Não é apenas o calote da Grécia que assombra os mercados mundiais. A incerteza sopra também na esquina do mundo que deveria ser o ponto de encontro entre capitais ariscos e a segurança, em última instância, para a desordem financeira por eles engendrada : ou seja, a economia norte-americana. Se as ruas da Grécia e da Espanha ardem em protestos pelo custo de uma convalescência que, ao final e ao cabo, materializa-se na supressão de direitos e deslocamento de riquezas das nações para os credores, a verdade é que o bunker norte-americano não inspira mais a confiança absoluta que dele se espera. Os investidores que se deslocavam ontem em busca de um porto seguro para assistir de longe ao incêndio grego, colidiram com o tráfego em sentido contrário de más notícias vindas dos EUA. O que as buzinas anunciavam era o fantasma da estagflação: a inflação americana foi além do que se previa; a economia ficou aquém do que precisava crescer para acalmar os espíritos da incerteza e da obsessão mórbida pela liquidez, como diria Keynes. A variação dos preços na meca capitalista atingiu 3,6% nos últimos 12 meses. É o maior nível desde outubro de 2008. O problema se agrava no contraste com a curva do crescimento, que desliza para baixo. O indicador da produção industrial da região de Nova York, em junho, está negativo em 7,79. Sugere uma ruptura na já lenta, frágil, recuperação esboçada desde o final de 2010. Esses são os fundamentos da notícia comemorada ontem no Brasil, de que o risco-país, pela primeira vez na história, ficou abaixo daquele atribuído à principal cidadela capitalista do planeta. Por fim, cresce a percepção de que corda política da crise esticou ao máximo. De agora em diante será cada vez mais difícil descarregar o ônus da convalescência nas costas de povos e nações endividados. O cenário é de um corner, com janelas que se fecham e pontos de fuga que se estreitam. Um dado resume todos os demais: o PIB mundial é da ordem de US$ 60 tri; o volume de capitais em busca de refúgio --capitais fictícios em grande parte (leia textos inéditos de Luiz Gonzaga Belluzzo nesta pág), ultrapassa US$ 900 tri. Essa espuma busca desesperadamente uma contrapartida (inexistente) na riqueza real que se estreita por conta da recessão e dos calotes em marcha . É a partir dessa dança das cadeiras que o Brasil deve analisar o passo seguinte do seu crescimento e a estratégia diante da invasão de fluxos especulativos na economia. Em artigo recente nesta pág , 'Nuvens Negras no Horizonte' (leia o especial "Desordem Financeira"), o economista da FGV, Amir Khair advertia: 'O melhor para o Brasil é apostar as fichas da saúde econômica e financeira naquilo em que somos bons: alto potencial de mercado interno inexplorado. É bom repensar as políticas do pé no freio, que podem fragilizar o País aos trancos de fora'
Mente vazia, oficina do sistema da mídia golpista
quinta-feira, 16 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Santayana celebra derrota de Berlusconi
O Conversa Afiada publica artigo de Mauro Santayana, extraído do JB online:
A Itália disse não a Berlusconi
Mauro Santayana
A derrota de Berlusconi, na consulta plebiscitária desta semana, apesar da crescente impopularidade do primeiro ministro, trouxe duas surpresas. A primeira delas foi o comparecimento que, superando o patamar constitucional de 50%, validou a consulta, e a segunda, a derrota das decisões do governo pela inédita maioria de 95% em média, nas quatro questões propostas. Como se sabe, há 16 anos não se obtinha o quorum mínimo para anular uma lei ou decisão governamental.
Ainda que, do ponto de vista da atualidade política, a massacrante vitória da oposição seja a da não imunidade (melhor, não impunidade) de Berlusconi e de seus ministros, os outros pontos da consulta golpeiam fundo os postulados do neoliberalismo, sobre os quais Berlusconi estabeleceu o seu poder. O povo disse não à apressada privatização da água, manifestando-se contra a exploração dos recursos hídricos pelas sociedades capitalistas, algumas delas provavelmente estrangeiras, da mesma forma que se manifestou contra a energia nuclear.
Embora tenha perdido, por duas vezes, a chefia do governo para a esquerda, é inegável que a vida política italiana se desenvolveu em torno de Berlusconi, desde 1994, quando o poderoso e suspeitíssimo empresário ganhou sua primeira eleição: não se discutiam os projetos de governo, nem os fundamentos ideológicos da democracia. E Berlusconi conciliava os interesses mafiosos do Sul com os altos interesses empresariais do Norte, reunidos em torno da Lega Lombarda, de inspiração separatista e neofascista.
O fascismo de Mussolini foi um desses movimentos de direita, mais grave pelas condições históricas que favoreciam a ascensão do totalitarismo e também pela formação intelectual e ideológica do duce, filho de um trabalhador socialista e de algumas letras, que lhe deu o nome de Benito em homenagem a Juarez, o revolucionário mexicano. Benito Juarez morrera onze anos antes do nascimento do líder italiano e levou o pai a homenageá-lo com o nome do heróico mestiço. É imensa a distância entre Mussolini e Berlusconi, o que dá razão a Marx: as coisas ocorrem primeiro como tragédia e, mais tarde, como farsa. Ainda que para Croce, Mussolini não tenha passado de um “palhaço”, a quem o rei da Itália entregara o poder, o duce era discreto em seu comportamento pessoal, protegido pelo sistema totalitário que, com a censura à imprensa e o terror policial, preservava a sua privacidade.
A derrota de Berlusconi é uma oportunidade para que os democratas de esquerda encontrem um projeto comum de poder. Eles devem partir da dura realidade de que não foi o comportamento debochado de Berlusconi que promoveu a sua queda de popularidade, nem, provavelmente, o expila do governo daqui a uma semana. O seu desprestígio é resultante da terrível situação econômica do país, que, por sua vez, se deve ao neoliberalismo, hoje em dramática decadência nos paises que o inventaram e nos quais os governos o sustentaram, a partir dos Estados Unidos e da Inglaterra, passando pela França de Sarkozy, a Espanha de Aznar e Zapatero, a Itália do trêfego Berlusconi. A Itália e os seus vizinhos só terão estabilidade política se adotarem medidas de bom senso restaurador, algumas delas sinalizadas pelo referendum recentíssimo. A esmagadora maioria dos italianos optou por mais estado e menos mercado, por mais empregos e menos lucros das empresas privadas.
Ainda Battisti
Apenas por curiosidade, transcrevo, aqui, dois artigos da Constituição Italiana de 1947.
O artigo 10, linha 4, determina:
“Nom è ammessa l’estradizione dello straniero per reati polici”.
O artigo 26, confirma:
“L’estradizione del cittadino puó essere consentita soltanto ove sia espressamente prevista dalle convenzioni internazionale. Non puó in alcun caso essere ammessa per reati politici”.
Sem comentário
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FHC foi o único aliado
O Conversa Afiada reproduz discurso de Jilmar Tato, vice-líder do PT na Câmara:
FHC, Fujimori e as extravagâncias da atuação tucana
Jilmar Tatto (*)
Dia 8 de junho último tivemos mais uma demonstração de como é difícil para os tucanos conviverem com os sucessos dos governos Lula/Dilma na esfera internacional. Desta vez, foi o líder do PSDB que comandou mais uma ação extravagante no plenário da Câmara dos Deputados ao pedir para ser apreciado um requerimento solicitando a aprovação de um “voto de repúdio à presidenta Dilma Rousseff por não receber a Senhora Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz, advogada iraniana de Direitos Humanos”.
Diante deste impetuoso requerimento, alguns pensaram que ele estava apresentando sua candidatura ao cargo de “agendeiro” da presidenta Dilma, mas outros lembraram ao deputado que a ordem natural das coisas é outra: primeiro é preciso ganhar as eleições para presidente da República para em seguida construir-se a agenda diplomática do país.
Curiosamente, aqui no Brasil, uma oposição reiteradamente derrotada se arvora em responsável pela agenda diplomática do país e quer enfiá-la a ferro e fogo na garganta presidencial. Talvez até sem consultar a senhora Shirin Ebadi, cujos respeitáveis interesses certamente não passam por arrombar a porta do gabinete da presidenta, nem pelo atropelo de sua agenda. Isso se depreende de repetidas declarações de Shirin Ebadi de respeito e consideração por Dilma Rousseff e por suas tomadas de posição em matéria de direitos humanos.
Mas não bastasse o requerimento descabelado, para exibir seus profundos conhecimentos sobre diplomacia contemporânea, o líder do PSDB precisava despejar seu balaio de impropérios contra o ex-presidente Lula e suas supostas preferências por ditadores.
Depois dessa sessão de impropérios a palavra me foi concedida para falar, em nome do Partido dos Trabalhadores, contra a proposição estapafúrdia. Além de defender o ex-presidente Lula e de mostrar a impertinência da iniciativa do líder do PSDB, fiz um breve relato sobre as relações íntimas entre FHC e o ditador nipoperuano Alberto Fujimori, já que repentinamente o líder tucano estava dando mostras de inusitado zelo pelos direitos humanos.
Aproveitei o espaço para informar ao líder do PSDB que FHC foi o único presidente de toda a América do Sul que apoiou a tri-reeleição de Alberto Fujimori, antigo candidato a ditador perpétuo do Peru. E mais, que ele condecorou aquela figura sinistra com a Ordem do Cruzeiro Sul, comenda máxima concedida pelo Estado brasileiro a personalidades estrangeiras.
Felizmente o Senado brasileiro já aprovou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL), de autoria de Roberto Requião, anulando a concessão da Ordem do Cruzeiro do Sul ao ex-ditador peruano. Na Câmara, este PDL já foi aprovado na Comissão de Relações Exteriores, faltando apenas passar pela Comissão de Constituição e Justiça para ir ao plenário.
Este é um bom momento para concluir a tramitação do projeto, até como forma de congratulação com o povo peruano que, elegendo Ollanta Humala, como presidente da República, no dia 5 de junho último, impôs uma derrota importante ao chamado fujimorato, que através da candidata Keiko Fujimori, filha do ditador, tentava reintroduzir a máfia comandada por seu pai no governo do Peru.
Como se isso não fosse suficiente, vale acrescentar que no ano 2000, quando ficou claro que o povo do Peru, nas ruas, derrubaria o ditador sanguinário e sua quadrilha, a diplomacia brasileira, sob a direção de FHC, colaborou na tarefa constrangedora de, enquanto Fujimori fugia para o Japão, arrumar um refúgio para o tenebroso Vladimiro Montesinos.
FHC ajudou a pressionar Mireya Moscoso, então presidenta do Panamá, para solicitar que aquela nação centro-americana concedesse asilo a Vladimiro Montesinos, íntimo companheiro de jornada de Alberto Fujimori, chefe de seu serviço de inteligência e coordenador do narcotráfico peruano.
Por último, me coube informar ao Líder do PSDB que o ex-ditador Alberto Fujimori, juntamente com Vladimiro Montesinos, hoje cumprem severas penas numa base naval de Callao e a hipótese de anistia, com a qual sonharam, evaporou-se no domingo, 5 de junho último, quando o povo peruano elegeu Ollanta Humala presidente de República. Aliás, Humala nos honrou escolhendo o Brasil como primeiro pais a ser visitado depois do triunfo popular. Foi recebido pela presidente Dilma Rousseff em Brasília e pelo ex-presidente Lula em São Paulo.
Diga-se a favor do líder do PSDB que, quando tomou conhecimento das informações acima citadas, tartamudeou alguma explicação incompreensível sobre sua percepção a respeito de Fujimori. Chegou até a perguntar ao presidente da sessão se era possível trocar o “repúdio” por algum termo legislativo mais brando. Informado de que isso não era possível, viu sua proposição esdrúxula receber minguados 60 votos.
Mas as extravagâncias da oposição comandada pelo PSDB não se limitam à pauta internacional. No dia da votação do Código Florestal o plenário e as galerias da Câmara puderam testemunhar, estarrecidos, o comportamento condenável de vários deputados da oposição que vaiaram o anúncio do assassinato dos extrativistas Júlio Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, no Pará. Não escapou a ninguém que aquelas vaias equivaliam a um aplauso ao crime. Muito seguramente, não é com a apologia do crime que se consolida uma democracia.
Tudo isto mostra até onde pode chegar uma oposição isenta de base popular, carente de bandeiras, desprovida de um projeto nacional e, por último, mas não o menos importante, ideologicamente derrotada, sobretudo depois do colapso dos dogmas do consenso de Washington.
Esta orfandade múltipla explica um comportamento da oposição cada vez mais chegado ao do “modelito” Simão Bacamarte, criado por mestre Machado de Assis. Atualmente, só lhe resta se guiar por uma pauta impregnada por um moralismo tão suspeito, como falso e seletivo, de uma imprensa monopolista e cada vez mais irrelevante. À falta do lenitivo pseudomoralista da imprensa, só lhe restaria o caminho do manicômio do alienista.
(*) Deputado federal (PT-SP), vice-líder da Bancada do PT na Câmara
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Brasil festeja risco menor que EUA mas entrada de dólar deve subir
'Mercado' acha pela primeira vez na história que é mais provável um calote norte-americano do que um brasileiro no pagamento de dívidas financeiras. Presidenta Dilma Rousseff e ministro Guido Mantega (Fazenda) comemoram sinal de 'solidez', mas queda do risco-país pode atrair ainda mais dólares que buscam lucrar com juro do Banco Central. Controle de capitais 'tímido' mantém moeda norte-americana barata e produz desindustrialização. Comissão do Senado aprova fim do superávit primário.
André Barrocal
BRASÍLIA – Pela primeira vez na história, o “mercado” acha que há mais chance de os Estados Unidos darem calote no pagamento de dívidas financeiras do que o Brasil. A informação foi dada à imprensa nesta quarta-feira (15/06) pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, que contou que a nota do “mercado” para a dívida brasileira negociada no exterior, o chamado risco-país, é menor do que a aos débitos norte-americanos.
A notícia foi comemorada por Guido e, segundo ele, pela presidenta Dilma Rousseff, como um sinal que refletiria “a solidez da economia brasileira e a confiança que temos do mercado". Este fato pode ajudar, por exemplo, na queda do juro do Banco Central (BC) no futuro, já que o risco-país é um elemento que entra na calibragem da taxa. Mas também pode acentuar um problema que o Brasil já enfrenta no curto prazo, a entrada maciça de dólares, que produz real caro e desindustrialização.
Para o coordenador do Grupo de Análise e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messemberg, quanto maior a percepção do “mercado” de que o país tem “solidez fiscal”, menor será o risco-país e, portanto, maior será a atração de dólares.
Messemberg acredita, por exemplo, que o corte de R$ 50 bilhões do orçamento, que o governo fez no início do ano para – segundo o governo – conter a inflação, já tinha alimentado a percepção de solidez pelo “mercado”. E, ao fazê-lo, tinha atrapalhado o próprio esforço de combater a inflação com medidas alternativas ao aumento de juro do BC. “O ajuste fiscal de certa forma sabota as medidas macroprudenciais”, afirmou.
O elevado ajuste fiscal deste ano tentava tirar dinheiro da economia brasileira, para esfriá-la e reduzir o espaço para reajuste de preços. Para Messemberg, contudo, a entrada de capital estrangeiro atua no sentido oposto, ao injetar dinheiro na praça.
A queda do risco-país pode reforçar a entrada de dólares sobretudo porque o juro do Banco Central continua “extremamente atraente”, na avaliação do economista Fernando Cardim de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, a tentativa do Ministério da Fazenda de conter a entrada de dólares com mais tributação está sendo infrutífera, pois o nível escolhido para o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ainda não compensa o lucro gerado pelos juros do BC.
A enxurrada de dólares tem contribuído para que o dólar custe pouco e o real, muito, com impacto positivo nas importações (ajudam a conter a inflação) e negativo nas exportações (vendas, produção e geração de empregos menores).
Em 2001, segundo estudo recente do Ipea, a exportação de produtos agropecuários, pela primeira vez em muito tempo, já representa mais da metade das vendas brasileiras ao exterior. "Vivemos uma reprimarização brutal da pauta", afirma o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Fim do superávit primário
No último dia 8 de junho, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado barrou a proposta do governo de pagar R$ 140 bilhões em juros da dívida no ano que vem. A proposta constava do texto original de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enviada pela equipe econômica ao Congresso em abril.
A proposta de acabar com o superávit primário foi apresentada pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e recebeu parecer favorárel do relator, senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que é presidente nacional do PMDB.
A ideia tem poucas chances de prosperar até a votação definitiva da LDO por deputados e senadores no plenário do Congresso, mas mostra no mínimo que pode ser usada pelos parlamentares para tentar arrancar alguma concessão do governo em troca do restabelecimento do superávit primário na lei.
De janeiro a abril deste ano, a quantia de recursos que o governo federal arrecada com impostos de depois usa para pagar juros da dívida ao sistema financeiro foi de mais de R$ 40 bilhões, metade de tudo o que se autoimpôs como meta para o ano inteiro.
Em audiência pública na Comissão Mista de Orçamento do Congresso nesta quarta-feira (15/06), o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, também comemorou a “solidez”. "O cumprimento de meta acima do previsto é muito positivo", disse.
A notícia foi comemorada por Guido e, segundo ele, pela presidenta Dilma Rousseff, como um sinal que refletiria “a solidez da economia brasileira e a confiança que temos do mercado". Este fato pode ajudar, por exemplo, na queda do juro do Banco Central (BC) no futuro, já que o risco-país é um elemento que entra na calibragem da taxa. Mas também pode acentuar um problema que o Brasil já enfrenta no curto prazo, a entrada maciça de dólares, que produz real caro e desindustrialização.
Para o coordenador do Grupo de Análise e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messemberg, quanto maior a percepção do “mercado” de que o país tem “solidez fiscal”, menor será o risco-país e, portanto, maior será a atração de dólares.
Messemberg acredita, por exemplo, que o corte de R$ 50 bilhões do orçamento, que o governo fez no início do ano para – segundo o governo – conter a inflação, já tinha alimentado a percepção de solidez pelo “mercado”. E, ao fazê-lo, tinha atrapalhado o próprio esforço de combater a inflação com medidas alternativas ao aumento de juro do BC. “O ajuste fiscal de certa forma sabota as medidas macroprudenciais”, afirmou.
O elevado ajuste fiscal deste ano tentava tirar dinheiro da economia brasileira, para esfriá-la e reduzir o espaço para reajuste de preços. Para Messemberg, contudo, a entrada de capital estrangeiro atua no sentido oposto, ao injetar dinheiro na praça.
A queda do risco-país pode reforçar a entrada de dólares sobretudo porque o juro do Banco Central continua “extremamente atraente”, na avaliação do economista Fernando Cardim de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, a tentativa do Ministério da Fazenda de conter a entrada de dólares com mais tributação está sendo infrutífera, pois o nível escolhido para o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ainda não compensa o lucro gerado pelos juros do BC.
A enxurrada de dólares tem contribuído para que o dólar custe pouco e o real, muito, com impacto positivo nas importações (ajudam a conter a inflação) e negativo nas exportações (vendas, produção e geração de empregos menores).
Em 2001, segundo estudo recente do Ipea, a exportação de produtos agropecuários, pela primeira vez em muito tempo, já representa mais da metade das vendas brasileiras ao exterior. "Vivemos uma reprimarização brutal da pauta", afirma o economista Samuel Pessoa, da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Fim do superávit primário
No último dia 8 de junho, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado barrou a proposta do governo de pagar R$ 140 bilhões em juros da dívida no ano que vem. A proposta constava do texto original de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) enviada pela equipe econômica ao Congresso em abril.
A proposta de acabar com o superávit primário foi apresentada pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e recebeu parecer favorárel do relator, senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que é presidente nacional do PMDB.
A ideia tem poucas chances de prosperar até a votação definitiva da LDO por deputados e senadores no plenário do Congresso, mas mostra no mínimo que pode ser usada pelos parlamentares para tentar arrancar alguma concessão do governo em troca do restabelecimento do superávit primário na lei.
De janeiro a abril deste ano, a quantia de recursos que o governo federal arrecada com impostos de depois usa para pagar juros da dívida ao sistema financeiro foi de mais de R$ 40 bilhões, metade de tudo o que se autoimpôs como meta para o ano inteiro.
Em audiência pública na Comissão Mista de Orçamento do Congresso nesta quarta-feira (15/06), o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, também comemorou a “solidez”. "O cumprimento de meta acima do previsto é muito positivo", disse.
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Serra requenta discurso usado contra o Bolsa Família
Após perder as eleições presidenciais e a disputa interna no PSDB, o ex-governador de São Paulo, José Serra, luta para se manter sob os holofotes disparando críticas quase diárias ao governo de Dilma Rousseff. Um dos alvos do tucano tem sido o programa Brasil sem Miséria, lançado recentemente pelo governo federal. Para Serra, um “factoide destinado a ganhar um passageiro espaço gratuito nos jornais e na televisão”, ou então, “a nova versão do Fome Zero do Lula, que ficou só no nome”. Ao fazer isso, o ex-candidato requenta discurso já utilizado, sem sucesso, contra o programa Bolsa Família.
Marco Aurélio Weissheimer
Após acumular duas pesadas derrotas, na eleição presidencial de 2010, e na disputa pelo comando de seu partido, agora em 2011, o ex-candidato José Serra ganhou como uma espécie de prêmio de consolação a presidência do recém criado Conselho Político do PSDB. A partir deste cargo, Serra vem procurando se manter sob os holofotes disparando críticas quase diárias ao governo de Dilma Rousseff. Um dos alvos do tucano tem sido o programa Brasil sem Miséria, lançado recentemente pelo governo federal. Para Serra, um “factoide destinado a ganhar um passageiro espaço gratuito nos jornais e na televisão”, ou então, “a nova versão do Fome Zero do Lula, que ficou só no nome”.
Não é essa a opinião do chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Néri, que qualificou o lançamento do Plano Brasil sem Miséria como um “momento histórico” para o país. Na avaliação do economista, o Brasil deverá colher uma “safra muito boa” de indicadores sociais na próxima década. Um dos principais avanços do plano, disse Marcelo Néri à Agência Brasil, é que ele dá ao combate à miséria um peso institucional inédito. Além disso, enfatizou, o programa sinaliza continuidade em relação aos resultados sociais obtidos nos últimos anos, em especial a queda de 67% da pobreza extrema desde o Plano Real. “A desigualdade está no mínimo histórico. E, nesse momento, você resolve abrir outra frente para plantar e colher outros resultados, mas já usando a própria colheita como semente”.
O economista da FGV também chamou atenção para o que chamou de “federalismo social” do programa. Os municípios, observou, tiveram uma atuação muito importante no combate à pobreza, mas com pouca participação relativa dos estados. Néri também elogiou a decisão de elevar o número de filhos, de três para cinco, que passarão a contar com os benefícios do programa Bolsa Família. Segundo ele, no próximo mês a miséria já vai ser menor com a incorporação de 1,3 milhão de pessoas, basicamente, crianças. Néri também contestou também a crítica de alguns economistas sobe o impacto fiscal do programa, observando que “é barato combater a pobreza”.
A economista Maria da Conceição Tavares também saiu em defesa do programa e criticou as declarações de Serra: “O ex governador José Serra escreveu, recentemente, um artigo desaforado sobre o Plano Brasil sem Miseria, no estilo que usou na sua campanha eleitoral. Aproveitou, além disso, no seu estilo agressivo, para atacar o governo da Presidenta Dilma em todas as frentes, da política econômica à social. Serra, como de costume, não tem razão. Seria bom os cidadãos, de modo geral, se informarem a respeito do Plano Brasil sem Miséria”.
Em artigo publicado nesta quarta-feira, no jornal O Globo, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, reafirmou o compromisso de retirar 16 milhões de brasileiros da situação de extrema pobreza. “Vamos aperfeiçoar o Bolsa Família em dois pontos: com a busca ativa dos que têm perfil de receber transferência de renda e ainda não recebem, incluiremos mais 800 mil famílias; e com a ampliação de três para cinco filhos por família que recebem a parcela variável, serão beneficiadas 1,3 milhão de crianças e adolescentes”, destacou a ministra.
Tereza Campello enfatizou ainda que esses 16 milhões de pobres extremos “têm nome, endereço e direitos”. “Desses, 40% têm até 14 anos, 71% são negros e 47% vivem no campo. Estão espalhados por esta imensa nação, refletindo sua diversidade nas diferentes caras da miséria”. E lembrou a disposição já demonstrada de governadores e prefeitos em participar do programa: “O plano conta com o conhecimento adquirido em experiências positivas de inclusão em todos os níveis, com a disposição já demonstrada de governadores e prefeitos, independentemente de suas opções partidárias”.
As críticas de Serra ao programa requentam, na verdade, uma estratégia já adotada pela oposição no início do governo Lula, por ocasião do lançamento do Bolsa Família. No início, o programa foi atacado como uma política assistencialista, insuficiente e como uma ameaça para a estabilidade fiscal. Quando os resultados começaram a aparecer, as críticas deram lugar à uma disputa pela paternidade do programa que foi reivindicada, entre outros, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo falecido senador Antônio Carlos Magalhães.
Houve ainda, naquela época, teses mais exóticas, como a defendida pelo jornalista Gilberto Dimenstein. Em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 2 de abril de 2006, o jornalista defendeu que o então presidente Lula representava uma “ameaça” ao Bolsa Família. “Para sobreviver, o programa teria de ser visto como um patrimônio nacional, e não como marca pessoal de Lula”. O “risco Lula”, segundo Dimenstein, seria a exploração eleitoral do programa.
Nenhuma das previsões e advertências de Dimenstein acabou se confirmando. Pelo contrário. De 2006 para cá, o Bolsa Família consolidou-se como um programa reconhecido internacionalmente. Lula encerrou um ciclo de oito anos de governo firmando-se como uma liderança mundial. Não só pelo Bolsa Família, obviamente, mas também por ele. E o programa vem sendo tema obrigatório em todas as eleições de lá para cá, sem prejuízo para a sua execução. Passadas as eleições, a disputa pela paternidade do programa cessa e retornam as críticas originárias. Em um período onde luta para não submergir na cena política, Serra, que na campanha eleitoral prometeu aumentar o valor do Bolsa Família, requenta esses discursos, tentando dar-lhes uma roupagem nova.
Não é essa a opinião do chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Néri, que qualificou o lançamento do Plano Brasil sem Miséria como um “momento histórico” para o país. Na avaliação do economista, o Brasil deverá colher uma “safra muito boa” de indicadores sociais na próxima década. Um dos principais avanços do plano, disse Marcelo Néri à Agência Brasil, é que ele dá ao combate à miséria um peso institucional inédito. Além disso, enfatizou, o programa sinaliza continuidade em relação aos resultados sociais obtidos nos últimos anos, em especial a queda de 67% da pobreza extrema desde o Plano Real. “A desigualdade está no mínimo histórico. E, nesse momento, você resolve abrir outra frente para plantar e colher outros resultados, mas já usando a própria colheita como semente”.
O economista da FGV também chamou atenção para o que chamou de “federalismo social” do programa. Os municípios, observou, tiveram uma atuação muito importante no combate à pobreza, mas com pouca participação relativa dos estados. Néri também elogiou a decisão de elevar o número de filhos, de três para cinco, que passarão a contar com os benefícios do programa Bolsa Família. Segundo ele, no próximo mês a miséria já vai ser menor com a incorporação de 1,3 milhão de pessoas, basicamente, crianças. Néri também contestou também a crítica de alguns economistas sobe o impacto fiscal do programa, observando que “é barato combater a pobreza”.
A economista Maria da Conceição Tavares também saiu em defesa do programa e criticou as declarações de Serra: “O ex governador José Serra escreveu, recentemente, um artigo desaforado sobre o Plano Brasil sem Miseria, no estilo que usou na sua campanha eleitoral. Aproveitou, além disso, no seu estilo agressivo, para atacar o governo da Presidenta Dilma em todas as frentes, da política econômica à social. Serra, como de costume, não tem razão. Seria bom os cidadãos, de modo geral, se informarem a respeito do Plano Brasil sem Miséria”.
Em artigo publicado nesta quarta-feira, no jornal O Globo, a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello, reafirmou o compromisso de retirar 16 milhões de brasileiros da situação de extrema pobreza. “Vamos aperfeiçoar o Bolsa Família em dois pontos: com a busca ativa dos que têm perfil de receber transferência de renda e ainda não recebem, incluiremos mais 800 mil famílias; e com a ampliação de três para cinco filhos por família que recebem a parcela variável, serão beneficiadas 1,3 milhão de crianças e adolescentes”, destacou a ministra.
Tereza Campello enfatizou ainda que esses 16 milhões de pobres extremos “têm nome, endereço e direitos”. “Desses, 40% têm até 14 anos, 71% são negros e 47% vivem no campo. Estão espalhados por esta imensa nação, refletindo sua diversidade nas diferentes caras da miséria”. E lembrou a disposição já demonstrada de governadores e prefeitos em participar do programa: “O plano conta com o conhecimento adquirido em experiências positivas de inclusão em todos os níveis, com a disposição já demonstrada de governadores e prefeitos, independentemente de suas opções partidárias”.
As críticas de Serra ao programa requentam, na verdade, uma estratégia já adotada pela oposição no início do governo Lula, por ocasião do lançamento do Bolsa Família. No início, o programa foi atacado como uma política assistencialista, insuficiente e como uma ameaça para a estabilidade fiscal. Quando os resultados começaram a aparecer, as críticas deram lugar à uma disputa pela paternidade do programa que foi reivindicada, entre outros, pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo falecido senador Antônio Carlos Magalhães.
Houve ainda, naquela época, teses mais exóticas, como a defendida pelo jornalista Gilberto Dimenstein. Em um artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 2 de abril de 2006, o jornalista defendeu que o então presidente Lula representava uma “ameaça” ao Bolsa Família. “Para sobreviver, o programa teria de ser visto como um patrimônio nacional, e não como marca pessoal de Lula”. O “risco Lula”, segundo Dimenstein, seria a exploração eleitoral do programa.
Nenhuma das previsões e advertências de Dimenstein acabou se confirmando. Pelo contrário. De 2006 para cá, o Bolsa Família consolidou-se como um programa reconhecido internacionalmente. Lula encerrou um ciclo de oito anos de governo firmando-se como uma liderança mundial. Não só pelo Bolsa Família, obviamente, mas também por ele. E o programa vem sendo tema obrigatório em todas as eleições de lá para cá, sem prejuízo para a sua execução. Passadas as eleições, a disputa pela paternidade do programa cessa e retornam as críticas originárias. Em um período onde luta para não submergir na cena política, Serra, que na campanha eleitoral prometeu aumentar o valor do Bolsa Família, requenta esses discursos, tentando dar-lhes uma roupagem nova.
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CALOTE GREGO ASSOMBRA MERCADOS.
"Sem-vergonhas! Vocês não nos representam!" Com esses gritos de milhares de manifestantes entrincheirados em barricadas diante do Parlamento catalão, em Barcelona, nesta quarta-feira, tentaram impedir a votação do novo orçamento regional com cortes de 10% nos gastos públicos. Simultaneamente, em Atenas, 25 mil pessoas cercavam o Parlamento grego e o ministério das Finanças aos gritos: "Desistam, Desistam...ladrões! Traidores". Foram os mais violentos confrontos dos últimos meses entre a polícia e manifestantes, deixando um saldo de dezenas de feridos. O governo Papandreou esfarela e busca uma nova coalizão para subsistir. Pressões dos credores por um up grade no arrocho fiscal deflagraram cisões dentro do próprio partido socialista. O espectro do calote iminente assombra os mercados. Sobretudo, porém, avulta a consciência de que a corda esticou até o limite. O ajuste ortodoxo serviu para arrebentar as derradeiras resistências do organismo doente e facilitar o seu escalpo. Não era para resolver. Mas para dilapidar. A percepção de que essa lógica bateu no teto deflagrou a fuga preventiva de capitais de bancos credores da Grécia, bem como de outras nações fragilizadas, Espanha e Portugal à frente. A lógica do Estado mínimo para a população, com atendimento máximo dos rentistas, foi captada pelo senso popular. Ela alimenta o rastilho das revoltas contra instituições e partidos que agem como aplicativos do FMI. Parece 1789, mas é a Europa do século 21.
(Carta Maior; 5º feira,16/06/ 2011)
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segunda-feira, 13 de junho de 2011
ORTODOXIA TREME : OBAMA QUER
Diante de uma crise que não cede, mesmo depois de o governo despejar US$ 1,3 trilhão no metabolismo dos mercados, retidos, em boa parte, nos cofres da banca privada --que prefere investir em títulos públicos ou especular nas bolsas de commodities a financiar a demanda e o investimento-- o presidente Barack Obama cogita agora criar um banco de desenvolvimento estatal, semelhante ao BNDES brasileiro. A intenção é ter uma ferramenta contracíclica , induzindo investimentos em infraesterutura para injetar algum oxigênio à atividade econômica. A crise e sua longa convalescência evidenciaram o custo elevado do desmonte do aparato público promovido por três décadas de neoliberalismo nos EUA, iniciado com Reagan, em 1981, passando por Clinton nos anos 90 até o seu esfarelamento completo com Bush. Em 2007/2008, quando os mercados entraram em parafuso com a crise das sub-primes, o governo não dispunha de mecanismos para se contrapor à lógica pró-cíclica, sobretudo das finanças, que agem como manada, exacerbando períodos de alta e agravando as dinâmicas recessivas. A reação de Obama , algo tardia, mas sobretudo amesquinhada pela resistência republicana que deseja impor limite acanhados à instituição - no ano passado, por exemplo, o BNDES concedeu US$ 96,32 bilhões em empréstimos, 3 vezes mais que o BID controlado pelos EUA, com US$ 28,8 bi-- traz importantes lições ao Brasil. Um dos maiores acertos do governo Lula foi ter preservado e expandido o fôlego do sistema financeiro público que permitiu ao país resistir e reverter a espiral recessiva e voltar a crescer. Entre 2008 e 2010, quando a banca privada deixou o país na mão criando uma crise de crédito, o BNDES aumentou sua fatia no financiamento produtivo de 9,4% para 22,5% O dispositivo midiático demotucano fez fogo e criticou as tendências estatizantes do empréstimo público subsidiado ( a taxa de juro do BNDES é de 6% contra Selic de 12,25%). A intenção de Obama agora reafirma a relevancia desse ferramental num mundo onde nações se tornam reféns da incerteza financeira, que imobiliza governos e partidos desprovidos de instrumentos para enfrentá-la. Os textos inéditos de Luiz Gonzaga Belluzzo publicados nesta pág. explicam a natureza centralizadora do sistema financeiro no capitalismo. Seu poder estrutural de 'coordenar' a economia não pode ficar subordinado à lógica privada.
(Carta Maior; 2º feira,13/06/ 2011)
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A METRÓPOLE ENTREGUE À MEDIOCRIDADE
Às vésperas de um ano eleitoral, o caixa da prefeitura demotucana de São Paulo está recheado. Cerca de R$ 7 bi não investidos nas urgências da população foram reservados pelo alcaide Gilberto Kassab para maquiar a nulidade de uma gestão, que manteve assim a sintonia com a de seu patrono, José Serra. A arquiteta Raquel Rolnik, em seu blog, dá a medida dos valores estocados. O superávit municipal equivale ao orçamento anual de uma cidade como Belo Horizonte (R$7,5 bi). Aproxima-se do investimento total previsto para São Paulo em 2011 (R$ 8,5 bi). Ou seja, Kassab tem dois anos de inversões nas mãos, em parte, graças a aumentos de até 60% do IPTU e ao reajuste superlativo das passagens de ônibus , que saltaram de R$ 2,30 em janeiro de 2010 para R$ 3,00 --30% mais para uma inflação inferior a 10%. Se os cofres estão firmes, a cidade aderna. Não é preciso ser oposicionista, basta ser transeunte para constata-lo. Com a cobertura complacente da mídia sem a qual Kassab jamais teria sido eleito, São Paulo vive um ciclo de decadência irretocável. Ruas sujas, abrigos de ônibus caindo aos pedaços, inundações sem planos equivalentes à gravidade do problema, flacidez administrativa, saúde sem investimento, o trânsito deixado à própria sorte e o sentimento mais ou menos disseminado de que a cidade virou uma cápsula de concreto, fumaça e mediocridade onde o interesse público foi asfixiado. De novo, é Raquel Rolnik quem resume o colapso reafirmado diariamente nas artérias necrosadas da metrópole: "a cada mês, o paulistano passa dois dias e seis horas no carro ou no transporte público. Os paulistanos perdem, em média, 27 dias por ano no congestionamento". Só a aposta numa cumplicidade orgânica da mídia explica a desenvoltura do prefeito --agora convertido ao 'verde'-- que regurgita acenos publicitários prometendo fazer nos próximos 12 meses tudo o que ele e seu padrinho não cogitaram em seis anos: hospitais, parques, escolas, rede de trólebus, mais ônibus, ciclovias etc. São Paulo é a quarta maior mancha urbana do planeta. Conecta 19 milhões de pessoas (quase um Portugal e uma Suíças juntos) e 39 municípios. O político em cujas mãos o PSDB depositou o destino desse emaranhado tem a seguinte opinião sobre planejamento: "Poderíamos não atender [as metas], porque meta é meta. Meta não é compromisso"(Folha 10-06). A esquerda de São Paulo não pode ter o escárnio como referência se quiser construir uma opção relevante em 2012. Restaurar o planejamento e a mobilização, claro. Mas, sobretudo, é preciso inovar. E fazer da campanha a prefiguração da cidade que se quer restituir aos cidadãos. Depois do Orçamento Participativo criado pelo PT em Porto Alegre, em 1988, qual foi o novo grande avanço trazido pela esquerda à gestão municipal?
(Carta Maior; 2º feira,13/06/ 2011)
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sexta-feira, 10 de junho de 2011
A mesma mão que cumprimenta uma rainha, cumprimenta uma catadora de papel - diz Lula
Do Tijolaço:
... o vídeo do ex-presidente Lula no encontro de catadoras de lixo – trabalhadores a quem ele deu e continua dando sempre um apoio pessoal Cerca de 300 mulheres catadoras de lixo, o receberam com gritos de “Lula eu te amo” e fez referência à presidente Dilma por três vezes. Ele iniciou dizendo que se a presidente não tivesse compromisso ou se tivesse sido convidada com antecedência com certeza estaria ali.
E disse que sempre disse que “eu sei de onde eu vim, e sei para onde eu vou…a mesma mão que cumprimenta um rei ou uma rainha é a mesma mão que cumprimenta, com o mesmo orgulho, uma catadora de papel”.
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Se o mundo fosse uma rua, quem conseguiria viver com um vizinho assim?
O valentão mais perigoso do mundo ( pensa que é) , por Immanuel Wallerestein
do OUTRAS PALAVRASImmanuel Walleresten aponta novos sinais do declínio dos Estados Unidos, e lamenta: Obama é poderoso apenas para fazer o mal
Por Immanuel Wallerestein | Tradução: Antonio Martins
O presidente dos Estados Unidos é considerado o indivíduo mais poderoso no mundo moderno. O que Barack Obama está aprendendo, para seu desapontamento, é que ele tem enorme poder para fazer o mal – mas quase nenhum, para fazer o bem. Imagino que ele perceba isso, e não saiba como o que fazer a respeito. O fato é que ele pode muito pouco.
Examinemos sua principal preocupação específica, no momento – a primaver árabe. Ele não a começou. Ele foi evidentemente pego de surpresa quando ela começou – como, aliás, quase todo mundo. Sua resposta imediata foi pensar, com razão, que o processo representava grande perigo para a já abalada ordem geopolítica da região. Os Estados Unidos procuraram, de todas as maneiras possíveis, limitar o dano, manter sua própria posição e restaurar a “ordem”. Ninguém pode afirmar que tiveram grande sucesso. A cada dia, a situação torna-se mais incerta e fora do controle de Washington.
Barack Obama é, por convincção e personalidade, a quinta-essência do centrismo. Ele busca diálogo e compromisso entre “extremos”. Age com a devida reflexão, e tomas as grandes decisões com prudência. É partidário de mudanças lentas e ordenadas – que não ameacem as bases do sistema do qual ele é não apenas parte, mas a figura central e o mais poderoso ator.
Porém, ele encontra-se, hoje, constrangido de todos os lados para o exercício de seu papel. Ainda assim, continua tentando jogá-lo. Diz, obviamente, para si mesmo: que mais eu poderia fazer? O resultado é que outros atores (inclusive os que foram seus aliados subaltermos) desafiam-no aberta, desavergonhada e repetidamente – o que reduz ainda mais seu poder.
Benyamin Netanyahu, o premiê israelense, fala ao Congresso dos EUA, que aplaude seus absurdos interesseiros com entusiasmo e arrebatamento – como se ele fosse em George Washingto reencarnado. Foi um tapa na cara de Obama, mesmo que o presidente já tivesse, ao falar ao lobby pró-israelense AIPAC, retirado na prática sua tímida tentaiva de propor a volta às fronteiras que Israel e os palestinos mantinham em 1967, como base para a paz.
O governo saudita deixou muito clara que fará tudo a seu alcance para defender os regimes atuais do mundo árabe. Está irritadíssimo com as concessões ocasionais de Obama à linguagem dos “direitos humanos”. O governo do Paquistão está avisando muito claramente a Obama que, se os EUA tentarem enquadrá-lo com dureza, encontrará na China uma amizade mais firme. Os governos russo, chinês e sul-africano lembraram sem reservas que, se Washington tentar obter decisões do Conselho de Segurança da ONU contra a Síria, não terá seu apoio. Provavelmente, sequer reunirá maioria de votos – um eco do fracsso de Bush, ao tentar obter, em 2003, uma segunda resolução sobre o Iraque. No Afganistão, o presidente Karzai está reivindicando da OTAN o fim dos ataques com aviões não-tripulados. E o Pentágono sofre pressões para deixar o país, onde sua aventura tornou-se muito cara.
Para que não se enxergue a fraqueza apenas no Oriente Médio, basta espiar Honduras. Os Estados Unidos virtualmente endossaram o golpe contra o ex-presidente Zelaya. Em consequência, Honduras foi suspensa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Washington tem batalhado duro para restaurar a participação do aliado, alegando que um novo presidente foi formalmente eleito. Os governos latino-americanos resistiram, porque Zelaia, o chefe de Estado deposto, não era autorizado a regressar — com a retirada de todos os processos legais que o ameaçavam.
O que aconteceu em seguida? A Colômbia (supostamente o principal aliado dos EUA na América Latina) e a Venezuela (supostamente o satã dos EUA na região) acertaram-se e, juntas, negociaram com o governo hondurenho o retorno – nas condições definidas por Zelaya. A secretária de Estado Hillary Clinton sorriu amarelo, diante da derrota da diplomacia de Washington.
Por fim, Obama está em apuros com o Congresso dos Estados Unidos em torno da guerra na Líbia. A Lei dos Poderes de Guerra autoriza o presidente a comprometer tropas no país apenas por 60 dias, após os quais é necessária autorização explícita do Legislativo. Dois meses passaram, e não houve decisão do Congresso. A continuidade da ação é claramente ilegal, mas Obama é incapaz de obter o endosso. Ainda assim, permanece comprometido com a guerra e o envolvimento norte-americano pode crescer. Ou seja: ele pode fazer o mal, mas não o bem.
Enquanto isso, concentra-se em sua reeleição. Tem boas chances de obtê-la. Os republicamos estão caminhando cada vez mais para a direita e cometendo graves exageros políticos. Mas uma vez reconduzido, o presidente dos EUA terá ainda menos poder que hoje. O mundo está mudando rapidamente. Num tempo de tantas incertezas e atores imprevisíveis, os Estados Undios estão se convertendo no valentão mais perigoso do planeta.
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Governo vai exigir transferência de tecnologia e mais conteúdo nacional
Nova política industrial será concentrada em máquinas, remédios e químicos
Eliane Oliveira e Vivian Oswald
Eliane Oliveira e Vivian Oswald
BRASÍLIA. Debelada a crise na Casa Civil, que culminou com a saída de Antonio Palocci, a presidente Dilma Rousseff vai retomar, na próxima semana, a elaboração de uma nova política industrial para o país. A ação trará pelo menos duas novidades como contrapartida a incentivos fiscais: as empresas estrangeiras serão obrigadas a transferir tecnologia em projetos com financiamento público e o governo aumentará o índice de conteúdo local, que corresponde à parcela do produto composta por insumos e peças domésticas, para acelerar a nacionalização dos bens fabricados no Brasil. Na mira da ampliação do índice de conteúdo local estão máquinas e equipamentos e produtos farmacêuticos e químicos.
— Vamos nos focar em conteúdo local e tecnologia, além de estimular a associação entre empresas brasileiras e estrangeiras — disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.
Segundo ele, o governo usará seu poder de compras, dando preferência a insumos, peças e equipamentos nacionais. A Câmara dos Deputados tentará destravar a votação de matérias como a medida provisória, a MP 495, que concede preferência para produtos e serviços brasileiros com preços até 25% maiores que os dos importados.
O índice será diferenciado por setores e também levará em conta a geração de emprego e renda, a arrecadação tributária e o desenvolvimento e a inovação tecnológica no Brasil.
— Queremos ir além disso e pegar os grandes setores que são os maiores compradores: saúde, educação, e defesa — acrescentou Pimentel.
Importação de bens de consumo subiu 31,9%
Há cerca de duas semanas, o ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, informou que haverá maior exigência de nacionalização para celulares, computadores e televisores.
De acordo com técnicos das áreas econômica e de comércio exterior, o Executivo está preocupado com a opção de se comprar tudo, e não só mais insumos, no exterior. Com a taxa de câmbio real no nível mais baixo desde 1994 e, cansadas da queda de braço com o valor do dólar, empresas brasileiras passaram a importar o que produziam aqui.
Nos cinco primeiros meses do ano, as compras externas de bens de consumo cresceram 31,9%. O aumento das encomendas de automóveis foi de 48,3%. Já as importações de bens de capital subiram 29% e de matérias-primas, 23,6%. Isso significa que o setor produtivo tem preferido comprar produtos já acabados em vez de fabricá-los.
No caso de transferência de tecnologia, outros países já fazem essa exigência, como a China, que dá preferência a associações entre empresas chinesas e estrangeiras via joint ventures. Quanto aos setores de bens de capital, químicos e fármacos, a substituição de importações é tida como algo urgente para evitar a desindustrialização. Os setores são altamente deficitários e dependentes de tecnologia.
Para o professor da Unicamp Julio Gomes de Almeida, quando o Estado entra com reduções tributárias e financiando a juros subsidiados, como faz o BNDES, é preciso exigir contrapartidas.
— No Brasil, há casos específicos em que o Estado exige, entre outras coisas, a transferência de tecnologia. São exemplos a exploração de petróleo na camada do pré-sal, o trem-bala e a futura compra de caças pela Força Aérea Brasileira (FAB).
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OMNISYS. DO GRUPO THALES, QUER ABRIR NOVA FÁBRICA DE RADARES NO ABC
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Informação sobre nova unidade em São Bernardo do Campo, dedicada à produção do radar Ground Master 400 de defesa aérea, foi dada na coletiva de imprensa de apresentação do novo diretor da Omnisys, Luciano Lampi
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O espaço das atuais instalações já está bastante ocupado com a produção de 25 radares Banda L em carteira (5 dos quais já instalados, sendo 4 no Brasil e 1 em Cingapura), além dos serviços de manutenção e modernização que incluem outros modelos operando no Brasil e até radares franceses da Banda S. Durante visita que realizamos às instalações da Omnisys, pudemos ver radares Banda L no final da linha de produção, destinados aos aeroportos brasileiros de Teresina e Palmas, além de uma unidade destinada a Cingapura.
Segundo o novo diretor geral, Luciano Lampi, a nova área está em processo de escolha entre opções apresentadas pela prefeitura de São Bernardo. O ex-diretor e um dos fundadores da Omnisys, Luiz Henriques, que deixou a direção para assumir a área de desenvolvimento de novos negócios da Thales para a América Latina, acrescentou que é necessário instalar uma torre para testes do radar, numa área com pelo menos 700 metros livres de interferências, com uma baliza instalada a 500 metros da torre.
Novo radar deverá disputar contrato do DECEA ainda em 2011
Mas, segundo o diretor da Thales no Brasil, Laurent Mourre, a produção do GM400 pela Omnisys não depende do resultado desse contrato: “A expectativa de curto prazo, até 2015, é de fornecer 14 desses radares na América Latina.” De qualquer forma, a empresa tem confiança em vencer o contrato do DECEA pelo histórico do GM400 em concorrências internacionais, como afirmou Luiz Henriques: “das 9 concorrências que a Thales disputou , esse radar ganhou todas”. O custo de cada unidade varia entre 15 e 18 milhões de euros (34,5 a 41,4 milhões de reais), conforme a configuração e o pacote logístico.
Transferência de tecnologia
Diferentemente dos radares Banda L, que foram projetados em conjunto no Brasil, os GM400 são produtos já desenvolvidos, então o foco estará inicialmente na produção local, com transferência de tecnologia. Mas, segundo Luiz Henriques, essa diferença em relação ao desenvolvimento de novos produtos, que são os pontos fortes da Omnisys, não diminuem o desafio para a equipe de engenheiros da empresa: “o desenvolvimento e a pesquisa tecnológica são permanentes, para o produto não ficar obsoleto e esse desenvolvimento será feito aqui. Hoje o radar Banda L tem suas partes produzidas por diversos parceiros nacionais, e o GM400 vai seguir esse caminho. ”
O quadro de 300 funcionários da empresa deverá crescer com a nova instalação. Segundo Laurent, atualmente 70 desses funcionários são engenheiros de alta tecnologia, de seniores a jovens, e a taxa de turn over (necessidade de contratações para substituir quem sai) é baixa, devido à motivação no desenvolvimento de novas tecnologias. Um dos exemplos de produtos em desenvolvimento é a cabeça de busca (seeker) do novo míssil antinavio da Marinha do Brasil.
É para possibilidades de crescimento nessa e em outras áreas que a atuação do novo diretor geral Luciano Lampi, que começou a trabalhar desde abril, está ligada. A partir do aporte significativo de investimentos que a Thales realizou na empresa no final do ano passado, de modo a incluí-la na estratégia global do grupo, novas áreas estão sendo captadas pelo “radar” da Omnisys: desenvolvimento e integração soluções tecnológicas oferecidas para áreas de transportes ferroviários, segurança urbana e de aeroportos, segurança de plataformas de petróleo e de refinarias, segurança de comunicações, entre outras. Luciano, que é engenheiro formado pelo ITA, trabalhou por 17 anos na Embraer, participando do desenvolvimento do Xingu, Brasília, Tucano e AMX, além de ter trabalhado em empresas de informática, consultoria e de manutenção aeronáutica.
Segundo Luciano, a Omnisys se destaca pela quantidade de “dólares por quilo” do que produz: “Há uma quantidade enorme de conhecimento colocada em cada produto. E o foco da Omnisys é o desenvolvimento de tecnologia. Mais do que volumes de produção, o que importa são os critérios de confiabilidade dessa tecnologia”.
F-X2: se o Rafale vencer, radar do caça deverá ser produzidos pela Omnisys
Assim como o novo radar de defesa aérea, o radar que equipa o caça Rafale poderá ser produzido também pela Omnisys. Mas, diferentemente do GM400, que independe do resultado da licitação do DECEA para ser fabricado no Brasil, a produção do radar do caça francês pela Omnisys está atrelada a uma vitória do Rafale no programa F-X2, da FAB. Segundo Laurent, se o caça francês ganhar a disputa, “a segunda fonte de fabricação do radar do Rafale será aqui, na Omnisys.”
Leia mais (Read More): Poder Aéreo - Nunão
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EUA e Israel patrocinam ativista iraniana que desafiou Dilma
| Sharin Ebade é porta-voz dos EUA e de Israel |
De passagem por Brasília, a ativista iraniana e Nobel da Paz (2003) Shirin Ebadi, de 63 anos, fracassou em seu intento de obrigar a presidente Dilma Rousseff a recebê-la. Irritada, recusou ser recebida no Palácio do Planalto por Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais.
Flavio Rassekh, coordenador da visita de Ebadi no Brasil, afirmou
que a ativista “veio a Brasília para encontrar Dilma Rousseff e se
sentiu muito mal com a recusa”. Só não explicou por que uma estrangeira
deve pautar a agenda da presidnete República, que raramente inclui
reuniões com personalidades que não sejam chefes de Estado e de governo.
Ebadi chegou ao Brasil no meio da semana com declarações desafiadoras ao
governo brasileiro e afirmações nada diplomáticas. “Ela me receberá se
for defensora dos direitos humanos”, declarou, em tom ameaçador — e
inútil — contra Dilma.
Direitista convicta, ex-colaboradora do governo do xá Reza Palhevi, do
Irã, Sharin Ebade, é hoje a principal porta voz dos grupos mais
conservadores com atuação em todo o mundo, apoiados principalmente pelos
governos dos Estados Unidos e Israel. Sua atuação é repudiada por
outros dissidentes iranianos, como o jornalista Ali Mechem Derkay,
residente em Paris e membro de um grupo que não aceita a interferência
dos Estados Unidos nem de Israel nos negócios do Irã
Além de não falar pela comunidade iraniana de oposição, Ebade é
desqualificada para tal ação devido justamente a suas ligações com os
governos imperialistas e por sempre viajar protegida por agentes da CIA e
do Mossad. Sajjad Saharhiz, também jornalista iraniano independente,
muito respeitado nos meios políticos internacionais, escreveu um artigo
especificamente sobre a viagem de Ebade ao Brasil. Não faltam críticas à
ativista.
Sajjad Saharhiz lembra que, no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, o Brasil mostrou altivez e soberania ao “apoiar o pacífico
programa nuclear do Irã, baseado nos princípios de justiça e
independência”. Segundo o jornalista, o Brasil também “fez esforços para
tentar resolver a disputa sobre o programa nuclear iraniano de forma
pacífica, o que resultou na Declaração de Teerã”.
O que Sharin Ebade deseja — diz o artigo é “enfraquecer a forte posição
adotada pelo Brasil em relação ao programa nuclear iraniano. Talvez a
missão dada a ela pelos seus senhores ocidentais seja pressionar o Irã
acerca de seu programa nuclear com alegações de violação de direitos
humanos. (...) Utilizando sua fama de ganhadora do prêmio Nobel e
seguindo sua missão especial, ela tentará convencer as autoridades
brasileiras a se distanciarem do Irã”.
Saharhiz lembra que a ativista, “tão leal à sua missão”, chegou a chamar
Lula de “traidor”, apesar de o ex-presidente “ser extremamente popular e
respeitado pelo povo brasileiro e por tantas outras nações, e embora
suas políticas tenham feito do Brasil um país avançado”. O jornalista
indaga: “Por que uma figura independente e popular como Lula, que fez
grandes esforços para aumentar o desenvolvimento e prosperidade em seu
país e em outros países do Sul, deveria ser atacada por uma pessoa
tendenciosa como Shirin Ebade?”.
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Democracia’ à moda EUA-Obama... para fazer negócios e neutralizar os pobres
8/6/2011, Joseph Massad, Al-Jazeera, Qatar
http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/06/2011689456174295.html
http://english.aljazeera.net/indepth/opinion/2011/06/2011689456174295.html
Joseph Massad é professor associado de História Intelectual e Política Árabe Moderna
na Columbia University em Nova York.
na Columbia University em Nova York.
Por décadas durante a Guerra Fria, a retórica do poder imperial dos EUA e Europa Ocidental insistia que promoveria a democracia pelo mundo. De fato, na medida em que o modelo soviético tornou-se atraente para muitos países na Ásia e África (para nem falar da América Latina) que precisavam livrar-se do jugo do colonialismo da Europa Ocidental, o sistema de apartheid dos EUA, conhecido como “Leis Jim Crow”, ou Leis de Segregação Racial, cada vez menos podia ser tomado como exemplo a seguir, por quem acabava de livrar-se do suprematismo racial europeu, especialista em justificar o colonialismo. Como se sabe bem, essa foi a causa que obrigou os EUA a começar a pôr fim ao seu sistema de apartheid, processo que começou no famoso processo “Brown vs o Comitê de Educação” em 1954, a partir do qual teve se iniciou a des-segregação nas escolas do sul dos EUA.
Aquela ação dos EUA pelo mundo visava a desqualificar o direito a autodeterminação recém conquistado pelos povos da Ásia e da África e apareceu mascarada sob o slogan de uma “democracia ocidental” que combateria o “comunismo totalitário”. Essa ação dos EUA deixou rastro de milhões de assassinados pelos EUA e aliados (começando na Coreia e chegando ao Congo, Indonésia, Vietnã, Cambodia e Laos, e que foi da Guatemala ao Brasil, Argentina, Uruguai, El Salvador e Chile, além de ter deixado mortos também na África do Sul e no Oriente Médio). Na última década, as invasões injustificáveis, pelos EUA, ao Iraque e Afeganistão pouco alteraram nessa recorrente tendência antidemocrática.
Apesar disso, os que apóiam a política exterior dos EUA no front ‘democrático’ sempre evocam duas importantes vitórias daquela política: o fim da União Soviética com a consequente ‘democratização’ da Europa Oriental; e o fim do apartheid na África do Sul. Em 2011, os EUA esperam que suas políticas, nesses dois locais, outra vez os guiem na direção de obter resultados semelhantes àqueles, nos levantes do mundo árabe que não consigam esmagar.
Lucros e empobrecimento
As populações do bloco oriental gostariam de manter os ganhos econômicos do período comunista, e acrescentar-lhes as vantagens da democratização. Mas os EUA imediatamente lhes venderam a ilusão da “democracia ocidental” como máscara para encobrir o empobrecimento massivo imposto pelos EUA e o desmonte de toda a estrutura de bem-estar social da qual aquelas populações se haviam beneficiado por décadas.
Assim, em apenas poucos anos, mediante o que Naomi Klein chamou de “A Doutrina do Choque”, a Rússia converteu-se, de país onde menos de 2 milhões de habitantes viviam abaixo da linha de pobreza, em país onde 74 milhões de seres humanos vivem na miséria. Depois da Rússia, Polônia e Bulgária foram empurradas pela mesma trilha. O número de bilionários aumentou, como aumentou a margem de lucro das corporações norte-americanas no ex-bloco oriental, com a ajuda de ativas organizações imperiais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. E os EUA, sob pressão internacional, fecharam um negócio que pôs fim ao apartheid político na África do Sul.
Aquela ação dos EUA pelo mundo visava a desqualificar o direito a autodeterminação recém conquistado pelos povos da Ásia e da África e apareceu mascarada sob o slogan de uma “democracia ocidental” que combateria o “comunismo totalitário”. Essa ação dos EUA deixou rastro de milhões de assassinados pelos EUA e aliados (começando na Coreia e chegando ao Congo, Indonésia, Vietnã, Cambodia e Laos, e que foi da Guatemala ao Brasil, Argentina, Uruguai, El Salvador e Chile, além de ter deixado mortos também na África do Sul e no Oriente Médio). Na última década, as invasões injustificáveis, pelos EUA, ao Iraque e Afeganistão pouco alteraram nessa recorrente tendência antidemocrática.
Apesar disso, os que apóiam a política exterior dos EUA no front ‘democrático’ sempre evocam duas importantes vitórias daquela política: o fim da União Soviética com a consequente ‘democratização’ da Europa Oriental; e o fim do apartheid na África do Sul. Em 2011, os EUA esperam que suas políticas, nesses dois locais, outra vez os guiem na direção de obter resultados semelhantes àqueles, nos levantes do mundo árabe que não consigam esmagar.
Lucros e empobrecimento
As populações do bloco oriental gostariam de manter os ganhos econômicos do período comunista, e acrescentar-lhes as vantagens da democratização. Mas os EUA imediatamente lhes venderam a ilusão da “democracia ocidental” como máscara para encobrir o empobrecimento massivo imposto pelos EUA e o desmonte de toda a estrutura de bem-estar social da qual aquelas populações se haviam beneficiado por décadas.
Assim, em apenas poucos anos, mediante o que Naomi Klein chamou de “A Doutrina do Choque”, a Rússia converteu-se, de país onde menos de 2 milhões de habitantes viviam abaixo da linha de pobreza, em país onde 74 milhões de seres humanos vivem na miséria. Depois da Rússia, Polônia e Bulgária foram empurradas pela mesma trilha. O número de bilionários aumentou, como aumentou a margem de lucro das corporações norte-americanas no ex-bloco oriental, com a ajuda de ativas organizações imperiais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. E os EUA, sob pressão internacional, fecharam um negócio que pôs fim ao apartheid político na África do Sul.
Se os povos do bloco oriental tiveram de sacrificar seus estados de bem-estar e a própria sobrevivência, em troca da arrasadora pilhagem de seus países por um capitalismo à moda da Máfia, os sul-africanos foram engambelados com uma ‘democracia’ política em troca de um apartheid econômico ainda mais intenso e a rendição total da soberania econômica do país. Enquanto a classe empresarial tornou-se muito pouco racialmente diversificada (como, desde os anos 1970s, os EUA), os grupos mais empobrecidos mantiveram-se racialmente uniformes. A África do Sul passou a carregar o peso de dívidas gigantescas e assinou tantos acordos e protocolos econômicos que, hoje, nem pode redistribuir a propriedade privada racializada do país (protegida pela Constituição), nem tem como aumentar salários, esmagada pelas regras do FMI, que insiste no arrocho salarial como ‘política’ econômica. A pobreza massivamente racializada no país só aumentou o apartheid econômico, sob a máscara do ‘fim’ do apartheid político.
No Oriente Médio, os acordos de Oslo, assinados mais ou menos no mesmo momento em que a ‘democracia’ à moda dos EUA estava sendo imposta na Europa Oriental e na África do Sul, foram ainda piores. A Autoridade Palestina tratou (seguindo instruções dos EUA e de Israel) de desmobilizar a sociedade civil palestina, muito fortalecida depois da Primeira Intifada. Organizações ocidentais não governamentais brotaram por todos os lados.
As ONGs cooptaram a intelligentsia, os tecnocratas e praticamente todos os ativistas, que foram postos a serviço de uma agenda ocidental que converteu essas ONGs estrangeiras em nova “sociedade civil” local, enquanto governos ocidentais financiavam a corrupta Autoridade Palestina que continuou a colaborar com a ocupação israelense. A miséria reina hoje absoluta em grande parte da Cisjordânia e em toda a Faixa de Gaza e continua a destruir a vida dos palestinos.
O Iraque, enquanto isso, depois de devolvido à Idade da Pedra pelas bombas dos EUA, estava sendo convertido em mais uma ‘democracia’ à moda da Máfia implantada pelos EUA; e todo o estado de bem-estar que existiu no Iraque de Saddam foi detonado. O petróleo iraquiano foi entregue a corporações norte-americanas, em mais um capítulo da pilhagem (que ainda prossegue) daquele país, pelos EUA.
As ONGs cooptaram a intelligentsia, os tecnocratas e praticamente todos os ativistas, que foram postos a serviço de uma agenda ocidental que converteu essas ONGs estrangeiras em nova “sociedade civil” local, enquanto governos ocidentais financiavam a corrupta Autoridade Palestina que continuou a colaborar com a ocupação israelense. A miséria reina hoje absoluta em grande parte da Cisjordânia e em toda a Faixa de Gaza e continua a destruir a vida dos palestinos.
O Iraque, enquanto isso, depois de devolvido à Idade da Pedra pelas bombas dos EUA, estava sendo convertido em mais uma ‘democracia’ à moda da Máfia implantada pelos EUA; e todo o estado de bem-estar que existiu no Iraque de Saddam foi detonado. O petróleo iraquiano foi entregue a corporações norte-americanas, em mais um capítulo da pilhagem (que ainda prossegue) daquele país, pelos EUA.
Outros países árabes, especialmente o Egito, foram inundados por ONGs financiadas por países e empresas ocidentais, enquanto o FMI e o Banco Mundial cuidavam para que a saúde local fosse entregue a transnacionais e a empresários locais subservientes, que apóiam ditaduras locais. Grande número de homens e mulheres, sindicalistas, ativistas de direitos humanos, defensores de direitos dos camponeses esqueceram que lhes cabia defender os pobres e oprimidos entre os quais viviam, e passaram a frequentar regularmente as folhas de pagamento das ONGs financiadas pelo ocidente, fantasiadas como se fossem alguma ‘sociedade civil’.
No momento em que essa desmobilização da sociedade árabe não consegue impedir que as multidões eclodam em fúria no Egito e na Tunísia, contra dois dos mais corruptos regimes pós-independência na Ásia e na África (e, provavelmente, também na América Latina), os EUA e seus aliados Arábia Saudita e Qatar dedicam-se a construir mais um “pacote econômico” para “apoiar” os levantes, sobretudo no Egito, que é economia maior e muito mais importante.Fortalecer os mais ricos Imediatamente se viram os ventos da magnanimidade dos EUA. De fato, no primeiro dia de Mubarak deposto, Mubarak que o governo Obama apoiou até o último segundo no poder (e depois de deposto), o New York Times noticiou que “a Casa Branca e o Departamento de Estado já discutem a criação de novos fundos para estimular o surgimento de partidos políticos seculares”.
Poucos dias depois, dia 17/2/2011, a secretária de Estado Hillary Clinton disse em conferência de imprensa: “É com muita satisfação que anuncio que já reprogramamos 150 milhões de dólares para o Egito, para apoiar nossa transição naquele país e ajudar a recuperação da economia. Esses fundos nos darão a necessária flexibilidade para responder às necessidades do Egito para prosseguir.”
Um mês mais tarde, dia 16/3, Clinton declarou, em nome dos EUA, que “também nos parece que há reformas econômicas a fazer, necessárias para que o povo egípcio tenha bons empregos, para realizar seus sonhos. E é assim, nessas duas trilhas – com reforma política e reforma econômica – que queremos ser úteis.”
De fato, os preparativos para “ser úteis” já estavam pensados pelo governo Obama e seus aliados europeus e sauditas e qataris dia 19/5, quando Obama falou. Em seu discurso, declarou:
“Já pedimos que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional apresentem plano na reunião da próxima semana do G-8, de tudo que precisa ser feito para estabilizar e modernizar as economias da Tunísia e do Egito. Juntos, vamos ajudá-los a recuperar-se das dificuldades dos levantes democráticos, e apoiar os governos a serem eleitos no final do corrente ano. E estamos conclamando outros países a ajudar Egito e Tunísia a superar suas dificuldades financeiras de curto prazo.”
Como se não bastasse, Obama apareceu com uma artimanha risível para ‘perdoar’ 35 bilhões de dólares que Mubarak deve ao povo egípcio: “liberar para o Egito pós-Mubarak 1 bilhão de dólares e conseguir que nossos parceiros egípcios invistam esses recursos para estimular o crescimento e o empreendedorismo”. Esse bilhão implica endividar ainda mais o Egito. E Obama, sem pausa e sem ironia, declarou que “ajudaremos o Egito a reconquistar acesso aos mercados, garantindo-lhe empréstimo de 1 bilhão necessário para financiar a infraestrutura e a geração de empregos (...) Estamos trabalhando com o Congresso para criar Fundos Empresariais a serem investidos na Tunísia e no Egito.”
Quando o empobrecimento da Europa Oriental cria riqueza gigantesca para novas elites locais e seus patrões corporativos nos EUA e na Europa Ocidental, Obama garante que a assistência financeira que os EUA oferecem “será modelada pelos padrões dos fundos que apoiaram as transições na Europa Oriental depois da queda do Muro de Berlim. A OPIC (ing. Overseas Private Investment Corporation, Corporação de Investimentos Privados no Além-mar), instituição financeira do governo dos EUA logo lançará dois bilhões de dólares de créditos para investimentos privados em toda a região. E trabalharemos com aliados para refocar o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento de modo a oferecer o mesmo apoio às transições democráticas e à modernização econômica no Oriente Médio e Norte da África, como foi feito na Europa”.
E não é tudo! Os EUA também “lançarão uma ampla Iniciativa de Parcerias para Comércio e Investimento [orig. Trade and Investment Partnership Initiative] no Oriente Médio e Norte da África.”
Tendo reconhecido que a ganância dos EUA e dos sauditas é tal que todos os ganhos do petróleo alimentam as economias dos EUA e da Europa desde os anos 1970s em detrimento da Região que morre sob o peso das políticas de ajustes estruturais do FMI (cortes de subsídios e arrocho nos salários dos pobres; aumento nos subsídios para os ricos, restrição de direitos da classe trabalhadora, fim do protecionismo e venda do próprio país ao capital internacional, aumento dos preços internos), o que causou os levantes populares, Obama agora quer que uma parte dos lucros do petróleo passe a ser reinvestido no mundo árabe. Explicou que:
“Trabalharemos com a União Europeia para facilitar maior comércio interno na Região, a partir dos acordos existentes para promover a integração com mercados dos EUA e da Europa e abrir a porta para que esses países que adotem altos padrões de reforma e de livre comércio para construir um acordo de comércio regional. E como ser membro da União Europeia ajudou, como incentivo às reformas na Europa, assim também a visão de uma economia moderna e próspera cria poderosa força a favor das reformas no Oriente Médio e Norte da África.”
Obama, com França e Grã-Bretanha não perderam tempo. No final de maio, líderes do G-8, as oito nações industrializadas mais ricas, prometeram mandar bilhões de dólares de ajuda ao Egito e Tunísia. Sarkozy da França declarou que “espero que o pacote total de ajuda alcance eventualmente $40 bilhões, incluindo $10 bilhões da Arábia Saudita, Qatar e Kuwait".
Simultaneamente, o Qatar andou falando com parceiros do Golfo, ricos em petróleo, sobre novo plano para criar um Banco de Desenvolvimento do Oriente Médio para apoiar estados árabes em transição para a democracia. Seus planos inspiraram-se, segundo os jornais, no Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento “que ajudou a reconstruir as economias e as sociedades dos países do bloco oriental ao final da Guerra Fria.” Esse banco de desenvolvimento do Oriente Médio prevê empréstimos anuais de dezenas de bilhões de dólares anuais, para transições políticas. O Qatar busca o apoio da Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos para a iniciativa. Os sauditas já emprestaram $4 bilhões aos egípcios, e o Fundo Monetário Internacional anunciou empréstimo de $3 bilhões ao país.
Problema é que Youssef Boutros-Ghali, ministro das Finanças de Mubarak, elogiado por ninguém menos que o FMI como o mais eficiente ministro das Finanças, e indicado pelo próprio FMI em 2008 à presidência da Comissão Monetária e Financeira Internacional da instituição, fugiu do país e acaba de ser condenado a 30 anos de prisão por tribunal egípcio, por crimes de corrupção. Uma semana antes da queda de Mubarak em fevereiro passado, e antes de fugir do país, Boutros-Ghali renunciou ao cargo no FMI. Mas nada detém o FMI. Sua ‘ajuda” ao Egito continuará sem interrupção, e nenhum desses pequenos problemas a deterá.
Como parte do esforço para esmagar as manifestações populares e os clamores por democracia na Jordânia, a Arábia Saudita já ofereceu $400 milhões “para apoiar a economia jordaniana e aliviar o déficit no orçamento”. A Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (apresentado recentemente como “O Clube Contrarrevolucionário”, Pepe Escobar, 27/5/2011, Blog Castorphoto[1]) também estenderam recentemente o convite para que se reúnam ao “Clube” as duas únicas monarquias sobreviventes fora do Golfo: Jordânia e Marrocos.
Neutralizar os pobres
Mas – se o negócio dos EUA na Europa Oriental foi empobrecer a maioria da população sob o disfarce de alguma ‘democracia’, de modo que empresas norte-americanas pudessem pilhar suas economias; e se o negócio dos EUA na África do Sul visou exclusivamente a salvaguardar e manter o mesmo padrão de pilhagem racializada, pelos brancos e contra os negros, e também com empresários parceiros dos EUA protegidos sob um disfarce chamado ‘democracia’, qual a modalidade de negócio político-econômico que está sendo urdido para o mundo árabe?
No momento em que essa desmobilização da sociedade árabe não consegue impedir que as multidões eclodam em fúria no Egito e na Tunísia, contra dois dos mais corruptos regimes pós-independência na Ásia e na África (e, provavelmente, também na América Latina), os EUA e seus aliados Arábia Saudita e Qatar dedicam-se a construir mais um “pacote econômico” para “apoiar” os levantes, sobretudo no Egito, que é economia maior e muito mais importante.Fortalecer os mais ricos Imediatamente se viram os ventos da magnanimidade dos EUA. De fato, no primeiro dia de Mubarak deposto, Mubarak que o governo Obama apoiou até o último segundo no poder (e depois de deposto), o New York Times noticiou que “a Casa Branca e o Departamento de Estado já discutem a criação de novos fundos para estimular o surgimento de partidos políticos seculares”.
Poucos dias depois, dia 17/2/2011, a secretária de Estado Hillary Clinton disse em conferência de imprensa: “É com muita satisfação que anuncio que já reprogramamos 150 milhões de dólares para o Egito, para apoiar nossa transição naquele país e ajudar a recuperação da economia. Esses fundos nos darão a necessária flexibilidade para responder às necessidades do Egito para prosseguir.”
Um mês mais tarde, dia 16/3, Clinton declarou, em nome dos EUA, que “também nos parece que há reformas econômicas a fazer, necessárias para que o povo egípcio tenha bons empregos, para realizar seus sonhos. E é assim, nessas duas trilhas – com reforma política e reforma econômica – que queremos ser úteis.”
De fato, os preparativos para “ser úteis” já estavam pensados pelo governo Obama e seus aliados europeus e sauditas e qataris dia 19/5, quando Obama falou. Em seu discurso, declarou:
“Já pedimos que o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional apresentem plano na reunião da próxima semana do G-8, de tudo que precisa ser feito para estabilizar e modernizar as economias da Tunísia e do Egito. Juntos, vamos ajudá-los a recuperar-se das dificuldades dos levantes democráticos, e apoiar os governos a serem eleitos no final do corrente ano. E estamos conclamando outros países a ajudar Egito e Tunísia a superar suas dificuldades financeiras de curto prazo.”
Como se não bastasse, Obama apareceu com uma artimanha risível para ‘perdoar’ 35 bilhões de dólares que Mubarak deve ao povo egípcio: “liberar para o Egito pós-Mubarak 1 bilhão de dólares e conseguir que nossos parceiros egípcios invistam esses recursos para estimular o crescimento e o empreendedorismo”. Esse bilhão implica endividar ainda mais o Egito. E Obama, sem pausa e sem ironia, declarou que “ajudaremos o Egito a reconquistar acesso aos mercados, garantindo-lhe empréstimo de 1 bilhão necessário para financiar a infraestrutura e a geração de empregos (...) Estamos trabalhando com o Congresso para criar Fundos Empresariais a serem investidos na Tunísia e no Egito.”
Quando o empobrecimento da Europa Oriental cria riqueza gigantesca para novas elites locais e seus patrões corporativos nos EUA e na Europa Ocidental, Obama garante que a assistência financeira que os EUA oferecem “será modelada pelos padrões dos fundos que apoiaram as transições na Europa Oriental depois da queda do Muro de Berlim. A OPIC (ing. Overseas Private Investment Corporation, Corporação de Investimentos Privados no Além-mar), instituição financeira do governo dos EUA logo lançará dois bilhões de dólares de créditos para investimentos privados em toda a região. E trabalharemos com aliados para refocar o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento de modo a oferecer o mesmo apoio às transições democráticas e à modernização econômica no Oriente Médio e Norte da África, como foi feito na Europa”.
E não é tudo! Os EUA também “lançarão uma ampla Iniciativa de Parcerias para Comércio e Investimento [orig. Trade and Investment Partnership Initiative] no Oriente Médio e Norte da África.”
Tendo reconhecido que a ganância dos EUA e dos sauditas é tal que todos os ganhos do petróleo alimentam as economias dos EUA e da Europa desde os anos 1970s em detrimento da Região que morre sob o peso das políticas de ajustes estruturais do FMI (cortes de subsídios e arrocho nos salários dos pobres; aumento nos subsídios para os ricos, restrição de direitos da classe trabalhadora, fim do protecionismo e venda do próprio país ao capital internacional, aumento dos preços internos), o que causou os levantes populares, Obama agora quer que uma parte dos lucros do petróleo passe a ser reinvestido no mundo árabe. Explicou que:
“Trabalharemos com a União Europeia para facilitar maior comércio interno na Região, a partir dos acordos existentes para promover a integração com mercados dos EUA e da Europa e abrir a porta para que esses países que adotem altos padrões de reforma e de livre comércio para construir um acordo de comércio regional. E como ser membro da União Europeia ajudou, como incentivo às reformas na Europa, assim também a visão de uma economia moderna e próspera cria poderosa força a favor das reformas no Oriente Médio e Norte da África.”
Obama, com França e Grã-Bretanha não perderam tempo. No final de maio, líderes do G-8, as oito nações industrializadas mais ricas, prometeram mandar bilhões de dólares de ajuda ao Egito e Tunísia. Sarkozy da França declarou que “espero que o pacote total de ajuda alcance eventualmente $40 bilhões, incluindo $10 bilhões da Arábia Saudita, Qatar e Kuwait".
Simultaneamente, o Qatar andou falando com parceiros do Golfo, ricos em petróleo, sobre novo plano para criar um Banco de Desenvolvimento do Oriente Médio para apoiar estados árabes em transição para a democracia. Seus planos inspiraram-se, segundo os jornais, no Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento “que ajudou a reconstruir as economias e as sociedades dos países do bloco oriental ao final da Guerra Fria.” Esse banco de desenvolvimento do Oriente Médio prevê empréstimos anuais de dezenas de bilhões de dólares anuais, para transições políticas. O Qatar busca o apoio da Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos para a iniciativa. Os sauditas já emprestaram $4 bilhões aos egípcios, e o Fundo Monetário Internacional anunciou empréstimo de $3 bilhões ao país.
Problema é que Youssef Boutros-Ghali, ministro das Finanças de Mubarak, elogiado por ninguém menos que o FMI como o mais eficiente ministro das Finanças, e indicado pelo próprio FMI em 2008 à presidência da Comissão Monetária e Financeira Internacional da instituição, fugiu do país e acaba de ser condenado a 30 anos de prisão por tribunal egípcio, por crimes de corrupção. Uma semana antes da queda de Mubarak em fevereiro passado, e antes de fugir do país, Boutros-Ghali renunciou ao cargo no FMI. Mas nada detém o FMI. Sua ‘ajuda” ao Egito continuará sem interrupção, e nenhum desses pequenos problemas a deterá.
Como parte do esforço para esmagar as manifestações populares e os clamores por democracia na Jordânia, a Arábia Saudita já ofereceu $400 milhões “para apoiar a economia jordaniana e aliviar o déficit no orçamento”. A Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (apresentado recentemente como “O Clube Contrarrevolucionário”, Pepe Escobar, 27/5/2011, Blog Castorphoto[1]) também estenderam recentemente o convite para que se reúnam ao “Clube” as duas únicas monarquias sobreviventes fora do Golfo: Jordânia e Marrocos.
Neutralizar os pobres
Mas – se o negócio dos EUA na Europa Oriental foi empobrecer a maioria da população sob o disfarce de alguma ‘democracia’, de modo que empresas norte-americanas pudessem pilhar suas economias; e se o negócio dos EUA na África do Sul visou exclusivamente a salvaguardar e manter o mesmo padrão de pilhagem racializada, pelos brancos e contra os negros, e também com empresários parceiros dos EUA protegidos sob um disfarce chamado ‘democracia’, qual a modalidade de negócio político-econômico que está sendo urdido para o mundo árabe?
Muito visivelmente, nos países nos quais as contrarrevoluções comandadas por EUA-Arábia Saudita triunfaram, o objetivo é manter o mesmo padrão de pilhagem imperial liderada pelos EUA, ao mesmo tempo em que se contêm os movimentos populares e fortalecem-se as elites locais (Bahrain, Omã e Jordânia são exemplos claros), ou resgatar as ditaduras, do colapso total (sejam ditaduras aliadas dos EUA ou não) para que comandem a transição de regime e reativem as parcerias políticas e econômicas com os EUA (casos da Líbia, do Iêmen e até da Síria).
Mas o que fazer no Egito e na Tunísia, onde não só o ditador, mas grande número de membros dos regimes já derrubados também são corruptos notórios e cúmplices dos crimes e negociatas do eixo EUA-Sauditas e na violência brutal dos antigos regimes? Exatamente nesses casos, o eixo EUA-Saudita focou seus principais esforços.
Mas o que fazer no Egito e na Tunísia, onde não só o ditador, mas grande número de membros dos regimes já derrubados também são corruptos notórios e cúmplices dos crimes e negociatas do eixo EUA-Sauditas e na violência brutal dos antigos regimes? Exatamente nesses casos, o eixo EUA-Saudita focou seus principais esforços.
Elites comerciais e empresariais que miraculosamente se safaram de acusações formais no Egito – e são legiões! – mostraram-se gravemente preocupadas com tumultos de rua e greves, que desorganizam a economia (e o fluxo de lucros em direção a elas mesmas). O bilionário Naguib Sawiris, que se apresenta como apoiador, se não líder, dos levantes populares, e cujos pai e irmãos também se tornaram bilionários em apenas poucos anos, depois que se associaram à USAID durante a política de “infitah” (“porta aberta”) de Sadat e sobretudo depois de os EUA invadirem a região em 1990-91, além de muitos outros empresários “honestos”, estão, todos, entusiasmadíssimos ante a possibilidade de se tornarem paladinos da causa dos EUA num Egito “democrático”, exatamente como sempre fizeram no governo de Mubarak. Sawiris fundou um partido político e agora se recusa a participar das manifestações das 6as-feiras, que, como diz hoje, estariam enfraquecendo a economia. Sawairis declarou recentemente que “foi erro acusar todos os empresários egípcios como se todos fossem criminosos”; e tem insistido que “muitos são cidadãos honrados, que sempre ajudaram a gerar empregos para os egípcios”.
Os EUA e Obama também têm celebrado jovens executivos e empresários, como o ingênuo Wael Ghonim, que deu sinais de ter sido afetado pela “Síndrome de Estocolmo”. Só um surto da Síndrome explica que Ghonim tenha explodido em lágrimas em sua famosa entrevista pela televisão, quando defendeu, em vez de denunciar, a polícia secreta que o interrogara). Ghonim andou viajando pelos EUA, dando palestras para banqueiros internacionais e economistas do Banco Mundial, apresentado como “líder” dos levantes egípcios, com despesas pagas pela própria Google Corporation.
Mas a maioria dos egípcios e tunisianos – diferente do que acontecia nos países do Leste Europeu governados pelos Comunistas – já foram reduzidos à miséria. E a principal modalidade de apartheid vigente no Egito e na Tunísia – diferente do apartheid político que se conheceu na África do Sul – é apartheid econômico, de classe. Assim sendo, o que os povos árabes teriam ainda de ceder, em troca da democracia à moda dos EUA que lhes tentam impor?
A resposta é simples. Há crescente consenso entre os políticos norte-americanos que os EUA devem surfar a onda democrática nos países da região cujos levantes populares os EUA não consigam esmagar, e que, para conseguir isso, é preciso construir condições políticas que mantenham intactas as políticas de pilhagem imperial das economias locais e que não lhes criem obstáculo. Depois do dinheiro saudita vieram o dinheiro dos EUA e os planos do FMI e do Banco Mundial, e todos os fundos são administrados de modo a apoiar elites empresariais e as ONGs financiadas por dinheiro externo para ‘conter’ a sociedade civil que outra vez se mobilizou – usando-se para esse objetivo o mesmo velho jargão neoliberal do ajuste estrutural que o FMI impõe onde chega, desde o final dos anos 1970s.
De fato, o que Obama e seus sócios nos negócios estão dizendo é que os revolucionários no Egito e na Tunísia – se não em todo o mundo árabe – estariam demandando sobretudo, e coincidentemente, políticas econômicas ainda mais neoliberais, que o Ocidente terá muito gosto em oferecer-lhes.
Mas são as mesmas políticas imperiais que o FMI impôs à Polônia (e geraram o movimento “Solidarnosc em 1980) e que levaram ao colapso da União Soviética, num mesmo processo para empobrecer o planeta, com especial atenção ao empobrecimento da África, do mundo árabe e da América Latina. Nesse sentido, os EUA providenciarão para que as mesmas políticas econômicas imperiais impostas pelo capital internacional e adotadas sempre por Mubarak e Ben Ali sejam não apenas mantidas, mas aprofundadas, sob a fantasia de ‘reformas democráticas’ e de ‘governos democráticos’.
Estão em andamento no Egito e na Tunísia movimentos que visam a limitar os protestos e as greves de trabalhadores. Depois de realizadas as eleições que porão no governo um novo grupo de políticos da velha ordem, com certeza começaremos a ouvir que todas as reivindicações de caráter econômico devem ser consideradas “contrarrevolucionárias” e devem ser reprimidas como atentados à “democracia”, para enfraquecê-la, quando não para destruí-la. E se, como já começa a acontecer, os EUA firmarem alianças com partidos islâmicos locais, com certeza ouviremos também que qualquer manifestação popular com reivindicações econômicas ou trabalhistas e que se oponha às políticas econômicas neoliberais e imperiais seria “contra o Islã”.
A ‘democracia’ imposta pelos EUA e que está sendo construída, e dando por consumado que alguma coisa semelhante a democracia será imposta ao Egito e Tunísia (para começar), está sendo construída para manter oprimidos e pobres os pobres e oprimidos e para deslegitimar todas as suas demandas que tenham a ver com a ordem econômica imperial. A troca que os EUA esperam obter, impondo ao Egito e à Tunísia alguma modalidade da ordem política liberal implica mais, não menos, pilhagem das economias e das próprias condições de sobrevivência dos mais pobres – que são larga maioria na população desses países.
O objetivo final dos EUA é, de fato, capturar-confiscar os levantes bem-sucedidos contra os regimes existentes, chamando essa captura-confisco de ‘democracia’, mas captura-confisco que só beneficiará as mesmas elites da finança internacional que já estavam no poder sob Mubarak e Ben Ali. Se os EUA e seus aliados locais conseguirão sucesso nesse golpe de captura-confisco depende, hoje, exclusivamente, da luta de egípcios e tunisianos.
Os EUA e Obama também têm celebrado jovens executivos e empresários, como o ingênuo Wael Ghonim, que deu sinais de ter sido afetado pela “Síndrome de Estocolmo”. Só um surto da Síndrome explica que Ghonim tenha explodido em lágrimas em sua famosa entrevista pela televisão, quando defendeu, em vez de denunciar, a polícia secreta que o interrogara). Ghonim andou viajando pelos EUA, dando palestras para banqueiros internacionais e economistas do Banco Mundial, apresentado como “líder” dos levantes egípcios, com despesas pagas pela própria Google Corporation.
Mas a maioria dos egípcios e tunisianos – diferente do que acontecia nos países do Leste Europeu governados pelos Comunistas – já foram reduzidos à miséria. E a principal modalidade de apartheid vigente no Egito e na Tunísia – diferente do apartheid político que se conheceu na África do Sul – é apartheid econômico, de classe. Assim sendo, o que os povos árabes teriam ainda de ceder, em troca da democracia à moda dos EUA que lhes tentam impor?
A resposta é simples. Há crescente consenso entre os políticos norte-americanos que os EUA devem surfar a onda democrática nos países da região cujos levantes populares os EUA não consigam esmagar, e que, para conseguir isso, é preciso construir condições políticas que mantenham intactas as políticas de pilhagem imperial das economias locais e que não lhes criem obstáculo. Depois do dinheiro saudita vieram o dinheiro dos EUA e os planos do FMI e do Banco Mundial, e todos os fundos são administrados de modo a apoiar elites empresariais e as ONGs financiadas por dinheiro externo para ‘conter’ a sociedade civil que outra vez se mobilizou – usando-se para esse objetivo o mesmo velho jargão neoliberal do ajuste estrutural que o FMI impõe onde chega, desde o final dos anos 1970s.
De fato, o que Obama e seus sócios nos negócios estão dizendo é que os revolucionários no Egito e na Tunísia – se não em todo o mundo árabe – estariam demandando sobretudo, e coincidentemente, políticas econômicas ainda mais neoliberais, que o Ocidente terá muito gosto em oferecer-lhes.
Mas são as mesmas políticas imperiais que o FMI impôs à Polônia (e geraram o movimento “Solidarnosc em 1980) e que levaram ao colapso da União Soviética, num mesmo processo para empobrecer o planeta, com especial atenção ao empobrecimento da África, do mundo árabe e da América Latina. Nesse sentido, os EUA providenciarão para que as mesmas políticas econômicas imperiais impostas pelo capital internacional e adotadas sempre por Mubarak e Ben Ali sejam não apenas mantidas, mas aprofundadas, sob a fantasia de ‘reformas democráticas’ e de ‘governos democráticos’.
Estão em andamento no Egito e na Tunísia movimentos que visam a limitar os protestos e as greves de trabalhadores. Depois de realizadas as eleições que porão no governo um novo grupo de políticos da velha ordem, com certeza começaremos a ouvir que todas as reivindicações de caráter econômico devem ser consideradas “contrarrevolucionárias” e devem ser reprimidas como atentados à “democracia”, para enfraquecê-la, quando não para destruí-la. E se, como já começa a acontecer, os EUA firmarem alianças com partidos islâmicos locais, com certeza ouviremos também que qualquer manifestação popular com reivindicações econômicas ou trabalhistas e que se oponha às políticas econômicas neoliberais e imperiais seria “contra o Islã”.
A ‘democracia’ imposta pelos EUA e que está sendo construída, e dando por consumado que alguma coisa semelhante a democracia será imposta ao Egito e Tunísia (para começar), está sendo construída para manter oprimidos e pobres os pobres e oprimidos e para deslegitimar todas as suas demandas que tenham a ver com a ordem econômica imperial. A troca que os EUA esperam obter, impondo ao Egito e à Tunísia alguma modalidade da ordem política liberal implica mais, não menos, pilhagem das economias e das próprias condições de sobrevivência dos mais pobres – que são larga maioria na população desses países.
O objetivo final dos EUA é, de fato, capturar-confiscar os levantes bem-sucedidos contra os regimes existentes, chamando essa captura-confisco de ‘democracia’, mas captura-confisco que só beneficiará as mesmas elites da finança internacional que já estavam no poder sob Mubarak e Ben Ali. Se os EUA e seus aliados locais conseguirão sucesso nesse golpe de captura-confisco depende, hoje, exclusivamente, da luta de egípcios e tunisianos.
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O clubinho dos mervais. Merdais (?)
“Podem ter ajudado as eleições pregressas de pitanguys e sarneys, mas a 'imortalidade' desse merval marca o ponto além do qual não há retorno”
A história parece ter esfriado – propositalmente esfriado – na mídia, mas não vou deixar passar batido: neste pé e segundo “critérios” no sentido de “popularizar” (a palavra não seria mediocrizar?), segundo a Folha de São Paulo, a ABL - Academia Brasileira de Letras -, em poucas décadas, vai se tornar um clubinho de mervais, pleno de chás e vesperais bucólico-edílico-estivais e dos mais porretas.
Eu poderia prosseguir neste tom humorístico assim indefinidamente, o texto ia ficar muito engraçado, hilário, resvalando entre o ridículo, o sarcasmo e a ironia – aliás, minhas especialidades –, mas não seria verdade porque desta vez fiquei indignada, raivosa, irada, putíssima da vida, e isto, ao invés de prejudicar-me a expressão, ao contrário favorece e muito porque - e aqui lembro uma frase do Raduan Nassar - no escritor é a emoção que comanda a razão, até porque ninguém conduz quem o demônio extravia, sobretudo quando é preciso soltar os cachorros, dar nomes aos bois, e dar nomes – dizer que as coisas têm nome, função e razão de ser – também continua sendo tarefa do escritor.
Antes invoco José Guilherme Merquior que observa num artigo(1) famoso: pode-se dizer que o meio século (dos anos 50 até nossos dias) tem sido para a intelligentsia latino-americana em geral, e para a classe literária em particular, a época da consolidação da autonomia do campo intelectual (Bourdieu), isto é, do fortalecimento de suas próprias instâncias de seleção e consagração. Ou seja, a legitimação da literatura deixou de proceder predominantemente dos centros de hegemonia social ou de estratégias de obtenção de status, para depender mais e mais de critérios intrinsecamente estéticos e intelectuais.
Em síntese, quem consagra, premia, reconhece um escritor são os outros escritores, seus pares.
Conversando ao telefone com um escritor carioca amigo, ele comentou que nesta eleição para a ABL, Antonio Torres (vinte e oito livros publicados, traduzido em várias línguas, o diabo) tivera 13 votos contra 25 do Merval Pereira (comentarista político global, dois livros?) e que a “pressão política em favor deste fora tremenda”.
Sem que ele tivesse me dito, salvo as obviedades de plantão (João Ubaldo, Lygia e Nélida), com os 40 nomes dos “imortais” à minha frente, fui “inferindo” os prováveis votantes de Torres (claro, com alguma margem de erro): Ana Maria Machado, Carlos Heitor Cony, Carlos Nejar, Nelson Pereira dos Santos (ok, também no lugar errado, mas deixa pra lá), Lêdo Ivo, Hélio Jaguaribe, Alfredo Bosi, Sérgio Paulo Rouanet, Lygia Fagundes Telles, Sábato Magaldi, Nélida Pinõn, Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro. E incrível: deu 13!Usei um método bastante simples: contei os escritores em geral, os artistas em particular e os intelectuais (críticos) em si.
Podem ter ajudado as eleições pregressas de pitanguys e sarneys, mas a “imortalidade” desse merval marca o ponto além do qual não há retorno – the point of no return – quanto ao apodrecimento e corrosão dos critérios e instâncias de consagração que (ainda) possa implicar a ABL. E desta para as “demais instituições democráticas” e “sociedade civil”, é um suspiro.
Possivelmente derradeiro.
PS: Aos 25 votantes do merval: vocês não têm vergonha?
(1)“Situação do Escritor” in América Latina em sua Literatura. S.Paulo, Perspectiva, 1979
Postado por René Amaral
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