Método
eficaz: sob intensa pressão de dois mil manifestantes dos movimentos
sociais, Plano Diretor de SP é aprovado na Comissão de Política Urbana
da Câmara; expectativa do prefeito Haddad é de aprovação definitiva em
30 dias.
Petrobras
terá CPI exclusiva: Rosa Weber concede ao conservadorismo um palanque
nacional para atacar o governo em pleno processo eleitoral.
Tim
Berners-Lee, criador da web, em discurso na NETMundial: peço a todos os
países que sigam o exemplo do Brasil ( e adotem um marco civil
semelhante para a rede
A
vitoriosa construção do Marco Civil da Internet deveria servir de
referência para uma mudança de postura que já tarda. É hora de estender
o método.
por: Saul Leblon
Replicados com disciplinado zelo
pela emissão conservadora, disparos regulares da mídia internacional
defendem a rendição inapelável do Brasil aos ditames da restauração
neoliberal.
O tom é de ‘basta!’.
Explica-se: a dissidência
brasileira na crise afrontou com sucesso o sopro de morte da
austeridade optando por políticas contracílicas baseadas em crédito
estatal, investimentos públicos (PAC 2), fomento à habitação,
valorização do poder de compra do salário mínimo e geração de empregos.
O
saldo gerou uma inércia de demanda e geração de empregos que resiste
até hoje como uma gigantesca costela de pirarucu entalada na garganta
dos mercados.
Se isso funciona, como é que fica a restauração neoliberal aqui e na América Latina?
É preciso desqualificar um passado que pode ser usado para credenciar novas heterodoxias no futuro e, sobretudo, nas urnas.
Chegou a hora de colocar as cordas, os pescoços e as agendas nos devidos lugares, diz o jogral que nunca desafina.
Ponto número um: o Brasil é um grandioso caso de desastre intervencionista.
Ou
não é isso o que reafirma o caso da refinaria de Pasadena, agora
brindado com a obsequiosa decisão da juíza Rosa Weber de criação de um
palanque nacional para a mídia e seus candidatos execrarem a Petrobras
em plena campanha sucessória?
Ponto número dois: o país deve
aceitar os termos da rendição incondicional que a emissão conservadora
local e foranea advoga diuturnamente.
A saber: fim da
intervenção estatal na agenda do desenvolvimento; choque de juros ‘para
trazer a inflação à meta’ --conduzido por um BC ‘independente’ (das
urnas); esvaziamento do BNDES, privatização do pré-sal (tese que ganha
agora uma corneta de difusão eleitoral, graças à CPI); cambio livre,
arrocho na ‘gastança social’ etc.
O tom imperativo da ofensiva estrangeira remete ao jornalismo da ‘guerra fria’ contra governos não alinhados, nos anos 50/60.
Três exemplos dos últimos quinze dias:
Financial Times: Nova matriz econômica do Brasil ouve anúncio de morte (07/04/2014)
The Economist: Trabalhador do Brasil é gloriosamente improdutivo (17/04/2014 )
New York Times: Brasil grandioso se desfaz (21/04/2014)
O
denominador comum é a incompatibilidade entre ‘dirigismo’ estatal e
‘gastança fiscal’(assim, vinculados, como xipófagos), e redução do juro
para a retomada do investimento.
Como na ‘guerra fria’, o silogismo é ilustrado não raro com exemplos grotescos.
Filas
no recente Festival de Música Lollapalooza, em São Paulo, abrem a
‘reportagem’ da Economist, por exemplo, para ilustrar a evidência da
improdutividade do trabalhador brasileiro.
Coisas de mercado regulado, naturalmente.
Segundo
a bíblia do jornalismo neoliberal, ‘onde o restaurante texano BOS BBQ
se destacava pela eficiência, nas outras barracas de comida do evento
(as nacionais) as filas se acumulavam de forma ilustrativa.
Isso define um país de ineficientes para a Economist.
“No
momento em que você chega ao Brasil você começa a perder tempo”,
dispara, na reportagem transcrita pelo jornal Valor Econômico, o dono do
restaurante gringo, Blake Watkins.
Ele chegou aqui há três anos, após vender um fast food em Nova York.
Parece ter tomado gosto pela ‘perda de tempo’.
O mesmo gosto que leva o capital estrangeiro a maldizer as interferências excessivas do Estado no mercado local.
E
a formar filas para ingressar nesse limbo de anancronismo estatizante,
cujo segmento de consumo de massa (53% da população), sozinho,
representaria hoje a 16ª maior economia do planeta. Com lugar garantido
no G-20.
Um punhado de bancos estrangeiros enquadra-se nessa
categoria, dos que aguardam autorização para operar no reduto da
improdutividade e do intervencionismo desastrado.
O governo Dilma autorizou o ingresso médio de quase 8 bancos por ano desde 2011.
Mas só autoriza se ficar demonstrado o interesse nacional na operação.
Dilma
costuma perguntar, por exemplo, o que o banco fará pelo financiamento
de longo prazo, indispensável a um novo ciclo de desenvolvimento.
A Presidenta faz o que determina o interesse público.
E
o que determina o interesse público incomoda quem se avoca o direito a
uma free-way para entrar e sair do país quando quiser, como quiser e
com quanto quiser.
A soberba tem o apoio de um colunismo ignorante no varejo e prestativo no atacado.
Esse
gelatinoso ectoplasma de interesses compartilha de um segredo
cuidadosamente mantido a sete chaves, fora do alcance da opinião pública
brasileira.
Afinal, o que acontece exatamente quando uma
economia adota –ou lhe é imposto-- o pacote de medidas às quais a
teimosia petista resiste em associar o destino nacional?
Se a
emissão conservadora dedicasse a essa resposta algum vapor de jornalismo
isento, o debate em torno da sucessão presidencial certamente ganharia a
densidade adequada a um escrutínio esclarecido sobre o passo seguinte
do desenvolvimento do país.
Um ponto de partida poderia ser a
dissecação do que se passa em economias europeias, enredadas em
desconcertante combinação de ‘recuperação’ e esfarelamento social.
A Grécia, por exemplo.
Mergulhada
no sexto ano de recessão, com um PIB 24% inferior ao de antes da crise,
o país é saudada como paradigma de sacrifício bem sucedido.
Em
2013, a Grécia conseguiu, de fato, um superávit fiscal de 1,2% do PIB
(repita-se, sobre um PIB que perdeu ¼ de sua massa desde 2008).
A que preço?
A taxa de desemprego é de 27%.
Cerca
de 2,3 milhões de um total de 2,8 milhões de lares gregos acumulam
dívidas tributárias impagáveis, por absoluta insuficiência de renda.
O
déficit fiscal não para de crescer e a dívida pública passa de 180% do
PIB --bem distante dos 120% que o generoso FMI definiu como a fronteira
da sustentabilidade a ser perseguida por Atenas.
Não só.
A taxa de investimento na Grécia despenca linearmente desde 2008 e o déficit fiscal é de 12% do PIB.
O resto é deduzível.
A
Grécia é aquele lugar em que as crianças passam fome na rede pública
por falta de merenda escolar. E a extrema direita persegue imigrantes
pelas ruas, não raro até a morte.
Na semana passada, esse féretro
civilizatório foi ao mercado e conseguiu captar empréstimos nos valor
de três bilhões de euros, com uma procura por títulos da dívida grega
quase sete vezes superior à oferta.
O que leva a festejada
racionalidade do mercado a se lambuzar em papéis de uma nação
insolvente, colapsada em seus fundamentos, às voltas com uma sintomática
deflação de preços e sem tônus para se reerguer a partir de suas
próprias forças produtivas e de consumo?
Antes da Grécia,
Portugal e Espanha (esse, outro colosso de recuperação assentada em 26%
de desemprego, déficit fiscal de 7% do PIB e dívida pública de 94% do
PIB) já haviam tido sucesso semelhante em captações no mercado
financeiro internacional.
A resposta ao enigma ajuda a entender
não apenas o que acontece por lá, mas sobretudo a consistência do cerco
aqui, em torno do Brasil.
A recuperação grega é uma experiência de laboratório tanto quanto a tese do Brasil aos cacos é uma construção midiática.
Viabilizar
a Grécia ajoelhada aos mercados é tão necessário quanto acuar um
Brasil reticente às exigências de um ajuste mais duro preconizado pelo
interesse rentista local e internacional.
A captação realizada
pela Grécia –a exemplo das demais-- na verdade foi um investimento
tutelado e garantido por bancos alemães, britânicos e pelo FMI.
Não há vínculo de confiança em relação a Atenas.
Antes,
trata-se de uma adesão, sem risco, a uma oferta do sistema financeiro
interessado em provar que o austericídio grego deu certo.
A hora
escolhida foi cirurgicamente selecionada: há liquidez abundante no
mercado internacional. E limitadas são as opções de risco que permitam
sair do círculo vicioso de um rentismo que se ergue, cada vez mais
perigosamente, pelos próprios cabelos.
Alternativas de
canibalização de mais valia, como os investimentos em infraestrutura
ensejados pela ampliação do mercado interno brasileiro, são raridade no
mundo pós-crise.
Num mercado achatado pela desordem neoliberal, o
principal déficit ainda é o déficit de demanda. E o maior desafio:
devolver às economias a capacidade de gerar emprego e renda.
Grécia
e Brasil ocupam polos opostos nessa tipificação, mas carregam no
calendário político uma equação de delicadeza semelhante.
Uma
nova vitória do PT no Brasil, em outubro, sancionaria a existência de um
dissenso bem sucedido no âmbito da restauração neoliberal em marcha no
mundo.
Seus desdobramentos encorajadores na América Latina são
óbvios. E daí para as demais nações em desenvolvimento, a progressão
seria inevitável.
Na Grécia, ao contrário, a direita no poder,
encabeçada pela Nova Democracia, tem um encontro com o desalento social
dia 25 de maio, nas eleições municipais.
Se derrotada, engrossa o mesmo recado subjacente à reeleição de Dilma, cinco meses depois.
O partido de esquerda grego, o Syriza, disputa a liderança nas enquetes de intenção de voto.
Uma
derrota conservadora em maio abriria uma grande avenida para o
Syriza construir alianças que o qualifiquem a disputar como favorito
as eleições presidenciais de fevereiro de 2015.
Uma última
palavra merece ser dita diante do que aparenta ser uma certa
prostração do governo e do PT face ao cerco conservador.
A direita politizou definitivamente o debate econômico espetando nos desafios macroeconômicos sua rotulagem ideológica.
‘Intervencionismo,
ineficiência e corrupção’ formam o tripé de um mantra repetido à
exaustão pelo dispositivo midiático para qualquer tema ou circunstância.
Será assim também na CPI da Petrobrás.
O
tratamento economicista muitas vezes adotado pelo governo nem responde à
radicalização do embate, nem elucida a verdadeira natureza dos
interesses em conflito.
A vitoriosa construção do Marco Civil da Internet deveria servir de referência para uma mudança de postura que já tarda.
Longe
de tecnificar o assunto, o governo neste caso se ancorou em uma
ofensiva política interna e externa, democratizou o debate, arregimentou
grandes adesões, mobilizou movimentos sociais e tornou indefensável a
defesa do lucro corporativo contra o interesse da cidadania.
Sobretudo,
o governo exibiu neste caso duas qualidades em falta nos demais:
unidade de ação e determinação política de não escamotear a colisão de
interesses em jogo.
É hora de estender o método a outras esferas. A começar pela defesa da Petrobrás.