Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Pedro Parente, um dos “chicagos boys” de FHC, deveria, antes de tudo e qualquer coisa, estar preso


Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Davis Sena Filho

O governo golpista é um pântano de corrupção e incompetência, consumido por escândalos e pela incapacidade de dar respostas ao País. O caso Geddel [Vieira] foi a gota d'água: um presidente [*mi-shell temer] que atua como despachante de construtora para favorecer interesses privados de um ministro!" — (Senador Lindberg Farias, a definir o tipo de governo pária e desonesto ao qual serve um dos inúmeros golpistas da ousadia e atrevimento de Pedro Parente, que está a fazer picadinho da Petrobras, cujo grupo, o PSDB, não vence eleições presidenciais há 14 anos, e, com efeito, ilegítimo e sem autoridade para governar e impor seu programa ultraliberal e covarde não aprovado pelas urnas, além de entreguista, de arrasa-quarteirão e de lesa-pátria)
Antes de tudo e qualquer coisa, Pedro Parente — cuja alcunha é Mão de Tesoura Lesa-Pátria — deveria estar preso, e, consequentemente, ter muito tempo para ele pensar, se algum dia ele pensou em sua vida de tucano ultraliberal e fundamentalista do mercado financeiro, que de tão fanático abre um feirão digno de um irresponsável para vender a Petrobras e suas subsidiárias a preço de banana.
Digo preço de banana não porque a banana é barata, pois há muito tempo deixou de ser, em um País atrasadíssimo, uma verdadeira e genuína republiqueta, que teima em ver o presente e o futuro pelo espelho retrovisor, porque considera o retrocesso como se fosse desenvolvimento civilizatório. Cito o preço da fruta porque Pedro Parente e a escumalha que o levou ao cargo de presidente da Petrobras são os responsáveis pela destruição da economia brasileira, pela venda de estatais importantes e estratégicas do País e pelo desmonte do pequeno estado de bem-estar social, que estava a ser implementado, a duras penas, pelos governos sociais-democratas do PT.
A ocupar indevidamente o cargo máximo da Petrobras, pois tal função, definitivamente, não é de seu direito por se tratar de um usurpador, Parente, useiro e vezeiro em seu passado de executivo que ajudou a afundar e prejudicar, inclusive, empresas privadas, deveria ser sumariamente demitido da posição que ocupa, porque responde a processos, que, traduzidos, são verdadeiros esqueletos escondidos em seu armário, em companhia de sua ex-colega dos tempos do Governo de FHC — o Neoliberal Golpista I —, a atual presidente do BNDES, Maria Sílvia Bastos Marques.
Isto mesmo. Parente e Maria Sílvia, dupla ligadíssima ao PSDB, partido que está a governar o País bananeiro por meio de um golpe de estado travestido de legal e legítimo, pois o candidato que apoiaram, Aécio Neves, foi derrotado por Dilma Rousseff em 2014, porque o programa ultraliberal dos tucanos foi prontamente rejeitado quatro vezes pela maioria dos eleitores brasileiros, respondem na Justiça pelo "Petrolão Tucano".
O escândalo que, tal qual aos R$ 23 milhões de José Serra na Suíça e as multi delações contra o playboy mineiro, que transita no eixo Rio/BH, nunca, de fato, transformaram-se em manchetes na imprensa golpista e de negócios privados pertencentes aos magnatas bilionários de todas as mídias cruzadas e oligopolizadas, que são os principais responsáveis pelo pântano macabro e poluído em que se transformou a política brasileira, que se tornou um campo propício para se realizar duelos de "pistoleiros".
Adversários ou inimigos, todos vinculados ao campo ideológico da direita, que estão a se enfrentar caninamente para que cada grupo, alcateia ou matilha, que formou o consórcio de direita que teve por propósito depor uma mandatária honesta e legalmente reeleita com 54,5 milhões de votos, que não cometeu crime de responsabilidade, seja agraciado com seu quinhão do espólio do fim da democracia, do Estado de Direito, da Constituição Cidadã, das urnas até então soberanas, de forma que seus interesses econômicos, corporativos e de classe social prevaleçam acima dos interesses do Brasil e de seu povo.
A Nação está agora a ser reconduzida à escravidão, em pleno século XXI e após 73 anos da promulgação da CLT por Getúlio Vargas, com a aprovação pelo Senado da PEC 55, que suspende os investimentos em saúde e educação por 20 anos, a ser votada na próxima terça-feira, bem como a ser desconstruída em todos os setores pelas propostas vampirescas do programa "Uma Ponte para o Futuro (no Inferno)" elaborado pelo PSDB e PMDB, pois, antes de acontecer o golpe de terceiro mundo promovido pela casa grande escravocrata dos coronéis provincianos, os dois partidos golpistas, certamente, negociaram a construção da ponte infernal vigiada por Cérbero, o "animalzinho" de estimação dos fundamentalistas do mercado, que tomaram o poder central de assalto, como os fanáticos tentam ocupar as almas dos indivíduos que não acreditam em seus propósitos, valores, princípios e crenças.
Pedro Parente (parente do povo brasileiro, definitivamente, esse sujeito não é e nunca foi) é réu em ação popular civil desde o ano de 2001, quando foi acusado e denunciado pela Ação Popular nº 2001.71.12.002583-5, mas mesmo assim foi escolhido pelo golpista e traidor *mi-shell temer para presidir a maior empresa da América Latina e uma das mais poderosas petroleiras do mundo, que chegou ao ponto de ter recursos financeiros para investir mais do que o próprio Estado. Nenhuma surpresa, se não fosse réu o Parente.
Afinal, o Palácio do Planalto está cheio de réus e golpistas processados na Justiça, assim como também os ministérios estão repletos de ministros com fichas corridas e dignas de patifes. Seis ministros do (des)governo *temer já caíram, sendo que um deles é o Romero Jucá, líder de um pseudo governo onde vicejam a esculhambação e a má-fé. O fracasso é retumbante e, em apenas seis meses, levaram o Brasil a ser objeto de piadas e escárnios em âmbito internacional, ao ponto de a Globo estar desesperada com seu filho, que ela está a tratar como bastardo por meio de seus noticiários, que atende também pela alcunha de *mefistófeles, que tal empresa monopolista está a embalar e a dar de mamar mesmo contra sua vontade.
"Tome, Marinho (irmãos e Cia.), este filho é teu, pois quem pariu Mateus que o embale!" Quem controla fantoches e capitães do mato tem de arcar com o protagonismo da novela de péssima qualidade, assim como neste caso ser justamente responsabilizado pelo golpe cucaracha, mas violento. Aliás, mais um golpe promovido por essa família plutocrata e, obviamente, registrado em sua tenebrosa biografia, em sua pesada e incomensurável dívida com o povo brasileiro e sul-americano.
A ação contra o Parente tramita na 2ª Vara Federal de Canoas, cidade gaúcha. O Tribunal Regional Federal da 4ª região foi acionado por petroleiros, que acusam o atual presidente golpista da Petrobras de realizar um péssimo negócio para a importante estatal, quando a empresa trocou ativos desvalorizados da multinacional Repsol-YPF, na Argentina, por ativos brasileiros valorizados. O "tombo" ou a lambança, que, creio eu, deve ter sido proposital, pois jamais se deve subestimar a irresponsabilidade, a alma e a cabeça dos tucanos, que nunca, em hipótese alguma, tiveram alguma responsabilidade com a independência do Brasil e a emancipação total e plena do povo brasileiro. Se os coxinhas duvidam, que tratem de ler história e passem a ter mais consciência e discernimento quanto ao que lhes informam pela imprensa privada e alienígena mais corrupta, colonizada, manipuladora e golpista do planeta.
Pedro Parente — o Inconsequente — causou prejuízos de 790 milhões, sendo que com as correções os valores são da monta de R$ 2,4 bilhões. Lembrar-te-ei que o valor da causa na ação é de R$ 5 bilhões, mas o que se vê é que o tucano Parente dorme em berço esplêndido, sem ter a mínima consciência da cagada que fez — aparentemente, até porque as cagadas de tucanos "não vem ao caso", como gosta de afirmar o juiz do PSDB do Paraná, Sérgio Moro, aquele que vai a eventos promovidos por políticos do PSDB e por revistas aliadas dos tucanos, a exemplo da "QuantoÉ", sendo que quando volta à sua Vara rapidamente retoma a perseguição a Lula e ao PT.
O magistrado age politicamente, como se nada tivesse acontecido, como se ele não convivesse com os inimigos do Partido dos Trabalhadores, como se o juiz de província estivesse pouco a se lixar se está a prender pessoas de um partido que ele pune de forma seletiva e arbitrária, pois quem coordena um processo político e judicial dessa gravidade deveria pelo menos se resguardar e jamais conviver, sem nenhum pudor com políticos do PSDB, que assaltaram o poder central por meio de um golpe de estado selvagem, a transformar o Brasil na Casa da Mãe Joana. A cara e o espírito da burguesia brasileira... Espírito de porco, diga-se de passagem.
Pedro Parente mal entrou e usou a palavra "desinvestimento", uma forma peculiar dos neoliberais de dizer que está ferrando, neste caso, com a Petrobras. Desinvestimento significa vender os ativos da petroleira a preços de liquidação, de feirão, como o faz, por exemplo, as Casa Bahia. Só que se trata da Petrobras. Entretanto, o TCU proibiu a Petrobras de continuar com seus desvarios e sandices propiciadas por uma diretoria de abutres e carcamanos, que pensam que o patrimônio público pertence a uma casta empresarial e financista, que trata o Brasil como se fosse o quintal das casas grandes deles.
Esse sujeito dantesco não tem limites e nem paragens. Primeiro ele vende o bloco de Carcará, do Pré-Sal. Logo em seguida, ele vende a BR Distribuidora e a Liquigas, mas já a se preparar para vender os próximos blocos do Pré-Sal, além de outras subsidiária da estratégica estatal. Uma loucura só, que não é combatida por procuradores, promotores e juízes, que se calam e cruzam os braços, incrivelmente, porque desconhecem e ignoram as grandes questões brasileiras, assim como estão envolvidos até o pescoço com o golpe das bananas.
Estão tais servidores a fazer política mal e porcamente, a assumir, até que enfim, que são também responsáveis pela deposição de Dilma Rousseff, quando negociam com o presidente do Senado, Renan Calheiros, a não inclusão nas "Dez Medidas Contra a Corrupção" dos itens que responsabilizam juízes e promotores por crimes de responsabilidade e abuso de poder, além de terem conseguido que Renan não apresentasse o projeto que limita seus salários ao teto constitucional. O presidente do Senado concordou com o pleito dos togados do STF e disse sim... Não caiu do poder. Eduardo Cunha deve estar revoltado, pois não bateu o pé com força e foi morar na cadeia, no xilindró. C'est la vie.
O Tribunal de Contas da União apontou irregularidades e falta de transparência por parte de Pedro Parente, cujos chefes diretos são José Serra e *mi-shell temer. A decisão do TCU é uma derrota para os privatistas inconsequentes e irresponsáveis e que sempre quando podem dão uma banana para o Brasil. A desculpa de Pedro Parente é a de sempre de quem vê o País apenas como uma loja de liquidação, cuja população de 210 milhões de habitantes é apenas um detalhe.
O TCU não é confiável. Alguns juízes do tribunal comandado por Aroldo Cedraz, que é acusado de várias irregularidades juntamente com seu filho, Tiago Cedraz, são cúmplices e atores do golpe e, por conseguinte, permitiram que sejam finalizadas cinco "alienações". Apenas mais cinco. O que é que tem? É porque, singelamente e candidamente, Pedro Parente, que na verdade é um dos incontáveis predadores deste País, solicitou que o TCU permitisse a venda de bens que estão em fase avançada. Talvez, como sempre os tucanos fazem, vide as privatizações de FHC, usem o BNDES para financiar a entrega das estatais que restam aos estrangeiros, até porque a tucana Maria Sílvia preside a instituição de fomento que virou rapidamente comercial, a exemplo do que já fazem com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica. Uma lástima!
A verdade é que essa gente deveria estar há muito tempo presa. Esse pessoal é medíocre; eles não conhecem o País e suas realidades, e, se conhecem, não estão nem aí. São os cosmopolitas de gabinetes, de mentes e pensamentos colonizados e conscientes de razões reais que os levem a serem feitores ou capitães do mato da plutocracia internacional contra seu próprio povo - o brasileiro.
Trata-se de párias, que acreditam em uma globalização capenga e perversa, que arrebentou até mesmo os países desenvolvidos e permitiu diabolicamente que os países pobres e emergentes ficassem mais pobres, sendo que os emergentes servem apenas para esses "globalistas" oportunistas, traiçoeiros e entreguistas fazerem deles uma grande extensão de terras para vender commodities para os países ricos e beligerantes, que têm o controle da geopolítica, das diferentes energias e das armas. Enfim, concretizar o sonho da burguesia tupiniquin colonizada e subalterna: o Brasil como o celeiro do mundo e simples exportador de produtos primários. Retrocesso.
É para o sistema imposto ao mundo pelos megacapitalistas que gente da estirpe de Pedro Parente trabalha. O PSDB é exatamente a flor da submissão e que faz o trabalho sujo para as grandes corporações transnacionais, juntamente com o grande empresariado brasileiro e setores "vendidos" do Judiciário. O Brasil está fadado a ser uma eterna republiqueta de quinta categoria, porque temos uma burguesia, uma classe dominante e uma casa grande de décima categoria — a fina flor do fáscio em forma de escravagista.
Para concluir, se o Brasil um dia conseguir eleger um mandatário nacionalista, de esquerda e trabalhista, será necessário rever como está a funcionar o processo de escolha de juízes de tribunais superiores e de procuradores para comandar a PGR, bem como verificar o que estabelecem os currículos e as grades de matérias de corporações militares e policiais. Não é possível que servidores públicos fiquem alinhados aos interesses de golpistas da política partidária e aos desejos de grupos econômicos que lutam para controlar a agenda presidencial por parte de coronéis midiáticos, que impedem o Brasil de efetivar um marco regulatório para os meios de comunicação, além de querer governar no lugar dos eleitos.
Os golpes neste País têm de terminar e os sediciosos precisam ser severamente punidos ou seremos uma eterna republiqueta desimportante e digna de desrespeito por merecer ser desconsiderada, ou seja, sem influência por não ser séria. Se um presidente trabalhista for eleito no futuro e não fizer essas mudanças que eu elenquei, pois ainda têm outras que serão necessárias, tal mandatário não irá governar e será deposto, como ocorreu com todos os presidentes trabalhistas, com a exceção de Lula, que mesmo assim teve de ir às ruas em 2005 para não ser derrubado pela direita brasileira, a herdeira da escravidão e que escravizou seres humanos por 388 anos — um recorde na história da humanidade.
O Brasil é, indubitavelmente, a genealogia da violência, do preconceito, do sectarismo, da exploração humana e do desrespeito às leis. Agradeça à nossa "elite" por este País ser assim tão atrasado e bárbaro. Um País onde são assassinadas mais de 50 mil pessoas por ano. A casa grande carcomida pelo tempo e corrompida pela escravidão, pelo egoísmo e pela ausência de solidariedade. País que tem a morar em suas terras e cidades pessoas como os tucanos e associados não precisa de inimigos externos. Ponto.
Pedro Parente vendeu, com a aquiescência de *mi-shell e Serra, o bloco Carcará a uma estatal Norueguesa. Tal indivíduo traidor desta Nação sofrida vendeu o patrimônio do povo brasileiro para o povo norueguês. Percebeu? Compreendeu? Quer que eu desenhe? A compradora do bloco Carcará é também estatal como a Petrobras. O negócio mandrake é surreal e também inaceitável! O Brasil está a vender o almoço para comprar o jantar. Qualquer economista meia boca jamais faria acordos tão criminosos como esses do governo golpista de lesa-pátria. Pedro Parente et caterva são os "chicago boys" de Fernando Henrique Cardoso — o Neoliberal Golpista I — e deveria, antes de tudo e qualquer coisa, estar preso. É isso aí.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Evo: na Bolívia não mandam os Chicago Boys Chicago Boys são os Neolibêles do FHC


De Walber Leandro, no face do C Af


No Valor:


“Na Bolívia, não mandam os Chicago boys”, diz Evo Morales em posse




LA PAZ – O presidente da Bolívia, Evo Morales, voltou a rechaçar, nesta quinta-feira, a política econômica neoliberal em seu discurso de posse. “Na Bolívia, não mandam os Chicago boys, mas sim os Chuquiago boys”, disse, após relatar longamente os avanços econômicos e sociais do país. “Aqui, mandam os índios”.

No fim do ano passado, em um evento em Cochabamba, o presidente usou a mesma expressão para criticar as economias ditas neoliberais, como a norte-americana. A afirmação, desta vez, foi feita na presença da presidente Dilma Rousseff, que em seu segundo mandato parece ter dado uma guinada na política econômica, nomeando para o Ministério da Fazenda, um economista considerado um Chicago boy, Joaquim Levy.

(…)

Veja o vídeo:


Os Chicago Boys, neolibêles da Universidade de Chicago, primeiro assumiram o poder com Pinochet no Chile.
Depois, se espalharam pelo México, Bolívia e Argentina e governaram o Brasil nos oito anos do Farol de Alexandria.
Acabam de ser enxotados da Europa pelo Draghi.
E tentam botar as manguinhas de fora por aqui, se o PT deixar.
Paulo Henrique Amorim





terça-feira, 1 de maio de 2012

silenciosas e moleculares revoluções

 



Vila Euclides: uma revolução molecular

Em uma conjuntura de crise e de crescimento acelerado do desemprego nos EUA e na Zona do Euro, talvez o melhor exercício neste 1º de maio de 2012 seja revisitar as lutas travadas nas décadas de 1970 e 1980 para perceber o quanto ganhamos, em massa crítica acumulada, no mundo do trabalho.

Talvez o melhor exercício neste 1º de maio de 2012 seja revisitar as lutas travadas nas décadas de 1970 e 1980 para perceber o quanto ganhamos, em massa crítica acumulada, no mundo do trabalho. Deixando para trás, tendências que, no final da ditadura, desejavam, quando muito, uma readaptação do corporativismo aos novos tempos que chegavam, correntes que rejeitavam toda tutela e paternalismo governamental tiraram o sindicalismo do sono letárgico do "jogo de aparelhos", de estruturas sindicais azeitadas, para levá-lo ao eterno jogo da conciliação de classes.

Quando, no dia 12 de março de 1978, os trabalhadores da Saab-Scania, em São Bernardo, param as máquinas e cruzam os braços, eles iniciam um novo momento no movimento operário e na luta política no Brasil. A greve estendeu-se às fábricas vizinhas e, em menos de dez dias, mais de 30 mil trabalhadores ampliaram o movimento para as cidades do ABC paulista. Foram greves por fábrica, sem piquetes, e a elas se sucederam as greves por categorias que, uma após outra, cidade após cidade, em todos os estados, mudaram o quadro sindical, sacudiram o país de alto a baixo, num ascenso que se estenderia até 1979.

As marcas desse processo são a espontaneidade, a combatividade de suas direções, muitas surgidas por fora e atropelando os sindicatos e seu isolamento. As greves por categoria, mesmo não coincidindo no tempo e no espaço, não se articulavam em comandos unificados e ações conjuntas. Os patrões e os governos, pegos de surpresa, conhecem a mais dura derrota nos anos de chumbo. Nos dois anos seguintes, o ciclo das greves espontâneas e por categoria se encerra. As novas lideranças sabiam que, dali em diante, para conseguirem vitórias significativas, precisariam ultrapassar os limites da negociação patronal e enfrentar diretamente o regime militar e sua política econômica e social.

Os setores avançados do sindicalismo já tinham colocado essas questões na agenda do movimento: o Congresso dos metalúrgicos, no final de 1978, aprovara uma resolução para combater a CLT e a estrutura sindical corporativa -o AI-5 dos trabalhadores. Propunham o aprofundamento da organização nas bases, através das comissões de fábricas e a construção da Central Única dos Trabalhadores. A esquerda tradicional, que namorava os novos sindicalistas, vai afastando-se na medida em que estes vão definindo uma estratégia de combate calcada na independência política. O afastamento se aprofunda quando o setor mais avançado da classe trabalhadora propõe e articula a criação do Partido dos Trabalhadores. O embrião da mais original formação política de esquerda começa, como vemos na dinâmica própria do mundo do trabalho.

O período aberto pela greve de 21 de julho de 1983 já tem características fundamentalmente diferentes das lutas operárias anteriores. A iniciativa de Paulínia / São Bernardo conseguira fazer sair do papel proposta de greve geral e impulsionara uma unidade de ação que superava os marcos do apoliticismo e conservadorismo da estrutura sindical. A avaliação desse período não poderia ser feita sem levar em conta a adequação da burguesia e da ditadura às mudanças conjunturais. A estratégia não poderia ser mais equivocada: chamam os pelegos - Joaquinzão à frente - para um diálogo e tramam canalizar a greve para um acordo com a ditadura e a mobilização de massas para dentro do que havia de mais atrasado no mundo sindical. Erraram na dose, erraram de interlocução. A tentativa de isolar o sindicalismo autêntico dos setores de massa já não era mais possível, e por um motivo bem simples: na ação, a base dos movimentos já demonstrara sua independência da direção nas greves de 1979 e 1980. 

Hoje, passados mais de 30 anos dos fatos relembrados, o relatório sobre o emprego no mundo, da Organização Internacional do Trabalho, confere ao país um notável destaque no cenário mundial.

Segundo o diretor-geral da OIT, Juan Somavia, os países que não sacrificaram o setor trabalhista estão superando a crise mais facilmente. O Brasil, que teve aumento de emprego, é citado no relatório como exemplo de país que adotou "políticas sociais e laborais adequadas.”

Em uma conjuntura de crise e de crescimento acelerado do desemprego nos Estados Unidos e na Zona do Euro, a situação privilegiada do país deve-se, sem dúvida, à correção da política macroeconômica dos governos de Lula e da presidente Dilma, mas se formos sondar sua essência ouviremos as palavras de ordem das grandes assembléias no então Estádio da Vila Euclides. É contra essas silenciosas e moleculares revoluções que as classes dominantes e seu braço corporativo se voltam desde 1978. Até aqui, 1º de maio de 2012, não obtiveram sucesso.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil


http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5577&fb_source=message

Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.


Galeano e o 1º de Maio nos EUA
Por Eduardo Galeano, em "O livro dos abraços":

Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor de um dos edifícios mais altos do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários.

Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio. – Deve ser por aqui – me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.

 O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.

Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema.

O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

'Brasil é exemplo e tem governo progressista bem visto'



Líder estudantil chilena participa em Brasília de marcha brasileira por mais dinheiro na educação. Ameaçada de morte em seu país, ela diz se sentir mais segura no Brasil do que no Chile. “Há união de lutas de todo povo latino-americano", diz Camila Vallejo à Carta Maior, antes de voltar a seu país para encontrar o presidente Sebastian Piñera.

BRASÍLIA – A estudante de geografia Camilla Vallejo desembarcou no Brasil, vinda do Chile, na madrugada de terça (30/08) para quarta-feira (31/08), deixando para trás, mesmo que só por poucas horas, ameaças de morte que nem seus olhos verdes e o ar angelical foram capazes de desestimular.

Principal líder de manifestações que, nos últimos dias, levaram centenas de milhares de estudantes às ruas de Santiago, a presidente da Federação de Estudantes da Universidade do Chile (FECh) anda tranquila pela Esplanada dos Ministérios. Exceto pelo calor e o sol inclemente, dos quais tenta se proteger com um boné vermelho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

Na manhã de quarta, ela participa de – e ajuda a atrair atenção para - uma mobilização de jovens brasileiros que exige mais verba à educação. “Me sinto muito mais segura aqui do que no Chile, não há repressão policial”, diz Camila à Carta Maior, em frente ao Congresso Nacional, onde um carro de som anima, com palavras de ordem e músicas, milhares de estudantes brasileiros.

“Há uma união das lutas de todo povo latino-americano. Há uma causa comum e demandas muitas vezes parecidas, principalmente no tema econômico”, afirma Camila, ao explicar a presença no ato, uma espécie de retribuição à ida a Santiago, dias atrás, de seu equivalente brasileiro, Daniel Iliescu, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

“O que você acha do Brasil e do governo brasileiro?”, pergunta a reportagem, em espanhol precário.

“O Brasil é um bom exemplo para o Chile, tem um governo progressista muito bem visto”.

“E da presidenta Dilma?”

“Sou militante comunista e conheço o passado militante dela, vejo ela com simpatia.”

“Qual o saldo das manifestações no Chile até agora?”

“Logramos despertar a consciência política, o assunto passou a ser discutido dentro das casas, como não se fazia há décadas.”

Horas depois, com mais calma, Camila dará um depoimento mais completo, em audiência pública da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Presidida por uma ex-líder estudantil, Manuela Dávila (PCdoB-RS), a comissão realiza a audência em solidariedade aos chilenos.

“A legislação chilena regulamenta o direito de manifestação pacífica nas ruas, sem necessidade de autorização prévia, e mesmo assim a polícia, completamente militarizada, tem combatido os estudantes e trabalhadores com violência, usando gás lacrimogêneo, que, no nosso país, é considerado arma de guerra”, conta Camila.

“Já são quatro vítimas fatais desde o início dos protestos e pelo menos 500 pessoas presas de forma ilegal. Temos relatos também que indicam a prática de tortura, inclusive com choque elétrico e abuso sexual de menores.”

A criminalização dos movimentos sociais, tratados como os causadores da violência que assola o país, também incomoda a militante. “Todo o movimento organizado chileno sofre com a violência psicológica provocada pelo discurso político do governo, que nos acusa de sermos culpados pelas mortes e ferimentos dos nossos próprios companheiros”, relata.

Para Camila, a rápida adesão do Chile ao neoliberalismo, na ditadura Pinochet (1973-1990), liquidou com o sistema de proteção social do país e colocou em risco o acesso dos cidadãos a direitos considerados fundamentais nas sociedades democráticas. “Hoje, no Chile, a educação é tratada como um bem de consumo qualquer, e não como um direito social”, diz.

“A situação dos estudantes brasileiros é melhor do que a dos chilenos porque eles conseguiram uma interlocução real com a sociedade e com o governo. E, com isso, obtiveram conquistas, mesmo que pequenas. No Chile, só agora conseguimos construir uma pauta conjunta com a sociedade. Nosso modelo educacional está falido, obsoleto e isso incomoda a maioria das famílias chilenas. Só uma parcela muito pequena da população tem acesso à educação gratuita”, afirma a estudante de geografia.

Segundo ela, das cerca de 3,5 milhões de matrículas na educação básica, metade está atrelada ao sistema de subvenção estatal, por meio de créditos educacionais. “Só as famílias muito pobres têm direito à educação pública. A classe média, que é a maioria, recebe bolsas do governo.  Com isso, o governo investe o pouco dinheiro que destina à área no setor privado. E há, aí, um claro conflito de interesses, porque muitos políticos são também os proprietários do sistema privado de educação”, esclarece.

A estudante afirma que a situação é ainda pior nos demais níveis. No ensino médio, as instituições privadas abarcam metade dos alunos. No superior, o índice chega a 80%. “Apenas 20% dos estudantes universitários estão nas instituições públicas, mas mesmo assim têm que pagar pelo ensino. Não existe mais educação superior gratuita no Chile. E os custos são altíssimos. Um curso em uma instituição pública chega a custar US$ 5 mil por mês”, afirma Camila.

Para garantir que uma pequena parte das famílias de classe média e baixa tenha acesso à educação, o governo oferece subvenção, por meio de um complicado sistema de crédito, que os alunos têm que pagar posteriormente. Os juros são altos e inviabilizam a quitação para recém-formados que disputam a tapas uma vaga no mercado de trabalho do país: estudantes das universidades públicas pagam 2% de juros ao ano e, das particulares, 5,8%. “Com esse sistema, os alunos pagam de três a quatro vezes o preço do curso”

Para ela, o problema principal, entretanto, é a concepção de educação que prevalece no atual governo. “As instituições públicas têm que se autofinanciar e, para isso, não apenas cobram mensalidades, como entram no jogo de oferecer o ensino que o mercado quer. Não há uma formação humanística, crítica, que estimule a prática democrática, mas apenas uma formação tecnicista, mercadológica. Por isso, necessitamos de reformas profundas, e não apenas de mais recursos para a área”.

Na noite de quarta (31/08), Camila encerra a visita ao Brasil. Tem de voltar logo ao Chile, para um encontro com o presidente Sebastian Piñera.

*Matéria alterada para correção de informação. Em função do atraso na reunião da UNE com a presidenta, Camila não participou do encontro, por estar em audiência pública na Câmara.


Fotos: Uma das principais líderes do movimento estudantil chileno,Camila Vallejo, participa da Marcha dos Estudantes, organizada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em Brasília (Foto: Wilson Dias - ABr)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A vida secreta dos economistas do sistema


Nos editoriais e aparições públicas, os economistas acadêmicos não costumam revelar seus investimentos em – ou contratos com – instituições financeiras privadas, que poderiam influir em suas recomendações políticas. Mas desde que dois investigadores expuseram uma série de potenciais conflitos de interesse entre membros de sua profissão, os economistas estão agora, pela primeira vez, levando em consideração regras éticas que os obrigariam a divulgar qualquer conexão entre suas finanças pessoais e as políticas públicas que eles defendem. O artigo é de Mica Uetricht.

Se os norteamericanos soubessem que alguns dos economistas que defendem publicamente as desregulações financeiras, que contribuíram para desencadear a Grande Recessão, aproveitaram-se de sua implantação, sentiriam-se mais interessados por elas?

É difícil saber, porque nos editoriais e aparições públicas, os economistas acadêmicos não costumam revelar seus investimentos em – ou contratos com – instituições financeiras privadas, que poderiam influir em suas recomendações políticas. Mas desde que dois investigadores expuseram uma série de potenciais conflitos de interesse entre membros de sua profissão, os economistas estão agora, pela primeira vez, levando em consideração regras éticas que os obrigariam a divulgar qualquer conexão entre suas finanças pessoais e as políticas públicas que eles defendem.

No ano passado, os economistas Gerald Epstein e Jessica Carrick-Hagenbarth, da Universidade de Massachusetts Amherst, publicaram um trabalho intitulado “Economistas financeiros, interesses financeiros e recantos obscuros dessa combinação”. Sugeriam uma causa da crise até então não explorada: os economistas não previram o colapso porque muitos deles estavam se beneficiando das políticas que levaram ao desastre. “Os economistas, como muitos outros, tinham incentivos perversos para não reconhecer a crise”, escrevem Epstein e Carrick-Hagenbarth no trabalho que foi publicado pelo Instituto de Investigação de Economia Política, de tendência de esquerda, de sua universidade.

O estudo examinou 19 economistas financeiros, acadêmicos e anônimos, cujas opiniões foram proeminentes nos meios de comunicação durante a promoção de reformas financeiras e depois do colapso do mercado. Treze dos acadêmicos tinham interesses ou contratos com instituições financeiras, cujos investimentos poderiam aumentar de valor se e quando as sugestões dos economistas se convertessem em política. Oito destes treze não revelaram tais conflitos de interesse.

Epstein disse que o silêncio dos economistas acerca dos perigos da desregulação pode ser atribuído em parte aos interesses econômicos destes acadêmicos: “Se você é um economista financeiro e ganha milhares de dólares trabalhando para uma empresa financeira, que pode estar menos inclinada a empregar-te caso se pronuncie publicamente a favor de uma reforma financeira, vai pensar duas vezes antes de defender tal reforma”.

Em 2006, a Câmara de Comércio da Islândia pagou a Frederic Mishkin, professor da Columbia Business School e ex-governador do Conselho de Administração do Federal Reserve (o banco central dos EUA), 124 mil por participar de um estudo sobre a situação financeira da Islândia, no qual explicou muitos dos fatores que logo iam provocar a implosão da economia do país. O documento Inside Job (“Trabalho interno”), vencedor de um Oscar, explica que, em seu currículo, Mishkin mudou o título do estudo “Estabilidade financeira na Islândia” por “Instabilidade financeira na Islândia”.

American Economics Association (AEA), organização profissional de economistas acadêmicos, não tem regras éticas que proíbam ou exijam a manifestação deste tipo de conflito de interesse, além de alguns requerimentos a respeito de trabalhos apresentados à publicação da organização. De fato, normalmente o organismo não tem nenhum tipo de código ético oficial.

Epstein e Carrick-Hagenbarth distribuíram uma carta em janeiro, assinada por quase 300 economistas, defendendo a criação desse código. “Acreditamos que seria um passo importante e necessário para reforçar a credibilidade e a integridade da profissão”, dizia a carta.

Parece que teve algum efeito. Em sua conferência de janeiro em Denver, a AEA anunciou a criação de um comitê para desenvolver regras éticas. (Ironicamente a identidade dos membros do comitê manteve-se secreta, ainda que, segundo Epstein, o organismo vá revelar seus nomes em futuro próximo). Representantes da AEA não quiseram fazer comentários sobre o progresso do comitê.

Outras ciências sociais, como a sociologia, têm cláusulas éticas que requerem uma clareza total acerca de conflitos de interesse potenciais em discursos públicos, artigos e publicações acadêmicas. Epstein sabe que um código ético para economistas não consertará a economia do país. Mas sua reclamação é um passo na direção de políticas financeiras mais morais. “Um código de ética não é uma panaceia”, diz. “Mas pode ajudar a criar um ambiente no qual a economia e os economistas possam se considerar mais responsáveis”.

(*) Micah Uetricht, antigo editorialista de In These Times, é membro da redação da revista eletrônica de Chicago Gaspers Block e Campus Progress. Já escreveu também para Alternet, YES!, Labor Notes, Truthout.org e The Indypendent. Atualmente vive em Chicago e pode ser contatado em micah.uetricht@gamil.com.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 23 de março de 2011

O que Obama devia ter feito no Chile


Em 1965, durante uma viagem notável ao Chile, Bobby Kennedy quebrou seu rígido protocolo e se encontrou com mineiros explorados e estudantes universitários hostis. Ele mergulhou nos problemas do país para conhecê-los, para perguntar como chegar a uma solução. E se Obama decidisse seguir o exemplo de Kennedy – seu ídolo, Bobby Kennedy – e mudasse o roteiro para fazer algo sem precedentes como uma visita ao túmulo de Allende? Não seria preciso pedir perdão ou expressar remorso pela intervenção dos EUA nos assuntos internos do Chile, nem por ter sustentado Pinochet durante tanto tempo. Bastaria esse gesto singelo. O artigo é de Ariel Dorfman.

Quando Barack Obama desembarcar no Chile para uma visita de 24 horas, algo crucial faltará em sua agenda. Haverá mariscos suculentos, discursos elogiosos à prosperidade do Chile, acordos bilaterais e encontros com poderosos e celebridades, mas não há planos, sem dúvida, de que o presidente dos Estados Unidos tome contato com o que foi a experiência fundamental da recente história chilena, o trauma que o povo de meu país sofreu durante os quase dezessete anos do regime do general Augusto Pinochet.

E, no entanto, não seria impossível para Obama ter conhecimento de uma pequena amostra do que foi a aflição do Chile. A poucas quadras do Palácio Presidencial de La Moneda, onde será recebido por Sebastian Piñera, 120 pesquisadores se dedicam assiduamente a construir uma lista definitiva das vítimas de Pinochet para que possa ser feita alguma forma de reparação. Esta é a terceira tentativa desde que terminou a ditadura, em 1990, para enfrentar as perdas massivas que ocasionou. Duas comissões estabelecidas oficialmente investigaram uma imensa quantidade de casos de tortura, execuções e prisão política, mas foi ficando claro, na medida em que passavam os anos, que inumeráveis abusos de direitos humanos seguiam sem identificação. E, de fato, a pesquisa recente recebeu 33 mil solicitações adicionais, horrores que ainda não tinham sido registrados.

Ainda que Obama não tenha direito a ler nenhum dos informes confidenciais acerca daqueles casos, alguns minutos roubados de seu estrito calendário para falar com alguns dos homens e mulheres que realizam essas pesquisas, o informariam mais sobre a escondida agonia do Chile do que mil livros e reportagens.

Poderia, por exemplo, conversar com a pesquisadora chamada Tamara. No dia 11 de setembro de 1973, dia em que Salvador Allende foi derrubado, o pai de Tamara, um dos guarda-costas de Allende, foi detido, sem que jamais se soubesse seu paradeiro posterior. Eu trabalhava em La Moneda na época do golpe militar e salvei minha vida em função de uma cadeia de coincidências milagrosas, mas o pai de Tamara não teve tanta sorte, assim como não tiveram vários bons amigos meus, cujos corpos ainda estão sem sepultura.

Ou Obama poderia auscultar os olhos de um advogado que conheço, que foi sequestrado uma tarde e torturado durante semanas antes de ser deixado uma noite em uma rua desconhecida, tão longe de seu lar que imediatamente preso de novo por romper o toque de recolher. Ou Obama poderia conversar com uma antropóloga que teve que ir para o exílio por 14 anos, perdendo seu país, sua profissão, seu idioma, e cujo retorno ao Chile foi tão angustiante como seu desterro original, posto que seus filhos, em virtude da prolongada ausência do país onde nasceram, decidiram permanecer no estrangeiro, o que significa que essa família estará separada para sempre.

Caso o presidente Obama sinta-se mais cômodo conhecendo lugares em vez de seres humanos de carne e osso, poderia familiarizar-se com Villa Grimaldo, uma casa de tormentos onde agora se ergue um centro para a paz, ou reservar dez minutos para visitar o Museu da Memória, onde há exibições que denunciam o terrível passado do Chile.

Uma razão pela qual faz sentido que Obama vislumbre, ainda que através de um vidro obscuro, nossa vasta e devastadora dor, é que os norteamericanos foram, em grande parte, responsáveis por aquela tragédia. Washington ajudou, estimulou e financiou a queda do governo democraticamente eleito de Allende e a trajetória ditatorial de Pinochet. No momento em que a revolta no Egito, como em tantos outros países que se levantam contra o autoritarismo, lembra ao mundo as consequências de sustentar regimes brutais, seria instrutivo para um presidente tão inteligente e humanitário como Obama ver, de perto e pessoalmente, alguns dos homens e mulheres que foram destruídos por essa política.

O Chile também oferece um exemplo do quão difícil é confrontar os crimes contra a humanidade, difícil e necessário. Em meu país aprendemos que se nossa comunidade, nosso povo inteiro, não olha de frente para o passado aterrador e arrasta seu pesar para a luz, se os responsáveis não recebem castigo, corremos o risco de que nossa própria alma se corrompa.

É uma lição que Obama e seus compatriotas deveriam impor a si mesmos. Dois anos depois de sua posse, Guantánamo segue aberta e não há sinal de que vá ocorrer um julgamento das violações dos direitos humanos sob a administração Bush nem tampouco uma insinuação de que será pedido perdão às vítimas. Uma comissão norteamericana que tome como modelo esta que foi criada em Santiago poderia dar um primeiro passo na direção de um ajuste de contas que, como bem sabemos nós os chilenos, não deveria ser adiada de forma indefinida.

Por mais importante que essa experiência fosse para Obama, há outra que seria ainda mais significativa. À noite, ele vai jantar no mesmo Palácio Presidencial onde Salvador Allende morreu muitos anos atrás, em defesa do direito de seu povo escolher seu próprio destino. Allende está enterrado em um cemitério não muito longe de onde a elite do país estará brindando pela amizade eterna entre Chile e os Estados Unidos. Em 1965, durante uma viagem notável ao Chile, Bobby Kennedy quebrou seu escrupuloso protocolo e se encontrou com mineiros explorados e estudantes universitários hostis. Ele mergulhou nos problemas do país para conhecê-los, para perguntar como chegar a uma solução. E se Obama decidisse seguir o exemplo de Kennedy – seu ídolo, Bobby Kennedy – e mudasse o roteiro para fazer algo sem precedentes como uma visita ao túmulo de Allende? Se ele simplesmente parasse neste lugar, ficasse de pé diante dos restos de quem foi, como ele, um presidente eleito por seu povo, e dedicasse um par de minutos solitários?

Não seria imprescindível que pedisse perdão ou expressasse remorso pela intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos do Chile, nem por ter sustentado Pinochet durante tanto tempo. Bastaria esse gesto singelo. Essa homenagem a um presidente que entregou sua vida lutando pela democracia e a justiça social mandaria uma mensagem a América Latina e a todo o planeta que seria mais eloquente que cinquenta discursos retóricos. Seria um sinal de que talvez seja mesmo possível uma nova era das relações entre os Estados Unidos e seus vizinhos, ao sul do rio Bravo, que o passado tão amargo e injusto nunca mais há de voltar, nunca, nunca mais.

(*) Ariel Dorfman é escritor. Seu último livro é “Americanos: Los passos de Murieta”.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Leonardo Boff apóia aliança entre Marina e Dilma


Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. José Serra representa esse ideário. O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto. É aquí que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. O artigo é de Leonardo Boff.
O Brasil está ainda em construção. Somos inteiros mas não acabados. Nas bases e nas discussões políticas sempre se suscita a questão: que Brasil finalmente queremos?

É então que surgem os vários projetos políticos elaborados a partir de forças sociais com seus interesses econômicos e ideológicos com os quais pretendem moldar o Brasil.

Agora, no segundo turno das eleições presidenciais, tais projetos repontam com clareza. É importante o cidadão consciente dar-se conta do que está em jogo para além das palavras e promessas e se colocar criticamente a questão: qual dos projetos atende melhor às urgências das maiorias que sempre foram as “humilhadas e ofendidas” e consideradas “zeros econômicos” pelo pouco que produzem e consomem.

Essas maiorias conseguiram se organizar, criar sua consciência própria, elaborar o seu projeto de Brasil e digamos, sinceramente, chegaram a fazer de alguém de seu meio, Presidente do pais, Luiz Inácio Lula da Silva. Fou uma virada de magnitude histórica.

Há dois projetos em ação: um é o neoliberal ainda vigente no mundo e no Brasil apesar da derrota de suas principais teses na crise econômico-financeira de 2008. Esse nome visa dissimular aos olhos de todos, o caráter altamente depredador do processo de acumulação, concentrador de renda que tem como contrapartida o aumento vertiginoso das injustiças, da exclusão e da fome. Para facilitar a dominação do capital mundializado, procura-se enfraquecer o Estado, flexibilizar as legislações e privatizar os setores rentáveis dos bens públicos.

O Brasil sob o governo de Fernando Henrique Cardoso embarcou alegremente neste barco a ponto de no final de seu mandato quase afundar o Brasil. Para dar certo, ele postulou uma população menor do que aquela existente. Cresceu a multidão dos excluidos. Os pequenos ensaios de inclusão foram apenas ensaios para disfarçar as contradições inocultáveis.

Os portadores deste projeto são aqueles partidos ou coligações, encabeçados pelo PSDB que sempre estiveram no poder com seus fartos benesses. Este projeto prolonga a lógica do colonialismo, do neocolonialismo e do globocolonialismo pois sempre se atém aos ditames dos paises centrais.

José Serra, do PSDB, representa esse ideário. Por detrás dele estão o agrobusiness, o latifúndio tecnicamente moderno e ideologicamente retrógrado, parte da burguesia financeira e industrial. É o núcleo central do velho Brasil das elites que precisamos vencer pois elas sempre procuram abortar a chance de um Brasil moderno com uma democracia inclusiva. 

O outro projeto é o da democracia social e popular do PT. Sua base social é o povo organizado e todos aqueles que pela vida afora se empenharam por um outro Brasil. Este projeto se constrói de baixo para cima e de dentro para fora. Que forjar uma nação autônoma, capaz de democratizar a cidadania, mobilizar a sociedade e o Estado para erradicar, a curto prazo, a fome e a pobreza, garantir um desenvolvimento social includente que diminua as desigualdades. Esse projeto quer um Brasil aberto ao diálogo com todos, visa a integração continental e pratica uma política externa autônoma, fundada no ganha-ganha e não na truculência do mais forte.

Ora, o governo Lula deu corpo a este projeto. Produziu uma inclusão social de mais de 30 milhões e uma diminuição do fosso entre ricos e pobres nunca assistido em nossa história. Representou em termos políticos uma revolução social de cunho popular pois deu novo rumo ao nosso destino. Essa virada deve ser mantida pois faz bem a todos, principalmente às grandes maiorias, pois lhes devolveu a dignidade negada.

Dilma Rousseff se propõe garantir e aprofundar a continuidade deste projeto que deu certo. Muito foi feito, mas muito falta ainda por fazer, pois a chaga social dura já há séculos e sangra.

É aquí que entra a missão de Marina Silva com seus cerca de vinte milhões de votos. Ela mostrou que há uma faceta significativa do eleitorado que quer enriquecer o projeto da democracia social e popular. Esta precisa assumir estrategicamente a questão da natureza, impedir sua devastação pelas monoculturas, ensaiar uma nova benevolência para com a Mãe Terra. Marina em sua campanha lançou esse programa. Seguramente se inclinará para o lado de onde veio, o PT, que ajudou a construir e agora a enriquecer. Cabe ao PT escutar esta voz que vem das ruas e com humildade saber abrir-se ao ambiental proposto por Marina Silva. 

Sonhamos com uma democracia social, popular e ecológica que reconcilie ser humano e natureza para garantir um futuro comum feliz para nós e para a humanidade que nos olha cheia de esperança.

(*) Leonardo Boff é teólogo