimentar o imaginário europeu de mulher brasileira como objeto sexual (que faz com que brasileiras imigrantes sofram com assédios, preconceitos e discriminações).
Ainda posso ter esperança…
Esperança…
Estamos cansados de ter esperança!
Precisamos de mais investimento (público e privado) sério, democrático e socializado, nas nossas crianças, nos/as nossos/as atletas, na nossa imagem…
Afinal “esse Brasil que canta e é feliz; é também um pouco de uma raça, que não tem medo de fumaça e não se entrega não”.
 *Doutoranda em Sociologia no Instituto Universitário de Lisboa, bolsista de doutorado pleno no exterior da CAPES/MEC/Brasil, criadora do  “Manifesto contra o preconceito às mulheres brasileiras em Portugal”
Leia também:
Por unanimidade, Justiça condena o coronel Brilhante Ustra como torturador da ditadura
Tatiana Merlino: “Seguiremos em busca de Justiça contra Ustra e os outros torturadores do meu tio”
Relatório da Secretaria de Direitos Humanos confirma: Reitor da USP votou contra vítimas da ditadura
Para acessar o relatório na íntegra, basta clicar aqui
Vladimir Safatle: Respeitar a Lei da Anistia?
Marcio Sotelo: Punir a tortura é direito e dever da humanidade
Mauricio Dias: A verdade sobre a Lei da Anistia aflora?
Criméia Almeida: “Quem já luta há mais de 30 anos, não vai desistir agora”
Edson Teles: Punir ou anistiar os torturadores?


Menina de Ouro do Piauí faz História no Brasil Olímpico


Quando saiu do Brasil rumo a Londres, a pequena SARAH MENEZES carregava expectativas desproporcionais para seu tamanho. Lutadora mais leve da seleção de judô, a peso-ligeiro, de apenas 1,52m e 48kg, era a grande esperança de primeira final olímpica do Brasil entre mulheres na história da modalidade. A piauiense, porém, foi além: com a vitória neste sábado sobre a romena Alina Dumitru, campeã dos Jogos de Pequim 2008, Sarah entrou para a história como a primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha de ouro no judô nas Olimpíadas. A grandeza da conquista pode ser medida também na comparação com outras modalidades. Até este sábado, só uma mulher brasileira havia conseguido o ouro em prova individual na história das Olimpíadas: Maurren Maggi, no salto em distância, em Pequim 2008.(G1)
olympics/2012/athletes/2c680dff-8a94-4c4c-959a-46c33b596cb6 com/2012/olympics/judo/wires/07/28/2090.ap.oly.jud.women.s.48k/index.html 2012/07/28/sarah-menezes-gold-olympic-womens-judo-medal_n_1713717.html sports/sarah-menezes-of-brazil-wins-womens-48-kilogram-olympic-judo-gold-medal/2012/07/28/gJQA6dpAGX_story.html

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Mídia brasileira sofre junto com europeus



A mídia brasileira, representada (acima) pelo Estadão, assumiu a defesa de interesses… dos europeus.
Parece o africâner que posou ao lado do rei Juan Carlos e do elefante morto, na Botsuana — imagem que sintetiza o que foi o colonialismo europeu na África.
Pois hoje o New York Times disse que a decisão da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, de expropriar a maior parte das ações da espanhola, assumindo assim o controle da YPF, causou lamentações no Brasil.
Tradução proporcionada pela Heloisa Villela, desde Washington:
No Brasil e em outro lugares, estupefação com o movimento de nacionalização na Argentina
Por Simon Romero, 18.04.2012, no New York Times
RIO DE JANEIRO — Em um discurso quente para justificar a decisão de nacionalizar a companhia de petróleo YPF, a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, citou sua admiração pela Petrobras, a gigante estatal do petróleo do Brasil, e outras empresas estatais de petróleo da América Latina.
Mas aqui no Brasil, o crescente poder petrolífero da América Latina, e em outros lugares da região, especialistas financeiros receberam a decisão abrupta de Kirchner com estupefação, dizendo que a nacionalização e outras políticas econômicas estão deixando a Argentina mais por fora do que transformando o país num líder de uma nova era econômica de ousadia.
“A capacidade da Argentina de errar parece não ter limite”, disse Míriam Leitão, uma das colunistas mais influentes do Brasil em assuntos econômicos, em um artigo comparando a expropriação da YPF com as nacionalizações de Juan Domingo Perón nos anos 40 e 50, que deixaram a Argentina capenga, com empreendimentos estatais anêmicos.
Enquanto o governo do Brasil manteve o controle da Petrobras, ele também expôs a empresa às forças de mercado, começando nos anos 90 quando o monopólio foi quebrado, destacam, aqui, os especialistas em energia. Desde então, a Petrobras se transformou na maior empresa da América Latina.
A Argentina, por outro lado, repetidamente se desentendeu com o dono espanhol da YPF, Repsol, antes de expropriar sua fatia de controle, criando uma disputa diplomática com a Espanha e tensão com a União Europeia. “Rainha louca” foi como um conhecido colunista de humor brasileiro descreveu a sra. Kirchner esta semana.
Com um tom diferente, o ministro da Economia do Chile, Pablo Longueira, disse que a nacionalização pode ser prejudicial para toda a América Latina, transformando-a em uma “região menos confiável” se comparada com a Ásia. “O fluxo de capital se muda para os lugares onde a confiança do investidor é maior”, ele disse à Reuters.
Até mesmo no México, onde Lázaro Cardenas promoveu, nos anos 30, a nacionalização do petróleo simbolicamente mais importante da América Latina no século 20, criando a Pemex, líderes políticos criticaram a decisão da Sra. Kirchner.
Esta semana o presidente do México, Felipe Calderón, disse a executivos que a nacionalização da YPF “não foi boa para ninguém”. Dois candidatos presidenciais do México, Enrique Peña Nieto e Josefina Vázquez Mota, também criticaram a medida.
Do outro lado do espectro político, o plano de nacionalização da sra. Kirchner conquistou o apoio da Venezuela, onde o presidente Hugo Chávez assegurou o controle estatal de dúzias de empresas nos últimos anos, incluindo gigantescos projetos de petróleo.
E no Uruguai, o presidente José Mujica, um ex-membro do grupo guerrilheiro Tupamaros, expressou solidariedade à decisão da sra. Kirchner chamando-a de uma resposta à “Europa rica”, e uma correção do erro da Argentina ao privatizar a YPF nos anos 90.
Ainda no Brasil, onde a Petrobras, ao atingir a independência energética e grandes descobertas de petróleo em alto mar, se tornou um modelo para outras empresas de petróleo de países em desenvolvimento, a expropriação da YPF serviu de oportunidade para traçar contrastes importantes com a situação na Argentina.
Recentemente, em 2000, o Brasil ainda contava com importações de petróleo da Argentina para suprir suas necessidades energéticas, comprando 74 mil barris por dia do vizinho.
Agora, aconteceu uma inversão. A Petrobras, através da aquisição da Perez Companc, a empresa independente de petróleo da Argentina, se expandiu agressivamente na Argentina, a ponto de causar preocupação aqui com a exposição da Petrobras caso da sra. Kirchner opte por expandir suas nacionalizações.
Durante os preparativos para o anúncio da nacionalização da YPF, a província de Neuquén na Argentina tomou, abruptamente, a concessão de exploração da Petrobras. Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras, tem uma reunião marcada para sexta-feira com Julio de Vido, um assistente direto da sra. Kirchner que ela designou supervisor da YPF.
Enquanto isso, o ministro das Minas e Energiasdo Brasil, Edison Lobão, tentou dissipar as preocupações com a expropriação dizendo, esta semana, na capital, Brasília, que todo país é  “soberano” em sua capacidade de decidir a respeito dos problemas “como achar que deve”.
A nacionalização, que se segue à tomada de uma companhia aérea e de fundos de pensão, tem seus críticos em Buenos Aires. Ainda assim, as nacionalizações repercutem bem em um país onde persistem os ressentimentos com relação às privatizações feitas a partir de políticas econômicas liberais dos anos 90, que precederam uma crise econômica caótica no começo da década passada.
As autoridades estão “tomando de volta o que nos pertence”, disse Manuel Rivera, 27, que vende bandeiras e souvenires na Plaza de Mayo, diante do palácio da sra. Kirchner em Buenos Aires.
Novos pôsteres tomaram as avenidas da cidade na quarta-feira, pedindo ao Congresso que passe a lei da nacionalização. “Nem mais um peso para a Repsol”, dizem os pôsteres, nos quais as letras YPF foram coloridas com as listas azuis e brancas da bandeira Argentina.
A questão crucial na Argentina é se a nacionalização vai parar na YPF. Um importante líder sindical, Óscar Lescano, deu sua própria resposta na quarta-feira, dizendo, em comentários divulgados no rádio, que a nacionalização pode se alastrar para o setor elétrico.
Um emergente grupo de jovens oficiais de tendências nacionalistas no governo da sra. Kirchner terá peso em desenhar o cenário econômico da Argentina depois da nacionalização da YPF. Com destaque entre eles está o economista Axel Kicillof, de quarenta anos, que ela nomeou para ajudar a liderar a YPF.
O Sr. Kicillof, que tem costeletas que poderiam fazer Elvis Presley sorrir, defendeu a política  veementemente quando apareceu, esta semana, diante do Congresso da Argentina, acusando a Repsol de segurar o combustível na tentativa de forçar o governo a aumentar os preços domésticos da energia para igualá-los aos níveis internacionais.
Ele veio do La Cámpora, um movimento de jovens militantes fundado pelo filho da sra. Kirchner, Máximo. Refletindo a volta do nacionalismo dos recursos naturais em um país que recentemente fez grandes descobertas de petróleo, os integrantes do grupo cantaram entusiasticamente diante da presidente da Argentina quando ela anunciou a nacionalização da YPF.
Como torcedores em um estádio de futebol, eles gritaram seus refrãos. “A riqueza ficará na Argentina”, gritaram, com as mãos cortando o ar. “Eu sou soldado da Cristina”.
Mas os críticos, como Daniel Altman, um expecialista em economia argentina, da Stern School of Business da New York University, não se impressionaram. “Os líderes do Brasil têm uma visão mais global do futuro”, disse ele, “enquanto a Argentina tem um governo que é, em última análise, autodestrutivo”.
*****
Perguntamos nós, do Viomundo:
Qual é o “Brasil” que lamenta, do correspondente Simon Romero, do New York Times? Um humorista e Miriam Leitão.
O jornal tenta reproduzir o velho chavão de jogar o Brasil contra a Argentina, usando para isso um “especialista” norte-americano, que diz que a Argentina está a caminho da autodestruição.


A Telefonica e o Santander vão boicotar a Argentina? Hein, Miriam Leitão?


A estatização (e nacionalização) da petrolífera YPF na Argentina é praticamente unanimidade nacional lá. Até a oposição apoia. Nem o PIG (partido da imprensa golpista) de lá tem como ir contra seus leitores e, se evitam elogios à presidenta Cristina Kirchner, enchem seus espaços com declarações de oposicionistas que apoiam a medida.

O pancadaria contra Cristina Kirchner foi terceirizada para o PIG de um país vizinho... aquele da Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg, que falam em "custar caro para Argentina, essa atitude", como se a privataria de lá não tivesse um custo muito mais alto.

A empresa privatizada conseguiu a "façanha" de diminuir a produção de petróleo em 12% entre 2003 e 2010. Isso, mesmo tendo o mercado de consumo aquecido, subindo 38% no período.

A gota d'água foi transformar a balança comercial do setor petrolífero de um superávit próximo de US$ 2 bilhões em 2010, para um déficit próximo de US$ 3 bilhões em 2011.

A Espanha fala em disputa judicial internacional (o que deve acontecer, até para forçar acordo em melhores condições) e retaliação contra alguns dos principais produtos de exportação argentinos: biodiesel, óleo de soja e carne.

O Parlamento Europeu vai votar uma resolução contra a nacionalização da petrolífera. É do jogo demarcar posições.

Mas de concreto mesmo, os técnicos europeus afastam "uma guerra comercial". Descartam uma decisão consensual dos 27 países da União Européia e acreditam que, mesmo para os espanhóis, será complicado medidas mais enérgicas, levando em conta os interesses de outras empresas espanholas no país, como Telefónica, Santander e BBVA, que têm optado pelo silêncio.

Viu Leitão e Sardenberg? 

"Império espanhol" na Argentina:

- Telefónica: a operadora tem 21,9 milhões de clientes no mercado argentino e uma quota de 29,8%. No último dia 2, a Telefónica foi responsável por um ‘apagão' da rede fixa e móvel que atingiu 16 milhões de pessoas. O episódio foi recordado pela presidente Kirchner durante o anúncio da nacionalização para estender o aviso às empresas estrangeiras, sobretudo "telefónicas ou bancos".





Acho que ele se refere a isso aqui:




O colonialismo liberal europeu mostra a sua face

 

É o cúmulo do absurdo que o Parlamento Europeu, que reúne representantes do povo, se preste a votar uma resolução contra a Argentina, em defesa dos interesses de uma multinacional. O mesmo parlamento que nada faz para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção e da pobreza. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.

Paris - Os impérios do Ocidente estão nervosos. A decisão da presidenta argentina de renacionalizar os recursos petrolíferos do país reativou nos europeus o ímpeto da ameaça e da desqualificação, assim como a política dos valores em escala variável. O santo mercado tem prerrogativas acima de qualquer oposição. Além da agressiva campanha que se desatou na Espanha em defesa de uma companhia que, na realidade, sequer é espanhola, a União Europeia somou seus votos em respaldo à multinacional. A inesgotável e esgotadora responsável pela diplomacia da UE, Catherine Ashton, advertiu que a decisão argentina “era um muito mau sinal” para os investidores estrangeiros. Por sua vez, o presidente da Comissão Europeia José Miguel Barroso, disse que estava muito “decepcionado” pela medida de Buenos Aires.

O vice-presidente da Comissão Europeia, o italiano Antonio Tajani, sacou um leque de ameaças: "Nossos serviços jurídicos estudam, de acordo com a Espanha, as medidas a adotar. Não se exclui nenhuma opção", disse. Cúmulo do absurdo, o Parlamento Europeu de Estrasburgo, que reúne os representantes do povo, se presta a votar uma resolução contra a Argentina.

Um traço mais da confusão que leva a uma instituição política, surgida do voto popular, a clamar pelos interesses de uma multinacional. O Parlamento Europeu nada fez para denunciar as empresas do Velho Continente que, em nome da segurança jurídica, investiam e investem seus capitais em países amordaçados por regimes assassinos que, ao mesmo tempo que ofereciam segurança jurídica aos investidores, jogavam seus povos no poço da repressão, da corrupção, do assassinato das liberdades e da pobreza. A defesa dos interesses nacionais contra os do mercado é algo que ficou na garganta da muito liberal União Europeia.

A UE revisitou seus “valores” recentemente, no ano passado: em troca da ajuda aos países árabes, a UE pede eleições democráticas, luta contra a corrupção, abertura comercial e proteção dos investimentos. Antes, não lhe importava que um punhado de ditadores e autocratas esmagassem seus povos enquanto a abertura comercial e a proteção dos investimentos estivessem garantidas. A fonte da democracia fechava os olhos enquanto suas empresas pudessem operar a seu bel-prazer.

A mesma dupla linguagem, duplo valor, envolve a escandalosa política das subvenções agrícolas da UE. Instrumento de destruição dos mercados, perverso mecanismo de falsificação dos preços internacionais, as subvenções se aplicam em apoio a uma corporação, a dos agricultores. Pouco importa que o planeta pague pela proteção de um setor. O porta-voz do Comissário Europeu para o comércio, John Clancy, disse ao canal EuroNews que a decisão da presidenta “destrói a estabilidade que os investidores procuram”.

Tocar numa empresa europeia é sinônimo de uma declaração de guerra ou de pisotear a identidade. Hoje reúnem o Parlamento Europeu, em outras épocas talvez tivessem enviado a marinha para bloquear o porto de Buenos Aires como ocorreu em 1834, quando Juan Manuel de Rosas se negou a que os súditos franceses ficassem isentos de suas obrigações militares e decidiu impor um gravame de 25% às mercadorias que chegavam do exterior com destino a Buenos Aires.

A imprensa europeia e os analistas propagam um cúmulo alucinante de omissões e mentiras. Frases como “nacionalismo petroleiro” ou “tentação intervencionista” do Estado argentino, se tornaram uma consigna repetida em todas as colunas. Como se qualificaria então a defesa de uma empresa por parte das instituições políticas da União? Euro-nacionalismo de mercado, escudo político para os interesses privados, etnocentrismo liberal?

E, assim mesmo, o discurso do nacional contra o global, do local contra o multilateral não é uma exclusividade peronista. O próprio presidente francês, Nicolas Sarkozy, o reativou com um vigoroso discurso durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais do dia 22 de abril e seis de maio (primeiro e segundo turno). O presidente candidato propôs renegociar o acordo de Schengen que regula e garante a livre circulação das pessoas e revisar os acordos comerciais que ligam os 27 países membros da União Europeia.

No primeiro caso e por razões claramente eleitorais, Sarkozy considera que os acordos de Schengen não permitem regular para baixo os fluxos migratórios. No segundo, que tem dois capítulos, se trata primeiro de instaurar na Europa um mecanismo similar ao Buy Act American com um “Buy European Act” a fim de que as empresas que produzem na Europa obtenham dinheiro público em caso de licitações. Em segundo lugar, Sarkozy exigiu à Comissão Europeia que imponha um critério de reciprocidade a seus sócios comerciais. Sarkozy disse em seu discurso: “A Europa não pode ser a única região do mundo que não se defende. (…). Não podemos ser vítimas dos países mais fortes do mundo”.

Isto pode ter vigência também para o resto do planeta. O patriotismo europeu bem vale o suposto “patriotismo petroleiro”. Ali onde se encontra em desvantagem, a UE impõe seus limites, ativa seu lobby ou bota suas instituições democráticas a atuar como polícia moralizadora. O livre comércio e o direito monárquico das empresas sobre os recursos naturais, a vida humana e as geografias não é o último estado da humanidade. Há vida depois de tudo, antes e depois da Repsol.

Todo o aparato jurídico da UE se colocou em marcha para sancionar isso que o jornal espanhol El País chama “o vírus expropriador” de Cristina Fernández de Kirchner. O “vírus” do mercado global começa a fazer seu trabalho. A UE está ofendida. Tocaram em seu filho pródigo, a liberdade de brincar com o destino dos povos em benefício de suas empresas. Uma guerra moderna onde o gigante vai sancionar um sócio que deixou de apostar em um tabuleiro onde só ganham os capitais que se volatilizam como os valores democráticos e de justiça que defenda a sacrossanta União. Seu hino à liberdade é geométrico. Enquanto a grana encha seus bancos, o sangue pode correr, como na Tunísia, Líbia, Egito e tantas outras ditaduras africanas que proporcionam o petróleo para acender as luzes de um século cujo destino está em mãos privadas e suas instituições às ordens das entidades financeiras e das empresas.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Miriam Leitão e Bob Jefferson estão órfãos



A colunista de O Globo, Miriam Leitão, produziu uma peça de jornalismo curiosa para tentar condenar Lula por apontar Dilma Rousseff como candidata a sua sucessão. Miriam compara o discurso de Lula ao coronelismo da República Velha e diz que age como se estivesse entregando uma capitania hereditária.

Seria importante lembrar à colunista que o Brasil é uma democracia e quem vai decidir o futuro presidente é o povo. Ou seja, Lula pode dizer que prefere Dilma, mas o povo pode pensar diferente. Fernando Henrique Cardoso, que governou o país por oito anos, assim como Lula, preferia que José Serra o sucedesse, em 2002, mas o povo escolheu Lula.

A colunista completa seu ataque a Lula afirmando que o discurso de “pai e mãe do povo” infantiliza o povo brasileiro. É uma teoria interessante, mas sugeriria à colunista global que encaminhasse o debate a José Serra, o candidato de sua predileção. Afinal, o tucano tenta descaradamente pegar uma carona em Lula, talvez imaginando que o processo sucessório seja exatamente como o vê Miriam Leitão, a entrega de uma capitania hereditária.

Nessa falsa aproximação a Lula, Serra reforça o paternalismo visto por Miriam. Aliás, um aliado do tucano, o petebista Roberto Jefferson descreveu muito bem isso em matéria da Reuters reproduzida pelo próprio O Globo. Diz o Jefferson sobre a perda de identidade da campanha do Serra: “Não tem oposição mais, todos são filhos do Lula. E o Lula quer fazer do patriarcado dele um matriarcado para que todos passem a ser filhos da Dilma Rousseff.”

Bob Jefferson e Miriam Leitão pensam da mesma forma, mas o político é menos tendencioso ao apontar que a oposição quer desfrutar do que seria o patriarcado de Lula. O que Jefferson e Leitão evitam enxergar é que a popularidade de Lula, que jamais se disse pai do povo, se deve à maneira como governou o país, com atenção preferencial aos pobres. A população que lhe atribui aprovação recorde, deseja a continuidade de seu governo, e ela está personificada em Dilma, a sua candidata. E não na oposição, que nem se nomeia assim para tentar tirar uma casquimha de Lula.

Mas Miriam Leitão não para por aí. Afinal, diante da dianteira de Dilma é preciso usar todas as armas para ajudar Serra. A colunista traça um paralelo entre Brasil e Estados Unidos, naquela velha cantilena do que é bom para os EUA, é bom para o Brasil, tão ao gosto do seu candidato.

Certamente pensando no excelente momento da economia do país, diz a colunista que a economia “é decisiva, mas nem sempre”. E lembra da derrota de Al Gore, que perdeu as eleições presidenciais mesmo com o apoio de Bill Clinton, quando os EUA viviam um de seus melhores momentos econômicos na história. Esse argumento é mole de derrubar. Em primeiro lugar, como escreve a própria Miriam, Gore queria distância de Clinton por conta do caso Monica Levinsky. Só com isso, a comparação já não seria apropriada porque Dilma foi próxima de Lula durante o seu governo e deseja manter essa proximidade, não apenas na campanha, mas durante o seu governo. A segunda questão é que Gore perdeu a eleição de forma controversa, para dizer o mínimo, com uma manipulação dos votos da Flórida, governada pelo irmão do candidato oposicionista.

Miriam argumenta que se Clinton tivesse feito uma campanha paternalista seria ainda mais rejeitado. “Lá, eles não acham que eleitores passam de mão em mão como uma massa sem vontade própria”, escreveu. O que Miriam Leitão quis dizer com isso? Que os EUA são melhores que o Brasil? Que o povo americano sabe escolher melhor que o brasileiro? A velha mentalidade colonizada sempre se manifesta nessas horas.

Seria importante lembrar à colunista que a massa “esclarecida” de eleitores norte-americanos que não aceita ser controlada, elegeu George Bush, o responsável por duas guerras das quais os EUA não se desvencilharam até hoje, que causaram mais de 20 mil vítimas no Afeganistão e mais de 375 mil vítimas no Iraque, incluindo 138 mil soldados americanos feridos em combate e pelo menos 45 mil mortes de iraquianos, entre rebeldes, soldados do governo de Saddam Hussein e civis.