Comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, Benedito Roberto Meira, sugeriu aos líderes do Movimento Passe Livre que incluam na pauta de reivindicações a prisão dos condenados na Ação Penal 470, o chamado "mensalão"; pelo Twitter, o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ligado ao PT, protestou; "é um manipulador"; no fim desta tarde, São Paulo deve parar mais uma vez; motivação do protesto é o reajuste dos ônibus
Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista
segunda-feira, 17 de junho de 2013
ANONYMOUS INVADE PERFIL DA VEJA E CHAMA MANIFESTAÇÃO
Grupo hacker assume a invasão do perfil oficial da revista da Abril no Twitter e divulga senhas para a publicação de fotos e vídeos dos recentes protestos contra o aumento da tarifa do transporte público; "Não é por centavos, é por direitos", diz mensagem de cartaz; "Um jornalista fascista é pior que 300 polícias da tropa de choque te reprimindo", escrevem ativistas, que anunciam que outros perfis estão sendo tomados
17 DE JUNHO DE 2013 ÀS 13:35
247 - O perfil no Twitter da revista Veja (@VEJA) foi invadido pelo grupo hacker Anonymous Brazil nesta segunda-feira e vem tendo mensagens publicadas pelos ativistas desde então. "Jornalismo fascista nós não precisamos de vocês", diz o primeiro tuíte da página após a invasão, assumida por @AnonManifest.
O grupo informou que "outros vários perfis estão sendo tomados" neste momento e que "estará a dispor, p serem usados como divulgação de videos fotos". "O perfil da @Veja é invadido por nós #Anonymous. O teor dos textos melhorou 800%. :)", escreveram os invasores. Em sua página, o Anonymous divulgou a nova senha da Veja no Instagram e no Gmail.
"Acabei de tomar de assalto o perfil da @veja aqui no twitter!", publicou @AnonManifest, por volta de 12h50. A revista Veja já divulgou nota a respeito, informando que, neste momento, as mensagens publicadas em suas contas "são falsas". Leia abaixo:
Perfis de VEJA no Twitter são invadidos
Por ora, as informações publicadas nas contas são falsas. Bloqueio já foi solicitado à rede social
Dois perfis ligados a VEJA foram invadidos nesta segunda-feira. As contas são @VEJA, o perfil principal da publicação, e @radaronline, assinada por Lauro Jardim, redator-chefe da revista.
Todas as informações publicadas a partir das 12h20 são de responsabilidade dos invasores. O bloqueio dos perfis já foi solicitado pela redação à rede social.
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Partidos perderam o controle dos protestos; hora de ir à rua
Vai se confirmando a percepção inicial de muitos no sentido de que houve um início de aparelhamento político dos protestos que, a partir de São Paulo, espalharam-se pelo Brasil. Conversas com simpatizantes e militantes de partidos envolvidos nesse processo e com outros tantos sem vinculações partidárias confirmam essa premissa e estimulam a imaginação.
Todavia, cumpre reconhecer que os interesses políticos que tentavam se assenhorar desse movimento encabeçado pela organização “Passe Livre” nunca representaram a sua totalidade, assim como a tese de que se tratava de um movimento espontâneo tampouco reproduz a sua gênese.
Acima de outros partidos, o PSOL teve um papel importante na tal “gênese” do crescimento de um movimento que vem atuando há anos, porém sem maior expressão. Nesse aspecto, nos primeiros atos desse drama houve, sim, tentativa de constranger adversários políticos ocupantes do governo do Estado e da prefeitura paulistana.
O que ocorreu, do primeiro grande ato ao último – com seus resultados trágicos –, foi o entendimento, inclusive pelo Movimento Passe Livre, de que a politização terminaria por sepultar intenções sinceras e um clamor da sociedade diante de um Estado que vem se mostrando incapaz de atuar com a velocidade que se espera no sentido de estender aos brasileiros os benefícios de um soerguimento econômico da nação que ocorreu ao longo da última década.
Além do que, nos Estados e municípios não houve uma melhora da qualidade de vida nas metrópoles. Apesar de o brasileiro estar com mais dinheiro no bolso, a vida nas grandes cidades vai se tornando insuportável.
Viver em uma urbe como São Paulo é hoje um martírio. A situação é tão insustentável que uma cidade que rejeitava com tanta força o PT elegeu até com votação confortável um representante desse partido. Aconteceu, na minha cidade, o que ocorrera no Brasil em 2002: o povo resolveu dar uma nova chance ao PT como última tentativa.
Fernando Haddad, nesse aspecto, cometeu um erro político muito grande. O grande problema do PT vem sendo a falta de comunicação. Por conta disso, desde a posse o novo prefeito se manteve praticamente mudo. Após uma campanha em que a melhora no transporte urbano foi o mote, antes de qualquer melhora a nova administração tasca um aumento no lombo dos munícipes.
Ao longo deste ano, pessoas que vêm dos bairros mais humildes para os mais abastados todos os dias, e que votaram em Haddad esperando uma tarifa de transporte que pesasse menos no bolso, revoltaram-se com a ocorrência do inverso.
Apesar de o transporte ferroviário e metroviário também continuar piorando e subindo de preço, a recente eleição colocou a administração municipal em maior visibilidade.
Se Haddad tivesse se dirigido à sociedade e explicado antes do aumento que ele era inevitável e que no segundo semestre os planos de sua administração para o transporte urbano começariam a se fazer sentir, talvez esse movimento não tivesse eclodido. Mas a falta de capacidade de comunicação que vem caracterizando o PT, deu nisso.
Exposta a visão do Blog sobre a causa da eclosão desse movimento, passamos ao que ocorreu em seus intestinos ao longo das últimas semanas.
A dita horizontalidade dos protestos era mais real do que acreditavam os partidos que tentaram direcioná-los aos seus objetivos políticos. Ou seja: a rua é de todos, e muitos levaram a sério o que era um mote pra inglês ver. E foram à rua reclamar.
Aos mauricinhos e patricinhas que planejaram tudo, somou-se uma juventude pobre, das periferias desassistidas, com demandas reais e pouco preocupada em desgastar este ou aquele governo ou partido. E veio à rua, também, o sentimento de revolta com “tudo isso que está aí”, ou seja, com a desigualdade excruciante que esmaga este país.
Daí o quebra-quebra, gerado pela raiva incontida dos massacrados pela desigualdade.
Os partidos políticos que tentavam manipular um movimento que já vai deixando de ter dono ou lideranças e que, aos poucos, vai se tornando anárquico e incontrolável, perderam espaço. A massa que irá às ruas nesta segunda-feira está muito bem precavida quanto à politização, ainda que esses grupos político-ideológicos continuem teimando em lhe dar uma sobrevida.
Nessa situação, o processo está se abrindo a todo tipo de demanda da sociedade. Ao protestar contra o status quo, os cálculos políticos dos partidos de esquerda e de oposição aos governos do PSDB e do PT de São Paulo e do governo petista federal deixaram de fora, por exemplo, a democratização da mídia, a eterna demanda esquerdista.
No momento em que naufragam os planos dos que pretendiam manipular politicamente esse sentimento de “basta” que permeia um processo que beira a convulsão social, portanto, surge a possibilidade de que todo tipo de anseio por mudança seja posto à mesa.
Ironicamente, a partir desse processo surge, talvez, uma das melhores chances em décadas para que seja encaminhada a questão da democratização da comunicação oligopolizada que infecta o Brasil – e que parecia não ter solução.
Eis que ganha sentido adequado uma máxima que, até onde me lembro, é de autoria do historiador, poeta, diplomata e músico italiano do Renascimento Nicolau Maquiavel: “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.
Durante anos, a ONG criada a partir deste Blog, o Movimento dos Sem Mídia, tentou levar às ruas um sentimento de inconformismo com a comunicação de quinto mundo que tem o Brasil, onde meia dúzia de famílias conservadoras detêm o controle de praticamente toda a comunicação de massa e das principais concessões públicas de rádio e televisão.
Todavia, nunca logramos reunir mais do que algumas centenas de pessoas. Não havia clima para as pessoas irem às ruas. Isso porque os movimentos sociais e sindicais tradicionais nunca encamparam com decisão a necessidade de se levar uma demanda dessa importância à rua por conta de cálculos políticos, pois os governos do PT, que poderiam encampar tais demandas, colocaram-nas em segundo plano ou as sepultaram.
Ora, os protestos que estão surgindo encampam demandas genéricas “contra a corrupção” e tantas outras que não têm significação prática, pois ser contra a corrupção do Poder todo mundo é, mas esse discurso vem sendo usado pela mídia e por partidos de oposição de direita e de esquerda contra um único grupo político, como se corrupção existisse só em governos petistas, enquanto se sabe que não há governo de partido algum que possa se dizer imune a ela.
Uma demanda como a democratização da comunicação, considerada maldita pela direita e inconveniente pela esquerda mais radical porque serviria ao PT, ganha, no âmbito desses protestos (agora) sem dono a melhor chance que já teve. Um debate interditado desde sempre pelos donos da mídia e pela direita pode, sim, ganhar as ruas.
Convencer os manifestantes das mais diversas orientações de que a comunicação oligopolizada que há no Brasil é o que os obriga a irem às ruas para dizer o que poderiam dizer na televisão e no rádio será moleza, se alguém levar essa premissa a eles.
Eis que chega o momento, pois, de se começar a pensar em como fazer do limão uma limonada.
Se, por um lado, não é bom que tendo tantos eventos esportivos de importância internacional imensa acontecendo no país vigore nele um clima de convulsão social, já que não se pode mudar um sentimento que já se consolidou para muito além dos partidos que engendraram esse processo cumpre aos que querem mudar o Brasil de verdade que participem dele.
Com base nas premissas aqui elencadas é que este Blog e o Movimento dos Sem Mídia passam a se guiar pela filosofia de que “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Se os protestos são, de fato, contra “Tudo isso que está aí”, o que está “aí” e prejudica muito os que querem se manifestar e não podem é a concentração da propriedade de meios de comunicação.
Chegou a hora, pois, de ir à rua. Então, só se for agora.
O FUNDAMENTAL NESTA HORA: REFORÇAR OS ESPAÇOS DEMOCRÁTICOS DE DIÁLOGO
*A resposta é mais democracia (leia mais aqui)
A denominada "crise da representação" não é um conceito acadêmico abstrato. O déficit de democracia e de legitimidade das Instituições políticas colocam em xeque a capacidade dos atuais representantes em absorver e compreender as novas dinâmicas sociais e políticas que se expressam nas ruas do país. Nossa jovem democracia corre o risco de caducar precocemente, caso não tenhamos êxito em ressignificá-la e reaproximá-la dos setores sociais mais dinâmicos. Por fim, cumpre registrar que seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiros uma capacidade de mobilização que ela não possui e jamais possuirá. Refutar a ideia
de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar que seria bloquear qualquer possibilidade de dialogo com esses novos movimentos. Melhor acreditar que é possível extrair do atual momento elementos para a renovação da agenda da esquerda brasileira e reforçar os laços que unem os governos progressistas da AL a todas as lutas contra as diversas formas de privatização da vida. É hora de reforçarmos a nossa capacidade de diálogo, de escuta, e ouvir a voz nada rouca das ruas - a mesma que nossos adversários sempre buscaram silenciar. Estamos diante de uma oportunidade singular para renovarmos nossos discursos e nossas práticas, projetando o próximo passo da Revolução Democrática no Brasil com base na força sempre renovadora das mobilizações da juventude. (Vinicius Wu, Secretário-geral do governo do RS; leia a íntegra nesta pág)
Sobre o que dizem as ruas
Seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui. Refutar a ideia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar. Por Vinicius Wu.
Vinicius Wu (*)
- A forma menos adequada de buscarmos a compreensão de um fenômeno social complexo é a simplificação. Não encontraremos uma única motivação para os recentes protestos que se espalharam pelas principais cidades do país, se o procurarmos. Temos questões mais gerais e universais ao lado de outros muitos temas locais e setoriais. Há aspectos que aproximam os manifestantes de São Paulo aos do Rio e de Porto alegre e, outros tantos, que os distanciam.
O papel da internet e das redes sociais é central e, em geral, os políticos e formadores de opinião não o tem compreendido minimamente. Buscar algum grau de compreensão do atual fenômeno, a partir do ponto de vista de uma esquerda que se coloca diante do dificílimo desafio de governar transformando, é o objetivo desse breve artigo.
O que se pode dizer preliminarmente é que estamos diante de uma expressão política do novo Brasil. A revolução democrática, levada a termo pelos governos Lula, redefiniu a estrutura de classes da sociedade brasileira, incluiu milhões de brasileiros à sociedade de consumo e possibilitou a emergência de novas expressões culturais e políticas. Mas o inédito processo de inclusão social e econômica ainda é imperfeito, inconcluso e contraditório. As dinâmicas políticas decorrentes do processo massivo de inclusão social em curso ainda são imprevisíveis, mas algumas pistas são visíveis e exigem da esquerda brasileira uma reflexão mais adensada.
As conquistas sociais dos últimos anos vieram acompanhadas da despolitização da política, de uma onda conservadora que constrange o Congresso Nacional e paralisa os partidos de esquerda, distanciando, ainda mais, a juventude da política tradicional. Lembremos que, recentemente, tivemos manifestações espontâneas, em todo o país, contra a indicação de Marcos Feliciano à Comissão de Direitos Humanos do Congresso Nacional. Na oportunidade, nenhum manifestante propunha o fechamento do Congresso ou a criminalização dos políticos. E o que fez nosso Parlamento enquanto Instituição? Nada. Esperou solenemente o movimento se dispersar. Frente à onda conservadora que estimula a homofobia, o racismo e a violência sexista, o que têm feito os partidos políticos? Os ruralistas de sempre se organizam no Congresso Nacional para anular os direitos dos indígenas e o que dizem nossos parlamentares progressistas?
Os dez anos de governo de esquerda no país nos deixam um legado de grandes conquistas, entretanto, há incerteza e imprecisão quanto aos próximos passos. Demandas históricas não atendidas carecem de respostas mais amplas. Além disso, novas questões sempre se impõem num cenário de conquistas sociais e políticas. Pois, se é verdade que os governos do PT incluíram milhões e possibilitaram acesso a inúmeros serviços antes inacessíveis, também é verdade que temos, em diversas áreas, serviços de baixa qualidade e, fundamentalmente, caros.
O transporte nas grandes cidades é um drama cotidiano para milhões de brasileiros. Temos pleno emprego em diversas regiões metropolitanas do país e, no entanto, ainda temos um oceano de precariedade e informalidade. E aqueles que ingressaram na sociedade de consumo nos últimos anos, legitimamente, querem mais: anseiam por cultura, lazer, mais e melhores serviços, educação de qualidade, saúde, segurança e transportes. São os efeitos colaterais de toda experiência exitosa de redução das desigualdades sociais e econômicas.
Evidentemente, há ainda o afastamento e o desencantamento com a política e os políticos. A denominada "crise da representação" não é um conceito acadêmico abstrato. O déficit de democracia e de legitimidade das Instituições políticas colocam em xeque a capacidade dos atuais representantes em absorver e compreender as novas dinâmicas sociais e políticas que se expressam nas ruas do país. Nossa jovem democracia corre o risco de caducar precocemente, caso não tenhamos êxito em ressignificá-la e reaproximá-la dos setores sociais mais dinâmicos.
Essas seriam algumas das questões mais gerais que aproximam os movimentos do Sul, sudeste e nordeste. Mas há ainda temas locais que incidem sobre dinâmicas especificas e mobilizam pessoas a partir de questões mais sensíveis a partir de sua vivência concreta nos territórios.
O Rio de Janeiro, por exemplo, se tornou uma das cidades mais caras do mundo. Há uma reorganização em grande escala do espaço urbano e há setores sociais que se sentem completamente alheios (e marginalizados) ao processo de "modernização" da cidade. Em São Paulo, temos uma polícia orientada para o uso desmedido e desproporcional da força e da violência – e isso não diz respeito somente aos dias de protestos. Também há ali um tipo de violência estrutural contra homossexuais e mulheres sem que o Poder Público organize qualquer resposta mais contundente. Poderíamos estender a lista.
Por fim, cumpre registrar que seria recomendável aos dirigentes políticos do campo progressista afastar o risco de reproduzir aqui os erros da esquerda espanhola que, inicialmente, criminalizou o 15-M e terminou falando sozinha nas últimas eleições. Também seria recomendável não outorgar, de forma alguma, às elites brasileiras uma capacidade de mobilização que ela não possui e jamais possuirá. Refutar a ideia de que os jovens estão nas ruas em função da mídia ou de qualquer tipo de conspiração das "elites" é o primeiro passo para não cair em um erro elementar que seria bloquear qualquer possibilidade de dialogo com esses novos movimentos.
Melhor acreditar que é possível extrair do atual momento elementos para a renovação da agenda da esquerda brasileira e reforçar os laços que unem os governos progressistas da América Latina a todas as lutas contra as diversas formas de privatização da vida. É hora de reforçarmos nossa capacidade de dialogo, de escuta, e ouvir a voz nada rouca das ruas – a mesma que nossos adversários sempre buscaram silenciar. Estamos diante de uma oportunidade singular para renovarmos nossos discursos e nossas práticas, projetando o próximo passo da Revolução Democrática no Brasil com base na força sempre renovadora das mobilizações da juventude.
(*) Secretário-geral do governo do Estado do Rio Grande do Sul
domingo, 16 de junho de 2013
O que a elite vaia?
Larissa e Rosana são duas personagens da ótima reportagem de Natanael Damasceno e Selma Schmidt publicada hoje pelo jornal O Globo, que mostra a elevação da renda nas favelas cariocas.
Rosana nasceu, cresceu e mora no Morro da Providência, no Centroe abriu uma “birosca” em casa, há 18 anos. É ssa moça da foto, que continua lá, mas agora dona do “Sabor das Louras” e do “Gelada do Moreno”, ambos com alvará, legalizados. Vende de 30 a 40 refeições por dia.Fatura, com a cerveja e os salgadinhos, de R$ 3 mil a R$ 4 mil.
Rosana é um sucesso que, há alguns anos, era chamado de “desordem urbana” e está procurando onde montar um restaurante, por ali mesmo.
Ela também é um exemplo dos números do IBGE que mostram que, em dez anos, a renda mensal das pessoas que moram em favelas do Rio cresceu 109% entre 2000 e 2010, subindo de R$ 244 para 510, na mediana que, diferente da média, que a tudo soma e divide, passa um traço dividindo os 50% que ganham mais dos 50% que ganham menos.
Não é, porém, um fenômeno carioca. No mesmo critério, a mediana da renda mensal dos brasileiros subiu, naquela década, 89%. Passou de R$ 200 para R$ 370.
E, ambos os casos, muito, muito pouco. Uma miséria, para não usar eufemismos.
Mas a matéria mostra que, com este tiquinho a mais e o crédito, essas pessoas agora têm geladeira, televisão, um pouco mais de conforto e até computadores, embora, em muitos casos, não tenham saneamento básico. Isso, porém, nunca tiveram, como também não tinha mais coisa alguma.
Já Larissa mora na Barra, num condomínio do bairro, nos limites do Recreio, e sua família tem cinco carros, um para cada um: o casal e os três filhos. Gasta de gasolina e estacionamento, para ir à PUC, onde estuda, R$ 500.
Ou tudo o que um morador de favela tem para viver, vestir e alimentar os filhos.
Depois destes dois retratos, deixo ao leitor e à leitora o exercício de sociologia de imaginar se quem estava no estádio Mané Garrincha – como estaria no Maracanã – na abertura da Copa das Confederações, com ingressos que variavam entre R$ 76 (poucos, os da “categoria 4″) e R$ 266, seria Rosana ou Larissa?
A vaia à Presidenta Dilma, assim, é só uma questão de como se sentem Rosanas e Larissas.
Embora, só no finalzinho da matéria da Folha de hoje, que “ parte da torcida passou a aplaudir a presidente” no momento dos apupos. Talvez o pessoal da “categoria 4″.
Ou de entendermos que Rosana serviria com prazer Larissa uma “estupidamente gelada” no seu “Sabor das Louras”, quem sabe com um bolinho de abóbora com camarão. E Larissa, provavelmente, teria horror se visse da janela a portinha humilde de Rosana.
Porque, talvez, não consiga entender que este país e este planeta pertencem tanto a ela quanto pertencem a Rosana.
PS. Falando em Copa, lembrei de uma frase do Stanislau Ponte-Preta, o Sérgio Porto, que dizia que a Polícia Militar é uma instituição especializada em transformar briga em conflito generalizado. Isso, parece, vai se tornando mais verdadeiro. Fruto de governantes que querem ser “paladinos da ordem” e de uma mídia que, em nome da segurança, transformou as instituições policiais em hordas que se atiça contra os fracos. Vi, todos os dias, o quanto Brizola pagou por não aceitar essa monstruosidade.
Por: Fernando Brito
VAIA REVELA APENAS A DESELEGÂNCIA DA ELITE
Nos próximos dias, grandes jornais e seus colunistas explorarão o tema ao máximo, para tentar provar que estão certos em suas críticas contra o governo Dilma; no entanto, o público presente no Mané Garrincha não era exatamente um retrato do povo brasileiro; ali, havia pessoas que se dispuseram a pagar R$ 280 pela entrada e outros tantos que receberam convites de patrocinadores e parceiros da festa; vaia começou contra Joseph Blatter, da Fifa, e depois atingiu a presidente por tabela, menos como retrato de alguma indignação social e mais como expressão de irreverência e até de falta de educação
16 DE JUNHO DE 2013 ÀS 10:01
247 - Manchete da Folha de S. Paulo: "Estreia do Brasil tem vaia a Dilma, feridos e presos". Manchete do Globo: "Torneio começa com vaias a Dilma e vitória da seleção". Nos próximos dias, a vaia contra a presidente Dilma Rousseff, ouvida no Estádio Nacional Mané Garrincha, ainda deverá ecoar nas colunas políticas e econômicas. Quer um palpite? Este será o tema de Ricardo Noblat, nesta segunda-feira, no Globo.
Mas será que ela tem realmente algum significado político? Nenhum.
Quem esteve no Estádio Nacional Mané Garrincha neste sábado pôde se dar conta de que a vaia contra Dilma foi quase acidental. Ela começou quando os alto-falantes anunciaram a presença do presidente da Fifa, Joseph Blatter. Dilma foi anunciada na sequência, pegando carona nas vaias a Blatter - que também eram inadequadas. Diante do barulho, ela pronunciou apenas uma frase: "Declaro oficialmente aberta a Copa das Confederações". Blatter lamentou o incidente e pediu "fair play" ao povo brasileiro, quando foi novamente vaiado.
No Uol, Josias de Souza foi o primeiro colunista a comentar as vaias e sugeriu que a torcida talvez estivesse repleta de "Velhos do Restelo", ironizando a presidente Dilma:
O Brasil, para ficar como Dilma Rousseff deseja, precisa trocar de torcida. Essa que compareceu ao Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é inteiramente inadequada. Uma legião de Velhos do Restelo. Vindo da Suíça, terra onde o leite já sai das vacas pasteurizado, o companheiro Joseph Blatter, da Fifa, ralhou: “Onde está o respeito, onde está o fair play?”. As vaias aumentaram.
Até o desafeto José Maria Marin, da CBF, tentou salvar a cena puxando uma salva depalmas. Os apupos prevaleceram. Bons tempos aqueles em que o futebol era o ópio do povo. Hoje, gasta-se R$ 1,2 bilhão num estádio para que ele seja usado como amplificador do pio do povo. Quanta ingratidão! O Planalto deveria considerar a hipótese de trocar a torcida brasileira por torcedores terceirizados vindos da Suíça de Blatter. São pessoas muito mais respeitosas. E que fair play!
Mas quem estava realmente no Mané Garrincha? Não exatamente um retrato do povo brasileiro. Ali havia dois tipos de torcedores. Os que se dispuseram a pagar R$ 280 por uma entrada e aqueles que foram convidados por patrocinadores ou parceiros da festa, que adquiriram ingressos junto à Fifa e os distribuíram a convidados vip. Em ambos os casos, representantes da elite.
Não exatamente o povo que se incomoda com a chamada inflação dos alimentos ou a alta de vinte centavos nas passagens de ônibus.
A despeito da vaia, quem foi o Mané Garrincha também se deu conta de que, pela primeira vez, o Brasil dispõe de equipamentos esportivos comparáveis aos do invejado Primeiro Mundo. A arena de Brasília nada deve aos melhores estádios do mundo - e, em muitos aspectos, os supera. O trabalho dos voluntários, que demonstraram extrema cortesia, foi também exemplar.
Quem foi ao estádio também pôde presenciar o renascimento da seleção brasileira e saiu com a certeza de que, aos poucos, o técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, faz brotar um time que tem tudo para ser vencedor.
Além disso, a chegada e a saída do estádio foram tranquilas, salvo um pequeno incidente com manifestantes que protestavam contra a realização da Copa, provando que Brasília, com seus espaços amplos, talvez seja a melhor sede da Copa e a mais adequada até para a abertura em 2014.
Numa festa grandiosa, não só pela seleção, mas pela própria estreia bem-sucedida da arena e de uma das principais sedes, a vaia foi apenas um "ponto fora da curva", para usar uma expressão em voga atualmente.
Foi o retrato da irreverência, da deselegância e até da falta de educação de boa parte da elite brasileira.
Paciência. Brasília deu a primeira demonstração de que, em 2014, o Brasil realizará uma das melhores Copas do Mundo de todos os tempos. E com uma equipe à altura.
sábado, 15 de junho de 2013
ESTE HOMEM MERECE MAIS UM MANDATO EM SÃO PAULO?
Pinheirinho, agressões a professores, estudantes e, agora, a manifestantes que protestam contra aumentos de ônibus, assim como a jornalistas que faziam o seu trabalho; esse tem sido o histórico repressivo da Polícia Militar de São Paulo que, ao mesmo tempo, tem-se mostrado incapaz de conter a escalada do crime; para o governador, tudo bem: "Temos a melhor polícia do Brasil"; mas será que o povo de São Paulo tem um governador à altura dos desafios que o estado enfrenta?
247 - A pergunta é curta e grossa: Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho merece ser governador de São Paulo pela quarta vez? Esta questão será colocada aos eleitores mais uma vez, em outubro de 2014. Caso seja reeleito, Alckmin entrará para a história como o político que, por mais tempo, esteve à frente do estado mais desenvolvido do País. Algo com que o político conservador, nascido em Pindamonhangaba, não seria capaz de sonhar nem nos seus melhores devaneios juvenis. Desconhecido até a morte de Mário Covas, de quem era vice, em 2001, Alckmin poderá ser estudado no futuro como um dos casos mais raros de conquista e manutenção do poder após um acidente de percurso. Chegou lá por acaso e foi ficando, ficando, ficando.
Em 2014, um dos pontos centrais para o julgamento de sua gestão, será a eficácia da área da segurança pública. Até agora, a Polícia Militar de São Paulo tem-se mostrado corajosa e agressiva para enfrentar cidadãos, mas incapaz de combater o crescente problema da criminalidade. Para recordar atos repressivos recentes, basta citar casos como a desocupação do Pinheirinho, a prisão de estudantes da USP, as agressões a professores em greve e, agora, a violenta e absolutamente desproporcional reação a um protesto que reclama contra o aumento das tarifas de ônibus. Na última quinta-feira, mais de 200 pessoas foram presas, dezenas ficaram feridos e 15 jornalistas foram agredidos enquanto realizavam seu trabalho - um repórter fotográfico, Sérgio Silva, da Futura Press, corre o risco de ficar cego.
Qual foi a resposta de Geraldo Alckmin? "Temos a melhor polícia do Brasil". Além disso, ele afirma que os protestos são de "natureza política" - o que não encontra amparo nos fatos, uma vez que uma pesquisa Datafolha, publicada hoje, aponta a avaliação do transporte público em São Paulo como a pior de todos os tempos.
Além disso, a "melhor polícia do Brasil", não tem sido capaz de conter a escalada da violência nem a percepção de insegurança por parte da população. No primeiro trimestre deste ano, houve 86.860 crimes violentos no Estado e os números não param de crescer desde 2010, quando Alckmin foi eleito. No primeiro trimestre daquele ano, houve 78.003 ocorrências, seguidas de 78.611 no ano seguinte e de 84.592 nos primeiros três meses de 2012. Neste ano, o salto foi de 10% e nada indica que a política de segurança do governo Alckmin esteja contribuindo para melhorar as estatísticas da violência.
Falha no combate ao crime, a polícia paulista também protagoniza cenas como as que foram vistas no mundo inteiro nos últimos dias. Spray de pimenta e balas de borracha atiradas contra manifestantes que, em sua grande maioria, tentavam protestar pacificamente contra uma causa que é justa. Afinal, o transporte público, que também é responsabilidade parcial do estado, envergonha o país.
Alckmin não vê nada de errado. Mas em 2014 será julgado por seus atos, suas palavras e, sobretudo, seus resultados.
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sexta-feira, 14 de junho de 2013
Procurador que livrou Dantas ganhou contrato da Brasil Telecom
Procurador que livrou Dantas ganhou contrato da Brasil Telecom
A prioridade do ex-procurador geral da República Antônio Fernando, do atual, Roberto Gurgel, e do presidente do STF Joaquim Barbosa parece ter sido a de apagar os rastros do principal financiador do mensalão: o banqueiro Daniel Dantas. Inexplicavelmente, ele foi excluído do processo e seu caso remetido para um tribunal de primeira instância. Pouco depois de se aposentar, Antônio Fernando tornou-se sócio de um escritório de advocacia de Brasília que tem como principal contrato a administração da carteira de processos da Brasil Telecom, hoje Oi, um dos braços de Dantas. Por Luis Nassif, no Jornal GGN
Luis Nassif - Jornal GGN
Externou o que todo o meio jurídico comenta à boca pequena desde aquela época: foi um julgamento de exceção. E não apenas pelo rigor inédito (para crimes de colarinho branco) das condenações, mas pela excepcional seletividade na escolha das provas, sonegando informações essenciais para a apuração completa do episódio.
Houve o pagamento de despesas de campanha dos novos aliados do PT. Utilizaram-se recursos de caixa dois para tal. Havia o intermediário das transações – o publicitário Marcos Valério e a agência DNA. Na outra ponta, os beneficiários. E, no comço do circuito, os financiadores.
Se poderia ter se obtido a condenação fazendo o certo, qual a razão para tantas irregularidades processuais anotadas? Não se tratou apenas dos atropelos à presunção da inocência e outros princípios clássicos do ordenamento jurídico brasileiro. Há também a suspeita de ocultação deliberada de provas.
1. Ignorou-se laudo comprovando a aplicação dos recursos da Visanet.
2. Esconderam-se evidências de que o contrato da DNA com a Visanet era anterior a 2003.
3. Desmembrou-se o processo para que outros diretores do Banco do Brasil - que compartilharam decisões com o diretor de marketing Antonio Pizolato e assumiram responsabilidades maiores - não entrassem na AP 470.
4. Ignoraram-se evidências nítidas de que a parte mais substancial dos fundos do DNA foi garantida pelas empresas de telefonia de Daniel Dantas.
O contrato de Antonio Fernando
Aparentemente, desde o começo, a prioridade dos Procuradores Gerais da República Antônio Fernando (que iniciou as investigações), de Roberto Gurgel (que deu prosseguimento) e do Ministro do STF Joaquim Barbosa (que relatou a ação) parece ter sido a de apagar os rastros do principal financiador do mensalão: o banqueiro Daniel Dantas. Inexplicavelmente, ele foi excluído do processo e seu caso remetido para um tribunal de primeira instância.
Excluindo Dantas, não haveria como justificar o fluxo de pagamentos aos mensaleiros. Todos os absurdos posteriores decorrem dessa falha inicial, de tapar o buraco do financiamento, depois que Dantas foi excluído do inquérito.
Foi tal a falta de provas para incriminar Gushiken, que o PGR seguinte, Roberto Gurgel, acabou excluindo-o do inquérito.
Pouco depois de se aposentar, Antônio Fernando tornou-se sócio de um escritório de advocacia de Brasília - Antônio Fernando de Souza e Garcia de Souza Advogados -, que tem como principal contrato a administração da carteira de processos da Brasil Telecom, hoje Oi, um dos braços de Dantas no financiamento do mensalão. O contrato é o sonho de todo escritório de advocacia: recebimento de soma mensal vultosa para acompanhar os milhares de processos de acionistas e consumidores contra a companhia, que correm nos tribunais estaduais e federais.
Os sinais de Dantas
Qualquer jornalista que acompanhou os episódios, na época, sabia que a grande fonte de financiamento do chamado “valerioduto” eram as empresas de telefonia controladas por Dantas, a Brasil Telecom e a Telemig Celular. Reportagens da época comprovavam – com riqueza de detalhes – que a ida de Marcos Valério a Portugal, para negociar a Telemig com a Portugal Telecom, foi a mando de Dantas.
Dantas possuía parcela ínfima do capital das empresas Telemig, Amazônia Celular e Brasil Telecom. O valor de suas ações residia em um acordo “guarda-chuva”, firmado com fundos de pensão no governo FHC, que lhe assegurava o controle das companhias. Tentou manter o acordo fechando aliança com setores do PT – que foram cooptados, sim. Quando o acordo começou a ser derrubado na Justiça, ele se apressou em tentar vender o controle da Telemig, antes que sua participação virasse pó.
No livro “A Outra Historia do Mensalão”, Paulo Moreira Leite conta que a Polícia Federal apurou um conjunto de operações entre a Brasil Telecom e a DNA. A executiva Carla Cicco, presidente da BT, encomendou à DNA uma pesquisa de opinião no valor de R$ 3,7 milhões. Houve outro contrato, de R$ 50 milhões, a ser pago em três vezes. Era dinheiro direto no caixa da DNA - e nao apenas uma comissão de agenciamento convencional, como foi no caso da Visanet.. Pagaram-se as duas primeiras. A terceira não foi paga devido às denúncias de Roberto Jefferson que deflagraram o mensalão.
Apesar de constar em inquérito da Polícia Federal – fato confirmado por policiais a Paulo Moreira Leite – jamais esse contrato de R$ 50 milhões fez parte da peça de acusação. Foi ignorado por Antônio Fernando, por seu sucessor Roberto Gurgel e pelo relator Ministro Joaquim Barbosa. Ignorando-o, livrou Dantas do inquérito. Livrando-o, permitiu-lhe negociar sua saída da Brasil Telecom, ao preço de alguns bilhões de reais.
AS GAMBIARRAS NO INQUÉRITO
Sem Dantas, como justificar os recursos que financiaram o mensalão? Apelou-se para essa nonsense de considerar que a totalidade da verba publicitária da Visanet (R$ 75 milhões) foi desviada. Havia comprovação de pagamento de mídia, especialmente a grandes veículos de comunicação, de eventos, mas tudo foi deixado de lado pelos PGRs e pelo relator Barbosa.
Tanto na parte conduzida por Antonio Fernando, quanto na de Gurgel, todas as decisões pareceram ter como objetivo esconder o banqueiro.
Quando iniciaram-se as investigações que culminaram na ação, Antônio Fernando foi criticado por colegas por não ter proposto a delação premiada a Marcos Valério. Acusaram-no de pretender blindar Lula. A explicação dada na época é que não se iria avançar a ponto de derrubar o presidente da República, pelas inevitáveis manifestações populares que a decisão acarretaria. Pode ser. Mas, na verdade, na época, sua decisão blindou Daniel Dantas, a quem Valério servia. Agora, na proposta de "delação" aceita por Gurgel não entrava Dantas - a salvo dos processos - mas apenas Lula.
O inquérito dá margem a muitas inteerpretaçòes, decisões, linhas de investigação. Mas como explicar que TODAS as decisões, todas as análises de provas tenham sido a favor do banqueiro?
OS MOTIVOS AINDA NÃO EXPLICADOS
Pode ter sido motivação política. Quando explodiu a Operação Satiagraha – que acusou Daniel Dantas de corrupção -, Fernando Henrique Cardoso comentou que tratava-se de uma “disputa pelo controle do Estado”.
De fato, Dantas não é apenas o banqueiro ambicioso, mas representa uma longa teia de interesses que passava pelo PT, sim, mas cujas ligações mais fortes são com o PSDB de Fernando Henrique e principalmente de José Serra.
Uma disputa pelo poder não poderia expor Dantas, porque aí se revelaria a extensão de seus métodos e deixaria claro que práticas como as do mensalão fazem parte dos (péssimos) usos e costumes da política brasileira. E, se comprometesse também o principal partido da oposição, como vencer a guerra pelo controle do Estado? Ou como justificar um julgamento de exceção.
Vem daí a impressionante blindagem proposta pela mídia e pela Justiça. É, também, o que pode explicar a postura de alguns Ministros do STF, endossando amplamente a mudança de conduta do órgão no julgamento. Outros se deixaram conduzir pelo espírito de manada. Nenhum deles engrandece o Supremo.
Poderia haver outros motivos? Talvez. Climas de guerra santa, como o que cercaram o episódio, abrem espaço para toda sorte de aventureirismo, porque geram a solidariedade na guerra, garantindo a blindagem dos principais personagens. No caso de temas complexos - como os jurídicos - o formalismo e a complexidade dos temas facilitam o uso da discricionariedade. Qualquer suspeita a respeito do comportamento dos agentes pode ser debitada a uma suposta campanha difamatória dos “inimigos”. E com a mídia majoritariamente a favor, reduz a possibilidade de denúncias ou escândalos sobre as posições pró-Dantas.
É o que explica os contratos de Antonio Fernando com a Brasil Telecom jamais terem recebido a devida cobertura da mídia. Não foi denunciado pelo PT, para não expor ainda mais suas ligações com o banqueiro. Foi poupado pela mídia - que se alinhou pesadamente a Dantas. E foi blindado amplamente pela ala Serra dentro do PSDB.
Com a anulação completa dos freios e contrapesos, Antonio Fernando viu-se à vontade para negociar com a Brasil Telecom.
De seu lado, todas as últimas atitudes de Gurgel de alguma forma vão ao encontro dos interesses do banqueiro. Foi assim na tentativa de convencer Valério a envolver Lula nos negócios com a Portugal Telecom. E também na decisão recente de solicitar a quebra de sigilo do delegado Protógenes Queiroz – que conduziu a Satiagraha – e do empresário Luiz Roberto Demarco – bancado pela Telecom Itália para combater Dantas, mudando completamente em relação à sua posição anterior.
A quebra do sigilo será relevante para colocar os pingos nos iis, comprovar se houve de fato a compra de jornalistas e de policiais e, caso tenha ocorrido, revelar os nomes ou interromper de vez esse jogo de ameaças. Mas é evidente que o o resultado maior foi fortalecer as teses de Dantas junto ao STF, de que a Satiagraha não passou de um instrumento dos adversários comerciais. Foi um advogado de Dantas - o ex-Procurador Geral Aristisdes Junqueira - quem convenceu Gurgel a mudar de posição.
Com seu gesto, Gurgel coloca sob suspeitas os próprios procuradores que atuaram não apenas na Satiagraha como na Operação Chacal, que apurava envolvimento de Dantas com grampos ilegais.
Em seu parecer pela quebra do sigilo, Gurgel mencionou insistentemente um inquérito italiano que teria apurado irregularidades da Telecom Itália no Brasil. Na época da Satiagraha, dois procuradores da República – Anamara Osório (que tocava a ação da Operação Chacal na qual Dantas era acusado de espionagem) e Rodrigo De Grandis – diziam claramente que a tentativa de inserir o relatório italiano nos processos visava sua anulação.. Referiam-se expressamente à tentativa do colunista de Veja, Diogo Mainardi, de levar o inquérito ao juiz do processo. Anamara acusou a defesa de Dantas de tentar ilegalmente incluir o CD do relatório no processo.
Dizia a nota do MPF de São Paulo:
"Para as procuradoras brasileiras, a denúncia na Itália é normal e só confirma o que já havia sido dito nos autos inúmeras vezes pelo MPF que, a despeito dos crimes cometidos no Brasil por Dantas e seus aliados e pela TIM, na Itália, "a investigação privada parecia ser comum entre todos, acusados e seus adversários comerciais". Além disso, o MPF não pode se manifestar sobre uma investigação em outro país, por não poder investigar no exterior, e vice-versa.
Para o MPF, as alusões da defesa de que a prova estaria "contaminada" não passam de "meras insinuações", pois a prova dos autos brasileiros foi colhida com autorização judicial para interceptações telefônicas e telemáticas, bem como, busca e apreensão. Tanto é assim que outro CD entregue à PF, em julho de 2004, por Angelo Jannone, ex-diretor da TIM, também foi excluído dos autos como prova após manifestação do MPF, atendendo pedido da defesa de Dantas".
Agora, é o próprio PGR quem tenta colocar o inquérito no processo que corre no Supremo e, automaticamente, colocando sob suspeição seus próprios procuradores.. E não se vê um movimento em defesa de seus membros por parte da ANPR.
Quando a Satiagraha foi anulada no STJ (Superior Tribunal de Justiça), o Ministério Público Federal recorreu, tanto em Brasília quanto em São Paulo. Na cúpula, porém, Dantas conseguiu o feito inédito de sensibilizar quatro dos mais expressivos nomes do MInistério Público Federal pós-constituinte: os ex-procuradores gerais Antonio Fernando e Aristides Junqueira (que ele contratou para atuar junto a Roberto Gurgel), o atual PGR e o ex-procurador e atual presidente do STF Joaquim Barbosa.
Levará algum tempo para que a poeira baixe, a penumbra ceda e se conheçam, em toda sua extensão, as razões objetivas que levaram a esse alinhamento inédito em favor de Dantas.
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Contra a Petrobras, são “valentes”. Com a Vale…
Há uma exploração sem limites nesta questão judicial contra a Petrobras, que se refere a débitos fiscais supostamente devidos pela gestão Fernando Henrique, entre 1999 e 2002.
Como se sabe, o caso envolve a tributação de remessas da empresa efetuadas ao exterior para pagar o frete de plataformas de petróleo contratadas no exterior.
A empresa, como é seu direito, está discutindo a procedência da dívida e seu montante, tanto que já tem um provisionamento, em seu balanço, de R$ 4,5 bilhões em razão da pendência judicial.
Não houve condenação definitiva ao pagamento dos alegados R$7,4 bilhões e, portanto, não se justifica que a empresa perca, sem nenhum acordo para a solução do litígio, a Certidão Negativa de Débitos, sem a qual não pode operar importações e exportações nem participar de processos licitatórios, como os leilões de áreas petrolíferas.
É tão óbvio que suspender a capacidade da Petrobras de prover estas necessidades do país em matéria de derivados de petróleo cria graves riscos sociais e é motivo mais do que suficiente para que, cautelarmente, ela não sofresse a suspensão da certidão durante a discussão do débito. Era, como dizem os franceses “ça va sans dire”, óbvio e não é possivel compreender porque o ministro Benedito Gonçalves tenha alegado que a empresa “não comprovou não demonstrou de forma convincente, em seu pedido, “o risco de danos irreparáveis”, como está nos jornais.
Nem o Ministério Público, que não costuma ter muita condescendência com ninguém, se opôs a uma cobrança intempestiva e açodada.
O que é interessante observar é que não se fez 10% deste alvoroço quando se condenou a Vale – a Vale do Agnelli – a pagar quatro vezes mais - R$ 30 bilhões – em impostos devidos por operações no exterior. E olha que, no caso da Vale, já havia sentença executória do Superior Tribunal de Justiça em favor da Fazenda Nacional, o que não é o caso da dívida da Petrobras.
Você leu alguma notícia sobre tirarem uma certidão e impedirem a Vale de exportar? Não? Nem eu.
Aliás, a execução da sentença contra a Vale – expedida em maio de 2011 -está suspensa por decisão do Supremo Tribunal Federal, primeiro por liminar e, depois, por decisão plenária, em abril último.
Mas era a Vale, uma empresa formalmente privada, embora a maior parte das ações esteja em mãos de bancos oficiais e fundos de pensão de estatais.
Não é a Petrobras, onde se garante a exploração da mídia, louca para a empresa enfrentar problemas e abrir espaço para as multinacionais.
Que, se a gente bobear, engatam o navio lá fora mesmo e chupam o petróleo que pertence ao Brasil, como a Petrobras pertence.
Com ela, todos ficam “valentes”.
Ao contrá
Por: Fernando Brito
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